segunda-feira, 7 de maio de 2012

Oh fundamentalistas! Voltem ao primeiro amor!


Por Gutierres Fernandes Siqueira

Recentemente estudamos na Escola Bíblica Dominical a Igreja de Éfeso. A comunidade dos santos em Éfeso era uma fervorosa defensora da doutrina cristã (e é elogiada por Cristo por sua perseverança na doutrina), mas ao mesmo tempo perdia o amor que um dia desfrutou. Um perigo que todos nós (metidos a apologistas) estamos sujeitos. E, segundo Jeremy Pace, a falta de amor afeta diretamente o fundamentalismo protestante.

Jeremy Pace, da Mars Hill Church, comenta: “Quando o fundamentalismo se torna a lente pela qual os líderes cristãos conduzem a igreja, logo dois principais perigos esperam por eles e seu povo: a perda do amor e uma distração da missão de Deus”.

Pode parecer duro com a ala fundamentalista do protestantismo, mas a falta de paciência e o desejo de “defender a fé” muitas vezes foge de um amor a Cristo e uma preocupação com a salvação do perdido. É possível que façamos da apologética um profissionalismo vazio? Sim, é possível. É possível defender a fé sem um pingo de misericórdia por aqueles que são envoltos em falsas doutrinas? Sim, é possível. E, talvez, seja o maior pecado do fundamentalismo contemporâneo: a defesa da fé como profissão.

Pace ainda argumenta:

"Quando o fundamentalismo se torna a lente primária daqueles que estão na liderança da igreja os liderados são chamados a buscar a “doutrina correta” e o “bom comportamento” até mais do que Cristo. Isso é o que a Igreja em Éfeso era culpada. Sua preocupação era mais para a “reta doutrina” do que pelo amor a Cristo. O que começou como defesa por causa de um amor por Cristo tornou-se uma defesa sem amor de Cristo".

Não é uma advertência trivial. Assim como podemos colocar um carro acima de Deus ou um filho acima do Senhor, é possível colocar a tarefa da preservação doutrinária acima de Cristo. Não foi isso que os fariseus fazeram? Não foi isso que muitos fundamentalistas da Escola de Scofield fizeram contra os pentecostais os acusando de “endemoninhados” por defenderem a contemporaneidade dos dons?

E Pace completa: “O segundo perigo do fundamentalismo na liderança é que isso distrai a igreja de ser ministra da reconciliação no mundo para ser 'protetora da doutrina' e do 'comportamento moral' contra o mundo".

A matriz fundamentalista no Brasil já fez isso com a Igreja Evangélica Brasileira. Infelizmente, os evangélicos são vistos como policiais do comportamento moral, mas que se acham com várias imoralidades. Ou seja, são os morais imorais e hipócritas. É uma igreja que quer pregar santificação antes da regeneração. Isso nunca deu certo! Isso é moralismo, não é Evangelho!

PS: Leia o artigo de The Dangers of Fundamentalism in Leadership (Os Perigos do Fundamentalismo na Liderança) de Jeremy Pace aqui.

7 comentários:

Anônimo disse...

"Para Paulo o principal propósito do ajuntamento local dos seguidores de Jesus é duplo: edificação através da instrução; e o encontro com Jesus através do canto de salmos, hinos e cânticos espirituais e através da celebração da Santa Ceia. Os líderes das igrejas - os pastores os quais também são mestres (Efésios 4.11) - têm a tarefa de equipar os crentes "para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo" de modo que os crentes "cheguem à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitute de Cristo" (Efésios 4.12-13). A ênfase de Paulo nessa e noutras passagens estabelece a instrução dos seguidores de Jesus como a tarefa primária da igreja local. Qual é a tarefa primária: a edificação através do ensino, ou o encontro com Cristo? A resposta é que nenhuma é possível sem a outra. Se as igrejas dão ênfase sobre o encontro com Jesus Cristo, minimizando a instrução, elas enfrentarão o perigo de que os crentes ( e os "buscadores") os quais são apresentados estando mais preocupados em ter uma rica experiência do que instruídos na Palavra de Deus - o problema da igreja de Laodiceia (Apocalipse 3.14-22). Se as igrejas focam no ministério da Palavra e assim no ensino e instrução, minizando o encontro com Jesus Cristo, elas enfrentarão o perigo de ter conhecimento, mas pouco amor - o problema da igreja de Éfeso (Apocalipse 2.1-7). A igreja em Laodiceia certamente tem um problemar bem maior, a ela é dito que Jesus Cristo nem sequer está presente em seu meio quando eles se reúnem. Mas a igreja fiel e ortodoxa em Éfeso é repreendida por ter "caído" e precisar de arrependimento. Ambos são essenciais para a vida da igreja: a instrução na Palavra de Deus e o encontro com Jesus em oração e cânticos. " Eckhard J. Schnabel em Paul The Missionary, p. 422-423

Emerson Costa

Marcos Bandeira disse...

Muito bom o seu artigo!
As vezes eu fico pasmo com as atitudes de alguns apologistas e eu mesmo já me flagrei numa situação assim: debatendo para simplesmente ganhar uma discussão teológica e não com o objetivo de levar as pessoas a Cristo, e isso porque o alvo de muitos apologistas hoje não é mais Cristo, mas simplesmente vencer discussões ou expor pessoas ao rídiculo. Devemos expor as heresias, mas isso deve ser feito com amor a Cristo e ao próximo.
Parabéns pelo blog! Já faz bastante tempo que visito esse espaço quase que diariamente.
Deus te abençõe!

George Gonsalves disse...

Ótimo texto. Deus não olha para os credos ortodoxos que criamos, mas para a retidão de nossos corações. Cito John Wesley: "É possível morrermos sem o conhecimento de muitas verdades e, mesmo assim, sermos levados ao seio de Abraão. Se, porém, morreremos sem amor, de que nos valerá o conhecimento? Exatamente o mesmo que vale para o diabo e seus anjos!"

pretinha disse...

George

Ditas por Wesley, essas palavras tem um sentido muito diferente do que os evangélicos brasileiros entenderiam.

Wesley, além de ser um homem de grande cultura, incentivava fortemente os pregadores leigos a lerem muito, e traduziu muitas obras clássicas para o inglês, para que os pregadores leigos pudessem se tornar pessoas com mais educação.

A maioria dos evangélicos brasileiros, diante daquelas palavras, diria "viu só, Wesley mandou não estudar, a letra mata".

Aprendiz disse...

Gutierres

Bom, os policiais do compoortamento moral, até onde tenho visto, tem vindo do meio pentecostal (e eu sou pentecostal) e não do meio fundamentalista. E justamente os pentecostais, que tem sido os principais policiais do comportamento moral, freqüentemente dão pouquíssima importância às definições corretas, e à exegese correta.

Mas deixo aqui uma pergunta. Já vi sim pessoas que são preocupadas com a doutrina correta, mas sem amor. Mas a pergunta que faço a você Gutierres é: A doutrina correta, na sua visão, mata o amor?

Digo isso porque não vejo correlação entre doutrina correta e falta de amor. Conheço uma multidão de crentes que nem entendem a doutrina, nem amam. Então fica difícil imaginar que a doutrina correta seja uma espécie de armadilha que matará o amor. Na minha concepção, aquelas pessoas que defendem a sã doutrina, mas não amam, não amariam de qualquer jeito, independentemente da sua posição intelectual. Como a maioria não ama...

Proponho que a discussão teológica, sendo uma situação de, digamos assim, "conflito" (porque toda discordância de idéias pode, potencialmente, ser um conflito emocional) mostra o desamor que em situações de tranqüilidade fica oculto.

Gutierres Siqueira disse...

Aprendiz,

Você pergunta: "A doutrina correta, na sua visão, mata o amor?"

A resposta: É claro que não. A discussão não é essa. Não estou trabalhando com a falsa dicotomia amor versus doutrina. A questão é outra: É possível ser ortodoxo com motivação escusa. Só isso. Os efésios eram assim e foram condenados por Cristo.

Gutierres Siqueira disse...

Quem entendeu que a doutrina correta mata o amor nada entendeu do texto. Peço, por favor, que releia-o.