domingo, 21 de abril de 2013

Assembleia de Deus e a nossa herança militar


Por Gutierres Fernandes Siqueira

Há quem estranhe alguns posts sobre aspectos negativos da minha denominação. Ora, graças a Deus que posso congregar em uma igreja onde faço críticas- que julgo construtivas- com certa liberdade. Nunca houve uma censura digna do nome para com meu espaço virtual. A falta de uma liderança centralizadora- como nas igrejas neopentecostais- ajuda à Assembleia de Deus a ter em seu ambiente interno uma vitalidade para cobranças e, consequentemente, para mudanças. Portanto, começo o texto com esse elogio.

A descentralização é uma virtude assembleiana a evitar o despotismo eclesiástico.  E mesmo com todos os aspectos negativos do último conclave da CGADB (Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil), ali vimos espaço para oposição e situação marcarem posição. Ou seja, alguma coisinha da nossa herança congregacional ainda sobrevive.

Sentido?
Por que escrevo no título sobre “nossa herança militar”? Ora, a Assembleia de Deus sempre teve muitos pastores importantes que foram pessoas do Exército, da Aeronáutica ou da Marinha. Leia qualquer livro sobre a história assembleiana e você verá várias vezes a menção sobre alguns líderes e a relação com poderes militares. Alguns eram militares (ex: Gilberto Malafaia), outros filhos de famílias de militares (ex: Paulo Leivas Macalão).

Além disso, muitos hinos são verdadeiras marchas militares. E quase toda igreja tem um grupo de crianças com o nome de “soldadinhos de Cristo”. E as roupas uniformes? E a valorização da hierarquia? E a disciplina quase ascética? E a quase extinção do modelo congregacional (democrático) de comunidade?

Vejamos dois aspectos dessa herança:

1. Forte valorização da hierarquia. A hierarquia deve existir, mas sem exageros. E nenhuma hierarquia eclesiástica deve criar uma casta de privilegiados. Eu sempre me pergunto sobre o porquê daquelas cadeiras especiais para pastores no púlpito? Ainda novo convertido fiquei indignado com a organização de um congresso de mocidade. Lá, os jovens comeram o mesmo tipo de almoço durante três dias, enquanto havia um espaço separado para pastores e suas esposas com comidas melhores. E, também, sempre há eventos onde a mesa do pastor tem Coca-Cola e dos fiéis um Dolly.

2. Apego a tradições. A tradição é muito importante, mas nunca deve tomar o espaço onde a Palavra de Deus é soberana. O mito da “nossa identidade” é sempre tema recorrente em reuniões pastorais. Ora, será que a nossa maior necessidade contemporânea como igreja é manter costumes da primeira metade do século XX? Será que não existe outras prioridades? Quem nunca viu um pastor assembleiano comparar os “usos e costumes” da denominação com uniforme dos militares? O militar gosta de símbolos e uniformidade, pois precisa mais da ordem do que da liberdade para manter um exército de homens numa guerra. A igreja também está numa guerra, mas ela é mantida pela graça do Espírito Santo e não pela coerção humana.

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Como igreja, a denominação Assembleia de Deus deve buscar a base escriturística como norma.  Não é a herança dos militares que nos fará uma igreja melhor.

10 comentários:

Mario Sérgio disse...

Os líderes assembleianos além de terem afinidades com os militares, os apoiaram de forma explícita durante a ditadura militar. Mas seu texto explorou importantes detalhes, os quais devem sempre ser considerados na nossa história.

Abraço!

Célio de Castro disse...

O primeiro aspecto é uma constante nas AD Madureira aqui em Goiás. Isso sempre me indignou, e o pior é que por aqui os irmãos tem que enfrentar uma fila longa e demorada pra muitas vezes comer um arrozinho mal-cozido com um macarrão com carne, enquanto ao lado da fila os pastores tem o seu espaço reservado com um banquete farto. Isso acontece sempre em todos os eventos da igreja. Será que de norte a sul o quadro não muda?

Samuel Tiago disse...

Infelizmente, também somos tratados como pessoas de segunda classe, assim como nas forças armadas, que existem praças, oficiais e os altos oficiais, praças sao de soldado a sub-tenentes, oficiais sao de tenente a capitao e altos oficiais são de major a coronel; nas ADs o sistema é semelhante, membros a diáconos, presbiteros a pastores de congregação e por fim pastores setoriais a pastores presidentes, enquanto os membros comem o rancho os presidentes se esbaldam no melhor. Eu quero ver como é que vai ser na glória.

Germano Nascimento disse...

Essa herança talvez explique a 'aurea de superioridade' que os lideres mais tradicionais insistem em demonstrar em suas comparações com outras denominações. Já presenciei o absurdo de um Presbítero que, em alta voz, dizia só haver salvação na AD. Qualquer semelhança com a arrogância militar, então, não é mera coincidência.

Anônimo disse...

Gutierrez, voce sintetizou muito bem a ideologia da herança maldita da AD. Infelizmente acho que a nossa denominação não tem cura. Porém acredito na liberdade de pensamento e individuação de muitos irmãos que estão buscando uma visão mais aprofundada da consciencia do verdadeiro Evangelho. Esses, acredito, farão a diferença nestes ultimos dias da Igreja.

Anônimo disse...

Na realidade arrogância militar não existe,e sim rígida disciplina e se não houvesse seria um caos.Na igreja sim,existe a arrogância denominacional e eclesiástica,é só observar em alguns líderes e membresia.Ora,há líderes que querem conduzir a igreja como um quartel em que o comandante fica no topo da hierarquia com o seu bastão de comando cuja ordem deve ser obedecida à risca,e quem não obedece...
Ora,sabemos que há ovelhas que nunca apertaram a mão de seu pastor por o julgarem inascessível.Ou não?
Fico por aqui dizendo que em tradições somos imbatíveis,e que muitas águas ainda rolarão antes que haja a democratização da Coca-Cola e aposentem o Dolly ou Tubaina da mesa dos "fiéis."

Vosso Nele que fazia bem a todos e comia com publicanos e pecadores:JESUS CRISTO!

José Nascimento Rodrigues

Marco Antonio Correia disse...

Fui membro da AD durante dez anos e a deixei por dois motivos: 1º) por não concordar com a "doutrina" dos usos e costumes como meio de salvação; 2º) pela forte influência da teologia ufanista e da prosperidade. O primeiro motivo muito alinhado ao espirito militar, invariavelmente, carece de respaldo bíblico. O segundo é uma distorção da própria Bíblia.
Agora, apesar da minha posição contrária, entendo, com o devido respeito, que esta igreja é uma das maiores representantes do reino de Deus na face da Terra e contribui imensamente para a propagação do evangelho (mesmo que esteja minguando nos púlpitos)e, neste aspecto, é importante as vozes críticas que ainda ecoam nos corredores como a sua. Abraços

Marco Antonio Correia disse...

Fui membro da AD durante dez anos e a deixei por dois motivos: 1º) por não concordar com a "doutrina" dos usos e costumes como meio de salvação; 2º) pela forte influência da teologia ufanista e da prosperidade. O primeiro motivo muito alinhado ao espirito militar, invariavelmente, carece de respaldo bíblico. O segundo é uma distorção da própria Bíblia.
Agora, apesar da minha posição contrária, entendo, com o devido respeito, que esta igreja é uma das maiores representantes do reino de Deus na face da Terra e contribui imensamente para a propagação do evangelho (mesmo que esteja minguando nos púlpitos)e, neste aspecto, é importante as vozes críticas que ainda ecoam nos corredores como a sua. Abraços

Rodrigo Moreira disse...

Não igreja de cristo o que deve existir são diferenças de função. Os dons são repartidos na igreja de forma diversificada e proveito de toda a igreja - sua edificação. Infelizmente os pilares da nossa igreja são a hierarquia e a disciplina que, não por coincidência, são os princípios fundamentais do militarismo.
É claro que tudo isso é próprio do pentencostalismo, pois reproduz o modelo da fazenda, ou melhor, da fazenda de engenho onde o que prevalece é o argumento da autoridade. Isso ganha contornos muito mais definidos aqui no nordeste com o velho modelo dos coronéis (coronelismo).

Aprendiz disse...

Gutierres

Realmente, a hierarquia é a marca registrada de todos os exercitos. Talvez isso prove que é necessária nesse campo.

Mas na igreja, a marca registrada deveria ser a comunhão. Vou dizer uma coisa: nas igrejas históricas, seria impensável uma reunião em que se parte o pão em comunhão, e em que alguns comem melhor que os outros. Isso evidentemente é o contrário da comunhão. Fiquei chocado com o testemunho de alguns sobre esse disparate. E gosraria de dizer que nesse quesito, a AD é uma triste exceção.

Desejo aqui salientar algo que sempre me causou estranheza. As igrejas pentecostais enfatizam o acesso de todos aos dons do Espirito. Essa enfase deveria levar a uma melhor compreensão do sacerdócio universal dos crentes. Mas, estranhamente, parece que são justamente os pentecostais que tem mais dificuldade de compreender isso.