quinta-feira, 30 de maio de 2013

Dicas de Leituras: A relação mal resolvida dos evangélicos com o Antigo Testamento!

Por Gutierres Fernandes Siqueira


Alguém já disse que o principal problema da Teologia da Prosperidade é a quantidade de textos bíblicos que "justificam" essa doutrina. Verdade, para quem faz uma leitura superficial da Bíblia, especialmente do Antigo Testamento, achará a Confissão Positiva  mais do que razoável. Há inúmeros textos prometendo prosperidade material. Como entendê-los para os nossos dias? Basta espiritualizá-los? Não valem mais? Ou ainda valem?

A Teologia da Prosperidade é apenas um exemplo de como o Antigo Testamento tem sido maltratado na Igreja Evangélica Brasileira. Outro caso é a conhecido "Teologia da Cangaço". Nessa doutrina Deus (?) é apresentado como um sádico déspota desprovido de qualquer misericórdia. O heresiarca primitivo Marcião de Sinope (85 d.C - 160 d.C) já dizia que o "deus" do Antigo Testamento era diferente do Evangelho, pois o primeiro era mal enquanto o segundo era bom. Ao que parece alguns evangélicos pensam da mesma forma.

Aí vem perguntas: como o Antigo Testamento se relaciona com o Novo Testamento? Há completa continuidade? Há completa descontinuidade? Ou ainda continuidades e descontinuidades? O que continua e o que não continua? E a lei mosaica e sua validade? Teologia da Aliança ou Dipensacionalismo?  

É impressionante como a relação que temos com o Antigo Testamento molda a nossa teologia de uma forma absurdamente diferente. Dependendo da minha leitura veterotestamentária eu posso ser um adventista, um teonomista, um dispensacionalista, um judaizante etc. e tal. Ou ainda posso querer revisar a teologia paulina comumente aceita no protestantismo histórico para um paulinismo legalista e judaizante. 

Sobre esse assunto tão complexo para um bom trabalho de hermenêutica, especialmente para um país onde as histórias do Antigo Testamento trazem tanto fascínio, eu recomendo o livro Continuidade e Descontinuidade: Perspectivas sobre o relacionamento entre o Antigo e o Novo Testamentos [Editora Hagnos]. Com edição de John S. Feinberg conta com artigos de especialistas conhecidos de brasileiros como Walter C. Kaiser e Douglas J. Moo. 

Recomendo especialmente por ser um livro acadêmico abrangendo diversos aspectos do debate. E lembrando que esse assunto tem efeitos totalmente práticos na liturgia, teologia e espiritualidade evangélica da igreja contemporânea.


Dica de Leitura 02:

Para você que usa o Kindle, dispositivo eletrônico para e-books, recomendo fortemente quatro livros vendidos no site da Amazon. A editora Mundo Cristão lançou o selo “clássicos” com quatro obras: G. K. Chesterton (Ortodoxia e O Homem Eterno), Thomas à Kempis (Imitação de Cristo) e cartas dos Pais da Igreja. O legal também é o preço. Espero que essa ótima iniciativa se estenda para outras clássicos da literatura cristã.

domingo, 26 de maio de 2013

O descaso com a pregação

Por Gutierres Fernandes Siqueira

O pentecostalismo tradicional em nada difere do neopentecostalismo no descaso com a pregação. Infelizmente, pregadores que honram a Jesus Cristo com uma boa interpretação bíblica são minoria. Há toda uma cultura de desvalorização do bom e velho sermão. Vejamos:

Exegese é extrair a mensagem do texto.
A perversa eisegese é colocar a sua própria ideia no texto.
a) O esboço é raro. É quase tudo na base do improviso. E o pior, ainda colocam o Espírito Santo para justificar a preguiça de preparar um sermão. Todos sabem que preparar uma mensagem estruturada é um baita trabalho. Além disso, Deus em nada ficará impedido de falar por uma mensagem previamente estudada, pois Ele fala pela Palavra e ela não volta vazia.

b) A tônica é a performance artística. Os gritos, gestos, histórias e danças com os braços trazem para o pregador pentecostal a performance de um artista. Mas, é claro, profeta não é artista e artista não é profeta. Infelizmente, muitos cultos se assemelham a um circo. Nunca leram I Coríntios 14?

c) O texto bíblico? Um mero detalhe. A pregação não é conduzida pelo texto bíblico, mas o texto bíblico é conduzido pela "mensagem" do pregador. É a famosa eisegese. Essa palavra vem do grego eisegesis e significa "ato de introduzir, propor, de dar conselho”. Ou seja, é alguém que quer introduzir uma mensagem no texto lido. E deveria ser justamente o contrário, pois a mensagem deveria surgir a partir do texto lido. Essa é a boa exegese.

Nada do que falei é novidade, mas parece que a mente dos pregadores pentecostais está cauterizada. Quando isso acontece é um caso sério para orações.

domingo, 19 de maio de 2013

Como definir um “pentecostalismo saudável”?


Por Gutierres Fernandes Siqueira

Se nós estamos indo a acabar com o padrão do Novo Testamento para uma espiritualidade cristã de acordo com a nossa própria experiência ou de nossas próprias opiniões, aonde vamos parar? [Donald Gee] 1

Uma leitora me perguntou sobre como definir um pentecostalismo saudável. Bom, eu arrisco dois pontos:

1. Eu definiria “pentecostalismo saudável” como mero cristianismo “acrescido” de carismas. Uso as aspas porque os carismas não são acréscimos para a doutrina cristã, mas parte da graça divina derramada sobre a Igreja do Nosso Senhor Jesus Cristo. Além disso, o pentecostalismo defende a ideia da “segunda graça”, onde o homem regenerado e habitado pelo Espírito Santo é capacitado para o exercício do serviço cristão. Igualmente, tal serviço visa a edificação da Igreja e a evangelização.
2. O pentecostalismo saudável é aquele onde os dons do Espírito visam exclusivamente a edificação da Igreja como o Corpo de Cristo. Os dons espirituais, portanto, não são usados como amuletos, objetos de glória humana, produtos espirituais para manipular o divino e nem guarda qualquer semelhança com crenças supersticiosas e místicas. É, também, uma experiência subjugada às Sagradas Escrituras. Nesse sentido, não há espaço para estrelismo, coronelismo eclesiástico, megalomania ou qualquer atitude centralizada e manipuladora de líderes que exercem o episcopado ou de membros que tentem centralizar o culto cristão em si na forma de espetáculo humano e ridículo.

Referência:

[1] GEE, Donald. Concering Spiritual Gifts. 20 ed. Springfield: Gospel Publishing House, 2007. p 200.

sábado, 18 de maio de 2013

O divórcio

Para aula ministrada na Escola Bíblica Dominical na Assembleia de Deus do Jardim das Pedras, São Paulo (SP).

quinta-feira, 16 de maio de 2013

A difícil doutrina do amor de Deus!

D. A. Carson fala sobre as formas como o amor de Deus é descrito nas Sagradas Escrituras. É interessante como o amor de Deus se torna um tema mais rico e complexo quando nos deparamos com abordagens bíblicas que, muitas vezes, soam contraditórias. Na verdade, são apenas complementares...

A palestra é baseada no ótimo livro "A Difícil Doutrina do Amor de Deus" (CPAD) do mesmo autor. Livro que recomendo muitíssimo.


domingo, 12 de maio de 2013

A Igreja Brasileira é contaminada pela praga pelagiana!

Por Gutierres Fernandes Siqueira


Infelizmente, os evangélicos brasileiros, em sua maioria, professam a doutrina de Pelágio [1]. Bom, resumindo de forma rápida e superficial, o pelagianismo é a ênfase nas boas obras para a salvação. Portanto, em uma comunidade evangélica a resposta que você mais ouvirá para a pergunta “você é salvo?” será um “estou me esforçando”! A resposta é simplesmente trágica, antibíblica e religiosa. Nesse sentido, o evangelicalismo brasileiro mata a principal ênfase do protestantismo e se volta para o pior do catolicismo popular. E não pense que esse problema é exclusivo de denominações arminianas, pois em comunidades calvinistas há, também, inúmeros pelagianos. 

Nada mais distante do Evangelho do que a crença que a salvação seja fruto do NOSSO esforço. Como diz M. James Sawyer: “A doutrina da depravação humana e sua doutrina correlata, a necessidade de salvação vinda de Deus e pela graça, pertencem ao centro da rede da proclamação cristã” [2]. O pelagianismo não é um erro bobo- ou uma mera questão secundária- mas sim uma doutrina importante para mostrar onde está a nossa confiança salvífica. Em quem confiamos? Em nossa própria capacidade caridosa? Nas atitudes legalistas e moralistas? Na autojustificação? No mito da “bondade nata” da modernidade? Ou de fato cremos em Cristo como o nosso salvador?

Pelágio, quem diria, um
patrono evangélico!

Não falo em semipelagianismo, pois é difícil que, na essência, algo seja simplesmente “semi”. A frase mencionada acima expressa bem um pensamento pelagiano. Mas é interessante observar que o discurso do "eu fazer"  para "ser salvo" não se restringe a essa frase. Observe como as pregações mencionam mais o nosso papel do que o papel de Deus no processo salvífico. E a santificação?  Quase se esquece que ela também é recebida pela graça. Veja, por exemplo, como o pensamento de Paulo centraliza que a santificação, igualmente como a salvação, também depende de uma ação divina: “Jesus Cristo, nosso Senhor, pelo qual recebemos a graça [...] para a obediência da fé entre todas as gentes pelo seu nome, entre as quais sois também vós chamados para serdes de Jesus Cristo.” [Romanos 1.4-6]. Portanto, se você obedece é porque Deus lhe deu essa graça. Isso não vem de nós, pois somos naturalmente tendenciosos para o mal.


É grave notar que o pelagianismo tomou o nosso discurso de forma que nem nos incomodamos. A ação humana é sempre mais valorizada do que a ação divina. É a divinização do próprio homem. Os sermões falam em “dez atitudes para isso” ou “oito ações para aquilo”. Tudo é o “eu quem faço”. A santificação, quando pregada, sempre enfatiza a ação ativa e nada da ação passiva, onde somos cheios pelo Espírito Santo para viver uma vida minimamente decente.


Portanto, o pelagianismo é um gravíssimo problema da práxis e da concepção salvífica dos evangélicos. Estamos cada vez mais católicos, mas, infelizmente, naquilo que o catolicismo tem de pior...


Encerro este texto com dois trechos do belíssimo Grata Nova, hino de número 18 da Harpa Cristã. Veja como o Evangelho está em destaque nessa letra:

Com ofertas e obras mortas,
Sacrifícios sem valor,
Enganado, pensa o homem,
Propiciar Seu Criador,
Meios de salvar-se inventa;
Clama, roga em seu favor,
A supostos mediadores,
Desprezando o Deus de amor.

Luz divina, resplandece!
Mostra ao triste pecador,
Que na cruz estão unidos
A justiça e o amor.
Fala aos corações feridos,
Mostra-te, Deus Salvador;
E sem fim, proclamaremos:
“Deus é luz! Deus é amor!”


Notas e Referências:

[1] Pelágio da Bretanha (350 — 423) foi um monge ascético a quem se atribui a defesa de crenças como a autonomia humana para a salvação, a natureza humana como neutra e a negação do pecado original. O seu principal oponente teológico fora Agostinho de Hipona (354- 430).

[2] SAWYER, M. James. Uma Introdução à Teologia. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2009. 183.

sábado, 4 de maio de 2013

Conflitos na Família

Apresentação da aula na Escola Dominical da Igreja Evangélica Assembleia de Deus no Jardim das Pedras. São Paulo (SP).

quarta-feira, 1 de maio de 2013

O símbolo da Bancada Evangélica

João Campos
 (foto: congresso em foco)

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Quem acompanha este blog sabe a minha visão crítica sobre a Bancada Evangélica no Congresso Nacional. É inegável a importância desse grupo para barrar leis absurdas como a aprovação do aborto e eutanásia- eufemismos para assassinar com consciência limpa- mas, ao mesmo tempo, é composta por muitos deputados questionáveis, para dizer o mínimo, em matéria moral e ética.

O deputado João Campos (PSDB-GO) é um símbolo dessa Bancada Evangélica moral- imoral. Campos, presidente da Frente Parlamentar Evangélica, é um dos maiores entusiastas da PEC 37, um projeto de lei que na essência limita o poder de investigação do Ministério Público. Ele defende abertamente esse projeto em seu site. Além desse absurdo, o deputado Campos foi relator na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da PEC 33, de autoria do deputado Nazareno Fonteles (PT-PI), outro projeto tresloucado que submete o poder do Supremo ao Congresso.

No mesmo site onde defende o indefensável Campos informa que “em 1973 converteu-se à Igreja Evangélica Assembléia de Deus na Cidade de São Miguel do Araguaia. Em 1980 foi consagrado Diácono, em 1988 Presbítero, em 1989 Evangelista e em 1996 Pastor Auxiliar da Igreja Assembléia de Deus de Vila Nova.”. A Bíblia diz que, na condição do episcopado, o homem deve ser  irrepreensível [cf. 1Timóteo 3.2]. E como assembleiano eu fico com aquele sentimento de "vergonha alheia".

Aonde vamos parar? Nós, como evangélicos, vamos continuar a manchar os nossos nomes com deputados que “defendem a família” e ao mesmo tempo projetam leis que minam a democracia e a oportunidade de investigação de corrupção?  É claro que ele e outros deputados apologistas dessas PECs vão dizer que possuem as melhores intenções... Bom, mas quem acredita? Já viu algum tirano que cresça falando a verdade?

Como seria bonito ver deputados evangélicos defendendo causas nobres. Homens que deveriam ser exemplos de republicanismo, honestidade e democracia.

É hora de vigiar!