sábado, 30 de abril de 2011

Lição 05 - A Importância dos Dons Espirituais

Subsídio produzido pela Equipe de Educação da CPAD

Texto Bíblico: 1 Coríntios 12.1-11
Introdução
I. Os Dons Espirituais
II. Os Dons do Espírito Santos e a Espiritualidade
III. Os propósitos dos Dons Espirituais
Conclusão

A IGREJA MEDIANTE A EXPRESSÃO DOS DONS

Por David Lim

Os pensamentos mais profundos de Paulo estão registrados nas suas epístolas às igrejas em Roma, Corinto e Éfeso. Estas igrejas eram instrumentos da estratégia missionária de Paulo. Romanos 12, 1 Coríntios 12 e 13 e Efésios 4 foram escritas a partir do mesmo esboço básico. Embora fossem igrejas diferentes, são enfatizados os mesmos princípios. Cada texto serve para lançar luz sobre os demais. Paulo fala do nosso papel no exercício dos dons, do exemplo da unidade e diversidade que a Trindade oferece, da unidade e diversidade no corpo de Cristo, do relacionamento ético – tudo à luz do último juízo de Cristo.

O contexto dessas passagens paralelas é a adoração. Depois de uma exposição das grandes doutrinas da fé (Rm 1 – 11), Paulo ensina que o modo apropriado de corresponder a elas é mediante uma vida de adoração (Rm 12 – 16). Os capítulos 11 a 14 de 1 Coríntios também se referem à adoração.

Os capítulos 1 a 3 de Efésios apresentam uma adoração em êxtase. Efésios 4 revela a Igreja como uma escola de adoração, onde aprendemos a refletir o Mestre supremo. Paulo considera os seus convertidos apresentados em adoração viva diante de Deus (Rm 12.1,2; 2 Co 4.14; Ef 5.27; Cl 1.22,28). Conhecer a doutrina ou corrigir as mentiras não basta. A totalidade da nossa vida deve louvar a Deus. A adoração está no âmago do crescimento e reavivamento da igreja.
Natureza Encarnacional dos Dons

Os crentes desempenham um papel vital no ministério dos dons. Romanos 12.1-3 nos diz para apresentarmos nosso corpo e mente como adoração espiritual e que testemos e aprovemos o que for a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.
Semelhantemente, 1 Coríntios 12.1-3 nos adverte a não perdermos o controle do corpo e a não sermos enganados pela falsa doutrina, mas deixar Jesus ser senhor (grifo nosso). E Efésios 4.1-3 nos recomenda um viver digno da vocação divina, tomar a atitude correta e manter a unidade do Espírito.

Nosso corpo é o templo do Espírito Santo e, portanto, deve estar envolvido na adoração. Muitas religiões pagãs ensinam um dualismo entre o corpo e o espírito. Para elas, o corpo é mau, uma prisão, ao passo que o espírito é bom e precisa ser liberto. Essa opinião era comum no pensamento grego.

Paulo conclama os coríntios a não se deixarem influenciar pelo passado pagão. Antes, perdiam o controle; como consequencia, podiam dizer qualquer coisa e alegar que ela provinha do Espírito de Deus. O contexto bíblico dos dons não indica nenhuma perda de controle. Pelo contrário, à medida que o Espírito opera através de nós, temos mais controle do que nunca. Entregamos nosso corpo e mente a Deus como instrumentos a seu serviço. Oferecemos-lhe a mente transformada e a colocamos debaixo do senhorio de Cristo, num espírito meigo e disciplinado, para deixar Deus operar através de nós (grifo nosso). Efésios 4.1-3 diz-nos que as atitudes certas levam o ministério eficaz. Por isso, o corpo, a mente e as atitudes ficam sendo instrumentos para a glória de Deus.

[...] Os dons são encarnacionais. Isto é, Deus opera através dos seres humanos. Os crentes submetem a Deus sua mente, coração, alma e forças. Consciente e deliberadamente, entregam tudo a Ele. O Espírito, então, os capacita de modo sobrenatural a ministrar acima das suas capacidades humanas e, ao mesmo tempo, a expressar cada dom através de sua experiência de vida, caráter, personalidade e vocabulário. Os dons manifestos precisam ser avaliados. Isto não diminui em nada a sua eficácia, pelo contrário, dá à congregação a oportunidade de testar, pela Bíblia, sua veracidade e valor para edificação.

O princípio encarnacional é visto na revelação de Deus à raça humana. Jesus é Emanuel, Deus conosco (plenamente Deus e plenamente humano). A Bíblia é ao mesmo tempo um livro divino e um livro humano. É divina, inspirada por Deus, autorizadora e inerrante. É humana, pois reflete os antecedentes, situações vivenciais, personalidades e ministérios dos escritores. A Igreja é uma instituição tanto divina quanto humana. Deus estabeleceu a Igreja, pois de outra forma ela nem existiria. Apesar disso, sabemos que a Igreja é bastante humana. Deus opera através de vaso de barro (2 Co 4.7). O mistério que permaneceu oculto através das gerações e agora foi revelado aos gentios é “Cristo em vós, esperança da glória” (Cl 1.27).

Não precisamos ter medo. O que Deus ministra através de sua vida, ministério e personalidade talvez seja diferente do que Ele ministra através dos outros. Não devemos pensar que estamos garantindo a perfeição quando temos um dom espiritual. Isto pode ser avaliado por outras pessoas, com amor cristão (grifo nosso). Basta sermos vasos submissos, buscando edificar o corpo de Cristo. Ao invés de focalizarmos a nossa atenção na dúvida – se um dom é totalmente de Deus – façamos a pergunta mais vital: Como posso melhor atender as necessidades do próximo e alcançar os pecadores para Cristo? Somente a compreensão desse princípio deixará a Igreja livre para manifestar os dons.

Texto extraído da obra: “Teologia Sistemática: Uma Perspectiva Pentecostal”, editada pela CPAD.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Entrevista com o Irmão André - Fundador da Missão Portas Abertas



Interessante entrevista com o Irmão André, conhecido missionário pelo livro "O Contrabandista de Deus". Ele é fundador da Missão Portas Abertas, que auxilia cristãos perseguidos em todo o mundo.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Nos 90 anos de John Stott nos despedimos de David Wilkerson

Hoje, quarta-feira, será uma data lembrada por causa de dois grandes homens da fé cristã no século XX. Neste dia 27, o reverendo John Stott fez 90 anos e o reverendo David Wilkerson, 79 anos, morreu em um acidente de carro no Texas. A esposa de Wilkerson ainda está hospitalizada. Uma notícia alegre e outra notícia triste vinda de dois grandes pastores que influenciaram a vida de milhões de cristãos por todo o mundo. A notícia da morte do reverendo Wilkerson foi um dos assuntos mais comentados no Twitter em todo o mundo.


Lembro a primeira vez que li um livro do Stott. O livro Cristianismo Equilibrado (CPAD) mostrou para mim o caminho da moderação. Foi um marco no início da minha fé, já que eu tinha tendências legalistas. Stott ajudou a formar uma visão equilibrada da fé cristã. Os comentários da ABU são gostosos de ler e certamente uma rica fonte devocional e de erudição. Stott contribuiu muito com a formação do evangelicalismo. É o Billy Graham das letras. Leia mais sobre a bibliografia do "capelão da Rainha": http://pt.wikipedia.org/wiki/John_Stott


O primeiro livro do David Wilkerson que li foi Faminto por Mais de Jesus (CPAD). É um daqueles livros que falam profundo, não simplesmente no intelecto, mas na alma. Esse livro de Wilkerson foi um desafio para o viver santo e moderado.


Wilkerson foi um pastor pentecostal que não nos deu vergonha, mas foi sim uma voz profética. Em 2003, na última vez que ele esteve no Brasil pelo convite da Assembleia de Deus Madureira, Wilkerson condenou fortemente a Teologia da Prosperidade e disse que construiria sua igreja numa favela carioca. Com sua pregação ele levou para Cristo muitos traficantes de Nova York. Na época, a cidade americana era uma das mais violentas do mundo. Entre esses traficantes estava Nick Cruz, um porto-riquenho que era um temido traficante e hoje tem um grande ministério evangelístico. A história ficou mundialmente conhecida em um clássico livro evangélico escrito por Wilkerson, conhecido como A Cruz e o Punhal (Editora Betânia). Ele também fundou o "Desafio Jovem", que ajudou muitos jovens que estavam no mundo das drogas.


O pastor George Wood, presidente do Concílio Geral das Assembleias de Deus nos EUA, declarou: "Com profundo pesar, quero compartilhar com vocês que David Wilkerson morreu como resultado de um acidente de carro hoje. Um gigante da fé está com Jesus". Wilkerson era pastor da Times Square Church, no coração de Nova York. Um amigo que teve a oportunidade de visitar essa igreja disse que ficou feliz em ver executivos sentandos ao lado de pessoas bem pobres para ouvir a pregação na Timas Square Church.


Leia mais sobre a morte Wilkerson: http://www.cbn.com/cbnnews/us/2011/April/Rev-David-Wilkerson-Killed-in-TX-Car-Crash/

terça-feira, 26 de abril de 2011

Boas leituras...

Eu sempre recomendo livros de cunho teológico neste blog. Mas neste post farei diferente. Recomendo hoje dois livros, um de história e outro de filosofia. Os autores não são cristãos e nem preciso dizer que não concordo com TUDO que eles escrevem, logo porque não concordo 100% com ninguém. No dia em que eu encontrar uma pessoa que possa abraçar plenamente suas ideais farei dela um deus. Mas se recomendo, é porque gostei e compartilho de muitas análises escritas pelo historiador e pelo filósofo que citarei abaixo. Não farei uma resenha crítica dos livros, mas creio na capacidade de discernimento de cada um.


De certa forma, todas essas ressalvas mostram como nós precisamos amadurecer em nossas leituras. Há crentes que jamais lerão um livro clássico de filosofia com medo de "se desviar". Ora, quem se desvia lendo um simples clássico tem uma fé bem faquinha. Quando eu era um recém-convertido e pré-adolescente lembro como os irmãos falavam da universidade como um grande desafio para fé. Seria uma espécie de muralha que poucos escapam. Entrei na universidade e não vi nada demais. Os desafios intelectuais foram razoáveis e as filosofias anticristãs e tentadoras foram nulas. Posso dizer que até as tentações da carne foram piores no Ensino Médio [risos], já que o clima universitário tinha pessoas mais velhas e mais respeitosas do que os adolescentes, como eu era, do Ensino Médio.


Sai da universidade pensando: Por que os cristãos desenharam a instituição universitária como uma fábrica de "desviados"? E olha que eu estudei Ciências Humanas. Imagine um curso mais técnico, como Administração, por exemplo?! Aí que seria mais fácil ainda! As ideias da universidade (boas ou ruins) estão presente nas conversas de rua ou em um programa de TV.


Mas as recomendações são:


Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil (Editora Leya)


O autor, Leandro Narloch, mostra como a história do Brasil foi escrita sempre com um viés maniqueísta (do bem contra o mal) e acabou escondendo a complexidade das histórias desta nação. Se dizem que a história é escrita pelos vencedores, Narloch mostra que no Brasil ela foi "escrita" pelas "vítimas" que sempre exageraram no seu suposto sofrimento. Narloch mostra como a ideologia gosta de romantizar os fatos passados. Se você já deixou de acreditar no Papai Noel está na hora de parar de acreditar nos heróis vendidos por aí. Por exemplo, Zumbi dos Palmares tinha escravos. Está escandalizado? Leia e veja que ele não era um Martin Luther King dos quilombos.





Contra o Mundo Melhor : Ensaios do Afeto


O mundo está cheio daqueles que descobriram o caminho da felicidade e querem impor essa caminhada para todos. É o "fascismo do bem". A religião do politicamente correto faz um fundamentalismo intolerante e autoritário em nome do "bem comum". O filósofo Luiz Felipe Pondé ridiculariza os "evangelistas ecochatos" e a classe média zen viciada em regimes. O melhor capítulo, na minha opinião, é sobre os "jantares inteligentes", onde você pode falar que fez sexo com cinco pessoas diferentes no último mês, mas jamais pode falar que é cristão. Ao menos que você seja uma espécie cristão-budista.


Pondé também escreve, e muito bem, sobre a fraqueza do homem. É o que ele chama da "dimensão trágica" da existência. E no último capítulo, bem especial, ele fala da graça. Um texto lindo sobre um conceito cristão escrito por um judeu.


Nesses textos ele mostra toda a influência dos autores trágicos, como Dostoievski e Nelson Rodrigues, assim como os teólogos/filósofos da antropologia negativa (o homem é mal), como Agostinho, Pascal e Lutero. Mas novamente lembrando que o livro é de filosofia do cotidiano, e não um manual de teologia.


É isso.

domingo, 24 de abril de 2011

Edificação- a palavra essencial do culto!

Por que Paulo fala de amor (I Co 13) entre dois capítulos sobre dons espirituais (I Co 12 e 14)? Ora, o dons espirituais sem amor é uma grande tragédia. Os três capítulos falam de um só assunto: a edificação do Corpo de Cristo. O teólogo Donald Gee lembrava:


Cometeríamos pouquíssimos erros com relação aos dons espirituais se fôssemos sempre controlados, acima de tudo, por uma paixão pelas almas- pelos "outros". Não é a obra do Espírito Santo nas reuniões evangelísticas que precisamos temer. Ele nunca irá direcionar uma alma para fora do Evangelho, quer durante o prólogo, a pregação ou o apelo. É a obra do nosso próprio espírito que precisa de tal vigilância. E essa vigilância deve ser redobrada em cultos evangélicos, lembrando-se de que a salvação das almas é que está em jogo. Um erro nesse momento pode ser fatal. É melhor errar na repressão pessoal, ainda que erremos totalmente. O Espírito provavelmente não ficará muito entristecido se o nosso motivo foi o cuidado para não impedir a redenção daquela alma por Cristo. Cada parte de um culto evangelístico é a melhor vivida por aqueles que tiveram experiência e que têm provado conhecer a mente do Espírito. [GEE, 2006, p 110]


Portanto, é triste todas as igrejas pentecostais que desprezam as normas de uso dos dons copiladas em I Co 14. Muitas igrejas rasgaram esse texto em suas mentes. Todo não-crente fica escandalizado com cenas bizarras de alguns cultos e, pior, atribuídas ao próprio Espírito Santo. "Assim, se toda a igreja se reunir e todos falarem em línguas, e entrarem alguns não instruídos ou descrentes não dirão que vocês estão loucos?", perguntou Paulo (I Co 14. 23). Infelizmente, igrejas imaturas que não pensam na edificação dos ouvintes sempre acaba na carnalidade do exibicionismo. Onde está a edificação motivada pelo amor? A vaidade motivada pelo orgulho só deseja exibição e esquece da edificação.

sábado, 23 de abril de 2011

Caro Ricardo!

O pastor que mais influenciou a minha formação foi certamente o cearense Ricardo Gondim. Vários livros, pregações na sede da Igreja Betesta e mensagens na Rádio Musical FM eram parte frequente do meu alimento espiritual que não encontrava (e nem encontro!) na igreja que congrego. Ensinos preciosos contra a mercantilização da fé, a espiritualidade infantilizante e manipulação do sagrado como mágica; despertaram a minha visão crítica contra o "evangelicalismo popular" e idólatra das nossas igrejas. Aprendi e não desprezo todo esse aprendizado. A edificação foi marcante.


Mas o tempo foi passando. Minhas leituras foram ampliadas. Não sou leitor de um escritor só. Nesse tempo percebi um Ricardo Gondim cada vez mais filho da Revolução Francesa. Mas quem sou eu para criticar o Gondim? Nunca li o Gondim aceitando uma crítica, mas todos os críticos são "fundamentalistas retrógrados". Ele, nos debates do Twitter, se mostrou totalmente intransigente com quem discordasse de suas posições. Por isso, sei que ele não irá perder tempo lendo o meu texto e mesmo que lesse diria: "É um coitado fundamentalismo cego pela teologia enlatada"!


Por que estou escrevendo este post? A motivação foi a entrevista que Gondim deu para a revista Carta Capital (aquela mesma revista que na semana passada disse ser a inflação o resultado do aperto monetário do Henrique Meirelles, aff!), que saiu na edição desta semana. Duas respostas chamaram a minha atenção:


Carta Capital: O Senhor é a favor da união civil entre homossexuais?


Ricardo Gondim: Sou a favor. O Brasil é um país laico. Minhas convicções de fé não podem influenciar, tampouco atropelar o direito de outros. Temos de respeitar as necessidades e aspirações que surgem a partir de outra realidade social. A comunidade gay aspira por relacionamentos juridicamente estáveis. A nação tem de considerar essa demanda. E a igreja deve entender que nem todas as relações homossensuais são promíscuas. Tenho minhas posições contra a promiscuidade, que considero ruim para as relações humanas, mais isso não tem uma relação estreita como a homossexualidade ou heterossexualidade.


Fiquei confuso com a frase que destaquei em negrito. Quais seriam essas relações homossensuais não promíscuas? Ora, promiscuidade é definida como qualquer relacionamento sexual fora das regras. Paulo em Romanos 1 é claro em destacar o homossexualismo (palavra herética para a correção política) como pecado. Sim, é claro que o adultério não é menos promíscuo que o atos homossexuais. E a homossexualidade não é pecado maior do que a soberba. Muitas vezes as igrejas se preocupam tanto com o homossexualismo que esquecem dos demais pecados listados por Paulo em Romanos 1. 29-31, mas o homossexualismo não é menos pecado por isso. Sabemos, também, que o homem não é mais santo por ser heterossexual. É claro que o heterossexual por ser mais promíscuo que um homossexual. A maldade é parte da humanidade caída. Mas um erro não redime outro.


Outra coisa. Hoje, no Brasil, o que impede um casal homossexual judicialmente estável? Não há nada que impeça. Qualquer cartório resolve isso. Quando ouço simpatizantes dos "movimentos gays" muitas vezes penso que moro no Irã, tamanha intolerância que eles desenham da sociedade brasileira. Essa "mania de vítima" nada mais é do que a tentativa de criar cidadãos como direitos mais especiais do que outros.


Com essa resposta o pastor Gondim mais uma vez afirma seu compromisso com a agenda politicamente correta.


Carta Capital: Mas os movimentos cristãos foram sempre na direção oposta.


Ricardo Gondim: Não necessariamente. Para alguns autores, a decadência do protestantismo na Europa não é, verdadeiramente, uma decadência, mas o cumprimento de seus objetivos: igrejas vazias e cidadãos cada vez mais cidadãos, mais preocupados com a questão dos direitos humanos, do bom trato da vida e do meio ambiente.

Cena em Paris: Igrejas vazias e as ruas lotadas de jovens protestando contra a reforma da previdência francesa. Para Gondim, essa cena é uma espécie de avivamento. Aff! Quer ser cristão? Deixa a igreja e entra em um movimento social sustentado pelo governo. Distribua folhetos "Fora FMI" em lugar de folhetos evangelísticos (ou proselitista, como diria os teólogos metidos a sociólogos). Olha, por essas e outras que, hoje, prefiro ler Joseph Ratzinger. A teologia protestante da vanguarda tem o cerne da sua própria destruição ou como escreveu Pondé: É a teologia transformada em mera antropologia moral inconsistente.. Ah, vou ler também o judeu Luiz Felipe Pondé, lá encontro mais cristianismo do que nesses teólogos politicamente corretos.


E ainda há o marketing da vítima: "Sou o herege da vez". O marketing vitimista sempre funciona!

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Lição 04 - Espírito Santo - Agente Capacitador da Obra de Deus

Subsídio escrito pela equipe de educação da CPAD.

Texto Bíblico: Lucas 24.46-49; Atos 1.4-8

Introdução:

I. O Relacionamento do Espírito Santo com a humanidade
II. O Espírito Santo na vida do crentre
III. O Batismo com o Espírito Santo capacita-nos a fazer a obra de Deus

Prezado professor,

A Paz do Senhor!

Nesta semana estudaremos a lição 4 cujo título é “Espírito Santo - Agente Capacitador da Obra de Deus”. Ela está baseada em Lucas 24.46-49 e Atos 1.4-8 e, também, está dividida em três tópicos: 1) O Relacionamento do Espírito Santo com a Humanidade; 2) O Espírito Santo na vida do crente; 3) O Batismo com o Espírito Santo capacita-nos a fazer a obra de Deus.

Professor, para introduzir o tópico II da lição é importante refletir que a renovação do Espírito Santo é necessária em nossas vidas. Às vezes, pela rotina da vida, não percebemos as implicações espirituais de se ter um relacionamento diário com o Espírito Santo. Conscientizemo-nos da necessidade de uma renovação diária em nossas vidas espirituais. No entanto, devemos saber que:

1. A renovação é diária. O nosso corpo precisa diariamente de um renovo. Este exemplo denota a necessidade da vida espiritual ser conservada periodicamente. O cristão é responsável pela saúde espiritual, assim como o indivíduo é com a sua saúde física (2 Co 4.16).

2. A renovação é consciente e desejada. Precisamos, diariamente, fazer o seguinte questionamento: “Como a minha vida espiritual está?” (1 Co 11.28a). Esse tipo de indagação reflete uma vida cheia do Espírito Santo.

3. A renovação denota a ação do Espírito Santo. A renovação do Espírito Santo mantém o crente afastado das práticas que não glorificam a Deus. Trás aprofundamento na Palavra, renovando-o com poder e tornando-o sensível à direção do Santo Espírito (Is 30.21; At 16.6,7; 10.19).

Que o Espírito Santo possa renovar a sua vida, as suas forças e o seu interior. Tenha uma boa aula e Deus o abençoe!

quinta-feira, 21 de abril de 2011

A origem pentecostal, por Paulo Romeiro

Amigos,

Neste trimestre estamos estudando as doutrinas pentecostais na Escola Dominical das Assembleias de Deus. Reproduzo neste post um trecho do livro Decepcionados com a Graça (Editora Mundo Cristão), escrito pelo pastor Paulo Romeiro. O livro é ótimo, assim como as demais publicações do pastor Romeiro. Nesse texto, Romeiro fala sobre a origem histórica do pentecostalismo e consequentemente do neopentecostalismo. O trecho é disponibilizado pela própria editora.

A ORIGEM PENTECOSTAL, por Paulo Romeiro*

O neopentecostalismo tem suas raízes no movimento pentecostal, que surgiu nos Estados Unidos no início do século xx. Os adeptos do pentecostalismo passaram a enfatizar o batismo com (ou no) Espírito Santo como revestimento de poder subseqüente à conversão e ao falar em línguas estranhas. Outros dons ou manifestações sobrenaturais também passaram a fazer parte das reuniões pentecostais, como a cura física, as profecias e os dons de milagres e de discernimento.
Essas crenças e práticas baseiam-se no segundo capítulo do livro de Atos dos Apóstolos, quando os apóstolos, Maria (mãe de Jesus) e cerca de 120 discípulos, instruídos por Jesus, reuniram-se num cenáculo em Jerusalém para esperar a vinda do Espírito Santo prometida por Cristo. No qüinquagésimo dia posterior à páscoa, depois de esperarem por dez dias, a promessa de Jesus cumpriu-se. Lucas descreveu assim o evento:

Ao cumprir-se o dia de pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar; de repente, veio do céu um som, como de um vento impetuoso, e encheu toda a casa onde estavam assentados. E apareceram, distribuídas entre eles, línguas, como de fogo, e pousou uma sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo e passaram a falar em outras línguas, segundo o Espírito lhes concedia que falassem.


Quanto à origem do termo Pentecostes, o dicionário bíblico informa:

Em Levítico 23:16, a Septuaginta empregou o termo pentêconta hêmeras como a tradução do hebraico hªmishshïm yom, “cinqüenta dias”, referindo-se ao número de dias partindo da oferta do molho de cevada até ao início da páscoa. Ao qüinquagésimo dia era a festa de pentecostes. Visto que o tempo assim escoado era de sete semanas, era chamada hagh shabhu’ôth, “festa das semanas” (Êx 34:22; Dt 16:10). Assinalava o término da colheita da cevada, que tinha início quando a foice era lançada pela primeira vez na plantação (Dt 16:9) e quando o molho era movido “no dia imediato ao sábado” (Lv 23:11,12a). É festa igualmente chamada hagh haqqãçïr, “festa da colheita”, de yôm habbikkürïm, “dia das primícias” (Êx 23:16; Nm 28:26). Essa festa não se limitava aos tempos do Pentateuco, mas sua observância é indicada nos dias de Salomão (2Cr 8:13) como o segundo dos três festivais anuais (cf. Dt 16:16).


Para explicar o fenômeno ocorrido em Atos 2:12 e refutar a sugestão de que estivessem embriagados, Pedro cita a profecia de Joel 2:28-32:

E acontecerá nos últimos dias, diz o Senhor, que derramarei do meu espírito sobre toda a carne; vossos filhos e vossas filhas profetizarão; vossos jovens terão visões, e sonharão vossos velhos; até sobre os meus servos e sobre as minhas servas derramarei do meu espírito naqueles dias, e profetizarão. Mostrarei prodígios em cima no céu e sinais embaixo na terra; sangue, fogo e vapor de fumaça. O sol se converterá em trevas, e a lua, em sangue, antes que venha o grande e glorioso dia do senhor. E acontecerá que todo aquele que invocar o nome do senhor será salvo
.

Ao longo da história, o pentecostalismo justifica as manifestações de glossolalia (falar em línguas) e outras relacionadas com fenômenos sobrenaturais citando uma variedade de textos bíblicos (At 2:16-21; 10:44-46; 19:6; 1Co 12:10).

A manifestação dos dons espirituais não esteve restrita ao livro de Atos dos Apóstolos. O fenômeno de orar em línguas, por exemplo, tem sido constatado em grupos fora do cristianismo.

A influência de movimentos periféricos


Na história do cristianismo, a busca por um contato mais íntimo com Deus passa pelo misticismo e pelo pietismo, movimentos que correm à margem da igreja oficial. A característica principal desses movimentos é a aversão às normas e doutrinas da igreja, pois entendem que o Espírito Santo revela tudo o que é necessário para a vida do cristão.

O montanismo

Foi neste movimento, liderado por Montano, que os fenômenos pentecostais encontraram ampla guarida. O movimento surgiu na Frígia, Ásia Menor romana (Turquia), por volta do ano 172,6 tendo Tertuliano como um de seus adeptos mais importantes.

Montano não tinha cargo eclesiástico e percorria os lugares acompanhado de duas mulheres, Priscila e Maximila. Por meio da voz do parácleto, manifestação profética que falava, na primeira pessoa, através das duas mulheres, promovia o que chamou “nova profecia” e conclamava as pessoas para a volta de Cristo.

Os adeptos do montanismo se consideravam porta-vozes do Espírito. Afirmavam que o fim do mundo estava próximo e que a nova Jerusalém seria brevemente estabelecida na Frígia, para onde se dirigiam os fiéis. Como preparo para a próxima consumação, passaram a pregar um asceticismo rigoroso, o celibato, jejuns e abstinência de carne. Preocupados com o avanço do movimento, os bispos da Ásia Menor se reuniram, pouco depois de 160 d.C., e condenaram o movimento.

Referindo-se a Montano, Henri Desroche afirmou: “Jerônimo, com seu estilo habitualmente rude, qualificou Montano como ‘pregador do espírito imundo, [que] com ouro, corrompeu inicialmente muitas igrejas por meio de Priscila e Maximila, duas mulheres nobres e ricas, manchando-as em seguida com a heresia’”.

Entretanto, alguns teólogos crêem que ao excluir o montanismo a igreja perdeu, pois um movimento que protestava contra o crescente formalismo e mundanismo na Igreja passou a funcionar na clandestinidade. Paul Tillich explica essa perda:

A igreja cristã excluiu o montanismo do seu seio. Contudo a vitória sobre o montanismo resultou em perda. Podemos vê-la da seguinte maneira: 1) o cânon venceu sobre a possibilidade de novas revelações. A solução do quarto evangelho de que sempre haveria novas percepções da verdade, sob a crítica do Cristo, foi, pelo menos, reduzida em poder e sentido; 2) a hierarquia tradicional triunfou contra o espírito profético. Com isto excluía-se, mais ou menos, o espírito profético da igreja organizada, levando-o a se abrigar em movimentos sectários; 3) a escatologia perdeu grande parte da importância visível na era apostólica. A organização eclesiástica passou a ocupar o primeiro lugar. A expectativa do fim reduziu-se ao apelo aos indivíduos para que se preparassem para o seu fim pessoal, que poderia vir a qualquer momento. Depois desse período, a idéia do fim da história deixou de ter importância; 4) a rígida disciplina dos montanistas foi abandonada, substituída pelo afrouxamento crescente dos costumes. O que se passou nesta época tem-se repetido freqüentemente na história da igreja. Surgem pequenos grupos com rigorosa disciplina; tornam-se suspeitos dentro da igreja; separam-se e formam grandes igrejas; em seguida, perdem o poder disciplinar original.


Com a condenação do montanismo, a expectativa da volta de Cristo foi, até certo ponto, reduzida e a operação dos dons espirituais perdeu considerável espaço na comunidade cristã. Ao invés de condenar a prática dos dons espirituais, a Igreja teria lucrado se a regulasse à luz das Escrituras. Todo segmento pentecostal equilibrado e preocupado em promover a sã doutrina procurará também regular e estabelecer parâmetros bíblicos para a operação dos dons espirituais. Teólogos pentecostais como Donald Gee, Gordon Fee e Stanley Horton, para mencionar alguns, têm demonstrado esse cuidado.

Uma das maiores razões por que a operação dos dons de enunciação inspirada é impedida, ou mesmo inteiramente suprimida, está no receio constante de errar, ou na forma de fanatismo ou de falsa inspiração. É bem fácil fazer uma lista dos vários movimentos de inspiração nas igrejas, desde o tempo do montanismo, os quais se iniciaram com a pretensão de restabelecer o dom de profecia no seu próprio lugar na Igreja, mas findaram em fracasso vergonhoso por causa dos excessos de entusiasmo, ou gradualmente cederam de novo à frieza e à incredulidade das igrejas. Onde tantos já fracassaram, ousaremos esperar bom êxito? A resposta só pode ser: “Somente pela graça de Deus”. Há uma coisa ao menos em nosso favor: podemos aproveitar os erros de nossos antepassados, para não errar [Donald Gee].


Todas as manifestações sobrenaturais — sonhos, visões, revelações, experiências pessoais ou coletivas — não têm a mesma autoridade que a Bíblia Sagrada. Esses fenômenos devem ser avaliados à luz das Escrituras, única regra de fé e prática para o cristão. Nos capítulos 12 e 14 de 1Coríntios, a Palavra de Deus fornece as instruções necessárias para a operação dos dons espirituais com o propósito de edificar o Corpo de Cristo. As manifestações do dom de profecia devem ser julgadas pela congregação (1Co 14:29) e tudo deve ser feito com ordem e decência (1Co 14:40).

Assim, se em nome do avivamento e do fervor espiritual não se pode conceder espaço para a anarquia na liturgia do culto, tampouco se pode, em nome da ordem, extinguir o Espírito. A busca de uma prática equilibrada para o funcionamento dos dons espirituais e a fidelidade à Palavra de Deus são essenciais para o desenvolvimento do ministério cristão.

A expressão “religiões pentecostais”, portanto, busca representar todas as religiões que descaracterizaram os fatos fundadores cristãos e os substituíram pela centralidade do Pentecostes, constituindo a nova referência fundadora.

Sociologicamente, o cristianismo caracterizou-se por definir suas origens em torno das doutrinas sobre Jesus Cristo. O protestantismo remetia-se ao mesmo fato fundador através da Bíblia. Já no pentecostalismo, opera-se uma mudança radical na referência ao fato fundador. O acontecimento de Pentecostes ocupa o lugar fundamental, e as doutrinas em torno de Jesus Cristo são relegadas. Os pentecostalismos contemporâneos representam uma radicalização desse distanciamento das religiões cristãs.

O pietismo

Este movimento nasceu na Alemanha protestante do século xvii e estendeu-se por toda a Europa, promovendo a fé pessoal em protesto contra a secularização da igreja.12 O movimento abraçou a “teologia do coração”, baseada nos escritos de Johann Arndt, na leitura e na meditação da Bíblia e nos hinos da liturgia luterana.

O nome que mais se destacou no movimento pietista foi o de Phillip Jacob Spener (1635-1705). Ao ver a vida decadente da cidade de Frankfurt, Spener organizou os primeiros collegia pietatis, que reuniam leigos cristãos para troca de experiências e leitura espiritual. Escreveu um clássico do cristianismo: Pia desideria, em que apresentou seis propostas de reforma da igreja:

1. Divulgação da palavra de Deus entre o povo com maior
abundância. Era, para ele, o melhor meio de melhorar a
situação da igreja.
2. Restabelecimento e prática assíduos do sacerdócio
universal de todos os crentes. Na igreja, o pastor não
detém o monopólio de falar e agir. Para poder cumprir
sua missão, precisa da colaboração ativa de todos e
todas.
3. Pregação insistente de que o cristianismo não consiste
em conhecimentos sobre a fé, mas na prática do amor
que nasce da fé.
4. Moderação nas controvérsias confessionais.
5. Reforma da formação teológica. Os futuros pastores
devem ser orientados para a vivência da fé.
6. Uma nova maneira de pregar o Evangelho. Os pastores
devem acentuar o “cerne do cristianismo”, os frutos da
fé, mais do que a doutrina.


Devido às várias correntes pietistas presentes na Alemanha, os historiadores encontram dificuldade para identificar as origens do movimento. Antonio G. Mendonça deu ênfase ao grupo dos morávios na comunidade de Herrnhut, onde se estabeleceram em 1727 a convite do conde von Zinzendorf, que mais tarde tornou-se líder e teólogo do movimento. O grupo originou-se dos hussitas da Boêmia e recusou-se a entrar para a igreja luterana, formando a própria igreja. Zinzendorf enfatizava a contemplação da cruz com bastante emoção.

Mendonça menciona outras informações importantes do pietismo que nos ajudam a estabelecer a trajetória histórica do movimento pentecostal:

O enclausuramento do crente com a sua Bíblia e a busca e o cultivo incessantes da experiência e da comunhão com Jesus levam-no à negação do mundo e ao desprezo dos prazeres da vida. Esta atitude se caracteriza positivamente pela afirmação de um valor maior, o cultivo de sua devoção, e negativamente pela consciência de que os prazeres mundanos são antagônicos aos prazeres e gozos espirituais.

Se a reforma pôs em circulação a Bíblia, foi o pietismo que introduziu no protestantismo essa característica fundamental dele, que é o apego individual à Bíblia como fonte de devoção. Mas, se o estudo da Escritura, sua interpretação literal e espiritualizada foi uma reação contra a institucionalização da religião e o correspondente escolasticismo, permitindo que uma aragem de profunda religiosidade estivesse sempre perpassando a fé protestante, constituiu-se também num poderoso obstáculo ao desenvolvimento da reflexão teológica. A teologia cheira a racionalismo, racionalismo a sistematização, e esta a escolasticismo; este poderia ser o raciocínio implícito do pietismo (...)

O espírito pietista, ao desenvolver uma antiteologia, fecha as portas da reflexão, não permite que as inquietações sociais agitem a instituição. Desse modo, a instituição, assim como a vivência religiosa do cotidiano, pode pairar acima das contradições sociais.

Por influência do movimento pietista, experiência e emoção se tornaram elementos vitais para a existência da fé pentecostal. O sucesso de um culto pentecostal ainda depende de lágrimas, de alegria ou não, de fortes exclamações de júbilo, de louvores e de muito barulho. O silêncio, qualquer que seja a duração, incomoda muito num culto pentecostal, em que é freqüente ouvir a expressão: “lugar de silêncio é no cemitério”.

O metodismo

A grande contribuição para o surgimento do pentecostalismo veio, mais especificamente, do movimento metodista, fundado no século XVIII, na Inglaterra, por João Wesley (1703-1791). Seu fundador foi influenciado pelo grupo pietista alemão denominado morávios, que pregavam a necessidade do novo nascimento e da conversão.

A experiência de conversão de Wesley, em 1738, mudaria totalmente sua vida.16 Ao ouvir, numa reunião, a leitura do prefácio do comentário do livro de Romanos, escrito por Martinho Lutero, seu coração foi “estranhamente aquecido”. Essa experiência fez dele um evangelista. Wesley mesmo declarou: “Então, foi do agrado de Deus acender um fogo que, confio, nunca se apagará”.

Com as perseguições religiosas na Europa, muitos adeptos desse movimento migraram para os Estados Unidos. A ênfase na perfeição cristã ou na inteira santificação, ensinadas por João Wesley, mais tarde receberia outros nomes: “segunda bênção” e “revestimento de poder”, por exemplo. O termo “batismo no Espírito Santo” passaria a ser usado por alguns grupos posteriormente.

Outros líderes e denominações na América do Norte seriam influenciados pelos mesmos ensinos e se encarregariam de disseminá-los. Entre estes destacaram-se Charles G. Finney, Dwight L. Moody, A. B. Simpson, Andrew Murray e R. A. Torrey.

As raízes históricas do pentecostalismo não passam apenas pela influência de Wesley e do pietismo, mas por vários movimentos religiosos: o puritanismo, George Fox e os quacres, os irmãos Plymouth e William Booth, fundador do Exército de Salvação.19 Em outras palavras, o pentecostalismo americano surgiu do aprofundamento da vida espiritual associado a João Wesley.

A Igreja Metodista se tornara tão bem-sucedida na América do Norte que perdeu muito do fervor espiritual presente no início do movimento. Em reação a esse declínio dentro do metodismo, surgiram vários grupos cristãos de orientação wesleyana, que buscavam a experiência de santificação vivida pelos primeiros metodistas.20 Donald Dayton afirma que “a constelação dessas igrejas é o elemento mais importante que prepara o terreno para o movimento pentecostal moderno”.

A origem do pentecostalismo atual

Foi em Topeka, Kansas (EUA), que surgiu o movimento pentecostal como é conhecido hoje. O pregador Charles Parham começou, em 1900, uma escola bíblica denominada Betel. Parham reuniu cerca de nove alunos para que estudassem juntos e sem o auxílio de nenhum livro além da Bíblia o tema do batismo no Espírito Santo.

Parham e seus alunos tinham uma certa ligação com o “movimento da santidade”, um grupo que tentava preservar os ensinos peculiares do metodismo de João Wesley, como a perfeição cristã e a inteira santificação. O grupo liderado por Parham buscava evidências ou prova bíblica para o batismo no Espírito Santo.

Chegaram, então, à conclusão de que a única certeza e sinal escriturístico para o batismo com o Espírito Santo era o falar em línguas. No dia 1°. de janeiro de 1901, um moço estudante estava orando durante a noite, quando experimentou de repente a paz e a alegria de Cristo, começando a louvar a Deus em línguas. Dentro de alguns dias, toda a comunidade recebera o batismo com o Espírito Santo dessa maneira e surgiu o moderno movimento pentecostal. Essa experiência, acompanhada por poderosos ministérios de conversões, curas, profecias etc., se espalhou pelo Texas e (em 1906) alcançou Los Angeles, onde cresceu substancialmente, passando para Chicago, Nova York, Londres e Escandinávia em meados de 1915.

Um aluno de Parham, chamado William Seymour, foi convidado a pregar em Los Angeles. As reuniões daquele pregador negro começaram a crescer. Suas pregações atraíam muita gente, e o fenômeno do batismo no Espírito Santo continuou a acontecer em grande escala. A experiência era sempre acompanhada de manifestações de línguas, profecias e orações em voz alta, que ocorriam junto com cânticos espirituais. Seymour era filho de ex-escravos e, apesar do contexto social extremamente hostil aos negros, ele continuou a ensinar:

Apesar das constantes humilhações, desenvolveu uma espiritualidade que resultou, em 1906, num avivamento em Los Angeles.

A maioria dos historiadores pentecostais crê ter sido esse avivamento o berço do pentecostalismo. As raízes da espiritualidade de Seymour jazem em seu passado. Ele afirmou suas raízes negras ao introduzir, na liturgia, os negro spirituals e a música negra numa época em que essa música era considerada inferior e imprópria à adoração cristã. Ao mesmo tempo, ele viveu firmemente o que compreendia ser o Pentecostes. Para ele, o Pentecostes significava mais que falar em línguas. Significava amar a despeito do ódio — vencendo o ódio de uma nação inteira ao demonstrar que o Pentecostes é algo muito diferente do estilo de vida americano de sucesso.

No avivamento de 1906, em Los Angeles, bispos brancos e trabalhadores negros, homens e mulheres, asiáticos e mexicanos, professores brancos e lavadeiras negras, todos eram iguais. A imprensa religiosa e a secular acompanhava todos os detalhes. Sem conseguir entender o que se passava, preferiram ridicularizar, atacando Seymour: “pode vir algo bom de um autodenominado profeta negro?”.

As principais denominações também criticaram o emergente movimento pentecostal, desprezando seus seguidores devido à origem negra e humilde. Pressões sociais surgiram, tentando discriminar suas igrejas entre as organizações negras e brancas, como outras igrejas já vinham fazendo.

Tudo isso, porém, não conseguiu impedir o crescimento do pentecostalismo. De Los Angeles, o movimento espalhou-se por muitas cidades norte-americanas e depois pelo mundo todo. Nos Estados Unidos, Chicago desenvolveria um importante papel na exportação do fenômeno pentecostal para o Brasil. A cidade tornou-se uma rota missionária para três pregadores que lançariam as bases para o movimento pentecostal em solo brasileiro: Louis Francescon (fundador da Congregação Cristã no Brasil), Daniel Berg e Gunnar Vingren (fundadores da Assembléia de Deus).

Muitas igrejas foram formadas, sendo a Assembléia de Deus a maior delas. Mais tarde, o pentecostalismo tornou-se fator importante para a formação de outro grupo na América do Norte, que também alcançaria proporções mundiais, e que seria conhecido como “movimento carismático”. Com ênfase no batismo do Espírito Santo e na glossolalia, esse movimento passaria a existir em quase todas as denominações evangélicas tradicionais, preparando o caminho para o futuro movimento neopentecostal.

O pentecostalismo no Brasil

O pentecostalismo surgiu no Brasil em 1910, com a Congregação Cristã no Brasil, e hoje representa o maior segmento da comunidade evangélica. Até os anos 1950, os pentecostais não chamavam muito a atenção. Entretanto, sua extraordinária expansão, a crescente visibilidade nos meios de comunicação e seu envolvimento com a política fizeram do movimento objeto freqüente de estudo dos pesquisadores da religião.

O censo de 2000, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), confirmou o significativo crescimento dos pentecostais no país nas últimas décadas. De acordo com os dados levantados, o número de evangélicos no Brasil chegou a 26 milhões de adeptos.
Em 1991, os pentecostais e neopentecostais eram 8,1 milhões. Em 2000, esse número subiu para 17,6 milhões,26 assim distribuídos: Assembléia de Deus com 8,4 milhões; Congregação Cristã no Brasil com 2,4 milhões; Igreja Universal do Reino de Deus com 2,1 milhões; outras igrejas pentecostais com 1,8 milhão; Igreja do Evangelho Quadrangular com 1,3 milhão; Igreja Pentecostal Deus É Amor com 774,8 mil27 e O Brasil para Cristo com um milhão de membros.28

Congregação Cristã no Brasil — CCB

O movimento pentecostal surgiu no Brasil com a Congregação Cristã no Brasil,29 fundada por Louis Francescon, de origem italiana. Em 1890, depois de cumprir o serviço militar, mudou-se para Chicago, nos Estados Unidos. No mesmo ano, ele ouviu o evangelho através de Miguel Nardi, converteu-se no ano seguinte e passou a congregar, como diácono, numa igreja presbiteriana.

Em 1907, Francescon entrou em contato com o movimento pentecostal por um pastor norte-americano chamado William Durham, que havia recebido o batismo no Espírito Santo em Los Angeles, em 1906. Francescon juntou-se ao grupo de Durham, que anunciava a promessa do Espírito Santo.

Em 1909, por revelação espiritual, Francescon, G. Lombardi e Lucia Menna embarcaram para Buenos Aires e, em 1910, chegaram a São Paulo. No dia seguinte, conheceram um italiano, ateu, chamado Vicenzo Pievani, que mais tarde se converteria junto com a esposa e mais nove pessoas. O batismo dessas onze pessoas marcou o que Francescon chamou de “as primícias da grande obra de Deus naquele país”.

Ao longo de sua existência, a Congregação Cristã no Brasil permaneceu imutável quanto à forma de governo, à estrutura eclesiástica e ao modus vivendi. Dentre suas principais características destaca-se a ausência de clero assalariado. Conforme seu regimento interno de 1948: “todo servo de Deus deve trabalhar para o seu sustento material. Não dependendo da irmandade, pode agir com mais franca imparcialidade em todos os casos que se apresentarem”.

O mencionado regimento também proíbe a participação, em cultos e reuniões, de pessoas portadoras de doenças contagiosas; a leitura de material “estranho”, já que as Escrituras contêm tudo o que se precisa, individual e coletivamente, e a participação de seus fiéis em cultos de outras igrejas.

A Congregação não admite cerimônias religiosas em casamentos, tolerando-se apenas uma oração, que pode ser feita por qualquer irmão presente, quando não houver ancião, cooperador ou diácono, pois isso não faz parte do ministério. Tampouco se admitem certos costumes, como a vigília do primeiro dia do ano com cantos e orações, e outras solenidades para comemorar festas materiais.

O serviço em funerais deve ser julgado de acordo com o momento. O corpo não deve ser levado à casa de oração por constituir hábito e imitação de costumes mundanos, que não se fundamentam na fé apostólica e na palavra de Deus.

A Congregação também não permite partidos políticos de espécie alguma. Por ser uma determinação legal, cada um é livre para cumprir seu dever de votar. Entretanto os remidos pelo sangue do concerto eterno não podem votar em partidos que neguem a existência de Deus e sua moral. Os que ocupam cargos no ministério não devem aceitar encargos políticos. Nas dependências da igreja não é permitida propaganda nem visitação de candidatos a cargos políticos.

A igreja também não possui jornais, propaganda nem literatura religiosa. Tampouco se corresponde com os que os editam, pois “outras luzes não precisamos, nem queremos. O tempo muda sempre, porém a palavra de Deus é imutável; mudam os homens, porém o Senhor é o mesmo, eterno e fiel”.

Diferentemente de outros grupos evangélicos ou pentecostais, a ccb não publica literatura nem divulga informações a respeito de sua atuação, o que dificulta uma pesquisa mais acurada sobre essa denominação.

Assembléia de Deus — AD

Maior denominação evangélica brasileira das últimas décadas, a Assembléia de Deus foi fundada por dois missionários suecos, Gunnar Vingren e Daniel Berg, que vieram ao Brasil via Estados Unidos.

Gunnar Vingren recebeu o chamado de Deus para sua vida aos nove anos de idade.31 Em 1896, aos dezessete anos, passou por um processo de reconversão, depois de um período afastado da fé. Em junho de 1903, ele foi atingido pelo que ele denominou “febre dos Estados Unidos”. Depois de passar por outras cidades norte-americanas, foi a Chicago estudar no seminário teológico dos batistas suecos.

No verão de 1909, sentiu um forte desejo de receber o batismo com o Espírito Santo e com fogo. Depois de cinco dias de busca, numa conferência na Primeira Igreja Batista Sueca, em Chicago, ele recebeu o que buscava. Ao pregar o batismo do Espírito Santo em sua igreja, esta ficou dividida e Vingren foi obrigado a deixar o pastorado da igreja.

Vingren foi para uma igreja em Indiana, onde foi influenciado por Adolfo Ulldin, um fiel que tinha visões, falava pelo dom de profecia e revelou vários segredos sobre o futuro de Vingren. Ele conta que foi por meio desse irmão que o Espírito Santo lhe disse para ir ao Pará, onde pregaria o evangelho para um povo muito humilde. Foi preciso ir a uma biblioteca para descobrir que o Pará fica no norte do Brasil.

Nesse momento, Vingren já havia conhecido Daniel Berg, seu futuro companheiro de missões, pois também ele recebera o chamado para vir ao Brasil, e ambos prepararam-se para a viagem.
No Brasil, foram recebidos por uma igreja batista.32 Assim que aprenderam um pouco da língua, começaram a evangelizar e a disseminar a doutrina pentecostal, principalmente o batismo no Espírito Santo com o falar em línguas.

A pregação de Vingren e Berg encontrou receptividade por parte de alguns e resistência por parte de outros. Entre os dezenove membros da igreja batista que creram na nova doutrina estava Celina de Albuquerque, considerada a primeira pessoa em solo brasileiro a receber a experiência pentecostal. Em junho de 1911, eles deixaram a igreja batista e fundaram uma igreja denominada Missão de Fé Apostólica.

Os assembleianos dividiram sua história em quatro períodos. O primeiro período vai de 1911 até 1924, tendo como fatos principais a aquisição do primeiro templo, a publicação do primeiro periódico pentecostal brasileiro, denominado Voz da verdade, e o início do trabalho missionário da denominação, com o envio de José de Matos a Portugal, em meados de 1913.

O segundo período vai de 1924 a 1930 e destaca o crescimento da igreja em todo o estado do Pará. Nessa época, foram instituídos o diaconato e o presbiterato na denominação. O terceiro período vai de 1930 até 1950 e destaca a colaboração da igreja do Pará com as construções de templos nas cidades de São Luís (MA), Manaus (AM), Teresina (PI) e Porto Velho (RO).
O quarto e último período vai de 1950 até os dias atuais, quando acontece uma expansão ainda maior da denominação. Em 1961, o movimento pentecostal brasileiro já contava com um milhão de membros.

Por mais de quarenta anos, a Congregação Cristã do Brasil e a Assembléia de Deus reinaram absolutas no pentecostalismo brasileiro, sem se preocupar com a “concorrência”. O que caracterizou essa fase do movimento, denominada primeira onda, foi a oração em línguas. Somente a partir de 1950, um segundo grupo de igrejas pentecostais surgiria no Brasil, com ênfase na cura divina, sem, porém, desprezar o orar em línguas.

Igreja do Evangelho Quadrangular

O primeiro movimento a surgir no Brasil dentro da segunda onda do pentecostalismo foi a Igreja do Evangelho Quadrangular. Importada de Los Angeles, a igreja foi fundada em São Paulo, em 1951, pela canadense Aimee Semple Mcpherson. Aimee converteu-se em 1907, numa reunião de avivamento dirigida por um jovem evangelista pentecostal chamado Robert Semple, com quem mais tarde se casaria. Logo depois de sua conversão, ela foi batizada no Espírito Santo e falou em línguas estranhas.

Aimee foi missionária na China, mas retornou aos Estados Unidos depois da morte do marido. Lá trabalhou com a mãe no Exército de Salvação. Depois do fracasso do segundo casamento, ela ainda passou pela igreja metodista episcopal, pela igreja batista e, por último, pela Assembléia de Deus. Então, em janeiro de 1923, fundou a Igreja do Evangelho Quadrangular, em Los Angeles.

O nome “quadrangular” tem uma razão:

Pregando com base no texto de Ezequiel 1:4-28, que descreve uma criatura com quatro faces, ela [Aimee] viu naquela passagem quatro doutrinas principais. Elas eram simbolizadas no homem, no leão, no boi e na águia, e se tornaram o centro de seu ministério. Aimee disse que todos representavam Jesus: a face do homem era Jesus como Salvador; o leão era Jesus como o batizador no Espírito Santo; o boi era Jesus, aquele que cura; e a águia era Jesus como o rei que virá. Assim nasceu a teologia e o nome de uma das principais denominações pentecostais, que ministra hoje em 55 nações do mundo.

A Igreja do Evangelho Quadrangular chegou ao Brasil sete anos após a morte de sua fundadora. Campos Jr.38 relata que o pentecostalismo já havia atingido a América do Sul, quando Harold Williams, que fora missionário na Bolívia, trouxe o movimento para o Brasil. As atividades da igreja foram iniciadas em São João da Boa Vista (SP), em 1951, transferindo-se depois para a cidade de São Paulo.

Em 1953, Williams começou a expansão da obra usando uma estratégia diferente da de outras igrejas — as tendas de lona —, que recebeu o nome de Cruzada Nacional de Evangelização.

A ênfase na cura divina funcionou como mola propulsora para o crescimento da denominação.

A principal preocupação teológica do pentecostalismo é o Espírito Santo e seus dons. A declaração de fé da Igreja Quadrangular ilustra este reducionismo doutrinário. Ele se preocupa pouco com os grandes temas teológicos clássicos. Estão ausentes vocábulos como “trindade”, “encarnação”, “procedência do Espírito” e outros, sem se negar, contudo, as doutrinas por eles representadas. Modifica significantemente a tradicional formulação protestante da “justificação pela fé” para justificação por “arrependimento e aceitação”. Toda a ênfase cai nos quatro “ângulos”: salvação em Cristo, o batismo no Espírito Santo, a cura divina e a iminente vinda de Cristo e suas conseqüências.

O Brasil para Cristo

Depois da Igreja do Evangelho Quadrangular, surge no Brasil a Igreja Evangélica Pentecostal O Brasil para Cristo, a primeira igreja pentecostal genuinamente brasileira, fundada em São Paulo, em 1955, por Manoel de Mello. A denominação surgiu a partir de atividades evangelísticas, como o programa de rádio A voz do Brasil para Cristo.

A igreja não escapou de perseguições — seus galpões foram depredados e incendiados e houve até abertura de processo por charlatanismo e curandeirismo, movido contra Manoel de Mello, que, no entanto, foi absolvido. Em 1980, a igreja inaugurou um templo com capacidade para cerca de dez mil pessoas.

Deus É Amor

Outro movimento de forte expressão no mundo religioso, a Igreja Pentecostal Deus É Amor foi fundada pelo missionário David Martins Miranda, em 1962. Em sua autobiografia, Miranda relata como Deus lhe falou para fundar a igreja enquanto orava, de joelhos por mais de três horas:

Todas as noites, quando eu orava ao Senhor, sentia o fogo divino do Espírito Santo, e isso para mim já era algo normal de acontecer. Mas naquela noite eu estava me sentindo de uma maneira diferente.

Não existem palavras que possam descrever o que eu sentia naquele momento (...). Jamais uma criatura humana pode sentir algo parecido, a menos que esteja em contato íntimo com Deus. Lembrei-me da expressão de Jacó, que dissera: “Este lugar não é outro, senão, a morada do altíssimo” (Gn 28:10-17). Eu me maravilhava com o som que podia ouvir. Sim, naquele instante eu ouvia vários sons celestes. Aleluia! Algo glorioso acontecia. (...).

De repente, uma voz se fez ouvir acima daqueles sons diversos. Era uma voz com o som de muitas vozes, e ouvi que me dizia: “Meu servo, não temas as lutas, pois te escolhi e grande obra tenho a fazer por teu intermédio. Muitos se levantarão contra ti, mas não prevalecerão. Aqueles que forem contigo, eu serei com eles, mas aqueles que forem contra ti eu serei contra eles (Gn 12:3). Por isso, não temas as lutas e perseguições, porque grande obra eu tenho a fazer por teu intermédio. Eu enviarei povos e nações para que, através de ti, eles sejam curados por mim.” Eu não disse nada em palavras naquele instante, e mesmo que tentasse dizer alguma coisa, não conseguiria. Porém, no meu pensamento, eu perguntava: “Senhor, esta obra será realizada através da igreja a que pertenço ou através de outra? E ele me disse: “eu darei o nome da igreja”.
Não contei a ninguém esta minha conversa especial com o Senhor; e por muito tempo ninguém soube do ocorrido entre eu e Deus num momento de plena comunhão. Continuei a buscar a Deus pelas madrugadas, pedindo a ele que me dissesse o nome da igreja, como prometera, para que eu fosse congregar nela; porque eu queria que sua promessa se cumprisse logo em mim. Eu esperava que ele dissesse o nome de alguma igreja já bastante conhecida e abençoada. E qual não foi a minha surpresa quando, após 21 dias de oração, ele me disse o nome: Deus é amor.

Depois que recebi o nome da igreja, fui procurá-la, e fiz isso incansavelmente, mas não conseguia encontrar. Já pensava até que deveria ser uma igreja em outro estado que não o de São Paulo. Foi quando Deus me orientou, dizendo, através de divina revelação do Espírito Santo, que eu deveria fundar uma igreja e colocar-lhe esse nome. Obedecendo a ordem do Senhor, entreguei a congregação da qual tomava conta (...), e sem dizer nada a ninguém, nem ao menos ao pastor dirigente, dei início ao trabalho de fundação de uma nova igreja.

David Miranda construiu um ministério com posturas bastante radicais. Embora em seus programas de rádio dirija-se aos “irmãos católicos, espíritas e evangélicos”, rejeita interação com qualquer grupo religioso. O radicalismo da denominação pode ser observado em seu rigoroso código de usos e costumes.

O regulamento interno demonstra também seu antagonismo às demais denominações cristãs. Não é permitido aos membros, por exemplo, fazer curso de teologia e outros cursos bíblicos nem aprender a tocar instrumentos em outras igrejas.

As proibições, no entanto, não estão restritas apenas ao que vem de outras igrejas. Não é permitido aos membros possuir aparelho de televisão; usar videocassete; tomar anticoncepcional nem usar preservativos; ingerir bebidas alcoólicas.

Ninguém pode assistir aos cultos trajando “roupas escandalosas”, short ou bermuda, a menos que se cubram com aventais ou panos; as mulheres não podem usar calças compridas, em hipótese alguma, nem cinto com mais de dois centímetros e desde que sejam de couro ou pano. Pessoas epilépticas são aceitas na ceia apenas se apresentarem atestado médico, caso contrário serão suspensas até serem libertas.

O regimento também proíbe a venda de discos, nas dependências da igreja ou em frente a ela, de outras gravadoras. Só é liberada a venda de discos da gravadora pertencente à igreja.
Desde sua fundação, a igreja cresceu aceleradamente, e hoje possui mais de oito mil igrejas em quase 140 países. Embora David Miranda tenha sido acusado de envolvimento com lavagem de dinheiro, sonegação fiscal, evasão de divisas e narcotráfico, as denúncias não foram confirmadas.

Durante a segunda onda do pentecostalismo, várias igrejas tradicionais se renovaram, dando origem à Batista Nacional, fundada por Enéas Tognini, à Presbiteriana Renovada, à Metodista Wesleyana e a várias comunidades evangélicas espalhadas pelo Brasil.

O terreno tornava-se cada vez mais propício para a chegada e a expansão do neopentecostalismo, e a Igreja de Nova Vida, no Rio de Janeiro, cooperou muito para inaugurar essa nova faceta da igreja evangélica brasileira.

Igreja de Nova Vida

Fundada pelo bispo Roberto McAlister, a Igreja de Nova Vida foi o agente catalisador do neopentecostalismo no Brasil. McAlister, canadense de nascimento, converteu-se em 1948, aos dezessete anos de idade.43 Fez várias visitas ao Brasil até fixar residência, com a família, em 1959. Seu ministério teve início no Rio de Janeiro, através do rádio. O programa fez tanto sucesso que foi necessário conseguir um local para reunir os interessados.

Em 1961, foi realizado o primeiro culto na sede da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), no centro do Rio. A partir de então, o crescimento foi constante. McAlister enfatizava a cura física e a libertação espiritual, a ponto de fixar no púlpito um cartaz com o seguinte versículo: “Ele perdoa todas as tuas iniqüidades e sara todas as tuas enfermidades” (Sl 103:3).

Mais tarde, McAlister foi para a televisão. Em 1968, publicou um folheto intitulado Mãe-de-santo: História e testemunho de d. Georgina Aragão dos Santos Franco — a verdade sobre a umbanda e o candomblé, em que contava a trajetória de d. Georgina do culto afro para a fé evangélica. McAlister publicou vários outros livros, entre os quais um tratado sobre demonologia intitulado Crentes endemoninhados: A nova heresia, em que refuta a idéia de o cristão ser possuído por demônios.

Até sua morte, em 1993, Roberto McAlister enfatizou a doutrina do dízimo e da mordomia cristã, a ponto de escrever um livro intitulado Dinheiro: Um assunto altamente espiritual, no qual faz a seguinte declaração:

Durante mais de 25 anos de ministério sem falhar uma única vez, tenho assumido o púlpito com duas coisas preparadas: minha mensagem bíblica e o apelo para as ofertas. Pois eu sempre soube que nenhuma das duas pode ser improvisada, resultando quase sempre a improvisação em fracasso.

Da Igreja de Nova Vida saíram os principais líderes do neopentecostalismo brasileiro, como Edir Macedo, R. R. Soares e Miguel Ângelo, fundador e líder do ministério Cristo Vive. A demonologia de McAlister e sua visão sobre o dinheiro ganhariam, no neopentecostalismo, uma roupagem diferente.

* Paulo Romeiro é pastor da Igreja Cristã da Trindade, uma igreja de confissão pentecostal, e professor de Ciências da Religião na Universidade Presbiteriana Mackenzie.