terça-feira, 2 de julho de 2013

Por que Deus puniu toda a família de Acã se o pecado era apenas dele?


Por Gutierres Fernandes Siqueira

Israel estava perdendo a guerra. Josué fica desesperado. Como o Senhor permitiria tamanha desgraça a fim de humilhar o Seu próprio nome? “Os cananeus e os demais habitantes desta terra saberão disso, nos cercarão e eliminarão o nosso nome da terra. Que farás, então, pelo teu grande nome?”, diz Josué ao Senhor [1].

Deus então releva o motivo de tamanho infortúnio. Um, dentre o povo, estava com propriedade roubada. Josué ordena uma investigação: “Aquele que for pego com as coisas consagradas será queimado no fogo com tudo o que lhe pertence. Violou a aliança do Senhor e cometeu loucura em Israel! " [2]. 

O culpado foi achado. Era Acã. Ambicioso, ele encontrou uma bela capa feita na Babilônia, além de prata e ouro em grandes somas. Acã tomou para si aquilo que não era seu. Sentença? Para o roubo era pena capital. Acã foi morto. “E todo o Israel o apedrejou, e depois apedrejou também os seus, e os queimou no fogo” [3].

Opa, por que a família de Acã foi morta? O roubo não fora cometido apenas por ele? Por que Deus mandava invadir a terra e matar, além dos exércitos, todas as famílias daquele lugar? Por que crianças pagavam pelos pecados dos adultos? E o genocídio cananeu?

Princípio hermenêutico: atenção ao ler um livro antigo com ósculos modernos!

É difícil compreender a Bíblia com um óculos da contemporaneidade no rosto. A Bíblia, como qualquer livro antigo, precisa de uma interpretação capaz de entender o momento histórico do fato. É necessário voltar no tempo. É necessário sair desse mundo de hoje com todas suas referências e pressupostos. É chocante para qualquer ocidental formado em um país democrático e com uma educação secular entender como Deus pode cometer tal ato, mas essa não era a visão daquela sociedade na época. Ninguém naquele momento contestava Deus por esse motivo.

O conceito corporativo da personalidade hebraica e das sociedades tribais 

No mundo antigo, e em Israel não era diferente, a sociedade tribal regia as relações humanas [4]. Não existia a figura do “indivíduo” como “unidade formal”. A verdadeira unidade era a célula familiar. A bênção [5] ou a maldição se estendia para toda a família. 


A estrutura de sociedade é claramente descrita na sentença divina que institui a investigação: Apresentem-se de manhã, uma tribo de cada vez. A tribo que o Senhor escolher virá à frente, um clã de cada vez; o clã que o Senhor escolher virá à frente, uma família de cada vez; e a família que o Senhor escolher virá à frente, um homem de cada vez. [6]

Família, clã e tribo e nação. Essas divisões “constituem os tijolos básicos da sociedade israelita” [7]. Assim era construída a unidade nuclear do indivíduo, ou seja, o homem era ser existente a partir de sua família. O pecado de um homem era o pecado de sua família, o pecado de sua nação. Portanto, como unidade fazia todo o sentido para essas sociedades antigas, onde a punição ou a bênção eram um fenômeno coletivo. A membresia daquela família sabia do crime de Acã? Se sim, a justiça fora implacável com o pecador e seus sustentadores. Mas se a resposta é negativa, pois o texto não é claro, a família inocente paga pelo pecado do membro superior. 

O assunto é complicadíssimo, pois o texto em análise, como já dito, não traz muitos detalhes. Mas o “conceito corporativo da personalidade hebraica” [8] e das sociedades tribais como um todo parece ser a explicação mais razoável para o texto em apreço, assim como para o genocídio cananeu. Como bem escreveu Kyle Yates, todo o capítulo sete de Josué traz em si o cerne da “solidariedade comunitária” para o bem ou para o mal:


O antigo conceito de solidariedade comunitária está subjacente à história em toda parte. (1) O pacto divino da unidade de Israel como nação “consagrada” (isto é, santificada. cf. Êx 13.11-15; 4.23) deu-lhes a segurança da proteção do Senhor; (2) a ofensa de Acã estabeleceu sua associação com os cananeus que eram “consagradas ao Senhor para a destruição” (isto é, amaldiçoados) e os separou da proteção do pacto (Js 6.17,18: 7.15); (3) a ofensa de Acã tornou-se a ofensa de Israel até que eles se separassem das “coisas consagradas” cujo fim deveria ser a destruição (Js 6.18; 7.11,12); (4) toda a família de Acã e todas as suas posses haviam sofrido o estigma das “coisas consagradas” e compartilharam sua responsabilidade e destruição (Js 7.24,25). [9] 

Portanto, todo o contexto favorece a leitura do texto a partir do “conceito corporativo da personalidade hebraica”. Mas vem a pergunta inevitável: como fica Deuteronômio 24.16 à luz da “solidariedade comunitária”? Onde está escrito: “Os pais não serão mortos em lugar dos filhos, nem os filhos em lugar dos pais; cada um morrerá pelo seu próprio pecado.” 

A hipótese mais provável é que o sentido comunitário para punição e bênção divina era mais uma influência cultural do tribalismo como modo de organização social do que o ideal divino manifesto na lei (Deuteronômio 24.16) e confirmado nos profetas, a exemplo de Jeremias 31.29-30 e Ezequiel 18. Assim, a individualização da pena já vinha sendo desenhada aos poucos no coração da mentalidade hebraica. Já em o Novo Testamento a individualização da responsabilidade é claríssima: “De maneira que cada um de nós dará conta de si mesmo a Deus” (Romanos 14.12). Veja também: Romanos 2.6; 1 Coríntios 3.8; 11.28; Efésios 4.7; Gálatas 6. 4-5;  1 Tessalonicenses 4.4; Tiago 1.14. 

Referências Bibliográficas:

[1] Livro de Josué 7.9. Todos as citações deste post são da Nova Versão Internacional (NVI). Salvo indicação ao contrário. 

[2] Livro de Josué 7.15

[3] Livro de Josué 7.25. Há intérpretes, baseados especialmente em Deuteronômio 24.16, que não acreditam na morte dos familiares de Acã. “Como a lei divina proibia expressamente os filhos para serem mortos pelos pecados do seu pai (Deuteronômio 24. 16), o transporte dos ‘filhos e filhas’ de Acã para o local da execução poderia ser apenas como espectadores, para que pudessem tomar a advertência do destino que o seu pai tomou, ou, se eles compartilharam a punição de Acã (Josué 22.20), tinham provavelmente sido cúmplices de seu crime, e, na verdade, Acã dificilmente poderia ter cavado um buraco dentro de sua tenda sem a ciência de sua família”. [JAMIESON, Robert; FAUSSET, A. R. e BROWN, David. em Commentary Critical and Explanatory on the Whole Bible. Biblie Study Tools. EUA: Salem Web Network, 2008]. O mesmo argumento usado por RICHARDS, Lawrence O. Guia do Leitor da Bíblia. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2005. 149.

[4] "Nas sociedades ocidentais os indivíduos são muitas vezes considerados como unidades sociais, reunidas por alguma necessidade em comum (comércio, indústria, defesa mútua, etc.) Em contraste, a estrutura social de Israel era tribal e, portanto, corporativa (solidária), em suas relações internas, gerando comunidades fortemente estruturadas. Não importando seu tamanho, essas comunidades se percebiam como totalidades, unidas através de agências internas que faziam sentir sua presença em cada membro individual. O indivíduo não era esquecido, mas também não era considerado a unidade em que a sociedade fora constituída. Em vez disso, a família era a unidade, e o indivíduo encontrava o seu lugar na sociedade através da família e de suas extensões. A subtribo era realmente uma família muito extensa, e uma coleção de subtribos relacionadas formaram uma tribo, e uma federação de tribos produziam uma nação." [WILLIAMS, William C. . Family Life and Relations. ELWELL, Walter A. Evangelical Dictionary of Theology .Grand Rapids: Baker Book House Company, 1997. p/d] Grifos meus. 

[5] Em Gênesis 12.3 lemos a promessa de Deus a Abraão: “E em ti serão benditas todas as famílias da terra”. Na mentalidade hebraica- não só nela - você não leria: “E em ti serão benditas todos os indivíduos da terra”. A unidade não é a pessoa, mas a célula familiar. 

[6] Livro de Josué 7.14. “Em Josué 7.16-18, que descreve a busca feita para identificar o homem culpado de deixar Deus insatisfeito com Israel, isola-se primeiramente a ‘tribo’ (shebet) de Judá, em seguida a ‘família’ (mishpaha) dos zeraítas, então a ‘casa’ (bet) de Zabdi. A casa de Zabdi é então examinada e se descobre que um dos seus netos, Acã, ele próprio tendo vários filhos, é o culpado”. [HARRIS, R. Land; ARCHER Jr, Gleason L. e WALTKE, Bruce K. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 1998. p 1602.]

[7] HESS, Richard. Josué: Introdução e Comentário. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 2006. p 134. Para uma introdução sobre os termos hebraicos para cada divisão societária em Israel, veja: BENTHO, Esdras Costa. Análise Sócio--Histórica da Família. A Família no Antigo Testamento. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. pp 23-36. Para uma introdução mais generalista, veja: GOWER, Ralph. Novo Manual dos Usos e Costumes dos Tempos Bíblicos. 2 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2012. pp 54-70.

[8] Expressão usada em tom crítico por: RICHARDS, Lawrence O. Op. cit. p 149.

[9] PFEIFFER, Charles F.; VOS, Howard F.; REA, John. Dicionário Bíblico Wycliffe. 4 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2008. p 1226.



Um comentário:

Jones F. Mendonça disse...

Em suma, Deus age de acordo com a... cultura! A teologia presente no bloco Js/Jz/Sm/Reis (chamada de deuteronomista = pecado > punição > arrependimento > livramento) é uma teologia condicionada pela cultura. Isso traz problemas que os teólogos conservadores se negam a ver.