segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Leituras para 2013

Por Gutierres Fernandes Siqueira


"Não há limite para a produção de livros"
[Eclesiastes 12.12]
Caros amigos e leitores do Blog Teologia Pentecostal, eu já quero desejar a todos vocês um feliz 2013. Que o Senhor derrame sobre todos a Sua infinita graça e misericórdia.

Neste post quero falar sobre os melhores lançamentos no mercado editorial e recomendá-los como leitura e consulta de estudos em 2013. Alguns, infelizmente, ainda não consegui terminar a leitura, porém espero fazê-lo o mais breve possível. Nem todos os livros são teológicos, mas todos podem contribuir para o desenvolvimento do pensamento cristão. Eu, sinceramente, espero não ter esquecido algum. E ó lembrando que são livros lançados em 2012.




Cristianismo e Liberalismo (Shedd Publicações). O teólogo John Gresham Machen escreveu esse livro no início do Século XX, mas ele continua atual. O liberalismo teológico não é um movimento criativo, mas cíclico, portanto, a crítica é antiga e nova ao mesmo tempo.  

Deus, a Liberdade e o Mal (Edições Vida Nova). Essa é a primeira obra em português do filósofo protestante Alvin Plantinga. É um livro sobre teodiceia, mas com o toque especial de quem acredita no livre-arbítrio (risos!).

O Problema do Mal no Antigo Testamento: O caso de Habacuque (Editora Hagnos). O autor Luiz Sayão faz um grande e breve passeio pelas principais ideias sobre a teodiceia. Além disso, é um comentário técnico sobre Habacuque.

Faça Alguma Coisa (Editora Mundo Cristão). Leia esse livro do jovem teólogo Kevin DeYoung. Se você é evangélico certamente passou pelo conflito “vontade de Deus” em algum momento de sua vida. É um livro gostoso de ler, pois é sempre possível se identificar com os conflitos relatados por DeYoung. É, também, um pequeno tratado contra o determinismo.

Apagando o Inferno (Editora Mundo Cristão). Se você achou que os insights de Rob Bell foi o máximo da teologia, isso na defesa do universalismo em sua obra “O Amor Vence” (Sextante), então você precisa ler esse livro de Francis Chan, onde cada ponto é desconstruído com muita base.

Léxico Grego do Novo Testamento (CPAD). O léxico de Edward Robinson tem um diferencial em relação a muitos léxicos do mercado, pois é claramente mais detalhista nos verbetes. Escrito ainda no Século XIX a obra traz uma auxílio importante para o estudo do Novo Testamento. 


Novo Manual dos Usos e Costumes dos Tempos Bíblicos (CPAD). O livro de Ralph Gower foi relançado pela editora assembleiana em uma nova edição. Com um tamanho maior é mais fácil apresentar seu conteúdo em aulas de Escola Dominical. É um belo resumão dos costumes presentes nos tempos bíblicos. 

Dicionário Teológico do Novo Testamento (Edições Vida Nova e Edições Loyola). O dicionário editado pelo teólogo Daniel Reid traz estudos sobre a teologia do Novo Testamento.  Não é um dicionário com muitos verbetes, mas apresenta a vantagem de ter um aprofundamento maior em cada assunto citado.

Uma Força Medonha (Edições Martins Fontes). Da trilogia cósmica de C. S. Lewis esse livro é uma espécie de 1984 de George Orwell. Portanto, nada melhor.

Temor e Tremor (Editora Saraiva). O clássico do existencialismo cristão de Soren Kierkegaard foi relançado em uma edição completa e de bolso pela Editora Saraiva. O livro, como vocês sabem, não é fruto propriamente de uma teologia bíblica, mas sim de uma reflexão filosófica, ou seja, é mais filosofia do que comentário bíblico. Certamente é um dos mais importantes livros da teologia contemporânea em uma edição mais acessível.

O Jesus dos Evangelhos. Mito ou Realidade? (Edições Vida Nova). O debate entre William Lane Craig e John Dominic Crossan é uma conversa de nível elevadíssimo sobre a figura do Jesus Histórico e o Jesus dos Evangelhos. Craig representa a ala conservadora e Crossan a ala mais liberal. Um aspecto que Craig levanta, por exemplo, sobre a ressurreição de Jesus era que o fato que tal ideia não cabia na crença judaica e, portanto, dificilmente poderia ser fruto da evolução mística do judaísmo como muitos liberais alegam.

Apologética Contemporânea (Edições Vida Nova). Uma das principais obras de William Lane Craig foi relançada para a defesa racional da fé cristã. Já adianto que não é um livro básico. O debate, como é natural em Craig, parte para aspectos mais técnicos e até para disciplinas das ciências exatas.

Cristo e Cultura: Uma Releitura (Edições Vida Nova). O teólogo D. A. Carson certamente é um dos meus prediletos. O que impressiona em Carson é a sua erudição e capacidade crítica. Mas antes de ler esse livro é necessário voltar para o “Cristo e Cultura” de H. Richard Niebuhr (Editora Paz e Terra). O livro de Carson não é apenas uma releitura, mas também trata sobre aspectos contemporâneos, como a relação Igreja e Estado.

O Deus Presente (Editora Fiel). Esse, certamente, é um dos livros mais básicos do D. A. Carson. Se você nunca leu nada de teologia sistemática comece por esse livro.

A Cruz do Rei (Edições Vida Nova). Se possível, leia tudo de Timothy Keller. O pastor Keller é erudito sem a “síndrome do bacharelismo”. Além disso, sempre trata de assuntos que realmente estão em sintonia com as preocupações contemporâneas. Outro fato marcante em sua obra é a advertência contra a moralização da salvação, e ele volta a esse assunto no referido livro.

Chesterton: Autobiografia (Editora Ecclesiae). Apesar do latente antiprotestantismo de Chesterton e dos editores, a obra é importante como apologética cristã. Além, é claro, divertida. É quase impossível não rir lendo Chesterton.

A Infância de Jesus (Editora Planeta). O último livro da ótima trilogia  “Jesus de Nazaré” escrita pelo teólogo católico Joseph Ratzinger.

O Racismo: A Cruz e o Cristão (Edições Vida Nova). Esse livro é como um testemunho pessoal de John Piper com o racismo. É claro que a experiência de segregação norte-americana não se compara com o racismo “cordial” no Brasil, mas a obra também fala sobre a diversidade ética e sobre a nossa dificuldade para lidar com diferenças.

Vincent: Estudo no Vocabulário Grego do Novo Testamento (CPAD). O texto de Marvin R. Vincent é um comentário exegético e um estudo léxico-gramatical. Outro importante auxílio para estudos mais aprofundados.

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Temática secular

Guia Politicamente Incorreto da Filosofia (Editora Leya). A obra do Luiz Felipe Pondé é quase um deboche contra o pensamento politicamente correto que domina a academia, a imprensa, os formadores de opinião e os literatos, além de alguns teólogos. Certamente você vai aprender e se divertir bastante.

Tremendas Trivalidades (Editora Ecclesiae). Obra de G. K. Chesterton com ensaios e crônicas.

Alegoria do Amor: Um Estudo da Tradição Medieval (É Realizações). É raro em português obras do crítico literário C. S. Lewis. Conhecemos mais o Lewis como apologeta cristão e escritor de literatura infanto-juvenil. A obra é um estudo da literatura, principalmente inglesa, na Idade Média.

As Ideias têm Consequências (É Realizações). O clássico de Richard M. Weaver é um tratado contra as ideias totalizantes e, portanto, totalitárias, como as principais utopias do século XIX e XX- socialismo, nazismo, fascismo etc.  Mas nada trata da história das nações, mas sim sobre ideias simples e cotidianas que afetam a relação de justiça na sociedade para utopias opressoras. Ele mesmo define o livro como sobre a “dissolução do Ocidente”.

O Que o Brasil Quer Ser Quando Crescer? (Editora Paralela). Você acha que o Brasil gasta pouco com educação? E se você descobrir que, proporcionalmente, o país gasta mais do que o Japão e a Coreia do Sul - que são exemplos de qualidade. Além de gastar mal, o real problema é a estrutura pedagógica que idealizou o ensino como uma espécie de “escola para o novo homem”. O economista Gustavo Ioschpe mostra essa ferida em nossa educação e, também, porque mais e mais verbas não tirarão o país desse atraso monumental.

O Que o Dinheiro Não Compra (Civilização Brasileira). O famoso professor de direito de Harvard, Michael J. Sandel, fez sucesso com vídeos no YouTube. Eu sei que os meus amigos libertários não vão gostar dessa obra, mas Sandel mostra uma obviedade: o dinheiro não compra tudo. Ele não é contra o livre mercado, mas mostra que há limites morais para as leis de demanda e oferta.

Privatize Já (Editora Leya). O economista Rodrigo Constantino escreve sobre um tabu no Brasil: as privatizações. É uma defesa apaixonada, mas racional sobre a geração de riquezas de um país pelo capital privado. O melhor: é diminuir a influência do poderoso Estado sobre nossas vidas.

As Leis Secretas da Economia: Revisitando Roberto Campos e as Leis do Kafka (Editora Zahar). Um dos livros de economia mais fluídos que li. O autor é o professor Gustavo Franco, ex-diretor do Banco Central e especialista em literatura. Só que o Kafka mencionado não é o mesmo da Metamorfose. Você entenderá melhor o país lendo esse livro.

O País dos Petralhas II (Editora Record). O título não faz justiça ao conteúdo do livro de Reinaldo Azevedo, pois não é meramente implicância com um determinado partido político, mas sim uma obra que revela e desnuda toda uma cosmovisão autoritária presente neste país.

Por que Virei À Direita (Editora Três Estrelas). É outro livro que pode assustar pelo título, mas uma vez que você abre não vai querer parar de ler. A obra é composta de três ensaios sobre o conservadorismo escritos por João Pereira Coutinho (sendo o melhor ensaio, na minha opinião), Luiz Felipe Pondé e Denis Rosenfield.

Belínda 2.0. (Civilização Brasileira). O economista Edmar Bacha, um dos país do Plano Real, mostra o país de contrates e explica porque somos assim.

Feliz 2013 e boa leitura!

domingo, 30 de dezembro de 2012

Profecias de morte?

João Batista
Pintura de Titian (1542)
Por Gutierres Fernandes Siqueira

No último post  escrevi sobre o exercício da profecia e o seu necessário julgamento [leia aqui]. Um comentarista anônimo contestou o texto afirmando que a Bíblia apresenta “profecias de morte”. Será verdade?

Há vários relatos bíblicos sobre profecias de juízo (e morte). O profeta Micaías (cf. 1 Reis 22) e  o profeta Isaías (Isaías 38) foram usados por Deus para falar sobre a morte de reis. Isso é um fato. Mas vamos aos “poréns”:

a) Quando um assunto está exclusivamente no Antigo Testamento devemos observar o “princípio do continuísmo” entre as duas Alianças. Ora, por que em o Novo Testamento não se usa a profecia como juízo diretivo? Há continuidade nessa forma profética entre as duas Alianças? Vemos claramente que não.

b) A profecia entre o Antigo e o Novo Testamento apresenta semelhanças e diferenças. O Ministério Profético acabou em João Batista, o último profeta da Antiga Aliança (cf. Mateus 11.13). A profecia no Antigo Testamento começava como uma autoridade incontestável. A expressão “assim diz o Senhor” não se repete na profecia do Novo Testamento, pois essa não tem autoridade escriturística, ou seja, não é Palavra de Deus como fala definitiva ou oficial. Ágabo, por exemplo, utiliza a expressão “isto diz o Espírito Santo” em lugar do tradicional “assim diz o Senhor” (cf. Atos 21.11).  A mudança é sutil, quase imperceptível, mas mostra claramente a continuidade e descontinuidade do Ministério Profético entre Antigo e Novo Pacto.

c) É claro para o apóstolo Paulo que a profecia tem um tríplice propósito.Mas quem profetiza o faz para a edificação, encorajamento e consolação dos homens”, escreveu Paulo [1 Coríntios 14.3]. A profecia de morte não obedece nenhum desses propósitos. A edificação comunitária da igreja pelos dons, o grande tema de Coríntios, passa por uma profecia que edifica, encoraja e consola. Como a profecia de morte pode ajudar na edificação comunitária? E esses aspectos falam tanto da mensagem como da forma.

PS: Outro leitor fez uma pergunta sobre a “profecia casamenteira” e o texto de Gênesis 24. No texto bíblico há a história de Isaque e Rebeca, onde o servo de Abraão busca a noiva de seu filho com ajuda divina. Assim, esse texto chancela a “profecia de casamento”? Não, o versículo 58 diz: “Chamaram Rebeca e lhe perguntaram: ‘Você quer ir com este homem?’ ‘Sim, quero’, respondeu ela.” Portanto, a liberdade de Rebeca nunca esteve quebrada pelo determinismo que haveria, por exemplo, em uma profecia de casamento. A profecia nunca pode dirigir, sendo possível somente a confirmação de fatos já encaminhados. Leia mais aqui e aqui.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Morre João Kolenda Lemos!



Por Gutierres Siqueira

Todos vocês já sabem que hoje morreu o pastor João Kolenda Lemos (1922-2012). A importância do reverendo Lemos para a Assembleia de Deus é enorme, pois juntamente com sua esposa Ruth Dorris Lemos ele enfrentou diversas dificuldades para implantar o ensino teológico formal em um ambiente totalmente anti-intelectual.

O casal fundou o Instituto Bíblico das Assembleias de Deus (IBAD) em março de 1959. Portanto, somente quando as Assembleias de Deus completaram 48 anos é que esse bravo casal conseguiu estabelecer o primeiro seminário teológico assembleiano. Na época, muitos pastores tinham tanta ojeriza pelo estudo sistemático que defendiam a exclusão do casal pela denominação.

Portanto, graças ao bom Deus, o casal Kolenda venceu!

Leia mais: o pastor Geremias do Couto, aluno do pastor Kolenda, escreveu um post sobre o assunto. Veja aqui.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Eu posso julgar uma profecia?

Os lábios de Isaías tocados pelo fogo,
por 
Benjamin West
Por Gutierres Fernandes Siqueira

Em Março de 2007,  eu preguei sobre o “amor como regulador dos dons espirituais” baseado em 1 Coríntios 13. Naquele culto havia um rapaz que ouviu toda a minha pregação com bastante atenção, mas ele estava claramente nervoso. Quando eu acabei de falar, o jovem levantou do banco da “mocidade” e foi até o púlpito onde “profetizou” a minha brevíssima morte e deu uma sentença: eu iria morar no inferno por pregar heresias!

Em nenhum momento, graças ao bom Deus, deixe-me levar pela falsa profecia. No dia seguinte, o pastor local pediu ao jovem profeta que citasse nas Escrituras as minhas “heresias”. Ele limitou-se a dizer: “Pergunte para Jesus”. Infelizmente, aquele jovem não se retratou e continuou a “profetizar” outras mortes até sair daquela congregação.

Hoje, quando lembro desse fato, sinto pena desse rapaz, assim como de inúmeras pessoas que acreditam em falsas profecias.

Voltando ao título e respondendo a questão levantada. Posso julgar uma profecia? Não somente pode, mas deve! Não nos esqueçamos que é uma obrigação cristã analisar todas as profecias. O apóstolo Paulo escreveu: “E falem dois ou três profetas, e os outros julguem.” [1 Coríntios 14.29]. O apóstolo João fala que devemos “provar os espíritos”: “Amados, não creiais a todo o espírito, mas provai se os espíritos são de Deus, porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo”. [1 João 4:1]. Em apenas dois textos vemos claramente um mandamento.

Nós, também, não podemos desprezar as profecias, mas isso não impede de examinarmos aquilo que ouvimos. Paulo ainda diz: “Não extingais o Espírito. Não desprezeis as profecias. Examinai tudo. Retende o bem” [1 Tessalonicenses 5.19-21]. Veja que mesmo quando Paulo alerta sobre o “não desprezar”, ele nos lembra sobre a necessidade de examinar. Ou seja, uma prática não extingue a outra. Portanto, receba toda profecia com respeito, mas nunca deixe de analisá-la e, também, despreze a falsa profecia.

Muitas vezes, erroneamente, se coloca na cabeça do povo que é errado analisar (provar, julgar etc.) uma profecia. O erro é justamente deixar de fazer tal análise. E qual o critério para verificar uma profecia? A Palavra de Deus! Diante de uma profecia (ou qualquer outra palavra dita em nome de Deus) sempre devemos perguntar: Isso condiz com as Sagradas Escrituras?

O critério, repito, é a Palavra de Deus. Veja que não é um “sentir” ou um “arrepio” e nem qualquer outra manifestação do sistema sensorial. Além disso, não é porque você “vai com a cara” do profeta que a profecia seja de Deus (e o contrário, também, é verdadeiro).

Vejamos algumas profecias claramente antibíblicas:

a) Profecias de casamento. Ora, profecia não é horóscopo e nem serve para determinar decisões que devem ser tomadas pelo critério da sabedoria e discernimento. O mesmo serve para outras decisões (abertura de um negócio, por exemplo) que são terceirizadas para profetas.

b) Profecias de morte. O apóstolo Paulo mostra que a profecia tem um triplo objetivo: “Mas quem profetiza o faz para a edificação, encorajamento e consolação dos homens.” [1 Coríntios 14.3 NVI]. Onde que uma profecia de morte “edifica, encoraja ou consola” um ouvinte?

c) Profecias de vontade própria. O pregador que manda a igreja profetizar certamente nunca entendeu a natureza da profecia. Ora, a profecia não é fruto de vontade própria. A profecia deve ser pronunciada quando recebida, mas nunca sob coerção ou incentivo. Quem manda a profecia é Deus e não a minha ou a sua vontade. Além disso, é um completo absurdo marcar hora para profecias em cultos temáticos ou programas midiáticos.

d) Profecias com meias verdades. Essas são as mais perigosas. Já diz o provérbio chinês que toda “meia verdade é sempre uma mentira inteira”. Muitas vezes Deus até deu a profecia para uma pessoa, mas em sua empolgação, o portador do dom acaba exagerando na mensagem a ser transmitida [cf. I Crônicas 7. 1-4] . É bom lembrar que Deus impulsiona a mensagem, mas não cada palavra a ser dita. Leia 2 Samuel 12 e veja, por exemplo, que o profeta Natã usa uma parábola para complementar a mensagem da profecia. A profecia não é uma espécie de psicografia.

Sejamos, portanto, cautelosos com a profecia, pois uma falsa palavra transmitida sempre causa inúmeros prejuízos para a igreja local.



LEIA MAIS:

Profecia de Morte? [Leia aqui]

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

sábado, 22 de dezembro de 2012

Quando a cristologia perdeu para os “usos e costumes”!

Cristologia? O que é isso? 
Por Gutierres Fernandes Siqueira

Há pouco eu estava lendo uma tese de doutorado sobre as Assembleias de Deus escrita pelo colega sociólogo Gedeon Alencar. Entre todas as observações, teve uma em particular que me chamou mais a atenção. Alencar escreve sobre a Assembleia de Deus brasileira:

Conquanto ao longo dos cem anos nas Convenções, periódicos e igrejas locais sempre se discutiram diversos temas, nunca se publicou oficialmente algum documento teológico, por exemplo, sobre a Santa Ceia, Cristologia, (algo comum na [Igreja] Católica e também igrejas protestantes e também nas AGs  [Assembleias de Deus norte-americana]), portanto, se destaca o fato de que o tema “Usos e Costumes” mereceu encontros e documentos. [1]

Na verdade, o tema “usos e costumes” mereceu três documentos oficiais da Convenção Geral (1940, 1975 e 1999). Mas alguém conhece algum documento sobre cristologia? Algum escrito oficial sobre a eclesiologia? Algum catecismo? Qual é a posição oficial sobre diversos temas éticos (aborto, divórcio, política partidária, união civil de homossexuais etc. e tal)? Ora, até há duas décadas nem “confissão de fé” tínhamos.

É triste e lamentável que uma denominação dita cristã e protestante tenha em seu satélite de preocupações os “usos e costumes” mais do que a pessoa de Jesus Cristo. Isso em parte é reflexo de problemas centenários nas Assembleias de Deus: a) ignorância institucionalizada; b) legalismo; c) semipelagianismo; d) e uma liderança excessivamente política e pouco teológica.

Ainda há tempo para mudanças.



Referência Bibliográfica:

[1] ALENCAR, Gedeon Freire de. Assembleis Brasileiras de Deus: Teorização, História e Tipologia- 1911-2011. Pontifícia Universidade Católica: São Paulo, 2012. p 229.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Moralismo é como tatear na névoa...

A moral, assim como a Lei, nos aponta o caminho
 certo e errado, mas é incapaz de nos transformar.

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Moralismo é tatear na névoa. É uma busca sem sentido. A forma como o texto bíblico traz o diálogo do jovem rico mostra que a dúvida  era no fundo sincera ("O que devo fazer para ser salvo?" (cf. Mateus 19.16). O moralista sente a necessidade de fazer algo, mas não sabe bem o quê.  A necessidade moral é tangível, corpórea, ou seja, deve ser óbvia para os sentidos. Não é à toa que tradições moralistas, sejam cristãs ou não, são praticantes da ascese e apresentam grande problemática com a sexualidade. E, também, em sua confusão buscam sempre um novo “exercício prático” para elevação do espírito ou uma nova regra para disciplina do corpo.

Ora, qualquer semelhança com o legalismo nas igrejas evangélicas não é mera coincidência. O legalismo não é somente um equívoco fruto de uma ignorância autoimposta. O legalismo é um desprezo pelo Evangelho da Graça. Legalismo não é trivial, coisa menor ou uma imaturidade tolerável, pois o desprezar da graça traz consequências eternas.

E mais, tal fato expressa outra vez a diferença entre moralismo e Evangelho. O Evangelho não é para tatear, mas para crer. Ora, eu não vou fazer, mas Cristo fez por mim? Sim, mas isso é um ato de fé nEle. É realmente estranho para qualquer ser humano pensar abstratamente que um ato feito há dois mil anos faça em sua vida uma transformação completa sem uma ação objetiva de sua parte no presente momento. É necessário crer na ação do Espírito Santo.

Moralismo é bom, mas limitado. Moralismo não é Evangelho. Moralismo é o esforço do homem para alcançar a Deus, enquanto que o Evangelho é Deus resgatando o homem de si mesmo.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

O “bem comum” forçado é apenas a maldade compartilhada...

152 p./ 14x21 cm/
Editora Shedd Publicações
Por Gutierres Fernandes Siqueira

Há algum tempo estou para recomendar algumas ótimas obras teológicas lançadas pelas principais editoras evangélicas. Um desses livros é o clássico Cristianismo e Liberalismo (Shedd Publicações, 2012) do teólogo John Gresham Machen (1881-1937). O título já havia sido lançado em 2001 pela editora Os Puritanos, mas estava esgotado.

Machen tem ótimos insights sobre o conhecido “liberalismo teológico”. Concordo com Machen que o termo é insuficiente e inadequado para expressar essa escola de pensamento religioso. Há muito tempo penso que é uma vitória de marketing se colocar como “liberal”, seja porque o termo é normalmente associado com aspectos positivos ou seja porque “liberal” não combina com uma teologia onde a autonomia e o indivíduo são desprezados em nome do coletivismo.

A crítica de Machen é bem pensada. Não é superficial e nem repetitiva como em muitos autores fundamentalistas. Penso que há uma necessidade de divulgarmos essa obra para teólogos leigos e seminaristas. Falo isso porque vertentes desse pensamento estão cada vez mais populares nas terras tupiniquins. Ora, quem nunca ouviu clichês como “eu quero seguir uma Pessoa e não uma doutrina”?

Certamente escreverei vários posts sobre os pensamentos de Machen, mas hoje começo com um trecho inicial do livro onde o autor defende brilhantemente a autonomia do indivíduo perante “os burocratas da bondade”. Machen lembra sobre o perigo na falsa propaganda do “bem comum” enquanto o “cara de bem” suprime a liberdade individual.

‎"Todo o desenvolvimento da sociedade moderna tende fortemente para limitação da esfera de liberdade da pessoa como indivíduo. [...] A partir do momento em que uma maioria determinou que certo regime é benéfico, esse regime, sem hesitação, será forçado brutalmente sobre os indivíduos. Parece que nunca ocorreu aos legislados modernos que apesar de o 'bem comum' ser bom, o bem comum forçado pode ser mau. [...] No interesse do bem-estar físico, os grandes princípios da liberdade têm sido lançados aos ares." [1]

A frase é fantástica porque escrita foi antes do ápice experimental do nazismo(Alemanha) e do fascismo (Itália). O livro é de 1923. Esses regimes expressaram a força totalitária de uma sociedade moderna na implantação de um suposto “bem comum”. A frase acima poderia, também, resumir o espírito da crítica distópica do clássico 1984 de George Orwell, mas que foi escrito somente em 1948.

Portanto, leia, leia e leia J. Greshan Machen... 



Referência:

[1] MACHEN, John Gresham. Cristianismo e Liberalismo. 1 ed. São Paulo: Shedd Publicações, 2012. p 16.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

A escatologia do medo

Por Gutierres Fernandes Siqueira

“Consolem-se uns aos outros com essas palavras”. [Apóstolo Paulo em 1 Tessalonicenses 4.18]

Vale a pena expressar, antes de começar, que este artigo não é uma análise teológica (e crítica) do dispensacionalismo em si. Então, se você é um militante dessa corrente, saiba que não vou debater sobre a melhor ou a pior escola escatológica. Mas, é inegável que a “escatologia do medo” é um subproduto do dispensacionalismo.

O dispensacionalista pode alegar que a escaterrorismo é uma interpretação equivocada da corrente. E talvez seja verdade. Mas é interessante o quanto de tempo e espaço um pré-tribulacionista dispensacionalista gasta com o tema “grande tribulação”. Ora, por que um espaço equivalente não é usado para falar do milênio (que no dispensacionalismo é literal)?

No versículo que abre este artigo o apóstolo Paulo fala sobre a vinda de Cristo (cf. 1 Tessalonicenses 4.18. Independente da interpretação, é fato que o propósito da escrita está no versículo 18: o “consolo”. A escatologia deve ser motivo de celebração e não de atemorização. Ora, ninguém é realmente convertido pelo medo.

O verbo “consolar” (gr. parakaleite de parakaleó)  está no presente do indicativo e na voz ativa[1], ou seja, isso indica que Paulo está incentivando uma ação continuada por parte dos leitores (e ouvintes) daquela carta. É a função de confortar, consolar e encorajar a comunidade cristã com ensinos sobre a vinda do Senhor. E todos vocês sabem que parakaleó é uma das funções do Espírito Santo, o Consolador por excelência (cf. João 14.16).  Um dos significados da palavra grega é “chamar para perto”[2] ou “chamar ao próprio lado” [3]. Portanto, a função do escatólogo é a consolação do ouvinte. Sim, mesmo que a mensagem seja de juízo e advertência, mas o propósito consolador não deve ser esquecido.

Tal alegria e consolação com a vinda de Cristo lembra o maravilhoso hino O Rei Está Voltando da Harpa Cristã. A letra transpira aquela espectativa joanina do “Ora vem, Senhor Jesus”. [Apocalipse 22.20]. Se perdemos essa beleza da espera pelo Pai perdemos um pouco da beleza do Evangelho.

O Rei Está Voltando
1
Os fiéis são trasladados; seu trabalho aqui findou. A carreira desses santos, nesta vida já cessou. Do Senhor os bons ceifeiros, terminaram seu labor; A colheita completou-se: é a vinda do Senhor!
Coro
O Rei está voltando! o Rei está voltando! A trombeta está soando, para os santos trasladar. Sim, o Rei está voltando! o Rei está voltando! Aleluia! Ele vem nos buscar!
2
Desta Terra estão subindo os remidos para o céu, Ao encontro do Deus Filho, que aparece além do véu. E o templo está deserto; sua pregação cessou. É noticia em toda parte: "Jesus Cristo já voltou!"
3Os remidos vão subindo: é a festa celestial: Todo o Céu está se abrindo, num "Bem-vindo!" sem igual, Qual o som de muitas águas, nós ouvimos entoar Aleluias ao Cordeiro! - vamos indo para o Lar!


Referências Bibliográficas:

[1] RIENECKER, Fritz e ROGER, Cleon. Chave Linguística do Novo Testamento Grego. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 1995. p 444.

[2] STRONG, James. Dicionário Grego do Novo Testamento. em: BENTHO, Esdras Costa (ed.). Bíblia de Estudo Palavra-Chave: Hebraico e Grego. 4 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2009. p. 2339.

[3] ROBINSON, Edward. Léxico Grego do Novo Testamento. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2012. p. 690.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Eu posso beber vinho?

O vinho de Cristo era o melhor!
Por Gutierres Fernandes Siqueira

Já me fizeram essa pergunta diversas vezes. Agora, o que me intriga na questão, em sua maioria, é o espírito dela. Devemos tomar muito cuidado ao responder esse tipo de questionamento, logo porque muitos não estão em dúvida, mas sim em busca de alguém para chancelar sua prática. É como aquele que busca na Constituição uma lei em seu benefício ou na Bíblia um versículo que aprove o seu pensamento.

Bom, é evidente que não há nenhuma proibição bíblica para o consumo moderado do vinho, e enquanto as Escrituras condenam fortemente a embriaguez (e.g. Gálatas 5.21). Ora, o próprio Cristo multiplicou o vinho. Ele o faria se o consumo de uma bebida fermentada fosse pecado? Falar que Jesus multiplicou “suco de uva” é forçar o texto bíblico. É uma “eisege” com boa intenção, mas não deixa de ser malabarismo exegético. Leia a maior parte dos comentários exegéticos de João 2 e verá um consenso quanto a esse fato. O teólogo D. A. Carson, em um dos melhores comentários no mercado, escreveu sobre João 2:

O “vinho” (oinos) que era necessário não era um mero suco de uva, um genérico “fruto da videira”. A ideia é intrinsecamente boba quando aplicada a países cuja tradição agrícola está tão comprometida com a viticultura. Além disso, no versículo 10, o mestre de cerimônias espera que nessa altura da festa alguns dos convidados já teriam bebido bastante: o verbo methysô não se refere a consumir líquido em demasia, mas à embriaguez. Por outro lado, o vinho no mundo antigo era diluído com água na proporção de um terço e um décimo de seu poder fermentado, isto é, algo mais fraco que a cerveja estadunidense. O vinho não diluído, como aproximadamente a mesma potência do vinho de hoje, era visto como “bebida forte”, e recebia muito mais desaprovação. [1]

Vemos no comentário do Carson uma explicação bem equilibrada sobre o termo oinos. É vinho fermentado, portanto, com potencial embriagante. Normalmente não tão forte com os atuais, uma vez que era diluído em água, mas também não era um mero suco de uva. Somente alguém que seja influenciado pelo seu próprio “puritanismo”  pode ignorar o potencial embriagante da bebida usada pelos servos de Deus nas Escrituras, incluindo o próprio Cristo.

Ora, a embriaguez é como o pecado da glutonaria. Não é a comida o próprio pecado, mas sim o consumo exagerado. O mesmo serve para a bebida. É engraçado que não medimos forças contra um pecado e ignoramos o outro. Ambos estão na terrível lista das obras da carne [cf. Gálatas 5.19-23].

Por que sou abstêmio?

Bom, já sabemos que o consumo não embriagante do vinho não é condenado nas Escrituras. Paulo, o apóstolo, até reconhecia a valor medicinal da bebida [cf. 1 Timóteo 5.23], enquanto recomendava que o homem chamado ao ministério da Palavra e ao diaconato não fosse “dada a muito vinho” [1 Timóteo 3.3,8]. Veja que Paulo não proíbe o consumo, mas sim o exagero.

Apesar de saber disso, o propósito desse texto não é legislar em causa própria. Eu não bebo nenhuma bebida alcoólica. Não me acho mais especial por isso. Talvez um dia até passe a consumir. Escrevo o texto para mostrar que não há base para a proibição do consumo moderado. Não podemos distorcer as Escrituras porque achamos a abstinência é o melhor caminho.

Sou abstêmio porque escolhi ser assim. Além disso, precisamos lembrar de Romanos 14. Recomendo que você leia com a devida atenção todo o capítulo. A essência do texto mostra que muitas vezes é necessário renunciar alguns direitos para não ofender o irmão mais fraco. Sim, há limites para isso. Nós, também, não podemos ser escravos da consciência alheia, mas o mandamento do amor nos exige certo sacrifício.

É necessário cuidado para que não sejamos embriagados da nossa própria liberdade. Deus não nos chamou para escandalizar outros a fim de mostrar como somos “evoluídos”. Agora, que também não sejamos perpetuadores do legalismo justificado com a falsa exegese.

Referências Bibliográficas:

[1] CARSON, D. A. O Comentário de João. 1 ed. São Paulo: Shedd Publicações, 2007. p 169.

sábado, 8 de dezembro de 2012

A pobreza da Música Pentecostal

Por que o "reteté" nunca acontece
com uma música que fala sobre a cruz de Cristo?
Por Gutierres Fernandes Siqueira

A Música Pentecostal é um gênero bem específico. Se você é de uma igreja tradicional ou até mesmo neopentecostal raramente ouvirá esse ritmo. A chamada Música Pentecostal é marcante no ambiente assembleiano e em igrejas de liturgias parecidas com as Assembleias de Deus. As principais expoentes são as cantoras Cassiane, Lauriete, Damares, Elaine de Jesus, Vanilda Bordieri etc.

O principal compositor desse gênero é o pastor Elizeu Gomes. O músico Gomes estudou no Hosanna International Seminar, o mesmo seminário que publica a “Bíblia Revelada”. Revelada? O nome já diz tudo. O seminário é uma versão “pseudoerudita” de um pentecostalismo dado a extravagâncias litúrgicas e pregações cheias de analogias abusivas. É um daqueles seminários que oferece “mestrado” em um kit com 25 apostilas.

Mas por que falo em pobreza? Ora, a chamada Música Pentecostal é incrivelmente pobre: tanto em estilo como em teologia.

Estilo

É incrível como todas as músicas são perecidas. O ritmo começa lento como se fosse uma seresta (espécie de serenata) ou um brega melódico e depois parte para uma agitação repentina. A agitação normalmente vem em ritmo de forró, sertanejo, axé ou como marcha. A previsibilidade do ritmo é altíssima. Você sempre sabe que na metade da música haverá uma mudança. As notas musicais variam pouco entre uma e outra música. Não é à toa que as igrejas pentecostais estejam cheias de “vocais” e com raros corais.

Teologia

Bom, quem faz mestrado com apostilas recebidas pelo correio não pode ser considerado um mestre. Falta, no mínimo, honestidade intelectual. E fazer músicas com uma teologia pobre de Bíblia e sem a correta interpretação? Ora, são músicas que falam em uma “porção dobrada do Espírito” como se a expressão referisse a todos nós. Onde anda a correta interpretação bíblica? Bom, e eu nem preciso falar sobre a ênfase na vitória, a centralidade nas necessidades humanas, a exaltação da vingança, a ausência de um culto a Deus etc. e tal.

Vale lembrar o velho Donald Gee, ainda na década de 1930, alertava os pentecostais sobre o desvio em sua música:

Gostaria que os nossos hinos fossem mais de adoração. Setenta e cinco por cento de nossos cânticos hoje falam mais sobre nós mesmos, sobre nossos sentimentos e experiências. É tempo de chegarmos à igreja para cantarmos ao Senhor. Seria uma boa coisa realizar uma ou duas reuniões onde chegássemos para ministrar ao Senhor, onde chegássemos para trazer-lhe algo. [1]

Portanto, a pobreza da música torna a nossa igreja pentecostal mais pobre.

Referência:

[1] GEE, Donald. Como Receber o Batismo no Espírito Santo: Vivendo e Testemunhando com Poder. 6 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p 71. O título original é Pentecost (Pentecostes, em português). A partir do ano 2000 a editora trocou o título pelo descrito acima. O título é muito infeliz, já que o próprio autor condena a ideia de uma “fórmula” para receber o “revestimento de poder”.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

O pentecostalismo ainda é o mesmo?

O "fogo" do montanismo apagou sobre o descuido doutrinário.
Por Gutierres Fernandes Siqueira

É impressão minha ou a pregação sobre batismo no Espírito Santo e dons espirituais é cada vez mais rara nas igrejas pentecostais? Bem que, na escala de urgência, a pregação sobre Cristo e a sua cruz é também raríssima e mais dramática em sua necessidade primordial. Sim, eu sei, todo tipo de pregação que não seja a “autoajuda vulgar” anda em baixa nos púlpitos pentecostais, mas, não deixa de ser interessante (e espantoso) que o pentecostalismo perca a sua principal referência doutrinária nos sermões.

Não sei se é exagero, mas talvez já vivamos uma era pós-pentecostal. Não confunda essa afirmação com o neopentecostalismo, mesmo que exista uma ligação íntima entre os dois fenômenos. A era pós-pentecostal é a era das pregações sensacionalistas do passado, mas recheados de uma tônica centralizada no homem. É diferente daquela emoção produzida pela crença que o crente era um agente do Espírito Santo capacitado com poder para testemunho do Evangelho. A emoção de hoje é ver Deus como um agente serviçal e vassalo.

O “cristianismo” contemporâneo em suas versões televisivas e festivas (neopentecostalismo) e em sua versão erudita e culta (liberalismo) rebaixou Deus ao homem de uma forma mais eficaz do que sonhavam aqueles mais fanáticos céticos no Iluminismo francês. É um "deus" pós-divino, mas como um grande mestre neutro e distribuidor de presentes.

A era pós-pentecostal não é tradicional ou cessacionista, mas simplesmente ignorante sobre a sua própria doutrina. É emocionalista, mas com uma emoção canalizada na mensagem agradável aos ouvidos. O pós-pentecostalismo é ainda parecido com o antigo em termos de “anarquia litúrgica”, mas sem referência no dogma. É a era do pentecostalismo abraçado ao pós-modernismo. Sem firmeza doutrinária não há movimento que sobreviva muito tempo.