sábado, 31 de dezembro de 2011

Os cristãos, os leões e a "The Economist"!


Por Gutierres Fernandes Siqueira

Sempre fiquei incomodado com o fato da imprensa internacional se calar diante da dura perseguição que os cristãos sofrem mundo a fora. Não que eu acredite numa “teoria da conspiração” que insinue ser a grande imprensa interessada em esconder propositalmente tais fatos, mas o esquecimento é fruto de uma convicção: a perseguição aos cristãos no Oriente parece ser irrelevante para as pautas.

Mas o esquecimento não é exclusividade da imprensa mundial. A agenda de direitos humanos da ONU (Organização das Nações Unidas), por exemplo, parece esquecer que a liberdade religiosa é uma coluna essencial de qualquer democracia decente. Quando se fala em democracia não estamos falando apenas no direito de votar, mas também na liberdade de pensamento e crença religiosa. Estamos falando no direito básico de alguém trocar uma mesquita por uma igreja sem sofrer retaliações.

Para a minha surpresa a imprensa divulgou com muito destaque os atentados que mataram dezenas de cristãos nigerianos no último Natal. Mas não é de hoje que a seita islâmica Boko Haram (“a educação ocidental ou não-islâmica é um pecado”, em tradução livre do árabe) vem perseguindo e matando cristãos no sul da Nigéria. Ser cristão no norte da Nigéria, dominada pelo islamismo, é quase impossível.

A perseguição aos cristãos é uma realidade cruel e constante. 
Felizmente um órgão da imprensa mundial lembrou que os cristãos são perseguidos pelo mundo e que a liberdade religiosa deve ser uma preocupação de todos, independente da crença ou não crença. A revista inglesa The Economist, o principal periódico econômico do mundo, trouxe nesta semana uma boa matéria sobre o assunto. O texto intitulado Christians and lions (Cristãos e leões, em tradução livre) analisa o óbvio: a liberdade religiosa é uma base de sustento da democracia: “E qualquer que seja a própria crença, os eleitores ocidentais têm outras razões para se preocuparem com o destino dos cristãos. Os regimes ou as sociedades que perseguem os cristãos tendem, também, a oprimir outras minorias. Os muçulmanos sunitas, que demonizam os xiitas, odeiam os cristãos”, afirmou a matéria.

No final, a revista concluiu com uma recomendação que pouco fazem no mundo secular, especialmente aqueles influenciados pelo “relativismo cultural”, que respeitam até mesmo o fundamentalismo como expressão legítima de fé: “Os líderes muçulmanos precisam aceitar que a mudança de credo é um direito legal. Quanto a este ponto o Ocidente não deve recuar. Caso contrário, os crentes, cristãos ou não, continuam em perigo”, conclui o periódico.

O mundo islâmico precisa aceitar que a mudança de credo é um direito de qualquer um. Isso não é aceito facilmente entre aqueles que veem na “apostasia” um mal a ser eliminado na força. Mesmo em países islâmicos supostamente democráticos, como a Turquia e a Indonésia, os muçulmanos que se convertem ao cristianismo são perseguidos até por suas famílias. Felizmente a The Economist falou aquilo que os cristãos já sabem há muito tempo: a liberdade para mudar de credo deve nascer no mundo islâmico como já é praticado no mundo cristão há anos.

Leia a matéria da The Economist (em inglês) aqui. O título do texto da revista lembra o símbolo da perseguição dos cristãos que remonta o Império Romano, ou seja, os cristãos sendo jogados aos leões no Coliseu Romano como parte de um espetáculo macabro. 

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Lição 01 - O surgimento da teologia da prosperidade

Por Hank Hanegraaff

[OBS: Subsídio preparado pela equipe de educação da CPAD]

Nos últimos anos, multidões que professam o nome de Cristo assumiram uma postura altamente distorcida em relação ao que significa, realmente, ser cristão. Talvez o mais alarmante é que milhões têm sido impedidos de levar a sério as reivindicações de Cristo porque percebem o cristianismo como algo negativo, e os líderes cristãos como artistas do contra.

Sob o pendão de “Jesus é o Senhor”, multidões estão sendo ludibriadas por um evangelho de ganância e abraçando doutrinas cuja origem é inegavelmente mística. Mas apesar de estarem convencidas de que o que ouvem é a coisa real, na verdade estão abraçando uma barata contrafação. Verdades eternas, tiradas da Palavra de Deus, estão sendo pervertidas numa mitologia perversa – e enquanto isso o cristianismo está despencando, a uma velocidade de quebrar o pescoço, numa crise de proporções nunca vistas.

Esta é uma acusação tremenda, eu sei – e compreendo que pode ser difícil de engolir. Portanto, para provar que não sou um alarmista, permita-me dar-lhe algumas provas daquilo que você vai ler [...]. As citações abaixo podem mostrar-se tão ultrajantes que pareçam fabricações; mas cada uma delas – juntamente com cada outro exemplo que há neste livro – foi cuidadosamente autenticada. Estas citações têm caído diretamente dos lábios ou das penas dum punhado de homens e mulheres que se consideram profetas modernos. E são esses autoproclamados apóstolos que estão levando a Igreja a um reino de seitas. Mas não aceite apenas a minha palavra quanto a isso:

“Satanás venceu Jesus na cruz”.
- Kenneth Copeland

“Você não está olhando para Morris Cerullo - Você está olhando para Deus, está olhando para Jesus”.
- Morris Cerullo

“Nunca, jamais, em tempo algum, vá ao Senhor e diga: ‘Se for da tua vontade...’ Não permita que essas palavras destruidoras da fé saiam de sua boca”.
- Benny Hinn

“Deus precisa receber permissão para trabalhar neste reino terrestre em favor do homem... Sim! Você está no controle das coisas! Assim, se o homem detém o controle, quem deixou de exercê-lo? Deus”.
- Frederick K. C. Price

“O homem foi criado em termos de igualdade com Deus, e podia permanecer na presença dele sem qualquer consciência de inferioridade”.
- Kenneth E. Hagin

Conforme você verá, isso é apenas a ponta do iceberg. Se sistemas sectários ou ocultos, como o movimento da Nova Era, representam a maior ameaça ao corpo de Cristo pelo lado de fora, o câncer mortal, representado por essas citações, constitui uma das piores ameaças ao cristianismo pelo lado de dentro. O verdadeiro Cristo e a verdadeira fé bíblica estão sendo rapidamente substituídos por alternativas doentias, oferecidas por um grupo de mestres que pertencem ao denominado “Movimento da Fé”.

Este câncer vem sendo alimentado por uma constante dieta que poderia ser chamada de “cristianismo das refeições rápidas” – belas na aparência, mas fracas em substância. Os provedores dessa dieta cancerígena têm utilizado o poder das ondas de rádio e televisão, bem como uma pletora de livros e fitas criteriosa e agradavelmente embalados, a fim de atrair suas presas para o jantar. E os desavisados têm sido chamados a amar não o Mestre, mas aquele que está na mesa do Mestre.

[...] Talvez a carga de responsabilidade que sinto ao escrever este livro seja melhor expressa por meio das advertências de Pedro, Paulo e do Mestre por excelência, Jesus Cristo. Tire um momento para ouvir as palavras deles, que reverberam através dos séculos.

• O apostolo Pedro disse:
“Assim como no meio do povo surgiram falsos profetas, assim também haverá entre vós falsos mestres, os quais introduzirão dissimuladamente heresias destruidoras, até ao ponto de renegarem o Soberano Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina destruição. E muitos seguirão as suas práticas libertinas, e, por causa deles será infamado o caminho da verdade; movidos por avareza, farão comércio de vós, com palavras fictícias...” (2 Pe 2.1-3 – ARA).

• A essa advertência, acrescentou Paulo:
“E que, dentre vós mesmos, se levantarão homens que falarão coisas perversas, para atraírem os discípulos após si. Portanto, vigiai, lembrando-vos de que durante três anos, não cessei, noite e dia, de admoestar, com lágrimas, a cada um de vós” (At 20.30,31).

• Ouça agora as palavras do próprio Cristo:
“Acautelai-vos, porém, dos falsos profetas que vêm até vós vestidos como ovelhas, mas interiormente são lobos devoradores” (Mt 7.15).

Não constitui motivo de grande alegria soar o alarme, mas se faz necessário. Lamento o dano espiritual já sofrido por tantos e é minha esperança que este livro [e que estas Lições Bíblicas] venha a salvar pelo menos algumas ovelhas de Cristo dum terrível destino.

Que Deus se digne em usar esse livro [e essas Lições Bíblicas] não somente para desmascarar os falsos mestres que estão transformando a verdade em mitologia, mas também para propor soluções a um cristianismo em crise.

Texto extraído da obra: “Cristianismo em Crise: Um câncer está devorando a Igreja de Cristo. Ele tem de ser extirpado!”, editada pela CPAD.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

O mundo fantasioso dos cristãos conservadores [parte 2]

Homossexualismo é um pecado. Isso é fato! Mas deve ser o único pecado condenado nos outdoor? E  o pecado da avareza?  Condenar um pecado e não oferecer o remédio (Cristo) é pregação do Evangelho ou moralismo vazio?






Mesmo que minha consciência me acuse de ter pecado gravemente contra todos os mandamentos de Deus, e de não ter guardado nenhum deles, e de ser ainda inclinado a todo mal, todavia Deus me dá, sem nenhum mérito meu, por pura graça, a perfeita satisfação, a justiça e a santidade de Cristo. Deus me trata como se eu nunca tivesse cometido pecado algum ou jamais tivesse sido pecador; e, como se pessoalmente eu tivesse cumprido toda a obediência que Cristo cumpriu por mim. Este benefício é meu somente se eu o aceitar por fé, de todo o coração [Catecismo de Heidelberg, em 1563]

OBS: Parte entender o artigo na sua completude, por favor, não deixe de ler a primeira parte deste texto aqui.

O moralismo

O moralismo precisa ser observado com muito cuidado, logo porque a moral é uma necessidade para qualquer um que se julgue cristão. Não existe verdadeiro cristão que seja imoral ou amoral. A moral é necessária e isso é inegável, mas o moralismo é pernicioso quando abraçado como a causa e o caminho da salvação, mesmo que tal decisão seja inconsciente.

O moralismo não é um simples problema, mas sim um pensamento que pode inviabilizar a própria obra de Cristo. O moralismo leva o homem a acreditar em si mesmo como suficiente para tarefa da auto-salvação. Por mais que queiramos negar, há inúmeros cristãos conservadores apoiados na moral para a própria redenção. O moralismo salvífico é o oposto ao cristianismo protestante, mas ainda assim uma parcela considerável do evangelicalismo popular está presa no mundo falacioso do moralismo vazio.

O caminho, é claro, não é pregar contra a moral. Nada disso, pois pecado é pecado. O correto é pregar moral como sinal de um cristianismo vivo e já consolidado, mas não como o caminho para a salvação. A salvação é única e exclusivamente pela graça divina. Ninguém pode servir a Deus querendo agradar-lhe como maçãs e presentinhos. Deus não é comprado por ninguém. O moralista salvífico acha que pode comprar Deus porque fez isso e deixou de fazer aquilo. Que terrível engano!

A salvação é a única conquista na vida que não é meritória. Aliás, melhor dizendo: a salvação é sim meritória, mas os méritos são de Cristo. A pregação da graça não é concessão para o pecado, mas sim a lembrança que por mais puro que você seja, ainda assim a sua imundície grita contra a sua salvação. A salvação precisa de uma base. A base da salvação moralista são as suas próprias atitudes. A base da salvação pregada no Evangelho são as atitudes de Cristo!

Quando penso sobre moralismo vazio lembro-me da frase de John Owen, conceituado teólogo puritano do século XVII, que escreveu: “Aquele que troca a soberba pelo mundanismo, a sensualidade pelo farisaísmo, a vaidade pelo desprezo do próximo, não pense que mortificou e abandonou o pecado. Mudou de dono, mas continua escravo” [1]. O moralismo é vizinho do farisaísmo, pois sob o manto da correção afasta muitos corações de Deus.

O teólogo reformado Michael Horton nos alerta sobre o perigo de enfatizar um Jesus altamente moralista, ou seja, um Jesus-exemplo de perfeição e esquecer-se de enfatizar a sua missão exclusiva: A salvação de homens pecadores e a sua missão como vicário, ou seja, nosso substituto! Se alguém abraça Jesus como “exemplo” antes de abraçá-lo como “Salvador” está perdido no moralismo e na auto-salvação. Jesus veio criar um homem melhorado pela penitência moral ou uma nova criatura? Horton escreve:
Cristo é uma forte de capacitação, mas é amplamente reconhecido entre nós, hoje, como fonte de redenção para o impotente? Ele ajudará o moralmente sensível a se tornar melhor, mas salva o ímpio- incluindo os cristãos? Ele sara as vidas destruídas, mas levanta aqueles que estão “mortos nos vossos delitos e pecados” (Ef. 2.1)? Terá Cristo vindo meramente para melhorar nossa existência em Adão ou para terminá-la, arrebatando-nos para a sua nova criação? Será o cristianismo somente sobre transformações espiritual e moral, ou sobre a morte e a ressurreição- juízo e graça radical? [2]

E Horton completa: “A pregação apropriada da lei vai nos levar ao desespero de nós mesmos, mas apenas para que possamos, finalmente, olhar para fora de nós, para Cristo” [3].

O moralismo não é Evangelho. Sim, o Evangelho demanda atitudes morais, mas o moralismo não é o caminho para a salvação. O único caminho é Cristo. Na prática, infelizmente, muitas igrejas conservadoras estão pregando a bondade humana (principalmente a correção da sexualidade) como o substituto de Cristo. É um perigo. A santificação vem depois da salvação e não o contrário. E assim como a salvação, como lembra-nos o Catecismo de Heidelberg na abertura do texto, a santificação também é graça divina.

Continua...


Referências Bibliográficas:

[1] OWEN, John. A Mortificação do Pecado. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2005. p 73.

[2] HORTON, Michael. Cristianismo Sem Cristo. 1 ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2010. p 20.

[3] HORTON, Michael. Idem. p 109.

domingo, 25 de dezembro de 2011

Natal desperdiçado!

Cantatas de Natal: Cada vez mais raras!
Em 2068, se Deus permitir e o mundo existir, eu farei 80 anos. Ora, poucas coisas eu posso prever de um ano tão distante, mas vejo que no Natal de 2068 continuaremos ouvindo cristãos reclamando que o Papai-Noel substitui Jesus Cristo e que o Natal virou a celebração do consumismo. As reclamações são legítimas e também partilho dessa lamentação, mas o que estamos fazendo para mudar? Nada!

Na semana que passou eu visitei o Parque Trianon, na Avenida Paulista, onde existia lindos enfeites de Natal e um pequeno coral. O que me chamou a atenção naquele parque foi a concorrência para ouvir um coral pequeno com som sofrível. As músicas cantadas falavam em “Glórias a Deus nas alturas” e “O nosso Salvador nasceu” etc. e naquele momento vi que nós, cristãos evangélicos, desperdiçamos o melhor momento do ano para falar a respeito de Jesus Cristo.

Quantas de nossas igrejas farão Cantatas de Natal e convidarão os seus parentes descrentes para ouvir? Infelizmente são cada vez mais raras, mesmo em igrejas mais tradicionais. A Palavra pregada e cantada em um culto como esse pode produzir muitos frutos. Como podemos esperar uma postura secular adequada do Natal se nós o desperdiçamos?

É momento de pensar, se Deus permitir, o Natal de 2012. Não vamos desperdiçar mais um!

Feliz Natal.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Liberdade Religiosa

Por Gutierres Siqueira

Há tempos venho enfatizando neste blog que não existe democracia sem plena liberdade religiosa e liberdade de expressão. Infelizmente, há mentes autoritárias em nosso país que sonham com um mundo desenhado por eles e imposto para todos nós. Portanto, nós cristãos, precisamos enfatizar sempre a defesa da liberdade e não ficar promovendo "abaixo-assinados" contra apresentadores de TV sob a tutela de um "paipóstolo". A nossa causa é o Evangelho e sem liberdade fica difícil o anúncio das Boas Novas. A liberdade de expressão deve ser, também, a nossa causa. 

Abaixo reproduzo o ótimo texto do advogado Aldir Guedes Soriano, publicado na edição de hoje do jornal Folha de S. Paulo. É uma bela defesa da liberdade religiosa. 


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Resistência aos inimigos da liberdade


Por Aldir Guedes (Folha de S. Paulo, A3, 24 de dezembro de 2011)

É importante reconhecer que a luta pela democracia passa por uma defesa da liberdade religiosa: a consciência deve permanecer livre de coerção


Certamente ainda existem os inimigos profissionais da liberdade de que falava o jurista Rui Barbosa. São agentes que trabalham incansavelmente contra a autonomia da consciência individual, arrastando nesse propósito autoritário uma multidão de obreiros inconscientes e alienados da realidade.

Impulsionados pela "libido dominandi", os inimigos profissionais da liberdade pretendem impor a autonomia do consenso coletivo. Nesse campo, não é lícita a intromissão do poder político. A consciência religiosa ou ateia deve permanecer livre de qualquer forma de coerção.

Regular as relações interpessoais com o fim de promover a pacífica convivência social é papel do Estado, mas há limites.

No Estado democrático de Direito, o poder estatal é limitado pelos direitos fundamentais e pela autonomia da consciência individual.

Por defender o princípio da liberdade religiosa, Rui Barbosa atraiu a animosidade dos ultramontanos e foi considerado inimigo da religião. Ao perseverar na defesa dos princípios liberais, Rui teve que se exilar em Londres.

É importante reconhecer que a luta pela democracia passa pela defesa da liberdade religiosa. Não pode subsistir a democracia sem essa liberdade pública.

Remanesce, hoje, a necessidade de defesa desses princípios liberais como forma de resistência à autonomia da consciência coletiva, ao fanatismo e à intolerância religiosa. A tese da universalidade dos direitos humanos não pode ser superada pelo relativismo cultural, atualmente promovida em conferências realizadas no Irã e em outros países teocráticos.

Direitos fundamentais não podem ser violados em nome do relativismo cultural. É preciso defender urgentemente a tese da universalidade dos direitos humanos ao redor do mundo, e até mesmo no âmbito das Nações Unidas.

No Irã, os bahá'ís são sistematicamente perseguidos e não podem exercer o direito à educação superior. Ao redor do mundo, um cristão é morto a cada cinco minutos, em razão de virulentas perseguições religiosas. Recentemente, em uma única noite, 500 cristãos foram assassinados em uma pequena aldeia na Nigéria, por fanáticos religiosos munidos de facões e armas de fogo. Mulheres apanhadas em adultério são punidas com apedrejamento.

Enfim, nos diversos países teocráticos, a pena de morte é aplicada contra aqueles que mudam de religião ou que manifestam alguma dissidência em relação à religião oficial do Estado.

Rui Barbosa era apaixonado pelo liberalismo político e pela liberdade. Herdou esse legado de seu pai, João Barbosa.

A liberdade religiosa está na origem e no âmago de todos os demais direitos fundamentais da pessoa humana. Essa liberdade, segundo Rui, é inata ao homem, pacífica, civilizadora e filha do evangelho.
Diante dos grandes desafios e ameaças à consciência individual, por que não promover o princípio democrático da liberdade religiosa?

É preciso promover os princípios liberais como uma forma de resistência contra a opressão, o fanatismo e a tirania.

ALDIR GUEDES SORIANO, advogado e membro da Comissão de Direito e Liberdade Religiosa da OAB-SP, é coordenador da obra coletiva "Direito à Liberdade Religiosa - Desafios e Perspectivas para o Século 21".


Lição 13 - A integridade de um Líder

O PASTOR E SUA VIDA DEVOCIONAL
(Subsídio preparado pela equipe de educação da CPAD)

Por Leslie E. Welk

O pastor, como aquele que se espera que ministre aos outros, deve em primeiro lugar e antes de mais nada ser ministrado por Deus. A vida devocional particular do ministro, o tempo gasto com Deus, determinará a verdadeira altura e profundidade de seu ministério.

Meta admirável para o pastor é receber identificação semelhante à de Pedro e João em Atos 4.13. As multidões maravilhavam-se da ousadia desses homens indoutos e sem cultura, pois “tinham conhecimento de que eles haviam estado com Jesus”. Esses líderes espirituais tinham passado tempo com Deus e o demonstravam.

A palavra “devoção” é definida por vocábulos como “consagração”, “dedicação íntima” e “zelo”. De fato, a edição de 1828 do American Dictionary of the English Language (Dicionário Americano da Língua Inglesa), de Noah Webster, define “devoção” em sua maior parte em termos religiosos. Webster descreve-a mais detalhadamente, como “uma atenção solene ao Ser Supremo na adoração; uma rendição do coração e das afeições a Deus, com reverência, fé e piedade, nos deveres religiosos, particularmente na oração e na meditação”. Para todo crente e particularmente para o pastor, devoção significa concentração diária nas Escrituras e na oração.

Uma vida devocional disciplinada é assunto inteiramente pessoal, e não ousamos relegá-lo a uma exigência profissional rotineira. Antes de sermos pastores, somos filhos de Deus, individualmente responsáveis e necessitados do alimento espiritual diário. Como pastores, logo percebemos que alimentar o rebanho de Deus requer que primeiro sejamos estudantes diligentes da Palavra. Mesmo assim, uma das maiores armadilhas para o obreiro cristão de tempo integral é permitir que o período dedicado ao estudo pessoal substitua o período devocional particular. Fazê-lo pode ser comparado a passar a semana inteira preparando um banquete para hóspedes convidados, sem ter tempo de se sentar para comer.

A fim de ajudar a diferençar essas duas abordagens à Palavra de Deus, tenho empregado o que denomino “método das duas cadeiras”. De modo característico, a cadeira de minha escrivaninha tem servido de cadeira de estudo, cadeira de conselheiro, cadeira de administrador. Dessa cadeira, pessoas são animadas e sermões são preparados. A cadeira está convenientemente próxima aos livros, bloco de anotações, telefone e computador. Por outro lado, escolhi outra cadeira do meu gabinete, às vezes até um lugar completamente diferente, para hospedar meus períodos devocionais particulares. Cada propósito é distinto, cada lugar distinto. Deslocar-me entre os lugares diferentes me lembra das diferenças entre estudo pessoal e devoções particulares.

Reflexão: “Antes de sermos pastores, somos filhos de Deus, individualmente responsáveis e necessitados do alimento espiritual diário.”

Texto extraído do: “Manual Pastor Pentecostal: Teologia e Práticas Pastorais”, editado pela CPAD.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Redenção!

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Indiferença, violência e a história de uma conversão chocante! 
O longa-metragem Redenção (Machine Gun Preacher, EUA, 2011) é um daqueles filmes que você sai mal do cinema, aliás, muito mal e chocado! A Redenção conta a história real de Sam Childers, interpretado pelo ótimo ator escocês Gerard Butler. Sam era um presidiário, traficante, sexista, drogado e que se converte em uma igreja protestante e vira missionário cristão e nada pacifista como protetor de crianças sequestradas pelos milicianos. Crianças feitas de "soldados" na sanguenta guerra civil do Sudão.

Sam Childers, já como crente, ouve a mensagem de um missionário sobre o trabalho no norte da África. Childers então resolve ser voluntário naquele lugar , uma região que ainda hoje passa por um doloroso conflito. Childers vê cenas de violência que mudam sua vida e sua relação com o mundo e com Deus. A conversão dele foi chocante quando a maldade de uma guerra civil ficou diante dos olhos. A vida ficou mais difícil e a missão mais profunda!

É um filme forte e violento, mas infelizmente bem real. É a história de um homem que faz da salvação de crianças a sua causa e quase perde a sua própria filha, sua esposa e o seu irmão. É a história da indiferença do mundo “tranquilo” diante de tanta maldade nos desertos africanos. É a causa de homem que se torna amargo, mas que é despertado por uma criança marcada pela violência extrema.

Resumindo: É um filme chocante como é a história desse missionário que pega em armas para combater traficantes de crianças no Sudão. Não deixa de ser um filme sobre a graça de Deus, mas só lembrando que o longa não foi feito com propósito de ser um "filme cristão". No final do filme aparecem fotos do Sam Childers real!


domingo, 18 de dezembro de 2011

O “Festival Promessas” e a apologética exagerada

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Foi bom e ruim, bonito e feio, evangelístico e triunfalista, ou seja, a cara do nosso evangelicalismo!
O Festival Promessas é meramente uma estratégia comercial da Rede Globo. Oh, e assim eu descobri a roda, não é mesmo?! Meus amigos, isso é muitíssimo óbvio. Muitas vezes falamos sobre a estratégia marqueteira como se fosse uma novidade “escondida” e revelada na base das “teorias da conspiração”. Ora, uma emissora comercial vai “pregar o Evangelho” pela causa cristã? É claro que não. Isso não existiu e nunca existirá em nenhum lugar do mundo. Manter uma emissora lucrativa é o objetivo de qualquer magnata da mídia. Empresário não é filantropo ou evangelista.

O objetivo comercial da emissora carioca é óbvio. Ok? Mas, e daí? Vamos esperar que a quarta emissora do mundo se “converta” de verdade? Meu Deus, no dia que isso acontecer essa e qualquer outra emissora comercial deixa de existir. Alô apologistas! Ainda vivemos no mundo que é movido por bens de troca e consumo! Gostamos ou não, essa é uma realidade milenar!

Seria esse motivo para que eu despreze completamente o Festival Promessas? Acho exagero. Por que escrevo isso? Pois veio em minha mente a lembrança de Filipenses 1. 14-15, onde Paulo diz: “E a maioria dos irmãos, motivados no Senhor pela minha prisão, estão anunciando a palavra com maior determinação e destemor. É verdade que alguns pregam a Cristo por inveja e rivalidade, mas outros o fazem de boa vontade”. Ou seja, é possível que uma motivação “não pura” (inveja, rivalidade, comercial etc.) ainda sirva para a causa do Evangelho se o conteúdo dessa mensagem for verdadeiro.

Então, a nossa pergunta como “blogueiros apologistas” não é a motivação comercial de uma emissora... comercial, mas sim o conteúdo da mensagem ali pregado. A questão é justamente essa: o que os cantores mais famosos do meio evangélico têm pregado?

O lado preocupante


O Festival Promessas é como a sua igreja e como a minha igreja: alguns pregam o Evangelho e outros distorcem e o contrário também é verdadeiro. Posso dizer que o “Festival Promessas” pregou o Evangelho integralmente? É claro que não! Mas daí a dizer que foi completamente inválido é exagero de apologista. Muitas vezes buscamos uma “pureza pura” que não praticamos nem em nossas igrejas. As nossas igrejas são imperfeitas como foram Corinto, Roma, Galácia etc. Vamos esperar perfeição de um festival?

Poderia ser melhor? Sim, poderia ser muito melhor. Mas não foi tão ruim como alguns pintaram. Ouvir “eu sei que foi pago um alto preço” em rede nacional é importante e até emocionante. Ouvir a Ana Paula Valadão conclamando todos a citar João 3.16 foi um dos pontos altos da festa. Houve os seus momentos “evangelísticos”.

Vocês me conhecem! Sabem que eu não sou simpático ao mundo gospel e nem acho que o “avivamento do Espírito Santo” está invadindo a emissora da platina. Quem pensa isso é um, desculpa a expressão, é um iludido. Sou cético por natureza. Mas a maioria das análises apologéticas que li, em minha opinião, estão buscando uma pureza irreal, ou seja, que não encontramos nem em suas congregações onde os “apologistas” exercem cargos de liderança.

Idealização vazia!

Outros proclamam nas redes sociais que uma festa rica e glamorosa nada tem a ver com o pobre Nazareno. Sim, isso é verdade quase sempre, pois isso no fundo traz a ideia que o Evangelho dos lugares “mais simples” já tem uma pureza natural. Não, a necessidade de buscar a excelência do Evangelho é um desafio das igrejinhas da favela e dos megatemplos luxuosos. Não vamos idealizar a pobreza no momento que pregamos contra a maléfica e herética “teologia da prosperidade” ou o “triunfalismo carismático”. Idealizar a pobreza é algo que Jesus não fez.

O “Festival Promessas” merece críticas? Sim. A maioria dos cantores evangélicos merecem críticas? Sim. Ninguém pode esquecer o propósito comercial da emissora patrocinadora? Sim. Mas não precisamos jogar o bebê com a água suja! Sejamos menos exagerados! A desconfiança é sadia desde que não vire obsessão!

sábado, 17 de dezembro de 2011

Lição 12 - As consequências do jugo desigual

Por James I. Packer

[Obs: Subsídio preparado pela equipe de educação da CPAD]

A CONSAGRAÇÃO DA VIDA NO LAR

“[Prometemos] que não daríamos as nossas filhas aos povos da terra, nem tomaríamos as filhas deles para os nossos filhos” (10.30), preceituava o “firme concerto”. Na ocasião em que ele fora firmado, a pureza racial fora tema de preocupação comum, e eles “apartaram de Israel toda mistura” (13.3), indo além do que mandava a lei, que excluía apenas amonitas e moabitas. Não obstante, o zelo pela pureza do sangue israelita, e em fazer tudo para agradar a Deus, que presumivelmente instigara tal exclusivismo, evaporara-se. Quando Neemias retornou a Jerusalém, encontrou lá “judeus que tinham casado com mulheres asdoditas, amonitas e moabitas” (13.23). O motivo pode ter sido a paixão, é claro, porém é mais provável que haja sido a prudência (se é que se pode chamar assim), que tinha os olhos na oportunidade e nos casamentos por dinheiro, prestígio ou alguma outra forma de lucro mundano. E, em alguns casos, Neemias descobriu que a língua falada em casa, por decisão dos pais, era a estrangeira. “E seus filhos falavam meio asdodita e não podiam falar judaico, senão segundo a língua de cada povo” (13.24). Isso enfureceu Neemias, não apenas pela quebra do voto, mas porque as crianças seriam incapazes de partilhar da adoração em Israel, ou aprender eficazmente a Lei; consequentemente, não estariam aptas a transmitir a fé aos filhos que viriam a ter, e assim estaria em risco a futura unidade espiritual da nação israelita.

Enxergando isso claramente, e não gostando do que via, Neemias convocou uma reunião, na qual fez um discurso aos judeus do sexo masculino que haviam quebrado o “firme concerto”, recordando-lhes a queda de Salomão, cujas “mulheres estranhas o fizeram pecar”, e exigindo que jurassem em nome de Deus não realizar qualquer casamento misto, não mais tomando noivas estrangeiras “nem para vossos filhos nem para vós mesmos”, nem dando as filhas em matrimônio a estrangeiros. Esdras, muitos anos antes, fizera-os romper com os casamentos mistos, por serem totalmente contrários à vontade de Deus (Ed 9 – 10). Neemias não foi tão longe, mas decidiu pela não proliferação e a não recorrência. Este foi um compromisso de estadista. Neemias, sabiamente, não quis fender a comunidade mais que o necessário; apenas requereu uma promessa ajuramentada de que não mais haveria casamentos mistos.

Para assegurar que o juramento seria mantido, ele transformou em exemplo alguns dos ofensores mais notórios: “E espanquei alguns deles, e lhes arranquei os cabelos”. Isto significa tão somente que, em seu papel de cabeça do judiciário, como governador que era, ele ordenou chicotadas de acordo com a prescrição de Deuteronômio 25.1-3 e impôs sentenças de raspar a cabeça, evocando, talvez, em seu discurso, o gesto de Esdras, que arrancara os próprios cabelos por causa do mal dos casamentos mistos (Ed 9.3); entretanto, pode significar ainda que ele infligiu-lhes essa violência punitiva. E então, ele “mandou embora” o neto de Eliasibe – presumivelmente pelo decreto peremptório de banimento, embora “afugentar” seja o significado literal, e a possibilidade de a fúria de Neemias escorraçando o homem da sala ou do prédio não possa ser excluída. Em todo caso, as palavras de Neemias mostram que ele reivindica responsabilidade pelo que foi feito, num alegre retrospecto pelo que fez acontecer, e quer que vejamos o fato como uma expressão apropriada e efetiva de seu zelo reformador e seu propósito pastoral – o que de fato era.

Não devemos supor que Neemias tenha tido prazer em fazer qualquer uma dessas coisas. Podemos estar certos de que ele preferiria não ter de voltar ao começo e tornar a reformar a já deformada reforma de Israel. Mas a vida é repleta de necessidades inoportunas para todo o mundo, e principalmente aos líderes pastorais da Igreja de Deus, que, constantemente, precisam da combinação do zelo de Neemias por Deus e do cuidado pelas pessoas, a fim de poder lidar com as desordens emergentes. O pecado e o Diabo nunca cessarão de corromper a crença e o comportamento dentro da comunidade que carrega o nome de Deus; desordens, perversidades e confusões devem ser esperadas, e os que conduzem a comunidade não devem desanimar ao descobrirem-se obrigados a tratar dos mesmos problemas e desvios, inúmeras vezes, além dos novos que vão aparecendo. Neemais, com a sua paixão por fidelidade e sua piedosa persistência em proceder corretamente, é um modelo a todos nós.

Pastores cuidadosos como Neemias sempre focalizam as famílias e a vida doméstica, porque a família é a primeira e mais básica forma de comunidade humana. A formação familiar, para o melhor ou pior, cala mais fundo nas crianças que qualquer outra forma de criação de qualquer outro lugar, e o ideal bíblico é que as famílias sejam as unidades das quais se constituem as igrejas. A piedade é para ser modelada na família, e a fé, transmitida nela. Em toda parte do mundo ocidental hodierno, e estendendo-se a algumas comunidades urbanas de toda a face do globo, a vida familiar tem sido enfraquecida e minada por pressões de várias espécies; e isso, provavelmente, vai piorar. Então, é grande a necessidade de trabalhar como Neemias trabalhou para conservar a vida familiar forte, piedosa e saudável; e todo aquele que ministra e cria estratégias para ampliar o Reino de Deus, hoje e amanhã, deve considerar a família e a vida doméstica um assunto de primordial interesse.

Texto extraído da obra: “Neemias: Paixão Pela Fidelidade”, editada pela CPAD.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Hillsong London: "You Brought Me Home"




You Brought Me Home (Hillsong London)


Your name oh Lord
Endures forever
Your fame oh Lord
For all time
Your presence Lord
Will leave me never
Your love oh Lord
Is all mine

To whom by wisdom
Made the heavens
And His mercy everlasting
To the One who gives salvation
I lift up my soul to You

Jesus Savior holy Lord
I know that You'll never forsake me
Or leave me alone
My Redeemer Jesus Christ
You sacrificed Yourself on the cross
To bring me home
You brought me home

Você me trouxe para casa (Hillsong London)


Seu nome oh Senhor
Dura para sempre
Sua fama oh Senhor
Para todo o sempre
Sua presença Senhor
Nunca me deixará
O teu amor oh Senhor
É todo meu

Para quem por sabedoria
Fez os céus
E Sua misericórdia eterna
Para aquele que dá salvação
Eu elevo a minha alma a ti

Jesus Salvador Santo Deus
Eu sei que nunca me abandonará
Ou me deixará sozinho
Meu Jesus Cristo Redentor
Você sacrificou-se sobre a cruz
Para trazer-me para casa
Você me trouxe para casa

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

O mundo fantasioso dos cristãos conservadores!

Uma família tradicional. Perfeição?
Eu sou conservador. Sou cristão e um conservador teologicamente falando. Eu também me identifico com o conservadorismo político da tradição anglo-saxã. Admiro filósofos conservadores como Edmund Burke e Russel Kirk, além da rica tradição ortodoxa na teologia cristã.

O pensamento conservador é muito caricaturado. E, em parte, é culpa do “conservadorismo popular”. Mas não quero neste post escrever sobre as características do conservadorismo que abraço com entusiasmo. Neste texto quero falar do mundo de fantasias que alguns conservadores cristãos vivem. É, antes de tudo, uma crítica. Vejamos:

1. “O casamento é um ideal de felicidade”

Calma lá! A Bíblia em momento algum vende a fantasia que o casamento é um mar de felicidade e que casar virgem e/ou cedo signifique sucesso no matrimônio. Onde os conservadores cristãos estão lendo essa fantasia na Bíblia? O casamento, é claro, deve ser valorizado, mas sem vender a falsa ideia que casar nos moldes conservadores seja garantia de felicidade. Viver na promiscuidade não é opção para o cristão, mas a castidade não o fará mais radiante. Castidade é como matar um leão por dia. Se a “mortificação da carne” (Rm 8) fosse algo romântico não teria esse nome.

Casamento é relacionamento e não existe relacionamento fácil. O relacionamento é renúncia e entrega; dedicação e atenção. Quem disse que tais coisas sejam são básicas? É gratificante, mas não são tão simples como as quatro operações da matemática. O casamento é lindo e maravilhoso, mas não 24 horas por dia. O ideal de felicidade no casamento é um dos erros dos cristãos tradicionais. Seria essa fantasia uma espécie de autoajuda conservadora?

2. O foco demasiado em certos problemas em detrimento de outros

Li recentemente que um partido político (dito cristão) que diz defender os “valores da família” está brigando por mais cargos no governo. É fisiologismo puro. O fisiologismo é a “conduta ou prática de certos representantes e servidores públicos que visa à satisfação de interesses ou vantagens pessoais ou partidários, em detrimento do bem comum” (Dicionário Houaiss). O que adiante dizer que defende os “valores familiares” e agir como bandidos da riqueza nacional? Jesus chamaria isso de hipocrisia.

Não me esqueço de lembrar o “Escândalo dos Sanguessugas”, também conhecido como máfia das ambulâncias, que foi um caso de corrupção noticiado em 2006 devido à descoberta de uma quadrilha que desviava dinheiro da compra de ambulâncias. Vários deputados da Frente Parlamentar Evangélica estavam envolvidos no escândalo. Quem desvia dinheiro de ambulâncias é um assassino!

3. O país está debaixo maldição, pois as crianças não oram mais nas escolas!

O pensamento acima é bem comum entre os evangélicos norte-americanos. A “educação de orações” cabe aos pais e não ao Estado. Graças a Deus vivemos em uma democracia representativa e a democracia demanda que crenças e convicções sejam livres e exercitadas pelas famílias ou indivíduos e não pelas mãos do Estado. Isso não significa que o Estado deve banir a religião e suas manifestações tradicionais, ou seja, que já fazem parte da cultura de um país. Mas é exagero achar que “a não oração” em escolas públicas seja trágico. Trágico é uma igreja que não ora e hoje, infelizmente, é maioria.

PS: Esta é a primeira parte do artigo. Em breve publico a segunda parte.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Espiritualidade Steve Jobs!

O artigo Americans: Undecided About God? de Eric Weiner, no The New York Times, é a expressão da religiosidade pós-moderna. Weiner indica que a religião institucionalizada deveria tonar-se uma espécie Apple Espiritual, onde tudo seria simples, livre, intuitivo e interativo. É o profeta Steve Jobs. Weiner escreve: "Eu imagino um espaço religioso que celebra a dúvida, incentiva a experimentação e nos permite pronunciar a palavra Deus sem constrangimento. Um sistema operacional religioso para os ‘sem-religião’ entre nós. E para todos nós".

É claro que não concordo com a visão altamente pós-moderna de Weiner, mas o artigo dele traz para nós a realidade de um desafio: os jovens de hoje querem que a vida como um todo seja semelhante ao seu smartphone. Assim como nos Estados Unidos, o crescimento dos Nones (em inglês), ou seja, dos sem-religião é uma tendência crescente. A visão de mundo "conectada" é um desafio para a pregação do Evangelho no século presente. Não podemos ignorar que o mundo muda. Como pregar para "conectados" tão "desconectados" de compromisso?

O artigo ainda aponta a simpatia crescente dos norte-americanos por figuras religiosas como Dalai Lama contra o “Deus irado” dos cristãos. É o que o filósofo Luiz Felipe Pondé chama de “budismo light”, ou seja, essa espiritualidade sem compromisso e “muito legal” que é uma autoajuda de classe média. O “budismo light” levanta o ego dizendo que todo mundo é lindo e preocupado com o bem-estar do outro. É uma forma de manter "espiritualidade" sem o comprometimento que uma comunidade exige.


Política e religião

Weiner levanta um ponto interessante. Ele diz que muitos sem-religião não querem a religião institucionalizada, pois a identificam com uma postura política. Ser cristão, na visão dos “nones”, seria basicamente aderir ao Partido Republicano. Eis o grande perigo na mistura crescente de religião e política. Se muitas bandeiras dos republicanos são válidas para os cristãos, ainda assim deve-se tomar cuidado com posturas de um partido e o discurso de uma igreja. A bandeira da Igreja é a proclamação do Evangelho e não o acirramento de uma guerra cultural. No Brasil já temos a versão da “guerra cultural” norte-americana.

Repito que não concordo com a solução de Weiner, mas o artigo é provocativo. Leia o artigo aqui.

O sábado (um esboço)!

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Caros leitores,

Segue abaixo o esboço que fiz para a aula deste domingo que girar em torno do tema: “sabatismo”.

01. O sábado era um sinal da aliança de Deus com Israel. Além disso, servia como lembrança desse pacto (veja: Ez 20.12 e 20). A aliança do povo escolhido para gerar o Messias, o desejado de todas as nações (Gn 12.3), era marcada por símbolos. Ou seja, para a Igreja neotestamentária esse propósito do sábado não faz mais sentido, pois a Igreja do Novo Testamento não é Israel do Antigo Testamento. Hoje, o sinal da aliança- a promessa a ser lembrada- é exercido na Ceia. A Ceia do Senhor é a lembrança da morte redentora de Cristo e o despertar sobre a Sua segunda vinda (I Co 11.26)

02. O significado de sábado em hebraico (shabbat) é: “cessar”, “desistir”. O principal mandamento no sábado era a interrupção do trabalho físico, mesmo que realizado no templo. Em uma aplicação do princípio sabático, vemos que o dia de descanso de Deus representa para nós a necessidade do descanso do trabalho semanal. A legislação sabática acontece com a lei mosaica (Êx 20.11).

03. Deus é Soberano sobre tudo. Isso significa que Ele é soberano até sobre os próprios mandamentos. Deus não é preso nem em suas regras. O sábado, que era um mandamento tão forte no Antigo Testamento, já não é regra para os dias de hoje, isso “porque o Filho do homem até do sábado é o Senhor” (Mt 12.8).

04. O mandamento não é um fim em si mesmo. Cada mandamento tem um propósito. Cada mandamento tem uma causa. Jesus foi claro quando disse: “O sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado” (Mc 2.27). O princípio sabático foi feito para o homem desfrutar de descanso e cultuar ao Senhor. O princípio sabático envolvia até mesmo o descanso da terra (Êx 23. 10-11).

05. O legalismo sabatista dos fariseus fez com que condenassem Jesus por curar um homem no sábado (Mc 3. 1-6) . O “trabalho” do milagre era uma afronta a Deus, na interpretação radical e legalista desses religiosos. Diante de tamanha religiosidade fanática o Senhor Jesus pergunta: “É lícito no sábado fazer bem, ou fazer mal? Salvar a vida ou matar? Eles, porém, se calaram” (Mc 3.4). Qualquer mandamento que esteja acima da dignidade humana é fruto de uma interpretação descabida da Bíblia. Fazer o bem deve ser o fruto de qualquer mandamento. O legalismo pode até “fazer o mal” para não fugir do livrinho de regras pré-estabelecidas. O mundo do legalismo é simplista (preto ou branco) e muitas vezes cruel.

06. O domingo é celebrado como dia do Senhor desde a primitiva igreja (ex. Atos 20.7, I Co 16.2), mas não deve ser uma espécie de “sábado cristão”. Domingo é um dia de lembrar a ressurreição do Senhor (Mc 16.9), mas não com o legalismo sabatista. O apóstolo Paulo deixa bem claro que é possível ser cristão julgando “iguais todos os dias” (Rm 14. 5, cf. v. 06). Está errado aquele “hino” evangélico que dizia que “trabalhar no domingo do Senhor está roubando”. Esse tipo de música expressa que o legalismo sabatista do farisaísmo judaico virou para muitos cristãos o legalismo dominguista. Se um cristão só tem a oportunidade de descansar e celebrar ao Senhor na quarta-feira, então assim bem o fará.

07. Quando uma igreja tem cristãos convertidos do judaísmo, então essa congregação deve tolerar a “guarda do sábado” praticado pelos neófitos, pois assim os novos convertidos do judaísmo seguem desde a infância. Esse era o contexto da igreja em Roma- uma congregação de judeus e gentios (Rm 14. 1- 9). Já em uma igreja composta somente de gentios (como as nossas), a guarda do sábado ou qualquer movimento judaizante deve ser condenado, como Paulo fez com os crentes gentios da Galácia. Os gálatas eram ensinados pelos falsos mestres que a conversão a Jesus Cristo demandava a obediência aos costumes judaicos, como a guarda de dias e a circuncisão. (cf. Gl 3. 1-5 cf. 4. 8-11)

08. Ninguém deve ser julgado porque guarda dias especiais para Deus. Assim lembrou Paulo aos colossenses: “Ninguém, pois, vos julgue pelo comer, ou pelo beber, ou por causa de dias de festa, ou de lua nova, ou de sábados, que são sombras das coisas vindouras; mas o corpo é de Cristo” (Cl 2. 16-17). O sabatismo é um erro, assim como o dominguismo.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Lição 11 - O dia de adoração e serviço ao Senhor

Por Ezequias Soares

O sabatismo e o adventismo
Subsídio preparado pela equipe de educação da CPAD
História

Tudo começou com Willian Miller. Nascido em 1782, Pittsfield, estado de Massachussets, EUA. Era de família batista. Em 1818, dizia que nos próximos 20 anos Cristo voltaria à Terra. Em 1831 Miller anunciou que esse evento ocorreria em 23 de março de 1843. Tentou justificar a sua “profecia” em Daniel 8.13,14, quando dizia que 2.300 tardes e manhãs correspondiam a 2.300 anos, e marcou como ponto de partida o retorno de Esdras a Jerusalém em 457 a.C.

Ele conseguiu muitos adeptos. Esses seguidores de Miller venderam propriedades e foram para as colinas esperar o retorno de Cristo. Em Boston, muitos se vestiram de branco, subiram os montes, e permaneceram em constante oração. Enquanto isso muitos, em outras partes dos EUA, entregaram-se publicamente à imoralidade e à prostituição. Nada de suas previsões, porém, se cumpriu. Miller disse que se enganou, e que errou nos cálculos, marcando nova data – 22 de outubro de 1844, que também fracassou.

Miller se arrependeu e procurou a igreja. Pediu perdão e foi servir a Deus, vindo a falecer em 1849. Com isso surgiram vários grupos. Hiram Edson, Joseph Bates e James White com sua esposa Ellen Gould White eram os principais proeminentes dos movimentos adventistas. Hiram Edson, de Port Gibson, disse que teve uma visão no dia seguinte ao fracasso de Miller, dizendo que viu Jesus em pé ao lado do altar. Assim reinterpretou a “profecia” de Miller dizendo que ele errou simplesmente quanto ao local, mas que havia acertado a data. Joseph Bates, de New Hampshire, Washington, instituiu a observância do sábado. O casal White, em Portland, Maine, destacou-se em suas “revelações e visões”.

Os três grupos juntos, em 1860, deram origem ao que hoje se chama Igreja Adventista do Sétimo Dia. A observância da lei, a guarda do sábado, o juízo investigativo, o bode emissário, o espírito de profecia e o sono da alma são os pontos principais que distinguem os Adventistas do Sétimo Dia dos evangélicos.

A questão do Sábado

Afirmam que a guarda do sábado está na lei e que por isso deve ser observado de geração em geração porque é um dos preceitos da lei de Deus, que segundo eles é a mesma lei moral. Assim classificam a lei de Lei Moral e Lei Cerimonial. Os Dez Mandamentos são a Lei Moral, chamada por eles da Lei de Moisés. Esse arranjo adventista não pode ser confirmado na Bíblia. Vamos aos fatos.

A Bíblia afirma que existe só uma lei. Os judeus interpretaram assim: um só Deus, um só legislador, portanto, uma só lei. O que existe, na verdade, são preceitos morais, preceitos cerimoniais e preceitos civis. É chamada de Lei de Deus, porque teve sua origem nEle. Lei de Moisés porque foi Moisés o legislador que Deus escolheu para promulgá-la no Sinai. Os preceitos, tanto do Decálogo como os fora dele, são chamados alternadamente de Lei de Deus ou do Senhor e Lei de Moisés: “E, cumprindo-se os dias da purificação, segundo a lei de Moisés, o levaram a Jerusalém, para o apresentarem ao Senhor (segundo o que está escrito na lei do Senhor...)” (Lc 2.22,23). Não são duas ou três leis, mas uma só lei apresentada por esses nomes. Veja ainda Neemias 1,2,8,18.

Há princípios que são imutáveis e universais. Não existe para ele a questão de transculturação. Onde quer que o evangelho for pregado, esses princípios estão presentes, que chamamos de preceitos morais ou éticos. Os dois maiores mandamentos são preceitos morais: amar a Deus acima de todas as coisas e “o teu próximo como a ti mesmo” (Mc 12.29-31); entretanto, não constam do Decálogo, é uma combinação de Deuteronômio 6.4,5 com Levítico 19.18. Por outro lado, encontramos no Decálogo o quarto mandamento, que não é preceito moral. Jesus disse que o sacerdote podia violar o sábado e ficar sem culpa: “Ou não tendes lido na lei que, aos sábados, os sacerdotes no templo violam o sábado e ficam sem culpa?” (Mt 12.5).

A questão não é o sábado em si, mas o fato de que não estamos debaixo do Antigo Concerto: “Mas agora alcançou ele ministério tanto mais excelente, quanto é mediador de um melhor concerto, que está confirmado em melhores promessas” (Hb 8.6). Leia os versículos seguintes até o 13. A Palavra profética previa a chegada do Novo Concerto: “Eis que dias vêm, diz o SENHOR, em que farei um concerto novo com a casa de Israel e com a casa de Judá...” (Jr 31.31-33). Esse “novo concerto” é mencionado pelo escritor aos Hebreus, 8.8-12.

O judeu convertido à fé cristã que quiser guardar o sábado por convicção religiosa pessoal não está desviado por isso, pois o apóstolo Paulo diz que uns fazem separação de dia, outros acham que podem comer de tudo. Veja Romanos 14.1-6. Convém lembrar que o apóstolo está falando aos judeus cristãos de Roma, por causa da sua cultura religiosa, e não aos gentios.

Ainda hoje muitos deles usam kipar e talit (solidéo e manto), observam o kash’rut (leis dietéticas prescritas por Moisés) e guardam o sábado. Isso o fazem meramente para não perderem sua identidade nacional, é uma questão cultural e não condição para salvação. Isso é diferente dos gentios convertidos a Cristo, pois o apóstolo deixou claro que tais práticas são um retrocesso espiritual: “Guardais dias, e meses e tempos, e anos. Receito de vós que haja trabalhado em vão para convosco” (Gl 4.10,11).

As festas judaicas eram anuais, mensais, ou lua nova (pois a lua nova aparece de 28 a 30 dias e com ela se principia o novo mês) e semanais. Você pode ver isso em 1 Crônicas 23.31; 2 Crônicas 2.4; 8.13; 31.3; Ezequiel 45.17. O apóstolo Paulo diz: “Portanto, ninguém vos julgue pelo comer, ou pelo beber, ou por causa dos dias de festa, ou da lua nova, ou dos sábados, que são sombras das coisas futuras, mas o corpo é de Cristo” (Cl 2.16,17). O sábado cerimonial ou anual já está incluído na expressão “dias de festa”, que são as festas anuais, “lua nova”, mensais e “dos sábados”, festa semanal. O texto fala de um objeto projetando sombra, ou seja, a realidade espiritual na fé cristã é Cristo e não o sábado. Essas figuras das coisas futuras se cumpriram em Jesus. Por isso que Jesus afirmou ser Senhor do sábado (Mc 2.28). Esse texto de Colossenses é a melhor resposta bíblica para os sabatistas.

Dizem que o imperador romano, Constantino, mudou o sábado pelo domingo e por isso estamos comprometidos com um dia pagão. Essa versão deles não condiz com a verdade histórica. A palavra “domingo”, por si só, significa “Dia do Senhor”, pois, foi nesse dia que o Senhor Jesus ressuscitou. O primeiro culto cristão aconteceu num domingo: “Chegada, pois, a tarde daquele dia, o primeiro da semana, e cerradas as portas onde os discípulos, com medo dos judeus, se tinham ajuntado, chegou Jesus, e pôs no meio, e disse-lhes: Paz seja convosco!” (Jo 20.19). O segundo culto também, pois a Bíblia diz que isso aconteceu “oito dias depois” (Jo 20.26).

Os cristãos se reuniam no primeiro dia da semana: “No primeiro dia da semana, ajuntando dos discípulos para partir o pão, Paulo, que havia de partir no dia seguinte...” (At 20.7). O mesmo pode ser visto em Corinto, quando o apóstolo manda levantar coletas para os irmãos pobres de Jerusalém. O texto sagrado diz que essa reunião de adoração se fazia nos domingos: “No primeiro dia da semana, cada um de vós ponha de parte o que puder ajuntar...” (1 Co 16.2). Assim, essa prática foi se tornando comum, sem decreto e sem imposição. Foi algo espontâneo. Constantino apenas confirmou uma prática já antiga dos cristãos.

Os adventistas costumam perguntar com muita frequência: “Onde está escrito na Bíblia que devemos guardar o domingo?” Eles acham que com isso vão calar a boca de todo mundo. O Decálogo fala sábado e isso acontece também em muitos lugares do Velho Testamento, mas o domingo não. Mas na Nova Aliança não há mandamento algum de guardar dias. Dizem que o “domingo” e um dia pagão, porque em inglês Sunday significa “dia do Sol”. Nesse caso, todos os demais dias também seriam pagãos, porque os dias da semana, em inglês, são de origem célticos e homenageiam antigas divindades, inclusive o sábado, que é Saturday, “dia de Saturno”.


sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

O "cair no espírito" e o arrependimento de um pregador!

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Reproduzo logo abaixo a carta do pastor carismático Paul Gowdy, aquele que foi um dos principais divulgadores da "Bênção de Toronto" na década de 1990. Como a polêmica sobre o assunto voltou com a "apologética de motivação escusa" do Edir Macedo, é interessante ler o relato de alguém que vivenciou tão de perto um movimento tão conturbado, altamente místico e sem nenhuma base bíblica. Segue o texto traduzido pelo pastor João Souza Filho. Comento no final.

Levei nove anos até criar coragem e escrever este relato. Demorei porque não tinha convicção de que seria correto falar sobre as fraquezas do corpo de Cristo publicamente. Em segundo, porque tinha que fazer uma jornada espiritual de busca em minha alma e me convencer de que, o que havia ocorrido na Igreja Aeroporto de Toronto foi ruim ou pelo menos pior do que bom.
Durante alguns anos falei da experiência de Toronto como uma bênção misturada. Penso que James A. Beverly o chamou assim em seu livro “Risada Santa” e a “Bênção de Toronto 1994”. Hoje diria que foi uma mistura de maldição, concluindo que qualquer coisa boa que alguém recebeu através desta experiência pessoal é enormemente ultrapassada pela gravidade do mal e do engano satânico. Aqui residia meu grande dilema. 
Tento viver a vida cristã no temor do Senhor e Jesus exortou-nos que um dos pecados sem perdão era a blasfêmia contra o Espírito Santo, isto é, atribuir a Satanás o que é de fato uma obra de Deus. Não quero correr o risco de admitir que a bênção de Toronto era de Deus ou de Satanás, mas creio que Satanás usou esta experiência para cegar as pessoas sobre as doutrinas históricas de Deus, em que o fruto cresce ao lado de uma vida de arrependimento, pois as pessoas não puseram a prova aquelas manifestações para saber se eram mesmo de Deus ou de espíritos enganadores, e não testaram para saber se as profecias eram mesmo de Deus. 
Depois de três anos fazendo parte do núcleo da bênção de Toronto nossa Igreja Vineyard em Scarborough ao leste de Toronto, praticamente se auto-destruiu. Devoramo-nos uns aos outros com fofocas, falando mal pelas costas, com divisões, partidarismo, criticas ferrenhas uns dos outros, etc. Depois de três anos “inundados” orando por pessoas, sacudindo-nos, rolando no chão, rindo, rugindo, rosnando, latindo, ministrando na igreja Internacional do Aeroporto de Toronto, fazendo parte de sua equipe de oração, liderando o louvor e a adoração naquele local, praticamente vivendo ali, tornamo-nos os mais carnais, imaturos, e os crentes mais enganados que conheci. Lembro-me de haver dito ao meu amigo e pastor principal da igreja de Vineyard de Scaraborough em 1997 de que, desde que a bênção de Toronto chegou ficamos esfacelados. Ele concordou.
Minha experiência é de que as manifestações dos dons espirituais de 1 Coríntios 12 eram mais comuns em nossas reuniões antes de Janeiro de 1994 (quando começou a bênção de Toronto) do que durante o período da suposta visitação do Espírito Santo.
No período de 1992-1993 quando orávamos pelas pessoas experimentamos o que chamo de a verdadeira profecia, libertação e graça vindas de nosso Senhor. Depois que se iniciou a bênção de Toronto, os períodos de ministração mudaram, e as únicas orações que ouvíamos eram: “Mais, Senhor”; com gritos de “fogo!”, sacudidelas esquisitas do corpo, e expressões de “oh! uuu! iehh”.
Em 20 de janeiro de 1994 quinze pessoas de nossa igreja foram ouvir Randy Clark, pastor da Igreja Vineyard na Igreja do Aeroporto de Toronto. John Arnot (pastor da igreja do aeroporto) convidou-nos para ir até lá. Ele nos disse que Randy havia estado nas reuniões de Rodney Howard Browne e que a coisa estourou em sua igreja nas semanas seguintes. John esperava que algo acontecesse também entre nós. Ficamos felizes em nos dirigir até lá. Tínhamos uma igreja noutra localidade que havia começado em 1992. Era uma igreja do centro de Scaraborough, ligada ao grupo Vineyard, mas bem a leste da Igreja do Aeroporto. Éramos uma família grande e alegre. E porque éramos poucos tínhamos reuniões especiais, conferencias, etc. 
No ano anterior a maioria de nossos líderes participou de uma curta viagem missionária à Nicarágua. Na ocasião gozávamos de muita comunhão uns com os outros. Desde que deixei de fazer parte das igrejas Vineyard li muitos comentários e análises críticas. Alguns escreveram que a bênção de Toronto era uma grande conspiração que trazia heresia ao corpo de Cristo. Minha convicção é de que a heresia e a apostasia são apenas o resultado, mas nada do que aconteceu ali era intencional. Estou convencido de que os líderes das igrejas Vineyard são pessoas sérias que experimentaram um novo nascimento, amam o Senhor, mas caíram no laço do engano. Não amou o Senhor o suficiente para guardar os seus mandamentos. Fracassaram por não obedecer as escrituras e se desviaram porque anelavam algo maior e grandioso, mais empolgante e dinâmico. Eu também cometi este pecado. Preguei sobre esta renovação na Coréia, no Reino Unido, nos Estados Unidos e aqui no Canadá, e estou profundamente arrependido ao escrever este relato, e peço-lhes que vocês, a noiva e o corpo de Cristo me perdoem. Especialmente os pentecostais e carismáticos, pois todos fazem parte de minha família teológica.
Sou um crente “evangelical”, sempre o fui e jamais cri que os dons espirituais cessaram no fim da era apostólica. Creio que minhas raízes evangélicas (minha família é de Batistas e eu tive uma experiência de conversão e novo nascimento na igreja Presbiteriana) começaram a abrir os meus olhos para os problemas com a chamada renovação. Hoje, olhando pra trás fico me perguntando como fiquei tão cego assim? Eu via as pessoas imitando cachorros, fazendo de conta que urinavam nas colunas da Igreja do Aeroporto. Observava as pessoas agirem como animais latindo, rugindo, cacarejando, fazendo de contas que voavam, como se asas tivessem, comportando-se como bêbados, entoando cânticos “sem pé nem cabeça”, isto é, sem sentido algum. Hoje fico perplexo em pensar que eu aceitava tais coisas como manifestações do Espírito Santo. Era algo irreverente e blasfemo ao Espírito Santo da Bíblia.
Naquele tempo pensava que, enquanto não ensinassem qualquer coisa que violasse as escrituras, o que experimentávamos e víamos podia ser encaixado no campo do que chamamos de exótico. É um zumbido de manifestações que não encontram justificativas na perspectiva bíblica. Ensinaram-nos nas pregações que tínhamos apenas duas opções: uma enfermaria pulsando a vida (de bebês) em meio a fraldas sujas e crianças chorando ou o cemitério, onde tudo está em ordem, mas só há mortos. Pastor jovem e inexperiente, optei pela vida no caos. Não percebia que Deus quer que amadureçamos e que cresçamos nele. 
Fiquei perturbado com a palavra profética que veio através de Carol Arnot (esposa do líder em Toronto), relatando-nos que tivera uma experiência de noiva ao ser conduzida à presença de Jesus. Ela afirmou que o que experimentou era muito melhor que sexo! Aquilo me perturbou e comecei a me perguntar: como alguém pode comparar o amor de Deus ao sexo?
Quando começamos a suspeitar de que os demônios estavam à vontade em nossos cultos, John Arnot ensinava que devíamos nos perguntar se eles estavam chegando ou saindo. Se estiver saindo deles, está bem! John defendia o caos afirmando que não devíamos ter medo de sermos enganados, pois se havíamos pedido ao Espírito Santo para nos encher; como Satanás poderia nos enganar? 
Isto deixaria o diabo muito forte e Deus muito fraco. Ele afirmava que precisávamos ter mais fé num grande Deus que nos protegia do que num grande diabo que nos enganaria.
Tais palavras eram convincentes, mas totalmente contrárias as escrituras, pois Jesus, Paulo, Pedro e João alertaram-nos sobre o poder dos espíritos enganadores, especialmente nos últimos dias. Mesmo assim, não devotamos amor a Deus para lhe obedecer a palavra e, como conseqüência, abrimo-nos a ação de espíritos mentirosos. Que Deus tenha misericórdia de nós! 
Finalmente a ficha caiu quando eu rolava pelo chão, certa noite, “bêbado no Espírito”, como costumávamos dizer, e ali, cantando e rolando no chão, comecei a cantar uma canção de ninar: “Maria tinha um cordeiro e seu pelo era mais alvo que a neve”. Cantei esta música infantil de maneira debochada e imediatamente alguma coisa em meu coração sussurrou que aquilo era um demônio [1]. Imediatamente me arrependi e fiquei chocado com aquela experiência. Como um demônio entrou em mim? Eu amava a Deus? Não era zeloso pelas coisas de Deus? Não era totalmente louco por Jesus? Percebi que um espírito imundo acabara de se manifestar através de minha vida e era culpado de um grande pecado. Depois disto me afastei da Igreja do Aeroporto (TACF). Não tinha convicção de que deveria denunciar aquelas experiências, mas senti que tínhamos fracassado em pastorear a bênção. 
Depois que parei de freqüentar o TACF – Toronto Airport Church – tive que pastorear as conseqüências ou os frutos dali. Exemplo disto foi quando algumas pessoas voltaram de uma reunião e nos perguntaram se havíamos recebido a espada dourada do Senhor. Perguntei-lhes de que se tratava, imaginando que alguma palavra profética tivesse sido liberada em relação as escrituras, mas me responderam: “Não, não é a Bíblia; é uma espada invisível que somente os verdadeiramente puros poderão receber. Se for tomada de maneira errada, então será morto pelo Senhor. Mas, se você for santo o suficiente para recebê-la, então você poderá desembainhá-la pois ela cura Aids, câncer, etc. e produz salvação. A pessoa deve fazer gestos de ataque, imaginando ter em suas mãos esta espada invisível, avançando sobre as pessoas enquanto está em oração! Pensei: além do engano, a Igreja Aeroporto passou a fazer parte dos desenhos animados! 
Esta “revelação” foi recebida pela Carol Arnott e depois repassada aos que eram mais santos. O mesmo aconteceu com as obturações de ouro. Pessoas de nossa congregação abriam a boca umas para as outras procurando os dentes de ouro que Deus colocara ali, para provar o quanto nos amava. Durante os anos que ali fiquei só ouvi uma vez uma mensagem de arrependimento pregada por um conferencista de Hong Kong, Jack Pullinger. A mensagem passou alto, bem acima de nossas cabeças, como um balão de gás; não estávamos ali para nos arrepender, e sim para fazer festa ao Senhor! 
Depois de um ano na “bênção” preguei num encontro de pastores e falei: “Amigos, temos nos sacudido, nos arrastado pelo chão, rolamos por terra, rimos, choramos e adquirimos as camisetas da igreja. Mas não temos avivamento, nem salvação, nem frutos, nem aumento de evangelização, por isso, qual é a graça?”. Fui repreendido – afinal, quem era eu para anelar frutos quando o Senhor estava curando seu atribulado povo? Durante anos éramos legalistas, e Deus agora estava restaurando as feridas libertando-nos do legalismo. Aconselharam-me a não forçar o Senhor que os resultados apareceriam no temo certo. 
Eu sabia que isto estava errado, pois o Senhor ordenou fazer discípulos de todas as nações. O argumento era: temos direito a um ano sabático, pois, quem sabe por quanto tempo Deus fará coisas novas e diferentes! 
Por fim, não comentei a controvertida questão da ordenação de mulheres. Pessoalmente acredito, pelas escrituras, que as mulheres não devem ser pastoras ou presbíteras numa assembléia local. Eu poderia estar errado quanto a isto e existe muito debate na igreja a este respeito, e esta era minha convicção, mas as igrejas Vineyard estavam ordenando todas as esposas de pastores para serem co-pastoras com eles. Sou a favor de mulheres no ministério, mas creio que o papel do ancião/presbítero/pastor local foi reservado aos homens. Não fui eu quem escreveu a Bíblia, mas pela graça de Deus quero obedecer-lha daqui em diante. 
Esta é minha história. Poderia continuar apresentando farta documentação dos excessos, loucuras, extravagâncias e pecados. Cantamos sobre o exército de Joel e o avivamento de bilhões como se fossem os dez mandamentos; e como sempre, parece que o avivamento já está chegando dobrando a esquina. No próximo mês, no próximo ano, etc. Jesus falou que, quando o Filho do homem voltar, encontrará fé na terra? Esta é a mensagem dominadora que tem sido ensinada em todo movimento profético, espiritual, especialmente do Vineyard. Às vezes imagino que eles pensam que vão dominar o mundo todo! Mas foi lá no Vineyard que aprendi uma frase de Paulo de que não devemos ir além da palavra escrita. 
Concluindo, quero lamentar o dano, que eu pessoalmente perpetrei ensinando coisas que não são bíblicas. Eu me arrependo diante de vocês e diante de Deus. Eu não testei os espíritos quando a palavra ordena que assim seja feito. Todos os que estavam ali quando estas coisas começaram a acontecer sabem que o que escrevo é a verdade. Podem ter conclusões diferentes, especialmente se ainda promovem o “rio”. 
Aos que estão no “rio” eu exorto; nadem para fora, existem coisas vivas na água que irão lhe atacar! Amo as pessoas da Igreja Aeroporto e o movimento Vineyard, mas penso que temos muitas contas a prestar; o Senhor lhes abrirá os olhos qualquer dia desses. Imagino que quando esta carta for publicada serei bombardeado por cartas de ambos os lados, alguns me condenando por ainda crer no ministério do Espírito Santo e andando no engano e alguns amigos antigos condenando-me por expor a sujeira ou por ser negativo com respeito a unção do Senhor. Bem, o Senhor conhece meu coração e por sua graça haverá de me guiar a toda verdade, pois quero conhecer a Jesus Cristo o crucificado. 
Se você acha que estou no erro ore por mim para que o Senhor me abra os olhos, pois quero estudar a palavra e me tornar varão aprovado. Peço a todos os que lerem esta carta que orem para que o Senhor abra os olhos daqueles que estão sendo enganados. Quer sejamos líderes ou seguidores, somos amados de Deus e ele é um Deus perdoador. Ele afirma que se confessarmos nossos pecados ele é fiel e justo para perdoar os nossos pecados e nos purificar de toda injustiça. 
Creio que somos como a igreja de Laodicéia; pensamos que somos ricos, prósperos e sem necessidade alguma, e, no entanto não percebemos que estamos cegos e nus. Precisamos levar a sério o conselho de Jesus comprando ouro refinado no fogo (que fala do sofrimento e não de espíritos enganadores), vestiduras brancas para cobrir nossa nudez e colírio para os olhos para poder ver outra vez. 
O Senhor nos chama ao arrependimento, e graças ao Senhor pelo que ele é, pois nos conduzirá e nos restaurará ao Pai. Se Deus me perdoou e abriu os meus olhos então poderá agir a favor de todos os que estão no engano. 
Termino com o alerta de Paulo que permaneçamos firmes para não tropeçarmos em coisa alguma. 
Sinceramente, 
Paul Gowdy

Comento:

"Não ultrapassem o que está escrito" é o alerta do apóstolo Paulo em I Coríntios 4.6. A experiência do "cair no espírito" virou um modismo, ou seja, a banalização da prática mecanizou uma experiência supostamente espiritual. E, sem sustentação bíblica, o caminho da bizarrice estava aberto. 

A experiência é individual. A banalização da experiência é a criação de um teatro trágico. As minhas experiências com Deus não são as suas experiências com Deus e as suas experiências não são minhas. Não adianta eu tentar pregar o sermão "Pecadores nas Mãos de um Deus Irado", pois eu não sou Jonathan Edwards. Não adianta radicalmente admirar líderes como Charles Spurgeon, Dwight Moody, Billy Graham  ou William Seymour, pois eu nunca serei um deles. A tentativa de imitação das experiências desses homens resulta em bizarrices litúrgicas e teológicas como a "Bênção de Toronto".

A experiência do outro pode ser um referencial, mas não uma meta.


Nota:

[1] Ele se refere a canções de Jardim da Infância, ou Nursery Rhyme, em que, nos contos de fada as crianças aprendem a falar cantando linguagens infantis, e refere-se especialmente a Mary had a little Lamb, uma das mais conhecidas

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Devocional 01: Viver a realidade!

Por Gutierres Siqueira 
Pois vocês são salvos pela graça, por meio da fé, e isto não vem de vocês, é dom de Deus;
não por obras, para que ninguém se glorie. Efésios 2.8 e 9 (NVI)

O Evangelho nos ensina que somos pecadores insuficientes da nossa própria justificação. Não há motivo para orgulho e triunfalismo. O Evangelho lembra-nos a condição que vivemos e nos dá um baita "choque de realidade". Sim, somente com o Evangelho encaramos aquilo que realmente somos. Diante do Evangelho não há máscaras e não há espaço para hipocrisias (o enganar alheio) ou mesmo o autoengano. O Evangelho tira qualquer ilusão de "bondade nata" e desperta os nossos sentidos diante da realidade presente do mal e do engano neste mundo.

Viver o Evangelho é viver a real. É viver a condição humana sem ilusões e utopias. Viver o Evangelho é vivenciar um espelho do nosso caráter, ou seja, a transparência que aponta cada detalhe dos caminhos seguidos na vida.  Se alguém se acha bom ou digno do céu... é um pobre coitado que nunca conheceu o Evangelho. Quem acredita em si mesmo (egolatria), como prega a autoajuda secular ou religiosa, está fadado ao fracasso daqueles que vivem uma realidade paralela. 

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Como é ser um cristão em ambientes totalitários?

Por Gutierres Fernandes Siqueira

A pergunta acima é de difícil resposta! Como reagiríamos com a nossa fé em Jesus Cristo diante da ameaça vinda de um regime autoritário (como a China de hoje) ou totalitário (como a Alemanha de Hitler)? Só mesmo vivendo a dramática experiência da perseguição política/religiosa para percebermos o quão longe estamos dispostos a proclamar o nome de Jesus Cristo.

Mas dois livros nos ajudam a entender melhor esse mundo maluco da intolerância religiosa e a resistência movida pela fé em Jesus Cristo, o maior de todos os libertadores de qualquer opressão.

O primeiro é Bonhoeffer- pastor, mártir, profeta, espião (Editora Mundo Cristão) escrito por Eric Metaxas. O conhecido pastor e teólogo luterano Dietrich Bonhoeffer lutou (literalmente) contra o regime nazista e recusou fortemente a tendência das igrejas liberais da Alemanha no seu entusiamo pelas políticas do chanceler totalitário. Como teólogo, o alemão Bonhoeffer é responsável pelo conceito genial de “graça barata”, ou seja: "A graça barata é a pregação do perdão sem arrependimento, é o batismo sem a disciplina comunitária, é a Ceia do Senhor sem confissão de pecados, é a absolvição sem confissão pessoal. A graça barata é a graça sem discipulado, a graça sem a cruz, a graça sem Jesus Cristo vivo, encarnado" [1].

Precisamos ouvir esse alerta de Bonhoeffer que fala cada vez mais alto!

Assim a editora apresenta a obra:

As tropas nazistas avançavam pela Europa, ameaçando estender seus domínios sobre todas as nações. Numa época em que se calar era a melhor forma de se expressar e se omitir era a mais acertada ação, um pastor, com reconhecido talento e prodigiosa capacidade intelectual, viveu seu chamado como forma de servir a seu país. [...] Em 1939, vivendo nos EUA, a salvo do regime nazista, sua paixão por seu povo o levou de volta à Alemanha. Sua capacidade política e carisma o tornaram uma ameaça a Hitler e lhe custaram o exílio em Berlim. Proibido de falar, escrever e publicar, Dietrich Bonhoeffer decide vestir a máscara de pastor patriota submisso ao Reich e passa a ser um agente duplo. Trabalhando na Abwehr, agência de inteligência do regime nazista e sabotando ordens e ações de guerra nazistas, ele salva milhares de vidas e impede os planos de Hitler, enquanto, junto a seus companheiros, trama a queda do Führer. Descoberto pela Gestapo, Bonhoeffer é preso e, num 9 de abril de 1945 - semanas antes da queda do Terceiro Reich - termina sua luta para salvar conterrâneos e judeus da cólera ariana, sendo enforcado por ordem direta de Adolf Hitler. [...] Bonhoeffer - pastor, mártir, profeta, espião, biografia escrita por Eric Metaxas, traça o perfil profundo e cuidadosamente detalhado de um dos teólogos alemães mais importantes desde Lutero e uma das figuras principais da resistência contra o regime nazista. [...] Inspirativo, desafiador e emocionante, Bonhoeffer é o relato instigante do que um homem pode fazer movido por amor ao próximo e contra a injustiça de um regime totalitário. Um livro para ser lido e discutido por todos que acreditam na liberdade e no dever de lutar para que essa liberdade alcance a todos. 

O autoritarismo vermelho

O segundo livro é do ativista chinês Liao Yiwu, atualmente asilado na Alemanha, que escreveu o título Deus é Vermelho (Editora Mundo Cristão). Yiwu não é cristão, mas escreveu esse livro ppor achar impressionante a história de fé e garra dos cristãos que se reúnem em casas subterrâneas ou cavernas para adorar o nome do Senhor. O autor também descreve a propaganda sutil do governo contra a obra missionária e mostra o entusiamo dos simples camponeses, que mesmo tão longes dessa China emergente (emerging market), adoram ao Senhor na simplicidade da vida camponesa. A editora assim descreve a obra: 


Na China comunista, sob o regime de Mao Tsé-tung, todas as práticas religiosas foram banidas. O comunismo tornou-se a religião nacional e Mao foi entronizado, deificado e adorado. Apenas a igreja oficial era permitida, mas em seus cultos, apenas palavras de honra e louvor ao regime e ao líder Mao. Mas debaixo de tanta opressão, a semente do cristianismo brotou e floresceu. [...]Deus é Vermelho percorre pequenos vilarejos e grandes cidades, trazendo narrativas emocionantes e assombrosas sobre dezenas de milhões de cristãos chineses que vivem a fé debaixo do duro regime socialista. [...] Indo de casa em casa, reunindo-se porões e sótãos, vivendo à margem da religião oficial do Estado, assim caminham os cristãos chineses. Correndo perigo de prisão, castigos e até morte, assim vivem os que desafiam o regime para manter e cultivar a fé em Jesus Cristo. [...] Conversas sussurradas, códigos cifrados, bíblias e material evangelístico contrabandeados, assim o evangelho é pregado cotidianamente. Deus é vermelho é o relato tocante e desafiador de uma Igreja viva que cresce e floresce no regime mais fechado do planeta. [...] Liao Yiwu traz nesta obra uma perspectiva nova sobre a força e a importância do Evangelho para pessoas simples e abnegadas, mas que morrerão sem negar o Autor de sua fé. [...] Escritor chinês censurado na China e exilado na Alemanha, onde vive desde que conseguiu fugir do regime, Liao Yiwu escreveu este livro para nos revelar uma China diferente, com uma Igreja cristã pujante e vigorosa. O autor do poema Massacre, que lhe custou anos de cadeia, nos conta a história secreta de como o cristianismo sobreviveu e floresceu na China comunista.

Ficam aí duas dicas para entendermos melhor esse mundo do autoritarismo e, assim, agradecermos a Deus por nossa liberdade [2]. Além disso, também é um alerta para lutarmos sempre pela democracia, liberdade religiosa e a liberdade de expressão. O vírus do autoritarismo está sempre querendo contaminar o mundo democrático.

Notas:

[1] BONHOEFFER, Dietrich. Discipulado. 10 ed. São Leopoldo: Sinodal, 2008. p 10

[2] Recomendo o texto do meu amigo Cristiano Silva que fala sobre essa alegria da liberdade religiosa. Leia neste link reparado. Leia também o Manifesto de Brasília sobre Liberdade de Expressão neste link

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Frida Vingren: uma liderança feminina pioneira

O casal Vingren e seus filhos
Por Marcos José

Além Gunnar Vingren e de Daniel Berg, muitos outros personagens construíram as bases das Assembléias de Deus no Brasil. Adriano Nobre, José Rodrigues, José Calazans, Nils Nelsons, Nils Kastberg, Samuel Nystrom entre outros foram grandes ícones deste período de implantação das Assembléias de Deus. Mas não podemos nos esquecer de Frida Strandberg[1]. A liderança desta mulher nos chama muita atenção, pois sua atuação foi de suma importância para a consolidação da Assembléia de Deus no Brasil. Frida nasceu em junho de 1891, no norte da Suécia, era de uma família de crentes luteranos (a Igreja Estatal Oficial na Suécia). Formou-se em Enfermagem chegando a ser chefe da enfermaria do hospital onde trabalhava. Tornou-se membro da Igreja Filadélfia de Estocolmo, onde foi batizada nas águas pelo pastor Lewi Pethrus, em 24 de janeiro de 1917.

Neste mesmo ano recebeu o batismo com o Espírito Santo e o dom de profecia e se sentiu vocacionada para a obra missionária sendo enviada pelo pastor Pethrus para o campo missionário brasileiro e, chegando a Belém/ Pará, se casou Gunnar Vingren em 16 de outubro de 1917. Contraiu malária em março de 1920 e quase morreu. Recuperada viu seu marido pegar a mesma enfermidade várias vezes. Depois de muitos anos no Pará, a família Vingren migra para o Rio de Janeiro, seguindo o mesmo processo da migração nordestina.

Frida Vingren (nome de casada) desenvolveu grandes atividades evangelísticas, abriu frentes de trabalho em muitos lugares do Rio de Janeiro. As atividades de assistência social, círculos de oração e grupos de visitas ficaram sob sua responsabilidade. Também exercia a função de docência nas classes de Escola Dominical e ministrava Estudos Bíblicos. Era responsável – no inicio da obra no Rio de Janeiro – pela leitura devocional nas aberturas dos cultos, pela execução musical dos hinos – ela era organista e tocava violão – e, quando Gunnar Vingren se ausentava da Igreja em visita ao campo missionário, Frida substituía-o pregando e dirigindo os cultos e trabalhos oficiais.

Frida exerceu a direção oficial dos cultos realizados aos domingos na Casa de Detenção no Rio de Janeiro e era excelente pregadora, exercendo sob seus ouvintes grande carisma. Pregava e dirigia os cultos nos pontos de pregação da AD no Rio de Janeiro, em praças públicas e áreas abertas. Os cultos ao ar-livre promovidos no Largo da Lapa, na Praça da Bandeira, na Praça Onze e na Estação Central eram dirigidos por Frida, tendo Paulo Leivas Macalão como seu auxiliar direto[2].

Articulou-se como escritora de diversas matérias nos jornais oficiais[3] da AD, como os jornais Boa Semente, O Som Alegre e Mensageiro da Paz (este último agregou os dois primeiros). Ela escrevia mensagens evangelísticas e traduzia vários outros textos e hinos da língua escandinava. Foi também comentarista das Lições Bíblicas de Escola Dominical (hoje revista oficial da CGADB para a Escola Dominical) na década de 1930.

Além de excelente escritora, Frida sempre se dedicou à música. Cantava, tocava órgão, violão e compunha hinos de grande valor espiritual. Vinte e três hinos da Harpa Cristã são de sua autoria e alguns destes têm forte essência escatológica. Frida, ao que parece, não foi simplesmente uma colaboradora no processo de implantação da AD. Ela foi, juntamente com seu marido, a principal líder da Igreja entre 1920 e 1932. Alencar alega que:

[Daniel] Berg é nulo [...] Como Berg é inexpressivo na liderança e Vingren, doente, ficou pouco tempo efetivamente na liderança, fica a dúvida sobre quem de fato dirigia e dava “as cartas” nesta igreja em seus primeiros anos: Frida Vingren?[4]

O modelo de liderança de Frida Vingren, segundo relata Alencar, incomodou muito a liderança masculina da AD. Frida é o modelo de uma líder completa, numa época em que:

As mulheres ainda não participavam da vida política do país nem mesmo como eleitoras, mas a AD permite que elas, excepcionalmente, sejam pastoras e ensinadoras. [O que incomoda então é a] influência de Frida Vingren? Com certeza. Ela prega, canta, toca, escreve poesia, textos escatológicos, visita hospitais, presídios, realiza cultos e – nada comum – dirige a igreja na ausência do marido (e… na presença também) [...] na foto dos missionários… que participaram da Convenção de Natal [Rio Grande do Norte, 1930] ela é a única mulher que aparece. Onde estão as esposas dos outros [missionários e pastores]?… Frida chega a escrever um texto no Mensageiro da Paz… disciplinando a conduta dos obreiros.[5]

Frida é vista como uma mulher extraordinária. Ivar Vingren argumenta que:

A esposa do irmão Vingren, foi também uma missionária fiel, perseverante e zelosa, que além do cuidado pela família, soube participar e ajudar no trabalho do seu esposo. Grande é a multidão de almas que ela ganhou para Jesus durante estes anos de luta junto com o seu esposo.[6]

Frida, numa das cartas selecionadas na obra autobiográfica dos Vingren, expressa o seu esgotamento físico e seus sentimentos acerca de seu trabalho pioneiro no Brasil[7]. Ela enumera as dificuldades na categoria “tribulação”, sofrimento” e “agonia”. Mas tem muita esperança, quando contempla os sinais de Deus operando na Igreja e nas congregações. Ela declara que tem pagado o preço do trabalho, mas sabe que nada é em vão perante o Senhor.

A missionária – dirigente dos trabalhos oficiais na AD do Rio de Janeiro (até então Missão Sueca) nesta mesma carta demonstra um sinal de frustração por ter de entregar a direção do Jornal “Mensageiro da Paz” aos líderes nacionais:

O Senhor sabe de tudo, eu não quero defender-me, pois não sou sem falta, mas aquele dia tudo se revelará [...] Agora, depois que entregamos a direção do jornal “Mensageiro da Paz”, eu pensei então que o nosso tempo aqui no Brasil talvez esteja terminado ou o Senhor talvez tenha alguma outra missão para nós cumprirmos [...] Para mim é como arrancar o coração do meu peito, quando penso em deixar o Brasil para talvez nunca mais voltar![8]

É difícil aceitar que Frida seja “sem falta”. Ela faz tudo e assume toda a responsabilidade da Igreja em São Cristóvão/ RJ além de cuidar das congregações ligadas a esta Igreja, dirigir o jornal e articular outros trabalhos acima citados. Ela tem um esgotamento físico que chega a atingir o sistema nervoso e alega sofrer do coração. Sinais claros de cansaço de uma pessoa que se dedica integralmente à obra da Igreja.

É complicado vê-la somente como colaboradora ou à sombra de Vingren. Frida desabafa quando diz que “Gunnar tem estado enfermo a tanto tempo, que faz muito [tempo] que ele nem tem podido participar do trabalho”.[9] Por causa da enfermidade de Gunnar Vingren, este não teve o tempo e a energia suficiente para poder assumir o trabalho. Quem assume o trabalho integralmente é Frida, apesar de Samuel Nystrom – teórica e documentalmente – ser o segundo dirigente da Igreja na ausência de Gunnar Vingren.

É fato que Frida é uma mulher humilde que compreende seu papel de liderança e, sem soberba, relata como Deus, em uma revelação dada a uma irmã, a via quando ela auxiliava seu marido:

Quando nós [Gunnar e Frida] saímos do Pará e viemos ao Rio de Janeiro, uma irmã no Pará teve uma visão. Ela viu como Gunnar estava ajuntando frutas maduras num grande pomar e ela me viu também num canto do pomar, trabalhando com uma bomba de água, que estava regando todas as árvores[10]

Esta visão está muito próxima à lógica do ministério apostólico compreendido por Paulo. “Eu plantei, Apolo regou; mas Deus deu o crescimento” (1 Co. 3.6). Gunnar seria Paulo? Frida, Apolo? A compreensão hermenêutica pentecostal pode nos abrir para essa possibilidade interpretativa. Mas, Frida nunca esteve “num canto do pomar”.

O fato é que Frida Vingren, com o agravamento da enfermidade de seu marido, foi preterida pela liderança nacional. Em 1932, por causa do estado de saúde de Gunnar, toda a família Vingren é obrigada a voltar à Suécia para cuidar da saúde de Gunnar. Neste mesmo ano, antes de viajar para a Suécia, o casal Vingren sofre com a morte de sua filha caçula. Frida perde o que lhe é mais precioso no período de dois anos (1932-1933). Perde sua filhinha, é forçada pelas circunstâncias explícitas (doença do marido) e implícitas (a oposição da liderança nacionalista e masculina) a deixar o trabalho eclesiástico por ela exercido e suportar a perda – por falecimento – de seu marido. Sete anos depois do falecimento de Gunnar, Frida também entra pelas portas das mansões celestiais e as obras de suas mãos a acompanharam e naquele dia tudo se revelará.

“Então ouvi uma voz dos céus dizendo escreva: Felizes os mortos que morreram no Senhor… Diz o Espírito: Sim, eles descansarão das suas fadigas, pois as suas obras os seguirão”. (Ap. 14.13).
Frida Vingren é o típico modelo de mulher pentecostal que exerceu o seu ministério pastoral na periferia do poder clerical. Dentro das AD se constituíram as sociedades eclesiais femininas como grupos de visitação, de oração, de louvor, assistência social; Frida é a origem. As mulheres exercem espaço na liturgia, na pregação, no culto, na educação bíblica, na assistência social e no serviço religioso, mas dificilmente o ministério pastoral.

Frida (representando aqui o ministério feminino) é um protótipo de liderança silenciada e, infelizmente, marginalizada nas AD. Rosemary Ruether diz que: "O ministério feminino baseado em dons carismáticos renasce continuamente na prática e também é continuamente marginalizado do poder nas instituições históricas das igrejas".[11]

As mulheres pentecostais têm um papel fundamental na organização e manutenção das estruturas laicas das igrejas pentecostais, como podermos ver na biografia de Frida Vingren. Contudo, elas são marginalizadas, inferiorizadas e preteridas dentro das estruturas significantes de poder. Estão à margem e dificilmente, dentro do modelo patriarcalista das igrejas pentecostais clássicas, chegarão ao centro do poder.

A liderança nacional desde a 1ª. Convenção Geral das Assembléias de Deus do Brasil (caso Frida Vingren, por exemplo) tem feito de tudo para tirar de foco a discussão sobre o ministério feminino na Igreja. O Ministério de Madureira tem consagrado mulheres para o exercício do diaconato e para o ministério missionário.

As mulheres dos pastores presidentes – anteriormente consideradas “a esposa do pastor…” – agora têm sido reconhecidas como missionárias. O Ministério do Belém – ligado a CGADB, nem ao diaconato tem consagrado mulheres. As mulheres não são consultadas acerca das grandes decisões e iniciativas institucionais.
________________________
Fonte: MARTINS, Marcos José. A dimensão escatológica da hinologia clássica pentecostal. São Bernardo do Campo: [s.n.], 2008. 110 p. Bibliografia — Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, 2008. (páginas 30 a 35 – Trabalho de Conclusão de Curso Bacharelado de Teologia)

[1] MELO, Vieira de. Frida Vingren. Site: vieirademelo.googlepages.com. Disponível em: http://vieirademelo.googlepages.com/fridavingren. Acesso em 01/11/2008. Conferir também: Jornal “Mensageiro da Paz”, n°1.453, junho 2006, CPAD.
[2] VINGREN, 1973. p. 122 a 124.
[3] ALENCAR, 2000. 161p. Conferir um estudo sobre os temas das matérias escritas por Frida Vingren nas páginas 72, 106 e o espaço concedido a escritos de mulheres na página 108.
[4] Id., ibid., p. 55 e 56. O autor trabalha o estilo de liderança Gunnar Vingren – Frida Vingren.
[5] Id., ibid., p. 56
[6] VINGREN, 1973. p. 198
[7] Id., ibid., p. 198 e 199.
[8] Id., ibid., p. 198 e 199. Este jornal, enquanto não passou para a direção dos líderes nacionais, só trouxe aflição para o casal Vingren. Gunnar e Frida trabalharam incessantemente para que o jornal fosse aceito nacionalmente e, quando conseguiram este feito juntamente com Samuel Nystrom, os líderes nacionais só sossegaram quando assumiram a direção do jornal. Conferir mais informações sobre essas tensões nas páginas 178-179 e 189.
[9] Id., ibid., p. 199.
[10] Id., ibid., p. 198.
[11] RUETHER, Rosemary Radford. Sexismo e religião: rumo a uma teologia feminista. São Leopoldo: Sinodal, 1993. p. 164