sábado, 28 de abril de 2012

Convite: Teologia básica no Seminário Martin Bucer

Caros leitores,

O Seminário Martin Bucer apresenta o Curso de Capacitação de Liderança Cristã e Teologia Básica.

Muitos obreiros evangélicos são pessoas que não trabalham integralmente nos serviços da congregação. Diversos pastores, diáconos e presbíteros também são bancários, porteiros, seguranças, faxineiros, comerciantes, advogados, funcionários públicos etc. O trabalho digno, seja ele qual for, glorifica a Deus, mas o porteiro que também é pastor precisa de capacitação teológica que nem sempre está disponível para as suas condições financeiras. O obreiro, seja de tempo integral ou parcial, precisa “manejar bem a Palavra da Verdade” (2 Timóteo 2.15). O Curso de Capacitação de Liderança Cristã e Teologia Básica é voltado para esse trabalhador “secular” que não tem tempo e nem dinheiro para frequentar um seminário teológico formal.

O curso será totalmente gratuito. No final dos módulos o aluno apresentará um trabalho escrito para receber o seu certificado. Além disso, será necessário cumprir uma carga horária mínima. O certificado será assinado pelos responsáveis do Seminário Martin Bucer no Brasil.

O curso é interdenominacional, mas com foco nas doutrinas da graça. O Martin Bucer Seminar é uma respeitada escola reformada na Alemanha e o foco desse trabalho é manter uma qualidade com profundidade e simplicidade na transmissão do conteúdo bíblico-teológico.

A primeira aula acontecerá no dia 19/05/2012. Todas as aulas serão ministradas aos sábados.

Horário: 14 às 18 horas.

Endereço das aulas:

Igreja Evangélica Assembleia de Deus- Ministério Redenção
Rua José Eid Maluf, 270
Bairro: Cidade Ademar (Zona Sul)
São Paulo (SP)
CEP 04405-140
O espaço cedido conta com o apoio do pastor Joás Pereira.

Professores e coordenadores

Matias Christopher Heidmann- é Bacharel em Teologia pelo Martin Bucer Seminar, Alemanha. Fez cursos teológicos no STH, em Basel, Suíça, e no Seminário Teológico Batista Nacional, em São Paulo-SP. Atualmente estuda MBA Banking na Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo-SP.

Gutierres Fernandes Siqueira- Bacharel em Comunicação Social pela Faculdade Paulus e pós-graduando em Mercado Financeiro na Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Observação: No decorrer do curso teremos professores convidados que compõem o “time” do Seminário Martin Bucer no Brasil.

Para cadastro e informações mande um e-mail para: gutierres.siqueira@uol.com.br

http://www.bucer.eu/
http://www.bucer.eu/brasil.html

Você é o nosso convidado. Venha estudar a Palavra de Deus conosco!

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Lição 05 - Pérgamo, a Igreja casada com o mundo

Subsídio preparado pela equipe de educação da CPAD

A FALHA DE PÉRGAMO

Por Steven J. Lawson

[...] Pérgamo era a igreja perfeita? Dificilmente. Apesar de sua constância, o pecado introduziu-se nela imperceptivelmente. O maior perigo não era a perseguição, e sim a perversão. Se Satanás não pode derrotar a igreja, tenta ingressar nela. A ameaça mortal vinha de dentro. Jesus continua:

Mas umas poucas coisas tenho contra ti: porque tens lá os que seguem a doutrina de Balaão, o qual ensinava Balaque a lançar tropeços diante dos filhos de Israel, para que comessem dos sacrifícios da idolatria, e se prostituíssem. Assim tens também os que seguem a doutrina dos nicolaítas: o que eu aborreço (Ap 2.14,15).

Esta frase “Mas umas poucas coisas tenho contra ti” dá-me calafrios. Em Pérgamo, havia um pequeno grupo que instigava os crentes a se comprometerem com o mundo. Sua carnalidade prejudicava aos fiéis. Um pouco de fermento leveda toda a massa. Este grupo achava-se envolvido com a doutrina de Balaão.

A queixa de Jesus não é dirigida ao grupo que ensinava tal heresia, mas à igreja por tolerar a doutrina de Balaão. Mas que doutrina era esta?

Balaão era um profeta gentio do Antigo Testamento. Chamado para ser porta-voz de Deus, sempre falou pelo diabo. Durante a peregrinação de Israel pelo deserto, Balaque, rei de Moabe, ouviu dizer que o povo de Deus avançava. E ele sabia que não havia maneira de se defender dos israelitas. Desesperado, pediu ajuda a Balaão: “Tenho para ti uma missão. Quero que amaldiçoes a este povo. E, por isto, recompensar-te-ei.”

Vulnerável à tentação ao lucro, o profeta estrangeiro buscou, em três momentos distintos, amaldiçoar o povo de Deus. Mas em lugar da maldição, a bênção. Ele não podia amaldiçoar a Israel. Tentando servir a Deus e ao dinheiro, arquitetou um plano engenho. Se não podia amaldiçoá-los, a solução era levar Deus a fazê-lo.

O profeta do lucro instruiu, pois a Balaque a colocar tropeços diante dos israelitas. Instigou a Balaque a pôr meretrizes no arraial hebreu para que seduzissem o povo de Deus. Infelizmente, os filhos de Israel não eram páreo a tal tentação. Caíram; divertiram-se com pagãs. Com elas, adoraram os ídolos e comeram os alimentos oferecidos a estes.

O que Balaão não pôde fazer, o pecado o fez. O tropeço foi devastador! Pedra de tropeço (skandalon, no grego) é uma armadilha feita com um chamariz. Quando este é tocado, bum! A armadilha dispara e prende a vítima. Assim é o pecado. Parece atraente, mas tocado, captura a presa.

A doutrina de Balaão é o compromisso com o mundo. É a mistura das coisas santas com as profanas. É ter um pé na igreja e outro no mundo. Com semelhante ensino, esse grupo de Pérgamo ameaçava destruir a Igreja. Afinal, quebra-se um elo e toda a corrente é inutilizada. Se apenas uma célula torna-se cancerosa todo o corpo logo sofre.

Assim é a Igreja. Um pouco de fermento leveda toda a massa. Um pequeno foco de pecado prejudica todo o corpo. O mal, pois, precisa ser eliminado. Agora! Jesus aponta outro pecado oculto. Havia um segundo grupo ensinando falsas doutrinas - os nicolaítas.

Pregavam uma liberdade destrutiva muito similar à doutrina de Balaão. Os frasco eram diferentes, o veneno porém, o mesmo. A tradição conta que Nicolau foi um dos primeiros líderes da Igreja. Mas apostatando, começou a ensinar que o crente pode viver como quiser. Seu objetivo: achar um meio termo entre a vida cristã e os costumes da sociedade greco-romana.

Na realidade, os nicolaítas combinavam os ideais cristãos com a imoralidade e a idolatria. O resultado era uma heresia devastadora que ameaçava a existência da Igreja. Eles pervertiam a graça de Deus. Com o seu antinomianismo, ensinavam que nenhuma lei moral de Jesus está vinculada ao cristão atual. Reafirmando a idolatria de Balaão, encorajavam os crentes a envolverem-se com todo tipo de perversão.

[...] [No entanto] a Bíblia não mudou. Deus ordena: “Não adulterarás (Êx 20.14). “Fugi da prostituição” (1 Co 6.18). “Porque esta é a vontade de Deus, a vossa santificação” (1 Ts 4.3). “Venerado seja entre todos o matrimônio e o leito sem mácula” (Hb 13.4). “Mas a prostituição e toda a impureza ou avareza, nem ainda se nomeie entre vós” (Ef 5.3). [...] E você? Está vivendo uma vida dúbia? Tem sido infiel a sua esposa? Está envolvido com mais alguém? Ou acha-se emocionalmente comprometido?

Você permanece puro quando numa viagem de negócios? Assiste a filmes pornográficos? Lê revistas imorais? Está tendo um caso? Ou pensa em ter um? E você, mulher? Tem pensado noutro homem? Assiste a novelas? Cuidado! Você está flertando com o perigo. Solteiros, vocês têm se mantido puros? Têm guardado a virgindade?

O julgamento há de começar, mas pela casa de Deus (1 Pe 4.17).

Texto extraído da obra “As Sete Igrejas do Apocalipse: Alerta Final de Cristo para seu povo”, editada pela CPAD.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Cristianismo e Cultura

Clique na imagem para ampliar.

PS: Nancy Pearcey é uma pensadora cristã que devemos ler, mesmo que não concordemos com tudo, pois os seus escritos sempre trazem interessantes reflexões sobre o exercício do cristianismo no mundo pós-moderno (ou moderno). Pearcey escreveu um ótimo livro com Charles Colson, que infelizmente morreu no último sábado aos 80 anos, chamado "E Agora, Como Viveremos?" (CPAD) e é autora do livro "Verdade Absoluta" (CPAD).

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Seria o “fundamentalismo cristão” tão perigoso quanto o “fundamentalismo islâmico”?

Um jornalista dinamarquês quase foi morto por causa desse cartum.

"Há vinte anos, seria inconcebível que o acerbispo de Canterbury pronunciasse um discurso em favor da incorporação da lei religiosa islâmica (a shariá) ao sistema legal inglês. Hoje, contudo, muitas pessoas julgam essa uma proposta razoável, talvez um avanço rumo a uma contemporização pacífica". [Roger Scruton 1] 

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Os “politicamente corretos” respondem com um sonoro “sim”. Ora, para eles um afegão do Talibã e um americano do Bible Belt são exatamente a mesma coisa. Exagero? Sim, um tremendo exagero. O fundamentalismo cristão não pode ser comparado com o fundamentalismo islâmico por vários motivos que veremos neste texto.

Em primeiro lugar eu quero informar que não nutro nenhuma simpatia pelo fundamentalismo protestante. Quem é leitor assíduo do blog sabe disso. O fundamentalismo nasceu como uma reação positiva ao liberalismo teológico europeu em solo americano, mas com o tempo transformou-se em um monstro anti-intelectual, anticultural, anticientífico e anticarismático.

Eu tenho horror desse povo que afirmar ser herege aquele que não acredita na literalidade da palavra “dia” do primeiro capítulo de Gênesis ou que se referem aos dinossauros como “uma grande mentira inventada para desacreditar a Bíblia”. Além disso, como pentecostal que sou, não tenho nenhum motivo para simpatizar com o movimento que mais combateu o pentecostalismo com uma teologia fraca e preconceituosa. Portanto, não sou e nem admiro o fundamentalismo protestante.

Agora, não é porque eu não gosto do fundamentalismo cristão que serei injusto com ele. É uma tremenda injustiça comparar, como eu já disse, um protestante abitolado com um islâmico fanático. Por que afirmo isso? Vejamos:

1. O “fundamentalismo islâmico” é um fenômeno abrangente e causador de instabilidade política e o “fundamentalismo cristão” não o é

É claro que o fundamentalismo islâmico não é a maioria do Islã, porém é um fenômeno bem abrangente. É um movimento tão forte que é capaz de instabilizar vários países ao mesmo tempo. Existe algum país instável por causa do fundamentalismo protestante? Se você respondeu que os Estados Unidos estão desestruturados por causa dos seus “fundamentalistas” é melhor começar a ler mais jornais e estudar com mais afinco a cultura americana. O primeiro sinal de analfabetismo sobre a política americana é associar o movimento libertário Tea Party ao Bible Belt, como muitos jornalistas fazem por aí. Agora, não temos dedos suficientes não mãos para contar todos os países que neste momento estão instáveis por causa do fundamentalismo islâmico.

2. O “fundamentalismo islâmico” é violentíssimo, mas o “fundamentalismo cristão” não o é

Bom, eu não tenho medo de discordar de um pastor como o Pat Robertson. Ora, por mais chato que ele seja como um fundamentalista, no mais Robertson não explodirá a minha casa. Agora, seria você capaz de criticar um talibã na cara dele? Falar mal dos fundamentalistas cristãos é fácil, mas o difícil mesmo é encarar os fundamentalistas xiitas. A prova maior disso é que ninguém no Ocidente tem a coragem de queimar um Alcorão, enquanto existem dezenas de vídeos no YouTube de pessoas queimando Bíblias e outros livros sagrados. Quem queima livros é sempre um idiota. Uso o exemplo só para comparar a reação violenta de cada grupo. É necessário muita desonestidade intelectual para equiparar ambos os grupos. Alguém já viu um grupo de cristãos fundamentalistas queimando uma mesquita?

E os médicos abortistas que foram mortos em atentados? São casos isolados que ocorreram nas décadas de 1980 e 1990, mas não é um fenômeno que encontre apoio de nenhuma igreja institucionalizada ou mesmo de organizações cristãs. Além disso, os fanáticos que assim fizeram não foram necessariamente ligados a uma igreja ou motivados por pregações de pastores fundamentalistas. As principais e maiores organizações pró-vida nos Estados Unidos combatem qualquer tipo de militância que use a violência. E nada mais anticristão do que o uso da violência.

03. A leitura e a estrutura bíblica inibem a formação de fundamentalismos, enquanto a singularidade do Alcorão não deixa margens para dúvidas

Há inúmeros cientistas da religião que mostram o porquê do Islã produzir mais fundamentalismos (e com grande violência) do que o cristianismo e o judaísmo. A grande razão seria a fonte da relevação, pois enquanto a Bíblia é variada em estilos e textos, o Alcorão é um texto dogmático e linear que não deixa margem para diversas interpretações. Não é à toa que o cristianismo está dividido em três grandes grupos (catolicismo romano, catolicismo ortodoxo e protestantismo) e esses grupos estão subdividos em vários outros.

Pondé comenta:

O texto sagrado do Corão, à diferença da Bíblia ocidental, que levou, grosso modo, uns mil anos para se constituir como cânone oficial (texto sagrado) das religiões judaica e cristã, se fechou como cânone em cerca de 50 anos apenas. Além disso, a forma da linguagem é basicamente constituída de leis divinas de comportamento. O pouco tempo de “escrita” e a hegemonia de um único estilo literário implicam necessariamente menor “ruído” interno ao próprio texto, por isso menos contradições surgiram quando o texto ficou “pronto” (e deve ter sido, claro, escrito por “menos pessoas”). Se um texto foi escrito durante mil anos (e há nele, como no caso da Bíblica, mais estilos literários, como poesia, narrativa mítica, livro de personagens, profecias, livros de conteúdo moral), o número de pessoas envolvidas na criação é bem maior do que em 50 anos, e daí os “ruídos” que tornam uma leitura “fundamentalista” menos viável [2].

A divisão e a variedade no cristianismo fazem mais bem do que mal, enquanto a grande unidade do islamismo permite o florescimento de fundamentalismos extremos.

Portanto, não se trata de dizer que todo muçulmano é um terrorista em potencial, mas sim que todo fundamentalista islâmico o é. E o mesmo não pode ser dito dos fundamentalistas protestantes e católicos, pois os mesmos são chatos, mas não violentos e causadores de instabilidades políticas.

Referência Bibliográfica:

[1] SCRUTON, Roger. O Islã e o Ocidente: questões em confronto. Dicta e Contradicta. Número 03. Julho, 2009, São Paulo. pp 56-67.

[2] PONDÉ, Luiz Felipe. Guia Politicamente Incorreto da Filosofia. 1 ed. São Paulo: Leya, 2012. p 126.  
 



domingo, 22 de abril de 2012

Necessitado estou, mas feliz sou!

Sermão pregado na Igreja Evangélica Assembleia de Deus do Jardim das Pedras em São Paulo (SP).

Por Gutierres Fernandes Siqueira

“Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos céus” [Jesus em Mateus 5. 3]

“O que faz você feliz?” A pergunta é o lema da propaganda de uma rede de supermercados. O próprio comercial responde que a felicidade está relacionada a compra de seus produtos. A cultura contemporânea valoriza muito o conceito de felicidade. Aliás, a felicidade se tornou uma obsessão e até mesmo uma obrigação.

O que consultórios de psicólogos, academias de ginástica, igrejas carismáticas e baladas de música eletrônica têm em comum? Ora, em todos esses ambientes as pessoas estão buscando “a felicidade”. O vazio da alma busca satisfação em alguns aspectos exteriores como corpo atlético, o êxtase com a música alta, a família “margarina”, “espiritualidade eletrizante” etc.

1. O conceito de felicidade desenhado por Jesus Cristo no Sermão do Monte é contracultural. Jesus Cristo não é um guru de autoajuda, mas sim o Senhor Soberano que nos mostra a cruel realidade do mundo e de próprias nossas vidas. A felicidade segundo Jesus não deixa ninguém como um “bobo-alegre”, mas mostra-nos a face real da nossa existência.

Nenhum filósofo grego ou romano definia a felicidade em termos cristãos. A felicidade sempre era a busca do prazer ou do contentamento ou ainda da vida cívica e do comportamento correto, mas nunca associada ao choro, a dor, a perseguição e a insuficiência. Por esse motivo que a mensagem de Cristo é contra a cultura. Não é à toa que o apóstolo Paulo escreveu:

Pois a mensagem da cruz é loucura para os que estão perecendo, mas para nós, que estamos sendo salvos, é o poder de Deus [...] Visto que, na sabedoria de Deus, o mundo não o conheceu por meio da sabedoria humana, agradou a Deus salvar aqueles que crêem por meio da loucura da pregação. [1 Coríntios 1. 18, 21]

A palavra portuguesa “bem-aventurados” foi elevada a uma categoria acima de “felicidade”, mas no texto bíblico não se trata de uma mudança semântica, mas sim conceitual [1]. Jesus redefiniu o que significa a felicidade, ou seja, mais uma vez Jesus redefiniu a nossa cultura.

2. É bom destacar que o Sermão do Monte não foi escrito para mostrar o que devemos fazer a fim de alcançar o Reino de Deus, mas sim para caracterizar os integrantes desse reino. As bem-aventuranças são a graça manifestada. Mais do que mandamentos o Senhor Jesus nos lembra qual é a posição na vida que cabe a um cristão nascido de novo. Qualquer tentativa de fazer das bem-aventuranças regras para alcançar o céu é uma escandalosa distorção da graça divina. O legalismo em nada ajuda, pois seguir regras sem o coração regenerado é o mesmo que lavar porcos na lama [2].

3. A felicidade segundo Jesus não é um sentimento, mas uma maneira de existir. É um caráter [3]. O “adjetivo” feliz torna-se nesse texto um “substantivo”, ou seja, a conceituação de felicidade segundo Jesus não é um mero estado de espírito, mas sim uma forma de “ser”. O termo é “sou feliz” e não “estou feliz” [4].

O caráter da felicidade como ser mostra que “ser feliz” independe de uma circunstância favorável, como escreveu o profeta Habacuque:

Porquanto, ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide; o produto da oliveira minta, e os campos não produzam mantimento; as ovelhas da malhada sejam arrebatadas, e nos currais não haja vacas, todavia, eu me alegrarei no SENHOR, exultarei no Deus da minha salvação. JEOVÁ, o Senhor, é minha força, e fará os meus pés como os das cervas, e me fará andar sobre as minhas alturas (3. 17-19).

Este sermão não analisará as oito bem-aventuranças, pois tal tarefa demandaria uma série de sermões, mas ficaremos na noite de hoje com a primeira “felicidade” definida como a “pobreza de espírito”.  Apesar de ficar preso em uma única beatitude é bom frisar que o sermão de Jesus é integral, ou seja, uma bem-aventurança depende de outra.

4. A “pobreza de espírito” traz a ideia de fraqueza, insegurança e falta de defesa. É a contrapartida de autossuficiência. O orgulho não tem o seu espaço no Reino dos Céus. A humildade é mais do que uma visão de autopiedade, mas sim o reconhecimento de sua condição espiritual. O “pobre de espírito” não é analisado em um tribunal e definido por um juiz, mas é parte do autoconhecimento do cristão. O profeta Isaías mostrou bem como o Alto e Sublime Deus está ao lado do humilde:

Pois assim diz o Alto e Sublime, que vive para sempre, e cujo nome é santo: "Habito num lugar alto e santo, mas habito também com o contrito e humilde de espírito, para dar novo ânimo ao espírito do humilde e novo alento ao coração do contrito. [Isaías 57. 15]

O “pobre de espírito” é mais do que aquele que aplicação humilhação a si, mas também aquele que é objeto da humilhação vinda dos eventos da vida. A vida é especialista em moldar os homens em sofrimentos e tristezas sendo que podemos reagir bem ou mal às adversidades. Aqueles que reagem mal ficam amargos e rudes com o sofrimento, enquanto outros permitem que o sofrimento molde o seu caráter, como disse o escritor francês Bernanos: “Os homens são como nozes, só revelam o seu melhor quando são esmagados” [5].

“Até um rei deve ver a si mesmo como pobre quando está diante de Deus” [6]. E Davi era assim (cf. Salmo 51).

5. O primeiro passo para a felicidade de Jesus Cristo é o reconhecimento de nossas fraquezas [7]. A salvação sempre começa com o reconhecimento do pecado [8]. Ninguém que se acha justo alcançará a salvação, pois somente aquele que dela necessita buscará Cristo como médico que sara. Portanto, nada podemos oferecer que Deus tenha falta, comprar o que o Senhor poria a venda ou mesmo reivindicar de Deus. O Senhor nada nos deve. [9]

06. A autossuficiência perante o Senhor é loucura. O suficiente em si esquece que o mais importante é ser rico para com Deus. Podemos ser suficientes em dinheiro, mas também em saúde, inteligência, nacionalidade e tantas outras coisas que, colocadas com ídolos, nos afastam de Deus. Como lembra Jesus ao falar do rico insensato:

Então lhes disse: "Cuidado! Fiquem de sobreaviso contra todo tipo de ganância; a vida de um homem não consiste na quantidade dos seus bens". Então lhes contou esta parábola: "A terra de certo homem rico produziu muito bem. Ele pensou consigo mesmo: ‘O que vou fazer? Não tenho onde armazenar minha colheita’. "Então disse: ‘Já sei o que vou fazer. Vou derrubar os meus celeiros e construir outros maiores, e ali guardarei toda a minha safra e todos os meus bens. E direi a mim mesmo: Você tem grande quantidade de bens, armazenados para muitos anos. Descanse, coma, beba e alegre-se’. "Contudo, Deus lhe disse: ‘Insensato! Esta mesma noite a sua vida lhe será exigida. Então, quem ficará com o que você preparou?’ "Assim acontece com quem guarda para si riquezas, mas não é rico para com Deus". [Lucas 12. 15-21]

07. O caminho santidade é o reconhecimento da nossa dívida para com Deus. É humilhação sincera e não autopiedade e autojustificação que no fundo é orgulho cedo.

Dois homens subiram ao templo para orar; um era fariseu e o outro, publicano. O fariseu, em pé, orava no íntimo: ‘Deus, eu te agradeço porque não sou como os outros homens: ladrões, corruptos, adúlteros; nem mesmo como este publicano. Jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo quanto ganho’."Mas o publicano ficou à distância. Ele nem ousava olhar para o céu, mas batendo no peito, dizia: ‘Deus, tem misericórdia de mim, que sou pecador’. "Eu lhes digo que este homem, e não o outro, foi para casa justificado diante de Deus. Pois quem se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado. [Lucas 18. 10-14]

“Ostentação é a reação do orgulho ao sucesso. Autopiedade é a reação do orgulho ao sofrimento. A ostentação diz: “Eu mereço admiração por ter conseguido tanto sucesso”. A autopiedade diz: “Eu mereço admiração por ter me sacrificado tanto”. A ostentação é a voz do orgulhoso no coração dos fortes. A autopiedade é a voz do orgulho no coração dos fracos”. [10]

08. E dos pobres de Espírito é o Reino dos Céus. Poderia haver recompensa melhor para alguém que nada tem?

Notas e Referências:

OBS: As notas são extensas para deixar o texto do sermão livre de detalhes técnicos de exegese e citações variadas de comentaristas bíblicos. Não é interessante para o ouvinte e para a clareza do sermão se prender nos debates abaixo. E as referências servem para mostrar a base do sermão.

[1] A. T. Robertson escreve: “Elevamos o termo bem-aventurados (ou benditos) a um patamar mais alto que felizes. Mas o que Jesus disse foi ‘felizes’”. Comentários Mateus e Marcos: À Luz do Novo Testamento Grego. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2011. p 66. Ainda assim, a separação semântica de “felicidade” e “bem-aventurança” tem um caráter didático, já que o termo feliz “não serve para as bem-aventuranças, tendo a palavra sido desvalorizada pelo uso moderno”, como afirma D. A. Carson. O Comentário de Mateus. 1 ed. São Paulo: Shedd Publicações, 2010. p 165.

[2] Geremias do Couto comenta: “O propósito do Sermão do Monte, portanto, vai muito além de qualquer estereótipo do tipo ‘pode, não pode’, ‘faça, não faça’. A experiência religiosa mostra que não adianta explicitar um sem-número de regras, pensando que elas consigam mudar a pessoa por dentro. O máximo que promovem é uma reforma exterior, que, do ponto de vista do ensino de Cristo, cheira hipocrisia [...] A graça garante não só a salvação, mas também a vida de renúncia, pureza e justiça do Sermão do Monte.” A Transparência da Vida Cristã: Comentário Devocional do Sermão do Monte. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2001. pp 25,29.

[3] Marvin Richardson Vincent escreveu em Word Studies in the New Testament: “Livrando-se de todos os pensamentos de bem exterior, torna-se símbolo expresso de uma felicidade identificada com o caráter puro. Por trás disso, acha-se a cognição clara do pecado, como a origem principal de toda miséria, e da santidade, como a cura final e eficaz para toda a desgraça. Quanto ao conhecimento como a base da virtude, e portanto, da felicidade, essa palavra substitui a fé e o amor”. ROBERTSON, A. T. Comentários Mateus e Marcos: À Luz do Novo Testamento Grego. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2011. p 66

[4] “No grego, ela (a palavra feliz) ‘descreve uma condição não de sentimento interior por parte daqueles aos quais é aplicada, mas de bem-aventuranã de um ponto de vista ideal  no julgamento dos outros’ (Allen)”. CARSON, D. A. O Comentário de Mateus. 1 ed. São Paulo: Shedd Publicações, 2010. p 165.

[5] Citado em: PONDÉ, Luiz Felipe. Guia Politicamente Incorreto da Filosofia. 1 ed. São Paulo: Leya, 2012. p 223.

[6] SHELTON, James B. Mateus em: ARRINGTON, French L. e STRONSTAD, Roger. Comentário Bíblico Pentecostal: Novo Testamento. 4 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p 35.

[7] “O primeiro passo em direção à bem-aventurança é a percepção do nosso próprio desamparo espiritual”. BÍblia de Estudo Palavras-Chave: Hebraico e Grego. 4 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2011. p 997.

[8] João Calvino escreve: “Nós devemos reconhecer que não somos nada. A pessoa, então, verdadeiramente abençoada, é aquele que é pobre em sua própria avaliação, que voluntariamente humilha a si mesma, que nada de bom vê em si, mas, em vez disso, aceita a rejeição do mundo”. Beatitudes: As Bem-Aventuranças. 18 ed. São Paulo: Fonte Editorial, 2008. p 39.

[9] Charles Spurgeon escreveu: “Para subirmos o reino é preciso rebaixar-nos em nós mesmos”. Citado em: STOTT, John. A Mensagem do Sermão do Monte. 3 ed. São Paulo: ABU Editora, 1985. p 30.

[10] PIPER, John. O Que Jesus Espera dos Seus Seguidores. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2008. p 138.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Lição 04 - Esmirna, a igreja confessante e mártir

Subsídio preparado pela equipe de educação da CPAD

INTRODUÇÃO
I. ESMIRNA, UMA IGREJA MÁRTIR
II. APRESENTAÇÃO DO MISSIVISTA
III. AS CONDIÇÕES DA IGREJA EM ESMIRNA
CONCLUSÃO

As Sinagogas de Satanás (2.9)

A expressão “sinagoga de Satanás” (2.9; 3.9) é intrigante. O livro de Apocalipse não é, em geral, anti-semítico; antes, pinta um quadro do reino de Deus onde se encontram judeus e gentios. Aqueles vinte e quatro anciãos, dispostos ao redor do trono (4.4,10; 11.16; 19.4), representam provavelmente doze anciãos da Igreja e doze anciãos de Israel [...].

A arquitetura da Nova Jerusalém também é muito significativa, pois tem doze portas onde estão escritos os nomes das tribos de Israel (21.12) e doze alicerces com os nomes dos doze apóstolos do Cordeiro (v.14). Tanto judeus como gentios adoram a Deus no céu (7.1-17). De fato, os 144.000 judeus foram escolhidos para receber privilégios especiais: serão os constantes companheiros do Cordeiro (14.1-5).

Por que, então, esse livro usa uma linguagem tão ríspida para descrever as sinagogas de Esmirna e Filadélfia? Embora não tenhamos certeza, sabemos, no entanto, que nos primeiros anos os processos legais dos romanos contra os cristãos eram muitas vezes iniciados pelos judeus. Se aqui o problema específico era a adoração ao imperador romano, sem dúvida os cristãos esperavam que a comunidade judaica os apoiasse. Seria possível que os judeus dessas duas cidades tivessem encontrado alguma razão técnica que permitisse que participassem dessa manifestação, enfraquecendo os cristãos em sua atitude de rejeição?

É de se notar que esses grupos de judeus haviam sido acusados apenas de caluniar (2.9) e mentir (3.9) a respeito das igrejas. Isso se torna bastante significativo quando analisamos a descrição dos 144.000 judeus justos: “E na sua boca não se achou engano” (14.5) e eles “não estão contaminados com mulheres” (v.4).

De certa forma, esses judeus são o oposto dos judeus de Esmirna e Filadélfia; será que essa afirmação está implicando que os membros dessas sinagogas também participavam da imoralidade sexual? Será que essa “contaminação” ocorre dentro de algum contexto ritualístico, talvez até na adoração ao imperador romano? Não existe, simplesmente, qualquer prova que nos permita fazer um julgamento a esse respeito.
Mas podemos estar certos de uma coisa: Deus não discrimina conforme a raça, o gênero ou a etnia (Jl 2.28,32; At 2.17,18,21; Gl 3.28). O autor do Apocalipse não condena os judeus de Esmirna e Filadélfia simplesmente por serem judeus, mas pelos seus atos imorais. Na verdade, as duas sinagogas parecem ter sido exceções, pois nenhuma das outras cinco cartas menciona esse problema.

Texto extraído do “Comentário Bíblico Pentecostal do Novo Testamento”, editado pela CPAD.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Vivendo em função do inimigo. Ou o “cristianismo cult” é mesmo maníaco!

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Para onde eu vou? Deixa eu ver o que o meu adversário pensa!

Infelizmente, o aborto de anencéfalos foi aprovado no Brasil. Nós, cristãos que somos, lamentamos mais uma vez esse descaso com a vida do feto, ou seja, a vida de um ser humano indefeso que será abortado por sua deficiência se assim os pais quiserem. Bom, muitos foram a favor do aborto, incluindo a maior parte da Suprema Corte, mas alguns foram por motivos um tanto malucos. E eu falo dos “cristãos cults”! 

Um teólogo (ou um sujeito metido a teólogo revolucionário) escreveu do Facebook com muito entusiasmo sobre a aprovação do aborto de anencéfalos. Mas a comemoração do sujeito não foi com argumentos morais, científicos ou legais que os defensores do aborto usaram, mas sim por pensar diferente do Silas Malafaia. Sim, ele ficou feliz com o fato de sempre andar na contramão de um pastor identificado como evangélico. Como é infantil o sujeito que vive em função do outro. Ele pensa assim: se o Malafaia é contra, logo sou a favor!

O que dizer de alguém que vive em função do inimigo? Ora, se o inimigo defende A, logo o outro defenderá B, mesmo que a tese A seja a correta. O que dizer dessa prática? Como podemos defini-la? Será infantilidade? Será excesso de soberba idiota ou mesmo a vã sensação de superioridade? Nada mais prejudicial para o debate inteligente do que aquele que vive em função do adversário intelectual.

Eu detesto o Triunfalismo e a Teologia da Prosperidade pregada pelo senhor Malafaia, mas nem por isso vou dizer que a sua opinião sobre o aborto é errada! Eu sei pensar com a minha própria cabeça. Eu não preciso saber o que o meu oponente teológico pensa para que eu formule o meu pensamento. Só por que o Malafaia é contra o aborto que eu serei a favor? Ora, ora, quem pensa assim precisa crescer, porque ainda não deveria ter saído das fraldas.

Não estou dizendo que todos aqueles que foram a favor do aborto de anencéfalos estavam motivados por um inimigo ideológico, teológico ou pessoal. Eu só usei o exemplo desse teólogo revolucionário para mostrar que muitos moderninhos por aí não pensam com a cabeça, mas sim com uma emoção infantil. Eu usei o exemplo do aborto, mas poderia ter usado muitos outros exemplos no debate teológico.

Adendo: Os "cults" odeiam os evangélicos, mas vivem do dinheiro deles!

Há muita coisa a lamentar no Movimento Evangélico Brasileiro, mas os cults acham que tudo está errado. O engraçado é que os mesmos vivem em função da comunidade evangélica. Onde o moderninho meia tijela vende os seus livros? Em livrarias evangélicas. Onde o moderninho cult prega suas mensagens iluministas? Em igrejas evangélicas. Onde o cult ensina? Em seminários evangélicos. E depois o mesmo cult diz que rompeu com o Movimento Evangélico. Vai entender! Rompeu com o Movimento, mas não com a grana? Que moral é essa, hein!?

quarta-feira, 18 de abril de 2012

É possível separar doutrina e conduta cristã?

A disciplina doutrinária é distinta da disciplina eclesiástica da seguinte forma: esta é consequência da sã doutrina, o que vale dizer, do uso correto do Evangelho, enquanto que aquela se dirige expressamente contra o abuso da doutrina. Por doutrina falsa se deteriora a fonte da vida da igreja e da disciplina eclesiástica. Por isso, pesa mais o pecado contra a doutrina que o pecado contra a disciplina cristã. Quem rouba da igreja o Evangelho merece condenação irrestrita; quem, porém, peca em sua conduta, para esse existe o Evangelho. Disciplina doutrinária refere-se, em primeiro lugar, aos ministros encarregados de ensinar o Evangelho na igreja. Condição prévia para tanto é que, para o exercício do ofício, haja o cuidado de que o responsável pelo ofício seja didaktikós, “apto para ensinar” (1Tm 3.2; 2Tm 2.24; Tt 1.9), “também idôneo para instruir a outros” (2Tm 2.2), que a ninguém se imponha as mãos precipitadamente, porque a culpa cairá sobre quem o ordenou (1Tm 5.22). A disciplina doutrinária, porém, não termina com a ordenação ao ministério, mas tem aí apenas o seu início. Mesmo o ministro aprovado - Timóteo - tem necessidade de ser continuamente admoestado a permanecer na reta e sã doutrina. O que se recomenda especialmente a ele é a leitura das Escrituras. O perigo de se desviar é demasiado grande (2Tm 3.10; 3.14; 4.2,15; 1Tm 4.13,16; Tt 1.9; 3.8). A isso deve se acrescentar à vida exemplar: “Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina” (1Tm 4.13ss; At 20.18). Ser admoestado à castidade, humildade, imparcialidade, dedicação não é vergonhoso para Timóteo. Assim, a disciplina em relação aos responsáveis pelo ofício precede toda disciplina em relação à igreja. É dever do ministro propagar, na igreja, a reta doutrina e combater qualquer perversão. Onde se instalam heresias evidentes, o ministro ordenará que "não ensinem outra doutrina" (1Tm 1.3), pois ele é portador do ministério da doutrina e tem direito de ordenar. Além disso, deverá evitar contendas de palavras (2Tm 2.14). Se for comprovada a heresia, admoeste-se o herege primeira e segunda vez; se não ouvir, rompa-se a comunhão com ele (Tt 3.10; 1Tm 6.4s.), pois ele seduz a igreja (2Tm 3.6s.). Quem não permanece na doutrina de Cristo, este tal não tem Deus.” A esse falso pregador negam, inclusive, a hospitalidade e a saudação fraternal (2Jo 9ss). No herege se nos depara o Anticristo. Não o pecador contra a disciplina da vida cristã, mas exclusivamente o herege é denominado Anticristo. O anátema de Gl 1.9 dirige-se exclusivamente contra o herege. A respeito da relação entre disciplina eclesiástica e disciplina doutrinária diga-se o seguinte: não há disciplina eclesiástica se não houver disciplina doutrinária. Não há, todavia, disciplina doutrinária que não leve à disciplina eclesiástica. O apóstolo Paulo acusa os cristãos coríntios de provocarem cismas em sua soberba, sem exercerem disciplina eclesiástica (1Co 5.2). Essa separação de doutrina e conduta cristã é impossível (Dietrich Bonhoeffer, Discipulado, p. 193-194, nota 20).

By Jonas Madureira 

domingo, 15 de abril de 2012

A mania da “autoafirmação calvinista”

Tanta briga por uma questão capilar?
Por Gutierres Fernandes Siqueira

Há alguns dias eu estava conversando com um amigo de confissão reformada sobre a chata mania de "autoafirmação constante" dos calvinistas. Sem querer generalizar, mas há teólogo calvinista que não deixa você esquecer por um minuto que ele abraça as ideias de Calvino e sempre este está enfatizando a genialidade de sua crença.

Já escrevi vários textos mostrando a minha simpatia pelo calvinismo e algumas de suas ideias. Gosto especialmente da tradição calvinista holandesa (neocalvinismo), mas não sou calvinista, logo porque não compactuo com os cinco pontos da TULIP. Dos textos teológicos é certo que mais de 60% daquilo que leio foi escrito por um autor reformado. Mas, apesar da simpatia, me irrita profundamente essa mania de autoafirmação. Irrita-me esse prazer de lembrar constantemente que o calvinista alcançou a iluminação. É difícil ver um arminiamo com a mesma tendência arrogante.

Conversar com um calvinista autoafirmativo é conversar com alguém que citará mil confissões escritas há três séculos e dois mil autores reformados a cada instante. Alguns dizem, em uma autoconfiança extrema, que calvinismo é apenas um nome diferente para "cristianismo verdadeiro". Ora, ora, não é muita petulância afirmar tal coisa?

Eu sei que Charles Finney era um pelagiano radical e um pregador emocionalista, mas ele acertou em cheio quando acusou alguns de seus pares presbiterianos de considerarem a Confissão de Fé de Westminster um verdadeiro “papa de papel”. O protestante deve crer na infalibilidade bíblica e não na infalibilidade de um sistema de crenças (calvinismo, pentecostalismo, metodismo, arminianismo, dispensacionalismo, amilenismo e outros ismos).

Outra mania é sempre lamentar que os seus pares não sejam calvinistas, mesmo que esses sejam brilhantes teólogos e referências no mundo acadêmico. A lamentação parece dizer que esse teólogo só seria pleno se fosse calvinista.

Só abrindo um parêntese: É engraçado que essa praga da "autoafirmação constante" também contamina muitos pentecostais que dizem pregar o Evangelho Pleno. E quem não é pentecostal não pregaria o evangelho plenamente? Ou voltando para o foco do texto: quem não é calvinista não pode ser um teólogo de mão cheia ou uma referência para a cristandade?   

Não quero dizer com isso que devemos ser “agnósticos teológicos”, ou seja, desprovidos de qualquer escola doutrinária com medo de sua falibilidade. E nem quero dizer que nunca devemos defender o nosso sistema de crenças. Mas é bom lembrar que qualquer exagero é prejudicial. Afirmar 24 horas que é calvinista e que o calvinismo é o melhor dos melhores é uma mania deplorável.

Éfeso, a Igreja do Amor Esquecido (Esboço)

Esboço para a Escola Bíblica Dominical da Igreja Evangélica Assembleia de Deus no Jardim das Pedras (São Paulo, SP).


Éfeso, a Igreja do Amor Esquecido

Cidade de Éfeso- Cidade portuária. O maior porto de toda a Ásia ficava nessa cidade. Éfeso também era um centro religioso onde se adorava a Deusa-Mãe conhecida como Artemis (para os gregos) e Diana (para os romanos). No templo da Deusa-Mãe se adorava o imperador de Roma.
Igreja em Éfeso- Fundada provavelmente por Áquila e Priscila que eram oriundos de Corinto (Atos 18.18). O apóstolo Paulo trabalhou nessa igreja por três anos (Atos 20.31). Timóteo também foi pastor de Éfeso (1 Timóteo 1.3) e, de acordo com a tradição, a apóstolo João continuou o trabalho de Paulo em Éfeso.


O que aprendemos com os efésios?
1. É possível deixar o primeiro amor, ou seja, a alegria pela salvação (Salmo 51.12) e ainda assim viver como se fosse um “cristão abençoado”. A Igreja em Éfeso era a igreja dos sonhos onde a ordem ortodoxa e as boas obras imperavam entre um povo paciente e treinado, mas Cristo acusa: “você abandonou o seu primeiro amor”. [Apocalipse 2.4 NVI]
2. É possível praticar boas obras, ou seja, ser um “cristão militante” e ainda assim perder o amor ao Senhor. O próprio Cristo fala: “Conheço as suas obras, o seu trabalho árduo e a sua perseverança” [Apocalipse 2.2 NVI]. Paulo aos coríntios: “Ainda que eu dê aos pobres tudo o que possuo e entregue o meu corpo para ser queimado, mas não tiver amor, nada disso me valerá”. [1 Coríntios 13.3 NVI]
3. É possível defender a doutrina correta e deixar o amor ao Senhor. Cristo releva que os efésios eram bons ortodoxos: “Sei que você não pode tolerar homens maus, que pôs à prova os que dizem ser apóstolos mas não são, e descobriu que eles eram impostores” [Apocalipse 2.2 NVI]. É o nosso dever defender e proclamar a “sã doutrina”, mas a vida cristã não se resume a um credo correto. Além da crença em Cristo, também precisamos viver para Ele.
4. É possível sofrer pela causa cristã e ainda assim deixar o amor ao Senhor. Cristo fala aos efésios: “Você tem perseverado e suportado sofrimentos por causa do meu nome, e não tem desfalecido”. [Apocalipse 2. 3 NVI].
5. O caminho do arrependimento é o reconhecimento da queda. E o arrependimento em si é a volta ao estado original. Cristo adverte: “Lembre-se de onde caiu! Arrependa-se e pratique as obras que praticava no princípio” [Apocalipse 2.5]
6. Negligenciar o arrependimento é desprezar a ligação e o cuidado do Senhor por sua igreja. Cristo adverte: “Se não se arrepender, virei a você e tirarei o seu candelabro do seu lugar”. [Apocalipse 2.5]
7. Jesus não requer mais e mais “ativismo cristão”, mas sim a prática das boas obras banhada pela amor. Eu posso orar mais, doar mais, cantar mais e viver de ativismo em ativismo, mas tudo será vão se eu o fizer pela tradição ou inércia de uma vida cristã já envelhecida pelo tempo. É necessário agir com obras, mas motivado pelo amor ao Senhor.
8. É possível esfriar o por aquilo que é bom e ainda assim manter o ódio pelo que é mal. Os efésios odiavam as “obras dos nicolaítas” e o Senhor Jesus também. Voltar o primeiro amor não anula o zelo pela doutrina. Sim, é possível esfriar o amor pelo Senhor e ainda manter o ódio pelo pecado e pela heresia.
9. Um passado glorioso não é garantia de um futuro brilhante. Uma igreja não pode viver de seu passado cheio de milagres, líderes devotos e ações extraordinárias. É importante destacar o presente, pois é preciso saber que o amor ao Senhor permanece hoje. É possível começar bem e acabar mal.




Doutrina e Prática

O problema chave da Igreja em Éfeso: Uma igreja sadia na doutrina e no zelo das obras, mas que deixou o amor esfriar. Uma igreja com doutrina correta (ortodoxia) e prática correta (ortopraxia). O grande problema dos efésios era a motivação dessa doutrina e práticas exemplares. Os efésios perderam o foco em Cristo e deixaram que o passar do tempo fizesse sua relação com o Senhor como algo protocolar. Eram bons de Bíblia e de boas ações, mas não eram apaixonados pelo Senhor que os resgatou. 



ORTODOXIA. Do gr. orthodoxos. Qualidade de uma declaração doutrinário que se acha de acordo com o ensino no Antigo e no Novo Testamentos. Ortodoxia é, também, o conjunto de doutrinas provindas da Bíblia, e tidas como verdadeiras de conformidade com os credos, concílios e convenções da Igreja. ORTOPRAXIA. Do gr. orthopraxia. É o exercício prática, a partir de uma profunda reflexão teórica. É a ação feita após a apreensão de um conceito. No caso da fé cristã, é a ação executada segundo a doutrina bíblica (ou Ortodoxia) ensinada por Jesus de Nazaré.
Texto adaptado: ANDRADE, Claudionor Corrêa de. Dicionário Teológico. 16 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006.





Outros pontos importantes
Atenção! 1) Voltar ao “primeiro amor” não significa se perder em um ativismo militante ou em um resgate de leis e mais leis para cumprir. 2) E nem é voltar-se contra o ensinamento doutrinário ensinando que é mais importante “seguir os passos de Jesus” do que crer em uma mensagem, como dizia equivocadamente o liberal Adolf Harnack: “A verdadeira fé em Jesus não é uma questão de ortodoxia de credo, mas de fazer o que ele fez”. Ora, o “evangelho” de Harnack é pesado demais, pois quem poderá imitar Cristo em essência? É puro moralismo que ensina salvação por obras. Ele diz que crer não é importante, mas sim “imitar Cristo”.Ora, eu devo imitar Cristo para ser cristão ou por que, pela graça divina, Deus me fez cristão? Nesse pensamento de Harnack eu posso crer no meu cachorro como o meu deus-salvador, mas se eu fizer “as obras de Jesus” serei o verdadeiro cristão. Ora, crer que em qualquer “Jesus” não faz diferença na maneira como vou segui-lo? 3) É fato que antes de agir (ortopraxia) é necessário crer (ortodoxia) e não o contrário. A mensagem sempre vem antes do arrependimento. O problema dos efésios não era o agir (ortopraxia) e nem a doutrina (ortodoxia), mas sim a motivação desse agir. 4) Para o cristão não deve existir ortopraxia sem ortodoxia e nem ortodoxia sem ortopraxia. 5) E é bom lembrar que a ortodoxia não salva ninguém e o mesmo é verdade sobre a ortopraxia. A salvação vem pela fé em Cristo. Eu creio e pratico por que O amo?


É importante enfatizar. Os efésios eram bons de doutrina e boas obras. Eles não se cansavam de trabalhar na causa cristã (cf. v. 3). E olha que o trabalho era árduo. Seria um equívoco achar que eles eram somente ortodoxos, sem práxis correta. Não e não, pois os efésios tinham os dois. O problema que tudo isso era desprovido do amor pelo Senhor. Tudo isso era desprovido de graça.

Ensinar prática cristã desprovido de graça é moralismo vazio:


MoralismoO Evangelho
Deus como treinador de vidaDeus como Juiz e Justificador
Bom conselho (fazendo)Boas-novas (feito)
Cristo como exemploCristo como Salvador
A Bíblia como manual de instruçãoA Bíblia como mistério de Cristo sendo revelado
Sacramentos como meios de compromissoSacramentos como meios da graça
A igreja como recurso de autoajuda (foco no nosso serviço/ministério do homem)A igreja como embaixada da graça (foco no serviço/ ministério de Deus)
Nós subimos até DeusDeus desce até nós
Nós enviamos a nós mesmosDeus nos envia

(HORTON, Michael. Cristianismo sem Cristo: O Evangelho Alternativo da Igreja Atual. 1 ed. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2010. p. 158.)

Ensinar doutrina cristã desprovida de graça é intelectualismo vazio. 


Doutrina sem graçaDoutrina com graça
Eu sei, logo sou salvo.Eu creio, logo Cristo me salvou.
Eu aprendi, logo sou salvo.Eu aprendi que Cristo fez por mim.
AutosuficiênciaDependência
ArrogânciaHumildade
Acúmulo de informaçãoSabedoria