domingo, 24 de fevereiro de 2013

A complexidade da Igreja, caros desigrejados, é sinal de vida!

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Os desigrejados- aqueles que dizem amar Jesus, mas detestar a Igreja- reclamam que precisamos voltar para a simplicidade de Cristo. Assim, podemos nos reunir com um grupo informal, falar coisas bacanas sobre o Reino e depois voltarmos para as nossas casas. Bom, mas a complexidade da Igreja parece indicar uma morte dessa simplicidade, logo porque o romantismo envolto numa leitura simplificada do Evangelho leva o desigrejado para um Déjà vu


Ao contrário do que os desigrejados dizem, a complexidade da Igreja mostra a vida divina presente nela. O cristianismo continua problemático como sempre esteve, mas mantém a sua beleza. Quantos hospitais, escolas bíblicas, debates teológicos, orações, solidariedade, missões transculturais, evangelizações etc.! Sim, quanto problema, mediocridade, crimes, escândalos e distorções das Escrituras. Agora, a história mostra que sempre tivemos o joio e o trigo. Não era Judas um discípulo? Não foram quase todos medrosos fujões na morte de Cristo? Pedro não era um irresponsável com a sua língua e temperamento? Tomé não era um tanto incrédulo?

O grupo de Jesus não era um campus hipster romântico, mas sim constituído por gente problemática. A Igreja é complexa, logo é viva. “É apenas a árvore viva que cria galhos demais” [1], como já escrevera Chesterton. Portanto, voltar para a simplicidade de Cristo é querer conviver com pessoas e problemas, com mediocridade e nobreza, com espiritualidade e incredulidade, com compromissados e desanimados. A simplicidade de Cristo não é uma utopia infantil, é a realidade vivida. Não é ideal, porque precisa ser a vida cotidiana. A utopia dos desigrejados, como toda utopia, é a negação da realidade que não queremos viver. 

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“O que receio, e quero evitar, é que assim como a serpente enganou Eva com astúcia, a mente de vocês seja corrompida e se desvie da sua sincera e pura devoção a Cristo. [2 Coríntios 11.3 NVI] Este é o nosso orgulho: A nossa consciência dá testemunho de que nos temos conduzido no mundo, especialmente em nosso relacionamento com vocês, com santidade e sinceridade provenientes de Deus, não de acordo com a sabedoria do mundo, mas de acordo com a graça de Deus. [2 Coríntios 1.12].”


Referência Bibliográfica:

[1] CHESTERTON, Gilbert k. Tremendas Trivialidades. 1 ed. Campinas: Editora Ecclesiae, 2012. p 137.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

O legado de Elias para Eliseu

Por Gutierres Siqueira

Subsídio preparado para a Escola Dominical na Assembleia de Deus do Jardim das Pedras, São Paulo (SP).


1. Desapego do poder. Reconhecer que não é único ou insubstituível.2. Criação de um sucessor. E isso sem ciúmes ou sabotagem.
3. Reconhecer que para tudo há um tempo, ou seja, saber a hora de parar. “Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu”. [Eclesiastes 3.1 ARF]4. “Jogar a capa" era um ato de passagem de poder e autoridade. Não era um ato místico, mas um cerimonial. Portanto, é necessário cuidado com essa mania de usar objetos como elemento de culto e, também, com os ditos “atos proféticos”. O nosso culto é cristão, não judeu.
5. Elias era um homem comum. Não era nenhum superman ou como disse Tiago: “Elias era homem sujeito às mesmas paixões que nós” (5.17). Esse campeão da fé também sofreu medo, depressão e fez análises equivocadas. Mas acima de tudo estava focado em obedecer a Deus.6. Quando Eliseu pede a “porção dobrada”, na verdade, ele está requerendo o direito de progenitura sobre os demais profetas da escola de Elias. 6.2. A “porção dobrada”, portanto, em um primeiro momento, não significava “mais poder” para milagres. Significa, isso sim, mais responsabilidade como o novo líder a representar o legado do antigo líder. Assim, por que os pregadores atuais falam em “porção dobrada” como “poder em dobro” para milagres, mas esquecem da responsabilidade de um legado na substituição de uma liderança? 6.3. Elias não concede o pedido a Eliseu porque tal atribuição era divina, e não humana. Como os pregadores atuais podem oferecer o que não é prerrogativa deles?
7. Elias não era profeta dos palácios, mas contra o palácio. Não é à toa que enfrentou a fúria da rainha Jezabel. 8. Eliseu, como novo líder, desapega do seu passado.

 
Leia mais: 


“O legado de Elias e o nosso legado ministerial” por Geremias do Couto.


“‘Receba a porção dobrada do Espírito Santo’! Ou, veja porque essa declaração é uma bizarrice!” Por Gutierres Siqueira

Eureka!

Por Gutierres Siqueira

Hoje peguei um ônibus onde um estudante de psicologia explicava para o colega de turma sobre o porquê da fé. Em um monólogo e com um timbre de voz típico de um pregador em busca de prosélitos, o jovem estudante dizia que a fé é a “terceirização da responsabilidade”.

Esse é o típico raciocínio simplificador da mentalidade presente no jardim de infância. Era até engraçado o tom triunfalista do pregador secular, pois na "aula do busão" só faltou o acompanhamento da exclamação "eureka", tamanho era o entusiasmo com a "descoberta"!

Nesse papo todo, eu lembrei da história hebraica sobre a prostituta Raabe. Essa mulher acolheu dois estrangeiros espiões na sua própria terra, isso porque ela enxergava nesses homens o chamado divino. O autor aos hebreus diz que Raabe fora um exemplo de fé (Hb 11.31). E por que não dizer que era um exemplo de baita coragem? Raabe queria simplesmente “terceirizar responsabilidades”? Ou mostrou em sua terra que uma mulher sozinha poderia salvar toda a sua família por um ato de fé?

Simplificar a fé em Deus como coisa de criança mimada e/ou covarde (um casamento de Freud com Nietzsche) não é nenhuma novidade, mas parece que virou dogma com direito a pregador em transporte público.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Quem doa dinheiro aos mercenários da fé é apenas vítima?

Ninguém é uma "tabula rasa"!
Por Gutierres Fernandes Siqueira

Vez ou outra lemos sobre um fiel arrependido processando a igreja da qual era membro porque ao ofertar não recebeu a “bênção divina” esperada. Essa bizarrice é comum em denominações adeptas da "teologia da prosperidade". Há quem veja nessas pessoas - sujeitos que vendem casas, propriedades e carros para entregar ofertas nas igrejas empresariais- como vítimas inocentes de lobos devoradores. Bom, já acho que a coisa não é tão branco no preto.

Embora o mercenário da fé seja um pilantra no ponto de vista ético e um falso profeta na visão religiosa, não é exagero afirmar que a maior parte daqueles que entregam fortunas em igrejas, na busca mágica do milagre imediato, é igualmente carente de um caráter nobre. Vítima? Sim, mas não somente!

Boa parte dessas “vítimas” estão comprometidas numa relação contratual com mercenários. Movidas pela ambição, elas caem nas tentações mais chulas e encaram Deus com um ídolo pagão, ou seja, um ser manipulável pela quantidade de oferta entregue. Certamente que uma pessoa aperfeiçoada pelo caráter de Cristo não buscará uma relação tão vulgar com o Todo-Poderoso.

Ah, mas são pessoas manipuladas, dirão alguns. Ora, acreditar que um ser humano pleno de suas faculdades mentais seja plenamente manipulável por outro é como acreditar no Papai Noel. A manipulação na arena religiosa é também uma concessão do "manipulado". Ninguém é uma tabula rasa.

Portanto, sempre que eu vejo uma “vítima” do falso profeta da prosperidade eu lembro desse trecho da epístola do Tiago: “Cada um, porém, é tentado pela própria cobiça, sendo por esta arrastado e seduzido. Então a cobiça, tendo engravidado, dá à luz o pecado; e o pecado, após ter-se consumado, gera a morte”. [1.14-15]


Leia Mais: O mito da "manipulação midiática"

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Religião: graça ou desgraça?

Por Gutierres Siqueira


O Evangelho é diferente da religião, pois enquanto o primeiro é "Deus em busca do homem", o segundo é "o homem a procura de Deus". Bom, mas não há como negar a nossa natureza religiosa. Logo, se somos cristãos temos uma religião chamada "cristianismo". O cristianismo é uma prática religiosa com mensagem "arreligiosa". Não é à toa que os primeiros cristãos eram acusados de ateísmo. Como temos credos, confissões, sacramentos, hierarquia etc. e tal, também, temos uma vivência religiosa. O legal é saber que ela deve ser a consequência da nossa fé, e não a sua causa primária.

Assim, não coloco uma visão negativa na palavra "religião", mas a vejo como um substantivo ambíguo, pois expressa a nossa busca por Deus quando o Evangelho mostra a nossa incapacidade para alcançar o Senhor. Ao mesmo tempo, a religião é como ar, ou seja, é inevitável ao homem. Mesmo o ateu é um religioso em relação à ciência ou a um modelo socioeconômico, como disse Chesterton: ""Quando as pessoas deixam de acreditar em Deus, não passam a acreditar em nada - acreditam em qualquer coisa."

Sou religioso? Sim e não. Sim, pois pratico rituais, canto louvores, oro, participo do templo etc. e tal. Não, por que a minha busca por Deus sempre depende do toque de Sua graça.

Nesse sentido, acho legal quando enfatizamos que a nossa religião é consequência da graça, e não o contrário. Se sou religioso para alcançar Deus, logo sou o pior dos homens, mas se sou religioso porque já recebi a graça do Senhor, então bem-aventurado estou. Assim, a religião é uma palavra neutra. Depende a posição de sua importância, pois se ela vem primeiro do que a graça então ela é desgraça. Se vem depois, logo é o agir de Deus em nossas vidas.

"Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus." [Efésios 2.8]
"A religião pura e imaculada para com Deus, o Pai, é esta: Visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e guardar-se da corrupção do mundo". [Tiago 1.27]

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Seja simpático e rejeite o estrelismo!

Por Gutierres Siqueira

De vez em quando eu participo de algum evento teológico e, em alguns casos, é comum ouvir ataques contra a idolatria evangélica, o personalismo neopentecostal e a arrogância dos autoproclamados apóstolos etc. e tal. Bom, mas será que do lado de cá a coisa é mais bonita?

Ora, o que tem de gente desse meio que é antipática... ou seja, são pessoas repulsivas, desprovidas de qualquer afinidade e interesse e, quase sempre, expressam certa aversão pelo outro. A antipatia é a palavra grega antipátheia  que significa “afeição contrária”, enquanto a simpatia vem do grego sumpátheia e indica “participação no sofrimento de outrem”.

Que o Senhor nos livre desse pecado, pois é uma tentação constante.

Bom, custa dedicar alguns minutos de atenção para quem admira o seu trabalho? É difícil conversar com pessoas que querem ouvir sua opinião sobre determinada questão? Eu, por exemplo, recebo e-mails de leitores, sendo que algumas vezes demoro na resposta, mas sei que preciso atender aquela demanda. Infelizmente, já tive e-mails que voltaram e sei que o leitor ficou com a impressão que não quis respondê-lo. Mas é bom quando você enxerga o “RE:” na sua caixa de entrada. Não é verdade?

Assim, quando dedicamos parte pequena do nosso tempo para atenção ao outro, assim evitamos o mal do estrelismo. Somos a “luz do mundo”, mas para refletir a glória do Senhor. “Aquele, porém, que se gloria, glorie-se no Senhor” [2 Co 10.17].

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Por que lamento o fim da era Ratzinger?

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Minha atitude perante o progresso passou do antagonismo ao tédio. Parei, há muito tempo, de discutir com as pessoas que preferem quinta-feira à quarta-feira porque é quinta-feira . [G. K. Chesterton, polemista católico].



Como vocês já sabem, hoje foi anunciada a renúncia de Joseph Ratzinger do papado como Bento XVI. Até o final do mês, o cardeal alemão deixará o exercício que vem desempenhando desde 2005. Ratzinger já tem 85 anos e não desfruta de uma boa saúde. Além disso, o líder católico sempre deixou claro que poderia renunciar caso não tivesse mais condições para liderar a denominação.

Bom, como protestante, eu simplesmente discordo de inúmeras doutrinas, tradições e costumes católicos, aí incluído a própria instituição do papado. Fazendo essa óbvia ressalva, reconheço em Ratzinger um dos melhores teólogos das últimas décadas. Nesse sentido, tenho inúmeros motivos para lamentar a saída de Ratzinger. Cito duas dessas causas.:

1. Ceticismo com a modernidade. Ratzinger é um cético para com a promessa de progresso apregoada pela modernidade. Não é à toa para quem cresceu na Alemanha nazista. O país progrediu cientificamente como nunca sob um regime totalitário, e a população pacífica diante do horror era uma das mais bem educadas do mundo. Os crentes do progresso dirão que Ratzinger é apenas um reacionário com medo do novo, mas numa análise atenta veremos no alemão a lucidez conversadora diante de qualquer promessa utópica que, imbuída de esperanças, desbanca para tentações totalizantes. O conservadorismo de Ratzinger não é a defesa boçal do status quo, mas a saudável desconfiança para soluções políticas mágicas e messianicas, logo porque o mundo não é um jardim de infância.

E Ratzinger, comentando sobre o assunto, nos lembra de obviedades esquecidas pelas “mentes iluminadas”:



A modernidade procurou o próprio caminho guiada pela ideia de progresso e de liberdade. Mas o que é progresso? Hoje, vemos que o progresso pode ser também destrutivo. Por isso, devemos refletir sobre os critérios a serem adotados, a fim de que o progresso seja verdadeiramente progresso. [...] É progresso quando posso destruir? É progresso quando posso criar, selecionar e eliminar seres humanos? Como é possível dominar o progresso do ponto de vista humano e ético? [1]

Quando falo em “progressismo” como ideologia lembro das palavras de C. S. Lewis:


Essa desconsideração pela autoridade humana pode ter duas origens. Pode brotar da convicção de que a história humana é um simples movimento unilinear do pior para o melhor- o que se chama de crença no Progresso- de modo que qualquer geração é em todos os aspectos mais sábia que as gerações anteriores. Para os que pensam assim, nossos antecessores estão superados e parece não haver nada de improvável na afirmação de que o mundo inteiro estava errado até anteontem e agora ficou certo, de repente. Com essas pessoas, confesso, não consigo discutir, pois não participo de seus pressupostos básicos. Os que creem no progresso notam corretamente que no mundo das máquinas o novo modelo supera o antigo; disso infere falsamente uma espécie de superação em elementos como virtude e sabedoria [2].  

Ratzinger nos mostra que o "progresso" pode ser a vanguarda do atraso.

2. Defesa da verdade diante do dogmático relativismo pós-moderno. Ratzinger tem sido um profeta diante do mal que o relativismo ético, moral e epistemológico pode causar ao ser humano. Ora, se não existe verdade, logo tudo é permitido. A Declaração Universal dos Direitos Humanos não poderia ter sido escrita por quem dogmaticamente acredita que a única verdade absoluta é a inexistência de verdade absoluta.  Ratzinger escreveu:

As teorias relativistas desembocam geralmente no descompromisso, tornando-se, assim, supérfluas, ou acabam alegando que na práxis residem normas absolutas e, então, impõem o absolutismo, exatamente aonde ninguém queria chegar”. E continua: “Onde o ministério já não conta, a política se converte em religião [3].

E comentando o Evangelho, o teólogo católico lembra a pobreza da exegese liberal, que é contaminada pela leitura pós-moderna e, outrora, iluminista:
A exegese liberal disse que Jesus teria substituído a concepção ritual da pureza [da lei mosaica] pela moral: no lugar do culto e do seu mundo, entraria a moral. Então o cristianismo seria essencialmente uma moral, uma espécie de “rearmamento” ético. Mas desse modo não se faz justiça à novidade do Novo Testamento. [4]
O relativismo não é, portanto, apenas uma ideia com consequências perigosas, mas também, uma tese que em sua aplicação é uma antítese.
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Bom, é lamentável receber a notícia dessa renúncia, pois a voz de Ratzinger fará falta para a cristandade como um todo. Estranho ler isso de um protestante? Bom, se você achou, por favor, experimente ler a obra do cardeal alemão.

PS: Seria bom que alguns “papas evangélicos” - que abraçam o poder com afinco- seguissem o exemplo de Ratzinger.


Referências Bibliográficas:

[1] RATZINGER, Joseph. Luz do Mundo. O Papa, a Igreja e os sinais dos tempos. Uma conversa com Peter Seewald. 1 ed. São Paulo: Edições Paulinas, 2011. pp 62,63.

[2] LEWIS, C. S. O Peso de Glória. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2009. p 82-83.

[3]  RATZINGER, Joseph. Fé, Verdade, Tolerância: O Cristianismo e as Grandes Religiões do Mundo. 1 ed. São Paulo: Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência Raimundo Lúlio, 2007.  p 119.

[4] RATZINGER, Joseph. Jesus de Nazaré: Da entrada em Jerusalém até a Ressurreição. 1 ed. São Paulo: Editora Planeta, 2011. p 63.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Como desfrutar da juventude cristã em meio a uma sociedade corrompida?

Por Gutierres Siqueira

Esboço do sermão pregado na Igreja Evangélica Assembleia de Deus Ministério Cubatão do Jardim Iporã em São Paulo (SP).

“Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para a glória de Deus” [1 Co 10.31]

Introdução. Devo comer carne sacrificada aos ídolos? Esse era um grande dilema na Igreja de Cristo em Corinto. A resposta de Paulo parece indicar dois caminhos, pois ao mesmo tempo ele pergunta: “Mas que digo? Que o ídolo é alguma coisa? Ou que o sacrificado ao ídolo é alguma coisa?” [1 Coríntios 10.19] e: “Comei de tudo quanto se vende no açougue, sem perguntar nada, por causa da consciência” [v.25] e também: “Não podeis beber o cálice do Senhor e o cálice dos demônios; não podeis ser participantes da mesa do Senhor e da mesa dos demônios” [v. 21]. O dilema de Corinto é o velho dilema do cristianismo: a relação do crente com o mundo. Afinal, posso ou não posso?

A questão no texto não é o “posso ou não posso”, mas sim o desenvolvimento de uma maturidade. A maturidade que evita a idolatria e desfruta da liberdade cristã com sabedoria e disciplina. Portanto, como desfrutar a juventude diante dessa sociedade? A resposta é maturidade, sabedoria e, acima de tudo, o propósito para mostrar a glória de Deus.

1. É possível desfrutar de uma comida e bebida “espiritual” e ainda desagradar fortemente a Deus por ter um coração idólatra. [vv. 1-6]. Portanto, ser “da igreja” não é garantia amor ao Senhor, principalmente quando estamos na igreja, mas não somos dela. É necessário entender que participar de uma comunidade em torno de Deus não nos torna participantes de Sua graça. É possível ser “batizado” (v.2), comer “manjar espiritual ou sobrenatural” (v.3), beber “bebida espiritual” (v.4) e ainda desagradar ao Senhor (v.5) por cobiçar o que era de fora (v.6), ou seja, os falsos deuses e as “cebolas do Egito”.

2. A idolatria é o pecado por excelência que nos prende ao prazer vazio e pelo desprezo a Deus. [vv. 7-13]. Portanto, a liberdade sem maturidade conduz à escravidão (1 Co 6.12). Além disso, a idolatria nos atrai para a corrupção e murmuração.  Paulo mostra que Israel caiu pela idolatria. A idolatria é amar qualquer pessoa ou coisa a mais que o Senhor, portanto, é um pecado ainda presente e o alerta nas Escrituras servem para o nosso despertamento (v.12). Folgar com “festas idólatras” é errado (v. 7)A idolatria é prostituição e vice-versa (v. 8), assim como uma irritação a Cristo (v. 9). Ídolos levam a murmuração (v.10) e tudo isso deve nos levar para pura atenção (v.11), porque nenhuma tentação é além do nossa capacidade de suportar (v. 12).

3. Não devemos participar de atividades idólatras, ou seja, qualquer ambiente que preste culto a outrem que não seja Deus [vv. 14-22]. Paulo apela para a sabedoria contra a idolatria (v, 14-15). Não há como mistura a comunhão da mesa do Senhor com a mesa dos demônios. É necessário uma separação (v. 16-18, 21). O ídolo não é, mas ainda assim não podemos bricar com a idolatria, pois nela está envolvida um culto aos demônios (v. 19-20).

4. O princípio geral é trabalhar pela glória de Deus. [vv. 23-33] Tudo é permitido, mas nem tudo convém (v. 23). Devemos buscar o bem alheio (v. 24, 33). Podemos comer de tudo, mas ao mesmo tempo devemos respeitar a consciência alheia (v. 25, 29-30). Tudo é do Senhor (v. 26). Devemos ter um bom relacionamento com aqueles que não servem a Deus (v. 27), mas renegar qualquer culto idólatra (v. 28).  Tudo para a glória de Deus (vv. 31-32).

Conclusão. O nosso foco deve ser uma vida para a glória de Deus onde eu valorizo o bem da comunidade cristã e a edificação do Corpo de Cristo.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Pagã, mulher e pobre? Deus a usou para sustentar o profeta Elias!


Pagã, mulher e pobre? Deus a usou para sustentar o profeta Elias!
Lição na narrativa da viúva de Sarepta (1 Rs 17.8-16)




1. O Senhor escolhe pessoas das quais não esperamos como “vasos de Deus”. Elias tinha muitas razões para duvidar da providência divina através da viúva de Sarepta.
1.1 Essa viúva era pagã. Ora, Deus escolhendo uma mulher fenícia para ser instrumento em suas mãos? Vamos lembrar que a grande luta de Elias era contra a idolatria a Baal introduzida pela perversa rainha Jezabel, também estrangeira e fenícia como a pobre viúva. Serepta ficava apenas a quinze quilômetros de Sidom, a terra de Jezabel (1 Rs 16.31).

Quando Jesus é rejeitado como profeta em sua própria terra Ele lembra da história dessa viúva:

"Digo-lhes a verdade: Nenhum profeta é aceito em sua terra. Asseguro-lhes que havia muitas viúvas em Israel no tempo de Elias, quando o céu foi fechado por três anos e meio, e houve uma grande fome em toda a terra. Contudo, Elias não foi enviado a nenhuma delas, senão a uma viúva de Sarepta, na região de Sidom”. [Lucas 4. 24-26 NVI].

Com essa declaração todos na sinagoga ficaram irados com Jesus (v. 28). É até natural, logo porque nós temos uma tremenda dificuldade de ouvirmos que o pagão pode ser escolhido como instrumento de Deus em nosso lugar. Assim, Elias se torna o primeiro “profeta dos gentios” (Matthew Henry.)
1.2 Essa viúva era pobre. Como ser sustentado por quem não tem o próprio sustento? Eis o ponto máximo da providência divina.
1.3 A viúva era, obviamente, mulher. Imagine a uma homem judeu a ideia de ser sustentado por uma mulher! Por exemplo, para alguns rabinos era melhor queimar a Lei do que vê-la ensinada por uma mulher. Outros diziam que elas nem possuíam alma.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Palestra

Caros,

Vou dar uma palestra sobre o tema: "Como desfrutar da juventude cristã em meio a uma sociedade corrompida" na Assembleia de Deus Ministério Cubatão do Jardim Iporã, região de Parelheiros (São Paulo, SP). A igreja é pastoreada pelo amigo blogueiro Robson Silva. Fica o convite.

Dia 10/02/2013 às 15h.

Clique na imagem para ampliar.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

O “cristianismo cult” e o aborto

"Massacre dos Inocentes"
de Guido Reni (1611)
Por Gutierres Fernandes Siqueira

O “cristianismo cult” é uma expressão que criei para caracterizar o movimento dentro da Igreja Evangélica Brasileira que abraça com entusiasmo valores modernos (iluministas) e (ou) pós-modernos. É aquela turma que expressa as mesmas ideias dos teólogos liberais de décadas passadas, mas sem a coragem daqueles, pois ainda dizem cultivar crenças ortodoxas, ao mesmo tempo que abraçam uma agenda autointitulada de “progressista” (muitas aspas, por favor!).

Bom, eu sei que a maioria dos “cristãos cults” são contra o aborto. Em entrevista recente para a revista Veja, o pastor norte-americano Rob Bell, símbolo máximo desse movimento, se declarou contrário a interrupção da vida uterina. Os teólogos da libertação católicos, os pais espirituais do “cults” protestantes, também expressam contrariedade a prática covarde do abortamento.

Mas sabe o que é interessante? Os “cristãos cults” militam sobre diversos assuntos, sendo que alguns lutam com afinco até mesmo pelo direito ao casamento homossexual e a descriminalização do consumo de drogas. Outros, em gestos nobres, são militantes contra o trabalho infantil, o trabalho escravo e a fome na África. Alguns são ongueiros, enquanto outros trabalham no terceiro setor. Mas eu não conheço nenhum que seja militante contra o aborto! E nem contra o infanticídio nas tribos indígenas.

Ora, quem aborta não fere o direito humano mais básico que é a vida? E, pior, não é tirar a vida de quem não pode se defender? Cadê a militância daqueles que fervem sangue revolucionário? Se gostam tanto de uma ONG, por que não há alguma contra esse infanticídio? Ou será que tal bandeira é muito conservadora para mentes da “vanguarda”? Ou ainda é o medo de alguma amiga feminista confrontá-lo como retrógrado?

Pois bem, se um cristão acha melhor não dizer a verdade para não parecer antiquado a este mundo, logo seria melhor servir o mundo por completo. Eu lamento que existam pessoas que se dizem cristãs, mas temem certo repúdio à práticas abomináveis, pois não querem ser confundidos com os “conservadores”. É lamentável!

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Por que a entrevista do Silas Malafaia foi trágica do começo ao fim?

Por Gutierres Fernandes Siqueira


A caricatura diante da secularista. Uma noite ruim!
Tenho inúmeros amigos e colegas que gostaram da entrevista do Silas Malafaia concedida à jornalista e atriz Marília Gabriela. Eles argumentam que, tirando o primeiro bloco, Malafaia defendeu com coragem a moral cristã diante das ameaças à família. Mas eu discordo. Na minha opinião, a entrevista como um todo foi trágica. Eis os meus motivos:

1. O primeiro bloco e a prosperidade. Bom, eu nem preciso comentar as inúmeras bobagens ditas pelo Silas Malafaia a fim de defender a “teologia da prosperidade” que ele chama de “teologia da semente”. Creio que é consenso que essa primeira parte irritou a todos nós.

2. O homossexualismo (ou “homossexualidade” para a patrulha politicamente correta). O grande problema na defesa da “moral cristã” é que o Silas Malafaia representa uma caricatura. Quando Malafaia fala que ama homossexuais como ama bandidos ele ofende de forma desnecessária a essas pessoas. Sim, eu sei que ele não quis comparar uma coisa com a outra, mas a primeira impressão é a que fica. A agressividade de suas palavras, assim como aquela personalidade explosiva, dificilmente convence alguém a reflexão, mas sim para a militância.

3. Falar em valores morais e não falar do Evangelho é palavreado vazio. Nós, cristãos conservadores, precisamos aprender que se alguém abraça a moralidade cristã sem o Evangelho essa pessoa simplesmente continuará distante de Deus. Não é a moral cristã que salva. Não é a uma família tradicional que salva. Não é a a rejeição ao homossexualismo que salva etc. e tal. A salvação é pela graça de Deus. A moral cristã é uma consequência para quem conhece o Evangelho. Portanto, enquanto pregamos moral para quem precisa do Evangelho, logo estaremos condenando tal pessoa a viver em seu estado pecaminoso.

PS: Bom, eu também quero rejeitar certo protesto na web feito por aquela turma do “cristianismo cult”. Ora, são sujeitos que não se preocupam com o Evangelho a ser luz e sal para o mundo, mas abraçam com entusiasmo qualquer novidade dos pressupostos modernos e pós-modernos. Sim, são caras que amam o presente século e vivem como se Deus não existisse, ao mesmo ponto que abominam uma moral cristã como qualquer ser secular. Eu não acho que tais tenham “moral” para falar mal do Malafaia, pois são tão perniciosos quanto aquele!  

domingo, 3 de fevereiro de 2013

“Receba a porção dobrada do Espírito Santo”! Ou, veja porque essa declaração é uma bizarrice!

Elias revivendo o filho da viúva de Sarepta, por Louis Hersent [177-1860]
Por Gutierres Fernandes Siqueira

Você certamente já ouviu algum pregador pentecostal orando para que a plateia ou uma pessoa específica recebesse a “porção dobrada do Espírito Santo”. A base é 2 Reis 2, mas a interpretação é equivocada. Nesse texto, temos a história do profeta Elias designando a continuidade de seu ministério para Eliseu antes de ser transladado. Nos versículos 9 a 11 lemos:

Sucedeu, pois, que, havendo eles passado, Elias disse a Eliseu: Pede-me o que queres que te faça, antes que seja tomado de ti. E disse Eliseu: Peço-te que haja porção dobrada de teu espírito sobre mim. E disse: Coisa dura pediste; se me vires quando for tomado de ti, assim se te fará; porém, se não, não se fará. E sucedeu que, indo eles andando e falando, eis que um carro de fogo, com cavalos de fogo, os separou um do outro; e Elias subiu ao céu num redemoinho.

Bom, vejamos o que a expressão “porção dobrada” significa.

1. Quando Eliseu pede a “porção dobrada”, na verdade, ele está requerendo o direito de progenitura sobre os demais profetas da escola de Elias.

Elias foi líder de uma “escola de profetas”, e Eliseu era um dos seus alunos. O ambiente da escola lembrava uma fraternidade onde os membros eram chamados de “filhos dos profetas” (v. 3,5). Ora, com a trasladação de Elias quem seria o seu substituto? Ou seja, quem havia de ser o novo líder? Então, Eliseu baseado na lei mosaica (cf. Dt 21.17) pede a Elias a “porção dobrada”, ou seja, os direitos de um filho primogênito. O primeiro filho recebia o dobro das riquezas do pai em relação aos seus irmãos, e isso implicava mais responsabilidade para a manutenção da família. Donald J. Wiseman lembra que esse filho primogênito “tinha a responsabilidade de perpetuar o nome e o trabalho do pai” [1].

Nesse sentido, a tradução da Nova Versão Internacional (NVI) traz mais luz para a interpretação: “Depois de atravessar, Elias disse a Eliseu: ‘O que posso fazer por você antes que eu seja levado para longe de você?’ Respondeu Eliseu: ‘Faze de mim o principal herdeiro de teu espírito profético’". [grifo meu].

2. A “porção dobrada”, portanto, em um primeiro momento, não significava “mais poder” para milagres. Significa, isso sim, mais responsabilidade como o novo líder a representar o legado do antigo líder. Assim, por que os pregadores atuais falam em “porção dobrada” como “poder em dobro” para milagres, mas esquecem da responsabilidade de um legado na substituição de uma liderança?

Repito: a expressão não significa, a princípio, um poder dobrado para milagres ou um ministério ainda mais poderoso em sinais e maravilhas do que o de Elias. É tão verdade que Eliseu continua o trabalho de Elias, mas não se tornou um profeta mais importante do que o seu “pai espiritual”. Ele é usado por Deus em continuidade, mas não se sobrepõe ao seu pai na fé. Quem é o profeta mais lembrado depois de Moisés na história e literatura hebraica? Elias é a resposta. Eliseu certamente pensava que a continuidade do ministério de Elias implicaria grandes sinais, mas a expressão em si não indica essa questão, mas sim o direito de substituí-lo como líder.

3. Elias não concede o pedido a Eliseu porque tal atribuição era divina, e não humana. Como os pregadores atuais podem oferecer o que não é prerrogativa deles?

Eliseu recebe a “porção dobrada” da parte de Deus, mas não de Elias. O profeta Elias mostra a Eliseu que a resposta ao pedido não dependia dele, mas sim do Senhor. “Coisa dura pediste”, diz Elias, indicando que Eliseu seria o seu substituto mediante a observação de seu arrebatamento. O teólogo pentecostal Wilf Hildebrandt escreve sobre essa passagem:

A dificuldade de honrar o pedido é demonstrada por Elias, que faz com que o direito de sucessão dependa do avistar de sua partida por parte de Eliseu. Elias indica que não é uma prerrogativa sua o responder ao pedido e sim uma prerrogativa de Deus. Assim, o pedido por “uma porção dupla” não é concedido por ele, mas depende da permissão de Iahweh para que Eliseu testemunhe sua partida e ‘abra os seus olhos’ para a seleção de Deus. Somente Deus poderia escolher um sucessor para Elias e transferir se o Espírito para o profeta escolhido.  [2]

É interessante observar que um pregador que acredita atribuir o Espírito Santo em dobro para outras pessoas não traz essa ideia da cosmovisão bíblica, mas sim de uma cosmovisão animista, portanto, pagã. É necessário rejeitar qualquer tentativa de interpretar o texto bíblico segundo padrões mágicos que arranham a correta interpretação do mesmo. Ninguém pode “jogar” o Espírito Santo em dobro no outro. O Espírito Santo enche o verdadeiro crente segundo a graça divina para o serviço do Senhor. “Mas a manifestação do Espírito é dada a cada um, para o que for útil” [1 Co 12.7].

Referências Bibliográficas:

[1] WISEMAN, Donald J. 1 e 2 Reis. Introdução e Comentário. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 2006. p 172.

[2] HILDEBRANDT, Wilf. Teologia do Espírito de Deus no Antigo Testamento. 1 ed. São Paulo: Editora Academia Cristã e Edições Loyola, 2008. p 195.