segunda-feira, 2 de julho de 2012

Inferno

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Se a Terra for escolhida em vez do Céu, acabará tendo sido, todo o tempo, apenas uma região no Inferno; mas, se ela estiver subordinada ao Céu, terá sido desde o inicio uma parte do próprio Céu. [C. S. Lewis em O Grande Abismo (1)]

No final das contas, existem apenas dois tipos de pessoas: as que dizem a Deus: “Seja feita a Tua vontade”; e aquelas a quem Deus diz: “Seja feita a sua vontade”. Todos os que estão no Inferno escolhem a segunda opção. Sem essa escolha pessoal não haveria Inferno. Alma alguma que deseje sincera e constantemente a alegria irá perdê-la. [C. S. Lewis em O Grande Abismo (2)]


É fato. Jesus falou mais do inferno do que do céu. Inúmeros cristãos contestam o inferno, mas não é porque faltem referências bíblicas. Se o problema fosse número de referências o céu poderia ser mais contestado. Jesus falou em “fogo eterno” que foi preparado para o “diabo e os seus anjos” [Mt 25.41; cf. Mt 3.12; Mc 9.43]. Outro aspecto importante é que Jesus descreve o inferno como eterno, assim como eterno é o ceú [Mt 25.41 e 46]. Portanto, é estranho como um cristão pode defender o aniquilacionismo, ou seja, a ideia que os não-salvos simplesmente deixarão de existir. É claro que a “alma imortal” não é uma doutrina bíblica (e sim da filosofia grega) [3], mas isso não deixa de indicar que o “castigo eterno” seja uma realidade. Tanto o salvo como o não-salvo não deixarão de existir.

O aniquilacionismo não é somente antibíblico como ilógico. Como algo pode simplesmente deixar de existir? O escritor C. S. Lewis, tratando sobre o simbolismo do fogo, escreveu:

A destruição, devemos supor naturalmente, significa a desconstrução- ou cessação- do destruído. E as pessoas não raro falam como se a “aniquilação” de uma alma fosse intrinsecamente possível. Em toda a nossa experiência, contudo, a destruição de uma coisa significa o afloramento de outra. Queime a lenha, e você terá fumaça, calor e cinzas. Ter sido lenha agora significa ser essas três coisas. Se as almas podem ser destruídas, não deve haver uma estado equivalente a ter sido uma alma humana? E não seria esse, talvez, o estado igualmente bem descrito como tormento, destruição e privação? [4]

E o teólogo J. I. Packer, em um ótimo artigo que combate o aniquilacionismo, escreveu:

Em nenhuma parte a morte significa extinção; morte física é a partida para outra forma de existência chamada sheol ou hades, e morte metafórica é uma existência sem Deus e Sua graça; nada na terminologia bíblica garante a ideia [...] de que “a segunda morte” de Apocalipse 21:11, 20:14, 21:8 significa ou refere-se à extinção da existência. [5]
Dante e Virgílio lendo a placa do portal do Inferno.
 Ilustração do artista inglês William Blake (século XVIII)
As imagens de “fogo”, “trevas”, “enxofre” e “verme” no inferno são metáforas? A maioria dos comentaristas bíblicos dizem que sim. A simbologia dessas imagens demonstra a natureza do inferno. Que fique claro: saber que as imagens do inferno são metafóras não serve de consolo para ninguém. A metáfora é usada justamente para tentar descrever a realidade que vai além da compreensão humana. Por que não devemos ler tais imagens literalmente? Isso porque a palavra grega geenna, que é mencionada 12 vezes por Jesus Cristo para descrever o inferno, traz a imagem do Vale de Tofete, onde crianças eram queimadas em sacrifícios ritualísticos ao deus Moloque. Como o tempo o vale se tornou um grande lixão. Ali, o fogo era constante no consumo do lixo e os vermes estavam sempre presentes. Jesus usa essa imagem para simbolizar o inferno e não para descrevê-lo literalmente. Essas imagens são simbólicas, mas o inferno em si não é uma fantasia.

O inferno é o lugar de separação completa de Deus. O apóstolo Paulo expressa bem essa ideia em 2 Ts 1.8-9: “Ele punirá os que não conhecem a Deus e os que não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus. Eles sofrerão a pena de destruição eterna, a separação da presença do Senhor e da majestade do seu poder” (NVI, grifo meu). Observe bem a expressão: a “separação da presença do Senhor” e a separação da “majestade do seu poder”. Isso é o pior do inferno! Nós, mesmo quando vivíamos entregues ao mundo, não experimentamos a completa e definitiva “separação de Deus”. Logo, por não estarmos definitivamente separados do Senhor, o Espírito Santo transformou o nosso coração. Podemos chamar o inferno da mais absoluta apostasia, ou seja, a separação sem volta. É a morte da esperança.

Karl Barth escreveu:

O homem estar separado de Deus significa estar num lugar de tormento. “Choro e ranger de dentes”- nossa imaginação não está adequada para esta realidade, esta existência sem Deus. O ateu não está consciente do que é a não-existência de Deus. A não-existência de Deus é a existência no inferno. O que mais além disto é oferecido como resultado do pecado? O homem não se separou de Deus por seu próprio ato? “Desceu ao inferno” é simplesmente a confirmação disto. O julgamento de Deus é justo- isto é, ele oferece ao homem o que ele quer. [6]

No clássico livro A Divina Comédia o poeta italiano Dante Alighieri conta a história fictícia e alegórica sobre uma viagem do inferno ao céu com o seu companheiro Virgílio. Na ficção, quando Dante passava no inferno, ele observou a seguinte mensagem em uma das portas do lugar sombrio:


Por mim se vai para a cidade ardente,
por mim se vai à sua eterna dor,
por mim se vai entre a perdida gente.

Justiça deu impulso ao meu Autor:
cumpriram-se poderes divinais,
a suma sapiência, o primo amor.

Antes e mim não se criou jamais
o que não fosse eterno; - e eterna, eu duro.
Deixai toda esperança, vós que entrais. [7]

Vejam com a mensagem é forte: “Deixai toda esperança, vós que entrais”! O inferno, como a completa ausência de Deus, é um lugar sem a “graça comum”. É o lugar do ego inflamado, do amor-próprio, da autoidolatria... E o irlandês C. S. Lewis expressou de maneira magnífica essa realidade no livro O Grande Abismo. Lewis mostra personagens impressionantes que preferem viver o inferno com seus vícios a encarar a renúncia para a felicidade eterna na “grande montanha”. O inferno, como disse Lewis, é o lugar onde os “homens usufruem sempre a terrível liberdade que exigiram” na vida [8].

Deus não manda ninguém para o inferno. O inferno é fruto da nossa escolha em vida. Ora, se escolhemos o modo de vida do inferno para onde iremos? O teólogo Timothy Keller escreveu:

O inferno é a escolha voluntária de uma identidade apartada de Deus para uma trajetória rumo à infinidade. Vemos esse processo “em pequena escala” nos viciados em drogas, álcool, jogo e pornografia. Primeiro há uma desintegração, pois, conforme o tempo passa, o indivíduo precisa cada vez mais daquilo em que se viciou para conseguir a mesma sensação, o que conduz a uma satisfação cada vez menor. Depois, vem o isolamento, conforme o viciado mais e mais culpa os outros e as circunstâncias a fim de justificar o próprio comportamento. “Ninguém entende! Estão todos contra mim!”, é uma queixa resmungada com uma dose cada vez maior de autopiedade e autocrentrismo. Quando construímos nossas vidas com base em outra coisa que não Deus, essa coisa- embora boa- se transforma em um vício que escraviza. A desintegração pessoal ocorre em uma escala mais ampla. Na eternidade, tal desintegração prossegue indefinidamente. Crescem o isolamento, a negação, a ilusão e auto-obsessão. Quando se perde por completo a humildade, perde-se o contato com a realidade. Ninguém jamais pede para sair do inferno. A mera ideia de céu lhes soa como tapeação. [9] 

Portanto, outro absurdo antibíblico é a ideia do universalismo, ou seja, a doutrina que ensina que todos serão salvos no final. Como Deus pode salvar quem não quer ser salvo? Isso só seria possível com a violação do livre-arbítrio. O universalismo é determinista [10] e, é claro, não encontra nenhum apoio nas Sagradas Escrituras. Que tipo de amor é esse? Onde pode existir amor sem liberdade e, inclusive, liberdade para a rejeição e abandono? O pai do filho pródigo impediu a loucura do filho? A resposta é negativa, mas não porque não o rejeitasse, mas simplesmente por amá-lo. O universalismo é o tipo de ideia bonita de longe, mas com uma essência podre quando olhamos de perto.

Agora, vamos falar do inferno sem cuspir “fogo e enxofre”. A realidade do inferno é tão terrível que deveria ser impossível um cristão falar sobre essa doutrina sem temor, tremor e comoção. Muitos cristãos parecem tratar assuntos como “inferno”, “juízo” e “ira divina” com certo prazer mórbido. Não é cuspindo fogo, mas sim com clamores de misericórdia. Ora, o descrente de hoje pode ser o crente de amanhã, assim como crente de hoje pode ser o apóstata de amanhã. E pregar o inferno sem o remédio (a salvação em Cristo) é uma pregação dúbia. Ninguém deve ser “converter” pelo medo, pois isso é falsa conversão. Falar do inferno e esquecer a graça de Cristo é simplesmente fabricar moralistas que viverão eternamente no... inferno. Tim Keller observou:

A doutrina do inferno é fundamental. Sem essa doutrina não podemos entender a nossa completa dependência de Deus e nem o risco de abraçarmos, até mesmo, os menores dos pecados. Além disso, também não entenderíamos o verdadeiro alcance do amor de Jesus. No entanto, é possível destacar a doutrina do inferno de forma imprudente. Muitos, por medo de compromisso doutrinal, querem colocar toda a ênfase no julgamento ativo de Deus e nenhum sobre o “caráter auto-escolhido” do inferno. [...]. E alguns podem pregar o inferno de tal maneira que as pessoas reformem suas vidas apenas por um medo egoísta das consequências do pecado, assim, evitando o mal não por amor e lealdade a quem abraçou e experimentou o inferno em nosso lugar. A distinção entre esses dois motivos é muito importante. A primeira cria um moralista, o segundo motivo cria o crente nascido de novo. [11]

Portanto, como disse John Stott, antes de aderir ao aniquilacionismo na década de 1980, nós “devemos, no entanto, sem sombra de dúvida, saber que o inferno é uma realidade tenebrosa e eterna. Não é o dogmatismo que é inconveniente ao falar sobre a realidade do inferno; mas a loquacidade e a frivolidade o são. Como podemos pensar no inferno sem chorar?” [12]. É tempo de pregar todo o conselho de Deus.



Referências Bibliográficas:

[1] LEWIS, C. S. O Grande Abismo. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2009. p 17.

[2] LEWIS, C. S. Idem. p 88.

[3] A alma em si não é uma substância imortal. A doutrina da “imortalidade da alma”, como defendida na filosofia grega, não é bíblica. A eternidade é um dom [cf. Rm 6.23]. É certo que os ímpios continuarão a existir depois da morte, mas usar o termo “imortal” [que significa “incapaz de morrer”] é simplesmente abusivo. A alma do ímpio é mortal, não porque deixará de existir, mas sim porque nele não há vida, ou seja, não há o pulso da vida de Deus. Como dito acima, a “imortalidade” é um dom para os salvos. O apóstolo Paulo escreveu: “Pois é necessário que aquilo que é corruptível se revista de incorruptibilidade, e aquilo que é mortal, se revista de imortalidade. Quando, porém, o que é corruptível se revestir de incorruptibilidade, e o que é mortal, de imortalidade, então se cumprirá a palavra que está escrita: ‘A morte foi destruída pela vitória’” [1 Coríntios 15.53-54]. Mas atenção: Negar a doutrina da “imortalidade da alma”, pois os gregos a julgavam mais elevada do que o corpo, não significa acreditar no aniquilacionismo. Leia mais em: HANKO, Ronald. A Imortalidade da Alma. Monergismo. Brasília 2012. Acesso em: 01/07/2012. Disponível em: <http://www.monergismo.com/textos/amilenismo/imortalidade-alma_hanko.pdf>

[4] LEWIS, C. S. O Problema do Sofrimento. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2009. p 141.

[5] PACKER, James I. Reconsiderando o Aniquilacionismo Evangélico: Uma Análise do Pensamento de John Stott sobre a Não-Existência do Inferno. Bom Caminho. Florianópolis: 2012. Acesso em: 01/07/2012. Disponível em: <http://www.bomcaminho.com/jip001.htm>

[6] BARTH, Karl. Esboço de uma Dogmática. 1 ed. São Paulo: Fonte Editorial, 2006. p 167-168.

[7] ALIGHIERI, Dante. A Divina Comédia. 1 ed. São Paulo: Editora Abril, 2010. p 70.

[8] LEWIS, C. S. O Problema do Sofrimento. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2009. p 143.

[9] KELLER, Timothy. A Fé na Era do Ceticismo. 1 ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2008. p 65.

[10] C. S. Lewis trata do determinismo universalista em O Grande Abismo no capítulo 13.

[11] KELLER, Timothy. The Importance of Hell. Redeemer Presbyterian Church. Nova York: 2012. Acesso em: 16/06/2012. Disponível em: <http://www.redeemer.com/news_and_events/articles/the_importance_of_hell.html>

[12] STOTT, John. Christian Mission in the Mordern World. 1 ed. London: Falcon: 1975. p 113. em: DUDLEY-SMITH, Timothy (cop.). Cristianismo Equilibrado. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2006. p 529.

10 comentários:

Rodrigo disse...

Sobre a questão do inferno ser a ausência de Deus, como você interpretaria Ap. 14:9-10? Abraço.

Gutierres Siqueira disse...

Rodrigo,

Muitos cristãos seguem uma interpretação que encontra apoio na literatura apocalíptica judaica, especialmente em Enoque 48.9, que diz: "Vou lançá-los como feno para o fogo e como chumbo na água. Assim eles queimarão na presença dos justos, e afundarão na presença do Santo, nem a décima parte deles será encontrada". Segundo essa interpretação, o sofrimento no inferno será diante dos olhos dos santos.

Bom, como o livro do Apocalipse em em seu constituição é simbólico e de difícil interpretação, especialmente os capítulos 4 ao 20, vejo que somente esse texto não dá para formar uma base para a concepção de que os santos no céu ficarão a contemplar o sofrimento no inferno.

Anderson Cruz disse...

Paz do senhor!, Gutierres

Simplesmente fantástico o artigo, aprendi sobre o Inferno em 10 minutos o que não havia aprendido em anos.Penso que deveria haver um maior número de Estudo como esse nas nossas igrejas, o inferno tem sumido dos púlpitos e quando é citado não é bem explicado.
Muito bem colocado por Karl Barth:
"O ateu não está consciente do que é a não-existência de Deus. A não-existência de Deus é a existência no inferno."
E se realmente li direito Stott defendeu o aniquilacionismo, é isso?

Abraço.

Gutierres Siqueira disse...

Olá Anderson, a paz.

Sim, John Stott assumiu essa posição em um livro na década de 1980.

tadeu disse...

Você acredita que haverá "grau de punição" no inferno?

Deyver disse...

Paz Gutierres!

Mais uma vez você tratou de um assunto complicado como se fosse o ABC do nosso alfabeto.
Tomei a liberdade de mais uma vez copiar um texto seu para o meu blogger.
Que Deus continue a te ajudar com a Sua graça e misericórdia!
Precisamos cada vez mais voltar as escrituras. Não podemos mais depender de líderes mal preparados e insensíveis (Alguns sabem que essa doutrina é super importante, mas deixam de crer e pregá-la).

Forte abraço!

Paz!

Rodrigo disse...

Interessante a citação de Enoque, Gutierres.

Realmente, alguns acreditam que Deus estará punindo eternamente os homens no inferno, como o Paul Washer nesse vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=jiavM3TPqbQ. Daí a minha dúvida.

Grande abraço!

Gutierres Siqueira disse...

Tadeu,

Eu acredito que aja graus de punição, como é quase consenso na teologia, especialmente lendo textos como Mateus 11.22: "Por isso eu vos digo que haverá menos rigor para Tiro e Sidom, no dia do juízo, do que para vós" e Lucas 12.47-48: "E o servo que soube a vontade do seu senhor, e não se aprontou, nem fez conforme a sua vontade, será castigado com muitos açoites; mas o que a não soube, e fez coisas dignas de açoites, com poucos açoites será castigado. E, a qualquer que muito for dado, muito se lhe pedirá, e ao que muito se lhe confiou, muito mais se lhe pedirá".

Anônimo disse...

Jesus fala mais do inferno do que do céu? Confiramos:
Mateus: Céu - 33 vezes; Inferno - 9 vezes
Marcos: Céu - 16 vezes; Inferno - 3 vezes
Lucas: Céu - 36 vezes; Inferno - 3 vezes
João: Céu - 17 vezes; Inferno - 0
Total: Céu - 102 vezes; Inferno - 15 vezes


Tudo não passa de mais uma 'lenda urbana' que cai.

Gutierres Siqueira disse...

Caro anônimo, faço a ti alguns pedidos:

1. Identifique-se. Cite as fontes, pois eu sei que essa lista é do bispo Hermes Carvalho. É feio copiar sem citar fontes.

2. Cite as referências que comprovem essa tese.

Obrigado.