segunda-feira, 10 de outubro de 2011

O que me atrai no calvinismo...

Desta corrupção original pela qual ficamos totalmente indispostos, adversos a todo o bem e inteiramente inclinados a todo o mal, é que procedem todas as transgressões atuais. Esta corrupção da natureza persiste, durante esta vida, naqueles que são regenerados; e, embora seja ela perdoada e mortificada por Cristo, todavia tanto ela, como os seus impulsos, são real e propriamente pecado. [Confissão de Fé de Westminster, Capítulo IV]

Não sou calvinista. Não abraço os cinco pontos da TULIP. Muitos até acham que sou calvinista, mas a minha simpatia não é adesão. Inclusive, algumas posturas reformadas até me irritam profundamente. Agora, há princípios calvinistas ou verdades enfatizadas pelos reformados que abraço com entusiasmo. O novo-calvinismo é uma força presente e crescente em nosso meio e isso é também uma boa notícia. Vou destacar três pontos, mas neste artigo falo somente do primeiro. Vejamos:

1. Depravação humana

A "antropologia negativa" dos calvinistas é a prevenção contra o boçal otimismo humanista/iluminista dos "bons selvagens". Não há maior engano do que olhar o homem como sujeito inocente. A ênfase na depravação humana mostra como somos dependentes da bondade e graça divina, pois somos maus o suficiente para não desejarmos Deus. Falar em depravação humana é falar da nossa própria depravação. É quebrar o encanto vaidoso de que somos bons e o resto é todo mal. 

A sociedade contemporânea enfatiza demasiadamente a sua "bondade". É o marketing do bem casado com o politicamente correto. É a hipocrisia farisaica do secularismo. O diabo é sempre o outro. Em tempos de "consciência coletiva sustentável" todos pensam que são, de fato, as coisas mais puras do universo. Na sociedade contemporânea não existe pecado, ou seja, a noção de que faço o mal é "opressão do olhar controlador dos religiosos manipuladores". O pecado é mera invenção da igreja para controlar a vida dos bobinhos manipuláveis. Então, a sociedade criou a consciência que ela é toda boa, nasce boa e que o pecado (quando existe) é no fundo uma deficiência coletiva, mas nunca uma responsabilidade individual. 

Um garoto de chileno roubou o seu carro? De quem é a culpa? Para a nossa sociedade do "bom selvagem" o ladrão é uma vítima de um sistema e a vítima do roubo é o seu próprio algoz. No fundo, a culpa do ladrão surgir é da própria sociedade que o excluiu dos "bens de consumo". É assim que pensam os "antropologistas positivos"! O calvinismo mostra que essa blábláblá politicamente correto é balela. O garoto não é inocente. Ele é responsável individual pelas suas escolhas. Ele escolheu o crime e é totalmente consciente disso. Agora, imagine se todo garoto que se julga excluído dos "bens de consumo" resolvesse partir para o crime? Eu, por exemplo, estaria roubando aqueles que têm carro importado, pois eu nunca tive um! 

O calvinismo mostra a questão das escolhas individuais. Você é o responsável pelas suas escolhas. Não adianta colocar a culpa em Deus, na mãe, no pai, na sociedade, nos políticos, no papa, no capitalismo, na vizinha, na professora, no pregador pentecostal, no rabino etc. O governador do Rio de Janeiro disse certa vez que os bandidos eram filhos indesejados por mães faveladas que não tiveram a coragem de abortar, ou seja, a violência na cidade maravilhosa seria resolvida com o aborto. Isso não é eugenia? Não é um baita preconceito com os pobres, já que associa pobreza com criminalidade? Se ele fosse crente na "antropologia negativa" não diria tais besteiras. Veja que uma visão de mundo cristã ou não-cristã muda a nossa percepção até sobre o problema da violência urbana. 

O pelagianismo ensinava que a incapacidade de fazer o bem aliviaria a nossa responsabilidade diante dos nossos erros. Wayne Grudem escreve: 
Essa ideia de que somos responsáveis perante Deus somente por aquilo que podemos fazer contraria o testemunho bíblico. Quando que somos incapazes de fazer qualquer bem espiritual [...] também somos todos culpados diante de Deus. O próprio Satanás, que eternamente só é capaz de fazer o mal, estaria completamente livre de culpa (pela tese de Pelágio). A verdadeira medida da nossa responsabilidade e da nossa culpa não é nossa capacidade de obedecer a Deus, mas antes a perfeição absoluta da lei moral de Deus e a sua própria santidade [1].
Ser calvinista e ainda "acreditar em si como bom" é impossível. O calvinismo sempre está lembrando que você é, no fundo, um baita depravado. O calvinismo mostra que o seu marketing de "bom moço sustentável" tem um fundo de vaidade e jogo de esconde-esconde dos seus vícios. O calvinismo mostra que quando você fala em muita tolerância você está na verdade escondendo o seu real coração totalitário. Ora, "todos pecaram"!

É claro que o conceito de pecado original e o homem como pecador não é exclusivo dos calvinistas. É cristianismo puro. Mas os reformados são o grupo que melhor enfatizam essa verdade bíblica. O homem é confrontado nas Sagradas Escrituras com o seu vazio e a sua pequenez diante de um Deus soberano, como sempre os calvinistas gostam de destacar. O autoconhecimento do homem depende do seu conhecimento de Deus, como mesmo disse Calvino: "O verdadeiro conhecimento de nós mesmos é dependente do verdadeiro conhecimento de Deus" (Institutas 1. i 1). O homem depravado não pode nem se conhecer melhor sem a revelação divina. O filósofo reformado Herman Dooyeweerd, em busca de uma antropologia bíblica, remete ao pensamento de Calvino:
A questão: o que é o homem? Quem é ele?, não pode ser respondida pelo próprio homem. Mas tem sido respondida pela palavra-redenção que desvela a raiz religiosa e o centro da natureza humana em sua criação, queda no pecado e redenção por meio de Jesus Cristo. O homem perdeu o verdadeiro autoconhecimento desde que perdeu o verdadeiro conhecimento de Deus. Mas todos os ídolos do ego humano, os quais o homem projetou em sua apostasia, quebram-se quando confrontados com a palavra de Deus, que desmascara sua vaidade e vazio. [2]
Comentando a eleição hebraica, o filósofo judeu Luiz Felipe Pondé faz uma relação de autoconhecimento do homem e a sua relação com Deus. Pondé escreve:
Abraão é aquele em que o vetor da cegueira se rompe. A aliança proposta por Deus restaura o caminho e o sentido da relação correta com Deus. Diante Dele, Abraão ouve a promessa da restauração e consegue enunciar a verdade que o torna eleito para falar diretamente com Deus outra vez, rompendo o silêncio do homem: "eu que sou pó e cinzas venho aqui diante de Ti". Reconhecermo-nos pó é a chave para sair da cegueira. A eleição de Israel, plenamente realizada com seu neto Jacó, mais tarde denominado Israel ("aquele que vê Deus"), sustenta-se numa restauração da psicologia bíblica arruinada pelo casal ancestral. Entre o casal ancestral e o patriarca Abraão, a diferença psicológica indica a distância entre o pecado e a redenção. Sem um autorreconhecimento ontológico não há restauração da visão de Deus. A eleição bíblica é saber-nos insuficientes, é sentirmos o estremecimento do pó nos ossos que caminham pelo mundo. Em Jó, voltaremos a ver a face de um eleito. [3] (grifo meu)
O conceito não é do pecado presente somente no "mundo", mas também entre cristãos. Os cristãos não são anjos, mas pessoas que ainda convivem com uma natureza pecaminosa. Os "cristãos sem pecado" são os mesmos que abraçam o marketing do bem, a hipocrisia moderna ou o farisaísmo antigo. O pecado, infelizmente, é parte de toda a humanidade, inclusive daqueles que frequentam igrejas. G. K. Chesterton escreveu:
Foi o mundo anticlerical e agnóstico que profetizou o advento da paz universal; é esse mundo que se sentiu, ou que deveria ter-se sentido, envergonhado e confuso ante o advento da guerra universal. Quanto à visão geral de que a Igreja ficou desacreditada em virtude da Guerra- eles também poderiam dizer que a Arca ficou desacreditada em virtude do Dilúvio. Quando o mundo vai mal, comprova-se sobretudo que a Igreja está certa. A Igreja se justifica não porque seus filhos não pecam, mas porque pecam. [4]

Somente aqueles que desprezam a experiência humana negam a realidade gritante do pecado na vida do mundo que vivemos. O nosso egoísmo, o grito do trânsito, a briga do casal, o assassinato no tráfico, a negligência em um hospital, a indiferença pelo sofrimento alheio, a falta de educação na fila, a miséria que deveria ser combatida pelo dinheiro desviado na corrupção, o aborto, a ganância etc. Tudo isso lembra a depravação humana no nosso dia a dia. O pecado, como define Alister McGrath, é "um estado de alienação de Deus. É como falha na natureza humana, não uma falha criada por Deus, mas uma crise resultante da nossa falibilidade humana. Ela se apresenta em todos os níveis da nossa experiência: pessoal, social e estrutural"[5]. 

Então não há beleza no ser humano caído? Sim, há, é o conceito calvinista de "graça comum" que comentarei no próximo texto.

Referências Bibliográficas:

[1] GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática. 2 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 2010. p 411.

[2] DOOYEWEERD, Herman. No Crepúsculo do Pensamento. 1 ed. São Paulo: Editora Hagnos, 2010. p 265.

[3] PONDÉ, Luiz Felipe. Contra um Mundo Melhor. 1 ed. São Paulo: Editora Leya, 2010. p 200.

[4] CHESTERTON, Gilbert K. O Homem Eterno. 1 ed. São Paulo: Mundo Cristão, 2010. p 10.

[5] MCGRATH, Alister. Apologética Cristã no Século XXI. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2008. p 239.

10 comentários:

Pastor Geremias Couto disse...

É preciso dizer mais?

Compartilho da tese.

Abraços

Wanderson nascimento dos santos disse...

Olá gutierres,

Gostei muito do texto.Teve um momento no texto que você disse que os calvinismo responsabiliza os homens por suas escolhas,mas deixe-me fazer uma ressalva com relação a posição de alguns calvinistas.

Infelizmente calvinistas como Vincent Cheunge ,Gordon Clark e outros têm influenciado sutilmente o calvinismo no Brasil.Estes abandonaram o compatibilismo histórico do Calvinismo e desaguaram no Determinismo em que Deus é o autor do pecado,aquele que causa ativamente o desejo de pecar em cada ser humano.Antes de Cheung poucos calvinistas tinham coragem de colocar Deus como autor do pecado,mas hj o cenário já é diferente, alguns já estão até negando a graça comum.Gostaria que depois você fizesse um comentário desse "neo-hipercalvinismo".(desconsidere o neologismo rsrs)Tem se espalhado e não vejo quase ninguém criticar na net....
abrçs

Gutierres Siqueira disse...

Wanderson, a paz!

Boas observações. Certamente o hipercalvinismo será pautado aqui.

Cícero Leandro Júnior disse...

Paz do Senhor, caro Gutierres.

Com relação ao calvinismo, minha posição é semelhante, e isso sempre me trouxe um certo constragimento pelo fato de ter amigos calvinistas. Graças a Deus, hoje eles pararm de me olhar como aquele que fica "em cima do muro".

Muito proveitosa a explanação que o irmão tão brilhantemente nos trouxe. Só tenho de parabenizá-lo!

Que Deus o abençõe.

Pr.Adilson Benevides Sobral disse...

Thomas de Aquino ensinou que a Vontade Humana é a única parte de homem que ficou resguardada dessa depravação. A depravação calvinista tolhe as escolhas humanas, ele escolhe o que é mal por ser depravado, mas, Bem interpretou Aquino nosso amigo Armínio que entendeu e ensinou que ainda depravado esse homem pode sim DECIDIR! Eleitos sim, mas, livres...rsrs

Ricardo Rocha disse...

O texto está muito bem escrito e fundamentado, como é de costume nos textos que vc escreve. Quisera eu escrever tão bem desse jeito.

De fato, esse mito do bom selvagem é a coisa mais idiota que foi criada pelo nosso grandioso mundo moderno e só o cristianismo é realista o suficiente para ir contra essa ideia maluca de que somos bons naturalmente. Temos que refutar, de uma vez por toda, Rousseau e seus seguidores.

Todavia, não concordo com a tese de que essa "antropologia negativa" seja melhor defendida ou enfatizada no calvinismo. Muito pelo contrário, existem correntes calvinistas que negam a antropologia negativa e constroem uma "teologia negativa". E isso por um simples motivo: ao construir um determinismo radical onde ABSULUTAMENTE tudo é ordenado ativamente por Deus, não há base para QUALQUER tipo de decisão humana, mesmo as más decisões. É esse tipo de conceito distorcido que o calvinismo mais comum ensina, e isso é lamentável.

Doutrinas muito mais saudáveis devem ser procurados no arminianismo, entre os protestantes e, melhor ainda, no tomismo católico. Aliás,nós protestantes deveríamos estudar um pouco mais o Doutor Angélico, faria muito bem a nossa teologia.

Abraços e a paz do senhor para você!!!

Anônimo disse...

E na prática, cá entre os "mortais comuns" que não nadam neste rio teologuês,entre os que pensam que antropologia,calvinismo e calvinista é um "mistério?"
Cá como os meus botões,me vejo no centro(não em cima do muro),totalmente dependente da livre Graça de Deus,não fazendo desta,"graxa" e escorregando no pecado tipos daqueles que todos sabemos:tem nada a haver,solte a franga que Deus é brasileiro e apoia a lei de Gerson:levar vantagem em tudo.Também,sem enveredar no caminho do legalismo pesado ainda existente no "arraial evangélico",tentando sangrar a Deus com obras da carne(humana)para ajudar Jesus na obra de salvação e santificação.
Salvo algum engano,lendo sobre alguns pregadores como Spurgeon,Moody,Finey e outros,díz-se que onde chegavam para pregar,discerniam o ambiene e pregavam sem bajular.Onde viam os crentes escorregando na "graxa" do tipo "tô nen aí,mas pensando que estavam agradando a Deus,pregavam abertamente e lhes mostravam o erro em que estavam vivendo,trazendo-os para o centro do verdadeiro Evangelho.
E quando viam um ambiente extremamente legalista desses em que tudo é pecado,cuja evidência era o crente aterrorizado,amedrontado,estressado e com medo de perder a salvação.Daqueles que viam um Jesus-feitor;um Jesus carrancudo;um Jesus "capitão-do-mato",lhes pregavam a soberana e livre Graça de Deus poderosa para salvá-los e sustentá-los na caminhada terrena.
E penso que é o que está faltando nos dias de hoje entre os pregadores(não em todos,é óbvio):a pregação sim,sim,sem purpurina,mas deixando ela ser o que é:A Palavra de Deus!
Por favor,corrijam-me se estou errado,eu quero aprender com vcs pastores ou não que comentam neste blog.
Vosso em Cristo com amor cristão e em extrema humanidade:José Nascimento Rodrigues.
Gutierres,Graça e paz,irmão.Deus seja com você!

Clóvis Gonçalves disse...

Gutierres,

Fico feliz em ler o seu texto. Primeiro, que você sempre escreve de forma fundamentada, objetiva e ainda assim elegante. E também porque, como pentecostal e calvinista, concordo com o que escreveu.

Espero que após terminar a série "o que me atrai" faça ponderações sobre fragilidades que enxerga no calvinismo. Pode ter certeza que terei em grande conta suas críticas, pois sei que não serão vazias e servirão para reflexão nossa.

Em Cristo,

Clóvis
Editor do Cinco Solas

Líllian disse...

Olá, na minha religião há uma escondida idolatração pelo Calvino.
Não gosto nem do Calvino nem Lutero pq ambos eram tiranos e mandaram matar muitas pessoas, só está parte da história não contar dentro das igrejas.
Eu acho que nenhum homem que se fale cristão mande matar e gera violência.

Obrigada pela oportunidade.

Aprendiz disse...

Liliam

Não sou calvinista, tenho críticas a Calvino, mas não sei de onde você tirou essa afirmação de que ele teria mandado matar muitas pessoas. O tribunal de Genebra realmente condenou à morte Severt, por hersia, com a concordância e apoio de Calvino, o que é totalmente contrário ao ensino dO Cristo, que jamais ensinou que a igreja deveria perseguir quem pensasse diferente. Na verdade, a doutrina de Cristo não ensina que a Igreja deveria sequer ter autoridade civil.

Este é um erro não só de Calvino. Na maior parte da história, os cristãos entenderam erradamente que a autoridade religiosa cristã teria poder civil. Essa doutrina falsa foi resultado da corrupção da Igreja, e principalmente da oficialização do cristianismo por Constantino.

Agora, embora concorde que Calvino errou gravemente ao condenar Severt, é evidentemente mentira que ele teria mandado matar muitas pessoas.