sábado, 13 de julho de 2013

Esperança em Meio à Adversidade

Por Gutierres Fernandes Siqueira


Amanhã estudaremos na Escola Dominical das Assembleias de Deus mais um trecho da Carta de Paulo aos Filipenses. O tema da Lição 2 é “Esperança em Meio à Adversidade”.

"Para a árvore pelo menos há esperança:
se é cortada, torna a brotar, e os seus renovos vingam". Jó 14.7
Gostaria de fazer uma exegese de todo o parágrafo, mas publico uma análise apenas do versículo 12. Espero que esse texto contribua com a sua aula. Bons estudos. 

Leia: Filipenses 1.12-21


1.12   E quero, irmãos, que saibais que as coisas que me aconteceram contribuíram para maior proveito do evangelho.


A fé cristã enxerga o sofrimento pela ótica do aperfeiçoamento. Há quem acuse o cristianismo de alimentar o sofrimento ao justificá-lo como obra divina. Assim, a fé cristã seria opressora e agente dos poderosos na manutenção do status quo e na manipulação dos mais pobres. Outros dizem que a glorificação do sofrimento mostra como o cristianismo é a religião dos fracos, covardes e ressentidos com o sucesso alheio. Portanto, o cristão é um fracassado que condena ao inferno todos os "bem-sucedidos" por pura inveja. 


Esses argumentos parecem ignorar duas verdades. 01.  Esquecem que o sofrimento começa com a própria pessoa de Deus em Cristo Jesus. O Deus cristão não é alheio ao sofrimento, pois Ele é totalmente envolvido na aflição pelo Filho. 02. Esquecem, também, que o sofrimento é naturalmente cego, imparcial e sem propósito, mas na fé cristã há um novo olhar sobre esse mesmo infortúnio. Não é o sofrimento que traz em si o propósito, mas é a fé que traz à tona o aspecto da esperança. É Cristo glorificado no sofrimento. “Sabemos que Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam” [Romanos 8.28 NVI]. Sem Ele o sofrimento só é mais uma fagulha para a vida murmurante e azeda. 


E na fé cristã sempre há a consciência que o fruto pode ser produzido no meio do sofrimento. A esperança cristã não é escapismo, como escreveu J. I. Packer:

A esperança cristã é muito depreciada nos dias de hoje. Ela está em desacordo com o orgulho humana de nossa cultura sofisticada e materialista. Nossa esperança provoca ressentimento. Os marxistas se opõem a ela porque acham que a esperança celestial (enganosa, segundo eles) conduz à passividade e impede as massas de agirem revolucionariamente em prol da transformações sociais. Alguns conselheiros psicólogos são contra a esperança cristã porque a veem como forma de escapismo que impede as pessoas de verem a realidade. Mas a verdade é que a esperança cristã, em virtude do seu objeto (o que ela espera, que é a generosidade de Deus garantida e sem fim), produz amor, alegria, zelo, iniciativa e ação devotada, de modo que, como disse C. S. Lewis, aqueles que mais fizeram pelo presente mundo foram aqueles que mais pensavam no outro [1].

O apóstolo Paulo fala nas “coisas que me aconteceram” (gr. ta kat eme). A expressão poderia ser traduzida por as coisas sobre mim ou os meus assuntos. Assim, Paulo introduz a dolorosa vivência na prisão domiciliar em Roma. Ele expõe ao público filipense a experiência do sofrimento e diz “quero que saibais” ou “quero que conheceis”. Paulo não tinha o mal costume de se apresentar como um super-homem. Era tônica comum em suas epístolas, que são cartas pastorais, a apresentação da difícil situação pela qual ele passava. Era um líder transparente. O texto traz a ideia que havia entre os filipenses uma preocupação com Paulo, mas o mesmo os conforta com essas palavras.

Portanto, o que era ruim contribuiu  a “uma ida para frente” [2] (gr. prokopēn). Essa palavra era um termo técnico na filosofia estóica e indicava o “progresso em direção a sabedoria” [3].  Assim, a prisão de Paulo serviu como um “avanço pela derrubada daquilo que impedia o progresso” [4] da pregação cristã. Prokopēn é “cortar ou golpear para a frente” [5]. O impulso rápido e constante de um projeto não é uma imagem normalmente associada à privação da liberdade em uma prisão. [6] 


É fato que no papel se torna fácil escrever que podemos tirar proveito no sofrimento. Mas quem escrevia esse texto tinha autoridade moral para tal análise. Paulo estava simplesmente e injustamente preso. Nesse sofrimento viu a oportunidade de apresentar o Evangelho. Enquanto a própria igreja em Filipos via a prisão de Paulo como uma tragédia; ele- cabe destacar que ainda preso- conforta a essa congregação contra qualquer ansiedade. 


Portanto, enxergar o sofrimento com os olhos da esperança é um tema recorrente na Bíblia. Desde José na cisterna (Gn 37.23; 50.20) até Jesus na cruz (Mt 27.5) passando por Jó (1.2; 19.25-27; 42.5,6) essa verdade não deixa de pulsar. 


Referências:


  [1] PACKER, James. Nunca Perca a Esperança. 1 ed. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2002. p 11.
[2] ROBINSON, Edward. Léxico Grego do Novo Testamento. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2012. p 780.
[3] ROBERTSON, A. T. Robertson's Word Pictures of the New Testament.
[4] HILL, Gary; ARCHER, Gleason. Helps Word-Studies.
[5] ROBINSON, Edward. Léxico Grego do Novo Testamento.
[6] GINGRICH, F. Wilbur e DANKER, Frederick W. Léxico do Novo Testamento: Grego Português. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 2007. p 176. O termo equivalente é usado novamente por Paulo em I Timóteo 4.15.

Leia mais:

HENDRIKSEN, William. Comentário do Novo Testamento: Efésios e Filipenses. 2 ed. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2005. p 431- 443.

MARTIN, Ralph P. Filipenses: Introdução e Comentário. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 1985. p 83.



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