quarta-feira, 31 de agosto de 2011

A demonização do verbo "inovar"

Nos ambientes mais legalistas da Igreja Evangélica Brasileira é comum frases do tipo: "Nós não precisamos de inovação, mas somente de renovação". Tal frase é uma tremenda bobagem. O motivo? Simples, inovação já é um sinônimo de renovação.  

A palavra "inovação" [Do latim: innovare] significa etimologicamente "renovação".  Na língua portuguesa, segundo o Dicionário Houaiss, o termo apresenta duas acepções: 

1    Tornar novo; renovar, restaurar; 
2    introduzir novidade; fazer algo como não era feito antes. 

No primeiro sentido, vemos que a igreja como instituição divina humana precisa de renovo. Biblicamente falando, todos os cristãos precisam de avivamento. É a vida de volta. É o primeiro amor retornado. Certamente nenhum cristão despreza a urgência dessa verdade. Avivamento não é fruto de uma reunião ou uma programação pirotécnica, mas sim o despertamento da piedade e a transformação constante do caráter mediante a graça regeneradora do Espírito Santo.  

No segundo sentido, vemos que a igreja como instituição humana precisa dialogar com o seu tempo. Os seus valores e princípios são eternos, mas a sociedade onde ela está inserida muda constantemente. É necessário inovar. Não há igreja tradicionalista que nunca tenha inovado. Inovar é também "fazer o que não era feito", mas não que seja necessariamente um "desprezo pelo que já foi feito". É inovação sempre deve partir da tradição. Logo devemos perceber que "nada se pode fazer do nada", como diziam os romanos [Do latim: De nihilo nihilum]. 

A inovação equilibrada respeita o valor da tradição. A inovação equilibrada aponta somente para o fato óbvio que a tradição é importante, mas limitada. A igreja cristã deve ser conservadora, mas dinâmica. Conservadora para desconfiar das promessas ditas progressistas, mas dinâmica para perceber quando e onde avançar. O equilíbrio não é uma tarefa trivial. Então, nada de tradicionalismo ou "rebeldismo sem causa". É a busca de diálogo com o tempo em conformidade com os princípios da Palavra Eterna.

É também evidente que há péssimas inovações. E algumas igrejas tradicionalistas introduziram hábitos ruins no modus operandi evangélico. O que adiante vestir a capa do tradicionalismo quando se faz inovação de qualidade duvidosa e que despreza a riqueza da Palavra de Deus e toda a tradição teológica do cristianismo histórico? Muitos que condenam o verbo "inovar" já inovaram de maneira errada. 

terça-feira, 30 de agosto de 2011

John Piper em São Paulo!

Além de pregar em Águas de Lindóia (SP) e no Rio de Janeiro (RJ), o pastor reformado John Piper dará duas palestras em São Paulo (SP), na Universidade Presbiteriana Mackenzie. Veja as informações no cartaz abaixo:

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Evangelho



Eis uma forma criativa e interessante de apresentação dos simples conceitos do Evangelho. O vídeo é uma amostra como a internet pode (e deve) ser usada para a transmissão das palavras de Jesus na linguagem dos mais jovens e daqueles antenados no mundo da web. É a multiforme manifestação da Graça de Deus.

sábado, 27 de agosto de 2011

Lição 09 - Preservando a identidade da igreja

Subsídio preparado pela equipe de educação da CPAD

A IDENTIDADE DA IGREJA: SECULAR E RELIGIOSA, por Esdras Costa Bentho*

Certos teólogos definem o substantivo evkklhsi,a a partir da justaposição da preposição evk (ek), “fora de”, com o verbo kale,w(kaleō), traduzido por “chamar”, “convocar”. Esta primeira posição é defendida por Chafer.1 De acordo com essa acepção, vkklhsi,asignifica “chamado (kale,w) para fora (evk)”.2 Alguns biblicistas, como Karl Schmidt, entendem que o vocábulo procede do verbo compostoevkkalein (ekkalein), “chamar de”, enquanto outros do adjetivo evkkletoj(ekkletos), “chamado de”.3 Outros ainda advogam a dependência do vocábulo ao adjetivo verbal evklekto,j (eklektos), conforme o logion de 1 Pedro 2.9, “genos eklekton”, “raça eleita” ou “raça escolhida”. O feixe de subordinações do vocábulo evkklhsi,a também inclui a possibilidade de o termo derivar-se do adjetivo klhto,j (klētos), “chamado”, e menos freqüente com o nominativo feminino klh/sij (klēsis), “vocação”, definido por Taylor como “chamada divina para a vida religiosa”.4 O teólogo pentecostal Eurico Bergstén subordina a origem do vocábulo evkklhsi,aa preposição evk e ao termo klh/sij. De acordo com Bergstén, klh/sij diz respeito a chamada ou vocação do crente, enquanto evk “evidencia que por essa chamada fomos tirados das trevas (Cl 1.13)”.5

Todavia, evkkalein e evkkletoj são vocábulos compostos que não estão presentes no texto neotestamentário, embora encontremos os seus cognatos. O adjetivo singular klhto,j e o plural klhtoi/j são usados nalgumas perícopes significativas: no chamado de Paulo para o apostolado (Rm 1.1; 1 Co 1.1); no chamado da igreja romana (Rm 1.7 ver 1 Co 1.2; Jd 1); ou para referir-se aos eleitos (Rm 8.28; 1 Co 1.24). A forma nominativa klh/sij emprega-se apenas uma vez em Romanos 11.29: h` klh/sij tou/ Qeou/ (hē klēsis tou Theou), isto é, “o chamado de Deus”. A literatura do Novo Testamento favorece, se não a etimologia, pelo menos, o conceito de evkklhsi,a subordinado à ação de Deus na história. É o Senhor que chama os homens do mundo para constituí-los “povo de Deus”. Assim o adjetivo klhto,j, o nominativo klh/sij, e o adjetivo verbal evklekto,j (como por exemplo, no texto epigramático de Mateus 22.14), estão relacionados também à etimologia de evkklhsi,a. As raízes desses vernáculos comunicam, direta ou indiretamente, o mesmo conceito do termo deste estudo. Por conseguinte, menos importante é a etimologia de evkklhsi,a para definirmos o conceito neotestamentário de igreja. Interessa-nos mais o sentido neotestamentário do que o secular, muito embora entender a palavra em seu ambiente helenístico e sincrônico seja útil à compreensão bíblica e teológica do termo.

Mas qual a importância do mapeamento do semema ou da extensão de seu campo semântico para determinarmos o significado de evkklhsi,a? Para o etimólogo é de capital importância o estudo das raízes das palavras. O filólogo ocupa-se do estudo arqueológico da língua, da origem e comparação sincrônica e diacrônica da linguagem, dos vocábulos. O linguista também se interessa por essa modalidade e, o mesmo pode-se afirmar do teólogo e do biblicista. Contudo, definir e conceituar um vocábulo a partir de seu étimo, embora útil, não resolve imediatamente o debate. As palavras são construções sociais que nascem, morrem e renascem pelo uso significativo da língua. Conceituar um termo dentro de seu matiz histórico-social, ainda que seja uma tarefa hercúlea, é necessária ao completo entendimento daquilo que se propõe o pesquisador. Fazer o levantamento diacrônico e sincrônico de uma palavra, e compará-la com vocábulos de línguas cognatas agrega valor e conhecimento à pesquisa. Porém, as palavras são produções sociais ligadas a certos condicionamentos lingüísticos e históricos que registram a cosmovisão de uma época. Portanto, nem sempre, apresentam a verdade ligada ao etymo original, mas às construções sociais. Estando a sociedade em constante processo de vir-a-ser, o sentido e conceito dos termos se transmutam dentro da relação homem e tempo, sociedade e sentido.

Uma vez que tratamos em nossa obra Hermenêutica Fácil e Descomplicada, a respeito das vantagens e dos perigos da análise etimológica, creio não ser necessário repeti-los nesse opúsculo. Mas é oportuno afirmar que o sentido diacrônico e sincrônico são mais ou tão importantes quanto o próprio étimo do termo, haja vista a quantidade de palavras cujos significados estão distanciados de sua raiz.

Contudo, devo acrescentar a oportuna observação do teólogo Karl Ludwig Schmidt que, a respeito da etimologia do termo evkklhsi, a afirmou:

A importância do usus e do abususna história de uma palavra fica evidente da seguinte consideração: se quiséssemos reproduzir exatamente a palavra e o conceito bíblico deveríamos sempre traduzir ekklesia por “assembléia”. O fato de isto não ser possível provém de que no terreno lingüístico nada se consegue por meio de medidas, por assim dizer, ditatoriais, mas sobretudo porque em razão da riqueza de ekklesia não podemos renunciar o uso de “igreja” e “comunidade” [...] Em si, deveria ser preferida a versão “igreja” precisamente por causa de sua etimologia: ela é a multidão dos que pertencem ao Senhor, okyriakon ou a kyriakê.6
Antes de Paulo empregar evkklhsi,a nas epístolas, o termo já era conhecido e amplamente usado pelos gregos no período anterior a Cristo. Portanto, evkklhsi,a (ekklēsia) deve ser discutido inicialmente em seu ambiente profano, para somente depois entendermos o sentido que dá azo a reflexão teológica.

Esdras Costa Bentho é pastor assembleiano, bacharel e licenciado em Teologia com especialização em Hermenêutica; graduado em Pedagogia (Educação Infantil, Ensino Fundamental e Formação de Professores), e escritor. Atualmente faz pós-graduação em Filosofia Contemporânea - PUC-RJ









Notas:

1 Ver por exemplo CHAFER, L. S. Teologia Sistemática. São Paulo: Hagnos, 2003, Vls. 3 e 4, p.405. Ver também COENEN, L. Igreja, Sinagoga. In: BROWN, C. (ed.) O Novo dicionário internacional de Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1982, v.II (E-J), p. 393.

2 Nesta descrição, o verbo no presente do indicativo (chamo, convoco) é traduzido para o infinitivo pessoal ou futuro do subjuntivo (chamar, convocar). Nas páginas do Novo Testamento o verbo kale,w é usado cinco vezes no presente do indicativo, na terceira pessoa do singular – kalei/ (Mt 22.43,45; Lc 14.13; 20.44; 1 Co 10.27).

3 SCHMIDT, Karl Ludwig. Igreja. In: KITTEL, Gerhard. A Igreja no Novo Testamento. São Paulo: ASTE, 1965, p.54.

4 TAYLOR, W.C. Dicionário do Novo Testamento Grego. 9. ed., Rio de Janeiro: JUERP, 1991, p.119.

5BERGSTÉN, E. Introdução à Teologia Sistemática. Rio de Janeiro: CPAD, 1999, p.252-3.

6 SCHMIDT, Karl Ludwig. Igreja. In: KITTEL, Gerhard. A Igreja no Novo Testamento. São Paulo: ASTE, 1965, p.55.

Texto extraído da obra “Igreja: Identidade e Símbolo”, editada pela CPAD.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Mais protestantes tradicionais?

Quem diria? O "Novo Mapa das Religiões", um estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV-RJ) coordenado pelo economista Marcelo Neri, aponta um crescimento interessante dos protestantes tradicionais no Brasil. Segundo o estudo, os tradicionais cresceram mais do que os pentecostais. A FGV aponta que os tradicionais passaram de 5,39% da população em 2003 para 7,47% em 2009, enquanto que os pentecostais mantiveram-se estáveis em 12%. 

Ainda é cedo para afirmar e reafirmar essa tendência, pois só teremos números precisos com a divulgação do Censo 2010. Se confirmada na divulgação dos dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), então o Brasil será um dos poucos países ocidentais a apresentar crescimento do protestantismo histórico. A Europa, especialmente, está falindo não somente nas contas públicas, mas também na ausência de fiéis nas igrejas tradicionais. 

É cedo também para afirmar um freio no crescimento pentecostal. É certo que a Assembleia de Deus, a maior representante do pentecostalismo no Brasil, está crescendo cada vez menos, mas há milhares de pequenas igrejas carismáticas com um dinamismo forte e atuante. Além disso, o neocalvinismo é pentecostalizado na liturgia musical e um tanto na teologia pneumatológica.  

Classe social 

O estudo também revela o que todos sabem mais ou menos: os tradicionais estão concentrados nas classes A e B (ricos e média alta) e os pentecostais nas classes C e D (média e pobres). Em entrevista ao jornal Valor Econômico, o economista Marcelo Neri afirmou: "Nas décadas perdidas [em relação à economia], os ganhadores foram os evangélicos pentecostais. A nova pobreza aderiu em massa aos pentecostais. Agora eles ficaram estáveis e quem mais cresceu foram os evangélicos tradicionais". 

Neopentecostais 

Outros estudos apontam queda no número de membros da Igrejas Universal do Reino de Deus (IURD). Edir Macedo, que agora é mais empresário de mídia do que líder religioso, viu muitas de suas "ovelhas" buscando outro "pastor" chamado Valdomiro Santiago. O crescimento da Igreja Mundial do Poder de Deus é mais fruto do esvaziamento da Universal. A Renascer, após os escândalos, também sofreu abalos no número de membros e congregados. 

Bom, vamos esperar os números do Censo que clarearão melhor esse novo mapa religioso no Brasil. Os novos números ainda não divulgados parecem apontar algumas certezas: 1) queda no número de católicos 2) crescimento dos sem-religião 3) crescimento dos protestantes 4) crescimento de religiões não cristãs 5) maior concorrência no mercado neopentecostal etc. 

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

A bancada evangélica e o compromisso com a ética


Recentemente perguntei pelo Facebook a um deputado assembleiano se ele não sentia vergonha de estar em um partido totalmente envolvido na corrupção do Ministério dos Transportes; mas, evidentemente, ele ignorou minha pergunta. Talvez se fosse em época de eleição o nobre deputado (que é pastor de uma grande AD no interior de São Paulo) daria mais atenção.  

O que motivou minha pergunta foi o discurso moralista do deputado dizendo que é a "favor de uma investigação" e da "abertura de uma CPI". Será? Como alguém pode participar de um partido sem nenhum conteúdo programático, mas totalmente fisiológico (sempre é com o governo em troca de cargos), e ainda assim manifestar um aparente "senso ético". Soa como uma piada. Pedir uma investigação séria seria um ato de suicídio para o partido. 

Ah, mas não existe partido bom, diriam os céticos. É verdade. A bondade anda longe da política brasileira. Mas existem partidos piores do que outros. E alguns partidos no Brasil são caracterizados pela natureza parasitária, ou seja, sempre estão ao lado do poder, pois vendem os seus votos para que o governo do momento faça maioria no Congresso. O fisiologismo é a raiz de todos os males da política brasileira. É a troca de apoio por cargos e empregos estatais. É o atraso que o país vive o país e que, infelizmente, conta com a participação de deputados evangélicos.  

Basta de cinismo. Se o deputado fosse realmente a favor de uma investigação ele não estaria alimentando um partido que já tem a marca da "camaradagem de Brasília".

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

O trânsito religioso


A matéria da revista Istoé também trata do "trânsito religioso". O conhecido "trânsito religioso" não é um fenômeno recente, logo visto que sempre uma denominação protestante nasce de outra e causa uma migração. O protestantismo desde sempre conhece o intercâmbio de crentes entre suas denominações. Mas a matéria destaca dois fatos que são realmente novos: evangélicos virando espíritas e pentecostais aderindo à igrejas tradicionais. 

Em 2005, o teólogo Paulo Romeiro já fazia observações sobre o "trânsito religioso": 

Existe hoje no Brasil um contingente significativo de evangélicos, principalmente nos grandes centros urbanos, que estão sempre circulando de igreja em igreja. Não criam raízes, não conseguem cultivar relacionamentos e são avessos aos compromissos que normalmente surgem do relacionamento entre o fiel e a igreja: frequentar os cultos, contribuir sistematicamente com a igreja local e participar de suas atividades. [1] 

Nos acostumamos a ouvir histórias de espíritas  que se converteram ao evangelicalismo, mas dificilmente víamos o caminho contrário. Agora já é uma realidade. O "trânsito religioso" deixou de ser mera troca de denominação protestante, mas sim a troca de religiões pelos evangélicos, seja espírita, budista, oriental ou islâmica. O número é ainda pequeno, mas crescente.  

Como negar que tal fenômeno seja resultado de falta de estrutura espiritual, doutrinária, ética e relacional. As nossas igrejas vivem uma espiritualidade água-com-açúcar (autoajuda), sem firmeza doutrinária, com ética duvidosa e pouco relacionamento comunitário. O resultado não poderia ser outro. Há exceções? Sim, graças a Deus, mas ,infelizmente, essa tem sido a regra.  

Apostasia sempre existiu, é verdade, mas a questão não pode ser tratada como mero fatalismo. Mas tenho pouca esperança que o quadro melhore, pois vemos que os principais nomes da igreja evangélica tem ganhado três tipos de fama: 1) adeptos de uma nova versão do modernismo teológico, ou 2) adeptos da politicagem eclesiástica e secular, ou 3) adeptos do evangelho triunfalista e da prosperidade, ou 4) adeptos do conformismo determinista- hipercalvinista ou milenarista- dispensacionalista- arminiana. Não é uma situação fácil. 

Antes pentecostal, agora tradicional 

A pesquisa fala superficialmente desse fenômeno que parece crescer a cada dia. Não necessariamente de pentecostais virando meramente tradicionais por questões de ética e costumes, mas por mudanças doutrinárias. Isso mostra que o "trânsito religioso" não é somente aquele crente que pula de igreja em igreja atrás de "bênçãos", pois já há um contingente do trânsito que busca de igreja em igreja pregações mais profundas e firmeza doutrinária. O quadro que Romeiro fala ainda é verdade, mas já há uma versão "doutrinária" do "trânsito religioso". Conheço muita gente que tem buscado uma comunidade mais "séria" e comprometida "com a Escrituras".    

A pesquisa ainda não aponta os pentecostais-calvinistas, que é de fato é fenômeno crescente e novo. Será que a condução da chamada Teologia Reformada se dará pelos pentecostais? 

Referência Bibliográfica:

[1] ROMEIRO, Paulo. Decepcionados com a Graça. 1 ed. São Paulo: Mundo Cristão, 2005. p 159.

domingo, 21 de agosto de 2011

Evangélico não praticante!


"Não existe evangélico não praticante", diziam os sociólogos da religião até pouco tempo. Hoje eles já dizem: "Há um novo fenômeno religioso, os chamados evangélicos não praticantes"!  Sim, já chegamos nesse nível. Na última segunda-feira foi matéria de capa do jornal Folha de S. Paulo: "Sobe total de evangélicos sem vínculos com igrejas", e a revista Istoé deste final de semana analisou o fenômeno da fé evangélica não praticante na matéria de capa.  

A matéria da Istoé rende várias análises, mas neste primeiro momento quero comentar a questão do evangélicos não praticantes. De certa forma o fenômeno é natural. Como assim? Quando uma religião cresce muito sempre haverá aqueles que não vivem essa fé seriamente, mas que se identificam socialmente com ela. Assim é com os judeus em Israel, com os protestantes nos Estados Unidos, com os católicos no México e com os budistas no Japão. É claro que tal fenômeno não acontece em países de maioria mulçumana, pois vivem em uma clerocracia ferrenha.  

Isso é bom? É claro que não. Mas era algo inevitável. Eu sempre acreditei que tal fenômeno fosse nascer no Brasil evangélico, pois a história já mostra que os religiosos não praticantes (autodeclarados) sempre existem em religiões de massa. E outra, a sociedade pós-moderna tem uma aversão pelo compromisso, então tal questão só tende a piorar. A cada dia o evangelicalismo torna-se mera tradição familiar ou identificação cultural. É consequência, também, do excesso de discurso e pouca prática. E o problema gira sempre na falta de firmeza doutrinária. O superficialismo dos púlpitos custa caro.  

A matéria também fala sobre o "trânsito religioso". Mas deixo para um próximo post, pois o trânsito religioso deixou de ser mera troca de denominação, pois há evangélicos virando espíritas e pentecostais virando históricos. O "trânsito religioso" ficou mais complexo. Leia a matéria aqui. 

sábado, 20 de agosto de 2011

Lição 08 - Igreja - Agente transformador da sociedade

“A Urbanização do Evangelho", por Tim Keller*

Três vezes Jonas é chamado para ir a Nínive, que Deus continua chamando de “grande cidade” (1.1; 3.2; 4.11). Deus apresenta, diante de Jonas, a dimensão da cidade. Em Jonas 4.11, Ele diz: ‘e não hei de eu ter compaixão da grande cidade de Nínive, em que estão mais de cento e vinte mil homens, que não sabem discernir entre a sua mão direita e a sua mão esquerda (...)?’ O raciocínio de Deus é bastante transparente. As grandes cidades são gigantescos armazéns de pessoas perdidas espiritualmente. Como você pode não se sentir atraído a elas? Certa vez, tive um amigo que usou este rígido argumento teológico comigo: ‘As cidades são lugares onde existem mais pessoas do que plantas, e o campo é o lugar onde existem mais plantas do que pessoas. Uma vez que Deus ama as pessoas muito mais do que as plantas, deve amar a cidade mais do que o campo’. Esse é exatamente o tipo de lógica que Deus está usando com Jonas. Os cristãos e as igrejas, naturalmente, precisam estar onde houver pessoas! E não existe um versículo sequer na Bíblia que diga que os cristãos devem habitar nas cidades. Mas, de modo geral, as cidades são desproporcionalmente importantes com respeito à cultura. É para lá que os pobres se congregam frequentemente. É lá que os estudantes, os artistas e os jovens criativos se reúnem. Conforme estão as cidades, assim está a sociedade. No entanto, os cristãos estão sub-representados nas cidades por todos os tipos de motivos. 

Muitos cristãos de hoje em dia perguntam: ‘O que podemos fazer com uma cultura que se embrutece?’ Alguns se voltam para a política. Outros reagem contrariamente a isso, dizendo que ‘a igreja simplesmente deve ser ela mesma’, como uma testemunha da cultura, e aconteça o que tiver que acontecer. Em seu livro Two Cities, Two Loves, (Duas cidades, Dois Amores), James Boice afirma que até que os cristãos estejam dispostos a simplesmente viver e trabalhar nas grandes cidades, pelo menos nas mesmas proporções que os outros grupos, devemos parar de reclamar que estamos ‘perdendo a cultura’ (BOICE, James Montgomery, p.165ss).
Enquanto a cidadezinha era ideal para os povos pré-modernos e o subúrbio era formidável para os povos modernos, a cidade grande é amada pelos povos pós-modernos com toda a sua diversidade, criatividade e dificuldades de administração. Jamais alcançaremos o mundo pós-moderno com o evangelho se não o urbanizarmos e não criarmos versões urbanas de comunidades do evangelho tão fortes e bem conhecidas como o suburbano (por exemplo, mega-igreja).
Com que essas comunidades urbanas deveriam parecer? David Brooks escreveu sobre “Bobos”, que combinaram o materialismo tosco da burguesia com o relativismo moral dos boêmios. Eu proporia que os cristãos urbanos fossem “bobos reversos”, combinando não os piores aspectos, mas os melhores desses dois grupos. Praticando o evangelho bíblico na cidade, eles combinariam a criatividade, o amor pela diversidade e a paixão pela justiça (dos antigos boêmios) com a seriedade moral e a orientação familiar da burguesia.


(PIPER, John; TAYLOR, Justin. A Supremacia de Cristo em um Mundo Pós-Moderno. 1.ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2007, p.122,123).   


* Tim Keller, um dos nomes do neocalvinismo, é pastor-sênior da Igreja Presbiteriana Redentora, em Nova York. É autor do livro "A Fé na Era do Ceticismo" (Elsevier)


Subsídio preparado pela equipe de educação da CPAD.