domingo, 31 de março de 2013

Uma concepção autoritária de Estado laico e um discurso que legitima a violência!


Por Gutierres Fernandes Siqueira


O pastor Ricardo Gondim concedeu uma entrevista para o blog do jornalista Roldão Arruda, especialista em assuntos de direitos humanos [leia aqui]. Bom, já alerto que criticar opiniões do Gondim não é fácil. Os seus seguidores costumam pintar os críticos de fundamentalistas, retrógrados, reacionários e de outros adjetivos que legitimam um discurso estereotipado para não debater ideias. E fora, também, quando perguntam se você é especialista para fazer alguma observação crítica! Estamos lidando com algum deus do Olimpo? Prossigamos!


É visível a tentativa de colocar Gondim como o “Boff evangélico”, ou seja, o brilhante teólogo incompreendido pelos idiotas (no sentido filosófico do termo). É uma vitimização sem fim! E, nessa entrevista, não é diferente!


A apresentação do texto já começa com uma tremenda inverdade. O jornalista escreve que “no ano passado ele (Gondim) rompeu com parte do movimento evangélico, após ter sido atacado e chamado de herege, por suas críticas à chamada ‘teologia da prosperidade’”. Ora, Gondim como crítico do Movimento da Fé sempre foi uma voz respeitadíssima no meio evangélico. Quem não lembra do referido pastor como colunista de duas revistas importantes no segmento? O rompimento dele, na verdade, diz respeito a paradigmas teológicos e soteriológicos. Bom, mas esse é outro assunto.

Discordar do Gondim não significa que eu concorde com o (In)Feliciano [leia aqui]. E nem discordo de tudo nessa fala, pois há coisas boas ditas nessa entrevista. Sabemos que o Marco Feliciano já fala besteiras há anos. Megalomaníaco, analfabeto de Bíblia e recheado de clichês, o texto do tweet talvez nem expresse racismo clássico, mas desinformação pura e simples de alguém que interpretada a Bíblia como se fosse um gibi. É o retrato de um pastor mal preparado teologicamente e, portanto, mal preparado para o exercício da política partidária. Mas, como vivemos numa democracia, as besteiras felicianas devem ser toleradas [leia aqui]. Aliás, o Feliciano é só uma consequência do descaso que o pentecostalismo brasileiro deu para com a educação. Porém, o Gondim parece querer representar outro extremo.

Agora, vejamos. Gondim escreve que o Feliciano foi eleito por “um segmento muito alienado politicamente”. Hum, que frase mais ensone e elitista. Eu nunca votaria no Feliciano, mas daí chamar seus eleitores de “alienados” é um tanto forte.

Ele diz: “É apenas o porta-voz de um grupo que, no atual contexto religioso, ainda replica argumentos usados por países colonialistas para a dominação e exploração dos mais pobres, especialmente na África. Isso é muito triste.” Ora, que leitura mais contaminada por uma ideologia de esquerda! O (In)Feliciano é apenas ignorante. O discurso dele não faz parte de um complô internacional para justificar a “dominação e exploração” na África. É má teologia, não estratégia política. O problema dessa ideologia gondiniana é achar que todo é política, menos o seu próprio discurso. [Um adendo: Falta aos teóricos “progressistas” denunciarem a exploração predatória que os chineses fazem naquele continente. Ou criticar a China comunista e antagonista dos EUA não vale? Além disso, cadê uma crítica mais contundente contra os ditadores que escravizam países há décadas, inclusive sob a bandeira do anti-imperialismo. Dois pesos?].

Gondim acerta lindamente quando diz que “ainda existem segmentos, dos quais Marco Feliciano faz parte, que repetem esse tipo de coisa, que defendem a relação entre causa e efeito, a maldição das pessoas pela divindade que tudo ordena e orquestra, como se nossas escolhas, decisões e articulações sociais não interferissem nos resultados. Trata-se de um simplismo cruel e inútil.” Ou seja, o problema do Feliciano é mais teológico (concepção mercantil de Deus) do que geopolítico. Infelizmente, Feliciano é adepto da teodiceia da retribuição, assim como muitos evangélicos.

Gondim, contaminado pelo antiamericanismo infantil, tenta casar Feliciano (que apoiou o PT na última eleição) com os sulistas norte-americanos. É como comparar zebra com cavalo. Não temos uma direita religiosa como nos Estados Unidos. Isso é pura fantasia. Os deputados evangélicos, em sua maioria, são da base aliada do governo Dilma Rousseff. Seria a primeira direita de esquerda do mundo!

E, também, Gondim parece não ver preconceito contra evangélico. Ora, o gay, o anão, a mulher, o índio etc. e tal já podem construir a instituição da vítima, menos o evangélico. Esse, é claro, sempre será opressor. Não compartilho dessa visão, mesmo achando que o Feliciano é mais vítima de suas besteiras do que da religião.

E, por último, Gondim tem uma concepção bem francesa de Estado laico. É a mesma visão que legitimou a violência de Robespierre contra a religião. É um discurso que, também, legitima a violência. Estado laico não é ausência do religioso no espaço público, pois tal ausência não é conseguida com democracia. Estado laico é o Estado sem religião oficial, onde todos podem exercer livremente suas crenças e, também, onde o Estado não assume nenhuma posição. Mas isso não quer dizer que a voz da Igreja deva ser calada na praça pública. Somente autoritários conseguiram o sonho do Iluminismo francês. Portanto, por incrível que pareça, o Gondim também é portador de um discurso que já legitimou muita violência por aí. Mas, como vocês sabem e Satre já dizia, o diabo é o outro!

De resto, nada a falar.



PS: Para saber mais sobre essa concepção autoritária de Estado laico, recomendo urgentemente a leitura do livro The Intolerance of Tolerance [2 ed. Grand Rapids: Eerdmans Publishing Company, 2012] do D. A. Carson. Infelizmente, não há edição em português [Alô editoras evangélicas!]. O mais irônico é que eu soube da existência desse ótimo livro por um artigo bem antigo (e ótimo) do Gondim. [leia aqui].

PS 2: O D. A. Carson também trata do assunto no livro Cristo e Cultura: Uma Releitura [1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 2012].

domingo, 24 de março de 2013

Carta aberta para a Igreja de uma lésbica!

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Neste tempo em que a guerra entre o ativismo gay e os evangélicos está na flor da pele, é uma surpresa agradável ler o texto "Uma carta aberta para a Igreja de uma lésbica". É uma crítica saudável sobre como nós, evangélicos, tratamos o pecado da homossexualidade. Até parece mais pecado do que outros na questão de sexualidade. O texto foi publicado pelo blogueiro Justin Taylor, coautor de alguns livros publicados em português com John Piper.

Alguns pontos:

1. O texto destaca que o pecado da homossexualidade (assim como qualquer pecado) deve receber condenação, mas também palavras de esperança numa redenção encontrada em Cristo Jesus. A lésbica do texto sabe que o seu desejo, se consumado, é e será pecado, mas ela luta desesperadamente contra esse desejo. Ela se arrepende profundamente e reconhece o seu estado. Não é indiferente para com os seus desafios na área sexual. Mas, ao contrário de outros pecadores, ela sempre houve palavras de condenação sem esperança. E até mesmo piadas. Não pregamos redenção para o adúltero, para o viciado em pornografia, para o viciado em jogos de azar? Ora, por que não fazemos o mesmo com aqueles cristãos que lutam contra o desejo pecaminoso da homossexualidade? Por que não há apoio e incentivo para continuar a luta?

2. O texto também fala das igrejas liberais. Onde o pecado é aceito como o "não pecado", como algo bonito. É a igreja embriagada pelos ilusões modernas que quer resolver o drama humano com palavras vazias de uma aceitação sem exigências morais. Tudo isso motivado pelo politicamente correto. A autora da carta diz: "Nós não pedimos para você aceitar os nossos pecados mais do que aceitamos o seu. Nós simplesmente pedimos o mesmo apoio, amor, orientação, e acima de tudo, a esperança de que é dada para o resto de sua congregação. Nós somos seus irmãos e irmãs em Cristo. Nós não somos o que deveríamos ser, mas graças a Deus, não somos o que éramos antes. Vamos trabalhar juntos para ver todos nós a chegar com segurança em casa."

Como lembra a carta dessa jovem, muitas pessoas do nosso convívio estão vivendo esse drama. Talvez seja um aluno na sua Escola Dominical ou alguém membro do grupo de louvor. Portanto, que Deus nos dê sabedoria para agir com cada pecado. E sempre lembrando que todos nós somos pecados e, também, cada um de nós lidamos com determinadas fraquezas.

Leia o texto em inglês aqui.

sábado, 23 de março de 2013

Reflexões e uma página no Facebook


Por Gutierres Siqueira


Caro leitor,

Se você ainda não curtiu a página do Blog Teologia Pentecostal [clique aqui], logo o convido a participar. Naquela página eu posto, especialmente nos finais de semana, alguns trechos de livros e artigos que eu achei interessante. Neste post compartilho as últimas postagens na página. Não deixe de curtir, pois é mais um espaço para divulgar conteúdo cristão na internet. Abraço a todos!

Otimismo e esperança cristã

"Otimismo é a espera pelo melhor, sem qualquer garantia de sua chegada e muitas vezes não é mais do que assobiar no escuro. A esperança cristã, pelo contrário, é a fé olhando para o cumprimento das promessas de Deus, como quando a liturgia anglicana para enterros diz: 'em esperança segura e certa da ressurreição para a vida eterna, por nosso Senhor Jesus Cristo.' O otimismo é um desejo sem mandado; a esperança cristã é uma certeza, garantida pelo próprio Deus. O otimismo reflete a ignorância a respeito de se as coisas boas virão de fato. A esperança cristã expressa o conhecimento que todos os dias de sua vida, e cada momento para além dela, o crente pode dizer com verdade, com base no compromisso de Deus, que o melhor ainda está para vir. " [J. I. Packer, teólogo anglicano]

A necessidade humana

"Se Deus tivesse percebido que a nossa maior necessidade era econômica, Ele teria enviado um economista. Se Ele tivesse percebido que a nossa maior necessidade era entretenimento, Ele nos enviaria um comediante ou um artista. Se Deus tivesse percebido que a nossa maior necessidade era estabilidade política, Ele nos enviaria um político. Se Ele tivesse percebido que a nossa maior necessidade era a saúde, Ele nos enviaria um médico. Mas Deus percebeu que a nossa maior necessidade envolvia nosso pecado, nossa alienação dEle, nossa profunda rebelião, a nossa morte, e Ele nos enviou um Salvador." [Donald A. Carson, teólogo reformado. Citado por Max Lucado]

Marxismo como religião fanática

"O principal problema com os comunistas é que eles adoram um deus falso. Isso é bem mais perigoso do que alguém que não acredita em nada [...]. O fanático é perigoso. Os comunistas têm um deus- a dialética da história- aquilo que garante tudo o que eles vão fazer e, também, garante a vitória; é por isso que eles são fanáticos." [Reinhold Niebuhr, teólogo neo-ortodoxo que foi um socialista entusiasmado antes de mudar a sua visão após o período da Segunda Grande Guerra. Ele era irmão do conhecido teólogo Richard Niebuhr, autor do clássico livro "Cristo e Cultura"].

A mania dos direitos, mas com ausência de deveres

"Ausente um delicado equilíbrio - direitos e deveres, liberdade e ordem - o tecido social começa a desmoronar. A explosão de direitos nas últimas três décadas nos levou em uma descida rápida para uma cultura sem civilidade, decência, ou até mesmo ausente daquele grau de disciplina necessária para manter uma civilização industrial avançada. Nossas cidades são fossas, nossas escolas urbanas parecem campos de treinamento de terroristas, as nossas legislaturas parecem bordéis onde os direitos são vendidos pelo maior lance eleitoral ". [D. A. Carson citando Don Feder em "The Gagging of God: Christianity Confronts Pluralism"]

O cristão e a tolerância

"É claro que, no contexto certo, a mesma frase 'os cristãos alegremente toleraram outras religiões', pode sugerir, não tolerância legal, mas a tolerância social, ou seja, em uma sociedade multicultural, pessoas de diferentes religiões devem se misturar sem desprezo e condescendência, porque todas as pessoas foram feitas à imagem de Deus e todos vão dar conta para Ele no último dia. De todas as pessoas, os cristãos deveriam saber que eles não são nem um pouco socialmente superiores a outros. Os cristãos falam sobre um grande Salvador, mas eles não estão a pensar em si como um grande povo. Então, a tolerância social deve ser incentivada." [Donald A. Carson, em "The Intolerance of Tolerance"].

A “nova tolerância” é intolerante

"Essa mudança em 'aceitar a existência de diferentes pontos de vista' a 'aceitação pontos de vista diferentes', de reconhecer o direito dos outros de ter diferentes crenças ou práticas para aceitar os diferentes pontos de vista de outras pessoas, é sutil na forma, mas enorme em substância. Para aceitar que uma posição diferente ou oposta existe e merece o direito de existir é uma coisa, aceitar a posição em si, significa que não mais se opõe a ela. A nova tolerância sugere, na verdade, que aceitar a posição significa acreditar que a posição passa a ser verdade, ou pelo menos tão verdadeiro quanto o seu próprio ponto de vista. Passamos de permitir a livre expressão de opiniões contrárias à aceitação de todas as opiniões, nós pulamos de permitir a articulação de crenças e afirmações com as quais não concordamos em afirmar que todas as crenças e reivindicações são igualmente válidas. Assim, deslizam da tolerância velha para o nova." [D. A. Carson, em "The Intolerance of Tolerance"]

A função do profeta

O profeta não deveria ser considerado um profissional que se nomeou a si mesmo, cujo propósito seria persuadir as pessoas a aceitar opiniões da sua própria lavra, pelo contrário, seria a pessoa chamada por Deus para proclamar, como arauto da corte dos Céus a mensagem que deve ser transmitida de Deus para os homens. [Gleason L. Archer Jr. em “Merece Confiança o Antigo Testamento?”]

sexta-feira, 22 de março de 2013

Marco Feliciano e a sagrada liberdade de expressão!


Pluralismo verdadeiro é conviver com a pluralidade de crenças morais. A definição de pluralismo como "todos concordando em não diferenciar entre normal e anormal" gera violência, porque exclui todas as crenças morais que não compartilham de uma forma relativista de crença moral ligada à cultura "Queer". Essa definição é ingênua e irrealista, pois não percebe que a divergência de crenças morais é incorrigível e independente da vontade humana. É também uma expressão de violência cultural, pois desencoraja a diversidade de crença moral e interfere no livre trânsito entre crenças morais. Um pluralismo melhor seria reconhecer que "todos concordamos em discordar sobre o que é normal e anormal". Apenas nesse caso teríamos um pluralismo humano e realista, honesto e não-utópico. [Guilherme de Carvalho, teólogo, em Doze Teses Sobre o Pluralismo Social]

Por Gutierres Fernandes Siqueira
Esse rapaz chama o Feliciano de fundamentalista. Então, ok!
Mas ao mesmo tempo defende o fechamento do Congresso. É o AI-6?
É lamentável ver como o deputado Marco Feliciano (PSC-SP) precisa ser escoltado por seguranças em cada conturbada reunião da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados (CDHM). Aqueles que o acusam de fundamentalista - o que é verdade na conotação mais negativa do termo - agem pior que uma turma de fanáticos do Taleban no interior do Afeganistão. Ou seja, fundamentalista sempre é o outro. Entre os manifestantes na última reunião havia um que pedia o fechamento do Congresso Nacional pela ONU (sic)! Será o AI-6?

A liberdade de expressão é a liberdade até mesmo para bobagens. A liberdade só é real quando boçais podem expor suas crenças. A doutrina do livre-arbítrio (e que os calvinistas e a Revista Galileu me perdoem) mostra que Deus leva muito a sério a liberdade. Se as pessoas falassem somente aquilo que apreciamos, logo seríamos tiranos de um mundo uniforme. Se hoje calam o Feliciano (mesmo pela sua boçalidade) amanhã poderá ser você e eu, pois sempre existirá um grupo contrário aos nossos pensamentos. Se você acha que ele merece ser silenciado não ouse reclamar pela liberdade, pois o seu conceito de liberdade é o próprio ego. Assim como, também, não podemos calar o outro lado. Aliás, nada mais autoritário do que uma militância.

Talvez você interprete que estou em solidariedade com esse senhor, mas não estou. E, ainda espantado, você pense que estou contradizendo o último post. Não, talvez você não tenha entendido a ideia do texto anterior. Em nenhum momento peço a renúncia do referido deputado e nem acho que a boca dele deve ser calada pela imposição de leis e coerção política. Ele é indefensável quanto deputado e pastor, mas a liberdade de expressão é totalmente defensável. E é bom lembrar que no último texto já menciono a importante da liberdade de pensamento. Mesmo para bobagens, ouso insistir!

Fundamentalismo religioso. No sentido histórico, podemos definir como um movimento norte-americano reativo do início do século XX ao forte modernismo teológico europeu. No sentido vulgar e popular, é a manifestação religiosa intolerante, sectária, autoritária e anti-intelectual. O fundamentalista religioso interpreta a Bíblia segundo uma lente específica de ideias e ideologias, mesmo sob um falso moralismo e um pseudoconservadorismo. A voz da tradição e da experiência muitas vezes se sobrepõe à Sola Scriptura.
Fundamentalismo secular. Pouco falado, mas igualmente existente. Da mesma forma que o religioso, é a manifestação intolerante, sectária, autoritária e portadora da verdade única, mesmo sob a capa do relativismo cultural e da pluralidade. Nesse contexto, a tolerância não é suportar a opinião contrária, mas fingir que nenhuma opinião é contrária. E, também, o pluralismo deixa de ser a convivência pacífica com o diferente para ser a aceitação completa do diferente. O fundamentalismo secular é naturalmente déspota, autoritário ou totalitário.


Atenção! Só procuro mostrar que eu não saio em defesa de quem realmente deve. Ora, por quê? Pelo simples fato que o Feliciano não é um perseguido apenas por suas opiniões, mas também porque tem nome controvertido na praça. Ele interpreta a Bíblia vulgarmente. É complicado defender alguém que colhe a sua própria plantação. Além disso, o Feliciano é um filhote bastardo do petismo. O mesmo petismo que hoje impede ele de falar na Comissão. E, infelizmente, ele não se porta de maneira irrepreensível como seria de se esperar de um ministro do Evangelho. Ou já esquecemos dos elevados padrões episcopais relatados na Bíblia (cf. 1 Timóteo 3.1-7)? Não é preciso lembrar que Feliciano não é apenas deputado, mas um pastor que precisa agir com responsabilidade. E responsabilidade exige autolimitação dos próprios direitos. [Leia o texto aqui].

Agora, sejamos realistas. Se defendemos a liberdade de expressão isso também significa a liberdade do outro, ou seja, de deputados que defendem a chamada "causa LGBT".  Pedir a renúncia do Marco Feliciano é uma atitude ridícula, assim como pedir a renúncia de um deputado ex-BBB, o Jean Willys. E é igualmente vergonhoso ver cristãos divulgando mentiras sobre o ex-BBB como uma suposta entrevista onde ele defenderia a pedofilia. O cristão de verdade não compactua com mentiras, mesmo que essa venha a expor um sujeito que representa a pior militância do secularismo fundamentalista.  Devemos abraçar o velho conceito da tolerância em Voltaire quando disse: "Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las”. [Sobre intolerância leia mais aqui].

Prevejo que alguns ficarão confusos, especialmente se leram o último texto que escrevi. Lamento informar que tal incompreensão depende de um conceito pobre da liberdade de expressão. O fato de eu achar que o deputado Feliciano é indefensável como parlamentar e pastor não quer dizer que eu seja contra a sua liberdade de pensar, falar e andar por aí. A democracia demanda tolerância, mas tolerância não significa aceitação. Eu sei, por exemplo, que ele representa certos anseios, mas lamento quando os próprios evangélicos levantam essa briga como "algo nosso". Mesmo discordando dele, defendo o direito que ele tem de falar. Agora, eu também tenho o direito de achar que ele traz bastante prejuízo para o meio evangélico, logo porque a Bíblia é mero livro de autoajuda para aquele rapaz.


PS: Enquanto perdemos tempo com esse assunto que divide a pior ala evangélica com os mais obscuros secularistas fascistas, dois missionários brasileiros continuam presos no Senegal. Enquanto fotinhas do Jean Willys e Marco Feliciano enchem as redes sociais e blogs, podemos gastar um precioso minuto para assinar a petição que pede a libertação desse casal. [Assine a petição aqui].

segunda-feira, 18 de março de 2013

O caso Marco Feliciano é indefensável!

Por Gutierres Fernandes Siqueira


O caso do pastor e deputado Marco Feliciano (PSC-SP) está cada vez mais sério. Muitos dos meus amigos acreditam que nós, como evangélicos,  deveríamos defender o referido deputado contra uma "campanha difamatória" promovida pela militância LGBT. Bom, gostaria muito que Feliciano fosse apenas uma vítima inocente de difamação, mas ele não é. Ou a má fama seria fruto de informações mentirosas? Ora, os fatos não dizem isso.


E outra. É quase um sacrilégio atribuir Mateus 5.10-12 para esse pastor, ainda mais quando sabemos que existem milhares de cristãos presos pelo "grave" crime de proselitismo. [Inclusive há um casal brasileiro encarcerado no Senegal por causa da obra missionária. Leia aqui].  O Feliciano não é um perseguido por causa da justiça,  mas simplesmente paga o que plantou.


Vejamos:


a) Quem usou o nome de Deus em vão e de uma tal de “psicologia espiritual” para pedir votos ao partido que hoje mobiliza massas em protesto contra o próprio? [Veja vídeo aqui].


b) Quem falou frases de interpretações sectárias para expor bobagens numa rede social? Quem envergonhou a fé cristã com palavras espúrias ao idealizar uma suposta maldição sobre determinado continente? [Leia mais aqui].

c) Quem paga diversos pastores com dinheiro da Câmara dos Deputados como se eles fossem assessores da casa legislativa? Isso se chama CORRUPÇÃO [Leia a reportagem aqui].

d) Quem atribuiu a bênção de Deus à senha do cartão de débito de um ofertante? [Veja o vídeo aqui].

e) Quem escreveu uma autobiografia megalomaníaca que hoje é exposta pela imprensa como exemplo de orgulho e ostentação? [Leia a matéria aqui].

Caros, não é possível que sejamos convenientes com um pastor e deputado tão ruim só porque ele porta certa agenda que nos interessa. Por acaso agora os fins justificam os meios? Eu não quero ao meu lado um pastor que diga ser pró-vida enquanto é suspeito de desviar dinheiro público que poderia ser usado na compra de uma ambulância. Que moralidade torta é essa?

Há perseguidos pelas suas bobagens e
perseguidos por causa do Evangelho.
A Bíblia sabe diferenciá-los. (foto: Folha de SP).
Vivemos numa democracia e sabemos que o pilar da liberdade de expressão não pode ser contestado. Portanto, o Feliciano pode falar e acreditar na besteira que ele quiser, mas só não pode se colocar como perseguido por causa do Evangelho. Repito, tal atribuição é  um sacrilégio. Além disso, ele não me representa. E sinto vergonha que evangélicos tão desastrados ganhem tamanha notoriedade na mídia.

A Bíblia é muita clara sobre as reais razões que levam um verdadeiro cristão a ser considerado um perseguido. 

Deixo agora um trecho da Primeira Carta de Pedro (3.13-22) onde essa questão está bem clara. Observe bem as frases em negrito, pois a Palavra de Deus fala por si.

Quem há de maltratá-los, se vocês forem zelosos na prática do bem? Todavia, mesmo que venham a sofrer porque praticam a justiça, vocês serão felizes. "Não temam aquilo que eles temem, não fiquem amedrontados. " Antes, santifiquem Cristo como Senhor no coração. Estejam sempre preparados para responder a qualquer que lhes pedir a razão da esperança que há em vocês. Contudo, façam isso com mansidão e respeito, conservando boa consciência, de forma que os que falam maldosamente contra o bom procedimento de vocês, porque estão em Cristo, fiquem envergonhados de suas calúnias. É melhor sofrer por fazer o bem, se for da vontade de Deus, do que por fazer o mal. Pois também Cristo sofreu pelos pecados uma vez por todas, o justo pelos injustos, para conduzir-nos a Deus. Ele foi morto no corpo, mas vivificado pelo Espírito, no qual também foi e pregou aos espíritos em prisão que há muito tempo desobederam, quando Deus esperava pacientemente nos dias de Noé, enquanto a arca era construída. Nela apenas algumas pessoas, a saber, oito, foram salvas por meio da água, e isso é representado pelo batismo que agora também salva vocês — não a remoção da sujeira do corpo, mas o compromisso de uma boa consciência diante de Deus — por meio da ressurreição de Jesus Cristo, que subiu ao céu e está à direita de Deus; a ele estão sujeitos anjos, autoridades e poderes.


PS: Por favor, não venham com argumentos do tipo: “você preferiria o deputado ex- BBB na Comissão?”. É óbvio que não. Tal pergunta é feita normalmente por quem acha que o mundo é maniqueísta. E , também, pobre é um país com representatividade tão ruim no Congresso. Entre escolher a infecção bacteriana e a pneumonia, eu posso escolher a saúde!

domingo, 17 de março de 2013

As contradições assembleianas!

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Vou falar de uma realidade viva nas Assembleias de Deus, a minha denominação querida, onde talvez não seja uma característica somente dela, mas eu só posso falar daquilo que conheço. Bom, neste post quero destacar a nossa “natureza contraditória”. Vejamos:

01. Condenam a “Teologia da Prosperidade” e pregam a “Teologia da Semente”. Eu estou cansado de ver pregadores condenando a “Teologia da Prosperidade” e, na mesma mensagem, expressam um sermão pautado pelo mercantilismo divino (toma lá, da cá), doutrina das sementes e triunfalismo. Ora, tudo isso é uma derivação da “Teologia da Prosperidade”. Esses pregadores condenam a mãe, mas namoram a filha. E só lembrando que a filha é a cara da mãe!

Certa vez fui em um culto assembleiano onde um famoso pastor e deputado falava que a “Teologia da Prosperidade” era doutrina de demônios, mas no mesmo sermão ele interpretou Deuteronômio 28 como parte integral da Igreja do Novo Testamento e, no final, expressou várias frases típicas da “Confissão da Fé”. Como pode alguém condenar algo que ele mesmo prega?

02. Falam que estudar teologia é importante, mas sempre com um adento anti-intelectual. Você talvez nunca conhecerá um pastor assembleiano que seja totalmente contra a teologia. Muitos dirão que ela é essencial, mas possivelmente você ouvirá o mesmo pastor com frases anti-intelectuais e, também, desprezando qualquer membro que aprofunde o seu conhecimento das Sagradas Escrituras. Afinal, a teologia é ou não importante para a maior parte da liderança assembleiana?

03. Dizem “sim” para mensagem A e “sim” para mensagem B. Eu, como professor de Escola Dominical, já ensinei por diversas vezes algumas questões que eram refutadas na pregação dominical noturna por pregadores itinerantes. O engraçado era ver um aluno que concordava com a minha aula e depois concordava com o pregador que falava algo totalmente contrário à lição passada. Ou seja, a mesma pessoa dizia “amém” para a mensagem A e para a mensagem B. Só que pela lógica não é possível aceitar as duas mensagens. Como pode? Falta atenção? A pessoa não percebe a contradição?

04. Falam que valorizam os grandes hinos da Harpa Cristã e composições sérias, mas convidam cantores que compõem letras pobres, heréticas e antropocêntricas. Eu já vi inúmeras pessoas reclamando da música evangélica, mas essas mesmas pessoas compram CDs e convidam cantores que deveriam ser aposentados compulsoriamente pelas bobagens que cantam. No fim, essas pessoas querem ou não uma composição séria?


05. Use roupa X no trabalho, mas não no culto. Há quem acredite que algumas roupas podem ser usadas no trabalho, na escola e na rua, mas não no culto. Ora, por que não? Se eu uso uma roupa que eu não posso ir para o culto, logo isso não seria errado? Essa coisa estranha é típica invenção de igreja legalista que não sabe bem como lidar com a abertura. Sejamos mais firmes, pois se eu uso uma roupa no trabalho eu também posso usá-la no culto.


Bom, esses são apenas alguns pequenos exemplos. Infelizmente, é uma questão de lógica. Não podemos servir a dois senhores.

sábado, 16 de março de 2013

"Não há nada mais ridículo do que a carne tentando ser santa"!

Por Gutierres Siqueira

Veja o maravilhoso vídeo abaixo. É um trecho da pregação sobre "legalismo e justificação pela fé" do pastor David Wilkerson. Se você acha que o legalismo é um problema desprezível,  por favor, não deixe de ver esse vídeo e ler a Carta de Paulo aos Gálatas.



Para assistir a pregação completa acesse este link.

domingo, 10 de março de 2013

O Concílio da CGADB em 2013 e a Carta de Paulo aos Coríntios!

Por Gutierres Fernandes Siqueira

1. A radicalização política só aumentou. De ambos os lados parece não existir limites para a difamação e a disposição para contendas. É um clima belicoso. É até um milagre que tais reuniões ainda não passaram para agressões físicas. O clima é “eu sou de fulano” e “eu sou de sicrano”. Lembra algo?

Irmãos, não lhes pude falar como a espirituais, mas como a carnais, como a crianças em Cristo.Dei-lhes leite, e não alimento sólido, pois vocês não estavam em condições de recebê-lo. De fato, vocês ainda não estão em condições, porque ainda são carnais. Porque, visto que há inveja e divisão entre vocês, não estão sendo carnais e agindo como mundanos? Pois quando alguém diz: "Eu sou de Paulo", e outro: "Eu sou de Apolo", não estão sendo mundanos? Afinal de contas, quem é Apolo? Quem é Paulo? Apenas servos por meio dos quais vocês vieram a crer, conforme o ministério que o Senhor atribuiu a cada um. Eu plantei, Apolo regou, mas Deus é quem fazia crescer; de modo que nem o que planta nem o que rega são alguma coisa, mas unicamente Deus, que efetua o crescimento. O que planta e o que rega têm um só propósito, e cada um será recompensado de acordo com o seu próprio trabalho. Pois nós somos cooperadores de Deus; vocês são lavoura de Deus e edifício de Deus. [1 Coríntios 3.1-9 NVI]

2. O apelo para a justiça comum virou rotina. É frequente o processo contra uma ou outra decisão do grupo A versus B. A justiça comum vem sendo acionada com uma frequência espantosa. Lembra muito a igreja de Corinto? Ou não?

Se algum de vocês tem queixa contra outro irmão, como ousa apresentar a causa para ser julgada pelos ímpios, em vez de levá-la aos santos? Vocês não sabem que os santos hão de julgar o mundo? Se vocês hão de julgar o mundo, acaso não são capazes de julgar as causas de menor importância? Vocês não sabem que haveremos de julgar os anjos? Quanto mais as coisas desta vida! Portanto, se vocês têm questões relativas às coisas desta vida, designem para juízes os que são da igreja, mesmo que sejam os menos importantes. Digo isso para envergonhá-los. Acaso não há entre vocês alguém suficientemente sábio para julgar uma causa entre irmãos? Mas, ao invés disso, um irmão vai ao tribunal contra outro irmão, e isso diante de descrentes! O fato de haver litígios entre vocês já significa uma completa derrota. Por que não preferem sofrer a injustiça? Por que não preferem sofrer o prejuízo? Em vez disso vocês mesmos causam injustiças e prejuízos, e isso contra irmãos! Vocês não sabem que os perversos não herdarão o Reino de Deus? Não se deixem enganar: nem imorais, nem idólatras, nem adúlteros, nem homossexuais passivos ou ativos, nem ladrões, nem avarentos, nem alcoólatras, nem caluniadores, nem trapaceiros herdarão o Reino de Deus. Assim foram alguns de vocês. Mas vocês foram lavados, foram santificados, foram justificados no nome do Senhor Jesus Cristo e no Espírito de nosso Deus. [1 Coríntios 6.1-11 NVI]

Portanto, é curioso observar com a CGADB e os candidatos se portam como a carnal Igreja de Corinto. Isso mostra algumas coisas:

a) Infelizmente, a carnalidade sempre existiu no meio do cristianismo e a CGADB não inventou esse mal. Porém, parece não existir nenhuma disposição de reconhecer essa carnalidade.
b) A espiritualidade vazia das convenções é apenas mais um sinal gritante do mundanismo.
c) O mundanismo não está num estilo de roupa ou música, mas em atitudes como essas, ou seja, a busca desenfreada pelo poder e dinheiro. E muitas vezes são os mais legalistas que estão metidos nesse rolo.

d) A denúncia dessas podridões se faz necessária. O mau obreiro deve receber censura pública (1 Timóteo 6.20).

E ainda: veremos o mesmo filme em 2017?

sexta-feira, 8 de março de 2013

A Teologia Covarde!

Por Gutierres Siqueira

A chamada Teologia Liberal é uma teologia covarde. Por que tamanha adjetivação? Ora, o teólogo liberal é um sujeito que age com temor diante do público, pois não fala daquilo que realmente acredita. Não é uma teologia sincera. É a teologia do duplo sentido, pois dizem “A” quando realmente acreditam em “B”. Muitas frases dos liberais soam ortodoxas, mas o sentido é completamente outro.


Bultmann, por exemplo, defendeu durante a sua vida que Jesus não era divino, mas não deixava de comemorar o Natal. Muitos discípulos de Bultmann dirão que acreditam em “Jesus como Deus”, mas esse “deus” é um conceito completamente novo, já que na teologia liberal a divindade é o “homem ideal” e não o Ser Supremo, o Criador, o Todo-Poderoso, ou seja, a Pessoa que transcende ao ser criado. “Deus”, portanto, passa a ser o homem completamente ético.

Portanto, quando o liberal fala que acredita na essência do fato -não no fato-  tal afirmação não resiste a cinco minutos de reflexão.

terça-feira, 5 de março de 2013

A infelicidade do Marco Feliciano na Comissão de Direitos Humanos!

É muita boçalidade!
Por Gutierres Fernandes Siqueira

O pastor e deputado Marco Feliciano (PSC-SP) tem sido massacrado na imprensa desde que foi indicado pelo Partido Social Cristão para assumir a presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados. A indicação é uma manobra do PT (Partido dos Trabalhadores) para conquistar apoio da base aliada, ou seja, é a velha negociata de Brasília visando as próximas eleições.

Essa resistência não é à toa, logo porque o pastor acredita que os negros são frutos da maldição de Noé. É típico comentário de quem lê a Bíblia como um gibi e, também, daquele que nada entendeu sobre o papel da Nova Aliança. É uma interpretação que mostra um Feliciano incapacitado para a legislatura e, pior, para o ministério pastoral.

É evidente que muitas críticas ao pastor Feliciano são reflexo de um preconceito velado contra os evangélicos, mas a escolha desse nome só reflete como estamos mal representados no Congresso Nacional.

Marco Feliciano não possui nenhuma preparação teológica e intelectual, portanto, é um sujeito que facilmente fala besteiras. Certa vez em uma pregação Feliciano afirmou que João Ferreira de Almeida era um padre que traduziu a Bíblia a partir da versão inglesa. O comentário desastroso demonstra o total desconhecimento de história e teologia, logo porque é um erro muito básico para alguém que se diz “mestre em estudos bíblicos”.

É impossível numerar todas as bobagens teológicas saídas de suas pregações, assim como sua homilética personalista e a tendência megalomaníaca. A visibilidade de Feliciano na mídia apenas nos faz mal, logo porque é uma voz que nem sabe o que diz. Portanto, repito, é um homem despreparado para a legislatura e, também, para presidir qualquer comissão. E quando lembramos que o cristianismo evangélico já teve parlamentares como William Wilberforce e Abraham Kuyper só temos a lamentar com um Feliciano.

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PS: Eu, também, não quero fazer parte desse movimento de alguns cristãos que faltam santificar o deputado Jean Willys (PSOL-RJ) só para bater no Feliciano. É gente meio suicida, só pode!

PS II: Com essas notícias soube que o PT preside há anos a Comissão de Direitos Humanos e Minorias. Ora, uma das bandeiras do partido é o aborto em qualquer circunstância, logo isso fere um direito humano básico (a vida) e de seres sem defesa própria. É igualmente escandaloso!

PS III: Acima vocês podem ver uma reprodução dos posts escritos pelo Marco Feliciano sobre a sua tese que a África é fruto da maldição de Noé. Esse cara já leu algo sobre a Cruz de Cristo? Ou algum comentário de Gênesis?

domingo, 3 de março de 2013

Por que a imposição oficializada dos “usos e costumes” é um grave erro?

Eis um ato pecaminoso para muitos.
Sinal claro de uma leitura bíblica fraca!
Por Gutierres Fernandes Siqueira

Em primeiro lugar, toda instituição tem costumes, usos e tradições. Mesmo aquelas instituições religiosas mais, digamos, liberais em matéria de usos. Agora, algumas denominações evangélicas tornam os “usos e costumes” como regra oficial. As Assembleias de Deus, por exemplo, não possuem nenhum documento formal especificando costumes [1], enquanto a Igreja Pentecostal Deus é Amor tem um detalhamento em seu “Regulamento Interno (RI)”. Mas ambas possuem uma clara caracterização desses costumes. Por que isso é um grave erro?

1. Os usos e costumes oficializados não produzem santificação. A tendência natural para a institucionalização dos costumes é apenas o velho e perigoso legalismo. O legalismo é um cuspe na Cruz, logo porque prega uma salvação baseada em obras. Há quem ache que o legalismo é um problema menor, mas quem pensa assim precisa ler urgentemente Colossenses e Gálatas. Como lembra Augustus Nicodemus, a imposição dos costumes não mortifica o velho homem. É um engodo, pura vaidade. É autopiedade vazia:

Ser santo não é guardar uma série de regras e normas concernentes ao vestuário e tamanho do cabelo. Não é ser contra piercing, tatuagem, filmes da Disney, a Bíblia na Linguagem de Hoje. Não é só ouvir música evangélica, nunca ir à praia ou ao campo de futebol e nunca tomar um copo de vinho ou uma cerveja. Não é viver jejuando e orando, isolado dos outros, andar de paletó e gravata. Para muitos pentecostais no Brasil, santidade está ligada a esse tipo de coisas. Duvido que estas coisas funcionem. Elas não mortificam a inveja, a cobiça, a ganância, os pensamentos impuros, a raiva, a incredulidade, o temor dos homens, a preguiça, a mentira. Nenhuma dessas abstinências e regras conseguem, de fato, crucificar o velho homem com seus feitos. Elas têm aparência de piedade, mas não tem poder algum contra a carne. Foi o que Paulo tentou explicar aos colossenses, muito tempo atrás: “Tais coisas, com efeito, têm aparência de sabedoria, como culto de si mesmo, e de falsa humildade, e de rigor ascético; todavia, não têm valor algum contra a sensualidade” (Colossenses 2.23). [2]

2. Os usos e costumes oficializados, ao contrário, atrapalham o processo da santificação. Ora, quando eu me importo mais com a regra oficial do que com o espírito da lei estarei mais longe da santificação. E outra, passarei a acreditar que a santificação é uma obra exclusivamente humana, quando a mesma é igualmente dependente da graça divina. Parafraseando Paulo: “Pela graça sois santificados, isso não vem de vós, é dom de Deus”!

3. Os usos e costumes oficializados são como o assistencialismo, ou seja, dão o peixe sem ensinar a pescá-lo. O importante é ensinar princípios gerais. Por exemplo: eu devo ensinar a todos o princípio do pudor e da modéstia (cf. I Tm 2.9). Assim, ensinando o princípio teremos o guia para qualquer atitude, estilo e uso. Não é necessário especificar regrinhas - como se tivéssemos com crianças- mas diretrizes para a vida. Oficializar a regra quando deveríamos ensinar princípios simplesmente entorpece a mente, como bem escreveu J. I. Packer:

Esse ascetismo reacionário ainda sobrevive em alguns círculos na forma de tabus comunais sobre álcool, tabaco, teatro, dança, jogos, roupas elegantes, cosméticos e itens similares. Talvez tenha havido, e haja, boas razões para tais abstinências, em se tratando de decisão pessoa, mas tabus comunais tendem a entorpecer a consciência, em vez de avivá-la... O mundanismo foi definido em termos de quebras de tabus, e identificações de consequências mais amplas com os pecados da sociedade passaram despercebidas... O pietismo separa o mundo em vez de estudá-lo e procurar mudá-lo; é hostil ao prazer, em vez de agradecido por ele, temeroso de que o mundo adentre nossos corações montado nas costas do prazer.  [3]

Conclusão

Costumes ordeiros são bons em si, mas não devem ser colocados no patamar de “tabu comunal”. Não deveria haver uma imposição de determinados costumes em uma denominação. O que deveria existir? O ensinamento gradual e consistente das Escrituras, pois só por Ela podemos ser santificados:  “Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade” (Jo 17.17) e “para santificá-la, tendo-a purificado pelo lavar da água mediante a palavra” (Ef 5.26).

Referências Bibliográficas:

[1] O documento da ELAD 1999 é bem genérico.

[2] NICODEMUS, Augustus. O que estão fazendo com a Igreja. 1 ed. São Paulo: Mundo Cristão, 2008. p. 152.

[3] PACKER, James Ian. Os Planos de Deus para Você. 1 ed. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus, 2005. p. 67.

sábado, 2 de março de 2013

Quais são as grandes lições no episódio da Transfiguração? [Mateus 17. 1-8]


Subsídio preparado para a Escola Bíblica Dominical da Igreja Evangélica Assembleia de Deus no Jardim das Pedras (São Paulo, SP).

Por Gutierres Siqueira


1. A Glória de Cristo é manifesta. Não é o brilho de Moisés ou Elias, mas o explendor do próprio Cristo. No versículo 8 lemos que os discípulos prostaram-se e, ao levantarem os rostos, viram “senão a Jesus”. Carson comenta: “Comparada com a revelação de Deus por intermédio de Jesus, todas as outras revelações esmaecem” [Carson, 2010, p 453]
2. A divindade de Cristo é evidenciada.
3. Cristo se põe entre a Antiga e Nova.
4. Moisés representa a Lei enquanto Elias representa os Profetas, ou seja, ambos representaram a Antiga Aliança. Moisés era um "tipo" de Cristo (leia Dt. 18.15), enquanto Elias era, também, uma indicação escatológica (leia Ml 4.5,6 e Lc 1.17).
5. Uma semana após Pedro afirmar que Jesus era o Messias ( Mt. 16. 13-20) e Jesus predizer a sua morte (Mt. 16 .21- 28), Cristo revela a Sua glória pela transfiguração. Portanto, “a divindade de Jesus está relacionada com a cruz; é somente nesta relação que conhecemos Jesus devidamente” [Ratzinger, 2007, p 261].
6. A transfiguração ocorre durante a Festa dos Tabernáculos, ou seja, a festa da colheita que ocorria no final do Outono. “Os grandes acontecimentos da vida de Jesus estão em íntima relação com o calendário das festas judaicas; são, por assim dizer, acontecimentos litúrgicos, nos quais a liturgia, com as suas recordações e esperanças, se torna realidade, se torna vida, a qual conduz de novo à liturgia e a partir de novo  se torna vida” [Ratzinger, 2007, p 262].  
7. A transfiguração, portanto, confirma a messianidade de Cristo.
8. Pedro propõe a Cristo a construção de três tabernáculos (v.4), mas Lucas escreve que o apóstolo apressado falava daquilo “que não sabia” (Lc 9.33). D. A. Carson escreve: “Só houve repreensão porque o que Pedro fala sem pensar comprometia a singularidade de Jesus. Jesus foi transfigurado; eles devem testemunhar a respeito dele (v.5)”. [Carson, 2010, 452]


Referências Bibliográficas:

CARSON, Donald A. O Comentário de Mateus. 1 ed. São Paulo: Shedd Publicações, 2010. pp 449- 454.

RATZINGER, Joseph. Jesus de Nazaré: do Batismo no Jordão à Transfiguração. 1 ed. São Paulo: Editora Planeta, 2007. pp 260-270.