segunda-feira, 31 de outubro de 2011

#Reforma Protestante

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Como todos sabem hoje é o dia da Reforma Protestante. O que a Reforma Protestante representa? Muita coisa! Vejamos:

a) Liberdade religiosa;
b) Liberdade de pensamento e crença;
c) A morte da hierarquia sufocante;
d) Livre exame das Escrituras;
e) Mediação somente em Cristo;
f) Centralidade na pessoa e obra de Cristo;
g) Salvação pelos méritos de Cristo e não por nossos méritos;
h) Pregação cujo foco é o Evangelho da Cruz e não o pragmatismo da autoajuda;
i) Sem santos e estrelas e nem megalomanias de homens;
j) O centro da revelação é a Bíblia Sagrada;
l) Separação Igreja e Estado;
m) O sacerdócio universal de todos os crentes...
Etc...
Ah, mas você já visitou igrejas protestantes que não seguem o espírito protestante? Sim, isso existe e é o nosso maior desafio!

domingo, 30 de outubro de 2011

O relativismo cultural já começa a ser contestado!

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Vivemos em um período com as nossas próprias crises. Infelizmente, já li na internet pastores protestantes defendendo o relativismo cultural. Hoje temos um grupo crescente na Igreja Evangélica daqueles que chamo de "evangelicalismo cult", ou seja, um grupo que faz de tudo para adequar seus padrões segundo os valores deste século. Se hoje a moda é ser relativista, então esse grupo, dito cristão, também o é.

O liberalismo teológico contemporâneo não é o mesmo do século XIX, mas a raiz é a semelhante. Hoje, o liberalismo teológico tem uma roupagem mais pós-moderna, descolada, relativista e vive "quebrando paradigmas". Aliás, não há um trabalho em ciências humanas que não use a expressão "paradigma". É meio chique usar e transmitir a ideia de que você está inventando a roda. Não é à toa que pastores protestantes propuseram "outro deus", "outro credo" (cruz credo!), "outra espiritualidade" etc. e tal. O teólogo anglicano J. I. Packer resume bem a história do liberalismo contemporâneo:
Durante quase dois séculos, as formas de camaleão intelectual chamadas liberalismo, ou modernidade, dominaram as principais igrejas no Ocidente. A raiz mestra do liberalismo modernista é a ideia, advinda do chamado Iluminismo, de que o mundo tem a sabedoria, e os cristãos devem sempre assimilar e ajustar-se ao que o mundo estiver ditando sobre a vida humana [...] Não é de se admirar, portanto, que o liberalismo não produza mártires nem desafiadores do status quo secular, mas oportunistas, pessoas que estão sempre encontrando razões para seguir o consenso cultural do momento, quer seja aborto, permissividade sexual, identidade básica de todas as religiões, impropriedade do evangelismo e da obra missionária, quer qualquer outra coisa. [1]
Mas o que é relativismo cultural? O Dicionário Houaiss resume: "doutrina segundo a qual os valores morais não apresentam validade universal e absoluta, diversificando-se ao sabor de circunstâncias históricas, políticas e culturais". O relativismo fala, por exemplo, que um índio pode matar seu filho deficiente porque naquela sociedade isso é praticado há séculos e nós não devemos interferir na cultura alheia. Você acha que exagerei na descrição? Ouça alguns antropólogos da FUNAI e você verá esse discurso abertamente.

O governo chinês, aliás, a ditadura chinesa insiste que os direitos de liberdade de expressão são "valores ocidentais" e, então, não cabe ao povo oriental. É uma desculpa "vagabunda" para justificar a repreensão aos direitos humanos naquele país. Mas a ditadura conta com um apoio forte: a intelectualidade ocidental. A maioria dos intelectuais em ciências humanas no Ocidente é relativista, incluindo alguns teólogos "progressistas". O mesmo argumento é usado para justificar as chibatas em "mulheres devassas" nos países islâmicos, o casamento forçado na Índia e o infanticídio indígena.

O relativismo contestado!

No início do ano assisti a uma palestra da ativista iraniana Mina Ahadi [2]. A palestrante Ahadi, que hoje vive na Alemanha e teve o marido morto pelo regime teocrático do Irã, condenou fortemente o relativismo cultural no Ocidente que justifica o apedrejamento de mulheres nos países mulçumanos. Ela não é uma pensadora conservadora do Tea Party, mas sim uma marxista de carteirinha. Quando Ahadi falava do relativismo na palestra sentia até que ela ficava exaltada e bem nervosa. Não é à toa, pois Ahadi sentiu na própria pele o perigo de um regime totalitário. Como não acreditar que os direitos humanos são valores absolutos e universais?

Nessa última sexta-feira, também para minha surpresa, li a entrevista de dois políticos de esquerda que contestam o relativismo cultural. Surpresa pois o multiculturalismo é um dogma na esquerda política. O jornal Valor Econômico entrevistou o ex-presidente americano Jimmy Carter e a ex-premiê norueguesa Gro Brundtland, que estavam no Brasil para uma reunião da ONG The Elders. Nenhum dos dois podem ser classificados como conversadores. Carter talvez tenha sido o presidente mais à esquerda que os Estados Unidos tiveram. Destaco dois trechos da entrevista:

Valor Econômico: Vocês tão promovendo uma companha contra o casamento forçado de adolescentes. De novo, pode-se argumentar que em alguns países essa é uma prática tradicional. Até aonde vão os limites do relativismo cultural, isto é, da aceitação de práticas tradicionais? Jimmy Carter: De novo, o padrão são os direitos humanos das pessoas sobre as suas próprias atividades. E isso inclui com quem você se casa. Se uma cultura religiosa de alguma região da África ou da Ásia aceita o casamento de crianças de 8, de 12 anos, não significa que isso é correto. Acho que a atitude fundamental daqueles que promovem os direitos humanos é condenar essas coisas, condenar a circuncisão forçada de mulheres, a venda de mulheres como escravas, o pagamento de salário menor para mulheres em relação pelo mesmo trabalho. Quando você retira a liberdade de uma pessoa, que nesse caso é mulher, isso caracteriza violação dos direitos humanos.

Valor Econômico: Países como a China costumam dizer que os chamados valores universais são na verdade valores ocidentais que o Ocidente quer impor ao mundo. É isso mesmo? Gro Brundtland: Os valores universais são valores globais [...] Princípios como o direito à democracia, ao voto, à liberdade de expressão são direitos humanos básicos, não são apenas ocidentais [...]. [3]
Então, é uma boa notícia que as poucos o mundo já começa a ver as incoerências do relativismo cultural. Vejamos os desdobramentos disso. E é uma pena que alguns pastores protestantes defendam tal vergonha. Quando falamos que acreditamos em verdades relativas podemos ser tão desumanos quanto inquisidores absolutistas.  O relativismo é uma forma de intolerância perversa. Não acreditar em verdades e valores absolutos não é garantia de respeito pelo outro. Não sejamos ingênuos!

Referências Bibliográficas:

[1] PACKER, James I. Neemias: Paixão pela Fidelidade. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2010. p 48, 49.

[2] Leia a entrevista que Mina Ahad deu para a revista VEJA neste link.

[3] SACCOMANDI, Humberto. Elders usam renome em defesa inegociável dos direitos humanos. Entrevista: Grupo de ex-líderes e personalidades globais se reuniu esta semana no Rio. 28 de outubro de 2011 São Paulo: Valor Econômico. p A 10.

sábado, 29 de outubro de 2011

Lição 05 - A conspiração dos inimigos contra Neemias

TESTADO PARA A DESTRUIÇÃO

Subsídio preparado pela CPAD

Por J. I. Packer

Intriga

Do ponto de vista daqueles a quem Neemias chama de “nossos inimigos” (6.1), a situação era, agora, desesperadora. Sua meta, o tempo todo, fora impedir Jerusalém de voltar a ser uma cidade fortificada, e os muros já estavam completos, faltando apenas colocar as portas nos portais – uma tarefa maior, sem dúvida, para a qual necessitavam de andaimes e equipamentos especiais – e as próprias portas tinham de ser manufaturadas. Sambalate e seus companheiros tinham, portanto, um tempo bem curto para frustrar a obra, e é fascinante observar como eles o usaram. O alvo deles tinha de ser a derrota pessoal de Neemias, porque nada menos que isso impediria a conclusão de seu projeto. Mas como conseguir tal coisa? Três ideias engenhosas foram experimentadas.

O esquema número 1 pode ser descrito como política amistosa. Sambalate e Gesém fizeram um convite cortês, e até melífluo, a Neemias, para que comparecesse a uma conferência do alto escalão, em território neutro. “Vem, e congreguemo-nos juntamente nas aldeias, no vale de Ono” (6.2), isto é, na metade do caminho entre Jerusalém e Samaria. Como destaca o Dr. Boice, o gesto parece um discurso de concessão feito por perdedores numa campanha política: “Neemias, não adianta fingirmos que não nos opúnhamos ao seu projeto. Opusemo-nos... Mas você foi bem-sucedido, apesar de nós, e agora é inútil sustentar-mos nossa oposição. Para o que der e vier, teremos de conviver, você como governador de Jerusalém, e nós como governador de nossas províncias. Então, sejamos amigos. O que precisamos é de uma reunião de cúpula”.

O aparente reconhecimento do sucesso de Neemias foi lisongeiro; o convite a arranjar um meio de conviver soava cativante e vantajoso. Lisonja e vantagem imaginária tem sido sempre uma potente combinação para virar a cabeça das pessoas. Em negócios e em política, pessoas imprudentes têm tido os seus julgamentos alterados por essa artimanha o tempo todo. A cabeça de Neemias, porém, não foi virada, como o demonstra a sua réplica ao convite.

“Porém intentavam fazer-me mal”, escreveu Neemias. Como ele sabia? Teria ele um sistema de espionagem? Ou simplesmente juntou dois mais dois – seu conhecimento prévio dos homens que o estavam convidando, a consciência de que o leopardo não muda as pintas, e mais o fato de que o vale de Ono, a um dia de jornada de Jerusalém, fazia divisa com os territórios de Samaria e Asdode, e a observação do quão facilmente a violência é arranjada nas aldeias – e concluiu, ao somar essas coisas, que dois e dois são quatro? Indubitavelmente, ele estava certo ao suspeitar de um complô assassino. Sem dúvida, o lamentoso comunicado a Jerusalém, “Sentimos muito dizer-lhes que houve um triste incidente, e infelizmente Neemias está morto”, já havia sido esboçado. Todavia, por quatro vezes Neemias recusou o convite (6.4), e a conspiração deu em nada.

Contudo, note como ele expressa a recusa. Aquilo era política, e em política não se deve dizer nada impolítico, que possa ser usado contra você. Então Neemias não fez referência a sua suspeição da boa fé do proponente. Evitando a linguagem do insulto inflamatório, declarou simplesmente: “Estou fazendo uma grande obra” – e não posso dispor dos três dias ou mais (ao menos dois para viajar e uma para conversar), que a conferência tomaria (6.3).

Fora isso uma desculpa evasiva? Não, nada disso. Fora, antes, a invocação das verdadeiras prioridades do interlocutor, dadas por Deus. Foi uma resposta sábia, que revelou uma vez mais a habilidade de dizer “não” às distrações – uma das características de Neemias. Embora a sua habilidade de concentrar-se fosse, ao menos parcialmente, um dom natural, a sua determinação objetiva e centrada em Deus era, decerto, sustentada pela graça, algo que a liderança de Neemias requeria. A teoria, mesmo em grande quantidade, não ajudará um jogador de golfe se ele não mantiver os olhos na bola. De igual modo, uma grande quantidade de sabedoria não fará de alguém um líder se ele não mantiver firmemente em vista as suas prioridades. Neemias sabia, desde o princípio, que Deus e Artaxerxes – Deus por intermédio de Artaxerxes, como ele teria dito – haviam-no enviado a Jerusalém, em primeira instância, para reconstruir os muros, e nada o impediria de concluir esse trabalho o mais rápido possível. Esta foi a sua atitude no começo, e assim permaneceu até que a obra se completasse. E é evidente que a sua franca recusa em deixar-se distrair foi, durante todos os anos que passou em Jerusalém, uma fonte de vigor.

John White discorre longamente sobre o ponto de que as conversações realizam bem pouco, quando os objetivos dos interlocutores divergem entre si (como os de Neemias e Sambalate certamente divergiam). White ilustra isso falando dos dias em que suportou a pressão ecumênica, como presidente da universidade Christian Union, afiliada ao Inter-Varsity Fellowship (atualmente, na Grã-Bretanha, Universities and Colleges Christian Fellowship), para conversar colaborativamente, talvez pela união, com o Movimento Cristão Estudantil, uma sociedade preparada para promover, em debate público, a proposição de que “as religiões do mundo são compatíveis”. A reminiscência de White recorda-me que, uma geração antes, o falecido Fred Crittenden, reiniciador da Oxford Inter-Collegiate Christian Union nos anos vinte, fora solicitado a ter uma conversa semelhante com os líderes da S.C.M., talvez para eliminar de cena o nascente O.I.C.C.U. Eu o ouvi contar como dera um “não” por resposta, usando a passagem de Neemias para fundamentar sua recusa. As pessoas comprometidas a propagar um cristianismo plenamente bíblico sentem no coração o eco das palavras de Neemias: “Estou fazendo uma grande obra”, e constantemente fundamentam nisso o seu diálogo com aderentes de projetos infrutíferos e confusos. Devemos apreciar também, deste ponto de vista, a sabedoria demonstrada por Neemias em não perder tempo conversando com Gesém e Sambalate.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Quem sentiu a presença de Deus nesta noite?

Em onze de cada dez cultos pentecostais ouvimos a pergunta acima. Mas o que é sentir a presença de Deus? Será um arrepio? Será um choro? Ou um impulso para gritar? Ora, podemos resumir a presença do Altíssimo em manifestações sensoriais? Não, evidente que não! Mas também é evidente que a manifestação da presença do Senhor em partes das Sagradas Escrituras é sensorial, porém não devemos resumir a isso. A vaidade sempre bate na porta do nosso coração para dizer: "Olha, você é uma pessoal muito espiritual porque chorou na hora do louvor". Só que a voz da vaidade fala o que o coração corrompido quer ouvir.

Quando penso nesse assunto sempre gosto de lembrar 1 Reis 19. 11-13, que relato o encontro do profeta Elias com Deus em um momento de profunda melancolia:
O Senhor lhe disse: "Saia e fique no monte, na presença do Senhor, pois o Senhor vai passar". Então veio um vento fortíssimo que separou os montes e esmigalhou as rochas diante do Senhor, mas o Senhor não estava no vento. Depois do vento houve um terremoto, mas o Senhor não estava no terremoto. Depois do terremoto houve um fogo, mas o Senhor não estava nele. E depois do fogo houve o murmúrio de uma brisa suave. Quando Elias ouviu, puxou a capa para cobrir o rosto, saiu e ficou à entrada da caverna. E uma voz lhe perguntou: "O que você está fazendo aqui, Elias? " [grifo meu]
A brisa suave representou a presença do Deus Todo-Poderoso. Vejam que o fortíssimo vento que quebrou rochas, onde Elias pensava encontrar Deus, ali Ele não estava. Deus estava no silêncio. Sim, Ele chegou com "uma voz mansa e delicada" (ARC e Almeida Fiel). É interessante como as traduções variam para descrever esse momento. Além das traduções já citadas (NVI, ARC e ACF) temos: "um sussurro calmo e suave" (NTLH), "um cicio tranquilo e suave" (ARA), "uma brisa suave começou a soprar" (The Message), "o ruído de uma leve brisa" (Bíblia de Jerusalém), "uma voz calma e suave" (Almeida Contemporânea), "uma voz mansa e suave" (Almeida Século XXI) e "uma voz dum suave silêncio" (Sociedade Bíblica Britânica e Tradução Brasileira). Todas as traduções refletem a variedade da expressão hebraica que literalmente significa a "quietude esmagada".

Nós, pentecostais, precisamos buscar Deus mais e mais no silêncio. Muitos pentecostais ainda confundem barulho com espiritualidade. A exegese malfeita de Atos 2 justifica toda espécie de bizarrice. Não custa lembrar as palavras do pastor pentecostal britânico Donald Bridge:
O subjetivista pensa constantemente que "Deus lhe manda" fazer coisas [...] Os subjetivistas são com frequência muito sinceros, muitos dedicados e dominados por um compromisso tal de obedecer a Deus que envergonham os cristãos mais prudentes. Entretanto, estão trilhando um caminho perigoso. Os ancestrais deles já o percorreram antes, e sempre com resultados desastrados a longo prazo. Sentimentos internos e inspirações especiais são, pela própria natureza, subjetivos. A Bíblia fornece nossa orientação objetiva. [1]
Então, podemos "sentir" a presença de Deus no mais completo silêncio, desde que o nosso coração esteja voltado para Ele.

Referências Bibliográficas:


[1] BRIDGE, Donald. Signs and Wonders Today. 1 ed. Leicester: Inter- Varsity Press, 1985. p 183. em: GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática. 2 ed. São Paulo: Vida Nova, 2010. p 901.

sábado, 22 de outubro de 2011

Não quero um pastor bacana!

Recomendo muitíssimo o livro Não Quero Ser um Pastor Bacana (Editora Mundo Cristão, 2011) do teólogo Kevin De Young com o esportista Ted Kluck.

O livro é uma crítica bem escrita, divertida e inteligente contra a nova roupagem de liberalismo teológico, ou como Kluck fala: o velho liberalismo teológico com roupas da MTV. Os capítulos mais "acadêmicos" ficam com Kevin e os capítulos mais divertidos (em tom de conversa) ficam com Ted. A leitura agradável mostra várias facetas dessa tendência pós-moderna de igreja cristã. O bom do livro é a originalidade, pois já existem inúmeras obras sobre o tema que acabam sendo repetitivos e redundantes.

O livro também mostra a contribuição do pós-modernismo para algumas posturas cristãs equivocadas herdadas do período moderno. Mas acima de tudo faz uma crítica do período relativista e adoutrinal que vivemos. 

Fica a dica!

Leia a sinopse da editora:
Um púlpito, um microfone e um pastor. Combinação que pode resultar em uma grande pregação ou num grande espetáculo. Colocado em altos pedestais, acima de suas ovelhas e, em alguns casos, adorado como o próprio Deus, o sacerdote pode perder o foco de sua verdadeira missão, ministério e vocação - levando a própria igreja para um abismo repleto de beijos, sorrisos, roupa da moda, afagos e pouca base teológica. Vivemos um tempo em que pastores e lideranças, em busca de programações atraentes, têm envolvido seus membros em um ativismo desgastante e uma espiritualidade rasa. Desta forma, perdem o foco da propagação do evangelho, enquanto investem tempo e dinheiro para lotar os bancos de suas congregações. O resultado disso é uma geração de cristãos aparentemente felizes, mas pouco familiarizados com os fundamentos bíblicos. Kevin De Young e Ted Kluck sabem o quanto a Igreja tem padecido por essa postura, mas estão certos de que ainda é possível resistir à igreja emergente, moderna e "antenada" e resgatar a essência do cristianismo, sem tornar a igreja uma instituição antiquada e engessada. Voltar às origens e resgatar o que foi perdido não é um retrocesso, mas sim um passo rumo ao futuro.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Lição 04 - Como enfrentar a oposição à obra de Deus

Subsídio preparado pela equipe de educação da CPAD

CONSTRUINDO RELACIONAMENTOS NA IGREJA E NA COMUNIDADE

Por Richard B. Foth

Deus tem um plano para humanidade. Trata-se de relacionamento, tanto temporal quanto eterno. Nada mais, nada menos. Gênesis 2.18 afirma: “Não é bom que o homem esteja só”, e Mateus responde: “A virgem conceberá e dará à luz um filho, e ele será chamado pelo nome de EMANUEL (EMANUEL traduzido é: Deus conosco)” (Mt 1.23). Mas o que isso implica para mim como pastor? Emanuel está agora com o Pai e eu estou aqui perambulando pela rua principal. De que forma funciona sua estratégia de se fazer presente neste mundo em pleno século XXI?

Os Fundamentos

O antigo axioma de que não podemos escapar da morte nem dos impostos reflete o investimento que fizemos para as nossas vidas: em relacionamentos e dinheiro. Em princípio, parece que a morte leva a vida e os impostos. Para o crente, entretanto, os relacionamentos continuam. De fato, os relacionamentos são a essência, o processo e a meta da interação de Deus com as pessoas. Da criação à consumação, a história bíblica detalha os esforços de Deus em estabelecer relacionamentos com os seres humanos, que, em resposta, podem desenvolver relacionamentos uns com os outros. E tudo continua para sempre.

A igreja não tem outra razão para existir senão expressar como são os relacionamentos em Cristo e atrair a grande comunidade cívica a desfrutar dessa mesma experiência. Jesus colocou nestes termos: “Um novo mandamento vos dou: Que vos ameis uns aos outros; como eu vos amei a vós, que também vós uns aos outros vos ameis. Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros” (Jo 13.34,35).

À proporção que vemos a missão da igreja local somente em termos quantitativos (e.g., “Quantos são os membros?”), diluímos a mensagem essencial e qualitativa do Evangelho (e.g., “Você é precioso para Deus!”). É o maior desafio para nós que estamos em alguma posição de liderança, tanto por votação quanto por indicação, meditar diligentemente no que Jesus mencionou como o fator mais importante dito por Deus para a humanidade: “Amarás ao Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças, e de todo o teu entendimento e ao teu próximo como a ti mesmo” (Lc 10.27).

A injunção é tão válida hoje quanto o era quando Jesus a proferiu, vinte séculos atrás. Contudo, é, de fato, a máxima mais dura apresentada nos evangelhos, uma verdade que deve ser tratada no âmago desse organismo chamado Igreja. A tendência é deixar passar esse grande mandamento simplesmente confessando-o: “Sim, é claro; é isso mesmo! É por onde devemos começar”. Contudo, na realidade, não é por onde devemos começar; antes, é por onde devemos terminar. A reflexão de Oswald Chambers aprende a essência da ideia, quando diz: “Aquilo que o homem vê como o processo Deus vê como a meta”.

Tudo acerca da vida, morte e ressurreição de Jesus aponta-nos em direção a uma união reconciliadora com Deus e a humanidade. Portanto, a missão da igreja é, primariamente, ser modelo de como o amor a Deus e o amor ao próximo agem. Com isso em mente, quando os pastores voltam sua atenção ao “aperfeiçoamento dos santos”, estão formando relacionamentos na igreja que naturalmente se difundem pela comunidade. Aqui os pastores podem agir com grande confiança, porque a obra está bem de acordo com o eterno plano de Deus para os séculos e suas implicações específicas para o viver diário.

Um Requisito Prévio e um Príncípio


A formação de relacionamentos começa com um procedimento e um procedimento apenas: atitude. Um líder tem de querer vê-la acontecer. Se um líder desejar ver relacionamentos criados e mantidos, já tem ele toda a autoridade e o apoio de Deus. Mas é necessário termos a mesma atitude que o Pai teve por nós através de Jesus para chegarmos a esse ponto. O apóstolo Paulo descreve essa atitude como a “mente de Cristo” (Fp 2.5). Lendo os evangelhos, encontramos sua mente expressa em cada página. Quando chama os Doze, cura os doentes, alimenta os famintos, identifica-se com os proscritos, fica claro que sua intenção é: Ele deseja ter um relacionamento com as pessoas – em qualquer lugar, a qualquer hora, em qualquer cultura, com qualquer pessoa, a qualquer preço. Portanto, o quer que se levante contra tais relacionamentos redentores, dentro ou fora da igreja, não pode ter seu selo de aprovação.

Numa leitura mais detida, os evangelhos revelam um princípio que expressa o ímpeto do coração de Jesus. Ainda que muitos princípios-chaves estejam evidentes em seu ministério, este é o principal: Ele decide aceitar as pessoas onde quer que as encontre, exatamente do modo como estão.

REFLEXÃO

“A formação de relacionamentos começa com um procedimento e um procedimento apenas: atitude. Um líder tem de querer vê-la acontecer.”

Texto Extraído da obra: “Manual Pastor Pentecostal: Teologia e Práticas Pastorais”, editada pela CPAD.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

CGADB, aprenda com Itamar!

Leia abaixo a notícia do jornal Folha de Boa Vista. A notícia foi publicada em setembro. O repórter fala sobre o pastor assembleiano Isamar Ramalho, que foi acusado de se apropriar de R$ 430 mil da igreja e de fazer uso desse dinheiro para reformar residências e um sítio particular. Após a notícia, leia a nota de esclarecimento da CGADB (Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil), da qual Ramalho é membro. Comento no final.

Pastor é condenado por apropriação indébita

Por Nonato Sousa, Folha de Boa Vista

O pastor Isamar Pessoa Ramalho, presidente da Assembleia de Deus em Roraima, foi condenado pela Justiça pelo crime de apropriação indébita, previsto no artigo 168, do Código Penal. O processo foi julgado, no último dia 30, pelo juiz Renato Albuquerque, mas a decisão só se tornou pública na terça-feira, 6, com a publicação no Diário do Poder Judiciário (DPJ). Na mesma decisão o juiz absolveu o pastor de outro crime, falsificação de documento particular, previsto no artigo 298, também do Código Penal.

Conforme o site do Tribunal de Justiça de Roraima (TJR), o processo contra Isamar Ramalho foi distribuído na 4ª Vara Criminal em junho de 2009. O pastor foi defendido por pelo menos cinco advogados, conforme consta na publicação de sentença do réu. A reportagem conseguiu contato com a assessoria jurídica do pastor, e de acordo com a advogada Manuela Dominguez, a defesa dele irá recorrer a instâncias superiores, pedindo a absolvição do cliente.

Explicou que esse mesmo crime pelo qual Isamar Ramalho foi condenado foi recusado por outro juiz, Jesus Rodrigues do Nascimento, em uma primeira decisão anos atrás. O magistrado naquela ocasião entendeu que não havia crime e não aceitou a denúncia oferecida pelo Ministério Público Estadual (MPE), que não se deu por satisfeito e recorreu ao Tribunal de Justiça de Roraima (TJR).

O TJR, por sua vez, acatou o recurso oferecido pelo MPE e determinou que a denúncia fosse recebida pelo juiz, pois entendeu que a mesma preencheu todos os requisitos legais para que o processo contra o pastor prosseguisse. A decisão foi encaminhada para o juiz titular da 4ª Criminal, mas ele se deu por suspeito e encaminhou os autos para o seu substituto legal. Agora, cerca de dois anos depois da formalização da denúncia, veio o veredicto do juiz. Isamar Ramalho foi condenado à pena dois anos de reclusão, porém o magistrado que julgou o processo substituiu a pena restritiva de liberdade por duas restritivas de direito, podendo ser de prestação de serviço à comunidade ou de pagamento de cestas básicas.

CASO – De acordo com matéria publicada na Folha em setembro de 2007, o Ministério Público Estadual (MPE) apresentou denúncia no Poder Judiciário contra o pastor, com base em um inquérito policial que apurou a conduta de Isamar Ramalho nos anos de 2000 e 2002, à frente daquela igreja evangélica, quando foi acusado por um grupo de membros da igreja de se apropriar indevidamente de dinheiro pertencente à Assembleia de Deus. A investigação chegou a um montante de R$ 430 mil, razão pela qual a promotoria do MPE formalizou a denúncia por crime de apropriação indébita. O MPE entendeu que ele fez o uso indevido do recurso em razão da sua condição de presidente daquela congregação evangélica.

Ainda de acordo com o que foi apurado no inquérito, o denunciado teria utilizado o dinheiro para a reforma de sua residência, da casa de sua sogra, bem como para realizar obras em seu sítio localizado às margens da BR-174, inclusive na construção de uma ilha artificial, além de outros gastos. O pastor efetuava compras em nome da igreja, porém todas as mercadorias compradas eram revertidas em seu proveito.

Também conforme a denúncia, além de se apropriar indevidamente do dinheiro pertencente à igreja, o pastor, após ter conhecimento de que estava sendo investigado, providenciou, com data retroativa, Ata do Conselho de Administração e Finanças, autorizando a Tesouraria Geral da igreja efetuar os pagamentos das notas fiscais e recibos em nome da igreja, destinados a obras na casa do mesmo, o que é vetado pelo Estatuto da Igreja Assembleia de Deus. Por essa razão o MPE também apresentou denúncia por crime de falsificação de documento particular, mas que não foi corroborado pelo juiz Renato Albuquerque.

Por outro lado a defesa do pastor explica que o dinheiro de fato foi usado para reforma da casa pastoral e que posteriormente os membros da Assembleia de Deus fizeram uma assembleia geral e aprovaram (avalizaram) o uso do dinheiro na reforma, fato pelo qual a defesa entende que não houve crime. “Dessa mesma forma foi entendido pelo primeiro juiz, Jésus do Nascimento, que naquela ocasião não recebeu a denúncia do PME”, disse a advogada.


Fonte: http://www.folhabv.com.br/Noticia_Impressa.php?id=115670

Agora leia a nota de esclarecimento da CGADB neste link ou no próprio site da organização: www.cgadb.com.br


COMENTO:

Caros, não estou aqui para determinar se o pastor é ou não culpado pelos crimes acusados (Rm 2.1). E acho que ninguém deve fazer isso até a justiça concluir todo esse processo. Mas quero comentar algumas coisas:

01. A CGADB está errada ao dar total "apoio" e "solidariedade" ao pastor. E se ele for culpado? Talvez não seja, mas e se for? A atitude da CGADB deveria ser de cautela, ou seja, nem apoio e nem condenação. Ah, mas é um membro da convenção? Ora, então a organização ficará em um jogo corporativista? A cautela deveria falar alto, mas bem alto neste momento.

02. A CGADB deveria aprender com o ex-presidente, agora falecido, Itamar Franco. O presidente Franco afastou um de seus amigos mais próximos, Henrique Hargreaves, que era Chefe da Casa Civil. O ministro Hargreaves foi acusado de corrupção na CPI dos Anões do Orçamento. O presidente Itamar Franco o afastou em outubro de 1992. Quando ficou inteiramente comprovado que Hargreaves havia sido acusado injustamente, ele foi readmitido pelo presidente mais de um ano depois, em novembro de 1993. 

03. A CGADB deve agir com total cautela. Não deve condenar, é claro, mas tomar a posição de advogado  também é uma decisão equivocada. A CGADB deve lembrar que a disciplina de Ministros do Evangelho é mais dura (leia 1 Timóteo 5. 17-25, especialmente o versículo 20). A Bíblia ensina uma vigilância maior sobre a liderança da igreja e não uma mão mais "leve" conforme o espírito do corporativismo.

04. O processo mostra a necessidade de maior transparência com o dinheiro advindo de dízimos e ofertas que "sustentam a Casa do Senhor". Não estou dizendo que esse pastor tenha feito isso, mas é comum a mistura das finanças pessoais de um pastor com as finanças corporativas de uma igreja. É necessário uma revisão urgente de mecanismos de transparência e vigilância sobre o montante tão grande de dinheiro que entra nas grandes denominações.

Há poucos meses escrevi um texto sobre a transparência do dinheiro em nossas igrejas. Leia aqui

domingo, 16 de outubro de 2011

O pecado do "curso básico"!

Convivo com muitas pessoas que fazem ou já fizeram um curso básico de teologia. No contexto assembleiano essa modalidade de curso é um verdadeiro sucesso. Mas, já indo para o foco deste texto, destaco que a formação básica em teologia é básica "até demais". E pior, muitos que fazem tais cursos acham que são especialistas no assunto. Quando sou ignorante e reconheço minha ignorância estou no caminho certo, mas quando sou ignorante e acho que sou sábio caminho para a tragédia.

Não, este não é um texto contra a teologia. Jamais escrevei contra a teologia. Acho detestável qualquer tipo de anti-intelectualismo. Escrevo contra a "pouca teologia". O problema é teologia de menos e não em demasia. Certo vez encontrei um rapaz que se apresentava como teólogo só porque tinha feito um curso básico de teologia. É a infantilidade misturada com a mania de grandeza que tanto afeta os pentecostais. Precisamos de mais teologia, muito mais. E menos de teólogos de apostila.

Como alguém se diz estudante de teologia e nunca leu a Bíblia toda? O objeto de estudo da teologia é a Bíblia. O teólogo que não lê a Bíblia é como o jornalista que não lê jornal, o ator que não ensaia, o crítico de cinema que não assisti filmes, o cozinheiro que detesta cozinha etc. Como alguém se define teólogo protestante e não conhece os principais nomes da teologia contemporânea? E aquele que nunca leu um único clássico? Ou pior: não compram livros!

Infelizmente, temos até "teólogos" que têm preguiça de ler a Bíblia e bons livros. Não é à toa que a qualidade teológica da igreja evangélica esteja tão fraca. Alguns ficam fascinados com a "intelectualidade" da velha escola teológica iluminista e outros se fecham em um fundamentalismo "à la regular" misturado com misticismo de tendências anti-intelectuais.

Mais teologia deve ser o nosso foco. Mas uma teologia de qualidade. A igreja brasileira já não é uma criança, pois passou da hora de crescer. 

sábado, 15 de outubro de 2011

Palavrantiga - Vem Me Socorrer



Vem Me Socorrer
Palavrantiga


Não tenho um tom
Não tenho palavras
Não tenho acorde que
Me socorra agora
Tudo foi embora

Só tenho você
Havia um silêncio
Que mostrou os meus vícios
Me agarro contigo
Vem me socorra agora
Tudo foi embora
Só tenho você amor
Agora

E essa não é mais uma canção de amor
Não, não, não

Eu canto pra ti
Sei onde estou
Olhando pra mim posso saber
Que nada sou

Eu grito pra ti oh Deus
Vem me socorrer
Olhando pra mim posso saber
Que nada posso fazer

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Lição 03 - Aprendendo com as portas de Jerusálem

OS MUROS DE JERUSALÉM

Os muros [de Jerusalém] originalmente incluíam a pequena e prolongada “cidade de Davi” na colina sudeste. Posteriormente, eles foram estendidos para incluir a cidade expandida e a área do Templo. As principais fontes do conhecimento atual dos muros antigos são Neemias e Josefo. No tempo do Senhor Jesus, o muro sul atravessava o vale Tiropeano e abrangia tanto a cidade de Davi quanto a cidade alta, onde agora existe uma igreja. O primeiro muro norte se estendia diretamente para o oeste a partir da área do Templo. O disputado “segundo muro” de Josefo se estendia a partir das redondezas da Porta de Jope ao norte, e então a leste para unir-se à fortaleza de Antônia a norte do Templo. O “terceiro muro”, que começou, de acordo com Josefo, em 42 d.C., está situado sob o muro norte existente, ou pode ser a série de pedras maciças afastadas para o norte do muro atual, entre o consulado americano e Escola Americana de Pesquisa Oriental. Os muros atuais são os de Suleiman, construídos em 1542 d.C. e provalvelmente seguem os muros romanos de Aelia Capitolina.

As portas e as torres do muro da cidade, na época da reedificação, durante o governo de Neemias, são citadas em ordem, começando coma a Porta das Ovelhas, perto da esquina nordeste da área do Templo, e prosseguindo no sentido anti-horário em torno das fortificações (Ne 3). Quer ligadas à inspeção preliminar de Neemias, à noite, ou à dedicação do muro de Jerusalém, a maioria das portas é mencionada novamente (Ne 2.12-15; 12.27-39).

Texto extraído do: “Dicionário Bíblico Wycliffe”, editado pela CPAD.

Subsídio preparado pela CPAD.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

O que me atrai no calvinismo (parte 2)...

No artigo anterior falei sobre a "antropologia negativa" dos calvinistas. Ao ler o texto é inevitável uma pergunta: "Não há beleza no ser humano?" Sim, há muita beleza no ser humana caído. Os calvinistas criaram o maravilhoso conceito da "graça comum", ou seja, é a graça estendida a todos os homens, sejam eles cristãos ou não. É a lembrança que qualquer ser humano é "imagem e semelhança de Deus". O professor C. Stephen Evans define assim a "graça comum":
Graça divina estendida não somente aos eleitos, que Deus salva, mas a todos os seres humanos e, até mesmo, à ordem natural como um todo. Os teólogos que enfatizam a graça comum dizem que ela é uma ação divina de bondade ("envia chuva sobre justos e injustos") e permite que seres humanos pecaminosos adquiram conhecimento e desenvolvam empreendimentos culturais como o governo e as artes. [1]
A ideia de "graça comum" é o desenvolvimento de um pensamento da era patrística. "Toda verdade é verdade de Deus", diziam os Pais da Igreja. Não importa quem fale a verdade, se é verdade é de Deus. Assim nascia o conceito de "graça comum" já nos primeiros séculos da Igreja Cristã. 

É bom lembrar que a "graça comum" é uma ênfase calvinista não abraçada por todos os reformados. A divisão dessa doutruna ficou bem exposta entre os dois teólogos holandeses no começo do século XX, sendo eles Herman Hoeksema e Abraham Kuyper, autor de De Gemene Gratie (Da Graça Comum). Para Hoeksema a "graça" é uma bênção somente para "os eleitos" e acusava ser a doutrina da "graça comum" um "arminianismo puro". Kuyper foi o principal nome defensor dessa ideia e que certamente saiu vencedor no debate, já que sua tese se popularizou.

Música e "graça comum"

A graça comum é um antídoto contra a divisão "sagrado" e "secular" tão comum no evangelicalismo popular. Exemplo clássico é a música. Na mentalidade evangélica há a "música de Deus" e a "música do mundo". O cristão evangélico canta, por exemplo, a música "Sabor de Mel" na igreja e acha sacralidade no ato. Ora, uma música deve ser julgada pelo compositor (evangélico ou não-evangélico) ou pelos valores ensinados (conteúdo verdadeiro versus conteúdo falso)? 

Leia abaixo trecho da música "Aquarela", composta por poetas como Toquinho e Vinicius de Moraes.

E o futuro é uma astronave
Que tentamos pilotar
Não tem tempo, nem piedade
Nem tem hora de chegar
Sem pedir licença
Muda a nossa vida
E depois convida
A rir ou chorar...

Nessa estrada não nos cabe
Conhecer ou ver o que virá
O fim dela ninguém sabe
Bem ao certo onde vai dar
Vamos todos
Numa linda passarela
De uma aquarela
Que um dia enfim
Descolorirá...
Ora, não lembra uma passagem de Eclesiastes? O trecho não é a lembrança da nulidade da vida depois de falar em tantos desenhos e cores? Quando ouço esse pedaço sempre lembro de Salomão. E é bem provável que eles não tenham pensado no livro bíblico ao escrever a composição.
Agora leia um trecho da música evangélica "Sabor de Mel":

Quem te viu passar na prova
E não te ajudou
Quando ver você na benção
Vão se arrepender
Vai estar entre a plateia
E você no palco
Vai olhar e ver
Jesus brilhando em você
Quem sabe no teu pensamento
Você vai dizer
Meu Deus como vale a pena
A gente ser fiel
Na verdade a minha prova
Tinha um gosto amargo
Mas minha vitória hoje
Tem sabor de mel. (SIC)
Não é uma poesia pobre? Quais são os valores ensinados? Evidente que é um baita desejo de vingança. É o sentimento de "passar na cara" daqueles que o desprezavam. É o exibicionismo do vencedor no "palco" diante dos inimigos. Nada mais anticristão. Nada mais contra o Sermão do Monte ou Romanos 12. Mas, infelizmente, essa "música sacra" é cantada em nossos púlpitos todos os dias.

A graça comum nos ensina que o julgamento de uma música é pelo seu conteúdo. Quais são os valores e verdades enfatizadas? A graça comum mostra que encontramos beleza na arte produzida por não-cristãos. Você pergunta para o professor de geografia se ele é cristão ao enunciar a geologia da terra? É claro que não. Toda verdade é verdade de Deus. O que preferimos? O melancólico Johnny Cash cantando a miséria do homem em "Hurt" ou o triunfalismo infantil do "Vai dar Tudo Certo" dos neopentecostais? Quem está falando a verdade sobre o estado do homem? 

A respeito disso, o teólogo reformado Francis Schaeffer escreveu:
Em outras palavras, da mesma maneira que é possível o não-cristão ser inconsistente e pintar o mundo de Deus apesar de sua filosofia pessoa, também é possível o cristãos ser inconsistente e incorporar em suas pinturas uma cosmovisão não-crista. Este último tipo talvez seja o mais triste de todos [...] Devemos enxergar tida a obra de arte à luz de sua técnica, validade, cosmovisão e adequação da forma ao conteúdo [2]
Ora, então é bíblico um cântico que não fale das grandezas de Deus diretamente? Na sua Bíblia tem um livro pouco estudado chamado "Cânticos dos Cânticos". Por mais que se tente espiritualizar o livro, ali é uma canção de um homem apaixonado por sua noiva. É Salomão cantando alegremente as virtudes, mesmo físicas, de sua amada sulamita. A característica central do livro é "certamente o amor entre os dois", como lembra Grant R. Osborne [3]. Falar o contrário é negar o óbvio. O próprio Schaeffer lembrava: "O que torna uma arte cristã não é necessariamente o fato de ela tratar de questões religiosas" [4][5]

O conceito de graça comum pode ser estendido para outras artes. Além disso, o conceito de trabalho também passa pela graça comum. Ser faxineiro é tão "sagrado" quanto ser pastor. O exemplo focado na música é o melhor, pois é justamente nessa área onde predomina a dicotomia maniqueísta do "sagrado versus secular", quando a discussão deveria ser em valores passados pelas mensagens contidas nas letras e ritmos. 

A graça comum lembra  que não podemos dividir a nossa lida no lado comum com um outro lado religioso. No cristão tudo deve ser sagrado.

Referências Bibliográficas:
[1] EVANS, C. Stephen. Dicionário de Apologética e Filosofia da Religião. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2004. p 63-64. 

[2] SCHAEFFER, Francis A. A Arte e a Bíblia. 1 ed. Viçosa: Editora Ultimato, 2010. p 58 e 60.

[3] OSBORNE, Grant R. A Espiral Hermenêutica. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 2009. p 297.

[4] SCHAEFFER, Francis A. Idem. p 28.

[5] Leia mais sobre música: a) COLSON, Charles e PEARCEY, Nancy. E Agora, Como Viveremos? 2 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2000. p 543- 553. b) GONDIM, Ricardo. É Proibido: o que a Bíblia permite e a igreja proíbe. 1 ed. São Paulo: Editora Mundo Cristão, 1998. p 117- 134. c) PALMER, Michael D. (ed). Panorama do Pensamento Cristão. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2001. p 325- 349. Leia também o artigo de Tony Reinke: Deus deleita-se com a arte não-cristã? em http://iprodigo.com/textos/deus-deleita-se-com-a-arte-nao-crista.html

terça-feira, 11 de outubro de 2011

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segunda-feira, 10 de outubro de 2011

O que me atrai no calvinismo...

Desta corrupção original pela qual ficamos totalmente indispostos, adversos a todo o bem e inteiramente inclinados a todo o mal, é que procedem todas as transgressões atuais. Esta corrupção da natureza persiste, durante esta vida, naqueles que são regenerados; e, embora seja ela perdoada e mortificada por Cristo, todavia tanto ela, como os seus impulsos, são real e propriamente pecado. [Confissão de Fé de Westminster, Capítulo IV]

Não sou calvinista. Não abraço os cinco pontos da TULIP. Muitos até acham que sou calvinista, mas a minha simpatia não é adesão. Inclusive, algumas posturas reformadas até me irritam profundamente. Agora, há princípios calvinistas ou verdades enfatizadas pelos reformados que abraço com entusiasmo. O novo-calvinismo é uma força presente e crescente em nosso meio e isso é também uma boa notícia. Vou destacar três pontos, mas neste artigo falo somente do primeiro. Vejamos:

1. Depravação humana

A "antropologia negativa" dos calvinistas é a prevenção contra o boçal otimismo humanista/iluminista dos "bons selvagens". Não há maior engano do que olhar o homem como sujeito inocente. A ênfase na depravação humana mostra como somos dependentes da bondade e graça divina, pois somos maus o suficiente para não desejarmos Deus. Falar em depravação humana é falar da nossa própria depravação. É quebrar o encanto vaidoso de que somos bons e o resto é todo mal. 

A sociedade contemporânea enfatiza demasiadamente a sua "bondade". É o marketing do bem casado com o politicamente correto. É a hipocrisia farisaica do secularismo. O diabo é sempre o outro. Em tempos de "consciência coletiva sustentável" todos pensam que são, de fato, as coisas mais puras do universo. Na sociedade contemporânea não existe pecado, ou seja, a noção de que faço o mal é "opressão do olhar controlador dos religiosos manipuladores". O pecado é mera invenção da igreja para controlar a vida dos bobinhos manipuláveis. Então, a sociedade criou a consciência que ela é toda boa, nasce boa e que o pecado (quando existe) é no fundo uma deficiência coletiva, mas nunca uma responsabilidade individual. 

Um garoto de chileno roubou o seu carro? De quem é a culpa? Para a nossa sociedade do "bom selvagem" o ladrão é uma vítima de um sistema e a vítima do roubo é o seu próprio algoz. No fundo, a culpa do ladrão surgir é da própria sociedade que o excluiu dos "bens de consumo". É assim que pensam os "antropologistas positivos"! O calvinismo mostra que essa blábláblá politicamente correto é balela. O garoto não é inocente. Ele é responsável individual pelas suas escolhas. Ele escolheu o crime e é totalmente consciente disso. Agora, imagine se todo garoto que se julga excluído dos "bens de consumo" resolvesse partir para o crime? Eu, por exemplo, estaria roubando aqueles que têm carro importado, pois eu nunca tive um! 

O calvinismo mostra a questão das escolhas individuais. Você é o responsável pelas suas escolhas. Não adianta colocar a culpa em Deus, na mãe, no pai, na sociedade, nos políticos, no papa, no capitalismo, na vizinha, na professora, no pregador pentecostal, no rabino etc. O governador do Rio de Janeiro disse certa vez que os bandidos eram filhos indesejados por mães faveladas que não tiveram a coragem de abortar, ou seja, a violência na cidade maravilhosa seria resolvida com o aborto. Isso não é eugenia? Não é um baita preconceito com os pobres, já que associa pobreza com criminalidade? Se ele fosse crente na "antropologia negativa" não diria tais besteiras. Veja que uma visão de mundo cristã ou não-cristã muda a nossa percepção até sobre o problema da violência urbana. 

O pelagianismo ensinava que a incapacidade de fazer o bem aliviaria a nossa responsabilidade diante dos nossos erros. Wayne Grudem escreve: 
Essa ideia de que somos responsáveis perante Deus somente por aquilo que podemos fazer contraria o testemunho bíblico. Quando que somos incapazes de fazer qualquer bem espiritual [...] também somos todos culpados diante de Deus. O próprio Satanás, que eternamente só é capaz de fazer o mal, estaria completamente livre de culpa (pela tese de Pelágio). A verdadeira medida da nossa responsabilidade e da nossa culpa não é nossa capacidade de obedecer a Deus, mas antes a perfeição absoluta da lei moral de Deus e a sua própria santidade [1].
Ser calvinista e ainda "acreditar em si como bom" é impossível. O calvinismo sempre está lembrando que você é, no fundo, um baita depravado. O calvinismo mostra que o seu marketing de "bom moço sustentável" tem um fundo de vaidade e jogo de esconde-esconde dos seus vícios. O calvinismo mostra que quando você fala em muita tolerância você está na verdade escondendo o seu real coração totalitário. Ora, "todos pecaram"!

É claro que o conceito de pecado original e o homem como pecador não é exclusivo dos calvinistas. É cristianismo puro. Mas os reformados são o grupo que melhor enfatizam essa verdade bíblica. O homem é confrontado nas Sagradas Escrituras com o seu vazio e a sua pequenez diante de um Deus soberano, como sempre os calvinistas gostam de destacar. O autoconhecimento do homem depende do seu conhecimento de Deus, como mesmo disse Calvino: "O verdadeiro conhecimento de nós mesmos é dependente do verdadeiro conhecimento de Deus" (Institutas 1. i 1). O homem depravado não pode nem se conhecer melhor sem a revelação divina. O filósofo reformado Herman Dooyeweerd, em busca de uma antropologia bíblica, remete ao pensamento de Calvino:
A questão: o que é o homem? Quem é ele?, não pode ser respondida pelo próprio homem. Mas tem sido respondida pela palavra-redenção que desvela a raiz religiosa e o centro da natureza humana em sua criação, queda no pecado e redenção por meio de Jesus Cristo. O homem perdeu o verdadeiro autoconhecimento desde que perdeu o verdadeiro conhecimento de Deus. Mas todos os ídolos do ego humano, os quais o homem projetou em sua apostasia, quebram-se quando confrontados com a palavra de Deus, que desmascara sua vaidade e vazio. [2]
Comentando a eleição hebraica, o filósofo judeu Luiz Felipe Pondé faz uma relação de autoconhecimento do homem e a sua relação com Deus. Pondé escreve:
Abraão é aquele em que o vetor da cegueira se rompe. A aliança proposta por Deus restaura o caminho e o sentido da relação correta com Deus. Diante Dele, Abraão ouve a promessa da restauração e consegue enunciar a verdade que o torna eleito para falar diretamente com Deus outra vez, rompendo o silêncio do homem: "eu que sou pó e cinzas venho aqui diante de Ti". Reconhecermo-nos pó é a chave para sair da cegueira. A eleição de Israel, plenamente realizada com seu neto Jacó, mais tarde denominado Israel ("aquele que vê Deus"), sustenta-se numa restauração da psicologia bíblica arruinada pelo casal ancestral. Entre o casal ancestral e o patriarca Abraão, a diferença psicológica indica a distância entre o pecado e a redenção. Sem um autorreconhecimento ontológico não há restauração da visão de Deus. A eleição bíblica é saber-nos insuficientes, é sentirmos o estremecimento do pó nos ossos que caminham pelo mundo. Em Jó, voltaremos a ver a face de um eleito. [3] (grifo meu)
O conceito não é do pecado presente somente no "mundo", mas também entre cristãos. Os cristãos não são anjos, mas pessoas que ainda convivem com uma natureza pecaminosa. Os "cristãos sem pecado" são os mesmos que abraçam o marketing do bem, a hipocrisia moderna ou o farisaísmo antigo. O pecado, infelizmente, é parte de toda a humanidade, inclusive daqueles que frequentam igrejas. G. K. Chesterton escreveu:
Foi o mundo anticlerical e agnóstico que profetizou o advento da paz universal; é esse mundo que se sentiu, ou que deveria ter-se sentido, envergonhado e confuso ante o advento da guerra universal. Quanto à visão geral de que a Igreja ficou desacreditada em virtude da Guerra- eles também poderiam dizer que a Arca ficou desacreditada em virtude do Dilúvio. Quando o mundo vai mal, comprova-se sobretudo que a Igreja está certa. A Igreja se justifica não porque seus filhos não pecam, mas porque pecam. [4]

Somente aqueles que desprezam a experiência humana negam a realidade gritante do pecado na vida do mundo que vivemos. O nosso egoísmo, o grito do trânsito, a briga do casal, o assassinato no tráfico, a negligência em um hospital, a indiferença pelo sofrimento alheio, a falta de educação na fila, a miséria que deveria ser combatida pelo dinheiro desviado na corrupção, o aborto, a ganância etc. Tudo isso lembra a depravação humana no nosso dia a dia. O pecado, como define Alister McGrath, é "um estado de alienação de Deus. É como falha na natureza humana, não uma falha criada por Deus, mas uma crise resultante da nossa falibilidade humana. Ela se apresenta em todos os níveis da nossa experiência: pessoal, social e estrutural"[5]. 

Então não há beleza no ser humano caído? Sim, há, é o conceito calvinista de "graça comum" que comentarei no próximo texto.

Referências Bibliográficas:

[1] GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática. 2 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 2010. p 411.

[2] DOOYEWEERD, Herman. No Crepúsculo do Pensamento. 1 ed. São Paulo: Editora Hagnos, 2010. p 265.

[3] PONDÉ, Luiz Felipe. Contra um Mundo Melhor. 1 ed. São Paulo: Editora Leya, 2010. p 200.

[4] CHESTERTON, Gilbert K. O Homem Eterno. 1 ed. São Paulo: Mundo Cristão, 2010. p 10.

[5] MCGRATH, Alister. Apologética Cristã no Século XXI. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2008. p 239.

sábado, 8 de outubro de 2011

Lição 02 - Liderança em tempos de crise

Subsídio preparado pela CPAD

CONHEÇA NEEMIAS

Por J. I. Packer

“Eu gosto dele. Ele era um homem de construção”, confidenciou-me o velho construtor texano. Alegrei-me ao ouvi-lo porque, francamente, também gosto de Neemias. Espero que, quando chegar ao céu, possa reconhecê-lo e confessar-lhe isso. O que desejo que ele saiba é que, durante o meio século em que tenho servido a Cristo, ele me tem ajudado muito, talvez mais que qualquer outro personagem bíblico, que não o próprio Senhor Jesus. Quando, aos dezenove anos, comecei a imaginar se Deus me quereria no ministério, foi a experiência de Neemias que me mostrou como se dá a orientação vocacional, e pôs-me no caminho. Quando me encarreguei de um centro de estudo comprometido a neutralizar a teologia liberal, foi Neemias quem me forneceu as ideias de que eu necessitava para comandar um empreendimento de Deus e lidar com a oposição fortificada.

Quando, depois disso, tornei-me o diretor de uma faculdade teológica, que se achava em apuros financeiros, novamente foi o exemplo de liderança de Neemias que me ensinou como fazer o meu trabalho. Uma vez que podemos falar daquilo que vimos, quando sou convidado a palestrar sobre vocação e/ou liderança, frequentemente levo os meus ouvintes a uma viagem pela história de Neemias. É natural que nos afeiçoemos a alguém a quem tanto devemos, sinto-me profundamente endividado com Neemias. Ninguém deve admirar-se, então, de que eu o considere agora um amigo particular. Tampouco sou eu o único a considerá-lo como tal. Um livro publicado em 1986 começa assim:

Os detalhes de meu primeiro encontro com ele acham-se nublados em minha mente. Deus enviou-o a mim em meus primeiros anos na universidade, a fim de ajudar-me a superar alguns desafios formidáveis. Desde então, ele tem sido uma companhia sempre presente...

Neemias pôs todo o seu ser em seu diário, que foi incorporado ao livro que agora chamamos pelo seu nome. Lendo-o, posso sentir-lhe as batidas do coração, o tremor dos dedos e a aflição de seus gemidos... Que sabedoria a dele! E como ele incutiu em mim as lições básicas de liderança! Não esqueci nenhuma delas, e tenho volvido a ele de tempos em tempos, em busca de reafirmação.

Como estudante de medicina, eu necessitava dele de modo especial. Ele era um líder. E... bem, quer eu o desejasse quer não, tornei-me, em um tempo relativamente curto, o presidente nacional da Bristish Inter-Varsity... Durante esse período, Neemias confortou-me e instruiu-me... Eu escolhi explanar o livro de Neemias na primeira Latin American Fellowship of Evangelical Students... Neemias tornou-se uma espécie de patrono do novo movimento – ou ao menos uma luz orientadora aos jovens alunos de liderança, que enfrentavam a impressionante tarefa de evangelizar um continente...

À medida que as responsabilidades se sucediam, continuei fascinado e instruído pela vida e pelas palavras desse homem de ação. E conforme eu envelhecia, mais dele eu respigava. Era o homem, não o livro, que me prendia... Ele tornou-se o meu modelo de liderança.

Quando li pela primeira vez essas palavras de John White, ri sonoramente, daquele jeito que às vezes não podemos evitar, face às coisas deleitáveis que Deus faz. John White e eu somos quase contemporâneos e temos muita coisa em comum: uma formação Bristish Inter-Varsity; genes britânicos unidos pela cidadania canadense; uma teologia evangélica, uma compulsão pastoral e uma vocação literária; e um lar na Lower Mainland of Bristish Columbia. Não obstante, até 1986, eu não sabia que partilhávamos um relacionamento paralelo a Neemias. Contudo, os parágrafos citados contêm palavras que parecem extraídas do meu coração. Fico imaginando quantos mais têm sido mentoreados por Neemias.

Texto extraído da obra: “Neemias: Paixão Pela Fidelidade”, editada pela CPAD.

James Innell Packer (Gloucester22 de julho de 1926) é um teólogo anglicano e professor de teologia no Regent College, em Vancouver,Canadá. Seus livros já venderam mais de três milhões de exemplares. Entre os seus livros publicados em português estão O Conhecimento de DeusEsperançaNa Dinâmica do EspíritoEntre os Gigantes de Deus e Os Vocábulos de Deus. Foi editor da revista Christianity Today (Cristianismo Hoje) e membro do comitê de novas traduções da Bíblia.


quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Harpa Cristã

Talvez a sua congregação seja como a minha: somente cantamos alguns poucos hinos da Harpa Cristã e centenas deles possuem músicas desconhecidas para os membros. Assim, repetimos por anos os mesmos louvores e o hinário fica pouco aproveitado. Mas a internet apresenta uma solução muito interessante.

Um assembleiano montou o site Harpa Cristã (www.harpacrista.org) onde reúne as letras com as suas respectivas músicas. É hora de descobrir (ou redescobrir) aquele hino que ninguém canta mais. Eu, por exemplo, nunca havia escutado a música "Gloriosa Aurora" (Hino 21). Veja:

Jesus desceu p’ra nos salvar,
O sol da graça vem brilhar,
Alegres jubilemos;
Jesus, ó nosso bom Pastor,
Vem nos guiar com Teu amor;
Ali nós pertencemos;
Almas salvas, perdoadas,
Libertadas hoje oram,
Reverentes Te adoram! 



(http://www.harpacrista.org/hino/21-gloriosa-aurora/)

Que maravilha! No mar do triunfalismo boçal dos "sabores de mel" misturados com sentimentos de vingança, vamos nos deleitar com lindos louvores! Fica a dica!

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Perderam a capacidade do discernimento! Só pode!


Nada a comentar. A notícia e a foto já falam por si. Leia mais aqui. Bom seria se tal notícia fosse mero boato de internet.

Meus pêsames CONFRADESP!

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Ei apologista! A década de 1980 acabou!

Muitas vezes nós, os aspirantes a apologistas, respondemos perguntas que ninguém faz. A apologética cristã não pode ficar presa nos assuntos "quentes" das décadas de 1980 e 1990. A ameaça de hoje não é a mesma de ontem e não será a igual amanhã. Cada período da história tem a sua própria ameaça à fé cristã. É necessário entender o problema de hoje para responder as inquietações contemporâneas. 

O gnosticismo era a principal ameaça à igreja do primeiro século, mas hoje é praticamente inexistente. O agressivo liberalismo teológico francês-iluminista-alemão bateu em nossas portas no século XIX, mas hoje não apresenta a mesma força. Hoje os filhos de Roussel são mais sutis e "pós-modernos".Os liberais de hoje não negam divindade de Cristo, mas sim a ideia "arrogante" de verdade.  O neopentecostalismo, com sua falsa promessa de prosperidade, nos sacudiu na década de 1990, mas agora dá sinais de desgaste. A prosperidade deu lugar ao triunfalismo infantil que quase não é combatido.

E as seitas? São uma ameaça? Sem dúvida, mas hoje o perigo é mais interno do que externo! O mundo muda e os problemas também. Hoje o problema é: 1) o racionalismo ou o emocionalismo? 2) A fé de uma seita exótica ou um professor sedutor que, mentindo, diz "pensar fora da caixa"? 3) O budista ou o líder que briga e disputa o poder burocrático de uma denominação? 4) A ignorância doutrinária ou a arrogância do teólogos que compraram diploma? 5) O espírita ou o evangélico supersticioso? Etc.
Caro apologista, apesar do Sarney ainda mandar, a década de 1980 já passou. 

Exemplo

O apologista que ainda acha que as universidades são fábricas de ateus mostra a sua "desconexão" com a realidade. Sim, um dia foram, mas hoje o problema é outro. A religião é bem aceita, mas o cristianismo é simplesmente mais uma verdade entre as demais. Sim, você pode ser religioso, mas jamais "arrogante" na reivindicação da verdade singular de Jesus Cristo. Vejam que a questão é bem outra. Ninguém é discipulado do ateísmo (cara algumas exceções), mas sim discipulado na romântica e "humanista" ideia que o lindo Jesus é tão bacana quando o bondoso Buda. Na vida universitária é importante ser feliz e ter uma "fé" (palavra genérica que designa qualquer superstição).

O ponto é entender o mundo para não exercer uma apologética desconectada com as necessidades imediatas. Como nos exorta Alister McGrath:
A apologética tradicional parece muitas vezes radicada em um mundo moribundo, um mundo em que as reivindicações de verdade do cristianismo eram testadas sobretudo nas salas de seminário de velhas universidades, onde a racionalidade era vista como critério máximo de justificação. Acreditava-se que as estratégias apologéticas não dependiam de tempo ou lugar [...] A apologética não tem que ver com a vitória de uma argumentação sobre outra; seu objetivo é conquistar pessoas. [1]
E hoje, mais do que respostas inteligentes de apologistas, as pessoas buscam cristãos que vivam o Evangelho integralmente. Ravi Zacharias comenta: "Não tenho dúvida de que o maior obstáculo individual para o impacto do evangelho não seja a sua inabilidade para fornecer respostas, mas a falha de nossa parte em vivê-lo completamente" [2].

 Outro ponto é saber que a apologética muda conforme a ameaça. Logo porque "estejam prontos para falar e explicar a qualquer um que perguntar por que vocês adotaram esse estilo de vida, sempre com a maior gentileza" (I Pedro 3.15 A Mensagem).

Referências Bibliográficas:

[1] MCGRATH, Alister. Apologética Cristã no Século XXI. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2008. p 10,15.

[2] ZACHARIAS, Ravi e GEISLER, Norman. Sua Igreja Está Preparada? 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2007. p 23.

sábado, 1 de outubro de 2011

Lição 01 - Quando a Crise Mostra a sua Face

Subsídio preparado pela CPAD

Texto Bíblico: Neemias 1.1-7

O LIVRO DE NEEMIAS

O livro que leva o nome de Neemias aparece nos primeiros manuscritos, combinando com o de Esdras, e ambos formam um único livro. Certos manuscritos gregos separaram os dois antes da época de Orígenes e Jerônimo, mas os manuscritos hebraicos combinaram os dois até o ano de 1448 d.C. Sua união nos códices mais importantes (Vaticano, Sinaítico e Alexandrino) indica que originalmente formaram apenas um livro na Septuaginta (LXX).

Conteúdo
I. A Administração de Judá por Neemias, 1.1 – 12.47:

A. Chegada a Jerusalém, 1.1 – 2.20
B. Reconstrução do muro, 3.1 – 7.4
C. Registro dos retornaram, 7.5-72
D. Renovação da aliança, 7.73 – 10.39
E. Censo de Jerusalém e da vizinhança, 11.1-36
F. Relação dos sacerdotes e levitas, 12.1-26
G. Consagração do muro, 12.27-47

II. Segunda Visita de Neemias a Jerusalém e Reforma Finais, 13.1-31

Fontes
Como no caso do livro de Esdras, várias e distintas fontes podem ser facilmente reconhecidas demonstrando o caráter composto desse livro, da maneira como agora se encontra:

1. Memórias pessoais de Neemias (1.1; 2.20; 4.1 – 7.5; 10.28 – 11.2; 12.37; 13.31). Essas passagens foram escritas na primeira pessoa.
2. Narrativas na terceira pessoa (7.73 – 9.38). Essas passagens podem ter sido adaptadas das memórias de Neemias, porém, vieram provavelmente dos registros do Templo.
3. Relações e genealogias:
a. Construtores (3.1-32), das memórias de Neemias.
b. Exilados que retornaram (7.6-73), da mesma fonte de Esdras 2.1-70.
c. Aqueles que selaram a aliança (10.1-27), das memórias de Neemias ou dos registros do Templo.
d. Residentes de Jerusalém e de sua região (11.3-36), dos registros do Templo ou arquivos do estado.
e. Sacerdotes, levitas e sumos sacerdotes (12.1-26), dos registros do Templo.

Autoria
Há muito tempo este livro tem estado ligado ao nome de Esdras na tradição hebraico-cristã. Seus estreitos laços com os livros de 1 e 2 Crônicas em estilo, linguagem, aspecto e propósito apontam para uma obra que originalmente incluía Crônicas, Esdras e Neemias. O fato de Crônicas ter estado inicialmente como o primeiro livro da série pode ser observado pela repetição dos versos finais de 2 Crônicas no início do livro de Esdras. Provavelmente, os livros de Crônicas foram mais tarde colocados em último lugar em virtude de terem sido aceitos posteriormente pela comunidade judaica. Outros arranjos diferentes são evidentes na LXX, como parte de Neemias 8 ter sido transferido para acompanhar Esdras 10.2. A natureza composta dessas obras, e sua grande semelhança têm dado ao autor ou editor o nome de “Cronista”. O Talmulde (Baba Bathra 15ª) considera Esdras como o autor principal e Neemias, seu contemporâneo, como aquele que completou os registros.

O fato de Neemias ter feito intenso uso de memórias pessoais torna-o, com toda certeza, um substancial autor do material que agora leva seu nome. Esse material vem de um documento muito parecido com um diário pessoal. Alguns acreditam que ele nunca teve a intenção de publicá-lo por ter registrado os eventos e as emoções a eles associados de forma muito franca e cheia de vida. Essas observações feitas em primeira mão são tremendamente importantes para lançar alguma luz sobre a história política dos judeus durante o período persa.

Texto extraído e adaptado do: “Dicionário Bíblico Wycliffe”, editado pela CPAD.