domingo, 25 de março de 2012

O que é teologia da prosperidade?

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Esboço preparado para ministração de aula na Escola Bíblica Dominical na Assembleia de Deus em Cubatão (SP).

O que é teologia da prosperidade?

É um movimento surgido nas primeiras décadas do século XX nos Estados Unidos da América entre os primeiros pentecostais. Sua doutrina afirma, a partir da interpretação equivocada de alguns textos bíblicos como Gênesis 17.7, Marcos 11.23-24 e Lucas 11.9-10, que os que são verdadeiramente fiéis a Deus devem desfrutar de uma excelente situação na área financeira, na saúde, na família etc. É também conhecido como Confissão Positiva e Movimento da Fé. A sua versão mais light (leve) é conhecida como Triunfalismo.

Principais ensinamentos

O cristão tem que ser próspero financeiramente e livre de qualquer enfermidade.É danoso declarar algo negativo.Os vocábulos logos e rhema são distintos
No texto de Isaías 53. 4,5, Deus promete curar todas as enfermidades.Toda enfermidade procede do diabo e é consequência da falta de fé ou do pecado na vida do crente.Toda enfermo está possesso por um demônio na sua alma e no seu corpo.
Deus nunca diz “não” às orações de fé.Devemos orar apenas uma vez. Oração repetida é falta de fé.Sofrimento é falta de fé e a pobreza não combina com a posição de “filhos do Rei”.

Principais teorias

Incubação (visualização)Especificar detalhadamente a bênção
Poder criativo da palavra faladaDivinização humana
Fórmula de FéDeterminação

Quem foi o “fundador” dessa doutrina?


Um pastor norte-americano, de origem metodista, chamado Essek William Kenyou (1867-1948). Ele foi influenciado pelas ideiais de Mary Baker Eddy, fundadora da seita Ciência Cristã. A seita ensinava que a matéria não existia e que a doença e o pecado poderiam ser curados com “pensamentos positivos”.

Quem foi o principal divulgador dessa doutrina?


O grande pregador da Teologia da Prosperidade foi o pastor norte-americano Kenneth Hagin (1917-2003). Muito doente aos 16 anos, ele disse que visitou o céu e o inferno três vezes quando se converteu a Jesus Cristo. Além disso, o próprio Cristo, em pessoa, relevou para ele novas verdades sobre a fé. Essas novas verdades ficaram conhecidas como a Fórmula da Fé ensinada no livro O Nome de Jesus (Graça Editorial).

A Fórmula da Fé.

“Creia no seu coração, decrete com a boca e será seu (tomar posse)” (Kenneth Hagin). A formula de fé está associada a determinação: “eu determino...”.

Principais equívocos

Privilegia a fé “para ter” em detrimento da fé “para viver”.Coloca a emoção como fonte de fé. Idolatra a fé que gera ansiedade pelo ter.
Coloca todo o peso da realização nas palavras pronunciadas e na atitude mental rigorosamente mantida, em vez de apoiar-se no fato de que a fé que temos vem de Deus.Obriga Deus a fazer nossa vontade baseada na ideia de que a fé é um poder que podemos utilizar a fim de influênciá-lo.Ênfase demasiada no ter.
Reduz a perspectiva ética da prosperidade à mesquinhez das coisas terrenas. Associa sucesso à espiritualidade. Ensina que o cristão está isento de derrotas.

Hermenêutica da Teologia da Prosperidade


A hermenêutica dos “evangelistas da fé” é uma leitura pobre e distorcida do Antigo Testamento. Veja o porquê.

Por que as promessas de “prosperidade material” no Antigo Testamento não são para os nossos dias?

1. Porque hoje Deus não trabalha com uma nação específica, como era Israel no Antigo Pacto, mas sim com a Igreja. Hoje todos aqueles que aceitam o sacrifício de Cristo são o Israel de Deus (Gálatas 6.16).

2. Algumas promessas bíblicas foram feitas para indivíduos específicos. A promessa de Deus para um personagem bíblico não significa o mesmo para nós. Exemplo é Abraão em Gênesis 12.2: “Eu farei de ti uma grande nação; abençoar-te-ei, e engrandecerei o teunome; e tu, sê uma bênção”. É claro que nenhum de nós pode reivindicar essa promessa.


3. Algumas promessas bíblicas foram feitas somente para a nação de Israel. Exemplo disso é o famoso capítulo de Deuteronômio 28.1-68.

4. Em nenhum texto do Novo Testamento a saúde perfeita ou a prosperidade material é prometida como fruto da obediência a Deus. As “promessas” do Novo Testamento são perseguições e provações. Como disse Paulo: “E na verdade todos os que querem viver piamente em Cristo Jesus padecerão perseguições” (2 Timóteo 3.12). Leia também Mateus 5. 10-11. e Marcos 10. 29-30.

5. Os versos de sabedoria contidos em Provérbios não podem ser traduzidos como promessas. O livro de Provérbios mostra princípios gerais observados sobre o cotidiano e a vida das pessoas. Um exemplo está em Provérbios 24.25, que diz: “mas para os que julgam retamente haverá delícias, e sobre eles virá copiosa bênção”. De fato, como observa o Rei Salomão, os que julgam retamente desfrutam de delícias derivadas da justiça. É uma observação que Salomão viu na vida dele e de muitos outros, mas essa observação não é uma promessa. O autor quer dizer que a prática da justiça conduz normalmente para uma vida de delícias, mas isso não é automático. É possível praticar a justiça e desfrutar de amargura. Jesus mesmo disse: “Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça” (Mateus 5.10). Nenhuma perseguição é uma delícia. Portanto, os versos dos provérbios devem ser vistos como princípios gerais e não como promessas automáticas.

6. Os conceitos de alguns personagens registrados na Bíblia não significam promessas bíblicas. O maior exemplo está no livro de Jó. Muito do que é dito pelos amigos de Jó depois é contestado pelo próprio Deus no início ou no final do livro. Para Bildade, por exemplo, Jó sofria aquele mal porque não era justo: “Se fores puro e reto, certamente mesmo agora ele despertará por ti, e tornará segura a habitação da tua justiça” Jó 8.6. O próprio Deus testemunhou a justiça de Jó (1.8). Bildade estava errado, mas as palavras deles estão registradas para entendermos a história e não para aplicarmos os seus conceitos equivocados para os nossos dias.

7. A chave de compreensão do Antigo Testamento passa por Jesus Cristo. A Bíblia diz: “Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias a nós nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, e por quem fez também o mundo” (Hebreus 1. 1-2) A chave de interpretação das promessas do Antigo Testamento precisam ser feitas a partir de uma leitura geral das Escrituras.

8. A Bíblia é mais do que um livro de experiências. O esquema “espiritualize, alegorize e devocionalize” não serve para todos os textos bíblicos e pode distorcer o conteúdo de muitos textos. É necessário um exercício de correta interpretação do texto bíblico levando em conta o contexto imediato, a gramática, o tempo, o tipo de literatura, o contexto histórico, as interpretações históricas etc. Exemplos dessas contextualizações abusivas são as campanhas neopentecostais, tais como “318 pastores”, “Ano de Elias”, “Jejum de Sansão” etc.


Bibliografia:

LIMA, Paulo César. O Que Está por trás do G12. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2000. p 57-75.

LUTZER, Erwin W. Quem é Você para Julgar? 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2005. p 64-66.

RHODES, Ron. O Livro Completo das Promessas Bíblicas. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p 19-27.

ROMEIRO, Paulo. Decepcionados com a Graça. 1 ed. São Paulo: Mundo Cristão, 2005. p 117- 131.

3 comentários:

Wellington disse...

Muito esclarecedor, um ótimo esboço para evangelizarmos e defendermos a sã doutrina...
Parabéns pelos textos do blog!

Rodrigo disse...

Gutierrez,

Acho que vc vai gostar desse link, se é que já não o conheça:

Entrevista com Gedeon Alencar sobre a teologia da prosperidade (http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_content&view=article&id=3209&secao=329)

Abraço,

Rodrigo

Gutierres Siqueira disse...

Rodrigo,

Eu gostei da entrevista. Eu sempre converso com o Gedeon e aprendo bastante com ele.

Só discordo quando ele associa TP com liberalismo econômico. Quem estuda economia sabe que uma coisa não tem nada da outra.