domingo, 28 de abril de 2013

Por que precisamos de teologia?

Por Gutierres Fernandes Siqueira

O desprezo ao dogma é uma doutrina contemporânea. A Igreja, dizem alguns, deve pensar menos e agir mais. Deve baixar a guarda da ortodoxia (doutrina correta) e vivenciar com afinco a ortopraxia (prática correta). Deve deixar de pensar Deus e maximizar o Reino. Você já ouviu tudo isso? Sim, não há nenhuma novidade aí. Crítica válida, mas incompleta.

Perceba que não estou falando do anti-intelectualismo provinciano do evangelicalismo pentecostal. Falo de um modismo e paradoxo moderno: o cristianismo relativista.

O erro básico dessa crítica ao dogma é separar a complexa unidade entre ideia e vivência. Será possível dividir essas duas realidades com precisão cirúrgica? O pensamento e a ação estão como o sentido diretivo entre esquerda e direita, ou seja, sempre em oposição, mas igualmente em união. Não há posição à esquerda sem um ponto à direita e vice-versa. Assim temos os "opostos dependentes".

Com isso não quero dizer que a hipocrisia seja uma fantasia. Ela é mais real do que imaginamos em nós mesmos. Só quero dizer que vivemos em função daquilo que cremos, mas não necessariamente daquilo que dizemos crer. O papel aceita tudo, assim como o palavreado. O pensar e o agir são ações intercambiáveis e indivisíveis. Se eu creio eu vivo. Se eu não vivo é porque não creio, mesmo dizendo que sou adepto daquela crença.

Nesse sentido, a teologia é inegavelmente importante. Mas não qualquer teologia. Não é a teologia moderna embriagada pelo primeiro modismo ideológico que surge no Velho Continente. Não é aquela teologia semelhante aos atenienses debatedores com o apóstolo Paulo que “não cuidavam de outra coisa senão falar ou ouvir as últimas novidades” [Atos 17.21]. Quero dizer sobre a teologia que nos leva a fé em Cristo Jesus.

Experimente fazer uma exegese profunda de determinado texto bíblico. Abra o coração para que a mensagem seja uma crença viva em seu coração. O crer verdadeiro levará consequentemente para a ação espontânea. Você verá Deus com outros olhos e isso não o deixará indiferente. Sim, é por isso que precisamos de teologia. Necessitamos de uma teologia viva que nos faça ainda mais empolgados com o Evangelho. A teologia que nos leva a crença da alma, mas não para o cemitério abandonado, frio e escuro do iluminismo teológico.

sábado, 27 de abril de 2013

domingo, 21 de abril de 2013

Assembleia de Deus e a nossa herança militar


Por Gutierres Fernandes Siqueira

Há quem estranhe alguns posts sobre aspectos negativos da minha denominação. Ora, graças a Deus que posso congregar em uma igreja onde faço críticas- que julgo construtivas- com certa liberdade. Nunca houve uma censura digna do nome para com meu espaço virtual. A falta de uma liderança centralizadora- como nas igrejas neopentecostais- ajuda à Assembleia de Deus a ter em seu ambiente interno uma vitalidade para cobranças e, consequentemente, para mudanças. Portanto, começo o texto com esse elogio.

A descentralização é uma virtude assembleiana a evitar o despotismo eclesiástico.  E mesmo com todos os aspectos negativos do último conclave da CGADB (Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil), ali vimos espaço para oposição e situação marcarem posição. Ou seja, alguma coisinha da nossa herança congregacional ainda sobrevive.

Sentido?
Por que escrevo no título sobre “nossa herança militar”? Ora, a Assembleia de Deus sempre teve muitos pastores importantes que foram pessoas do Exército, da Aeronáutica ou da Marinha. Leia qualquer livro sobre a história assembleiana e você verá várias vezes a menção sobre alguns líderes e a relação com poderes militares. Alguns eram militares (ex: Gilberto Malafaia), outros filhos de famílias de militares (ex: Paulo Leivas Macalão).

Além disso, muitos hinos são verdadeiras marchas militares. E quase toda igreja tem um grupo de crianças com o nome de “soldadinhos de Cristo”. E as roupas uniformes? E a valorização da hierarquia? E a disciplina quase ascética? E a quase extinção do modelo congregacional (democrático) de comunidade?

Vejamos dois aspectos dessa herança:

1. Forte valorização da hierarquia. A hierarquia deve existir, mas sem exageros. E nenhuma hierarquia eclesiástica deve criar uma casta de privilegiados. Eu sempre me pergunto sobre o porquê daquelas cadeiras especiais para pastores no púlpito? Ainda novo convertido fiquei indignado com a organização de um congresso de mocidade. Lá, os jovens comeram o mesmo tipo de almoço durante três dias, enquanto havia um espaço separado para pastores e suas esposas com comidas melhores. E, também, sempre há eventos onde a mesa do pastor tem Coca-Cola e dos fiéis um Dolly.

2. Apego a tradições. A tradição é muito importante, mas nunca deve tomar o espaço onde a Palavra de Deus é soberana. O mito da “nossa identidade” é sempre tema recorrente em reuniões pastorais. Ora, será que a nossa maior necessidade contemporânea como igreja é manter costumes da primeira metade do século XX? Será que não existe outras prioridades? Quem nunca viu um pastor assembleiano comparar os “usos e costumes” da denominação com uniforme dos militares? O militar gosta de símbolos e uniformidade, pois precisa mais da ordem do que da liberdade para manter um exército de homens numa guerra. A igreja também está numa guerra, mas ela é mantida pela graça do Espírito Santo e não pela coerção humana.

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Como igreja, a denominação Assembleia de Deus deve buscar a base escriturística como norma.  Não é a herança dos militares que nos fará uma igreja melhor.

domingo, 14 de abril de 2013

A principal praga do fundamentalismo teológico

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Como cristão eu creio nos fundamentos do cristianismo histórico. Não posso negar a divindade de Cristo, a supremacia das Escrituras, a justificação pela fé, a doutrina do pecado, a vinda do Nosso Senhor etc. Mas, ainda assim, não me defino como fundamentalista. Sim, eu creio nos fundamentos, mas sem o espírito fundamentalista.

Neste blog há inúmeras críticas ao modernismo teológico contemporâneo disfarçado sob uma nova linguagem relativista e pós-moderna. Agora, como quero distância da teologia modernista não quer dizer que eu abrace o fundamentalismo. O motivo? Ora, a principal praga do fundamentalismo teológico é tornar primária questões secundárias.

Exemplo disso é a paixão com que os fundamentalistas defendem determinada tradução como superior e chegam ao ponto de chamar outras de heréticas. A tradução bíblica preferida é a Almeida Revista Fiel (ARF), que é de fato muito boa. Alguns sites fundamentalistas vivem a demonizar todas as demais traduções, especialmente a Almeida Revista Atualizada (ARA) e a Nova Versão Internacional (NVI). Ora, é possível defender uma tradução como melhor ou predileta sem demonizar outras. As traduções são complementares e nenhuma é perfeita. Eu, por exemplo, gosto bastante da NVI e da Tradução Brasileira (TB), mas nada tenho contra as demais traduções (ARC, ARA, BJ, ARF, A21, AC, etc.) ou paráfrases (NTLH, BV, A Mensagem). 
Quer outro exemplo? O criacionismo. Ora, se o cristão não professar o Criacionismo da Terra Jovem é tido como um liberal pelo fundamentalista clássico. Mesmo se creia no Design Inteligente, no Criacionismo da Terra Antiga ou, ainda pior, se defenda o Evolucionismo Teísta. Ora, o teólogo B. B. Warfield, que foi pastor da conservadoríssima Igreja Presbiteriana Ortodoxa, teria sido um “liberal” dos mais perigosos para esses sites fundamentalistas.
Os fundamentalistas interpretam tudo literalmente, pensam alguns. Na verdade, não. Alguns textos são interpretados simbolicamente. Mas será que tais textos devem ser assim interpretados? Ora, o fundamentalismo muitas vezes é igual ao exegeta modernista, pois sem explicar muito bem o critério sobre algum ponto diz que tal texto é literal e outro simbólico. Exemplo disso são alguns cessacionistas fundamentalistas que dizem ser os dons espirituais figuras dos dons naturais para o trabalho no Evangelho. Não parece a mesma forçação de barra de um modernista? A questão não é tanto branco versus preto. O cenário é mais cinza. Ora, isso em parte acontece porque muitas passagens bíblicas são interpretadas segunda a conveniências teológicas ou ideológicas, mas não textuais. 

Quando um modernista interpreta o dar a outra face como literal para defender o utópico pacifismo, logo esse sujeito lembra o fundamentalista que enxerga simbologia no mesmo texto para defender o militarismo. Qual dos dois grupos é mais fiel segundo uma exegese e hermenêutica séria? Ou será que tal dilema se resolveria com o clichê que a “verdade está no meio”? O modernista pacifista que interpreta a expressão de Jesus literalmente é o mesmo que interpreta simbolicamente os milagres do mesmo Jesus. Ora, o nosso desafio hermenêutico e exegético é ler como o autor quis dizer, ou seja, ler simbologia onde o autógrafo escreveu como simbologia e ler literalmente onde o autor escreveu relato factual. 
A fidelidade à Palavra de Deus não depende do fundamentalismo. O fundamentalismo é apenas uma lente que pode distorcer as Escrituras assim como um teólogo modernista. É evidente que numa escala o modernismo teológico é bem pior que o fundamentalismo. Mas, isso não isenta o fundamentalismo dos erros crassos.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Habemus capitalis aeterna: o que representa a reeleição de José Wellington Bezerra da Costa?


Por Gutierres Siqueira
Unha e carne. Só que não!
1. A força política do pastor José Wellington. Apesar de duas décadas no poder, o pastor cearense apresenta grande força política-eclesiástica e, também, secular. Político que é, Wellington não “brinca em serviço” e mantém uma força extraordinária na Convenção Geral. É importante destacar que quem está no poder tem maior facilidade de fazer valer a candidatura, logo porque pode contar com a “máquina” da Convenção. E há ainda a força midiática, pois nunca antes a imprensa secular (principalmente Folha de S. Paulo, O Globo, Tv Globo e Revista Época) acompanharam com tanto afinco essas reuniões.
02. Samuel Câmara, apesar da derrota, apresentou grande número de votos. Câmara recebeu mais de sete mil votos. É muito provável que em eleições futuras, caso ainda concorra, ele conseguirá realizar o grande sonho de presidir esse concílio.
03. A convenção de pastores está polarizada radicalmente. Essa frase é tão óbvia que nem cabe comentário. Parece existir pouco espaço para consensos. Ora, como uma convenção de pastores é necessário maior espaço para construção de debates saudáveis e menor polarização partidária. E só lembrando que tal polarização é apenas por partidos (o partido do Samuel e o partido do Wellington). Pode ocasionar eventuais divisões no futuro como em 1989?
04. Não existe essa suposta divisão entre conservadores (apoiadores de José Wellington) e “liberais” (apoiadores de Samuel Câmara). Essa é uma tremenda bobagem eleitoreira. O que representaria esse conservadorismo? Ou liberalismo? Em doutrina? Em liturgia? Ora, ambos indicaram pequena preocupação teológica-apologética-litúrgica nessa Convenção. Além disso, os dois possuem apoios e apoiadores controversos, ou seja, pessoas que poderiam ser facilmente classificadas de hereges no contexto da fé cristã histórica.
Outra coisa. Quem é “conservador” em usos e costumes? Ainda existe esse negócio? Ora, por acaso a igreja do Belenzinho (presidida por José Wellington) é tão diferente assim em usos como a igreja em Belém (presidida por Samuel Câmara)? Só quem não conhece pessoalmente compra essas histórias bobas.


05. É briga apenas por poder. Ninguém se importa com espiritualidade, responsabilidade social e cultural, desafios contemporâneos, estrutura teológica, bioética, democratização do espaço de poder etc. Não importa quem ganhasse, pois a motivação é apenas o poder temporal. Quem se ilude com uma suposta revolução do pastor Câmara? Ora, e aquele feudo no norte do país? Critica o caciquismo do Wellington acertadamente, mas faz igual em sua região. É, de fato, o sujo falando do mal lavado e vice-versa. 
Se faz necessária uma terceira via diferente disso tudo!
É isso.

domingo, 7 de abril de 2013

A questão homossexual e os evangélicos

E os demais pecados?
Por Gutierres Fernandes Siqueira

A homossexualidade está em alta. É o assunto das principais revistas e jornais deste final de semana. O programa Fantástico deste domingo parecia um catecismo da causa. Hoje ser homossexual já não é um peso como antes. É até cool. Mas, biblicamente, continua a ser um pecado. Algumas igrejas embebecidas pela modernidade e encantadas com o presente século tentam relativizar o pecado. Erro grotesco é uma comunidade dita cristã que esquece a missão profética e se comporta como uma ONG.

Agora, também sejamos sensatos. Há alguns equívocos sérios por parte dos evangélicos quando tratam desse tema. Vejamos:

1. Sexualidade não é identidade. Nós, como cristãos, não podemos alimentar a mesma fantasia que militantes do Movimento LGBT levantam. Sexualidade não é destino de identidade. Na verdade, não existe “o homossexual”. Essa identidade é mera criação cultural, mas fantasiosa. Criação que serve apenas para criar uma militância e uma cultura Queer. O que existe é a pessoa com desejo sexual pelo mesmo sexo.

O escritor e jornalista português João Pereira Coutinho expressa isso muito bem:
Não existe o “homossexual”. Existem atos homossexuais. E atos heterossexuais. Eu próprio, confesso, sou culpado de praticar os segundos (menos do que gostaria, é certo). E parte da humanidade pratica os primeiros. Mas acreditar que um adjetivo se converte em substantivo é uma forma de moralismo pela via errada. É elevar o sexo a condição identitária. [1]

Ora, por que o heterossexual (a pessoa que se relaciona com o sexo oposto) não é uma identidade? Simplesmente porque não faria sentido. Assim, qualquer ser humano que sente atração pelo mesmo sexo não precisa fazer disso uma identidade. É difícil entender isso quando já fomos criados numa cultura que fez do sexo uma questão identitária.

2. A prática homossexual é pecado, mas não é mais pecado do que os outros.

Nós, cristãos, passamos a impressão para a sociedade que a prática homossexual é um pecado mais pecado do que os outros. Ora, biblicamente tal prática é tão errada como a idolatria, o adultério, a avareza, o exagero no consumo alcoólico, a ser maldizente etc. (cf. 1 Co 6.10). Quantas pessoas que se dizem cristãs (ou até eu e você) podem ser enquadradas em pecados semelhantes? Jesus disse que se eu olho para uma mulher e a cobiço como meu prazer sexual, logo sou um adúltero (cf. Mt 5.28).

Portanto, por que alguns cristãos espalham cartazes com dizeres contra a prática sexual e não faz o mesmo com o adultério? Ora, tal prática é estúpida. Não é pregação do Evangelho. É apenas moralismo vazio, pois é incapaz de levar alguém para Cristo. Além disso, traz a impressão que, para o evangélico, a prática homossexual é mais pecado do que outros pecados.

(Esse texto continua...)

Referência Bibliográfica:

[1] COUTINHO, João Pereira. Avenida Paulista. 1 ed. Rio de Janeiro: Editora Record, 2009. p 177.