quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Varão e varoa, estamos no século XXI!

Amigos leitores, reproduzo abaixo um artigo do pastor Jonas Madureira que reflete uma das minhas preocupações sobre o evangelismo do século XXI.


VARÃO E VAROA, ESTAMOS NO SÉCULO XXI!

Por Jonas Madureira

Aproximavam-se de Jesus todos os publicanos e pecadores para o ouvir.
(Lucas 15.1)

É inegável que o cristianismo contemporâneo vive a crise da relevância. Os novos críticos do cristianismo não se cansam de dizer que o discurso dos cristãos cheira naftalina, é tão antiquado, fora de moda e irrelevante. Para ilustrar esse fato, lembro-me de que, há poucos dias, um colega da USP, sabendo que sou cristão, se aproximou de mim e, sem rodeios, perguntou-me: “Por que muitos evangélicos falam tão esquisito? Eles chamam uns aos outros de varão e varoa! Abusam dos arcaísmos! Usam expressões tão ultrapassadas que às vezes me sinto nos dias de Olavo Bilac!” Dureza, não?! Expliquei que muitas das versões bíblicas que as pessoas leem são muito antigas, e, por esse motivo, acabam trazendo o vocabulário delas para o dia a dia. “Que bizarro!”, disse meu colega. E incomodado com isso, perguntei: “Por que bizarro?”. Ele prontamente me respondeu: “Porque isso assusta qualquer um! É uma linguagem muito distante da realidade!”. Nessa hora, infelizmente, tive que concordar com ele. Nossa linguagem, às vezes, é tão descontextualizada que, em vez de atrair, assusta os publicanos e pecadores de nossos dias.

O que acho mais interessante no texto de Lucas 15 é o fato de que os publicanos e pecadores não se aproximaram de Jesus para pedir um milagre, uma bênção. Pelo contrário, se aproximaram dele só para ouvi-lo. Isso aconteceu porque a pregação de Jesus era empolgante, o Mestre era verdadeiramente relevante. Veja a bela imagem que Lucas nos oferece: o Filho de Deus, sentado à mesa com publicanos e pecadores, completamente atraídos pelo seu discurso. Ou seja, Lucas mostrou que Jesus era interessante não apenas por causa dos milagres que fazia, mas principalmente por causa de seu pensamento, de sua capacidade de ler o coração dos homens e de expor os desígnios de Deus, com ousadia, sabedoria e relevância.

Ouvindo algumas pregações aqui e acolá, em canais de TV e em igrejas, percebo que muitos dos discursos e pregações de nossos dias estão muito distantes de ser comparados às pregações empolgantes de Jesus. Acredito que uma das razões seja a nossa incapacidade de ler nosso tempo, agravada pela pobreza de nossa leitura dos desígnios de Deus, expressos nas Escrituras. Quando digo “ler nosso tempo”, digo “ler as pessoas de nossos dias”. Jesus entendia o homem de seu tempo como ninguém. Ele compreendia as questões que o homem de seu tempo fazia e, por isso, respondia de forma relevante aos publicanos e pecadores de seu tempo.

Em contrapartida, nossa leitura do varão hodierno — ops! do homem de hoje! — é vergonhosa. Não entendemos seus pensamentos, não entendemos suas questões. Às vezes, tenho a impressão de que a maioria de nós está falando para homens do século XIX, e não só com uma linguagem oitocentista, mas — o que é pior ainda — usando uma lógica e um tipo de reflexão e postura intelectual que é típico do universo espiritual oitocentista.

A verdade é que alguns sermões de hoje se tornam irrelevantes porque apenas respondem às perguntas que o homem do século XIX fazia. São sermões tão distantes do século XXI, que dão sono! Cá para nós, às vezes me pergunto se isso acontece por causa do delay de publicações das obras teológicas oitocentistas, que são publicadas hoje em dia como “grandes lançamentos do ano”. Sinceramente, não sei. O que sei é que, se queremos proclamar o reino de Deus para o nosso tempo, temos de nos livrar de nossas lentes oitocentistas. Precisamos ler o homem de nossos dias, com lentes apropriadas para o século XXI.

O homem de hoje é um homem sem transcendente, ou melhor, um homem deslumbrado com o imanente, que passa a ser tomado como se fosse transcendente. Em outras palavras, alguém que trocou a adoração a Deus pela veneração ao carro do ano, ao último modelo de celular, de notebook, de TV e por aí vai. Por isso, as megaigrejas estão tão cheias. E garanto que não é pela relevância do discurso, mas pela exploração da angústia do homem moderno. Este vai à igreja não mais para simplesmente adorar, mas para clamar a Deus por um carro novo, uma casa maior, mais dinheiro, mais sucesso, mais poder. A tara por essas bênçãos materiais mostra o quanto somos niilistas, vazios, sem um sentido ulterior para vida, que seja superior a tudo o que está preso ao tempo e ao espaço.

Não precisamos de sermões que alimentem nossa angústia niilista. Precisamos de sermões que nos conscientizem de nossa real situação. Sermões que revelem as novas faces de nossas depravações e desesperos. Sermões que sejam resultado de uma exegese bíblica cuidadosa e contextualizada, e, ao mesmo tempo, conscientes de que nossa inteligência e compreensão devem ser submetidas à luz do Espírito, o único que nos permite ver o Jesus supracultural, supratemporal, preexistente, Filho de Deus, Senhor do tempo, da história, da terra e do céu. Sermões que nos sirvam como espelhos para mostrar a face sofrida e angustiada de nosso coração, tão longe da busca pelo transcendente e tão entregue à busca exacerbada por bens transitórios. Só assim haverá conversão genuína, adoração verdadeira, pregação relevante. Só assim publicanos e pecadores de nosso tempo deixarão de se assustar com esse nosso esquisito jeito oitocentista de ser, e se aproximarão de nós para conhecer o Jesus do século XXI, que, paradoxalmente, em nada deve ser menos atraente do que o Jesus do século I.

5 comentários:

Daladier Lima disse...

Prezado Gutierres, é notória nossa dificuldade de comunicação com o mundo. Semana passada uma pessoa conhecida, funcionária de uma Prefeitura, perguntou-me, sinceramente: O que faz um pastor?
Após rápidas explicações ela confessou: até hoje eu não sabia!

É a verdade, não há como negar.

Marcos Wimmer disse...

A paz Gutierres!

Suas colocações foram simplesmente perfeitas, parabéns!

Esses dias estava comentando com minha esposa justamente sobre isso, a carência de pregações (ou sermões) que empolgam, aquelas palavras de sabedoria que se come letra a letra. Ah, quanto tempo faz que não ouço mais!

Infelizmente, o que temos ouvido ultimamente são histórias da carrochinha. Hoje é um clichê: o "pregador" lê um versículo da bíblia e, totalmente fora de contexto, começa a contar a história da vida dele, como ele fez milagres e expulsou demônios. E na semana passada na minha congregação, pasmem, havia um indivíduo que contou coisas que literalmente se classificam como TENTAR A DEUS.

Nossas igrejas e pregadores estão perdendo o foco!

Às vezes chego a me questionar se eu é que não tenho fé, ou se sou muito cético. Felizmente, existem pessoas que pensam como eu.

Mas a questão é: essa situação pode ser revertida? O que podemos fazer (além de orar)?

Gutierres Siqueira disse...

Marcos,

Obrigado pelo comentário. Só lembrando que este artigo foi escrito pelo pastor Jonas Madureira.

Abraço

Marcos Wimmer disse...

Ops... me empolguei tanto com o texto que não percebi, desculpe. Então, gostaria de estender devidamente a parabenização pelo texto ao Pastor Jonas Madureira.

Abraço!

Anônimo disse...

"Varões e varoas!
Vós todos que tendes sede vinde as águas.Arrenpendei-vos,deixai as vís concupiscência e vinde ao Cordeiro pois em breve o noivo descerá dos céus para as bodas e só subirá quem estiver preparado.Quereis ver a terra que se encherá de Beulá?Quereis passear em ruas auríferas e argentadas e alimentar-se dos frutos da árvore da vida que está no novo paraíso? - Então vinde!Vossos pecados poderão ser vermelhos como o carmezim,mas se tornarão alvos como a neve.Vos asseguro que se não pronunciardes "Shibolet" com perfeição sereis lançados no hades.Portanto,vinde, pois mais um poucochinho de tempo,Ele virá".
Não sei se o não crente entenderia,mas os "igrejados" com certeza passariam batido.Eu por exemplo,procuraria ler um sermão do Padre Antonio Vieira. Que tal o sermão do "bom ladrão?"

Vosso N'Ele.Jesus, o mais descomplicado dos pregadores.

José Nascimento Rodrigues.