quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Afinal, Deus ama ou odeia o pecador?

O retorno do filho pródigo (Rembrandt, 1627)

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Se você é arminiano responderá que Deus ama o pecador, mas aborrece o pecado. Se você um calvinista - daquele tipo militante e chato - certamente responderá com baba na boca que Deus odeia os pecadores, assim como o próprio pecado. Bom, afinal de contas, Deus ama ou odeia os pecadores? Devo responder essa questão biblicamente como arminiano ou calvinista? A resposta é: as duas coisas, pois Deus tanto ama como odeia o pecador.

Reconheço que é dura a tarefa de explicar algo tão complexo em um post breve.  Ainda posso, com toda razão, ser acusado de escrever um artigo superficial e simplista. Bom, sei das minhas limitações, mas ainda assim grave essa frase com a chave do texto: Deus ama e odeia o pecador.   

A primeira objeção a minha argumentação é de natureza lógica. Ora, se eu amo não odeio, mas se odeio eu não amo, assim como praia é praia e campo é campo. Agora, quem disse que o pensamento bíblico é restrito à razão? Adoramos um Deus que é três em um; celebramos o Cristo que é plenamente homem e plenamente Deus; louvamos o Deus infinito que encarnou como bebê; sabemos que Deus é completamente Soberano, mas ainda assim concedeu liberdade ao homem. É possível explicar qualquer uma dessas verdades cristãs pela lógica elementar? É claro que não. Da mesma forma, é possível afirmar que o Senhor ama e odeia um pecador.

O teólogo Luiz Sayão argumenta:

Uma das razões pelas quais criamos uma teologia limitada assim é a nossa herança racionalista. Os antigos hebreus e cristãos sabiam que a realidade era muito mais complexa do que a nossa razão. Além disso, entendiam que certas dimensões da fé aparentemente distintas não eram necessariamente contraditórias. O problema é que quando nossa teologia se “helenizou” exageradamente, adotamos uma logicamente simplista que nos trouxe diversos problemas. [1]

Deus é um Ser pleno. Ele é plenamente amor, mas plenamente justo. Ora, o Seu amor não é maior que a Sua justiça, assim como a Sua justiça não é maior que o Seu amor. A cruz, por exemplo, é um gesto de justiça ou de amor? Como diz poeticamente o hino Grata Nova:Mostra ao triste pecador, que na cruz estão unidos a justiça e o amor” [2]. Por que uma virtude não se sobressai sobre a outra? Ora, pelo simples fato que em Deus nada é incompleto. É por isso que não é possível acreditar em um céu sem inferno. No juízo sem a misericórdia. Na salvação sem a perdição. “Portanto, considere a bondade e a severidade de Deus” [Rm 11.22].

Por que Deus odeia o pecador? O pecado não é um estrangeiro na vida do homem. Somos pecadores por natureza, ou seja, temos integralmente o pecado em nossas vidas. É o que Paulo chama de “carne” [ex: Rm 8.8]. É uma natureza inseparável mesmo no homem regenerado. Logo, Deus que é santíssimo não pode aceitar o nosso pecado, pois a transgressão é parte nossa. Poderia citar inúmeros textos, mas vamos ficar com Malaquias 2.16: “‘Eu odeio o divórcio’, diz o Senhor, o Deus de Israel, e ‘o homem que se cobre de violência como se cobre de roupas’, diz o Senhor dos Exércitos. Por isso tenham bom senso; não sejam infiéis [NVI]”. Veja que Deus odeia o pecado (“divórcio”, nesse caso) e o pecador (“o homem que se cobre de violência”).

Por que, também, Deus ama o pecador? Ora, esse é o grande tema das Escrituras. Quem nunca leu João 3.16? Sim, maravilhosamente Deus nos ama ainda como pecadores. É uma pena que calvinistas insistam tanto que “mundo” desse texto seja “eleitos”. Mesmo o teólogo reformado D. A. Carson, grande exegeta, discorda desse posição:

Eu sei que alguns calvinistas tentam tomar o grego kosmos (“mundo”) aqui para se referir aos que eles chamam de eleitos. Mas isto realmente não servirá. Todas as evidências do uso da palavra no Evangelho de João são contrárias a esta sugestão. Para dizer a verdade, mundo em João não se refere tanto a grandeza como a maldade. No vocabulário de João, mundo é primeiramente a ordem moral em rebelião intencional e culpável contra Deus. Em João 3.16 o amor de Deus ao enviar o Senhor Jesus deve ser admirado, não porque seja estendido a algo tão grande quanto o mundo, mas a algo tão mau; não a tantas pessoas, mas a pessoas tão impiedosas. [...] Neste eixo, o amor de Deus pelo mundo não pode ser reduzido ao seu amor pelos chamados eleitos. [3]

Sim, é Deus quem ama e odeia ao mesmo tempo. Como entender? Ora, difícil, pois é o Senhor da misericórdia e da ira, do amor e da justiça, da paciência e do juízo. O mesmo Jesus que proclamou “bem-aventurados os pacificadores, pois serão chamados filhos de Deus” [Mt 5.9] foi o mesmo Jesus que disse: “Vocês pensam que vim trazer paz à terra? Não, eu lhes digo. Pelo contrário, vim trazer divisão!” [Lucas 12.51]. Esse é o nosso Deus. Um Deus não irracional, mas além da razão. Louvador seja Deus! Glorificado seja o SENHOR!!

Notas e Referências Bibliográficas:

[1] SAYÃO, Luiz Alberto. Agora Sim! Teologia na Prática do Começo ao Fim. 1 ed. São Paulo: Voxlitteris, 2012. p 16.

[2] Música de número 18 da Harpa Cristã (CPAD).

[3] CARSON, Donald Arthur. A Difícil Doutrina do Amor de Deus. 1 ed. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus, 2007. p 17, 18. Leia também: CARSON, D. A. O Comentário de João. 1 ed. São Paulo: Shedd Publicações, 2007. pp 205-207. O famoso puritano J. C. Ryle, também, defendia a interpretação de mundo como “humanidade” e não como “eleitos”. Veja em: RYLE, J. C. Meditações no Evangelho de João. 1 ed. São José dos Campos: Editora Fiel, 2000. p 35.

15 comentários:

Denis Monteiro disse...

Gutierres... parabéns pelo o "post breve" (Risos). Sou calvinista (fui arminiano e de igreja pentecostal) e sou fã do D.A Carson. Mas discordo dele da interpretação do texto de Jo 3.16. O Texto diz que Deus ama o mundo, entendo sim, ser os eleitos. Simplesmente por duas passagens básicas, em primeira instância. Jo 3.36 diz que Deus está irado com os incrédulos (como Deus ama o mundo de crente e não crente; e ao mesmo tempo aborrece os incrédulos?)E em Jo 17.9 Eu rogo por eles; não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me deste, porque são teus.

Não estou dizendo que Deus não se preocupa com o ímpio (Ez 18.23; 33.11) Mas que Deus dá risada da perdição daqueles que o rejeitou Pv 1.26.

www.superandoasheresias.blogspot.com

Anônimo disse...

Boa reflexão, Gutierrez.

Marcelo de Oliveira e Oliveira.
agracadateologia.blogspot.com

Ricardo Rocha disse...

Caro Guitierrez,

Acompanho muito o seu site e gosto muito dos seus artigos e geralmente concordo com eles, mas dessa vez não terei como concordar.

Eu digo que é impossível que Deus odeie qualquer ser que seja, independente dele ser ou não pecador. A questão, a meu ver, é simples:

A bíblia, quando vai falar a respeito da ESSÊNCIA de Deus, quando vai descrever o que Deus É, sempre o define por meio de atributos positivos: Deus É amor, Deus É justiça, Deus É misericordioso, etc, etc, etc. Sendo assim, se uma das definições que a bíblia dá de Deus é o amor, como Deus poderia positivamente odiar alguém sendo que o ódio é um atributo contrário aquele que é da própria essencia de Deus? Dizer que Deus ama e odeia não é um paradoxo, tal como é Trindade ou a dupla natureza de Cristo, é contradição mesmo e a contradição só gera confução. Mas como Deus não é um Deus de confusão, então não podemos aceitar a proposta que diz que Deus ama e odeia ao mesmo tempo.

Do mesmo modo, não faz sentido dizer que Deus ama o pecador sendo que a própria escritura diz que ele veio para nos resgatar ENQUANTO eramos pecadores. Sendo assim, Deus nos amou enquanto eramos pecadores. Portanto, podemos falar com segurança que Deus ama os pecadores em vez de odia-los, uma vez que se Ele os odiasse, não teria reconciliado os homens com Ele próprio por meio de Cristo.

Por fim, é certo que Cristo é a mais plena revelação de Deus de que já tivemos notícia, de modo que o melhor modo que temos de conhecer a Deus é conhecendo a Jesus Cristo pois ele é a revelação definitiva de Deus. Em nenhum momento vemos nos Evangelhos Jesus declarando que odeia ou agindo de modo que podemos inferir ódio a quem quer que seja. Desse modo, pelo exemplo de Cristo, podemos dizer que Deus não odeia ninguém.

O que a bíblia mostra é um Deus que é JUSTO, e por isso pune, e um Deus que se IRA, pois não é indiferente a maldade humana, mas mesmo a ira é diferente de ódio.

Enfim, espero ter sido claro rsrsrs.

A paz.

Unknown disse...

Willan Orlandi.

Eu já vi uma mensagem do carson em Jo 3, e senão me engano, ele subscreve a expiação definida e exalta a Deus pelo Seu amor a tão nojentos pecadores...

Ivo Gomes de Lima disse...

"Não estou dizendo que Deus não se preocupa com o ímpio (Ez 18.23; 33.11) Mas que Deus dá risada da perdição daqueles que o rejeitou Pv 1.26."

E o irmão entende que "aqueles que o rejeitou" (sic) são os incrédulos e os (apóstatas) chamados (como minha pessoa) de "arminianos"?

alvaro disse...

belo post,vejo que o que foi esposto tem inteira concordancia biblica,ELE sim ama e odeia o pecador.
por causa desta ideia de que"DEUS ama o pecador",muitos lideres usam de pretexto para colocar pessoas que estão dentro da igreja e tem uma vida em pecado em cargos ,só porque são de sua afinidade

pretinha disse...

Algumas considerações:

1. Considerar mundo como sinônimo de eleitos, no texto bíblico, é absurdo. O apóstolo teria de estar utilizando uma única vez uma palavra com um sentido inusitado, diferente do sentido usado em qualquer outro caso, e na verdade OPOSTO ao sentido mais comum. E que indicações DENTRO do próprio texto há nesse sentido? Absolutamente nenhuma! A não ser pelo preconceito de alguém que lê o texto a partir de uma teolgia preconcebida, que de antemão já vê uma contradição inconciliável no sentido claramente visível, não há motivo algum para fazer essa tortuosa interpretação sem pé nem cabeça, de mundo no sentido de "eleitos". Um dia essa interpretação ainda se incorporará ao anedotário das idéias mais absurdas que há ocorreram aos humanos.

2. A afirmação de que o amor e o ódio (ou ira, como geralmente é chamada na Bíblia) são impossiveis de serem sentidos ao mesmo tempo é um petição de principio. Ninguém jamais provou que são incompatíveis. Na verdade, até nós humanos sentimos ira em relação a pessoas que amamos. Quano ao Eterno e infinito Criador de todas as coisas, quem somos nós, grãos de pó, para ananlisarmos sua psiquê? Se para ele, todos os instantes são presente, porque nos maravilhariamos se ele percebe como simuiltâneos as coisas que o homem geralmente percebe como sucessivas?

3. É absolutamente certo que Deus ama e odeia os pecadores, porque a Bíblia afirma as duas coisas, em muitos textos, variados e bem claros. Porque iriamos querer negar a Bíblia por causa de nossa miopia, que enxerga contradição no que é apenas oposição semântica?

4. Se Deus e ama e odeia o pecador, isso se aplica também aos que se salvam. Inúmeras vezes vemos na Bíblia as manifestações da ira de Deus contra os que se salvam.

5. Não confundamos a santa ira de Deus com o nosso sujo e mesquinho ódio, tantas vezes resultado de ressentimento, auto-vitimismo, egoísmo e simples maldade.

Ricardo Rocha disse...

Pretinha,

ódio e ira NÃO SÃO a mesma coisa. Ira é uma raiva passageira geralmente provocada por algo específico. Ódio, por sua vez, é um rancor PROFUNDO que alguém sente por outro. A ira produz um desejo de vingança ligado a satisfação de um mal recebido ao passo que o ódio deseja o mal pelo mal.

O ódio é sempre concebido como o oposto de amor. E a bíblia, ao definir o carater de Deus, sempre o faz por termos positivos como AMOR. Em NENHUM lugar da escritura a bíblia define o carater de Deus como sendo odioso.

Portanto, gostaria que vc ou outra pessoa me explicasse como Deus pode SER amor e emanar um sentimento que lhe é totalmente contrário?

Aprendiz disse...

Gutierres

Desta vez fui eu que comentei, e saiu no nome de minha esposa.

Então, onde se lê "Pretinha", leia-se "Aprendiz"

Anônimo disse...

Gutierres, a interpretação calvinista que eu conheço para mundo em Jo 3:16 é simplesmente "a criação", ou " o sistema caído" e nao o simplista " eleitos". A interpretação se preocupa mais em explicar que esse "mundo" não está se referindo a cada pessoa individualmente, mas ao mundo num coletivo.

E seu texto parece confundir racional (que é o correto) com racionalismo, ao tentar misturar helenismo na interpretação calvinista. Nós cremos num Deus racional, que nos fez racionais, e se revelou de forma racional, ainda que com paradoxos. Racionalismo é uma filosofia que crê que todo o conhecimento deve ser derivado da razão, sem espaço pra revelação.

Ainda que essa questão de amar e odiar pecadores possa até mesmo ser mais um paradoxos, não vejo como sustentar a tese de que Deus ama pecadores baseado apenas em Jo 3:16, porque não á pra afirmar que o versículo se refere a cada pessoa da humanidade individualmente.

Ass: Robson Cota

Anônimo disse...

O post foi um tanto infeliz, em razão de tentar simplificar a matéria. Vou ser também infeliz em dar uma posição resumida, e que facilmente será mal compreendida:
1. A Bíblia é clara ao dizer que Deus ama os pecadores.
2. A Bíblia é clara ao dizer que a ira de Deus permanece sobre os que não se converterem a Cristo.
3. Uma boa solução para essa aparente contradição é dada por Paul Washer, quando afirma que Deus está com uma mão retendo seu julgamento sobre Satanás e seus filhos com outra mão chamando todos ao arrependimento e à adoção de filhos de Deus.
4. Quando as mãos baixarem, só restará a ira sobre os que não se converteram e o amor sobre os que se converteram.
5. Primeiro vem o amor, depois o pecado e consequentemente a ira, para quem se converte, uma amor que é sobreabundante envolve, e na cruz há a dupla imputação, da nossa injustiça em Cristo e da Justiça de Cristo em nós.

Ivo Gomes de Lima disse...

Pois assim como, por uma só ofensa, veio o juízo sobre TODOS OS HOMENS para condenação, assim também, por um só ato de justiça, veio a graça sobre TODOS OS HOMENS para a justificação que dá vida (Rm 5.18).

Aprendiz disse...

Denis Monteiro

Você está errado em sua interpretação da Bíblia. Está escrito que Deus não tem prazer na morte do ímpio, mas em que se converta e viva. Logo, o sentido de Deus "rir" dos impíos não é no sentido de divertir-se (ter prazer) da sua desgraça, mas de considerar a suposta sabedoria deles como tolice. Essa "risada" de deus não indica prazer no sofrimento alheio, indica desprezo intelectual pela tolice dos emperdenidos.

Se você tem uma interpretação melhor que abarque qualquer texto bíblico a respeito, então nos diga.

Aprendiz disse...

Ricardo Rocha

Essa diferença que você faz entre ódio e ira seria válida se estivessemos falando de um texto escrito originalmente em português.

Em certo lugar Jesus diz (conforme certas traduções) que aquele que não odiar o pai ou a mãe não é digno dele. Evidentemente o significado aqui não é o de rancor profundo, e nem mesmo de ira passageira, mas a disposição para, a serviço do evangelho, tomar certas atitudes que serão incompreendidas pelos familiares, levando-os a ficarem aborrecidos.

marcelo victor disse...

Como bem diz o pastor Elias Soares de Moraes, o calvinismo é mesmo uma INCONGRUÊNCIA, pois afirmar que Deus odeia, com razão, os incrédulos que Ele próprio decretou que assim o fossem (antes mesmo deles terem nascido), beira a blasfêmia.
O fato é que os calvinistas, não tendo explicação pras suas incongruências, lançam mão da soberania divina, tornando o seu deus, em última análise, o grande responsável por toda a maldade e malignidade que se apresenta no mundo.
Como o deus deles, segundo a Bíblia, não pode ser o Deus de Israel (boníssimo, justíssimo, perfeitíssimo e amorosíssimo), creio que eles ainda têm possibilidade de se livrar da condenação eterna se tão somente se arrependerem da incredulidade e desse tipo de blasfêmia.