segunda-feira, 30 de julho de 2012

O templo não deve ser um comitê eleitoral!

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Ilegal, imoral, indigno e irresponsável o pastor que torna o templo de sua congregação um comitê eleitoral. Logo ele, que deveria ser irrepreensível (1Tm 3.2).

Na edição de sexta do jornal carioca O Globo [leia aqui] ficamos sabendo de vários templos evangélicos que hoje servem como plataformas físicas de um candidato. O aspirante a político nem precisa alugar um salão, pois basta se associar a uma igreja dita evangélica.

Nós, protestantes que somos, não cremos na sacralidade do templo, mas sabemos que um espaço designado para atividades eclesiásticas não deve servir de interesse próprio. O templo é um espaço comunitário sustentado por vários indivíduos. Não deve ter dono, pois a todos pertence. Não é uma propriedade particular. O pastor que confunde o templo com um feudo em nada difere da classe podre que infesta os três poderes da República.

Isso tudo é o pecado social e moral do patrimonialismo. É a confusão leviana entre o que é público e o que é privado. Portanto, o patrimonialismo é apenas um eufemismo para designar o roubo que um poderoso faz sob a organização que preside. Ou, por acaso, você oferta na sua igreja para que essa sirva de espaço comissional de um candidato?

Maldita é a igreja que está mergulhada nos piores traços culturais de seu povo. Portanto, maldita é a assembleia que serve como espaço para salteadores, ops, vereadores que aparecem de tempos em tempos e cede o seu espaço para a montagem de um comitê.

O chicote de Jesus faz falta! 
No pátio do templo viu alguns vendendo bois, ovelhas e pombas, e outros assentados diante de mesas, trocando dinheiro. Então ele fez um chicote de cordas e expulsou todos do templo, bem como as ovelhas e os bois; espalhou as moedas dos cambistas e virou as suas mesas. Aos que vendiam pombas Jesus disse: 'Tirem estas coisas daqui! Parem de fazer da casa de meu Pai um mercado!'" [João 2. 14-16 NVI].
Ou atualizando: "Parem de fazer da casa de meu Pai um comitê eleitoral!"

sábado, 28 de julho de 2012

Pentecostais com Calvinistas. Motivo de preocupação?

Caros pentecostais, sejamos humildes, pois podemos
aprender de Cristo com esse senhor austero!
Por Gutierres Fernandes Siqueira

Alguns pentecostais andam preocupados com o movimento crescente de aproximação do pentecostalismo com o calvinismo. Na minha opinião, essa inquietação é totalmente desnecessária. E, neste artigo, quero apresentar que, ao contrário, esse diálogo entre as duas correntes é saudável e encorajador, pois torna as duas tradições mais ricas teologicamente.

Não escrevo isso em causa própria, pois não sou calvinista. Aliás, tenho sérias dificuldades com o calvinismo, pois creio na possibilidade da apostasia, no livre-arbítrio e na resistência de alguns à graça de Deus. Não tenho tempo neste post para afirmar as minhas posições contrárias ao calvinismo, mas ainda assim sou um ávido leitor de Teologia Reformada mesmo não sendo um adepto dessa teologia.

Hoje sou adepto da Teologia da Antinomia, ou seja, creio que duas posições aparentemente excludentes são compatíveis. Como assim? Ora, isso porque são questões que estão além do nosso alcance racional. Nesse sentido, creio que Deus é plenamente Soberano e que o homem é, ao mesmo tempo, plenamente livre. Creio que Deus predestinou e elegeu, mas que ainda assim somos agentes livres. Sim, seria um híbrido de calvinismo e arminianismo ou algo assim...

Leia atentamente 2 Pedro 1.3-9 e veja expressões como que Deus é aquele que “deu tudo de que necessitamos para a vida e para a piedade” (calvinismo), mas exorta-nos assim: “empenhe-se para acrescentar à sua fé a virtude...” (arminianismo). Diante de um texto como Filipenses 2.12-13 eu tenho dificuldades de ser um calvinista ou arminiano militante. Diz Paulo: “Assim, meus amados, como sempre vocês obedeceram, não apenas em minha presença, porém muito mais agora na minha ausência, ponham em ação a salvação de vocês com temor e tremor, (arminianismo) pois é Deus quem efetua em vocês tanto o querer quanto o realizar, de acordo com a boa vontade dele (calvinismo)”. O que Paulo diz parece contraditório, mas é apenas a antinomia bíblica.

C. S. Lewis, comentando esse texto, afirmou:
Talvez sejam apenas nossos pressupostos que tornem esse raciocínio paradoxal. Em nosso secularismo, partimos do princípio de que a ação divina e a humana são mutuamente excludentes, tal como as ações de criaturas da mesma espécie, de modo que “Deus fez isto” e “eu fiz aquilo” não podem ambas verdades do mesmo ato, exceto no sentido de que cada um teve sua participação. [1]
Por que dialogo com os calvinistas mesmo não sendo um deles?

Já afirmei algumas vezes que abraço com entusiasmo o neocalvinismo na sua interpretação e no exercício comunicacional do Evangelho. Os pastores reformados como Timothy Keller e Mark Driscoll, por exemplo, representam bem o que quero dizer com a “comunicação neocalvinista”. Esse novo calvinismo procura entender bem a cultura contemporânea ao mesmo tempo que apresenta o bom e velho Evangelho do Nosso Senhor Jesus Cristo. Admiro bastante essa transição entre a comunicação com a cultura sem renunciar aos valores das Boas Novas. Não é à toa que o neocalvinismo crença com força entre os jovens enquanto os “emergentes da vanguarda” fazem sucesso entre senhores de meia-idade.

Os neocalvinistas fazem o mesmo papel de evangelismo cultural que os anglicanos evangelicais faziam décadas passadas. Assim como os teólogos da Igreja da Inglaterra, esses novos reformados aprofundam o conhecimento cultural e, ao mesmo tempo, oferecem respostas bíblicas sem o simplismo maniqueísta do fundamentalismo protestante. Além disso, sabem bem que as gerações mudam e não se fecham em guetos ultraconservadores contra mudanças inevitáveis. Eles também entendem que o cristianismo precisa viver a tensão equilibrada da tradição com as mudanças que o tempo impõe.

Outro ponto que abraço da Teologia Reformada é a conceituação de santificação. A santificação wesleyana/arminiana/ pentecostal e suas manifestações populares tendem a nos levar a um esforço moralista como apêndice da salvação ou coloca-nos (nosso esforço) como a própria essência da salvação. Não estou acusando o arminianismo de pelagianismo, pois isso seria um baita exagero, mas existe uma tendência ao moralismo como centro salvífico. O calvinismo sempre condenou essa tendência.

O debate sobre a santificação é sutil e aparenta ser um consenso na teologia cristã, mas há diferenças conceituais importantes [2]. Mas os reformados nos alertam sobre o grande perigo do Evangelho Moralista. É um alerta quase ausente nas demais tradições cristãs, especialmente no pentecostalismo e no catolicismo popular. O Evangelho Moralista é basicamente a crença, mesmo que subconsciente, que eu preciso fazer para ser. Nisso, um legalista pentecostal une-se a um liberal bultmanniano, pois enquanto o primeiro confunde santificação com um esforço no campo sexual, por exemplo, o segundo confunde salvação com ativismo social. Ao mesmo tempo sabemos que o remédio ao Evangelho Moralista não é a ausência de leis (antinomismo), mas saber que quem opera a santificação é a ação da graça de Deus por intermédio do Espírito Santo.

Neste semana, por exemplo, eu li um texto que me deixou espantado. Um pastor pentecostal rejeitava com veemência a doutrina do pecado original e se posicionava como um pelagiano. Ele até chamou Agostinho de herege. E quando lia o artigo eu lembrei do que G. K. Chesterton escreveu: "Certos novos teólogos questionam o pecado original, que constitui a única parte da teologia cristã que pode realmente ser provada" [3]. E é até espantoso que tal concepção não cause escândalo no nosso meio. E aí o calvinismo poderia nos ajudar. Nesse momento precisamos mergulhar em mais doutrinas da graça.

Conclusão

Portanto, conversar com autores reformados só me faz bem. Isso não me tornou um calvinista, mas se assim tivesse acontecido isso não teria sido um problema. Conversar com calvinistas ajudou-me a ver a conexão saudável entre a cultura e o Evangelho. Conversar com calvinistas ajudou-me a rejeitar o moralismo como Evangelho. Conversar com calvinistas ajudou-me a considerar suas críticas a um Evangelho que se resume a um ativismo social ou uma busca pelo perfeccionismo inexistente ou uma terapia de autoajuda.

É um perigo a conexão de pentecostais com calvinistas? Não! E eu desejo que os pentecostais também dialoguem e aprendam com outras escolas: os Pais da Igreja, a Teologia Medieval, a Reforma Protestante, o Calvinismo, o Arminianismo, o Puritanismo, o Movimento de Avivamento, o Movimento de Santidade, o Wesleyanismo, o Evangelicalismo, o Anglicanismo, o Novo Calvinismo, a Erudição Católica etc. E, é claro, quero que as demais tradições cristãs também aprendam conosco.

Referências Bibliográficas:



[1] LEWIS, C. S. Oração: Cartas a Malcolm: Reflexões sobre o diálogo íntimo entre homem e Deus. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2009. p 66.

[2] Para esse debate sobre perspectivas diferentes a respeito da santificação, leia: GUNDRY, Stanley (ed.) Cinco Perspectivas sobre a Santificação. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2006.

[3] CHESTERTON, Gilbert K. Ortodoxia. 1 ed. São Paulo: Editora Mundo Cristão, 2008. p 27.

Leia Mais:

O que me atrai no calvinismo...

O que me atrai no calvinismo (parte 2)...

A mania da “autoafirmação calvinista”

Sou arminiano ou calvinista? Eis a questão!

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Lição 05 -As aflições da viuvez

Subsídio preparado pela equipe de educação da CPAD

A RELIGIÃO PURA E IMACULADA

Por Timothy B. Cargal


Fazendo eco com seu conselho anterior de ser “tardio no falar” (1.19), e antecipando discussões mais detalhadas do discurso humano que aparecerão posteriormente (3.2-12; 4.11-16), Tiago revela, nesse ponto, que um dos sinais para se saber se o comportamento religioso de alguém é ou não agradável a Deus, é a capacidade de “manter a língua sob rédeas curtas”.

Nesse conselho ele inclui a proibição contra discursos vulgares ou mal intencionados, porém os dois exemplos de discurso impróprio, colocados imediatamente após essa declaração, ilustram outras ofensas da linguagem humana que devem ser refreadas pelos cristãos.

1) Os crentes devem estar seguros de que suas palavras e suas ações sejam consistentes umas com as outras. Tiago ilustra esse problema, ao lembrar a seus leitores que já ofenderam a honra das pessoas que estão a seu lado, e que também acreditam que Deus está especialmente preocupado com o uso de uma linguagem que mostre favoritismo dentro da comunidade da fé, o que destrói a unidade da vontade de Deus (2.1-5).

2) O discurso humano tanto pode ser usado como sinal dos cuidados de uma piedade religiosa como serve até de pretexto para a falta da prática daqueles atos que Deus poderia desejar (2.15,16 e comentários). Assim, os crentes deveriam falar apenas daquilo que estão desejosos de colocar em prática: devem “praticar o que pregam”, e não cair em “vazios religiosos”. Uma pessoa que não controla sua língua, seu modo de falar, engana a si próprio, e sua religião não serve para nada, é vã (v.26).

Ainda no tema do discurso, Tiago enfatiza a necessidade de nos lembrarmos que não existem somente pecados de comissão (isto é, ações más associadas a coisas impuras – “mantenha-se longe da contaminação do mundo”), mas também pecados de omissão (isto é, a omissão de fazer as coisas que Deus deseja que sejam feitas em seu nome – “visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações”, v.27; cf. Mt 25.37-49). Aos olhos de Deus, uma religião pura e imaculada tem tanto a ver com o que fazemos como com o que deixamos de fazer. Em parte por ter suas raízes nos movimentos de renovação da santidade, e em parte por causa de sua rejeição ao “movimento do evangelho social” do início do século vinte, os pentecostais foram rápidos em realçar a santidade das pessoas e lentos ao se pronunciar a respeito da responsabilidade social. Tiago nos lembra que isso não é uma questão de “fazer isto ou aquilo” mas de fazer “tanto isto como aquilo”.

Texto extraído do “Comentário Bíblico Pentecostal Novo Testamento”, editado pela CPAD.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

O farisaísmo moderno

Por Gutierres Fernandes Siqueira

O tempo passa, mas a essência farisaica continua.

No púlpito de uma grande igreja paulistana eu ouvi duas coisas que expressam a essência do farisaísmo moderno. Certa vez estavam condenando a aclamação com palmas durante o louvor. Informaram para a igreja que tal prática não se "presta aos nossos costumes". Aliás, ao nosso "sacrossanto costume"! Mas, no último sábado, estavam usando o mesmo púlpito para uma propaganda política entusiasmada. 

Em que o culto ao Senhor pode ser atrapalhado com a aclamação produzida pelas palmas? Bom, o "puritanismo penteca legalista de meia-tigela" acha um grave desvio, mas não vê problemas no uso do culto a Deus para promover um candidato que seja ligado à família eclesiástica. É o farisaísmo moderno, mas com a arcaica essência que "coa o mosquito, mas engole o camelo".

Bater palmas? Não pode! Distribuir "santinhos" em louvor a um candidato simplesmente pode! O culto a Deus pode ser interrompido para a promoção de um nome político? Ora, por que vamos apoiar o "candidato da nossa igreja"? Ora, mas quem o elegeu representante da nossa igreja? Onde teve o concílio para tal decisão? Ou será que foi mera escolha de um cacique político-eclesiástico? E o que tudo isso tem com o Reino de Deus?

domingo, 22 de julho de 2012

O cristianismo "cult" pode ser salvo?

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Em um artigo no jornal americano The New York Times o jornalista Ross Douthat escreveu sobre a queda da membresia em igrejas que adotaram a chamada "Teologia Liberal", ou seja, aquela teologia que nega as principais doutrinas do cristianismo histórico e que adota uma postura política "progressista" como, por exemplo, a defesa do casamento gay, o aborto etc. Além disso, negam a historicidade das Sagradas Escrituras, a divindade de Cristo, a necessidade de salvação no sentido transcendental etc. O texto foi publicado há uma semana no periódico norte-americano.

Antes, só podemos concluir que a Teologia Liberal nada constrói, mas vive de sugar aquilo que uma denominação demorou anos para levantar. E, também, podemos dizer que a Teologia Liberal sempre diz "romper com o cristianismo", mas nunca larga o osso da estrutura eclesiástica da cristandade. E uma igreja que adota tal teologia o que pode oferecer além do que uma ONG (Organização Não-Governamental) já oferece?

Leia a matéria abaixo.

Can Liberal Christianity Be Saved?

T.J. Kirkpatrick/Getty Images

sábado, 21 de julho de 2012

Lição 4 - Superando os traumas da violência social

Eu já escrevi três textos sobre o tema: 

A vergonhosa violência no Brasil (leia aqui)

Violência familiar e a Igreja Cristã (leia aqui)

A nossa “sensação de insegurança” reflete a realidade? (leia aqui)

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Subsídio abaixo preparado pela equipe de educação da CPAD.


Por Stephen Seamands

Não sonhe um suspiro dar
Onde o criador não está.
Mesmo deitar uma lágrima,
Se o criador não se aproxima.
Ele nos concede sua graça
E a aflição, talvez, destrói;
Até a dor ser expulsa e finda
Ele chora entre nós ainda.
[Willian Blake]

O filme Forrest Gump contém uma cena animadora, em que Jenny, de cinco anos, amiga de Forrest, ora depois que os dois correm fugindo do pai dela que está bêbado: “Querido Deus, transforme-me em um passarinho, assim posso voar para longe, muito longe daqui”.

O pai abusou sexualmente dela, e, apesar de ele ser preso no dia seguinte e Jenny viver sua vida, a sua luta para superar o que ele fizera apenas começara. Na realidade, ela gasta o resto de sua vida tentando se recuperar deste dano.

Anos mais tarde Jenny retorna à pequena cidade em que cresceu para visitar Forrest. Os dois, agora adultos, na casa dos trinta anos, estão caminhando perto da pequena cabana em que ela vivera antes. Quando ela fixa seus olhos na cabana, dolorosas lembranças do abuso, as quais estavam submersas, varrem sua mente. 
 
Ela rompe em lágrimas e extravasa sua mágoa e raiva juntando as pedras a sua volta e atirando-as o mais forte possível contra a cabana. Quando não havia mais pedras, ela tirou os sapatos e também os atirou. Por fim, ela cai aos prantos no chão. 

Quando Forrest reflete sobre a cena, ele apenas afirma: “Às vezes, acho que simplesmente não há pedras suficientes”. 

Quando pensa sobre a mágoa e a dor em sua vida, você acha que se afina com o que Forrest disse? Talvez você tenha sofrido abuso verbal, psicológico ou sexual, sentiu a dor dilacerante de um divórcio, cresceu em uma família caótica com um dos pais alcoólicos ou perdeu um ente querido em um acidente sem sentido. Talvez você tenha feridas profundas de um relacionamento ou sinta a dolorosa solidão do abandono. Você nasceu com alguma deficiência física ou foi ridicularizado quando criança pelos irmãos ou outras crianças? Você foi tratado de maneira desleal no trabalho ou foi traído pelas pessoas de sua igreja? 

A dor e raiva profundamente enraizadas, como no caso de Jenny, ainda pode aflorar em seu coração. Às vezes, você ainda pode sacudir os punhos cerrados em direção ao céu e, internamente, com voz feroz clamar: Deus, não é justo! Isso não está certo. O que fiz para merecer isso? Concordamos com Forrest Gump: “Às vezes, acho que simplesmente não há pedras suficientes”.

“VENHA À CRUZ

Ao longo dos anos, quando pessoas feridas e alquebradas partilharam suas histórias doídas e dolorosas comigo, a voz interior do Espírito Santo inspirou-me a fazer um convite especial para eles: “Venha comigo. Venha comigo ao Calvário. Venha ficar ao pé da cruz de Jesus. Observe atentamente a figura retorcida e torturada que ali está pendurada. Observe o Filho de Deus alquebrado e ensanguentado. Pense sobre suas mágoas e feridas considerando as dEle”.

[...] A cruz não ilumina apenas nossas feridas, ela também as cura e as transforma conforme expressado em At the Cross “Na Cruz”, bonito louvor composto por Randy e Terry Butler:

Conheço um lugar maravilhosoOnde acusados e condenadosEncontram misericórdia e graçaOnde nossos errosE os erros cometidos contra nósSão pregados com Ele 
Lá na cruz
Na cruz (na cruz)Ele morreu por nosso pecadoNa cruz (na cruz)Ele nos deu nova vida de novo

Que maravilhosa verdade! A cruz é “um lugar maravilhoso” em que há “misericórdia e graça” para os que foram “acusados e condenados” e profundamente feridos. Que cura graciosa e poderosa há nas mãos dEle, marcadas pelos pregos! Na cruz, Ele ministra a cura para nossas feridas".

Texto extraído da obra Feridas que Curam: Levando Nossos Sofrimentos à Cruz, editada pela CPAD.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Encontro Apologético!

Palestra: A Música Evangélica e o Triunfalismo

Nas últimas decadas a igreja evangélica brasileira tem sido marcada por várias crises, venha saber mais sobre esse assunto!

Preletor: Paulo Romeiro
Data: 20/07 as 19h30
No auditório Igreja Cristã da Trindade
Av. Jabaquara 2461 - Ao lado do metrô São Judas.

terça-feira, 17 de julho de 2012

A Marcha é para Jesus?

Os supostos milhões e a mania de grandeza!
Por Gutierres Fernandes Siqueira

A pergunta acima é chata e até meio batida. Mas, infelizmente, sempre é necessário perguntar diante de um evento evangélico: isso é mesmo para Jesus? O fim de tal compromisso é a Glória do Senhor ou a promoção de um nome qualquer? A pergunta nasce, pois um dos grandes pecados da Igreja Evangélica Brasileira é a vaidade.

Nesta semana esperei horas no estacionamento do hospital o meu pai sair do pronto-socorro, pois era permitido apenas um acompanhante. Enquanto ele fazia exames, eu ouvia rádio evangélica. Meu Deus, mas que experiência terrível! O meu pai saiu com perspectiva da cura e eu saí doente. Ao ouvir o rádio eu escutava musiquinhas com dizeres: "O pastor Fulano de Tal é ungido pelo Espírito Santo", "o pastor Fulano é um grande homem de Deus", "o pastor Tal abala o inferno", "eu recebi a cura nesta igreja santa"... E eu fiquei abalado com tanta modéstia. Mas não podemos falar de modéstia sem mencionar a Marcha dos seis milhões.

E a Marcha pra Jesus? Ou seria a Marcha para os Hernandes? Ou o festival da promoção do ego de alguns líderes? Eu fui na Marcha em 2007. Sim, era divertido. Houve um lado lúdico. Mas também era um circo de horrores. Muitos estavam interessados em mostrar a "força dos evangélicos para a Rede Globo" diante das denúncias que a Revista Época, anos antes, tinha publicado sobre o casal. Na época ambos estavam presos na Flórida por tentarem enganar a alfândega norte-americana com uma falsa declaração de dinheiro em espécie.

Eles, coitados, eram vítimas de uma conspiração das Organizações Globo, das autoridades americanas e do Ministério Público. Um pastor "infeliciano" chegou a declarar que o lindo casal de Deus estava perseguido pela pregação do Evangelho. Era de doer tanta bobagem dita em apologia ao casal Hernandes.

Na época eu conheci dois membros da Renascer. Eram ótimas pessoas, mas desprovidas de qualquer conhecimento básico do Evangelho. Em compensação, eram ótimos e preparados defensores do casal. Não eram coitadinhos, pois sabiam articular boas apologias. Mas um deles, por exemplo, acreditava que a Igreja Católica tinha matado Jesus! Quando a tese dele foi contestada ele perguntou: - Mas não foram os romanos?

Voltando a modéstia encontramos os organizadores da Marcha dizendo que a edição 2012 reuniu seis milhões. Será que metade da cidade de São Paulo estava lá? Com os dados científicos do Instituto Datafolha descobrimos que a Marcha reuniu um pouco mais de 335 mil pessoas.

Mas sejamos justos, pois a megalomania não é exclusividade do "apóstolo" da Renascer. A Parada Gay de três milhões de pessoas não passou de 270 mil, segundo o mesmo Datafolha. Militantes costumam ser exagerados, fundamentalistas e, não raro, se julgam o centro do mundo. E, também, por que a prefeitura de São Paulo mantém a Parada Gay na Avenida Paulista? Se você não conhece São Paulo, a Avenida Paulista é uma importante ligação para cinco grandes hospitais, entre eles o Hospital das Clínicas.

Portanto, falar em seis milhões quando o público não chegou em 400 mil pessoas é somente uma pequena amostra da vaidade pura e simples. Isso nada tem com a glória de Deus.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

O luto e a morte

Por Gutierres Fernandes Siqueira

A morte é assustadora, dolorosa, difícil e extremamente desagradável. Não negue isso. Não finja elevada superação triunfalista. Há quem tente minimizar a dor da morte, mas certamente quem assim o faz não logrará sucesso. Ora, diante da morte até Jesus Cristo, o Deus-Homem, suou sangue. Esse suor era um efeito do estresse elevadíssimo nas últimas horas de sua vida. Vamos dizer que não tememos algo para o qual não fomos preparados? Só cinicamente poderíamos fazê-lo. O escritor C. S. Lewis expressou diante do luto as palavras a seguir: “É difícil ter paciência com pessoas que dizem: ‘A morte não existe’, ou ‘A morte não importa’. A morte existe e, seja lá o que for, ela importa. Tudo o que acontece traz consequências, e tanto a morte quanto as consequências são irrevogáveis e irreversíveis” [1]. Ora, dizer o lugar comum que “crente não morre” não alivia a dor diante desse processo inevitável.

Cuidado com os “consolos” recheados de clichês e piedade barata, pois, muitas vezes, é melhor ficar calado do que tentar oferecer um conforto com palavras vazias. O momento do luto é um momento de poucas palavras. Os amigos de Jó falharam barbaramente nisso, pois ficaram calados por apenas uma semana: “Depois se assentaram no chão com ele, durante sete dias e sete noites. Ninguém lhe disse uma palavra, pois viam como era grande o seu sofrimento” [Jó 2.13]. E, quando abriram a boca, soltaram todos os discursos fáceis da Teologia Retribuitiva, mas o próprio Deus condenou todo o palavreado desses amigos. O Senhor foi enfático na reprimenda aos consoladores: “Vocês não falaram o que é certo a meu respeito, como fez meu servo Jó” [Jó 42.8]

O luto tem estágios e precisamos entender isso. A psiquiatria moderna desenvolveu o Modelo de Kübler-Ross, ou seja, nessa teoria o luto tem pelo menos cinco estágios, a saber: a negação, a raiva, a negociação, a depressão e a aceitação. Nem todos passam pelos cinco ciclos e nem necessariamente nessa ordem, mas os sentimentos descritos nesse modelo refletem a realidade do enlutado. O irlandês C. S. Lewis, por exemplo, escreveu o livro A Anatomia de uma Dor onde vemos claramente essas fases no decorrer dos capítulos. Conhecemos um Lewis revoltado no luto diante da morte de sua amada, mas que depois ele expressa aceitação. Exemplo disso é a linda mensagem sobre o silêncio de Deus diante da tragédia. Lewis, no início do livro, escreve em forma de desabafo:

Mas, volte-se para Ele (Deus), quando estiver em grande necessidade, quando toda outra forma de amparo for inútil, e o que você encontrará? Uma porta fechada na sua cara, ao som do ferrolho sendo passado duas vezes do lado de dentro. Depois disso, silêncio. Bem que você poderia dar as costas e ir embora. Quanto mais espera, mais enfático o silêncio se torna. Não há luzes nas janelas. Talvez seja uma casa vazia. Será que, algum dia, chegou a ser habitada? Assim pareceu, certa vez. E essa semelhança era tão forte quanto agora. O que isso pode significar? Por que em tempos prósperos Ele mais parece um comandante e em tempos conturbados Sua ajuda é tão ausente? [2]

Todavia, passado o tempo mais crítico do luto, Lewis completa no final do livro:

Aos poucos passei a sentir que a porta não está mais fechada e aferrolhada. Será que foi minha necessidade frenética que a fechou na minha cara? Quando nada há em sua alma exceto um grito de socorro talvez seja o exato momento em que Deus não o pode atender: você é como o homem que se afoga e que não pode ser ajudado por tanto se debater. É possível que seus gritos repetidos o deixem surdo à voz que você esperava ouvir. [3]

É necessário respeitar o espaço e o momento do luto. Cada pessoa reagirá de uma forma. Não podemos tomar a nossa própria experiência como parâmetro que mede o luto alheio.

Estamos na era dos adultos que vivem como bebês. E essa geração detesta encarar a realidade. “Vivemos numa geração mariquinha”, como afirmou o famoso cineasta e ator Clint Eastwood [4]. Portanto, falar da “morte” em um tempo da autoestima festiva é citar um tabu, ou seja, é um assunto proibido. Nunca foi fácil falar da morte e nunca deveria sê-lo, porém a era presente dramatiza ainda mais essa realidade inevitável. A morte não é, obviamente, um assunto confortável, mas deve ser encarado. Ora, um dia a nossa hora chegará. Como dizem, só há duas coisas certas na vida: a morte e os impostos. O sábio Salomão já aconselhava: “É melhor ir a uma casa onde há luto do que a uma casa em festa, pois a morte é o destino de todos; os vivos devem levar isso a sério” [Eclesiastes 7.2].

Obviamente não devemos celebrar a morte, pois somente os mórbidos fazem isso. Mas, também, não podemos fugir desse tema. Há até crentes supersticiosos que acreditam no fato que falar da morte atrai a "Morte" como uma entidade personalizada. É o famoso "vira essa boca pra lá" ou "bate na madeira". E, certamente, há crença na superstição é a ausência da doutrina da graça.

Concluo dizendo que devemos trata o assunto com muito cuidado. A dor não pode ser menosprezada, ignorada ou tratada como algo menor. Na verdade, nem nós sabemos como reagiremos diante de uma tragédia próxima. E, é claro, nem é bom saber.

Referências Bibliográficas:

[1] LEWIS, C. S. Anatomia de uma Dor: um Luto em Observação. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2007. p 39.

[2] LEWIS, Idem. p 31.

[3] LEWIS, Idem. p 65-66.

[4] EASTWOOD, Clint. O Que Aprendi. Revista Piauí. Rio de Janeiro: Maio de 2012. Acesso em: 14/07/2012 Disponível em: <http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-68/o-que-aprendi/se-eu-fosse-mais-disciplinado-poderia-ter-sido-musico>

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Lição 03 - A morte para o verdadeiro cristão

Subsídio escrito e preparado pela equipe de educação da CPAD


OS EFEITOS DO PECADO

Por Norman Geisler

OS EFEITOS DO PECADO SOBRE ADÃO E EVA

Deus criou os primeiros seres humanos em um estado de perfeição (vide capítulo 1). Uma das perfeições que Deus nos concedeu foi o poder do livre-arbítrio (vide capítulo 2). Adão e Eva fizeram uso desta liberdade para desobedecer a Deus (vide capítulo 3). O que seguiu-se a este mau uso da liberdade humana (o livre arbítrio) foi um estado de pecaminosidade, do qual não podemos escapar e reverter sem o auxílio divino (vide capítulo 4).
Como veremos neste capítulo, a desobediência do casal original trouxe a morte ao mundo. Existem três tipos de morte: a espiritual, a física e a eterna. Adão e Eva morreram espiritualmente no momento em que pecaram. Eles também começaram a morrer fisicamente naquele mesmo dia. Caso Adão e Eva não tivessem aceitado a provisão de salvação oferecida por Deus, teriam também, em algum momento, morrido eternamente, o que significaria uma separação perpétua de Deus.

A Morte Espiritual

A morte é a separação de Deus, e a morte espiritual é a separação espiritual de Deus. Isaías declarou: “Mas as vossas iniquidades fazem divisão entre vós e o vosso Deus, e os vossos pecados encobrem o seu rosto de vós, para que vos não ouça” (Is 59.2). No instante em que Adão pecou, ele experimentou o isolamento espiritual de Deus; isto fica evidenciado pela vergonha que ele sentiu a ponto de se esconder do seu Criador.

Então, foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus; e coseram folhas de figueira, e fizeram para si aventais. E ouviram a voz do SENHOR Deus, que passeava no jardim pela viração do dia; e escondeu-se Adão e sua mulher da presença do SENHOR Deus, entre as árvores do jardim. (Gn 3.7,8)

Todo descendente de Adão — toda pessoa nascida de pais naturais desde o tempo da Queda — também está espiritualmente morto.

E vos vivificou, estando vós mortos em ofensas e pecados [...] Mas Deus, que é riquíssimo em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou, estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos). (Ef 2.1,4-5)

Jesus também disse a Nicodemos:

Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo não pode ver o Reino de Deus [...] aquele que não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus. O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito. Não te maravilhes de ter dito: Necessário vos é nascer de novo. (Jo 3.3,5-7)

O novo nascimento do que Jesus falava é o ato da regeneração, pelo qual Deus transmite a vida espiritual para a alma do crente (1 Pe 1.23). Paulo também toca no assunto:

[Ele] nos salvou pela lavagem da regeneração e da renovação do Espírito Santo, que abundantemente ele derramou sobre nós por Jesus Cristo, nosso Salvador, para que, sendo justificados pela sua graça, sejamos feitos herdeiros, segundo a esperança da vida eterna. (Tt 3.5-7)

Sem esta regeneração, todo ser humano está espiritualmente morto nos seus pecados.

A Morte Física

Depois de criar Adão: “E ordenou o SENHOR Deus ao homem, dizendo: De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore da ciência do bem e do mal, dela não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gn 2.16-17). No exato momento em que Adão tomou parte no fruto proibido, ele começou a morrer fisicamente, apesar da mentira de Satanás de que ele não morreria (cf. 3.4).
A morte física é o resultado inevitável do pecado de Adão não somente para si mesmo, como também para todos os seus descendentes naturais (à exceção de Cristo).

Pelo que, como um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, por isso que todos pecaram. Porque até à lei estava o pecado no mundo, mas o pecado não é imputado não havendo lei. No entanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, até sobre aqueles que não pecaram à semelhança da transgressão de Adão, o qual é a figura daquele que havia de vir [Jesus]. (Rm 5.12-14)

A Morte Eterna

Se Adão não tivesse aceitado a provisão de salvação por Deus (Gn 3.15-24), ele teria, em algum momento, experimentado o que a Bíblia chama de “segunda morte”, que é a separação eterna de Deus. João escreveu sobre ela nas seguintes palavras: “E a morte e o inferno foram lançados no lago de fogo. Esta é a segunda morte. E aquele que não foi achado escrito no livro da vida foi lançado no lago de fogo” (Ap 20.14-15). Todos os que nascerem somente uma vez (fisicamente), haverão de morrer duas vezes (física e eternamente). Contudo, todos os que nascem duas vezes (física e espiritualmente) morrerão somente uma vez (fisicamente). Jesus disse: “Todo aquele que vive e crê em mim nunca morrerá” (Jo 11.26).

Texto extraído da “Teologia Sistemática: Pecado, Salvação, A Igreja, As Últimas Coisas”, editada pela CPAD.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

O Concílio Politicamente Correto!

Por Gutierres Fernandes Siqueira
Caros,

Ao assistir a ficção científica Prometheus (EUA, 2012, 124 min.) fiquei imaginando como estaria sendo realizada uma conferência teológica no final deste século. Assim como o diretor Ridley Scott, eu brinquei com o futuro como algo sombrio. Aliás, qual ficção científica não nos mostra as sombras do futuro? Talvez seja a forma de literatura que nos lembra sobre a falácia do progresso ad aeternum!

Abaixo segue uma carta do concílio.

O futuro é sempre sombrio! Que o diga a expedição Prometheus!
Progresso

Nova York, 18 de abril de 2095.

Nós, irmãs e irmãos, nos reunimos neste grande concílio para definir o futuro do cristianismo no planeta do Século XXII. Nós sabemos que por muito tempo o cristianismo ocidental ficou preso à figura do líder rabínico chamado de Jesus, filho de Maria. Ora, hoje, iluminados que somos, sabemos como aquele mito era inconsistente com a nossa avançada época. O grande revolucionário venezuelano Hugo Chávez, aquele que foi o melhor presidente da América Latina neste século e que temos estampado em nossas camisas, já dizia que ele era a melhor encarnação dos valores cristãos. E, de fato, ele trouxe mais benefícios ao mundo, junto com outros democratas do Irã, do que aquela figura absoluta de Jesus.

O grande sábio Mahmoud Ahmadinejad já nos mostrava que o grande mal do mundo era a imprensa ocidental, Israel e o cristianismo. Como não concordar com o estimável líder persa? O cristianismo desprezou figuras proeminentes como essas. Onde está a relevância para o avanço e o progresso? Cadê o social? A relevância do cristianismo dependia de um líder mais conectado com as nossas necessidades. Assim, o cristianismo redescobriu Buda. Como as gerações passadas não perceberam que a essência da mensagem cristã estava na espiritualidade oriental?

Ora, também, neste concílio queremos celebrar o amor. O amor entre o bispo Charles Williams Brian, líder da diocese anglicana de Nova York e Zing Cheng, bispo metodista de Xanguai. Hoje eles celebram 60 anos de um casamento que marcou a história da igreja ecumênica. Que Buda os ilumine! E vamos aproveitar para definir o amor como um ato de vontade livre e não subjugado. Ora, quem pode mandar no amor? Por que controlar nossos impulsos? Onde está a liberdade se vivemos a trancar o amor?

Queremos, na data presente, entregar uma medalha para a episcopisa Tollerod Behring, líder da grande catedral de Oslo, que tem defendido com forças e lágrimas os direitos humanos. Com o seu grande esforço e amor, hoje milhões de mulheres podem abortar se sentir a “opressão da culpa” inventada pelo antigo cristianismo retrógrado. A ONG de Behring merece o nosso apoio financeiro. O governo do Brasil, por exemplo, patrocina a ONG com 10 bilhões de reais. É um governo generoso e conectado com os valores avançados.

Mas a história da igreja contemporânea emite sinais de alerta. A Igreja Carismática da África e Igrejas Reformadas ou Episcopais naquele continente continuam com ideias estranhas, como a defesa de uma herança cristã tradicional. Há grupos na China, Brasil, Rússia, Índia e até nos Estados Unidos que continuam assim. Os fundamentalistas são perigosos e não conhecem o conceito de liberdade. A Igreja Progressista deveria fazer uma grande campanha mundial pela criminalização do discurso intolerante. Ora, como alguém tem a coragem de pregar um único salvador quando todos nós somos deuses? A salvação somos nós!

Martin Zimmerman Scott,
Bispo-Chefe da Conferência Mundial da Religião

domingo, 8 de julho de 2012

A expansão evangélica e alguns pontos do Censo 2010 [Parte 03]: O tradicionalismo legalista e o crescimento das igrejas pentecostais!

AD no bairro do Belém em São Paulo
Por Gutierres Fernandes Siqueira

Na edição deste domingo o jornal O Estado de S. Paulo [leia aqui] divulgou dados interessantes sobre um processo que o periódico chama de “pulverização”, ou seja, a fragmentação da membresia evangélica acentuada em pequenas igrejas e entre evangélicos desigrejados. Mas há outro dado curioso: o pentecostalismo cresceu, mas o pentecostalismo legalista e sectário caiu drasticamente na cidade de São Paulo.

Enquanto que a Assembleia de Deus ganhou mais de 140 mil membros na cidade de São Paulo na última década, a Congregação Cristã do Brasil perdeu 72 mil membros e a Igreja Pentecostal Deus é Amor perdeu 23 mil. É ainda cedo para uma conclusão, mas parece que o modelo de igreja megarígida e inflexível chegou ao fim em uma grande cidade como São Paulo. Não houve década que a Assembleia de Deus tenha mais aderido a flexibilização do que a década de 2000 e isso, ao que parece, ajudou no grande crescimento.

Resumindo em pontos:

1. Igrejas pentecostais rígidas (legalistas) e não flexíveis perdem membros.
2. Igrejas pentecostais que eram legalistas, mas que abandonam aos poucos essa tendência “fechada” ganham membros.
3. A flexibilização nos costumes e o crescimento pelo interesse no estudo teológico não prejudicaram o crescimento.

Portanto, falar em crescimento pentecostal demanda uma “vírgula”, pois as igrejas pentecostais que mantiveram as suas tradições como “ferro e diamante” perderam membros. E aí nasce outro ponto: os defensores da manutenção ad aeternum dos “usos e costumes” costumam alegar que a sua equilibrada liberalização inibirá o crescimento da denominação, pois se o crescimento sempre existiu, então por que introduzir mudanças nas tradições? Ora, se a Assembleia de Deus continuasse aquela igreja “sectária e legalista” da década de 1990 teria perdido membros da mesma forma que a Congregação Cristã e a Deus é Amor.

Outro mito bobo é que uma Assembleia de Deus mais voltada para a teologia prejudicaria o crescimento. Essa era a tese mais apaixonada dos anti-intelectuais, mas a década de 2000 provou ser uma análise totalmente errada, assim como é errada a análise dos defensores do legalismo institucionalizado.

É bom deixar bem claro que não estou escrevendo sobre a qualidade desse crescimento, pois esse assunto não é objeto de análise deste post, mas já foi de outro texto [leia aqui]. O que discuto aqui é um fato simples: o mito que a liberalização dos costumes prejudicaria o crescimento das Assembleias de Deus. A Assembleia de Deus no bairro do Belenzinho (São Paulo, SP) é um exemplo disso [foto acima]. A congregação-sede neste bairro mudou muito nos últimos quinze anos em relação aos “usos e costumes”. O discurso um tanto conservador do seu líder não é compatível com a membresia que ele lidera. No Belenzinho já não há (graças a Deus!) aquela opressão legalista dantes e continua com forte crescimento. Agora, se a igreja é melhor hoje do que ontem é uma outra discussão.

sábado, 7 de julho de 2012

“Seguir a Jesus não é uma questão do que eu creio; é uma questão de como eu vivo”.

Por Gutierres Fernandes Siqueira

O clichê acima é repetido mais do que a expressão “Vai, Corinthians!” em final de Libertadores. É um clichê cool. Mas é tão ilógico, irracional e meio bobinho. Ora, é claro que a prática é importantíssima, essencial, imprescindível... Mas o que praticamos sem crença? Ora, se eu vou ao médico é porque eu acredito no “dogma da medicina”. Eu acredito que os médicos estudaram e são pagos para me ajudar no momento da doença. Sem essa crença básica eu iria ao médico? Se eu fosse um fissurado em teorias conspiratórias e acreditasse que os médicos são pagos para matar eu iria a um hospital? É claro que não! Ora, ir ao médico é uma questão de prática e crença. Ora, seguir Jesus, também, é uma questão de prática e crença. A frase é só uma expressão de um “evangelho” baseado no fracasso do moralismo.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Lição 02 - A enfermidade na vida do crente

OBS: Em dezembro de 2008 escrevi dois artigos sobre cura divina que quero recomendar como subsídio para a próxima aula na Escola Dominical. Leia nos links abaixo:



Abaixo segue o subsídio preparado pela equipe de educação da CPAD

ORIGEM E NATUREZA DA ENFERMIDADE

Por Vernon Purdy

Onde o sofrimento humano teve sua origem? Já fazia parte do plano de Deus, ou foi resultado de alguma coisa que contradizia a intenção divina para com a criação? A Bíblia, no sentido global, ensina a segunda posição. Não se quer dizer com isto que Deus não antevia a possibilidade do sofrimento. Muito pelo contrário. A Bíblia expressa claramente que Ele o levara em conta: Jesus Cristo é o Cordeiro “que foi morto desde a fundação do mundo” (Ap 13.8). Deus não foi tomado de surpresa. 

A questão que se nos apresenta, de máxima importância, é se foi o próprio Deus quem determinou que houvesse o sofrimento humano. A Bíblia deixa claro que não. O sofrimento humano é consequencia da queda de Adão, não da vontade de Deus. Deus condena a maldade humana. Adão, nosso representante no Jardim, trouxe a condenação a todos nós, ato que não surgiu da volição de Deus, mas da vontade do homem. O desejo de Deus é certamente abençoar a sua criação, e não prejudicá-la (Gn 12.3; Tg 1.17).
Essa última verdade bíblica indica, então, a origem do sofrimento humano: nossa condição de caídos no pecado. A culpa recai sobre Adão e seus descendentes, e não sobre Deus. James Crenshaw indica que, no Antigo Testamento, a questão não era teodiceia [gr. Theós, “Deus” e dikê, “justiça”] – ou como podemos afirmar que Deus é justo –, mas “antropodiceia” [do grego antropos, “homem” e dikê, “justiça”] – como podemos justificar os seres humanos. 

A Queda foi o resultado da rebelião de Adão, catastrófica em seus resultados e cósmica nas suas proporções. O mundo, no seu estado edênico, desconhecia o sofrimento humano. E, nos novos céus e nova Terra de Deus, o sofrimento tampouco subsistirá. O sofrimento é fundamentalmente contrário à vontade de Deus. 

Alguns talvez argumentem que o sofrimento não existiria se não fosse da vontade de Deus. Há duas respostas para refutar esse argumento. A primeira é que o sofrimento existe sob os auspícios do reino justo de Deus, que o tolera mesmo sem ter sido elaborado ou desejado por Ele. A segunda é que existem neste mundo muitas coisas, tais como o próprio pecado, também provisoriamente toleradas por Deus.
Porém, assim como a Bíblia informa que virá o tempo em que o pecado será vencido para sempre, prediz também o tempo em que o sofrimento humano não mais existirá (Ap 21.4). O fato da existência do pecado e do sofrimento não indica serem da vontade de Deus. Embora Deus tenha optado por permitir a existência do pecado e da enfermidade, ambos são contradições fundamentais à intenção divina para com a criação. O mundo e tudo quanto nele existia era, segundo o testemunho mais antigo das Escrituras, “muito bom” (Gn 1.31). Não há fundamento bíblico para se supor que o desejo de Deus fosse o de uma criação contorcendo-se pelas dores da Queda. Tais agonias foram provocadas pelo ser humano, e Deus foi ao extremo para corrigir esse estado, por meio de um plano de redenção. 

O domínio dos poderes das trevas também afeta a realidade presente do sofrimento. Herman Ridderbos diz que “não somente o pecado, mas também o sofrimento, a opressão, a ansiedade e a adversidade pertencem ao domínio de Satanás” (ver 1 Co 5.5; 2Co 12.7; 1 Ts 2,18; 1Tm 1.20). A experiência presente do universo criado deve-se não à vontade de Deus, mas “ao fato de o cosmo ser o mundo virado contra Deus”. 

Embora não devamos nos basear em documentos extrabíblicos como fonte de doutrina, alguns demonstram com muita clareza que o próprio Judaísmo sustentava ser o sofrimento humano consequencia da rebelião do homem, e não da vontade divina: “Embora as coisas tenham sido criadas na sua plenitude, foram corrompidas quando o primeiro homem pecou, e não voltarão à sua condição ideal antes da vinda de Ben Perez [o Messias]” [Enst Kasemann, Commentary on Romans, trad. e ed. Geoffrey W. Bromiley (Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans, 1980), 233. “Gênesis Rabbah” 12.6, Midrash Rabbah, Rabbi H. Freeman, trad.]. Este texto demonstra claramente as expectativas messiânicas do povo judaico nos tempos de Jesus. Não admira que seus milagres suscitassem tanta emoção e admiração. Eram os sinais do Messias, que restauraria o mundo caído, bem como os seus habitantes. Os milagres de cura, operados por Jesus, revelam que o desejo de Deus é restaurar, tanto física quanto espiritualmente, a humanidade arruinada.

Texto extraído da “Teologia Sistemática: Uma Perspectiva Pentecostal”, editada pela CPAD.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

A expansão evangélica e alguns pontos do Censo 2010 [Parte 02]

Gráfico do jornal O Globo
Por Gutierres Fernandes Siqueira

Leia a primeira parte aqui.

1. O crescimento dos evangélicos, como todos sabem, foi puxado pelos pentecostais, mas sem ajuda dos tradicionais. Portanto, o Censo 2010 mostra que era somente impressão um possível crescimento das Igrejas Protestantes Históricas. Em agosto de 2011, a FGV-RJ (Fundação Getúlio Vargas) lançou o Novo Mapa das Religiões e com aqueles dados alguns especialistas especularam que estaria havendo um aumento significativo de evangélicos tradicionais. Não foi o que aconteceu, pois embora tenham crescido, a membresia das “igrejas de missão” continua estável na proporção perante a população do país. Eram 4,1% dos brasileiros em 2000 e agora são 4%. O número de luteranos e presbiterianos, por exemplo, diminuiu na última década.

2. O trânsito religioso se consolidou. Há pelo menos cinco anos os especialistas falam sobre o “trânsito religioso”, ou seja, a migração de igreja em igreja de evangélicos sem uma raiz denominacional. Não confunda esse grupo com os “desigrejados”, pois esses não congregam em lugar algum, mesmo que se considerem evangélicos. O Censo 2010 classificou esse grupo como integrantes de religiões “evangélicas não determinadas”. Em 2000 havia 1,7 milhão nesse grupo, agora são 9,2 milhões. Eles equivaliam a apenas 1% da população em 2000, mas hoje são 4,8% dos brasileiros, ou seja, mais do que os espíritas (2%).

3. O número de pequenas igrejas neopentecostais (ou pentecostais) continuam explodindo. Aquela famosa lista da Revista Eclésia que apresentava os nomes mais exóticos de igrejas evangélicas precisa ser atualizada urgentemente.

4. Não é nem necessário dizer, mas crescimento não é avivamento. Os evangélicos continuam crescendo e, mantendo esse ritmo, serão maioria na década de 2040 (ou até antes). Agora, a qualidade é a chave. E, assim, é também um desafio, pois precisamos investir pesadamente em discipulado e continuar lutando pela igreja, principalmente com educação teológica de qualidade que seja acessível a essa nova massa de evangélicos.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Confissão de Fé musicada!



Manifesto 
We believe in the one true God
We believe in Father Spirit Son
We believe that good has won
And all of the people of God sing along 
Amen 
We are free He died and lives again
We will be a people free from sin
Well be free a kingdom with no end
And all of the people of God sing along
Amen
The Lords prayer

Manifesto 
Nós cremos em um Deus verdadeiro
Nós cremos no Pai, no Espírito e no Filho
Nós cremos que o bem venceu
E todo o povo de Deus canta 
Amém 
Nós somos livre e Ele morreu e vive mais uma vez
Nós seremos um povo livre do pecado
Nós seremos livres num Reino sem fim
E todo o povo de Deus canta 
Amém
A Oração do Senhor

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Inferno

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Se a Terra for escolhida em vez do Céu, acabará tendo sido, todo o tempo, apenas uma região no Inferno; mas, se ela estiver subordinada ao Céu, terá sido desde o inicio uma parte do próprio Céu. [C. S. Lewis em O Grande Abismo (1)]

No final das contas, existem apenas dois tipos de pessoas: as que dizem a Deus: “Seja feita a Tua vontade”; e aquelas a quem Deus diz: “Seja feita a sua vontade”. Todos os que estão no Inferno escolhem a segunda opção. Sem essa escolha pessoal não haveria Inferno. Alma alguma que deseje sincera e constantemente a alegria irá perdê-la. [C. S. Lewis em O Grande Abismo (2)]


É fato. Jesus falou mais do inferno do que do céu. Inúmeros cristãos contestam o inferno, mas não é porque faltem referências bíblicas. Se o problema fosse número de referências o céu poderia ser mais contestado. Jesus falou em “fogo eterno” que foi preparado para o “diabo e os seus anjos” [Mt 25.41; cf. Mt 3.12; Mc 9.43]. Outro aspecto importante é que Jesus descreve o inferno como eterno, assim como eterno é o ceú [Mt 25.41 e 46]. Portanto, é estranho como um cristão pode defender o aniquilacionismo, ou seja, a ideia que os não-salvos simplesmente deixarão de existir. É claro que a “alma imortal” não é uma doutrina bíblica (e sim da filosofia grega) [3], mas isso não deixa de indicar que o “castigo eterno” seja uma realidade. Tanto o salvo como o não-salvo não deixarão de existir.

O aniquilacionismo não é somente antibíblico como ilógico. Como algo pode simplesmente deixar de existir? O escritor C. S. Lewis, tratando sobre o simbolismo do fogo, escreveu:

A destruição, devemos supor naturalmente, significa a desconstrução- ou cessação- do destruído. E as pessoas não raro falam como se a “aniquilação” de uma alma fosse intrinsecamente possível. Em toda a nossa experiência, contudo, a destruição de uma coisa significa o afloramento de outra. Queime a lenha, e você terá fumaça, calor e cinzas. Ter sido lenha agora significa ser essas três coisas. Se as almas podem ser destruídas, não deve haver uma estado equivalente a ter sido uma alma humana? E não seria esse, talvez, o estado igualmente bem descrito como tormento, destruição e privação? [4]

E o teólogo J. I. Packer, em um ótimo artigo que combate o aniquilacionismo, escreveu:

Em nenhuma parte a morte significa extinção; morte física é a partida para outra forma de existência chamada sheol ou hades, e morte metafórica é uma existência sem Deus e Sua graça; nada na terminologia bíblica garante a ideia [...] de que “a segunda morte” de Apocalipse 21:11, 20:14, 21:8 significa ou refere-se à extinção da existência. [5]
Dante e Virgílio lendo a placa do portal do Inferno.
 Ilustração do artista inglês William Blake (século XVIII)
As imagens de “fogo”, “trevas”, “enxofre” e “verme” no inferno são metáforas? A maioria dos comentaristas bíblicos dizem que sim. A simbologia dessas imagens demonstra a natureza do inferno. Que fique claro: saber que as imagens do inferno são metafóras não serve de consolo para ninguém. A metáfora é usada justamente para tentar descrever a realidade que vai além da compreensão humana. Por que não devemos ler tais imagens literalmente? Isso porque a palavra grega geenna, que é mencionada 12 vezes por Jesus Cristo para descrever o inferno, traz a imagem do Vale de Tofete, onde crianças eram queimadas em sacrifícios ritualísticos ao deus Moloque. Como o tempo o vale se tornou um grande lixão. Ali, o fogo era constante no consumo do lixo e os vermes estavam sempre presentes. Jesus usa essa imagem para simbolizar o inferno e não para descrevê-lo literalmente. Essas imagens são simbólicas, mas o inferno em si não é uma fantasia.

O inferno é o lugar de separação completa de Deus. O apóstolo Paulo expressa bem essa ideia em 2 Ts 1.8-9: “Ele punirá os que não conhecem a Deus e os que não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus. Eles sofrerão a pena de destruição eterna, a separação da presença do Senhor e da majestade do seu poder” (NVI, grifo meu). Observe bem a expressão: a “separação da presença do Senhor” e a separação da “majestade do seu poder”. Isso é o pior do inferno! Nós, mesmo quando vivíamos entregues ao mundo, não experimentamos a completa e definitiva “separação de Deus”. Logo, por não estarmos definitivamente separados do Senhor, o Espírito Santo transformou o nosso coração. Podemos chamar o inferno da mais absoluta apostasia, ou seja, a separação sem volta. É a morte da esperança.

Karl Barth escreveu:

O homem estar separado de Deus significa estar num lugar de tormento. “Choro e ranger de dentes”- nossa imaginação não está adequada para esta realidade, esta existência sem Deus. O ateu não está consciente do que é a não-existência de Deus. A não-existência de Deus é a existência no inferno. O que mais além disto é oferecido como resultado do pecado? O homem não se separou de Deus por seu próprio ato? “Desceu ao inferno” é simplesmente a confirmação disto. O julgamento de Deus é justo- isto é, ele oferece ao homem o que ele quer. [6]

No clássico livro A Divina Comédia o poeta italiano Dante Alighieri conta a história fictícia e alegórica sobre uma viagem do inferno ao céu com o seu companheiro Virgílio. Na ficção, quando Dante passava no inferno, ele observou a seguinte mensagem em uma das portas do lugar sombrio:


Por mim se vai para a cidade ardente,
por mim se vai à sua eterna dor,
por mim se vai entre a perdida gente.

Justiça deu impulso ao meu Autor:
cumpriram-se poderes divinais,
a suma sapiência, o primo amor.

Antes e mim não se criou jamais
o que não fosse eterno; - e eterna, eu duro.
Deixai toda esperança, vós que entrais. [7]

Vejam com a mensagem é forte: “Deixai toda esperança, vós que entrais”! O inferno, como a completa ausência de Deus, é um lugar sem a “graça comum”. É o lugar do ego inflamado, do amor-próprio, da autoidolatria... E o irlandês C. S. Lewis expressou de maneira magnífica essa realidade no livro O Grande Abismo. Lewis mostra personagens impressionantes que preferem viver o inferno com seus vícios a encarar a renúncia para a felicidade eterna na “grande montanha”. O inferno, como disse Lewis, é o lugar onde os “homens usufruem sempre a terrível liberdade que exigiram” na vida [8].

Deus não manda ninguém para o inferno. O inferno é fruto da nossa escolha em vida. Ora, se escolhemos o modo de vida do inferno para onde iremos? O teólogo Timothy Keller escreveu:

O inferno é a escolha voluntária de uma identidade apartada de Deus para uma trajetória rumo à infinidade. Vemos esse processo “em pequena escala” nos viciados em drogas, álcool, jogo e pornografia. Primeiro há uma desintegração, pois, conforme o tempo passa, o indivíduo precisa cada vez mais daquilo em que se viciou para conseguir a mesma sensação, o que conduz a uma satisfação cada vez menor. Depois, vem o isolamento, conforme o viciado mais e mais culpa os outros e as circunstâncias a fim de justificar o próprio comportamento. “Ninguém entende! Estão todos contra mim!”, é uma queixa resmungada com uma dose cada vez maior de autopiedade e autocrentrismo. Quando construímos nossas vidas com base em outra coisa que não Deus, essa coisa- embora boa- se transforma em um vício que escraviza. A desintegração pessoal ocorre em uma escala mais ampla. Na eternidade, tal desintegração prossegue indefinidamente. Crescem o isolamento, a negação, a ilusão e auto-obsessão. Quando se perde por completo a humildade, perde-se o contato com a realidade. Ninguém jamais pede para sair do inferno. A mera ideia de céu lhes soa como tapeação. [9] 

Portanto, outro absurdo antibíblico é a ideia do universalismo, ou seja, a doutrina que ensina que todos serão salvos no final. Como Deus pode salvar quem não quer ser salvo? Isso só seria possível com a violação do livre-arbítrio. O universalismo é determinista [10] e, é claro, não encontra nenhum apoio nas Sagradas Escrituras. Que tipo de amor é esse? Onde pode existir amor sem liberdade e, inclusive, liberdade para a rejeição e abandono? O pai do filho pródigo impediu a loucura do filho? A resposta é negativa, mas não porque não o rejeitasse, mas simplesmente por amá-lo. O universalismo é o tipo de ideia bonita de longe, mas com uma essência podre quando olhamos de perto.

Agora, vamos falar do inferno sem cuspir “fogo e enxofre”. A realidade do inferno é tão terrível que deveria ser impossível um cristão falar sobre essa doutrina sem temor, tremor e comoção. Muitos cristãos parecem tratar assuntos como “inferno”, “juízo” e “ira divina” com certo prazer mórbido. Não é cuspindo fogo, mas sim com clamores de misericórdia. Ora, o descrente de hoje pode ser o crente de amanhã, assim como crente de hoje pode ser o apóstata de amanhã. E pregar o inferno sem o remédio (a salvação em Cristo) é uma pregação dúbia. Ninguém deve ser “converter” pelo medo, pois isso é falsa conversão. Falar do inferno e esquecer a graça de Cristo é simplesmente fabricar moralistas que viverão eternamente no... inferno. Tim Keller observou:

A doutrina do inferno é fundamental. Sem essa doutrina não podemos entender a nossa completa dependência de Deus e nem o risco de abraçarmos, até mesmo, os menores dos pecados. Além disso, também não entenderíamos o verdadeiro alcance do amor de Jesus. No entanto, é possível destacar a doutrina do inferno de forma imprudente. Muitos, por medo de compromisso doutrinal, querem colocar toda a ênfase no julgamento ativo de Deus e nenhum sobre o “caráter auto-escolhido” do inferno. [...]. E alguns podem pregar o inferno de tal maneira que as pessoas reformem suas vidas apenas por um medo egoísta das consequências do pecado, assim, evitando o mal não por amor e lealdade a quem abraçou e experimentou o inferno em nosso lugar. A distinção entre esses dois motivos é muito importante. A primeira cria um moralista, o segundo motivo cria o crente nascido de novo. [11]

Portanto, como disse John Stott, antes de aderir ao aniquilacionismo na década de 1980, nós “devemos, no entanto, sem sombra de dúvida, saber que o inferno é uma realidade tenebrosa e eterna. Não é o dogmatismo que é inconveniente ao falar sobre a realidade do inferno; mas a loquacidade e a frivolidade o são. Como podemos pensar no inferno sem chorar?” [12]. É tempo de pregar todo o conselho de Deus.



Referências Bibliográficas:

[1] LEWIS, C. S. O Grande Abismo. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2009. p 17.

[2] LEWIS, C. S. Idem. p 88.

[3] A alma em si não é uma substância imortal. A doutrina da “imortalidade da alma”, como defendida na filosofia grega, não é bíblica. A eternidade é um dom [cf. Rm 6.23]. É certo que os ímpios continuarão a existir depois da morte, mas usar o termo “imortal” [que significa “incapaz de morrer”] é simplesmente abusivo. A alma do ímpio é mortal, não porque deixará de existir, mas sim porque nele não há vida, ou seja, não há o pulso da vida de Deus. Como dito acima, a “imortalidade” é um dom para os salvos. O apóstolo Paulo escreveu: “Pois é necessário que aquilo que é corruptível se revista de incorruptibilidade, e aquilo que é mortal, se revista de imortalidade. Quando, porém, o que é corruptível se revestir de incorruptibilidade, e o que é mortal, de imortalidade, então se cumprirá a palavra que está escrita: ‘A morte foi destruída pela vitória’” [1 Coríntios 15.53-54]. Mas atenção: Negar a doutrina da “imortalidade da alma”, pois os gregos a julgavam mais elevada do que o corpo, não significa acreditar no aniquilacionismo. Leia mais em: HANKO, Ronald. A Imortalidade da Alma. Monergismo. Brasília 2012. Acesso em: 01/07/2012. Disponível em: <http://www.monergismo.com/textos/amilenismo/imortalidade-alma_hanko.pdf>

[4] LEWIS, C. S. O Problema do Sofrimento. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2009. p 141.

[5] PACKER, James I. Reconsiderando o Aniquilacionismo Evangélico: Uma Análise do Pensamento de John Stott sobre a Não-Existência do Inferno. Bom Caminho. Florianópolis: 2012. Acesso em: 01/07/2012. Disponível em: <http://www.bomcaminho.com/jip001.htm>

[6] BARTH, Karl. Esboço de uma Dogmática. 1 ed. São Paulo: Fonte Editorial, 2006. p 167-168.

[7] ALIGHIERI, Dante. A Divina Comédia. 1 ed. São Paulo: Editora Abril, 2010. p 70.

[8] LEWIS, C. S. O Problema do Sofrimento. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2009. p 143.

[9] KELLER, Timothy. A Fé na Era do Ceticismo. 1 ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2008. p 65.

[10] C. S. Lewis trata do determinismo universalista em O Grande Abismo no capítulo 13.

[11] KELLER, Timothy. The Importance of Hell. Redeemer Presbyterian Church. Nova York: 2012. Acesso em: 16/06/2012. Disponível em: <http://www.redeemer.com/news_and_events/articles/the_importance_of_hell.html>

[12] STOTT, John. Christian Mission in the Mordern World. 1 ed. London: Falcon: 1975. p 113. em: DUDLEY-SMITH, Timothy (cop.). Cristianismo Equilibrado. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2006. p 529.

domingo, 1 de julho de 2012

Lição 1- No Mundo Tereis Aflições (Subsídio)

O problema do mal e as suas respostas

Por Gutierres Siqueira

Material produzido para os alunos da Escola Bíblica Dominical da Igreja Evangélica Assembleia de Deus no Jardim das Pedras (São Paulo, SP). 

Deus é bom
"Por que você me chama bom? ", respondeu Jesus. "Não há ninguém que seja bom, a não ser somente Deus”. [Lucas 18.19]
Deus é o Todo-Poderoso
Mas de agora em diante o Filho do homem estará assentado à direita do Deus Todo-poderoso". [Lucas 22.69]
O mal existe
"Eu lhes disse essas coisas para que em mim vocês tenham paz. Neste mundo vocês terão aflições; contudo, tenham ânimo! Eu venci o mundo". [João 16.33]


Os céticos desafiam sobre o “problema do mal”
O filósofo cético David Hume (século 18), citando o filósofo grego Epicuro (século 4 e 3 a.C.) levantou as seguintes questões que tentam desafiar a mente cristã: Quer ele (Deus) impedir o mal, mas não é capaz de fazê-lo? Então ele é fraco (i. e., não é onipotente). Pode ele fazê-lo, mas não o deseja? Então ele é malévolo. Não é ele tanto poderoso quando o deseja fazê-lo? De onde, pois, procede o mal?
“A tentativa cristã de lidar com esse tripé "Deus todo-poderoso", "Deus todo-amoroso" e "existência do mal", mostrando que a despeito do mal, Deus continua justo, bom e poderoso foi historicamente denominada Teodicéia. A palavra foi cunhada em 1710 pelo filósofo alemão Gottfried Leibnitz (1646-1716). Seu sentido é "justificação de Deus" (do grego theós "Deus" e dikê "justiça")” [1].

Teodicéia. Algumas respostas foram tentadas: 01) O mal existe por causa do livre-arbítrio. 02) O mal existe porque é bom para o nosso amadurecimento. 03) O mal existe, mas é presente, pois o futuro será melhor. 04) O mal é incompreensível, mas serve para o nosso bem. 05) O mal existe, pois Deus é conhecido no sofrimento.
Negação da Teodicéia. Há também as negações dessas respostas: 01) O mal não existe, pois é fruto da nossa imaginação. 02) O mal existe porque Deus não existe. 03) O mal existe, pois existe um Deus Mal e um Deus Bom. 04) O mal existe porque Deus é mal. 05) O mal existe existe porque Deus não tem poder. 06) O mal existe, pois Deus é incapaz de controlar a sua criação. 07) O mal existe porque Deus não podia prever o futuro. 08) O mal existe porque Deus criou o mundo, mas depois o abandonou.

[1] SAYÃO, Luiz. O Problema do Mal no Antigo Testamento. 1 ed. São Paulo: Editora Hagnos, 2012. p 26.