quinta-feira, 27 de junho de 2013

A Teologia Pentecostal e o Amilenismo


A Teologia Pentecostal e o Amilenismo


Por Maurício Machado, membro da Comunidade Vida Melhor em Joinville (SC). Bacharel em Design, editor do blog Amilenismo.com e um dos apresentadores do podcast BiboTalk


Fui resgatado por Cristo em uma comunidade pentecostal e no decorrer desse tempo como cristão passei por mais duas congregações, também de confessionalidade pentecostal. Conforme fui amadurecendo na fé, mesmo sem ser incentivado, começou a brotar em mim o interesse pela teologia que, como resultado, tive minhas atenções quase que exclusivamente voltadas para a escatologia - o estudo das últimas coisas.


Conforme fui percorrendo os mais variados caminhos das diferentes interpretações escatológicas, houve um momento em que precisei bater o martelo quanto a uma posição. Não obstante, encontrei no amilenismo uma interpretação saudável das Escrituras, principalmente das profecias e do Apocalipse, de forma que pareceu-me o sistema mais coerente e o que continha menos problemas exegéticos.


Tal decisão me rendeu um título quase paradoxal. Assim como cão e gato, óleo e água, eu era o pentecostal e amilenista! É sabido que a grande maioria dos pentecostais não partilham dessa posição, de maneira que quase todos os amilenistas - e em menor escala os pós-milenistas - podem ser encontrados em igrejas históricas. Embora não exista necessariamente uma regra na teologia pentecostal que diga que você tenha que ser um milenarista - seja prémilenista histórico ou dispensacionalista -, eu praticamente podia ver uma interrogação na expressão dos meus irmãos pentecostais quando eu lhes compartilhava minha posição escatológica.


Não posso dizer que tive muitos problemas advindos da minha escolha, uma vez que a maioria dos meus irmãos simplesmente não se importavam com a questão e o meu pastor não via isso como um pecado - ironia -, mesmo ele sendo convicto do seu prémilenismo. Todavia, qualquer um que passe a meditar com frequência sobre esses temas logo perceberá que as práticas de um cristão podem muito bem ser reflexo da posição escatológica a qual defende. Aliás, toda teologia termina em alguma prática, mas nem todo ensino é ortodoxo e termina em ortopraxia.


E foi exatamente isso que comecei a perceber no que conhecemos por dispensacionalismo. Esse sistema teológico foi idealizado por um cristão piedoso chamado John Nelson Daby (1800-1882), um dos líderes dos Irmãos de Plymouth na Inglaterra. [1] Entre seus ensinos, destacam-se:


1 - A interpretação estritamente literal das Escrituras.
2 - A divisão da história da humanidade em sete dispensações (inocência, consciência, governo humano, patriarcal, lei, graça e reino).
3 - Uma forte distinção entre Israel e a Igreja, de maneia que esta, segundo eles, seria um parêntesis ou “plano B” de Deus, uma vez que os judeus rejeitaram o Messias. Todavia, Deus reataria seu relacionamento com Israel no fim dos tempos, segundo uma interpretação literal das profecias não cumpridas do Antigo Testamento.
4 - A crença não só em um reinado de mil anos de Cristo com os seus santos após a Sua segunda vinda, como também o restabelecimento dos sacrifícios veterotestamentários pela nação de Israel redimida. [2]
Muitas outras particularidades desse sistema poderiam ser mencionadas, mas as que apresentei acima nos dão uma boa ideia de por onde o dispensacionalismo caminha. Assim, gostaria de chamar a atenção do leitor para os dois últimos itens e em como eles podem influenciar ou sancionar, em alguma medida, as práticas de quem adere ao dispensacionalismo.


Como exemplo dessa relação entre teologia e prática cristã, penso que uma dessas práticas que pode ser muito afetada pela crença em uma escatologia equivocada é a liturgia.
Senão vejamos: Nos últimos anos foi possível presenciar através de mídias apologéticas o aumento de denominações pentecostais sérias que passaram a incorporar em seus cultos públicos práticas judaizantes. 


Dentre elas pode-se mencionar o uso de objetos como o shofar, réplicas da arca da aliança, a bandeira de Israel, o menorah, etc. Em casos mais extremos pode-se destacar ainda a observância das festas judaicas.
Sem entrar no mérito dos vários textos bíblicos que declaram a obra de Cristo como definitivamente superior a esses rudimentos da antiga aliança, é possível notar uma estreita relação entre elas e a crença dispensacionalista. Assim, o dispensacionalismo dá fortes evidências de que estimula um sionismo exacerbado, e conforme podemos ver pelo conjunto de suas afirmações, é difícil imaginar que esse sistema esteja isento de influenciar negativamente a igreja de Cristo.


Mas há ainda um outro ponto a ser considerado. Curiosamente, aqueles que trazem tais práticas para dentro de suas congregações, no mínimo estão adiantando o calendário escatológico do seu sistema e dando sinais de uma crise de identidade. Ora, a restauração das práticas judaicas, segundo o ítem quatro, não deveria acontecer apenas no milênio e ser administrada apenas pelos judeus? Parece-me haver uma grande contradição aqui. De qualquer forma, o dispensacionalismo, se não é o causador de sérios problemas, ao menos pode reforçar um sincretismo desnecessário e antibíblico do cristianismo com uma liturgia judaizante ultrapassada.


É fato que desde o seu surgimento a teologia pentecostal tem se provado séria, fiel e comprometida com as Escrituras. Tanto é o seu reconhecimento que outras bandeiras igualmente sérias do cristianismo brasileiro têm-se aberto para o diálogo e, ao que me parece, bons frutos têm surgido dessas aproximações. Se o leitor permitir o trocadilho, penso que esse diálogo bem poderia se estender até as “últimas coisas”.


Aos que possam resistir a ideia de uma revisão no conjunto das crenças pentecostais concernentes a escatologia, não se trata de descaracterizar a teologia pentecostal, mas de fazer com que ela esteja o mais próximo das Escrituras, coisa que o dispensacionalismo, infelizmente, está aquém do ideal. Além do mais, penso que nenhum pentecostal em sã consciência, sabendo da capacidade que o pentecostalismo tem para absorver doutrinas, gostaria de ter sua expressão de fé minada por influências duvidosas.


Quem sabe, Deus querendo e com o passar do tempo, outros amilenistas como eu possam engrossar as fileiras do pentecostalismo e oferecer não uma escatologia hollywoodiana e sensacionalista, mas uma alternativa sólida e comprometida com a sã doutrina. Sendo assim, penso que o amilenismo [3] preenche tais requisitos e, a quem se interessar, pode procurar por autores como William Hendriksen e Anthony Hoekema para uma excelente explanação desse sistema.


Referências:


[1] CAIRNS, Earle E. O Cristianismo Através dos Séculos: Uma História da Igreja Cristã. 2 ed. São Paulo: Vida Nova, 2008. p 436.


[2] CLOUSE, Robert G. Milênio: Significado e Interpretações. 1 ed. Campinas: Luz Para o Caminho, 1985. p 57-83.


[3] http://www.amilenismo.com/2012/05/amilenismo.html



2 comentários:

Deivid Ramon disse...

Muito bom ver esse texto por aqui... já sigo esse assunto desde que ouvi o primeiro podcast no BiboTalk, e não foi preciso mais do que 30 minutos para colocar em cheque tudo aquilo que eu havia aprendido sobre escatologia na escola bíblica e lendo "Deixados para trás" (risos).
Não sei se posso me considerar um Amilenista no momento pois confesso que ainda preciso estudar muito mais sobre esse sistema, mas compartilho de algo que foi dito no texto, de tentar compartilhar com os irmãos da igreja (sou da Igreja Quadrangular) e até mesmo com pastores e professores, e perceber neles pouco ou nenhum interesse sobre o assunto. Que o Senhor nos ajude a estar mais próximos possível das escrituras e o mais coerente possível para que de fato possamos colocar a teoria em prática. Obrigado pelo texto irmãos.

Luccas Andrade disse...

Eu me posicionei já há algum tempo como pre-milenista histórico (no meu caso, entendo que o milenio é real, mas não creio que a igreja seja um parentese no plano de Deus, creio que ela é o Israel de Deus). Creio que poderia acrescentar mais duas implicações práticas do dispensacionalismo: 1- desinteresse pela evangelização de judeus. Já que Deus tem um plano pra tratar com eles, e eles já são povo de Deus só por terem nascido judeus, entao nao precisamos evangelizá-lo. Não é exatamente assim que dizem, mas é bem assim que agem. 2- Já que Jesus vai buscar a igreja antes da grande tribulação, fica muito dificil aplicar a si mesmo textos como no "mundo tereis aflições" (sinonimo de tribulações) e etc.