domingo, 30 de outubro de 2011

O relativismo cultural já começa a ser contestado!

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Vivemos em um período com as nossas próprias crises. Infelizmente, já li na internet pastores protestantes defendendo o relativismo cultural. Hoje temos um grupo crescente na Igreja Evangélica daqueles que chamo de "evangelicalismo cult", ou seja, um grupo que faz de tudo para adequar seus padrões segundo os valores deste século. Se hoje a moda é ser relativista, então esse grupo, dito cristão, também o é.

O liberalismo teológico contemporâneo não é o mesmo do século XIX, mas a raiz é a semelhante. Hoje, o liberalismo teológico tem uma roupagem mais pós-moderna, descolada, relativista e vive "quebrando paradigmas". Aliás, não há um trabalho em ciências humanas que não use a expressão "paradigma". É meio chique usar e transmitir a ideia de que você está inventando a roda. Não é à toa que pastores protestantes propuseram "outro deus", "outro credo" (cruz credo!), "outra espiritualidade" etc. e tal. O teólogo anglicano J. I. Packer resume bem a história do liberalismo contemporâneo:
Durante quase dois séculos, as formas de camaleão intelectual chamadas liberalismo, ou modernidade, dominaram as principais igrejas no Ocidente. A raiz mestra do liberalismo modernista é a ideia, advinda do chamado Iluminismo, de que o mundo tem a sabedoria, e os cristãos devem sempre assimilar e ajustar-se ao que o mundo estiver ditando sobre a vida humana [...] Não é de se admirar, portanto, que o liberalismo não produza mártires nem desafiadores do status quo secular, mas oportunistas, pessoas que estão sempre encontrando razões para seguir o consenso cultural do momento, quer seja aborto, permissividade sexual, identidade básica de todas as religiões, impropriedade do evangelismo e da obra missionária, quer qualquer outra coisa. [1]
Mas o que é relativismo cultural? O Dicionário Houaiss resume: "doutrina segundo a qual os valores morais não apresentam validade universal e absoluta, diversificando-se ao sabor de circunstâncias históricas, políticas e culturais". O relativismo fala, por exemplo, que um índio pode matar seu filho deficiente porque naquela sociedade isso é praticado há séculos e nós não devemos interferir na cultura alheia. Você acha que exagerei na descrição? Ouça alguns antropólogos da FUNAI e você verá esse discurso abertamente.

O governo chinês, aliás, a ditadura chinesa insiste que os direitos de liberdade de expressão são "valores ocidentais" e, então, não cabe ao povo oriental. É uma desculpa "vagabunda" para justificar a repreensão aos direitos humanos naquele país. Mas a ditadura conta com um apoio forte: a intelectualidade ocidental. A maioria dos intelectuais em ciências humanas no Ocidente é relativista, incluindo alguns teólogos "progressistas". O mesmo argumento é usado para justificar as chibatas em "mulheres devassas" nos países islâmicos, o casamento forçado na Índia e o infanticídio indígena.

O relativismo contestado!

No início do ano assisti a uma palestra da ativista iraniana Mina Ahadi [2]. A palestrante Ahadi, que hoje vive na Alemanha e teve o marido morto pelo regime teocrático do Irã, condenou fortemente o relativismo cultural no Ocidente que justifica o apedrejamento de mulheres nos países mulçumanos. Ela não é uma pensadora conservadora do Tea Party, mas sim uma marxista de carteirinha. Quando Ahadi falava do relativismo na palestra sentia até que ela ficava exaltada e bem nervosa. Não é à toa, pois Ahadi sentiu na própria pele o perigo de um regime totalitário. Como não acreditar que os direitos humanos são valores absolutos e universais?

Nessa última sexta-feira, também para minha surpresa, li a entrevista de dois políticos de esquerda que contestam o relativismo cultural. Surpresa pois o multiculturalismo é um dogma na esquerda política. O jornal Valor Econômico entrevistou o ex-presidente americano Jimmy Carter e a ex-premiê norueguesa Gro Brundtland, que estavam no Brasil para uma reunião da ONG The Elders. Nenhum dos dois podem ser classificados como conversadores. Carter talvez tenha sido o presidente mais à esquerda que os Estados Unidos tiveram. Destaco dois trechos da entrevista:

Valor Econômico: Vocês tão promovendo uma companha contra o casamento forçado de adolescentes. De novo, pode-se argumentar que em alguns países essa é uma prática tradicional. Até aonde vão os limites do relativismo cultural, isto é, da aceitação de práticas tradicionais? Jimmy Carter: De novo, o padrão são os direitos humanos das pessoas sobre as suas próprias atividades. E isso inclui com quem você se casa. Se uma cultura religiosa de alguma região da África ou da Ásia aceita o casamento de crianças de 8, de 12 anos, não significa que isso é correto. Acho que a atitude fundamental daqueles que promovem os direitos humanos é condenar essas coisas, condenar a circuncisão forçada de mulheres, a venda de mulheres como escravas, o pagamento de salário menor para mulheres em relação pelo mesmo trabalho. Quando você retira a liberdade de uma pessoa, que nesse caso é mulher, isso caracteriza violação dos direitos humanos.

Valor Econômico: Países como a China costumam dizer que os chamados valores universais são na verdade valores ocidentais que o Ocidente quer impor ao mundo. É isso mesmo? Gro Brundtland: Os valores universais são valores globais [...] Princípios como o direito à democracia, ao voto, à liberdade de expressão são direitos humanos básicos, não são apenas ocidentais [...]. [3]
Então, é uma boa notícia que as poucos o mundo já começa a ver as incoerências do relativismo cultural. Vejamos os desdobramentos disso. E é uma pena que alguns pastores protestantes defendam tal vergonha. Quando falamos que acreditamos em verdades relativas podemos ser tão desumanos quanto inquisidores absolutistas.  O relativismo é uma forma de intolerância perversa. Não acreditar em verdades e valores absolutos não é garantia de respeito pelo outro. Não sejamos ingênuos!

Referências Bibliográficas:

[1] PACKER, James I. Neemias: Paixão pela Fidelidade. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2010. p 48, 49.

[2] Leia a entrevista que Mina Ahad deu para a revista VEJA neste link.

[3] SACCOMANDI, Humberto. Elders usam renome em defesa inegociável dos direitos humanos. Entrevista: Grupo de ex-líderes e personalidades globais se reuniu esta semana no Rio. 28 de outubro de 2011 São Paulo: Valor Econômico. p A 10.

6 comentários:

Pastor Geremias Couto disse...

O grande mal do relativismo é que ele deixa as pessoas sem chão. Cada um faz o que bem lhe parece, isto é, aquilo que a própria cultura valora como parte da sua tradição. Mas há valores universais, como ressalgou Gro Brundtland. A desconstrução de paradigmas virou coqueluche, mas a pós-modernidade não tem sido capaz (e não o será) de dá norte a essa massa de gente perdida em meio ao caos onde tudo é certo e tudo é errado.

Abraços,

DEFENDENDO A FÉ QUE UMA VEZ FOI DADA AOS SANTOS!!! disse...

Amado Gutierres ,a paz do Senhor.

Apesar de termos nossas divergências quanto aos usos e costumes e certos aspectoas da liturgia pentecostal,em uma coisa concordamos 100%:o conjunto Voz da Verdade é uma seita que ataca a Doutrina da Santíssima Trindade e por isso deve ser atacada pelos cristãos ordotoxos.

Eles vão estar aqui na minha cidade dia dezenove deste mes e pretendo imprimir panfletos para alertar os inúmeros crenntes que vão ir ao "showzão"que eles vão fazer aqui!!!

Pesquisando na internet textos de apologia contra eles encontrei o seu.
E pesquisando na própria página deles encontrei isso acerca de você:
"Falaram-me, também, de um tal blog teológico de um rapaz de 19 anos de idade em que cita o conjunto como seita, denegrindo sua imagem...Em seu blog, ele cita um estatuto que não é o nosso,não é assinado por nosso presidente, colocando-nos contra os irmãos trinitarianos, falando absurdos sobre a sua doutrina. É preciso pesquisar antes de espalhar bobagens.
É muita petulância, o conjunto tem mais de 30 anos, firme aos pés do Senhor e um adolescente, que não sabe discernir a mão esquerda da direita, se acha o dono da verdade e fala um monte de asneiras, porque leu em algumas revistinhas."

Eu gostaria que você de forma apologética,fizesse um duro texto contra eles para que eu os venha refutar no texto que eu irei imprimir!E gostaria de citar o seu nobre blog como fonte .

Fico a espera.

Grato.

Aprendiz disse...

Se uma comunista está criticando o relativismo cultural, isso só pode significar uma entre três coisas:

1. O marxismo quer monopolizar, por meio daqueles que ele controla direta ou indireamente, as duas posições antagônicas. Não é novidade, eles sabem fazer isso, e sempre ganham com esse tipo de jogo.

2. O marxismo quer mudar sua estratégia global, de incentivo total ao relativismo para o seu oposto. E jogará a conta das desgraças do relativismo nas costas dos seus adversários.

3. Ela é bobinha e perdeu o compasso da "música". Será enquadrada, ao mesmo tempo que sua divergência será apontada como uma "prova" da liberdade de pensamento entre os comunistas.

Aprendiz disse...

Gutierres

Você disse:

"Então, é uma boa notícia que as poucos o mundo já começa a ver as incoerências do relativismo cultural."

Não acho que o mundo estava cego para as incoerências do relativismo cultural. Talvez alguns tolos sim, mas a razão da prevalência do relativismo é a sua força como arma cultural. As pessoas sabem que é uma fraude, mas é uma fraude que lhes convem na guerra cultural. Inclusive as mesmas pessoas podem mudar de registro e fazer o discurso do relativismo e também um discurso que pressupõe a existência de valores absolutos. Vi isso aos montes, e é efetivo. As esquerdas nunca buscaram a verdade, apenas o poder absoluto.

Leonardo M Alves disse...

Interessante ensaio, mas por acaso você não quer dizer "relativismo moral"?

Relativismo cultural é outra coisa.

Atenciosamente,

Leonardo

Leonardo M Alves disse...

Interessante ensaio, mas por acaso você não quer dizer "relativismo moral"?

Relativismo cultural é outra coisa.

Atenciosamente,

Leonardo