quinta-feira, 30 de junho de 2011

A intercessão dos santos: um diálogo com meu amigo católico

Um grande amigo católico pediu que eu comentasse um vídeo do padre Paulo Ricardo sobre intercessão dos santos. Eu assisti o vídeo e os atentei-me aos argumentos do padre. Escrevi as observações abaixo:
_______

O padre Paulo Ricardo começa o vídeo comentando um versículo da Carta de Paulo a Timóteo, onde está escrito: "Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem" (I Tm 2.5). Ele está correto quanto afirma que a Igreja e os seus membros são sacerdotais, portanto, intercessores. Nós, como cristãos, devemos interceder pelos demais. O próprio contexto da carta paulina fala da intercessão (I Tm 2.1-3). Isso nunca foi problema para o protestantismo, pois a intercessão é bíblica. Ninguém nega que possamos mediar pelo outro. Quando Paulo diz que Jesus Cristo é o único mediador está falando em um contexto soteriológico, ou seja, da salvação pelo sacrifício do sumo sacerdote perfeito e imaculado, o sumo sacerdote que é o próprio cordeiro do holocaust o. Essa mediação salvífica se dá por meio da encarnação ("Jesus Cristo homem"). A palavra "homem" no grego bíblico refere-se a "alguém que possui a natureza humana e, em seu trabalho, manifesta os atributos da humanidade". Jesus se tornou o nosso mediador pela encarnação.

Na primeira parte da resposta não tenho nenhuma discordância importante. O padre Paulo Ricardo enfatiza muito que o corpo de Cristo, a Igreja (com I maiúsculo, não institucional) é intercessora. Isso é verdade (I Pe 2.9), mas não é exatamente o que Paulo fala em I Tm 2.5. Paulo não fala da Igreja, mas da encarnação de Cristo. Não que seja errado falar em Igreja como mediadora, mas não é exatamente isso que o texto escolhido diz. Na epístola a Timóteo o assunto é o Cristo encarnado, o Cristo como homem. Há outros textos que podem sustentar a argumentação da Igreja como intercessora (I Tm 2.1, Hb 13.18, Tg 5.16 etc.).

Sim, os vivos podem e devem interceder.

Os mortos podem interceder por nós?

O padre Paulo Ricardo cita a Carta de Paulo aos Romanos para justificar a intercessão dos mortos. A exegese é criativa, mas somente isso, não passa de criação de mente fértil. Mas falta ciência hermenêutica. O apóstolo Paulo escreveu:

Como está escrito: "Por amor de ti enfrentamos a morte todos os dias; somos considerados como ovelhas destinadas ao matadouro". Mas, em todas estas coisas somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou. Pois estou convencido de que nem morte nem vida, nem anjos nem demônios, nem o presente nem o futuro, nem quaisquer poderes, nem altura nem profundidade, nem qualquer outra coisa na criação será capaz de nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso Senhor. (Rm 8. 36- 39).

Onde que um texto retórico sobre a comunhão eterna do cristão com/em Cristo pode justificar funções sacerdotais no céu? É mera criatividade. O texto somente fala dessa comunhão entre o homem e Deus. É o amor tão forte que nem a morte separa. Onde insinua intercessão nesse texto? É uma interpretação muito subjetiva. Nem é possível especular com essa parte da epístola paulina, pois ela é clara e objetiva.

O padre Paulo Ricardo, então, cita duas passagens do Apocalipse (6. 9-10 e 7. 14-15). Ora, as passagens mostram atos de adoração no céu e clamor por justiça. Há alguma intercessão de um homem morto no céu por um homem vivo na terra? Não, é claro que não. O padre jamais seria capaz de mostrar uma passagem bíblica onde alguém pede ajuda a um cristão morto e enterrado. As passagens dos textos enigmáticos do Apocalipse não mostram intercessões e nem conversas de vivos com mortos, mas sim atos de adoração e culto, logo porque o céu é um lugar de culto.

Polemizar sobre a intercessão é responder uma questão que não foi colocada na mesa. A grande indagação é, sim, sobre a intercessão dos mortos. Ora, não há nenhuma sustentação bíblica para essa ideia. A idolatria, que não é um pecado exclusivo dos católicos, sustentada intelectualmente no paganismo pode, e somente pode, conceder a ideia que devamos orar e pedir algo para alguém que já está morto.


segunda-feira, 27 de junho de 2011

Marcha para Jesus

Não tenho nenhuma simpatia pelo casal Hernandes, da Igreja Apostólica Renascer em Cristo. Aliás, tenho vergonha. Mas essa casal organiza o maior evento evangélico do mundo. E eis que nasce várias questões envolvendo esse evento. Algumas adolescentes e parentes que congregam comigo fizeram a mesma pergunta: - Fomos na Marcha. Você iria? Acha correto ir?

Em 2007 eu fui na Marcha para Jesus. Nunca vi tanta gente na minha vida em um mesmo lugar. Minha ida foi mais curiosidade do que entusiasmo. Vi muita gente alegre, mas ordeira. Vi propaganda dos Hernandes (que estavam presos na época nos EUA) e grupos heterodoxos como Voz da Verdade. Vi coisas positivas e negativas. 

E o que eu respondi para essas pessoas? Respondi que não vejo problema nenhum em alguém ir na Marcha para Jesus. Quem sou eu para proibir alguma coisa? Mas fiz as seguintes observações:

  • A Marcha é personalista. Infelizmente, está focada em “apóstolos” e “bispas”que não representam um bom testemunho.
  • Na Marcha alguns apresentam superstições, como orações anotadas em papéis e colocadas nos sapatos.
  • A Marcha não é culto, é show. Nada contra os shows (os shows são legais), mas nenhum show pode ser chamado de culto. Culto é culto. Show é show. Cada um no seu devido lugar.

Eu poderia responder outras questões, mas fiquei somente nessas. Na minha opinião a Marcha deveria assumir a sua real função: entretenimento evangélico. O reconhecimento da sua realidade seria muito bom. Deveria tirar o foco dos líderes megalomaníacos. Deveria largar as superstições.  

PS: Não participo de campanhas contra a Marcha. Mas depois escrevo um artigo explicando a razão. Não é simpatia. É mera questão de principio. Mas fica para o próximo post.

domingo, 26 de junho de 2011

A Missão Integral e os pentecostais

A Teologia da Missão Integral será tema nas escolas dominicais das Assembleias de Deus pela revista da CPAD (Casa Publicadora das Assembleias de Deus). O assunto é inédito no contexto assembleiano, mas é uma forte tendência há mais de uma década na academia evangélica. A Teologia da Missão Integral é, na verdade, fruto do Congresso Internacional de Evangelização, realizado em 1974, em Lausanne, na Suíça.

Nas igrejas protestantes clássicas, a Teologia da Missão Integral é muito popular, talvez só perde para a Teologia Reformada. Os batistas, os metodistas e clássicos independentes são os mais entusiastas da Missão Integral. Os presbiterianos, é claro, da Teologia Reformada. Os pentecostais, teoricamente, seriam “conversadores” resistentes à ação social e ignorantes no assunto. Há quem defina o pentecostalismo como grupo alienado (sentido sociológico do termo) preso a politicagem e longe da urgência da ação social. Será?

É perigoso generalizar os pentecostais, aliás, a generalização é sempre perigosa. Há conformismo na ação social? Evidente. A teologia dispensacionalista do tipo “o mundo vai de mal a pior” não ajuda na ideia de transformação social? Sim, é claro que a teoria escatológica pode ser paralisante (II Ts 3. 12). Muitas lideranças estão perdidas na politicagem mais mesquinha? Sim, é fato. Mas aí não acaba o universo pentecostal. A ação social dos pentecostais é uma realidade. No Brasil, não há grupo religioso mais próximo dos pobres do que os pentecostais.

A conversão de um bêbado, relato comum nas periferias, é um exemplo de transformação social. Se antes gastava nos “butecos”, agora compra Bíblias de Estudo e planeja estudar um curso de Teologia Básica. Apesar da precariedade desses cursos (básicos demais) é sinal de interesse pela educação. Educação sempre traz crescimento social. É a ação social individualizada. Mas há grandes trabalhos de casas de apoio, creches, cestas básicas, sopões e outras atividades desempenhadas por pentecostais por todo o país. É a ação social coletiva.

Generalizar é uma atividade perigosa. Diferente do que muitos creem, os pentecostais são agentes sociais mais ativos do que o senso comum costuma aceitar. Pode melhorar? Evidente que sim. Aliás, precisa melhorar muito. A politicagem precisa acabar. As igrejas pentecostais precisam criar uma Teologia Pública e lembrar que a influência do Evangelho é muito além de política partidária (o lado mais complicado para uma ação ética). Melhora deve ser uma constante.

________


PS: Em um próximo artigo vou comentar sobre o tipo de “justiça social” buscada pela Missão Integral. Será que a “justiça social” sonhada por muitos não é uma opressão com cores de generosidade e bondade? Será que o combate da pobreza utilizando certos meios não é uma forma de perpetuar a própria pobreza em nome do politicamente correto? Mas fica para um próximo post. 

sábado, 25 de junho de 2011

Lição 13 - Aviva ó Senhor a tua obra

Subsídio preparado pela equipe de educação da CPAD


AVIVAMENTO: A RESTAURAÇÃO DO VERDADEIRO SENTIDO DA VIDA

O salmista orou: “Não tornarás a vivificar-nos, para que o teu povo se alegre em ti?” (Sl.85.6). Ele reconhecia que o povo de Deus era espiritualmente impotente; o fogo da devoção estava baixo; a alegria se fora: “Vivifica-nos”, clamou, mas o que queria dizer? Que é avivamento?
Muitos hoje pensam que o avivamento é uma série de encontros com o fim de acender o interesse pela Igreja. Outros acham que é uma forma de emocionalismo religioso. Mas duvido que tais ideias acerca do termo tenham passado pela cabeça do salmista. 

Avivamento significa acordar e viver. No Antigo Testamento, a palavra para avivamento vem de outra que significa “viver”, que originalmente carregava o sentido de respiração, visto que a respiração é a expressão de vida em todos os seres animados. Daí poder-se dizer dos ossos secos: “Eu porei respiração dentro de vocês e os farei viver de novo” (Ez 37.5 [BLH]; cf. 37.6,14; Jó 33.4; 1 Rs 17.22). Avivamento, ou vida, era “respirar na respiração de Deus”. Como vimos aqui, a ideia enfatizada é que a fonte dessa vida está em Deus.

A palavra correspondente no Novo Testamento significa “ressuscitar” (Ap 22.5; Rm 14.9; cf. 7.9). O termo, conforme usado por Jesus, denota a mudança na vida de um filho pródigo penitente que retorna à casa do pai, no sentido de que o filho que estava “morto” e agora “reviveu” (Lc 15.24,32). Outras palavras comparam o avivamento ao reacender de uma chama que se apagava aos poucos (2 Tm 1.6) ou a uma planta que lança novos brotos e “floresce novamente” (Fp 4.10). 

A ideia básica de avivamento é sempre o retorno de algo à sua verdadeira natureza e propósito. De acordo com a história da redenção, o avivamento pode ser visto como “uma obra diferente e soberana de Deus, em que Ele visita seu povo, restaurando, reanimando e liberando-o para a plenitude de sua bênção”. Por seu poder, “grandes energias, até então adormecidas, são despertadas, e novas forças – que há muito vêm sendo preparadas no interior – ganham vida”. No despertar do avivamento, vem a vida – vida em sua plenitude, vida transbordante de amor e poder divino.

É claro que nem todos os detalhes sobre essa nova vida podem ser plenos. Sendo uma ação sobrenatural do Espírito, há sempre um quê de mistério. Mas uma coisa é certa – no avivamento, homens e mulheres revivem para a vida de Deus.

Transformação pessoal

O avivamento torna-se evidente pela mudança operada no coração pelo Espírito Santo. A extensão de sua ação pode variar, e há diferenças na forma como se expressa, mas o avivamento é manifesto “onde quer que você veja [a vida espiritual] levantando-se de um estado de considerável depressão para uma situação de vigor e força maior”. 

A transformação mais imediata é a renovação da experiência cristã individual. Quando alguém corresponde inteiramente à divina graça, há uma maravilhosa certeza do perdão dos pecados; o coração é limpo, a alma é livre. A fé não vacila ante as promessas de Deus. A oração palpita com o aroma do céu. O amor enche o coração com canções, e o louvor é espontâneo. Ainda há sofrimentos e tentações, mas no centro de tudo está o rosto resplandecente de Deus, brilhando no interior do ser. Cristo é real, a sua paz preenche a alma, sua vitória derrota o mundo. 

Do ponto de vista do cristianismo do Novo Testamento, não há nada de incomum na experiência do avivamento. É assim que as pessoas deveriam sempre viver. Nas palavras de Roy Hession: “É simplesmente você e eu andando pela Estrada em completa identidade com o Senhor Jesus e uns com os outros, com cálices continuamente purificados, deles transbordando a vida e o amor de Deus”. 

Ou, como Charles G. Finney explica, avivamento simplesmente “consiste em obedecer a Deus”, o que significa que é obrigação mais elementar do homem. 

O avivamento, no sentido pessoal, deveria ser uma realidade constante. A ideia de que o avivamento é “algo que ocorre em épocas e períodos especiais” é consequencia da natureza volúvel do homem, não da vontade de Deus. Infelizmente, a maioria de nós experimenta aqueles momentos de apatia espiritual que tornam o avivamento necessário. Mas se vivêssemos continuamente na plenitude do Espírito de Cristo, como Deus deseja, o avivamento seria um estado permanente.  

Nova vitalidade para a igreja

Mas o avivamento implica mais que bênçãos pessoais. Quando pessoas se despertam para a realidade de Cristo e essa experiência é multiplicada em outras vidas, a igreja sente uma nova unidade de fé e propósito – uma genuína comunhão no Espírito.  Quando os crentes são aproximados da Cabeça do corpo, eles são “aproximados uns dos outros em amor santo”. Isso não implica em acordo fechado em qualquer situação, mas, de forma bem marcante, o avivamento cria um ambiente em que discípulos de verdade, sinceros, caminham juntos, enquanto as diferenças menores são resolvidas no compromisso maior de uma missão comum.  

Ao encher nossos corações, o amor de Cristo nos faz preocupar com as pessoas a quem Deus ama e por quem Ele deu seu filho. Dessa compaixão, nasce a força que compele à evangelização. O mandamento de fazer discípulos de todas as nações não pode ser desprezado. No mesmo espírito, nossa preocupação social se volta para os oprimidos e aflitos. A obrigação torna-se uma alegria. O amor transborda naturalmente quando o coração está cheio. 

É inevitável que a sociedade sinta o impacto de uma renovação entre os cristãos. Quando o Evangelho progride em palavras e ações, o mundo percebe que aquelas pessoas estiveram com Jesus. Os pecadores são tocados e passam a buscar o salvador. Restituições são feitas. Lares destruídos são restaurados. Os padrões morais do povo melhoram. A integridade começa a ganhar espaço no governo. À medida que o Espírito do avivamento prevalece, a misericórdia, a justiça e a honestidade vão enchendo a terra. 

Texto extraído da obra “A Chegada do Avivamento Mundial” de Robert Coleman, editado pela CPAD. 

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Debate Chesterton x Blachford - Dramatização - Theater Of The World Inc.



Chesterton versus Blatchford: a irracionalidade do racionalismo

O debate que vai encenado abaixo jamais ocorreu face a face, mas se desenvolveu nas páginas do jornal Clarion, de Robert Blatchford, um comunista ateu muito influente em Londres no tempo de Chesterton. Chesterton escreveu quatro artigos, dos quais dois estão traduzidos neste blog (http://angueth.blogspot.com/2010/05/milagres-e-moderna-civilizacao.html e http://angueth.blogspot.com/2006/06/porque-acredito-no-cristianismo1.html), em resposta aos argumento de Blatchford.

PS: O debate é inteligente e, como não poderia deixar de ser, engraçado!

Versão Mobile

Agora é oficial. O Google criou uma versão do BLOGGER para internet em celulares. Antes os navegadores de celulares faziam uma adaptação, que gastava mais dados do que uma versão mobile tradicional.

No PC ou no celular, vamos aos nossos debates!

terça-feira, 21 de junho de 2011

Recomendações

Caros leitores,

Sempre recomendo livros, teológicos ou não, aqui no Blog Teologia Pentecostal. Hoje quero recomendar uma revista de cultura e um clássico do século XX.

01. Revista “Dicta & Contradicta”

A revista Dicta & Contradicta (Editora Civilização Brasileira) está no seu sétimo volume, mas cada número é recomendável. A Dicta tem cara de livro, mas é um periódico semestral com textos da área de humanas. A última edição apresenta textos imperdíveis, como:

Quando a política do Oriente Médio invade o Campus, por Andrew Roberts

O texto comenta escandalosas campanhas contra o Estado de Israel em famosas universidades europeias, em uma versão “progressista” do velho e perigoso antissemitismo. Muitos pensadores israelenses são até mesmo boicotados. Alguns "pensadores" muçulmanos radicais, que defendem a morte de homossexuais, por exemplo, são convidados dessas universidades para demonizar Israel e defender o fim do Estado israelense. Não que Israel seja um país perfeito, mas a única democracia do Oriente Médio sofre censuras contantes na academia ocidental e na ONU. O artigo mostra vários exemplos dessa campanha antissemita.

Cesare Battisti – Memórias de um homem condenado, por Anthony Daniels

No último dia do mandato, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva concedeu refúgio ao terrorista italiano Cesare Battisti. A Itália ficou revoltada com a atitude do ex-presidente, logo causando problemas diplomáticos. Nesse texto, o ótimo ensaísta Anthony Daniels fala sobre a relação amorosa de alguns intelectuais com causas violentas e assassinas, como de Cesare Battisti.

Ateísmo ou superstição – A inatualidade de um problema contemporâneo, por Rémi Brague

Texto filosófico e histórico sobre concepções sobre ateísmo e superstição.

Ainda cabe falar de certo e errado?, por Renato José de Moraes

Outro texto filosófico trata sobre a lei natural. Aliás, é um ótimo artigo que mostra a irracionalidade da única verdade absoluta desses dias: o relativismo.

02. Livro "1984", de George Orwell

O Grande Irmão está de olho em você”, lembra o slogan do Partido que cuida de cada aspecto da vida dos cidadãos aprisionados por um totalitarismo cruel. O coletivismo é duramente criticado nessa ficção fantástica de Orwell. A história mostra como o Ministério da Verdade e a Polícia do Pensamento cuidam que a liberdade não seja uma ameça ao reinado do Grande Irmão. O personagem Winston Smith não se conforma com essa ditadura e a história mostra a dificuldade dessa luta. 

domingo, 19 de junho de 2011

A infalibilidade pastoral

Há um pensamento extremamente perigoso no meio evangélico. Alguns acham que devem obediência aos pastores biblicamente equivocados. Em debates sobre “usos e costumes” são muito comuns conclusões do tipo: “Se você escolheu essa igreja (legalista) deve obedecer os costumes ensinados pelos pastor mesmo que biblicamente ele esteja equivocado”. Outros dizem: “Se você não cumpre o costume (tradição) ensinado pelo seu pastor é um pecado de desobediência”. E os mais radicais concluem: “Se você não concorda com o costume deve procurar outra igreja”!

Como assim? Que dizer que a autoridade pastoral está acima das Sagradas Escrituras? É um tipo de autoridade (ou seria autoritarismo?) que nem a Igreja Católica Apostólica Romana concedeu ao bispo de Roma, logo porque a infalibilidade papal é, segundo a doutrina católica, em falas especiais (ex cathedra). A infalibilidade pastoral é ainda pior, pois não encontra limites. Se a doutrina da infalibilidade papal deve ser descartada, logo imagine a doutrina sutil e não documentada da infalibilidade pastoral!

Três princípios básicos

Pedro e os outros apóstolos responderam: É preciso obedecer antes a Deus do que aos homens! (Atos 5.29 NVI)

O contexto é claramente contra o juizado religioso, conhecido como Sinédrio, que proibia a evangelização efetuada primeiros cristãos. Mais importa obedecer a Deus do que os religiosos do Sinédrio, defendeu Pedro e os apóstolos. Como defender essas ideias depois de ler o versículo citado? Nenhum religioso está acima das Sagradas Escrituras, mas isso é um tanto óbvio!

Filhos, obedeçam a seus pais no Senhor, pois isso é justo. (Efésios 6.1 NVI)

O texto não fala de pastores, mas o princípio ensina sobre obediência. Um filho cristão deve obedecer os seus pais, mesmo que esses não sirvam ao Senhor. Mas essa obediência é “no Senhor”, como diz o texto bíblico. Ora, nem os pais podem obrigar uma pessoa a obedecê-los acima de Deus, logo imagine um pastor diante de sua congregação. Nem a palavra de um pai é infalível diante dos filhos, muito menos de um líder religioso.

Obedeçam aos seus líderes e submetam-se à autoridade deles. Eles cuidam de vocês como quem deve prestar contas. Obedeçam-lhes, para que o trabalho deles seja uma alegria e não um peso, pois isso não seria proveitoso para vocês. (Hebreus 13. 17 NVI)

O texto fora do contexto é pretexto para heresia. Certamente você já ouviu essa frase verdadeira. Ninguém pode usar o texto de Hebreus para justificar uma obediência cega, logo porque a Bíblia apresenta outros princípios complementares. Agora, se o pastor está de fato na Palavra, então cabe a obediência, pois estará obedecendo a Deus.

Portanto, não podemos aceitar uma versão piorada da doutrina da infalibilidade. O protestantismo não é baseado na autoridade de homens, mas não autoridade das Sagradas Escrituras. Será necessário pregar 95 teses nas portas das igrejas evangélicas contra a autoridade de alguns pastores?

___________

PS: Ontem não foi possível escrever um texto parabenizando a minha denominação, a Assembleia de Deus, pelo seu primeiro centenário. Faço isso agora. Fiquei feliz lendo várias mensagens no Twitter e Facebook de cristãos de várias denominações parabenizando e reconhecendo a trabalho dessa igreja. Em breve escreverei um artigo sobre os principais desafios do pós-centenário. 

sábado, 18 de junho de 2011

Lição 12 - Conservando a pureza da doutrina pentecostal

Subsídio preparado pela equipe de educação da CPAD


Significado teológico de “verdade”

Por Anderson Grangeão da Costa


Antes de tudo, é preciso advertir que o assunto da verdade é tema muito amplo; os pontos que se seguem são observações fundamentais, que requerem um estudo mais extenso. Nas Escrituras, a palavra “verdade” retém primeiro seu sentido comum, natural. Neste caso, suas acepções básicas agrupam-se sob aspectos intelectuais e morais: “realidade”, “exatidão”, “genuinidade”, “legitimidade”, “validade”, “confiabilidade”, “sinceridade”.


Entretanto, nas Escrituras, palavras de uso comum adquirem significados especiais, elevados, pelo fato de constituírem os meios materiais de comunicação da revelação divina. Deus, querendo dar ao homem o conhecimento necessário dos grandes fatos relativos à sua salvação, agradou-se transmiti-los por palavras, que assumiram significados novos. Para além de seu uso normal, a verdade passou a acumular significados que remetem à esfera espiritual, relacionados diretamente com a revelação de Deus.


Em sentido teológico, a verdade refere-se, em primeiro lugar, ao próprio Deus. A verdade, inclusive, é um de seus atributos, pelo qual se afirma que Ele é absolutamente verdadeiro, em si mesmo e em tudo quanto declara. Esse sentido da verdade estende-se, então, à realidade espiritual; se, em seu uso comum, a verdade relaciona-se com a realidade, em seu uso especial relaciona-se com a realidade das coisas espirituais e eternas. A verdade, em termos teológicos, também se refere à revelação divina; com revelação, queremos dizer o ato pelo qual Deus dá ao homem conhecimentos, dele e de toda realidade espiritual, que lhe seria impossível alcançar por quaisquer outros meios (Mateus 11.25,26). Então, como acontece com a revelação, a verdade refere-se igualmente a Jesus Cristo, a Palavra divina, o Revelador do Pai (João 1.18); por ser o Filho do Pai, Ele não somente revela a verdade, mas Ele é a verdade mesma. Por fim, a verdade refere-se ao próprio registro da revelação divina, as Escrituras Sagradas; a verdade outrora revelada foi, por último, colocada na forma escrita, e este registro inspirado corresponde agora aos livros de nossa Bíblia. Pelo fato de as Escrituras representarem a forma escrita da revelação, consequentemente o conceito de verdade abrange todas as doutrinas ou ensinamentos que derivam dela.


Considerando estes pontos, concluímos que a verdade inclui os grandes fatos relativos à revelação divina, seu conteúdo e seus meios, desde o conhecimento de Deus até o registro de sua revelação: Deus (que é a verdade) revela-se (apresenta a verdade acerca de si mesmo) ao homem por seu Filho, Jesus Cristo (que é a verdade), e sua revelação constitui os escritos produzidos sob a santa inspiração, a Palavra de Deus (que é a verdade).


Definida conforme nossa descrição, a verdade não pode ser alcançada pelo homem, no uso de suas faculdades naturais. Evidentemente, esses sentidos especiais do termo só podem ser apreendidos mediante revelação divina; por serem sentidos espirituais, só podem ser assimilados por uma mente em condições espirituais adequadas, iluminada pelo Espírito Santo. Em outras palavras, a compreensão da verdade, em suas várias referências espirituais, requer antes o conhecimento da verdade (João 17.3).

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Centenário das Assembleias de Deus no "Jornal Nacional"

O centenário das Assembleias de Deus no Brasil foi notícia no Jornal Nacional, da Rede Globo. O telejornal mais assistido do país destacou a festa de comemoração em Belém (PA). Além disso, a reportagem destacou a assistência social da igreja. Nesse próximo sábado a denominação completa 100 anos de história.


É interessante o destaque social da matéria. A Assembleia de Deus nasceu em uma comunidade pobre, com europeus pobres e nativos igualmente necessitados. Cresceram nas favelas das grandes metrópoles, nas cidades do sertão e no meio da floresta amazônica. A influência social é muito positiva. A denominação também foi um importante instrumento na evangelização do país.


Socialmente falando, a Assembleia de Deus é um marco na vida de várias famílias pobres. Se antes gastava-se dinheiro em bebidas, vícios e trivialidades; depois da igreja as vidas mais ajustadas procuravam educação, investimento na família e um bom convívio com a sociedade. Teologicamente falando, é o trabalho de conversão do Espírito Santo na vida do homem que o transforma em uma nova criatura.


Assista a reportagem no link:


http://g1.globo.com/videos/jornal-nacional/v/igreja-assembleia-de-deus-completa-100-anos-de-existencia/1538548/#/Edições/20110616/page/1


O sábado é um dia de comemorações. Não comemorações personalistas e idólatras, mas sim um momento de agradecimento a Deus pelos cem anos de história viva e marcante. O sábado será também uma ótima oportunidade para pedir ao Senhor mais cem anos de história, todavia agora mais marcadas pelas paixões de homens santos e menos pelas brigas dos egos.


Que a nossa celebração seja de fato uma grande festa. Não triunfalista, nem uma autocelebração, mas sim um momento de alegria com reflexão sobre o futuro que nos espera. Que Deus abençoe a Assembleia de Deus e os milhares de anônimos que trabalham dia e noite pelo bem da Igreja (com I maiúsculo) e pelo bem dos homens.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Orando e pecando!

É possível pecar com uma oração? Sim, é claro que sim. Nós pecamos todas as vezes que oramos pensando que aquela prece é em si a nossa salvação. Nós temos a tendência de pensar, lá no íntimo, que agora merecemos o céu porque somos pessoas "piedosas" (cf. Mateus 19. 16-26; Lucas 18 9-14). A salvação do homem não deve ser baseada nos méritos próprios, sempre imperfeitos, mas sim nos méritos de Cristo (cf. Efésios 2.8). Isso não significa ausência de oração, mas sim uma nova qualidade para a oração, que deixa de ser um sacrifício para um ídolo sedento e passa a ser uma conversa de pai e filho.  

Outra forma de pecado é a nossa constante negligência (cf. Tiago 4.17). Sabe aquelas orações que fazemos para escapar da ação? C. S. Lewis escreveu: 

Oro muitas vezes pelos outros quando devia estar fazendo algo por eles. É muito mais fácil orar por  um sujeito chato do que visitá-lo. O outro motivo é parecido com o primeiro. Imagine que eu ore para que você receba graça suficiente para suportar um pecado que tanto o importuna (uma pequena lista de candidatos a esse posto será enviada mediante solicitação). Bem, todo o trabalho precisa ser executado por Deus e você. Se oro para vencer um pecado que me importuna, haverá serviço pela frente. Às vezes, as pessoas se recusam a admitir que algo é pecado por esse mesma razão. [1] 

Uma prática abominável, mas ainda praticada, é a oração de vingança. É necessário rasgar o Sermão do Monte para orar pedindo que outra pessoa "quebre a cara", "veja meu sucesso", "esteja na plateia e eu no palco"... São orações que expressam um espírito pequeno e vulgar, típico de pessoas imaturas. Graças ao bom Deus que ele não atende todas as nossas orações. O desejo de vingança, muitas vezes escondida sob o manto da "justiça", é certamente um soco no rosco de Cristo, que nos deu um belo exemplo de tratamento dos inimigos.  

Outro pecado é a oração cujo desejo é mesquinho. Quantos dos nossos desejos não estão baseados em sentimentos ruins? O apóstolo Tiago escreveu: "Cobiçais e nada tendes; sois invejosos e cobiçosos e não podeis alcançar, combateis e guerreais e nada tendes, porque não pedis. Pedis e não recebeis, porque pedis mal, para o gastardes em vossos deleites" (4. 2-3). É aquela oração movida pela inveja e cobiça, é a oração que busca algo pelo status. É a oração que vê Deus como um gênio da lâmpada pronto para atender os nossos pedidos infantis.  É a oração que cria a imagem de Deus como mero serviçal dos nossos caprichos. É quando nos comportamos como filhos mimados. É a oração que diz: "Deus, me atenda ou senão saio da igreja ou eu rasgo minha Bíblia". Há quem pense que possa determinar algo do Senhor! (?).  

A oração deve ser vista como o lindo momento de conversa com Deus. Inclui pedidos? É claro que sim. Mas a essência está na intimidade.  

Referência Bibliográfica: 

LEWIS, C. S. Oração- Cartas a Malcolm: Reflexões sobre o diálogo íntimo entre homem e Deus. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2009. p 87.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Violência e Religião

Clique na imagem para ampliar.


Como é pregar o Evangelho em lugares dominados pelo tráfico? Essas e outras questões serão abordadas pelo professor Ricardo Bitun, que falará sobre o trabalho das igrejas evangélicas nas favelas cariocas. O professor Bitun está desenvolvendo um trabalho com seus alunos sobre esse tema. A palestra será nessa sexta.

domingo, 12 de junho de 2011

Eu não sou fiscal de igreja!


Como blogueiro cujos textos giram em torno dos problemas da Igreja Evangélica brasileira devo evitar uma tentação constante: achar que sou fiscal de igreja. O exercício da apologética no cristianismo é a defesa da fé cristã. A defesa não é uma afronta, ou seja, a apologética não é o "ataque efetuado pela fé cristã". Quando a igreja achou que deveria partir para a "caça às bruxas" fez uma inquisição. A defesa da fé cristã é uma reação e não uma ação. A diferença entre esses tipos de apologética estão em um limite muito estreito, então todo o cuidado é pouco para não deixar de defender a igreja dos "lobos e falsos profetas" e também não virar uma espécie instituição policial. 

Por que não podemos ser uma instituição inquisidora? Vejamos as palavras de Jesus:  

Jesus lhes contou outra parábola, dizendo: "O Reino dos céus é como um homem que semeou boa semente em seu campo. Mas enquanto todos dormiam, veio o seu inimigo e semeou o joio no meio do trigo e se foi. Quando o trigo brotou e formou espigas, o joio também apareceu. "Os servos do dono do campo dirigiram-se a ele e disseram: ‘O senhor não semeou boa semente em seu campo? Então, de onde veio o joio? ’ " ‘Um inimigo fez isso’, respondeu ele. "Os servos lhe perguntaram: ‘O senhor quer que vamos tirá-lo? ’ "Ele respondeu: ‘Não, porque, ao tirar o joio, vocês poderão arrancar com ele o trigo. Deixem que cresçam juntos até à colheita. Então direi aos encarregados da colheita: Juntem primeiro o joio e amarrem-no em feixes para ser queimado; depois juntem o trigo e guardem-no no meu celeiro’ ". [Mateus 13. 24-30 NVI] 

A parábola do joio e do trigo não ensina que devamos separar o joio (representação do falso) do trigo (representação do verdadeiro). Jesus conta que o dono da plantação adverte que esse processo não deve ser feito, pois os plantadores corriam o risco de arrancar o trigo junto com o joio. A separação completa dos grãos seria somente na colheita, ou seja,  "assim como o joio é colhido e queimado no fogo, assim também acontecerá no fim desta era. O Filho do homem enviará os seus anjos, e eles tirarão do seu Reino tudo o que faz tropeçar e todos os que praticam o mal. Eles os lançarão na fornalha ardente, onde haverá choro e ranger de dentes. Então os justos brilharão como o sol no Reino do seu Pai. Aquele que tem ouvidos, ouça" (Mateus 13.40-43). 

O teólogo inglês Matthew Henry (1662- 1714) fez o seguinte comentário sobre a separação do joio e do trigo: 

Não é possível a nenhum homem distinguir infalivelmente entre joio e trigo, pois ele pode se confundir; e assim aqui está a sabedoria e graça de Cristo. Ele permitirá que o joio cresça, para que não coloque, de maneira alguma, o trigo em perigo. Certamente os ofensores escandalosos devem ser censurados, e devemos nos separar deles; aqueles que são, abertamente, filhos do maligno, não devem ter o acesso permitido às ordenanças especiais. Mas ainda assim é possível haver uma disciplina que seja tão equivocada em suas regras, ou tão condescendente em sua aplicação, a ponto de ser perturbadora para muitos que são, verdadeiramente, servos de Deus e conscienciosos. Grande cautela e moderação devem ser usadas pela igreja ao infligir e manter censuras, para que o trigo não seja pisado, nem arrancado. A sabedoria do alto é tão pura quanto pacífica, e aqueles que se opõe não devem ser desligados, mas instruídos, e isto deve ser feito com mansidão (2 Tm 2.25) Alguns entendem que se o joio continuar sob os meios da graça, ele pode se tornar um bom grão; portanto, tenha paciência com ele. [1] 

Com Henry destaca, nós devemos tomar cuidado com o rigor da disciplina ao ponto de não matar. A igreja é lugar de resgata e vida. O remédio foi desenvolvido para curar doenças, mas quando a dose é muita alta, o remédio vira um verdadeiro e poderoso veneno. A nossa apologética deve ser o resgate da doutrina e do enganado, mas não uma violenta caça aos hereges. A igreja cristã não deve ser agente perseguidor. Nunca, jamais podemos agir como zelo ausente de misericórdia. Logo porque a igreja nunca será perfeita e sem a mistura de algum joio, como lembra R. T. France comentando a parábola: "Essa parábola (joio e trigo) nos adverte de que o teste supremo não será nas atuais aparências, mas no juízo final. Até lá, os discípulos devem ser pacientes e não esperar ser capazes de colocar todos em seus devidos lugares. A igreja na terra sempre será uma comunidade mista". [2] 

Portanto, que não venhamos a pecar pelo excesso!  

Referências Bibliográficas: 

[1] HENRY, Matthew. Comentário Bíblico Mattew Henry: Novo Testamento de Mateus a João. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2008. p. 169-170 

[2] CARSON, Donald (ed). Comentário Bíblico Vida Nova. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 2009. p 1385.