segunda-feira, 29 de outubro de 2012

A Igreja Pentecostal é Protestante?

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Por que o pentecostalismo não pode ser colocado como um grupo marginalizado do protestantismo? A resposta está nos “cinco solas”, ou seja, nas máximas latinas que definem a essência de uma Igreja Protestante.

1) Uma igreja protestante não é definida pela liturgia. A Igreja Anglicana tem uma liturgia muito diferente da Igreja Congregacional. 2) Não é definida pela arquitetura. Os templos clássicos presbiterianos são bem diferentes das igrejas reformadas emergentes como a Mars Hill Church. 3) Não é definida pelo regime de governo. A Igreja Batista é congregacional, enquanto a Igreja Metodista é normalmente episcopal. 4) Não é definida pelas doutrinas secundárias. A Igreja Presbiteriana é calvinista, enquanto que os metodistas são arminianos.

Então, o único ponto de toque entre todas as denominações protestantes são os “cinco solas”. E, por isso, as principais igrejas pentecostais são herdeiras legítimas da Reforma. O pentecostalismo não é deuterorreformacional, mas está ligada intimamente às ideias a seguir:

  • Sola fide (Somente a fé);
  • Sola scriptura (Somente a Escritura);
  • Solus Christus (Somente Cristo);
  • Sola gratia (Somente a graça);
  • Soli Deo gloria (Glória a Deus somente).

Quer um exemplo? Vejamos o Sola fide (Somente a Fé). As principais igrejas pentecostais trabalham com a doutrina da justificação pela fé. Vejamos o que a Confissão de Fé das Assembleias de Deus diz: 


Cremos... No perdão dos pecados, na salvação presente e perfeita e na eterna justificação da alma recebidos gratuitamente de Deus pela fé no sacrifício efetuado por Jesus Cristo em nosso favor (At 10.43; Rm 10.13; 3.24-26 e Hb 7.25; 5.9).

A Confissão de Fé da Igreja O Brasil para Cristo diz:


Cremos que o homem, havendo caído em pecado, foi destituído da glória de Deus, e que todos foram sujeitos à mesma condenação, para que unicamente por Jesus Cristo, desde de que em arrependimento e fé geradora de obras, fossem restaurados a Deus. E que, para tanto, necessitam os homens do novo nascimento, o que ocorre segundo o poder atuante do Espírito Santo e da Palavra de Deus. Que o homem, nascido de novo, já tem seus pecados perdoados para não viver mais segundo o poder do pecado, mas segundo a salvação presente e eterna justificação provida graciosamente por Deus segundo a fé no sacrifício de Jesus Cristo em seu favor (Rm 3:23; At 3:19; 2:38; Jo 3:5-7; Rm 5:1,2; Tt 3:4-7).

E um parênteses: Acho totalmente errado usar o termo “reformado” para designar somente calvinistas. Acho errado, mas uso o termo nesse sentido na maior parte das vezes. Infelizmente, o conceito já se consolidou. É errado porque “reformado”, como disse acima, está relacionado aos Solas e não à TULIP.

Portanto, reforço o post anterior e manifesto o meu protesto para aqueles que esquecem do pentecostalismo como uma Reforma continuada. Era Calvino que dizia:  “Igreja reformada, sempre se reformando”?


Leia Mais:

A Reforma Protestante e o pentecostalismo

sábado, 27 de outubro de 2012

Lição 4- Amós

Subsídio preparado pela equipe de educação da CPAD


EU E O PRÓXIMO

Por Geremias do Couto

“Não podemos estar bem com Deus enquanto estivermos cometendo injustiça contra o nosso semelhante”
Martyn Lloyd-Jones

[...] A dignidade do próximo

Observa-se, para começar, que o Mestre manteve a mesma linha de pensamento [sobre o relacionamento digno com o próximo], mesmo quando passou a tratar de questões específicas no Sermão do Monte.

Assim, por seis vezes, no capítulo cinco de Mateus, usou a expressão (ou parte) “ouviste que foi dito aos antigos” para reportar-se à forma legalista como os fariseus lidavam com os ditames da lei mosaica. Segundo a crítica exegética, a frase, no original, não questionava a lei em si mesma, mas o modo como os mestres religiosos de então a interpretavam.

[...] O fariseus emprestavam à lei conotação estritamente jurídica, sem atentar necessariamente para a sua essência, chegando ao ponto de lhe incorporarem outros preceitos que desfiguravam os seus propósitos e a tornavam um jugo extremamente pesado. Este era o caso em relação ao direito à vida. Enquanto os fariseus viam a questão somente do ponto de vista legal em que o condenado pela morte de alguém sofreria a pena prevista, tornando-se réu de juízo, Jesus tratou do problema na origem, trazendo à tona as intenções do coração para reprovar qualquer comportamento agressivo contra o próximo.

Percebe-se que na visão farisaica não havia lugar para que o delito fosse tratado à luz de suas verdadeiras causas. Bastava simplesmente a presunção da culpa para determinar a sentença punitiva, sem ao menos discutir os motivos que levaram o réu a tal ato. Sequer considerava-se o propósito maior da lei, que era prevenir qualquer tipo de transgressão contra Deus mediante a certeza de o infrator sofrer também o julgamento divino em razão da desobediência. Martin Lloyd-Jones viu a questão desta maneira:

(...) o que eles [os fariseus] faziam de errado é que reduziam e confinavam as sanções às quais essa proibição estava associada a uma mera punição às mãos dos magistrados civis. “Quem matar estará sujeito a julgamento”. Nesse caso, “julgamento” indicava apenas o juízo baixado por algum tribunal local.

E o resultado de tudo isso é que eles meramente ensinavam: “você não deve cometer homicídio, porque se o fizer, correrá o risco de ser castigado por um magistrado civil” (Martin Lloyd-Jones, Estudos no Sermão do Monte (Editora Fiel), p.207).

Essa concepção distorcida, como se vê, retirava da lei o seu verdadeiro sentido e reduzia a importância do relacionamento com o próximo a um simples ato jurídico que se preocupava apenas em punir nos casos em que houvesse morte. Mas, segundo a ótica do Mestre, tirar a vida de outrem é a consequencia desastrosa final de um processo que pode ter-se iniciado bem lá atrás, com uma agressão verbal aparentemente de pouca monta. Em outras palavras tem tudo a ver com a maneira como nos relacionamentos com os nossos semelhantes e com a santidade do coração.

Por isso, o Senhor fez questão de deixar claro que o espírito da legislação mosaica ia além da morte física, pois há também o assassínio psicológico. É aquele em que, mesmo não havendo o trágico desenlace do homicídio, a vida moral do próximo é destruída sem dó nem piedade mediante toda a sorte de injúria, calúnia e difamação. É quando, na hora de optar entre o interesse pessoal e o comunitário, nem se cogita da segunda hipótese. Ao contrário, tudo é válido com o fim de assegurar os privilégios pessoais, inclusive sonegar o direito do próximo, nem permitir-lhe o justo acesso aos meios de sobrevivência.

Desde que não seja eu, os outros podem até morrer, mesmo vivendo.

Texto extraído da obra “A Transparência da Vida Cristã”, editada pela CPAD.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

A Reforma Protestante e o pentecostalismo

O Avivamento de Azuza reflete ainda hoje
Por Gutierres Fernandes Siqueira

Eu era ainda novo convertido quando li uma série de artigos sobre o surgimento dos evangélicos no Brasil em uma grande revista evangélica. A historiadora falava dos presbiterianos, batistas, metodistas, anglicanos e dos congregacionais. Na época fiquei espantado que a autora não citava as Assembleias de Deus. A proposta daqueles textos era falar da história evangélica até as primeiras décadas do século XX, mas ela simplesmente ignorou aquela que veio a ser a maior denominação protestante do país.

Desinformação? Não, era puro preconceito! Ainda há no meio tradicional muitos que ignoram o pentecostalismo como parte do protestantismo. Sim, reconheço que houve melhoras, mas há muito o que avançar. E fico muito feliz de saber que muitos dos meus leitores são protestantes históricos. Há cinquenta anos era quase impossível ver algum tradicional lendo um pentecostal. Hoje, muitos já respeitam, mesmo que discordem em algumas questões teológicas, especialmente sobre a pneumatologia.

Escrevo este texto com a esperança que nos próximos cinquenta anos possamos enxergar o pentecostalismo como filho legítimo do protestantismo. Por que? Ora, o pentecostalismo nasceu sobre a perspectiva de resgatar práticas carismáticas que podemos ler na história da Igreja. Nenhum pilar da Reforma foi rasgado. E dizer que a crença no dom de profecia destrói o Sola Scriptura é simplesmente desconhecer completamente a teologia dos dons.

E os erros, exageros e movimentos heréticos que derivaram do pentecostalismo? Essa pergunta é o cúmulo do absurdo. Alguém poderia citar algum movimento cristão isento de problemas? Talvez o calvinismo? Ou quem sabe o metodismo? O puritanismo? O anglicanismo de Henrique? O catolicismo romano? O pentecostalismo gerou muitos problemas, mas a sua contribuição para o cristianismo é infinitamente maior. O importante é que o amadurecimento precisa ser cultivado.

Quem é leitor deste blog sabe que eu, como pentecostal, não tenho nenhum pudor em apontar os problemas do movimento que faço parte. Além disso, a minha denominação não é preservada do meu espanto expresso em textos e mais textos. Eu sei que há muito emocionalismo barato, anti-intelectualismo preguiçoso, legalismo farisáico, liturgias anárquicas, pregações superficiais, músicas antropocêntricas, politicagem eclesiástica etc. e tal. Mas é legal saber que eu aprendi que tais coisas eram erradas com outros pentecostais.

Qual a grande contribuição do pentecostalismo para o protestantismo neste século? O pentecostalismo é o bastião do cristianismo conservador. Essa é a opinião do respeitado historiador Philip Jenkins. No clássico A Próxima Cristandade lemos: “Para melhor ou para pior, é possível que as Igrejas dominantes do futuro tenham muito em comum com as da Europa medieval ou do início da era moderna. Pelos dados atuais, o futuro do cristianismo meridionalizado deverá ser nitidamente conservador.” [1] Com isso, o historiador galês quer dizer que veremos o aprofundamento da busca pelo sobrenatural graças ao avanço pentecostal.

Por que o pentecostalismo não poderá aderir em massa para o liberalismo teológico? Ora, como ser pentecostal sem acreditar em milagres? Ou negando a vivicidade das Sagradas Escrituras? Ora, para falar “noutras línguas” é necessário uma crença muito forte da autoridade das Escrituras! Ser liberal (teologicamente, falando) e ao mesmo tempo ser pentecostal é uma verdadeira contradição.

O crítico literário americano Harold Bloom afirmou há alguns anos para a Revista Época [2] em tom de lamentação e exagero: “Os EUA estão se tornando um país essencialmente pentecostal”. Bom, se isso é verdade eu não sei, mas há previsões apontando que o mundo terá um bilhão de pentecostais em 2025, ou seja, o pentecostalismo representará 45% dos cristianismo segundo estimativa de Hartford Institute for Religion Research. [3] A força desse número mostra que uma guinada certa ou errada influenciará o cristianismo como um todo.

Portanto, quem sabe que daqui cinquenta anos quando um tradicional quiser buscar uma sólida teologia conservadora não tenha que entrar em um seminário pentecostal?! Espero sinceramente que o meu otimismo não seja ingênuo! E que possamos comemorar o 31 de outubro, o Dia da Reforma, como o nosso dia.

Referência Bibliográfica:

[1] JENKINS, Philip. A Próxima Cristandade. A Chegada do Cristianismo Global. 1 ed. Rio de Janeiro: Record, 2004. p 24.

[2] Nem o Brasil está seguro. Revista Época. Edição 405 - Fev/2006.

[3] Pentecostais Serão um Bilhão no Mundo em 2025. Mensageiro da Paz, CPAD, ano 76, n 1.448, Janeiro 2006.

sábado, 20 de outubro de 2012

O mito da “manipulação midiática”

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Hoje terminou a novela “Avenida Brasil”. Assim como você, caro leitor, eu detesto novelas. Eu prefiro séries americanas, filmes com bom roteiro e outros entretenimentos. Agora, o nosso meio evangélico costuma avaliar mal a suposta influência das novelas. É a velha história que a mídia tem um grande poder de manipulação. Será que isso é verdade?

Nos anos de 1930 nasceu nos Estados Unidos a Teoria Hipodérmica ou
Mass Communication Research. Os formuladores desse pensamento defendiam que a mídia (o rádio, naquele contexto) era capaz de influenciar a massa (conjunto de indivíduos) de forma uniforme, ou seja, a informação atinge todos de uma mesma maneira e sem nenhuma resistência. É a tal da “manipulação das massas”. Foi um modelo simplista e, por isso mesmo, bem popular até a presente data.

Os evangélicos adoram essa teoria, pois sempre estão a defender que uma novela por levar inúmeras pessoas para comportamentos reprováveis. Alguns psicólogos pensam da mesma forma.  Repito que detesto novelas, mas é necessário desmistificar o poder delas.

Genericamente, a forma como a comunicação é vista pelos teóricos por ser dividida em duas noções: 1) De um lado, alguns acreditam que a mídia tem uma força para impor a sua mensagem e o indivíduo é manipulado para aceitá-la sem contrapontos. 2) Do outro lado, alguns acreditam que a mídia tem influência, mas não sozinha, pois a mesma compete com o próprio indivíduo (seus valores, seus desejos, seus anseios) e com outros atores sociais (família, igreja, partido, etc.).

Estou com a segunda posição. O poder da mídia é a persuasão e não a manipulação. Ninguém vai trair porque assisti uma novela, mas sim porque o seu coração está cheio de adultério. Culpar a novela é fácil, pois sempre foi difícil assumir a responsabilidade individual. O adúltero de coração pode até encontrar apoio nos meios de comunicação para o seu comportamento, mas a TV não vai levá-lo para um Motel segurando em seu braço. Quando um autor de novela diz que apenas representa a sociedade, infelizmente, ele está certo. Como isso não quero dizer que a mídia em nada influencia, pois o seu papel está na banalização do comportamento. Mas ninguém pode atribuir uma falha pessoal baseada na ideia que “viu na televisão e praticou”.

Por que uma emissora de TV não passa música clássica no horário nobre? Ora, isso porque a maioria das pessoas querem é “barraco, pagode e praia”. É mais correto dizer que o público influencia e demanda “produtos midiáticos” para as produtoras de comunicação. O grande problema de todos nós é a grande corrupção do nosso coração. Assim, essa corrupção busca uma mensagem que apoie suas ideias e, nisso, o entretenimento popular em muito “ajuda”.

As tiranias como o nazismo não provam o poder manipulador da comunicação? Bom, nesse sentido recomendo o livro Modernidade e Holocausto [1] de Zygmunt Bauman que mostra complexidade desse processo totalitário. Na verdade, os apoiadores do massacre aos judeus não eram loucos manipulados, mas pessoas cultas e bem informadas. Por que pessoas tão diferenciadas daquilo que chamamos “massa” foram capazes de colaborar com o nazismo? É difícil responder, mas podemos ligar claramente com a maldade inata.

É até estranho ver os evangélicos defendendo uma teoria que desenha o homem como uma tabula rasa. É uma ideia que não encontra apoio em doutrinas cristãs como o “pecado original” e a “responsabilidade humana”. Do ponto de vista teológico seria como acreditar em uma variante do determinismo. O pecado, na Bíblia, é uma ação de responsabilidade individual. Davi cantou: “Lava-me completamente da minha iniquidade, e purifica-me do meu pecado” [Salmo 51.2 grifo meu]. E ainda, a  Parábola do Semeador [cf. Mateus  13. 1-23] mostra claramente como a comunicação não é um processo hipodérmico.


Leia mais:

Sobre a relação do cristão com a cultura do entretenimento midiático.

- LINDVALL, Terrence R. e MELTON, J. Matthew. Os Cristãos e a Cultura da Mídia e do Entretenimento. em: PALMER, Michael D. (ed). Panorama do Pensamento Cristão. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2001. pp 391-426.

- COLSON, Charles e PEARCEY, Nancy. Toda Boa Música Pertence ao Diabo? em: E Agora Como Viveremos? 2 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2000. pp 543-554.

Referência Bibliográfica:

[1] BAUMAN, Zygmunt. Singularidade e Normalidade do Holocausto. em Modernidade e Holocausto. 1 ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2008. pp 106-141.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Lição 3 Joel — O Derramamento do Espirito Santo

Por Esequias Soares

[Subsídio preparado pela equipe de educação da CPAD]



O texto não menciona o período em recebeu ele os oráculos divinos, algo diferente daquilo que fizeram muitos outros profetas, como Isaías, Jeremias, Ezequiel, Oseias, Amós, etc. Ele simplesmente se apresenta como “filho de Petuel” (1.1). A data tradicional de sua composição é 835 a.C., mas os críticos liberais a questionam alegando que o livro não faz menção alguma de reis de Israel ou de Judá, nem o problema da idolatria.

Eles acrescentam ainda que a frase: “em que removerei o cativeiro de Judá e de Jerusalém” (3.1) está associada aleatoriamente com o cativeiro babilônico, e com os do período de Filipe II, rei da Macedônia, pai de Alexandre, o grande. Assim, datam o texto como obra do ano de 350 a.C.

Essas alegações são meras interpretações dos fatos, pois Joel era profeta de Judá e não é surpresa alguma a ausência do Reino do Norte em seus oráculos. Israel é mencionado três vezes, mas não como as dez tribos do norte, e sim, como a nação no fim dos tempos (2.27;3.2,16), pois os capítulos 2 e 3 são escatológicos. Há no seu livro um apelo nacional para jejum e santificação: “Congregai o povo, santificai a congregação, ajuntai os anciãos, congregai os filhinhos e os que mamam; saia o noivo da sua recâmara, e a noiva, do seu tálamo. Chorem os sacerdotes, ministros do SENHOR, entre o alpendre e o altar” (2.16,17). A mensagem menciona o povo, os anciãos, os sacerdotes, os ministros do Senhor, mas não aparece a figura do rei porque se trata do período da regência de Joaiada, durante a infância de Joás (2 Rs 11.4; 2 Cr 23.1-11), e a idolatria não era o problema de Judá naquela época. Nada afirma nesses oráculos que o “cativeiro” (3.1) seja o babilônico, e não é, pois o contexto é muito claro em mostrar que se trata do retorno da segunda diáspora, que começou em 70 d.C. A presença dos gregos no v.6 não é impossível, visto que descobertas arqueológicas registram a presença helênica ali desde o século oitavo a.C.

Os inimigos mencionados são os fenícios, “Tiro e Sidom” e a “Filístia”, (pelesheth) em hebraico (3.4[4.4]), egípcios e os edomitas (3.19), justamente os povos que na época era fortes e agressivos. Isso significa que a composição do livro aconteceu ainda num período em que a Assíria e a Babilônia não eram ameaças para Judá.

Texto extraído da obra “O ministério Profético na Bíblia: A voz de Deus na Terra”, editada pela CPAD.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Vou deixar a igreja porque não aguento esse povo...

Ouvindo isso, Jesus disse: "Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes. [Mateus 9.12]

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Você deixou a sua igreja porque nela só tinha gente com defeitos? Conte-me mais como é viver em um emprego com pessoas perfeitas? Ou em uma família sem falhas? Ou em uma vizinhança maravilhosa? Ou em uma escola que possui somente alunos excelentes. Sim, me conte sobre sua vida simplesmente irretocável.

É evidente que estou sendo irônico, mas fico impressionado com aqueles que alegam deixar a igreja por causa de seus membros imperfeitos. A minha impressão é que essas pessoas já alcançaram a iluminação. Será que não há uma nítida vaidade naquele que não vê outra coisa senão defeitos alheios? Ora, as falhas são fatos, mas os nossos próprios atos condizem com essa exigência absoluta? E por que não exigimos o mesmo grau de perfeição de outras comunidades que participamos (empresa, escola, família etc.)?

Aliás, quem romantizou a igreja para você? Certamente que não foi a Bíblia. Nas Sagradas Escrituras há os relatos de diversos seres defeituosos. Seres demasiadamente humanos. O apóstolo Pedro era impulsivo e agia com falsidade. O grande Paulo era um verdadeiro intolerante. E a igreja em Atos dos Apóstolos? Havia preconceitos contra as viúvas gregas. E aquele casal mentiroso? E a briga entre os gentios e os judaizantes?

Bom, você realmente acha que existiu perfeição no passado? É bom reler as Escrituras.

É estranho essa ideia de perfeição quando sabemos da nossa própria condição. Como eu posso exigir algo que eu não sou?

É claro que não devemos nos conformar com os erros, pois a nossa meta é lutar pela santidade da Igreja. Mas que essa ação não nos torne cegos para a nossa própria condição. Além disso, deixar a igreja pela imperfeição é como deixar um hospital por causa dos doentes.

Eu posso e devo deixar uma igreja apóstata. Eu posso e devo deixar uma igreja legalista que sufoca o Evangelho com a “salvação” do esforço humano. Eu posso e devo deixar uma igreja que ensina o caminho para a perdição. Eu posso e devo deixar uma igreja que abraça um conjunto de heresias como verdades. Mas é um erro deixar a igreja porque não achei perfeição em seus membros. É um erro quando não nos olhamos no espelho.

domingo, 14 de outubro de 2012

Os profetas veterotestamentários são percursores dos teólogos da libertação?

Vocês pisam no pobre e o forçam a dar-lhes o trigo. Por isso, embora vocês tenham construído mansões de pedra, nelas não morarão; embora tenham plantado vinhas verdejantes, não beberão do seu vinho. [Amós 5.11]

Por Gutierres Fernandes Siqueira

A pergunta acima merece um artigo acadêmico com várias análises exegéticas dos textos bíblicos, mas a proposta deste artigo é mais modesta. Agora, acho que a pergunta merece ser respondida, pois já vi várias vezes teólogos da libertação se colocando como herdeiros de uma tradição judaica de protesto. Será?

Quais são as diferenças entre os teólogos da libertação hodiernos e os profetas do passado?

1. Os profetas não aderiam a um sistema de governo. Eram a consciência crítica de qualquer governo opressor.

É inegável que os profetas no Antigo Testamento eram críticos do sistema religioso, político e social de Israel. Eles não eram adeptos do status quo e muitos tiveram vários problemas com os nativos. Mas quem disse que os teólogos da libertação contemporâneos estão fora do sistema? Ora, em países como o Paraguai, Bolívia, Nicarágua, Colômbia e até no Brasil você encontra muitos desses teólogos como parte do governo central. Hoje, eles são a “nova elite”. Que eu saiba os profetas do passado não aderiram a nenhum governo, mesmo que esse governo fosse “progressista”. Os teólogos de hoje não veem a hora de uma “boquinha” do “governo popular”.

2. Os profetas criticavam os “altos impostos” como opressores. Os teólogos da libertação adoram impostos, mesmo que não admitam.

Os teólogos da libertação não criticam os impostos porque são dependentes de um Estado inchado. O Leviatã precisa de muitos tributos para empregar diversos companheiros e sustentar políticas assistencialistas. Além disso, como acreditam no Capitalismo de Estado a dependência de estatais é forte e, claro, necessidade de uma fonte de recursos. Amós ficaria escandalizado com a carga tributária do nosso “governo progressista”. E por muito menos Israel queria rebelar-se de Roma.

3. Os teólogos da libertação instrumentalizam a ideia de “tuteladores” do povo. Os profetas denunciavam o pecado do povo.

Com os profetas não havia romantização do povo. Aliás, a palavra “povo” é uma abstração autoritária, pois os maiores demagogos instrumentalizam tal expressão a fim de conquistar poder. Os profetas não tinham medo dos governantes e nem dos governados. Se havia pecado moral ou social eles eram contra e não importava que os praticava.

sábado, 13 de outubro de 2012

Escatologia I e II


Por Gutierres Siqueira

Segue abaixo os slides das últimas duas aulas sobre "escatologia individual" no polo de teologia básica do Seminário Martin Bucer na Assembleia de Deus Ministério Redenção em Cidade Ademar, São Paulo (SP).

Escatologia I




Escatologia II

terça-feira, 9 de outubro de 2012

O próximo avivamento virá pelo YouTube?

Por Gutierres Fernandes Siqueira

É difícil enxergar boas coisas na Igreja Evangélica Brasileira. Mas o pessimismo e a crítica como modo de vida podem nos fazer cegos para bons sinais apresentados diante dos nossos olhos. Parece que, muitas vezes, esquecemos as palavras confortantes de Jesus [confira Mateus 16.18].

Ontem eu vi um desses sinais. Na noite dessa segunda-feira ouvi a pregação do pastor batista norte-americano Paul Washer na Universidade Presbiteriana Mackenzie e esse evento ascendeu o meu otimismo.

Não, o Paul Washer não pregou uma mensagem ao ego com toques de autoajuda. Ele até falou de prosperidade, mas da falsa prosperidade dos falsos profetas. Não fiquei otimista pelo Washer, pois há inúmeros pregadores igualmente sérios [logo porque ninguém sai otimista com a mensagem dele], mas sim pelo público ouvinte que ali vi.

Sinceramente, nunca tinha visto tantos jovens juntos para ouvir uma pregação sobre a "porta estreita". Não era um show ou um Hopi Hari e nem o lançamento do novo iPhone 5, mas era difícil achar um idoso na imensa fila que se formou no campus da universidade, pois o lugar estava tomado pela juventude. E eram jovens numa reverência incomum. Os ouvintes estavam atentos que nem a magia dos tablets e smartphones poderia tomar o foco.

E ali estavam tradicionais e inúmeros pentecostais.

E quando isso tudo tomou forma?
Ora, foram pregadores comprometidos com uma mensagem cristocêntrica que usam dos meios disponíveis. Sim, são aqueles que aproveitam o sucesso das redes sociais e de sites como o YouTube para lançar as boas novas. Quem dera que todos os pastores comprometidos com a boa mensagem saíssem de seu mundinho clerical e usassem os meios de comunicação para que mais jovens fossem alcançados pelo Evangelho de Jesus Cristo!

Não adianta reclamar em nosso círculo íntimo dos telepregadores enquanto eles conquistam mentes e corações. Precisamos aprender a usar os meios disponíveis para alcançar alguns assim como faz Washer (puritano), Piper (calvinista), Keller (neocalvinista), Driscoll (emergente reformado) etc.

Ora, assim estou vendo o fruto desses americanos de linha reformada que sabiamente usam a internet para atingir o futuro da igreja. Nós precisamos aprender com eles.

A pergunta do título é mera provocação. Eu sei que é ingenuidade acreditar em grandes mudanças por causa das novas tecnologias. A "Primavera Árabe" é sintomática nisso. A questão não é essa. A real questão é: não podemos jogar fora nenhum meio de comunicar o Evangelho.

domingo, 7 de outubro de 2012

Quem dera que fôssemos santos! [Devocional]

Por Gutierres Siqueira


“Quem dera fossem firmados os meus caminhos na obediência aos teus decretos”. 
Salmos 119.5 [ARF] 
“Porque, segundo o homem interior, tenho prazer na lei de Deus. Mas vejo nos meus membros outra lei que batalha contra a lei do meu entendimento e me prende debaixo da lei do pecado que está nos meus membros. Miserável homem que eu sou! Quem me livrará do corpo desta morte?”
Romanos 7. 22-24 [AC]

Nós falhamos. Aliás, nós vivemos a falhar. O pecado, infelizmente, sempre está em nossa porta. Muitas vezes, o nosso desejo é ser diferente, mas simplesmente não conseguimos, "pois o que faço não é o bem que desejo, mas o mal que não quero fazer, esse eu continuo fazendo", como disse o apóstolo Paulo [Romanos 7.19]. Acordamos de um pecado dizendo: “Agora acabou, tudo irá mudar a partir de hoje”. Mas o amanhã se torna ontem.

Se desejamos Deus, sabemos ao mesmo tempo que não conseguimos achar forças em nós para encontrá-lo. Dependemos que Ele nos encontre, pois simplesmente precisamos dEle. Somos dependentes de Sua inteira misericórdia. O grande problema é que buscamos a solução dos nossos pecados em nossa própria força e acreditamos que temos virtudes para derrotá-lo. A fé em si é vã como o vazio de um som em deserto. No dia em que nós nos entregarmos à graça de Deus para viver em santidade poderemos vencer o pecado como quem ganhar com um exército poderoso.

Sabemos que há um padrão elevado, ou seja, há um viver conforme os estatutos de Deus. Igualmente sabemos que estamos distantes dessa beleza. Desejamos que o Senhor nos transforme, pois a transformação não pode ser gerada em nossa própria capacidade. Só que esquecemos de clamar pela transformação efetuada por Ele. A nossa capacidade é simplesmente incapaz. Portanto, que a nossa oração ao Senhor seja: " Ó Deus, cria em mim um coração puro e dá-me uma vontade nova e firme!" [Salmos 51.10 NTLH]

O nosso desejo é o pecado.
Não há mérito “pois todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus” [Romanos 3.23]. O nosso prazer é a satisfação da carne. Adoramos elogios e buscamos glória como quem corre atrás de uma mãe amorosa. Somos constantemente lembrados pelo nosso ego sobre a "especialidade" do nosso ser e que o “centro do universo” está em torno do nosso "eu". Assim, ao mesmo tempo, somos “vítimas” daqueles que julgamos “incapazes” de compreenderem a gritante vaidade que habita em nós. E pior, muitas vezes, a nossa vaidade veste a capa da autopiedade e deseja ocultamente que os outros “sintam pena” de nós.

Apesar disso, rejeitamos com veemência a vaidade do "outro". Ora, o orgulho alheio é insuportável e fácil de ser identificado. Mas o “meu” próprio pecado se esconde como criança debaixo da cama.

Como somos arrogantes quando buscamos santidade em nós mesmos! Estamos dizendo que temos forças para derrotar a carne, o mundo e o diabo. Agimos como um soldado suicida que, imbuído de uma honra irresponsável e irracional, sai à guerra sem a ordem e o apoio do comandante. Assim, pensamos que o nosso “ato de coragem” nos salvará, mas simplesmente somos tragados com a nossa vaidade. Morremos acreditando em nós mesmos. Nada mais enganoso do que a idolatria do eu. Esse ídolo é tão fraco, mas igualmente cego para enxergar os seus próprios limites.

Quem dera! Assim exclama o salmista. Sim, quem dera que fôssemos santos. Quem dera que fôssemos a imitação de Cristo. Ao mesmo tempo podemos basear a nossa fé na graça divina para providenciar a santidade aos nossos corações.


Oração

Senhor, faça-me santo. Eu simplesmente não consigo vencer o meu próprio pecado e, muito menos, alcançar pelos meus caminhos os seus elevados mandamentos. Senhor, faça-me santo. Faça-me um seguidor dos teus mandamentos. Faça-me como quem segue o Senhor com um amor que pulsa paixão. Senhor, dai-me a graça da santidade. Reconheço que sou incapaz de viver em pureza. Livra-me da autopiedade. Livra-me da arrogância e da vaidade. Faça-me filho Teu. Encha o meu coração de santidade e prazer em Ti. Senhor, seja tão grande no meu coração para que o “meu eu” seja sufocado.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

A Teologia da Retribuição. Por que Deuteronômio 28 precisa ser lido com cuidado?

A Aliança e a expressão da Lei
Por Gutierres Fernandes Siqueira

Não é função fácil interpretar o Antigo Testamento. Muitas doutrinas equivocadas como a Teologia da Prosperidade e a Teologia Judaizante usam e abusam do Velho Testamento. É, também, difícil combater tais doutrinas e práticas porque elas apresentam uma "aparência bíblica" com inúmeros versículos fora do seu devido contexto. E, é claro, tudo isso nasce de uma hermenêutica deficiente ou completamente ausente.

Você certamente já ouviu clichês como: "Quem não entrega o dízimo gasta na farmácia" ou "crente que tem promessas de Deus não morre" e outras inúmeras frases infelizes. Assim como já deve ter escutado uma pregação sobre prosperidade baseada em Deuteronômio 28 e outros textos veterotestamentários. Agora, quer dizer que entregar o dízimo livra o crente de doenças e infortúnios? Quer dizer que a vida é simples como uma negociação mercantil? Só uma mente contaminada por uma visão pobre da Teologia Retribuitiva, diga-se de passagem, pode formular uma frase que não passa no teste de veracidade.

A essência da Teologia da Retribuição consiste na noção de que a fidelidade a Deus é plenamente recompensada com vida e bênção e a infidelidade é castigada com sofrimento e miséria. A retribuição divina alcança uma dimensão material, sendo a prosperidade e a estruturação familiar os pontos mais altos dessa aliança (leia-se "negociação") com Deus.

Ser fiel a Deus é garantia de prosperidade, saúde e família estruturada? O "bom crente" será sempre uma ilha de tranquilidade diante das perturbações da vida? Em outras palavras, a Teologia Retribuitiva é bíblica? Ora, a resposta é um "sim" e um "não", pois tal conclusão depende do texto lido e o contexto escolhido. Com Deuteronômio 28 e outros textos mosaicos é possível responder positivamente, enquanto que todo o Livro de Jó, o Salmo 73 e o Livro de Habacuque darão uma resposta completamente negativa. E olha que são somente exemplos em livros do Antigo Testamento. Em Hebreus 11, por exemplo, é evidente que a resposta soe negativa e, também, nas epístolas paulinas como Romanos e Gálatas.

Por que há duas respostas para a mesma pergunta? Isso acontece porque o público não é o mesmo. E acima de tudo, não se pode esquecer a Teologia da Aliança. As promessas retribuitivas da Lei Mosaica referiam-se a aliança de Deus com a nação de Israel. Não se aplicam a indivíduos ou à Igreja neotestamentária, mas somente à nação israelita como "povo escolhido". O Novo Testamento [Novum Testamentum] não é apenas um conjunto de livros pós-Cristo, mas a expressão, a aplicação e a explicação da Nova Aliança.

A Aliança com Deus

Aliança é constantemente citada como a “concordância entre Deus e os seres humanos, na qual Deus promete abençoar aqueles que o aceitarem e se comprometerem com Ele” [1]. Ainda assim, é preferível lembrar o que escreveu J. Rodman Williams:
Uma aliança divina é um contrato obrigatório estabelecido soberanamente por Deus. Há, como em alianças humanas, duas partes; mas não há acordo mútuo de termos. Uma aliança divina é uma questão de mão única; Deus mesmo faz toda a promessa e estabelece todos os termos. Trata-se essencialmente de uma aliança de Deus com o homem, não de Deus e o homem firmando uma aliança entre eles. Assim, na Escritura, a designação é com frequência “minha aliança”. A aliança ainda é bilateral, conquanto a aliança em si seja uma disposição soberana de Deus. [2]
A Aliança é um pacto de salvação, sendo que a Aliança de Abrãao norteia todo o Antigo Testamento, pois passa pela Aliança com Moisés (a revelação da Lei) e a Aliança com Davi (reafirmação do pacto), mas o seu cumprimento está na pessoa e na obra de Jesus Cristo, o filho de Davi. A aliança é uma forma de descrever o relacionamento de Deus com o seu povo e indica um contínuo trabalhar de Deus na história, ou seja, é a história da salvação.

A Aliança de Deus com o seu povo é uma só, pois é a Aliança com o seu Filho. As identificações históricas servem para entendermos o progresso da revelação, mas é necessário atentar para o fato que a “nova” aliança é a consumação da experiência genuína de salvação com a pessoa de Jesus Cristo. Era a promessa que passou por Abraão, Moisés e Davi. É a “aliança superior” (Hb 7.22 ARA), a “melhor aliança” (Hb 8.6 ARA), ou seja, “Jesus tornou-se... a garantia de uma aliança superior” (NVI). É a “aliança da graça”.

A Nova Aliança é superior, portanto, a Igreja está sob esse pacto. A Igreja não é Israel e Israel não é a Igreja. O avanço (certamente há um termo melhor) da revelação de Cristo mostra mais claramente a face da graça divina, mas ela nunca deixou de ser exposta no Antigo Pacto. “A superioridade veio do progresso da revelação e não dos erros ou deliberada falsa informação das alianças anteriores” [3].

Diante de um texto veterotestamentário é importante perguntar se tal mandamento ou tal promessa se estende a toda humanidade pela Igreja universal ou que seja somente aplicada ao povo de Israel. O mesmo vale para o mandamento do sábado ou para as concepções retributivas. O sábado, só para exemplificar,  é colocado como sinal da Antiga Aliança em Jeremias 17. E todos sabemos que a sua validade ficou restrita como sinal daquela aliança. A Aliança, portanto, "não existe no vazio, mas em um tempo e lugar" [4] e assim se entende a diferença entre Israel e a Igreja com os seus devidos papéis.

Deuteronômio 28

Portanto, o livro de Moisés e o capítulo 28 está dentro de um contexto, ou seja, o contexto da aliança de Deus com Israel. O capítulo não pode ser usado sem “observações” para uma plateia neotestamentária, ou seja, para pessoas que estão sob a Aliança da Graça. Como diz sabiamente Ron Rhodes: “Ao interpretar as promessas de Deus, deixe o contexto determinar o significado apropriado das palavras bíblicas” [5].

A Teologia Retribuitiva é um aspecto do Antigo Pacto, mas não podemos esquecer que com Cristo tudo mudou. A Aliança consumada em Cristo não é mais com uma nação, mas sim com a sua Igreja. E, a retribuição era um aspecto de aliança nacional, pois mesmo sobre os indivíduos a retribuição não parece evidente. “Na literatura sapiencial, particularmente no livro de Jó, constatamos que a teodiceia retribuitiva recebe um questionamento” [6].

Portanto, é necessário que o texto bíblico seja interpretado corretamente para que o pregador não expresse aquilo que a própria Escritura condena.


LEIA MAIS: 



Referências Bibliográficas:

[1] ERICKSON, Millard J. Dicionário Popular de Teologia. 1 ed. São Paulo: Mundo Cristão, 2001. p 12.

[2] WILLIAMS, J. Rodman. Teologia Sistemática: Uma perspectiva pentecostal. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2011. p 237-238.

[3] KAISER Jr., Walter C. Teologia do Antigo Testamento. 2 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 1984. p 276.

[4] CAMPBELL, W. S. Aliança e Nova Aliança. HARWTHORNE, Gerald F.; MARTIN P. Ralph e REID, Daniel G. Dicionário de Paulo e suas Cartas. 2 ed. São Paulo: Paulus, Edições Loyola e Edições Vida Nova, 2008. p 46.

[5] RHODES, Ron. O Livro Completo das Promessas Bíblicas. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p 26.

[6] SAYÃO, Luiz Alberto. O Problema do Mal no Antigo Testamento: O Caso de Habacuque. 1 ed. São Paulo: Hagnos, 2012. p 42.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Ninguém é puro!

John Owen

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Nesta semana conversei muito sobre puritanismo com grandes amigos de Belém (Pará). E como é bom ter a companhia de amigos que gostam de estudar a Bíblia e apreciar a teologia. E essa conversa despertou o meu desejo de assistir a palestra de um especialista em puritanismo. Estava a pouco ouvindo esse especialista. E lá, na palestra, ele dizia que os puritanos amavam tanto a Bíblia que estavam sempre dispostos a fazer o que a Bíblia afirmava. “Se a Bíblia dizia alguma coisa, eles (os puritanos) criam e seguiam aquilo”, disse o palestrante.

Não tenho nada contra o puritanismo como movimento, mas sempre fico irritado com posições exclusivistas. O primeiro livro que ganhei de presente como cristão era de um puritano. O clássico “A Mortificação da Carne” de John Owen me marcou pela expressão de piedade e zelo do autor. E, ali no prefácio, fui apresentado a um dos teólogos (também puritano) que mais gosto de ler: James Innell Packer.

Apesar disso, é necessário fazer uma crítica. Ora, será que existia tanta dependência das Escrituras por parte dos puritanos? É possível acreditar no “mito da objetividade” na própria teologia? Será que a história nos permite uma leitura tão romantizada do grupo? É melhor parar para pensar...

E, também, vamos tomar cuidado com a “tentação conservadora”, ou seja, achar que a experiência passada era idílica. Ora, o passado era complexo, assim como é o presente e assim como será o futuro. Ou o mundo puritano era puro? Ora, ninguém é puro!