domingo, 25 de novembro de 2012

Personalismo: Só falta colocar uma melancia na cabeça!

O que é pior: o personalismo dos gritos ou do terno "cheguei"?!

Por Gutierres Fernandes Siqueira


Uma vez fui a uma reunião e vi uma propaganda minha (detesto publicidade) em letras garrafais: “Donald Gee, o Grande Evangelista Escocês”. Levantei-me na primeira reunião e disse: “Vou ter de corrigir um mal-entendido. Em primeiro lugar não sou grande, em segundo lugar não sou escocês, e em terceiro lugar não sou um ‘evangelista’; o Senhor fez-me algo mais. O dom e o ministério que Deus nos dá indicam a função”. (Donald Gee, teólogo pentecostal inglês na década de 1930[1])

Mediante o último post [leia aqui] o leitor Aprendiz fez a seguinte pergunta sobre o “personalismo” nas igrejas pentecostais: “Na sua opinião, qual o motivo do fortíssimo personalismo nas igrejas pentencostais e neopentecostais?”.

Antes da resposta é importante definir o termo. Segundo o Dicionário Houaiss personalismo é “conduta, procedimento do indivíduo que refere todas as coisas a si mesmo, que tem a si próprio como ponto de referência de tudo o que ocorre à sua volta”.

Vejamos as possíveis causas:

a) Herança católica e cultural. O catolicismo brasileiro é personalista. A política nacional é personalista. Hoje, infelizmente, os evangélicos talvez passem nesse quesito o próprio catolicismo.  É inegável a nossa herança do catolicismo, logo porque foram quatro séculos de pura dominação católica neste país. A formação cultural é forte, visível  e o personalismo dos famosos padres com poderes milagrosos passou para pastores que manipulam o sagrado. Não é à toa que o famoso padre Cícero era “milagreiro” e líder político populista como coronelista.

O teólogo presbiteriano Augustus Nicodemus escreveu:

Na Igreja Católica, o sistema papal impõe a autoridade de um único homem sobre todo o povo. A distinção entre clérigos (padres, bispos, cardeais e o papa) e leigos (o povo comum) coloca os sacerdotes católicos em um nível acima das pessoas normais, como se fossem revestidos de uma autoridade, um carisma, uma espiritualidade inacessível, que provoca a admiração e o espanto da gente comum, infundindo respeito e veneração. Há um gosto na alma brasileira por bispos, catedrais, pompas, rituais. Só assim consigo entender a aceitação generalizada por parte dos próprios evangélicos de bispos e apóstolos auto-nomeados, mesmo após Lutero ter rasgado a bula papal que o excomungava e queimá-la na fogueira. A doutrina reformada do sacerdócio universal dos crentes e a abolição da distinção entre clérigos e leigos ainda não permearam a cosmovisão dos evangélicos no Brasil, com poucas exceções. [2]

b) Deficiência hermenêutica. Só mesmo quem não sabe interpretar bem o texto bíblico pode deduzir através da Bíblia que a liderança eclesiástica é incontestável ou que os líderes devem ser servidos no lugar de serem servidores.

c) Caciquismo eclesiástico. O personalismo também é “sistema político que se baseia na personalidade dinâmica do seu líder” e a “predominância dos interesses pessoais, locais ou de um partido político sobre os interesses coletivos” (Dicionário Houaiss). Assim como na política secular, o personalismo é o braço do populismo vazio na política eclesiástica. É uma afirmação de poder. O poder temporal é confundido com o poder dito espiritual.

d) Ênfase em manifestações espirituais. Bom, não há nada de errado nos milagres e busca pelos dons, mas uma ênfase exagerada nesses aspectos leva para a valorização daqueles que possuem carismas. O mesmo aconteceu na Igreja de Corinto, onde aqueles que exerciam dons eram ditos como mais espirituais. O tempo passou, mas esse problema ainda persiste. Assim como os coríntios, muitos evangélicos acham que manifestações carismáticas são atestados de espiritualidade e, assim, reverenciam os portadores de dons. Você já observou como há um silêncio reverente quando alguém se levanta em profecia? Isso é bom, mas por que o mesmo não acontece na ministração da Palavra?

Portanto, esses são alguns pontos que coloco como a razão do personalismo no meio pentecostal.

Referências Bibliográficas:

[1] GEE, Donald. Como Receber o Batismo no Espírito Santo. 6 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p 68-69.

[2] NICODEMUS, Augustus. O Que Estão Fazendo com a Igreja. 1 ed. São Paulo: Editora Mundo Cristão, 2008. p 26.

4 comentários:

Adeilton disse...

48Gutierres,

O comentarista Matthew Henry em seu célebre comentário disse:

"As crianças são hábeis em serem tocadas por novidades e aparências estranhas. Elas são levadas pelo que se mostra exteriormente, sem inquirir pela verdadeira natureza e valor das coisas. Vós vos assemelhais a elas, e preferis barulhos a mostrades o valor e a essência; mostrai um maior maturidade de julgamento e atuai no que for pricipal; não sejais como crianças inocente e inofencisa. Uma dupla reprovação é expresa nessa passagem, tanto em relação ao orgulho posto em seus dons, quanto em sua arrogância e altivez de um com o outro, e as contendas e disputas que procediam deles."

Matthew Henry,comentário do novo testamento,cpad,pag,491.

Orlando disse...

Complementando o comentário acima de Henry - eu ficaria de pé, levantaria as mãos e, com entusiasmo, clamaria aos 4 ventos que a CAUSA B é a principal causa das vergonhas tidas como pentecostal em geral! (com raríssimas exceções Sr. Nicodemos)

Abraços
Orando
souteologico.blogspot.com

Márcio Cruz disse...

Saudações cristãs, Ir. Gutierres!!

Isto é reflexo do sopro no ego que vem sendo inflado pelo homem.

O ser humano gosta, e diante da ignorância ele encontra terreno para semear sobre essa!

Lamentável!

Aprendiz disse...

Gutierres

Grato pela sua resposta.

Ocorreu-me também que os latino-americanos em geral são fortemente atraídos pelo personalismo e caciquismo. Um defeito de carater típico nosso. Isso se dá em todas as áreas. O latino-americano não compreende a educação como algo que cada um faz por sí mesmo, em primeiro lugar, mas como algo concedido pelo governante. O latíno-americano não consegue entender que é a sociedade que produz riqueza, ele pensa que é o governante. O latino americano não consegue entender a ciência e o conhecimento como algo que a sociedade produz. Ele pensa que é uma concessão do governante. O latino-americano não consegue entender o sacerdócio universal dos crentes. Ele crê que a ligação com Deus é impossível sem o clero.

O latino-americano é um idólatra de "líderes".