quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

O mundo fantasioso dos cristãos conservadores [parte 2]

Homossexualismo é um pecado. Isso é fato! Mas deve ser o único pecado condenado nos outdoor? E  o pecado da avareza?  Condenar um pecado e não oferecer o remédio (Cristo) é pregação do Evangelho ou moralismo vazio?






Mesmo que minha consciência me acuse de ter pecado gravemente contra todos os mandamentos de Deus, e de não ter guardado nenhum deles, e de ser ainda inclinado a todo mal, todavia Deus me dá, sem nenhum mérito meu, por pura graça, a perfeita satisfação, a justiça e a santidade de Cristo. Deus me trata como se eu nunca tivesse cometido pecado algum ou jamais tivesse sido pecador; e, como se pessoalmente eu tivesse cumprido toda a obediência que Cristo cumpriu por mim. Este benefício é meu somente se eu o aceitar por fé, de todo o coração [Catecismo de Heidelberg, em 1563]

OBS: Parte entender o artigo na sua completude, por favor, não deixe de ler a primeira parte deste texto aqui.

O moralismo

O moralismo precisa ser observado com muito cuidado, logo porque a moral é uma necessidade para qualquer um que se julgue cristão. Não existe verdadeiro cristão que seja imoral ou amoral. A moral é necessária e isso é inegável, mas o moralismo é pernicioso quando abraçado como a causa e o caminho da salvação, mesmo que tal decisão seja inconsciente.

O moralismo não é um simples problema, mas sim um pensamento que pode inviabilizar a própria obra de Cristo. O moralismo leva o homem a acreditar em si mesmo como suficiente para tarefa da auto-salvação. Por mais que queiramos negar, há inúmeros cristãos conservadores apoiados na moral para a própria redenção. O moralismo salvífico é o oposto ao cristianismo protestante, mas ainda assim uma parcela considerável do evangelicalismo popular está presa no mundo falacioso do moralismo vazio.

O caminho, é claro, não é pregar contra a moral. Nada disso, pois pecado é pecado. O correto é pregar moral como sinal de um cristianismo vivo e já consolidado, mas não como o caminho para a salvação. A salvação é única e exclusivamente pela graça divina. Ninguém pode servir a Deus querendo agradar-lhe como maçãs e presentinhos. Deus não é comprado por ninguém. O moralista salvífico acha que pode comprar Deus porque fez isso e deixou de fazer aquilo. Que terrível engano!

A salvação é a única conquista na vida que não é meritória. Aliás, melhor dizendo: a salvação é sim meritória, mas os méritos são de Cristo. A pregação da graça não é concessão para o pecado, mas sim a lembrança que por mais puro que você seja, ainda assim a sua imundície grita contra a sua salvação. A salvação precisa de uma base. A base da salvação moralista são as suas próprias atitudes. A base da salvação pregada no Evangelho são as atitudes de Cristo!

Quando penso sobre moralismo vazio lembro-me da frase de John Owen, conceituado teólogo puritano do século XVII, que escreveu: “Aquele que troca a soberba pelo mundanismo, a sensualidade pelo farisaísmo, a vaidade pelo desprezo do próximo, não pense que mortificou e abandonou o pecado. Mudou de dono, mas continua escravo” [1]. O moralismo é vizinho do farisaísmo, pois sob o manto da correção afasta muitos corações de Deus.

O teólogo reformado Michael Horton nos alerta sobre o perigo de enfatizar um Jesus altamente moralista, ou seja, um Jesus-exemplo de perfeição e esquecer-se de enfatizar a sua missão exclusiva: A salvação de homens pecadores e a sua missão como vicário, ou seja, nosso substituto! Se alguém abraça Jesus como “exemplo” antes de abraçá-lo como “Salvador” está perdido no moralismo e na auto-salvação. Jesus veio criar um homem melhorado pela penitência moral ou uma nova criatura? Horton escreve:
Cristo é uma forte de capacitação, mas é amplamente reconhecido entre nós, hoje, como fonte de redenção para o impotente? Ele ajudará o moralmente sensível a se tornar melhor, mas salva o ímpio- incluindo os cristãos? Ele sara as vidas destruídas, mas levanta aqueles que estão “mortos nos vossos delitos e pecados” (Ef. 2.1)? Terá Cristo vindo meramente para melhorar nossa existência em Adão ou para terminá-la, arrebatando-nos para a sua nova criação? Será o cristianismo somente sobre transformações espiritual e moral, ou sobre a morte e a ressurreição- juízo e graça radical? [2]

E Horton completa: “A pregação apropriada da lei vai nos levar ao desespero de nós mesmos, mas apenas para que possamos, finalmente, olhar para fora de nós, para Cristo” [3].

O moralismo não é Evangelho. Sim, o Evangelho demanda atitudes morais, mas o moralismo não é o caminho para a salvação. O único caminho é Cristo. Na prática, infelizmente, muitas igrejas conservadoras estão pregando a bondade humana (principalmente a correção da sexualidade) como o substituto de Cristo. É um perigo. A santificação vem depois da salvação e não o contrário. E assim como a salvação, como lembra-nos o Catecismo de Heidelberg na abertura do texto, a santificação também é graça divina.

Continua...


Referências Bibliográficas:

[1] OWEN, John. A Mortificação do Pecado. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2005. p 73.

[2] HORTON, Michael. Cristianismo Sem Cristo. 1 ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2010. p 20.

[3] HORTON, Michael. Idem. p 109.

10 comentários:

silvioafonso disse...

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Na transparência do que mal lhe cobre
o corpo eu vejo o romper de um novo a-
no. Que seja ele de paz, de alegria e
progresso em sua vida.

silvioafonso






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Nilton Rodolfo disse...

Que texto pertinente para estes dias em que o moralismo tem sido pregado no lugar do Evangelho.

Um grande abraço.

João Emiliano Neto disse...

Como diria Nietzsche, porém, na cabeça dele cheia de cristofobia, o amor: a graça divina, diria eu, é algo além de bem e mal. A graça é algo além da moral.

E viva o Cristianismo!

Obrigado pelo post, caro irmão. Feliz e abençoado 2012 somente na graça divina.


Sola gratia!

Daladier Lima disse...

Concordo com você. Aqui em Recife há um deputado federal assembleiano que colocou nas ruas uma campanha contra a propaganda de bebidas alcoólicas. É necessário dadas as inúmeras mortes em decorrência do seu uso, mas qual a solução? Não basta impor um comportamento. Pra completar ele é do PSB, como pode socialista e cristão? Incoerência total. Não ouvimos sua voz contra a corrupção do Governo Dilma, por exemplo, talvez por pertencer ao Governo. São incoerências gritantes.

Anônimo disse...

"Em favor da familia e preservação da espécie humana".
Deus fêz macho e fêmea.Taí, nada mais simples e de acordo com a mensagem cristã da propagação da espécie humana.Com todo respeito aos contrários,para mim não é apenas um discurso moralista vasio.
O relacionamento entre homem e mulher tem como resultado a procriação respeitando a forma anatômica dos respectivos órgãos.O sêmen segue a sua trajetória em busca da fecundação - perpetuando a espécie.Quanto a ejaculação entre o mesmo sexo(masculino)o sêmen segue entre dejetos ao seu destino final...
Embora o moralismo não seja o caminho para a salvação,todavia,o seu discurso serve de alerta para os que se recolhem ou se recolherem a seus "guetos" e igrejas e torcem para que outros(quem sabe anjos ou algum ET)o faça em seu lugar.

Vosso em Cristo: José Nascimento Rodrigues
Paz e um Felíz Ano Novo NELE que veio em uma família, para todas as famílias:JESUS CRISTO que sempre é novo!!!

Aprendiz disse...

Gutierres:


1. Freqüento a igreja desde criança, e nunca ví, nas igrejas tradicionais, o moralismo pregado como substituto dpara a fé salvadora. Não sei como é nas igrejas pentecostais, e talvez você esteja projetando a sua experiência na igreja toda...

2. A imagem do cartaz que você comentou está fora de contexto. Primeiramente, é falso que o homossexualismo seja um pecado exageradamente citado pelos pastores. Em algumas décadas de igreja, jamais ouvi um sermão cujo tema fosse homossexualismo. No máximo ouvi comentáios em passant em estudos quando o tema do texto levava a isso, mas talvez eu possa contar nos dedos de uma mão. Talvez um dos poucos pecados menos citados que o homossexualismo seja a glutonaria. Em segundo lugar, esse cartaz representa não uma luta para impor uma moralidade à sociedade, mas uma luta para impedir que a liberdade de expressão e a liberdade de religião sejam anuladas.

Gutierres Siqueira disse...

prendiz,

Permita discordar. Se você ou qualquer um de nós fizermos uma pesquisa veremos que a maioria dos evangélicos encaram a salvação segundo o pensamento católico: é necessário esforço moral para conquistar a salvação.

A doutrina da Graça é popular nos meios teológicos, mas entre o povão é uma desconhecida. Isso, em parte, é culpa da pobreza dos púlpitos.

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De fato não existem muitos sermões contra o homossexualismo. Mas a temática "sexual" é constante nos nossos púlpitos. Os pecados sexuais são demasiadamente enfatizados em detrimento de outros, enquanto que muitos passam a acreditar que uma vida casta é o caminho para o céu. É o moralismo substituindo o Evangelho.

Abraços

Gutierres Siqueira disse...

Só completando, para que ninguém interprete mal minhas palavras.

A vida casta não é caminho para a salvação, mas sim a evidência de uma vida salva.

Aprendiz disse...

Prezado Gutierres

Quanto à questão de substituir doutrina da salvação pela fé, pelo moralismo, a não ser que eu esteja muito enganado, isso não está acontecendo nas igreja históricas brasileira. Em muitas delas a doutrina na salvação tem sido substituida pela politicagem, pela busca de aceitação social e pelas ideologias humanas, mas não conheço nenhuma onde esteja sendo substituida pelo moralismo.


Não Conheço de perto as igrejas pentecostais principais, mas sérá que isso não seria um problema específico dessas igrejas?

Anônimo disse...

O texto confirma o que creio.