segunda-feira, 30 de maio de 2011

A divisão "tradicionais" e "pentecostais" ainda faz sentido?

Estava visitando uma Igreja Batista tradicional onde minha tia congregava. Ao sair do templo um jovem daquela igreja perguntou para mim: "Olha, qual é a principal característica de uma igreja pentecostal?" E eu respondi: "Certamente a crença que os dons espirituais são uma realidade para a igreja contemporânea!" E ele então falou: "Então a minha igreja é pentecostal"! Esse diálogo aconteceu há seis anos, mas no decorrer desse tempo fiquei pensando sobre essa divisão do protestantismo entre "tradicionais" e "carismáticos" ou entre "históricos" e "pentecostais". A divisão não faz mais sentido se você olhar o protestantismo como um todo!

Wayne Grudem escreveu um dos melhores livros sobre o exercício da profecia na igreja contemporânea. Quem é Grudem? Um teólogo ligado à Convenção Batista do Sul, uma das organizações mais tradicionais da igreja norte-americana. Um dos seminários mais influentes entre os evangélicos do mundo é o Regent College, no Canadá, que tem como professores eméritos os teólogos James Packer, Eugene Peterson e Gordon Fee, um pastor das Assembleias de Deus especialista em Novo Testamento. E o chamado Novo Calvinismo? Nomes como John Piper, Mark Driscoll e C. J. Mahaney já afirmaram sua crença na contemporaneidade dos dons.

E no Brasil? A Igreja Presbiteriana Independente (IPI) aceita oficialmente os dons espirituais como realidade presente. A Diocese de Recife, braço evangelical da Igreja Anglicana no Brasil, tem a mesma posição dos presbiterianos independentes. Os novos calvinistas daqui também são abertos nessa questão como os norte-americanos. Atenção: Não são igrejas que passaram pelo processo da “renovação” como Metodista do Brasil (Metodista Wesleyana), Batista da Convenção (Batista Nacional), Presbiteriana do Brasil (Presbiteriana Renovada) etc. Mas sim, são igrejas que continuam “tradicionais” com a crença na contemporaneidade dos dons.

Essa tendência parece sólida e cada vez mais abrangente. Cada vez mais a divisão pentecostais e tradicionais será irrelevante. Isso também passa pelo processo de formação dos pentecostais, que cada vez mais estão interessados no estudo teológico reformado. É o que o sociólogo peruano Bernardo Campos chama de “historização” das igrejas pentecostais e a “pentecostalização” das igrejas históricas.    

domingo, 29 de maio de 2011

Novo Blog!

Caros amigos do blog Teologia Pentecostal,


Iniciei um novo blog chamado Economia e Política. Como o próprio nome diz, o espaço virtual será de textos sobre assuntos econômicos e políticos. Além da teologia, esses assuntos são do meu interesse. Se você também gosta, eu convido, com muito prazer, que você conheça esse espaço. Há artigos, entrevistas, frases e vídeos sobre os debates contemporâneos envolvendo as esferas econômicas e políticas. 


Isso não significa que o ritmo do Teologia Pentecostal mudará. Neste blog continuará tudo da mesma forma, com os nossos debates teológicos e assuntos que envolvem a Igreja Evangélica Brasileira. 


O blog Economia e Política pode ser acessado no endereço: http://economiapolitica.tumblr.com/


Se você acessa a internet no seu celular ou smartphone, você pode ler o blog no mesmo endereço acrescentando "mobile" no final: http://economiapolitica.tumblr.com/mobile


Infelizmente, o blog Teologia Pentecostal ainda não tem uma versão mobile para celulares e smartphones. O Blogger não disponibiliza esse recurso, mas espero que faça em breve. 

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Lição 09- A Pureza do Movimento Pentecostal

Caros professores de Escola Dominical,


Leia abaixo o texto do amigo César Moisés preparado pela Equipe de Educação da CPAD. 


Ramificações do Moderno Movimento Pentecostal


Por César Moisés Carvalho

Em toda a história, Deus sempre levantou pessoas que se dispuseram a ser instrumentos usados por Ele (At 13.2-5). Por isso, conheceremos um pouco sobre alguns abnegados servos do Senhor que foram, em determinadas épocas, usados pelo Todo-Poderoso para que a chama do Pentecostes continuasse a arder nos corações e a Igreja pudesse cumprir a sua missão (Mt 28.19,20). Veremos ainda como surgiu o chamado “Moderno Movimento Pentecostal” nos Estados Unidos, sua posterior implantação no território brasileiro e constataremos ter sido esta uma bênção de Deus para a nossa nação. Aprenderemos que, diferente do que se pensa, o que aconteceu nos Estados Unidos foi a deflagração do chamado “Moderno Movimento Pentecostal”. O Movimento Pentecostal ou o Pentecostalismo, desde a experiência de Atos 2, nunca se extinguiu. 


AS ORIGENS DO MODERNO MOVIMENTO PENTECOSTAL

Charles Parham, Topeka


Enquanto grandes avivamentos estavam ocorrendo na Europa e no mundo, Deus levantou Charles Fox Parham, pastor de uma Igreja Metodista para que fundasse uma Escola Bíblica, onde ocorreu, no dia 1º de janeiro de 1901, a primeira experiência pentecostal do século 20 nos Estados Unidos. O avivamento iniciado ali se espalhou por todo o país.  Em 1905, Parham mudou-se para Huston, no Texas. Ali, em outro empreendimento para formar evangelistas-missionários, teve como um de seus alunos William Seymour. 

Willian Seymour, Los Angeles

Segundo os historiadores, a igreja que se reunia em um galpão na Rua Azusa 312, em Los Angeles, Califórnia, dirigida pelo pastor Willian Joseph Seymour, é considerada o centro irradiador do avivamento que se espalhou para outras cidades americanas e muitas nações. O pastor Willian não tinha grande eloquência, todavia em seu coração ardia a chama pentecostal, o que levou a igreja a experimentar um rápido crescimento. Os cultos, realizados três vezes por dia, eram marcados por curas, milagres, batismos com o Espírito Santo e abundante manifestação dos dons espirituais (1 Co 12.1-11). O avivamento ocorrido ali tem sido considerado como um dos maiores do século passado, e é denominado de pentecostalismo clássico.

Willian Durham, Chicago
 O avivamento pentecostal também chegou a Chicago que se tornou o centro irradiador do Movimento Pentecostal para a grande maioria das cidades e igrejas americanas que aceitaram a mensagem pentecostal. Um dos “focos” desse avivamento em Chicago foi a Igreja Missão da Avenida Norte, liderada pelo pastor William H. Durham. Devido a igreja em Chicago possuir pessoas de várias nacionalidades, foi justamente de seu despertamento que saíram, em 1910, os suecos Gunnar Vingren e Daniel Berg, fundadores da Assembleia de Deus no Brasil, e o italiano Luigi Franscescon, fundador da Congregação Cristã no Brasil. 


O MOVIMENTO PENTECOSTAL NO BRASIL


Primeira Onda – Pentecostalismo Clássico
Segundo classificação sociológica, o Movimento Pentecostal em nosso país é dividido em três categorias, sendo que a Congregação Cristã no Brasil, fundada em 1910 e a Assembleia de Deus, iniciada em 1911, representam o chamado Pentecostalismo Clássico. O destaque da pregação dos missionários Daniel Berg e Gunnar Vingren era, sem dúvida, o batismo com o Espírito Santo. Contudo, é também reconhecido que a estrutura da mensagem dos dois suecos continha a integralidade do evangelho: “Jesus Cristo salva, cura, batiza com o Espírito Santo e em breve voltará”.

Segunda Onda – Pentecostalismo Neoclássico
Também denominada de deuteropentecostalismo, a chamada segunda onda, mais conhecida como Pentecostalismo Neoclássico, inicia-se nos anos 1950 e vai até 1975. O enfoque desse grupo de igrejas não recaía somente sobre a pregação do batismo com o Espírito Santo e o falar em línguas espirituais (glossolalia), que marcou o pentecostalismo clássico. A ênfase era dada à cura divina e aos milagres. As denominações mais conhecidas do pentecostalismo neoclássico são: Igreja do Evangelho Quadrangular (1951); O Brasil para Cristo (1955); Igreja de Nova Vida (1960); Igreja Pentecostal Deus é Amor (1962); Casa da Bênção (1964); Convenção Batista Nacional (1965); Igreja Metodista Wesleyana (1967) e Igreja Presbiteriana Renovada (1975).

Terceira Onda – Neopentecostalismo
Essa vertente surgiu no final da década de 70, tendo grande similaridade com o movimento neopentecostal dos Estados Unidos, de quem, aliás, copiou as principais práticas. Em nosso país, as principais denominações neopentecostais são: Comunidade Evangélica (fundada em 1976, tendo mudado o nome em 1992, passando a chamar-se Comunidade Sara a Nossa Terra); Igreja Universal do Reino de Deus (1977); Igreja Internacional da Graça de Deus (1980) e Igreja Renascer em Cristo (1986).  
 

O CRESCIMENTO DA IGREJA SOB O FERVOR PENTECOSTAL



Qualidade versus quantidade

Que o fervor pentecostal impulsiona o crescimento da Igreja não há dúvida. Foi justamente para isso que o Senhor no-lo deu (At 1.8). Contudo, crescimento exige cuidado e dedicação (At 15.36; 16.4,5). Infelizmente, nem sempre o crescimento quantitativo vem acompanhado do qualitativo, fazendo com que as igrejas sejam grandes sem serem fortes e sadias espiritualmente. Tal se dá por falta de ensinamento bíblico e maturidade espiritual. Querer imitar práticas pentecostais sem o devido ensino da Palavra ou a integralidade do evangelho, significa tornar-se aberto a todo o tipo de inovação mística desprovida de fundamentação bíblica.

O evangelho completo
A mensagem pregada pelos missionários de que Jesus Cristo salva, cura, liberta, batiza com o Espírito Santo e em breve voltará, continua sendo atualíssima. Os desvios e abusos que têm surgido ao longo de um século de existência não têm afetado a consistência doutrinária da Igreja de Cristo, especialmente, a Assembleia de Deus. Nosso credo não sofreu rupturas nem modificações. Continuamos crendo no batismo com o Espírito Santo com a evidência do falar em línguas, nos dons espirituais, na cura divina e continuamos pregando a volta de Cristo e o arrebatamento da Igreja antes da Grande Tribulação (1 Ts 4.14-18). O evangelho, longe de ser um meio de recebimento de bênçãos materiais, é o poder de Deus para a salvação, a maior bênção que existe (Rm 1.16). 

O verdadeiro mover pentecostal
Mais do que nunca precisamos de um avivamento genuíno, que prime pela ortodoxia bíblica, pela sã doutrina. Em tempos pós-modernos, temos visto algumas práticas que são nocivas para as igrejas pentecostais. Precisamos estar atentos e orar ao Senhor. O que temos visto em nosso tempo? A igreja na atualidade parece estar convivendo com a sonolência (Ef 5.14), insensibilidade espiritual para discernir doutrinas contrárias a fé cristã (1 Tm 1.3,4,6); o secularismo (Rm 12.2); o pragmatismo, o comodismo e a indiferença. O que fazer? Orar e clamar ao Todo-Poderoso pedindo: “aviva, ó Senhor, a tua obra no meio dos anos [...] (Hc 3.2).

Precisamos conhecer a história do pentecostalismo para que possamos clamar ao Senhor um autêntico avivamento venha sobre a nossa nação.  Não podemos deixar que o comodismo e a indiferença venham tomar conta dos nossos corações. Precisamos de um renovo vindo do Senhor. Vamos orar e clamar para que o Todo-Poderoso venha avivar a igreja no Brasil. 

Caros deputados evangélicos!

O que comentar do Kit-Gay? É uma aberração do Estado que ensina a "sexualidade correta". É a propaganda de uma opção sexual transvertida de campanha contra o preconceito. É o onguismo determinando o que é a verdadeira virtude. O Kit-Gay é em si ridículo.  

Então, os deputados evangélicos derrubam essa aberração com uma conversa com a presidente Dilma Rousseff. Legal, não é verdade? Nem tanto assim. Os deputados barganharam com a presidente. Eles ameaçaram convocar o milionário ministro Antônio Palocci (que ficou rico em poucos anos como deputado e "consultor") em uma convocação da Câmara.  Barganha pura! 

Meu Deus! Não se corrige um erro com outro grande erro! Até quando veremos os deputados evangélicos nos levando a vergonha?  

Não preciso comentar mais nada! Só peço que a bancada evangélica não haja como corruptos! Só isso! Ou seria perdir demais?

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Pentecostalismo Clássico e Metodismo

Leia abaixo um artigo escrito pelo teólogo metodista Luiz Wesley* sobre as relações do pentecostalismo com o metodismo na origem do Movimento Pentecostal. O artigo é muito útil para professores de Escola Dominical que tratarão sobre a história do pentecostalismo mundial na próxima Lições Bíblicas das Assembleias de Deus.
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Influências, Similaridades e Conexões Histórico-Doutrinárias


O movimento pentecostal não tem uma só origem, mas muitas. Sua herança rica e diversa, bem como sua marcante presença, experiência e importância na história do cristianismo dos últimos 100 anos, tem chamado atenção de historiadores, teólogos, antropólogos, sociólogos e pesquisadores, dentre eles Donald Dayton, Justo L. Gonzáles, Ruben César Fernandes, David Martin, Vinson Synan e David Stoll, para citar alguns apenas. Estes, na busca por explicação para as raízes do movimento, veem o pentecostalismo como um dos filhos ou desenvolvimentos do movimento metodista ou wesleyano, que fora fundado e liderado inicialmente pelos irmãos João Wesley e Carlos Wesley.
De fato, há fortes evidências de paralelos históricos e doutrinários entre o pentecostalismo clássico, notadamente as Assembleias de Deus, e o metodismo. Do ponto de vista histórico, observa-se que o movimento pentecostal bebeu de “poços” wesleyanos, além de ter encontrado seu nascedouro e fertilidade em meio ao avivamento Holiness (santidade), ocorrido durante a segunda metade do século 19, que também se estribou e se inspirou fortemente no metodismo. O movimento Holiness, que surgiu do coração do metodismo, é tido como o mais importante precursor imediato ao pentecostalismo (2001:2). O historiador e teólogo cubano Justo L. Gonzáles, por exemplo, não tem qualquer dúvida de que o pentecostalismo em geral e, mais especificamente, o movimento pentecostal clássico latino-americano, é um herdeiro de João Wesley (2003:16-18). Segundo Justo Gonzáles, quando o avivamento de Azusa Street começou, 


“muitas igrejas viram-se obrigadas a tomar uma decisão a respeito. Muitas delas rejeitaram o [despertamento] que estava ocorrendo como [se fosse] obra demoníaca… [mas] muitos outros grupos do movimento Holiness abraçaram o avivamento, que mais tarde deu origem às principais igrejas pentecostais, [incluindo] a Igreja de Deus em Cleveland, Tennessee, e as Assembleias de Deus.” (2003:18, tradução minha)


Gonzáles também assegura que o início da interpretação teológica das primeiras experiências do “batismo com fogo” relacionadas à glossolália (falar em línguas estranhas) foi dado por Charles Fox Parham, um ministro do evangelho que havia recebido forte formação metodista (2003:18). Parham teria encontrado no raciocínio, experiência e tradição wesleyana abundante informação para sustentar o “batismo com fogo” em sólidas bases bíblicas e teológicas. 
Para Vinson Synan,


“Foi de Wesley que o movimento Holiness desenvolveu a teologia da ‘segunda bênção.’ Foi o colega de Wesley, John Fletcher, entretanto, quem chamou esta segunda bênção de ‘batismo no Espírito Santo’, uma experiência que [traz] poder espiritual para aquele que o recebe, além de limpeza interior. (…) Durante o século 19, milhares de metodistas diziam receber esta experiência, muito embora ninguém naquele tempo tenha visto qualquer conexão com a espiritualidade de falar em línguas ou quaisquer outros carismas [ou dons]. No século seguinte, Edward Irving [pastor presbiteriano] e seus amigos em Londres sugeriram a possibilidade de uma restauração dos carismas na igreja moderna.” (2001:2, tradução minha)


Desta forma, quando a experiência pentecostal e o próprio pentecostalismo surgiu com força para tronar-se o maior e mais formidável movimento cristão do século 20, já existiam há mais de 100 anos outros movimentos que enfatizavam a “segunda bênção” ou o “batismo no Espírito Santo” (Synan 2001:3). Contudo, em particular os reflexos ou efeitos que o movimento metodista Holiness causou na espiritualidade cristã da época, serviram de sólo fértil para que a semente pentecostal germinasse, crescesse e florescesse para a glória de Deus.


Da chamada “experiência do coração aquecido” que João Wesley teve em 24 de maio de 1738, por ele chamada de “novo nascimento”, vieram as bases da experiência de plenitude de vida ou plenitude do Espírito. Muito frustrado com o trabalho missionário que fora fazer na Geórgia, Estados Unidos, de ver a morte de perto na viagem de navio de volta a Londres, e de descobrir (durante a mesma viagem na qual encontrou-se com cristãos Moravianos) que não possuía convicção de sua salvação pessoal, Wesley abateu-se profundamente. Dias após sua chegada a Londres, numa típica tarde londrina, Wesley foi sem muita vontade para uma reunião na Aldersgate Street. Ele descreve a experiência da seguinte forma:


“Quando cheguei alguém estava lendo o prefácio de Lutero à Epístola de Paulo aos Romanos. Cerca das vinte horas e quarenta e cinco minutos, enquanto ele descrevia a mudança que Deus opera no coração mediante a fé em Cristo, senti o meu coração estranhamente aquecido. Eu senti que agora confiava realmente em Cristo, somente em Cristo, para salvação, e me foi dada a segurança de que Cristo havia perdoado os meus pecados, sim, os meus, e que eu estava salvo da lei do pecado e da morte.” (Diário de João Wesley referente ao ocorrido no dia 24 de maio de 1738, tradução minha, itálico adicionado)


É acurado dizer, então, que Aldersgate Street está para o movimento metodista da mesma forma como Azusa Street está para o movimento pentecostal. E esta é mais uma das várias razões pelas quais o pentecostalismo e o metodismo são tão similares nas suas ênfases e desenvolvimentos originais e experimentais, bem como na identificação com os seus respectivos contextos sócio-econômicos e culturais.


A Perfeição Cristã
Em particular a doutrina da perfeição cristã ou “santificação”, que desde o início ganhou forte ênfase na experiência e espiritualidade pentecostal, teve origem com João Wesley. A doutrina pentecostal da subsequência foi derivada dos ensinos de Wesley a respeito da “segunda bênção”, ou “inteira santificação”. Explorando as origens do movimento pentecostal, Vinson Synan afirma:


“Os pentecostais herdaram de João Wesley a ideia de uma subsequente experiência crítica, frequentemente chamada de ‘inteira santificação’, ‘perfeição em amor’, ‘perfeição cristã’, ou ‘pureza do coração’. Foi João Wesley que propôs tal possibilidade em um dos seus influentes escritos, A Plain Account of Christian Perfection (1766).” (2001:2, tradução minha)


Os escritos de Wesley mencionados por Synan são realmente extensos e compõem vários volumes, demonstrando o quanto Wesley tornou-se apaixonado pelo tema. Entretanto, capturar o exato entendimento de Wesley sobre a perfeição cristã não é tão fácil quanto parece, razão pela qual esta doutrina tem sido interpretada por vários ângulos diferentes e, por vezes, controversos. Contudo, Wesley esforçou-se por relacionar a experiência da perfeição cristã à “mente de Cristo”, isto é, total devoção a Deus, e, portanto, amor a Deus e ao próximo (Dayton 1987:47). O próprio Wesley, sabendo que poderia vir a ser mal interpretado, tentou sintetizar suas ideias da seguinte forma:


“De um ponto de vista, é pureza de intenção, dedicação da vida inteira a Deus. É o dom divino nos nossos corações; é um desejo e desenho comandando toda o nossa disposição [isto é, temperamento, atitude, estado de mente, moldura do pensamento, humor, espírito, constituição, natureza e caráter]. É devotar, não uma parte, mas tudo; nossa alma, corpo e substância para Deus. De outro ponto de vista, é [possuir] toda a mente que estava em Cristo, habilitando-nos a andar como Cristo andou. É a circuncisão do coração de toda impureza, toda poluição interna e externa. É uma renovação do coração na inteira imagem de Deus, a total semelhança d´Aquele que criou [o coração]. E ainda noutra perspectiva, é amar a Deus com todo o coração e ao próximo como a nós mesmos. Agora, tome qualquer uma destas perspectivas que lhe agrade, (pois não há nelas nenhuma diferença material).” (Wesley´s Work, sect. 27, 11:444, tradução minha)


Para João Wesley, perfeição cristã não significa instantânea e absoluta ausência de pecado, mas, sim, o processo pelo qual nossa vida, pelo poder regenerador e purificador do sangue derramado na cruz e pela ação santificadora do Espírito Santo, se conforma (isto é, toma a forma) e se aperfeiçoa segundo a mente de Cristo. Em última análise, perfeição cristã em Wesley pode ser condensada nas expressões “santificação” e “perfeição em amor”, isto é, estar em Cristo e Cristo em nós, e amar a Deus e ao próximo como a nós mesmos. O pentecostalismo, melhor do que qualquer outro movimento surgido após o nascimento do metodismo, soube entender esta doutrina e traduzí-la na prática de vida e missão.


Outras Influências e Similaridades
Dentre outros paralelos históricos, há algumas similaridades básicas entre o pentecostalismo e metodismo. Primeiro, os dois movimentos se desenvolveram no meio da pobreza, na linha extrema da exclusão social. Richard P. Heitzenrater explica que “No estágio inicial do seu desenvolvimento, as sociedades [metodistas] começaram a demonstrar um interesse especial pelas [ansiedades] do pobre e desprovido, dando-lhes comida e dinheiro para suas necessidades, visitando os doentes e aprisionados, e ensinando as crianças dos desafortunados” (1995:23). Para Howard Snyder, este tipo de sensibilidade e preocupação pelo pobre e desvalido foi “especialmente notado no brilho do metodismo [amadurecido]” (Snyder 1996a:15). Esta é a razão pela qual “Os primeiros metodistas eram conhecidos por sua preocupação e cuidado pelo pobre, o estrato da sociedade de onde muitos deles vieram” (Snyder 1996b:142-143). De igual forma, representando o pentecostalismo clássico no Brasil, as Assembleias de Deus também se importaram, se sensibilizaram e cresceram entre os pobres e oprimidos. Além disso, deram respostas relevantes às necessidades daqueles que enfrentavam lutas sociais e econômicas, provendo não somente assistência imediata (comida, roupa, teto etc.), mas também comunidade, senso de pertencimento, rede de relacionamentos de ajuda, reconstrução da identidade pessoal e comunitária, restauração da dignidade humana, participação igualitária, e educação formal e informal.


Segundo, os dois movimentos se desenvolveram reconhecendo a importância fundamental do laicato. Laicato é o mesmo que “leigos”, isto é, cristãos não-profissionais ou que não pertencem a alguma ordem eclesiástica, denotando a distância e a distinção existente em relação aos que possuem treinamento especial e/ou ordenação para o exercício do ministério. Laicato é um termo controverso no seu uso e aplicação, frequentemente substituído ou propriamente expandido pela expressão “Povo de Deus”.


Pois bem, da mesma forma como pentecostais clássicos o fazem até hoje, os metodistas costumavam confiar inteiramente no papel explícito do Espírito Santo como fonte de conhecimento e frutos, bem como nos dons do Espírito para o ministério exercido pelo povo “leigo”, confiando e permitindo que trabalhassem livre e criativamente. Segundo Howard A. Snyder,


“Enquanto o ministério de Wesley se desenvolvia e ele [assim] começou a comissionar um enorme regimento de pregadores leigos, duas opções se apresentaram a ele para explicar biblicamente o que estava acontecendo. A primeira teria sido uma radical afirmação da doutrina do sacerdócio universal de todos os crentes, uma asserção de que, biblicamente e no plano de Deus, todo crente é chamado a ministrar e que as várias formas de ministério são fundamentadas na obra carismática do Espírito Santo, ao invés de estar baseada na credencial institucional da igreja. A outra opção, que Wesley tomou essencialmente, foi admitir a validade normal da ordenação eclesiástica, mas ver o Espírito Santo [pervadindo, enchendo e] traspassando este molde e criando um padrão ‘extraordinário’ de ministério que acontecesse não somente fora, mas também paralelo às estruturas eclesiásticas.” (1996a:155, itálico adicionado, tradução minha)


De fato, tal como aconteceu com as Assembleias de Deus no Brasil, o movimento wesleyano na Inglaterra e na América do Norte tinha uma preocupação especial em “prover liderança que fosse espiritualmente viva, doutrinariamente sonora, e missiologicamente ativa”, como nota Heitzenrater (1995:182). Mais do que qualquer outro movimento na história antes do surgimento do pentecostalismo, ao longo dos primeiros ciclos de sua história, o metodismo “[confiou e] dependeu mais e mais substancialmente nas pessoas leigas que não possuíam educação teológica ou treinamento em liderança religiosa” (1995:182). O líderes eram levantados do laicato. Da mesma dorma como o pentecostalismo clássico, foi através e por causa do laicato que os metodistas íam ao encontro do povo, não esperando que as pessoas, por si mesmas, viessem à igreja. Isto porque, tanto para o metodismo primitivo quanto para o pentecostalismo contemporâneo, a essência da Igreja — a comunidade de crentes cheios do Espírito Santo e enviados para a missão — não dá espaço para qualquer distinção entre clérigos e leigos, exceto quando e onde os papéis sacerdotais tornam-se contextuais e funcionais.


Ontem Ensinou, Hoje Aprende
Se por um lado o metodismo influenciou o movimento pentecostal no passado, por outro lado a experiência do pentecostalismo clássico, mais especificamente as Assembleias de Deus no Brasil, relembra o movimento metodista de suas origens rústicas, porém efetivas ao ter começado, servido e crescido no meio da pobreza na Inglaterra do século 18. O exemplo contemporâneo das Assembleias de Deus, então, é extremamente inspirador quanto a apontar o caminho para os metodistas de hoje no que tange a redescobrirem sua verdadeira identidade enquanto movimento missionário, serem revisitados pela singularidade do poder do Espírito Santo, e fazerem teologia e missão de forma relevante e integral. Da mesma maneira como ocorreu com o pentecostalismo primitivo no nordeste do Brasil e, por extensão, através do país inteiro, o metodismo primitivo em Bristol, Inglaterra, experimentou uma preocupação efetiva pelo pobre e uma humilde identificação com a cultura local, o que conduziu o movimento a ganhar força e estabilidade entre a classe trabalhadora, notadamente entre os pobres que trabalhavam das minas de carvão.


De igual forma, a maneira assembleiana de fazer teologia e missão também denuncia como os metodistas de hoje afastaram-se de suas próprias origens teológicas, eclesiológicas e missiológicas em relação aos pobres e ao laicato. Isto faz com que o metodismo de hoje tente recuperar aspectos que acabaram esquecidos ou negligenciados em sua prática de missão, coisas que o pentecostalismo trouxe à realidade ao aprender, absorver e desenvolver as mesmas premissas teológicas e missiológicas que os metodistas possuíam desde o começo do movimento wesleyano.


Luís Wesley, teólogo metodista. Fonte: blog L. Wesley's COMMUNITÀS

quarta-feira, 25 de maio de 2011

A Igreja Vertical


A Igreja Vertical from iPródigo on Vimeo.

Ajuda da tecnologia

Acabo de descobrir um recurso do BLOGGER que permite postar textos a
partir do celular. Isso é uma boa notícia, pois nem sempre temos tempo
de escrever em casa e postar a partir de um computador pessoal ou
notebook. E os tablets ainda estão muito caros...

Dessa forma, a nossa comunicação por aqui será cada vez mais
interativa. Assim também evita que problemas na internet em casa trave
o ritmo de postagens, como aconteceu na semana passada.

Resumindo: Graças a Deus pela tecnologia!

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Enviado do meu celular

Gutierres Siqueira

terça-feira, 24 de maio de 2011

Uma Igreja Aristocrática

Enquanto o rei canta alegremente, os súditos dançam conforme a música...

O pentecostalismo é bem brasileiro, apesar que o seu nascimento é californiano. Como movimento sociológico, o pentecostalismo abraçou a cultura nacional. Não há fenômeno protestante mais próximo da brasilidade do que o pentecostalismo. Isso é bom. É positivo quando uma igreja dialoga com a sua cultura. Os membros das igrejas estão imersos em uma cultura e a sua igreja faz bem em adaptar a mensagem cristã à nova realidade. Mas a cultura brasileira tem vários pontos bem negativos e, infelizmente, o pentecostalismo também abraçou os vícios da cultura. É o processo do mundanismo que vem desde os primórdios do movimento no Brasil.

Recentemente o francês Dominique Strauss-Kahn, o todo-poderoso ex-diretor do Fundo Monetário Internacional (FMI), foi preso na primeira classe de um voo que saia de Nova York com destino a Paris. Ele é acusado tentar estuprar a camareira do hotel de luxo onde estava hospedado em Times Square. Strauss-Kahn era um dos presidenciáveis para as eleições do próximo ano na França. Ele seria o nome do Partido Socialista contra o atual presidente Nicolas Sarkozy e Marine Le Pen. Strauss-Kahn passou uma semana na Rikers Island, uma prisão comum de Nova York. Strauss teve que pagar uma gorda fiança para passar os próximos dias em prisão domiciliar.

Você já imaginou se o estupro tivesse acontecido em um hotel de luxo de São Paulo? Você acha que aconteceria a mesma coisa? Ele seria preso pela Polícia Federal no Aeroporto de Guarulhos quando já estivesse sentado na primeira classe? Ele ficaria preso em uma das prisões de segurança máxima no interior do estado ou na sede da Polícia Federal em Brasília? Difícil acreditar! O motivo? Na sociedade aristocrática brasileira os mais poderosos são “mais iguais que outros” [1] perante a lei, usando aí um bordão do George Orwell, que mostrou os privilégios da casta de poder na antiga União Soviética (URSS) na ficção A Revolução dos Bichos.

No Brasil, é comum deputado furar a fila em aeroporto, autoridades civis e militares não serem barrados em blitz das rodovias federais e as famosas carteiradas: “Sabe com quem você está falando?”. Os abusos de autoridade são comuns, além dos vários privilégios que altos funcionários públicos recebem neste país. É a mentalidade aristocrática da cultura ibérica. Exemplo recente foram os passaportes diplomáticos para filhos e neto do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. É o patrimonialismo, ou seja, os bens públicos são tidos como privados.

O que isso tem a ver com a igreja?

Tudo! A mentalidade aristocrática está bem presente nas igrejas evangélicas. A hierarquia cristã, que de fato existe na Bíblia, não é de privilégios, mas sim de vários deveres. Em muitas igrejas que usam cadeiras no púlpito colocam a cadeira mais bonita para o pastor. Os periódicos denominacionais usam e abusam da imagem de seus líderes. Alguns pastores são tratados como verdadeiros reis. Infelizmente, essa realidade permeia várias comunidades evangélicas.

Sim, há muitos pastores humildes que muito sofrem para anunciar o Reino de Deus, mas existe na cúpula das denominações um grupo que vive em muitos privilégios em detrimento de outros líderes que sofrem. Ora, pastor é aquele que serve. A vida do ministro do Evangelho não é mesma de um ministro do Estado. Sim, que sejam dadas honras aos pastores, mas sem bajulação. Sim, que os pastores recebem o seu sustento, mas sem privilégios. Sim, que os pastores sejam amados pelas ovelhas, mas que os pastores também amem suas ovelhas.

Que história é essa que líderes denominacionais imponham cotas (leia-se “arrecadação de dinheiro”) para pastores de congregações? Que história é essa que congregações periféricas sustentem os projetos das mega-igrejas de sede? Que história é essa que parte significativa da arrecadação é destinada para uma sede? Que história é essa de ordenar pastores conforme o compromisso pessoal do candidato com o líder? Onde há base para essa centralização usurpadora das finanças de pequenas congregações? Quem lê, entenda!

Sim, já há alguns posts neste blog sobre o mesmo assunto. Mas é um absurdo que isso seja jogado para debaixo do tapete da indiferença. Na última sexta-feira ouvi que alguns pastores fazem “caixa dois” para não mandar todo o dinheiro para as suas respectivas sedes, pois se não fizerem isso não terão dinheiro para gastar na congregação local. Pode-se questionar a questão ética por trás do caixa dois, mas é necessário questionar também o excessivo encargo que é colocado sobre pequenas igrejas e pastores mais simples, que na maioria das vezes nem contestam! Eles só obedecem!

Sim, uma aristocracia manda que os outros façam o que eles não estão dispostos a fazer: sacrifício! O caciquismo é um GRANDE PECADO evangélico, especialmente pentecostal! O caciquismo é MUNDANISMO da pior espécie! Desculpe se o texto está amargo, mas é porque o assunto não é doce!

segunda-feira, 23 de maio de 2011

O maior desafio das Assembleias de Deus é a fragmentação, diz Paulo Romeiro


Entrevista sobre o Centenário das Assembleias de Deus: Paulo Romeiro
Na última sexta-feira o pastor Paulo Romeiro promoveu uma palestra sobre o Centenário das Assembleias de Deus na Igreja Cristã da Trindade, onde ele é o pastor local. O pastor Romeiro falou sobre a história, as qualidades, os problemas e os desafios dessa denominação que marcou profundamente o protestantismo brasileiro.
Paulo Romeiro se converteu, na década de 1970, na Assembleia de Deus de São José dos Campos (SP). Em 1984 foi ordenado pastor pelo Southern California District Council of the Assemblies of God (Concílio Distrital das Assembleias de Deus no Sudeste da Califórnia) nos EUA. Ao voltar para o Brasil fundou a Igreja Cristã da Trindade, uma igreja cuja confissão de fé é assembleiana.
Romeiro é autor de livros clássicos sobre o neopentecostalismo, como: SuperCrentes (1993), Evangélicos em Crise (1995) e Decepcionados com a Graça (2005), todos pela Editora Mundo Cristão. Em 1995 também escreveu um importante livro de apologética clássica com Natanael Rinaldi chamado Desmascarando as Seitas (CPAD). É também co-autor de outros livros. Hoje dá aulas de teologia na Universidade Presbiteriana Mackenzie.
No final do evento o pastor Romeiro falou com o Blog Teologia Pentecostal sobre o Centenário das Assembleias de Deus.
Blog Teologia Pentecostal: Qual a maior colaboração das Assembleias de Deus para o evangelicalismo brasileiro?
Paulo Romeiro: Evangelização. Eu creio que o número de evangélicos cresceu muito no país e isso se deu pelo trabalho de evangelização das Assembleias de Deus, principalmente nas primeiras décadas (do século XX). Eu creio que houve um arrefecimento a partir da década de 1980 e 1990, mas nas décadas anteriores o número de evangélicos cresceu muito por causa das Assembleias de Deus. A Assembleia de Deus trouxe uma grande contribuição neste aspecto. Eu creio que outra grande contribuição assembleiana foi a inclusão social. As pessoas marginalizadas e outras que vieram das cidades interioranas para as grandes cidades receberam a colaboração das Assembleias de Deus para a inserção social.
BTP: Qual o maior desafio para as Assembleias de Deus no pós-centenário?
PR: O maior desafio é a fragmentação. As Assembleias de Deus se fragmentam facilmente. E o processo de fragmentação já é iniciado e continuará se fragmentando. Além da fragmentação existe o problema da pulverização, pois são muitas “assembleinhas” que formam essa grande rede chamada “Assembleia de Deus”. Mas não há como manter uma única liderança e isso fica cada vez mais difícil.
BTP: Muitos dos seus alunos de teologia na Universidade Presbiteriana Mackenzie são oriundos das Assembleias de Deus. Quais são os principais vícios desses discentes?
PR: Alguns deles têm problemas com a espiritualidade pentecostal. Alguns deles acham que a espiritualidade pentecostal é algo ascético. Outros ligam a espiritualidade aos usos e costumes e ao legalismo. Essas são as questões que eles enfrentam em um centro de pesquisa. E também lidam mal com posições expostas que contrariam aquilo que aprenderam, principalmente na área de escatologia.
TP: Você conviveu muitos anos com as Assembleias de Deus norte-americana. Quais são as principais diferenças entre a matriz norte-americana e a brasileira?
PR: Existe uma coesão muito maior nos EUA. A Assembleia de Deus americana não é dividida e o nível de erudição é bem mais elevado. A produção acadêmica é ampla. A questão ética é muito mais levada a sério. As Assembleias de Deus no Brasil têm sérios problemas com a ética cristã.
BTP: O que a Assembleia de Deus representa para você?
PR: É a igreja do meu coração. Eu amo a Assembleia de Deus apesar de todos os seus pecados. A Assembleia de Deus tem muitas qualidades, muita gente sincera e muitos obreiros sérios e gente sofredora que trabalha para a obra de Deus. Muita coisa errada na denominação é praticada por uma minoria. A maioria está tentando viver uma vida piedosa e esperando a volta de Cristo e fazendo o melhor para Deus.

domingo, 22 de maio de 2011

A escatologia enlouquecida não é exclusividade do Family Radio

Mais um grupo marcou a volta de Jesus e errou, como já era esperado. Mas a escatologia enlouquecida não é exclusividade do Family Radio. Já ouvi várias barbaridades escatológicas nos nossos púlpitos. Evidente que nenhuma delas chega nos exageros observados nessa seita. Mas é necessário muito cuidado com a mensagem escatológica.

Jesus foi muito claro: “Quanto ao dia e à hora ninguém sabe, nem os anjos dos céus, nem o Filho, senão somente o Pai” (Mt 24.36 NVI). Isso é um princípio: Não é possível datar a volta de Cristo! Ele virá, mas não sabemos quando! Jesus falou hora e dia, mas isso não significa que seja possível definir o mês ou o ano. Qualquer marcação é absurda!

Somos a última geração antes do arrebatamento”

É comum ouvir essa frase em muitos cultos pentecostais. Ora, quem disse? Uma geração é avaliada em 25 anos. Então, essa pessoa está dizendo que Jesus voltará no máximo em 25 anos. Isso é ou não é uma marcação da volta de Cristo? Evidentemente que essa frase não deveria ser pronunciada por quem leva as palavras de Jesus a sério!

Jesus me revelou que vou ver o arrebatamento”

Essa pessoa está dizendo que Jesus voltará antes de sua eventual morte física. E esse, também, se acha muito especial! Não é verdade? Talvez esse ache que é um novo Enoque, mas Enoque "andava com Deus" (Gn 5.24).

Estamos na última hora”

"Ultima hora" na Bíblia é um intervalo não definido de tempo. Não se refere a uma geração ou uma década, como alguns pregadores tentam passar. Talvez estejamos nos últimos segundos, mas afirmar isso com convicção é uma ousadia irresponsável quando traz o sentido de geração. É uma espécie de marcação. Quando João fala que estamos na última hora (1 Jo 2.18) ele se referia ao intervalo entre a primeira vinda e a segunda vinda de Cristo, como fica claro no contexto: "Filhinhos, esta é a última hora; e, assim como vocês ouviram que o anticristo está vindo, já agora muitos anticristos têm surgido. Por isso sabemos que esta é a última hora". Não falava no sentido que somos a última geração.

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É claro que a mensagem escatológica no Novo Testamento é sempre de iminência. Pregar a iminência da volta de Cristo, como se Ele fosse voltar ainda hoje, é uma coisa. Outra coisa é afirmar “com certeza” que Ele voltará ainda nesta geração. Há diferenças enormes entre iminência e marcação velada!

sábado, 21 de maio de 2011

O genuíno culto pentecostal (Subsídio 02)

Este subsídio foi preparado pela equipe de educação da CPAD.

Leia o artigo sobre o mesmo assunto escrito pelo editor deste blog no link: http://teologiapentecostal.blogspot.com/2011/05/o-genuino-culto-pentecostal.html

Texto Bíblico: 1Coríntios 14.26-33,39,40

INTRODUÇÃO
I. A ADORAÇÃO E CULTO
II. COMPOSIÇÃO DO CULTO PENTECOSTAL
III. MODISMOS LITÚRGICOS
CONCLUSÃO


A ORDEM E REVERÊNCIA NOS CULTOS

É lamentável ver em muitas igrejas, às vezes em igrejas grandes e conhecidas, conversas e cochichos sem fim nos cultos públicos, e o motivo disso é, principalmente, porque o mau exemplo vem do púlpito, onde pastores, presbíteros, etc, julgam-se com o direito de cochicharem uns com os outros e até mesmo durante a pregação da Palavra do Senhor. Isso constitui falta grave.

Muitas coisas gloriosas de que temos exemplo nas Escrituras podem acontecer no culto público, inclusive curas, milagres e maravilhas. Mas no culto público não deve haver falatórios e cochichos nem no púlpito nem na congregação.

A mensagem que o pregador leva é por vezes gravemente prejudicada pelos falatórios e cochichos, pelo andar de crianças nos corredores, pelo chorar de crianças, pelo vaivém de muitos entrando e saindo do recinto do templo sem necessidade, pela formação de bloquinhos nos corredores e por outras irreverências tão lamentáveis. É dever dos diáconos reprimir energicamente tais procedimentos, e cabe ao pastor da igreja fiscalizar para que a ordem seja mantida.

A igreja deve ser regularmente instruída a manter a ordem no culto público, e o pastor deve determinar aos diáconos e auxiliares a respeito.

A ordem nos cultos é essencial ao progresso espiritual da igreja e ao bom conceito do pastor. Uma igreja cujos cultos se realizam em desordem da má impressão aos visitantes e mesmo aos membros que compreendem as coisas de Deus, revela um pastor descuidado e não alcança o desejado progresso espiritual.


O SIGNIFICADO DA LITURGIA BÍBLICA

Introdução

Karl Barth (1886-1968) afirmou certa vez que o culto cristão é o ato mais importante, mais relevante e mais glorioso na vida do homem. Acredito que nenhum cristão, seja qual for a sua orientação denominacional, ousaria contraditar o grande teólogo suíço. Pois todos empenhamo-nos em prestar ao Redentor a mais excelsa das adorações. Além disso, a nossa índole espiritual induz-nos a adorá-lo; é uma necessidade que reivindica pronta satisfação. Mas o que muitos não querem admitir é que o culto, por mais simples e singelo, não prescinde da liturgia.

Alguns movimentos não toleram sequer a hipótese de uma liturgia no culto cristão. Haja vista os pietistas, os puritanos e as comunidades de fé pentecostal. Achamos que a liturgia acabará por destruir-nos a espontaneidade, a modéstia e a beleza espiritual. Todavia, mesmo sem o admitir, temos uma liturgia. Tem início esta quando nos reunimos com o propósito de adorar a Deus na beleza de sua santidade. E prossegue já com a oração e os cânticos congregacionais, e tem continuidade já com a proclamação do Evangelho. E encerra-se com a impetração da bênção apostólica.

Isto é liturgia!

Só há uma maneira de se evitá-la: deixar de se reunir, e não mais celebrar publicamente a bondade divina. Mas enquanto o povo de Deus congregar-se para honrar-lhe o nome, e tributar-lhe deferências e glórias, a liturgia aí estará presente. E nem por isso prejudicará o desenvolvimento espiritual dos fiéis. Pelo contrário: ajuda-los-á a consagrar-se mais ao serviço cristão. Aliás, até mesmo a devoção individual reclama uma liturgia.

Conforme veremos mais adiante, o mal não está na liturgia, e sim no formalismo que vem destruindo igrejas e mumificando grandes movimentos.

1. O verdadeiro sentido da liturgia

A palavra liturgia é originária do grego leitourgia. Esta, por seu turno, é formada por dois vocábulos: leitos, público e ergon, trabalho. Literalmente, significa serviço público. Na Antiga Grécia, o termo era usado para designar uma função administrativa num órgão governamental. Desde a sua origem, por conseguinte, a liturgia tem uma forte conotação com o serviço que os súditos devem prestar ao rei.

O termo passou, com o tempo, a designar o culto público e oficial da Igreja Cristã. Hoje, é definido como a forma pela qual um ato de adoração é conduzido. Numa linguagem mais técnica, liturgia é o elenco de tudo o que concorre para a boa condução de uma reunião religiosa. Teologicamente, a definição é bastante simples: É tudo o que, diante de Deus, exprime a devoção de uma comunidade de fé: cânticos, leituras bíblicas, testemunhos, pregação, movimentos etc.

2. A liturgia no Antigo Testamento

O culto levítico era extremamente pomposo. Em virtude de seu harmonioso elenco de sons e gestos, constituía-se ele num espetáculo de raríssima beleza. Haja vista a observação da rainha de Sabá ao visitar o rei Salomão. A soberana do país do Sul enalteceu a Jeová ao observar como os hebreus portavam-se na Casa de Deus (1 Rs 10.5).

Os ministros do altar não poupavam esforços nem minúcias na condução do culto. Tudo tinha de sair perfeito; nenhum detalhe haveria de ser esquecido. A apresentação do sumo sacerdote, dos ministros da música e dos demais levitas não contemplava a menor hipótese de falha. Nos sacrifícios e oferendas, redobrados desvelos. A atenção dos sacerdotes perseguia o menor descuido. Era uma esmeradíssima e sublimada liturgia.

Na inauguração do Santo Templo, tamanha foi a glória de Deus a baixar no santuário que o cronista viu-se compungido a registrar simplesmente: “E os sacerdotes não podiam entrar na casa do Senhor, porque a glória do Senhor tinha enchido a Casa do Senhor” (2 Cr 7.2).

3. A liturgia no Novo Testamento

Apesar de o Cristianismo não ser uma religião sacerdotal, é impossível dissociar o seu culto da liturgia. Todo culto, aliás, pressupõe uma liturgia, necessariamente. O próprio Cristo ia à sinagoga, e participava ativamente dos serviços aí realizados (Lc 4.16-22). Mais tarde, o mesmo faria Paulo. O primeiro lugar que o apóstolo visitava, ao chegar a uma cidade gentia, era a sinagoga (At 13.5). Em nenhum momento criticou ele o culto hebreu. Pelo contrário: certa vez, propôs-se a fazer um voto essencialmente judaico para não escandalizar a sua nação (At 21.23,24).

Sendo hebreus os primeiros membros da Igreja, o culto cristão, no início, em quase nada diferia do culto judaico. As diferenças, porém, já eram bem nítidas. A começar pelo dia escolhido para a reunião. Se os judeus congregavam-se aos sábados, os cristãos reuniam-se no primeiro dia da semana a fim de rememorar a ressurreição do Senhor (At 20.7). Além disso, em todas as reuniões celebravam a Santa Ceia – a mais importante e solene cerimônia da Igreja.

Enganam-se os que pensam não haver no Novo Testamento um esquema de culto. Atentemos a esta recomendação de Paulo aos coríntios que, embora fervorosos, não sabiam como dirigir suas reuniões: “Que fareis, pois, irmãos? Quando vos ajuntais, cada um de vós tem salmo, tem doutrina, tem revelação, tem língua, tem interpretação. Faça-se tudo para edificação” (1 Co 14.26).

O espírito do Novo Testamento não é contrário à liturgia. É uma necessidade que se impõe ao culto; é um meio teologicamente válido em nossa adoração. Todavia, a liturgia não pode ser um fim em si mesma; é um acessório, não a essência da adoração. Por isso temos de precaver-nos contra o formalismo.

4. O formalismo

É a ênfase exagerada às formas externas da religião em detrimento de sua essência: a plena comunhão com Deus. Também é conhecido como liturgismo e ritualismo. É a liturgia pela liturgia. O formalismo foi muito combatido pelos profetas e por nosso Senhor (Is 29.13; Mt 6.1-6), por ser um obstáculo à expansão do Reino.

A própria Igreja Católica, que ostenta um ritual pomposo e circunstancial, condena o ritualismo que, em sua terminologia, é chamado rubricismo por causa das letras vermelhas que, nos missais e breviários, indicam o modo de se recitar ou celebrar o ofício. Não obstante tal preocupação, os católicos emprestam à liturgia uma importância exagerada. Para o Concílio Vaticano II, a liturgia é a ação sagrada por excelência.

Conclusão

Sejamos equilibrados. Se por um lado não podemos fazer da liturgia um fim em si mesma, por outro não devemos desprezá-la como o faziam os sacerdotes do tempo de Malaquias, que achavam um enfado o culto do Senhor (Ml 1.13). O equilíbrio é fundamental. E se Paulo insta aos romanos a serem fervorosos no espírito, não deixa de recomendar aos coríntios a que tudo façam com decência e ordem (Rm 12.11; 1 Co 14.40).

(Texto extraído do: MANUAL DE LITURGIA DA BÍBLIA OBREIRO APROVADO, CPAD, 2010)

sexta-feira, 20 de maio de 2011

O Genuíno Culto Pentecostal

Na última semana foram escritos dois textos sobre liturgia no Blog Teologia Pentecostal. Neste post há uma análise exegética de I Coríntios 14.26, que é o “texto áureo” da Lição 8, com o titulo O Genuíno Culto Pentecostal.

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Que fareis, pois, irmãos? Quando vos ajuntais, cada um de vós tem salmo, tem doutrina, tem revelação, tem língua, tem interpretação. Faça-se tudo para edificação (I Coríntios 14.26).

Que fareis, pois, irmãos?” O apóstolo Paulo traz para o bem senso quando pergunta sobre o que deve ser feito. Ele está perguntando: “Qual é, então, o resultado desta discussão?”[1]. O apóstolo apela para a conclusão dos leitores coríntios depois do seu discurso sobre os dons (I Co 12-14). É evidente que ele doutrina sobre o uso dos dons, mas não há uma “camisa de força”. Em todas as reuniões deve existir um apelo ao bom senso baseado nas diretrizes bíblicas. O ensino de Paulo não é para o formalismo engessado, mas sim para princípios que nortearão todos os cultos, em todas as épocas e em todos os lugares. Qual é esse norte? A edificação, como se verá mais a frente.

Quando vos ajuntais”. O advérbio da língua portuguesa “quando” vem de uma palavra grega pode ser traduzida por “sempre que” ou “tão frequentemente quanto”, logo trazendo a ideia de regularidade dos princípios ensinados para a prática litúrgica da igreja. A expressão traduzida como o verbo“ajuntar” na ARC é traduzida como “reunir” na ARA, NVI, Bíblia de Jerusalém, Edição Contemporânea, Almeida Século XXI e a NTLH. A palavra grega para reunião usada por Paulo era a mesma usada secularmente para referir-se a reuniões e assembleias públicas. Interessante a resistência nos púlpitos quando alguém chama culto de reunião. Quando a comunidade cristã se reúne para adorar a Deus não é errado chamar esse ajuntamento de reunião. O culto vai além de reunião dominical. O culto é um estilo de vida. O culto do cristão é a vida em 24 horas (cf. Sl 103.1). A reunião cúltica com a comunidade cristã é sempre temporária, mas o culto individual deve ser constante.

Cada um de vós”. Potencialmente, todos os cristãos podem contribuir com sua participação no culto, mas esse versículo não ensina que todos devem dar essa contribuição na mesma reunião. A edificação fica comprometida quando há excesso de “oportunidades”. Acontece em algumas igrejas pentecostais os chamados “cultos de oportunidade”, onde o objetivo é que todos os membros participem. Isso é claramente um exagero. É claro que as igrejas devem resistir a ideia divisória de clero e leigos. Na profissionalização do ministério, com a formação do clero versus leigo, o culto é trabalhado por um pequeno grupo privilegiado. Agora, o outro extremo “laico” é certamente prejudicial.

Stanley Horton lembra: “Não devemos ser como uma audiência de teatro, onde um ou vários atores atuam no palco, enquanto os outros somente ficam olhando” [2]. O culto mais participativo é um grande desafio para grandes igrejas, mas um desafio que deve ser encarado. Uma solução para grandes igrejas são reuniões semanais em pequenos grupos, por exemplo[3]. A edificação da comunidade cristã é um processo mútuo. Leon Morris lembra: “Não deve ser forçado a indicar que cada membro da igreja reunida sempre tinha algo com que contribuir. Mas significa, sim, que se podia esperar que qualquer deles tomasse parte no serviço divino” [4]. E Anthony D. Palma concorda: “A frase 'cada um de vós' não significa que todos devam manifestar ou manifestem um dom, mas potencialmente, pode fazê-lo”[5].

A frase paulina chancela a ideia de que todos podem contribuir com a reunião, mas de diversas formas. Não significa que todos possam assumir o louvor ou a pregação, por exemplo. Uma pessoa que prega e não sabe fazê-lo prejudica a comunidade. Cada um terá o seu papel, mesmo que seja o lindo trabalho anônimo de intercessão. Um dos males da sociedade moderna é o pensamento que todo mundo é talentoso para apresentações. É a mania de “celebridade”. É a síndrome do microfone. Culto também não é uma espécie de programa “Ídolos”, onde todos querem aparecer. Não é bem assim, há muito trabalho anônimo negligenciado, onde as pessoas pode exercer o seu dom (cf. Rm 12. 3-8).

Esses versículos sobre os dons espirituais reforçam que a estrutura eclesiástica na igreja não é aristocrática. Os rumos de um culto não estão nas mãos de uma casta privilegiada. Nada mais distante do cristianismo primitivo do que um culto que, em lugar de adorar a Deus, é centrado nos homens e principalmente na liderança denominacional. Não há espaço no culto cristão para o personalismo, o estrelismo e o comportamento megalomaníaco, infelizmente tão comum das comunidades pentecostais e neopentecostais.

Mas será que as igrejas atuais não fugiram muito do culto primitivo, onde a participação era mais presente? Mesmo as igrejas evangélicas e carismáticas não estariam extremamente presas do esquema “clero versus leigos”. William Barclay levanta essa questão importante:

Claramente, a Igreja primitiva não tinha ministério profissional. É verdade que os apóstolos se destacaram com uma autoridade especial, mas como nesta fase, não houve ministério profissional local. Foi aberta a qualquer pessoa que tinha um dom para usá-lo. A Igreja agiu certa ou errada em instituir um ministério profissional? Claramente, é essencial que, em nossa época movimentada, quando as pessoas estão tão preocupadas com as coisas materiais, alguns indivíduos devem ser separados para viver perto de Deus e levar aos outros a verdade, a orientação e conforto que Deus dá a eles. Mas há o perigo óbvio que, quando as pessoas se tornam pregadores profissionais, eles podem às vezes estar na posição de ter de dizer alguma coisa quando eles realmente não têm nada a dizer. No entanto, deve continuar a ser verdade que, se alguém tem uma mensagem a comunicar, não são as regras eclesiásticas e os regulamentos que devem impedir que isso aconteça. É um erro pensar que apenas o ministério profissional pode sempre trazer a verdade de Deus aos homens e mulheres. [6]

Se o culto ficou muito preso no ministério profissional, em parte, é culpa da própria membresia ávida por receber e pouca disposta a colaborar, como destaca Barclay:

Evidentemente que isso tinha os seus perigos, pois é claro que em Corinto havia aqueles que eram demasiadamente apreciadores do som de suas próprias vozes, mas mesmo assim a Igreja deve ter sido, na época, muito mais da posse real do cristão comum. É bem possível que a Igreja perdeu alguma coisa quando delegou tanto ao ministério profissional e deixou tão pouquinho ao membro comum da igreja. Pode muito bem ser que a culpa não cabe ao ministério por deixar de anexação esses direitos, mas sim aos leigos por abandoná-los. Certamente, é bem verdade que muitos membros da igreja pensam muito mais em que a Igreja pode fazer por eles do que daquilo que eles podem fazer para a Igreja, e estão muito dispostos a criticar o que está feito, mas não estão preparados para tomar qualquer ação em fazer o trabalho da Igreja. [7]

O apóstolo Paulo fala de alguns elementos de culto, como salmos, doutrina, revelação, língua e interpretação. Evidentemente que o culto não é constituído somente desses elementos. Paulo não está fazendo uma lista rígida e fechada, pois são somente exemplos para um culto mais equilibrando. Simon Kistemaker comenta: “Paulo não indica que essa lista seja exaustiva ou que ele esteja registrando uma ordem de culto típica” [8].

Tem salmo”. O louvor é uma parte essencial do culto cristão. A música, acompanhada ou não por instrumentos musicais, sempre foi usada como meio de adoração a Deus. A igreja primitiva cantava os salmos e hinos compostos naquela época e usava o Livro de Salmos como hinário. A palavra salmo, usada por Paulo, não é necessariamente o livro veterotestamentário dos Salmos, mas sim cânticos de maneira geral, inclusive os compostos por Davi e Asafe. Um exemplo de hino composto por Paulo está em Romanos 11. 33-36:

Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como da ciência de Deus! Quão insondáveis são os teus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos! Porque quem compreendeu o intento do Senhor? Ou quem foi seu conselheiro? O quem lhe deu primeiro a ele, para que lhe seja recompensado? Porque dele, e por ele, e para ele são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém!

Veja a mensagem da doxologia paulina. Não é necessário dizer que é muito diferente dos “hinos” compostos nas igrejas pentecostais clássicas. A soberania, o conhecimento, os juízos de Deus são destacados em detrimento de promessas de bênçãos e autoajuda. Deus é de fato exaltado. Interessante é a frase “o quem lhe deu primeiro a ele, para que lhe seja recompensado?”. No hino de Paulo não há espaço para o homem achar que merece algo de Deus. Deus é o senhor e não o serviçal. O homem é colocado no seu devido lugar. Enquanto isso a autoajuda coloca o homem como “o cara” no espaço da boçalidade [9].

Mais é óbvio que esse louvor deve sair do coração e não meramente é um demonstração exterior, como Agostinho escreveu: “O cristão canta a Deus menos pelas palavras do que pelo coração. E o canto só é verdade à medida que expressa emoção interior” [10]. Quem honra somente com os lábios é fariseu.

Tem doutrina”. Reunião cristã sem ensinamento é certamente um grande desperdício para a edificação da igreja. É importante também trabalhar a qualidade desse ensino. Todo ensino demanda planejamento e grande dedicação, como Paulo alertou: “Se é ensinar, haja dedicação ao ensino” (Rm 12.7). Certamente, a principal função pastoral é o ensinamento da Palavra de Deus (Ef 4.11; cf. I Tm 3.2). Certo também é destacar que o ensinamento não está restrito ao ministério pastoral, apesar de bem caracterizá-lo. Infelizmente, em alguns arraias pentecostais, a palavra “doutrina” é sinônimo de “usos e costumes legalistas”. Isso já mostra a falta de doutrina. Mesmo que o ensino seja um dom do Espirito, o esforço humano na dedicação nos estudos é essencial para praticá-lo na igreja.

Tem revelação”. A palavra relevação pode muito bem significar os dons comunicativos, como a profecia, a palavra do conhecimento e a palavra da sabedoria. A Bíblia não menciona em nenhum lugar a expressão “dom de revelação”, tão comum no evangeliquês. Mas os dons de profecia, algumas vezes, trazem o elemento de “revelação” para o consolo, edificação e encorajamento da igreja.

Tem língua”. Claramente refere-se ao dom de variedades de línguas. Lembrando que esse dom, que deve ser exercido para a edificação da igreja, só deve ser pronunciado em público quando existe interpretação (cf. v. 27).

Tem interpretação”. Refere-se a interpretação das línguas. A palavra interpretação no grego pode também ser “tradução”, mas essa “tradução” é vinda do Espírito Santo.

Faça-se tudo para edificação”. Há, é claro, outros elementos de culto não mencionados nesse exemplo dado por Paulo. Mas o cerne da argumentação paulina é a edificação da igreja. O culto é um ato de adoração a Deus e edificação dos cristão. A reunião cristã tem esses dois objetivos. Em tudo deve existir equilíbrio e moderação para que todos saiam edificados. Paulo, como dito no início, apela ao bom senso dos crentes. Gondon Fee observa:

O que é surpreendente em toda essa discussão é a ausência de qualquer menção de liderança ou de quem seria responsável por fazer com que essas diretrizes fossem, em, geral, respeitadas. A comunidade parece ser deixada a si mesma e ao Espírito Santo. O que é obrigatório é que tudo corra ao objetivo da edificação.[11]

Infelizmente, a vaidade impulsiona muitos a participarem do culto para a sua própria glória. São pessoas claramente entregues a megalomania e não estão preocupadas com a edificação da igreja. Querem exercer o dom sem amor (I Co 13). O culto é realmente participativo, mas o participante precisa estar disposta a ouvir atentamente: “Cada um vem preparado para contribuir, mas também igualmente disposto a permanecer silencioso à medida que a necessidade se torna evidente”, como escreveu Paul W. Marsh [12]. Quem fala sabe que deve parar, também, de falar.

O exercício dos dons não é êxtase, não é um meio de “fugir do real” ou um meio de “se sentir bem”; mas sim um canal de edificação de toda a congregação. O culto é edificante ou eletrizante e vazio? O culto é uma adoração a Deus ou um louvor aos homens com potenciais de vitórias? É para levar a essa edificação que uma igreja prepara um culto ordeiro e fiel aos princípios bíblicos.


Notas e Referências Bibliográficas:

[1] RIENECKER, Fritz e ROGER, Cleon. Chave Linguística do Novo Testamento Grego. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 1985. p 323.

[2] HORTON, Stanley. I e II Coríntios: Os Problemas da Igreja e Suas Soluções. 4 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2007. p 138.

[3] “Se levarmos a sério o ensinamento paulino sobre os dons espirituais, vamos encontrar em grupos menores, por algum tempo durante a semana, ambiente em que há oportunidade onde cada um possa ministrar e crescer”. RICHARDS, Lawrence. Guia do Leitor da Bíblia. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2005. p 770.

[4] MORRIS, Leon. I Coríntios: Introdução e Comentário. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 1981. p 160.

[5] ARRINGTON, French L. & STRONSTAD, Roger. (ed.) Comentário Bíblico Pentecostal: Novo Testamento. 4 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p 1030.

[6] BARCLAY, William. The Letters to The Corinthians. 2 ed. Louisville: Westminster John Knox Press, 1975. p 157-158

[7] BARCLAY, William. Idem. P 158.

[8] KISTEMAKER, Simon. Comentário do Novo Testamento: 1 Coríntios. 1 ed. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2004. p 702.

[9] Sobre a qualidade do louvor nas igrejas pentecostais leia esse artigo: http://teologiapentecostal.blogspot.com/2011/05/nao-e-de-hoje.html

[10] FERREIRA, Franklin. Agostinho de A a Z. 1 ed São Paulo: Editora Vida, 2007. p 71.

[11] FEE, Gordon Donald. The First Epistle to the Corinthians. 1 ed. Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans Publishing Co., 1987. p 691.

[12] BRUCE, F. F. (org.) Comentário Bíblico NVI: Antigo e Novo Testamento. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2008. p 1915.