domingo, 30 de junho de 2013

A experiência eclesiástica do amor

Pregação realizada neste domingo na Igreja Evangélica Assembleia de Deus no Jardim das Pedras, São Paulo (SP).

Texto base: 1 Coríntios 13

quinta-feira, 27 de junho de 2013

A Teologia Pentecostal e o Amilenismo


A Teologia Pentecostal e o Amilenismo


Por Maurício Machado, membro da Comunidade Vida Melhor em Joinville (SC). Bacharel em Design, editor do blog Amilenismo.com e um dos apresentadores do podcast BiboTalk


Fui resgatado por Cristo em uma comunidade pentecostal e no decorrer desse tempo como cristão passei por mais duas congregações, também de confessionalidade pentecostal. Conforme fui amadurecendo na fé, mesmo sem ser incentivado, começou a brotar em mim o interesse pela teologia que, como resultado, tive minhas atenções quase que exclusivamente voltadas para a escatologia - o estudo das últimas coisas.


Conforme fui percorrendo os mais variados caminhos das diferentes interpretações escatológicas, houve um momento em que precisei bater o martelo quanto a uma posição. Não obstante, encontrei no amilenismo uma interpretação saudável das Escrituras, principalmente das profecias e do Apocalipse, de forma que pareceu-me o sistema mais coerente e o que continha menos problemas exegéticos.


Tal decisão me rendeu um título quase paradoxal. Assim como cão e gato, óleo e água, eu era o pentecostal e amilenista! É sabido que a grande maioria dos pentecostais não partilham dessa posição, de maneira que quase todos os amilenistas - e em menor escala os pós-milenistas - podem ser encontrados em igrejas históricas. Embora não exista necessariamente uma regra na teologia pentecostal que diga que você tenha que ser um milenarista - seja prémilenista histórico ou dispensacionalista -, eu praticamente podia ver uma interrogação na expressão dos meus irmãos pentecostais quando eu lhes compartilhava minha posição escatológica.


Não posso dizer que tive muitos problemas advindos da minha escolha, uma vez que a maioria dos meus irmãos simplesmente não se importavam com a questão e o meu pastor não via isso como um pecado - ironia -, mesmo ele sendo convicto do seu prémilenismo. Todavia, qualquer um que passe a meditar com frequência sobre esses temas logo perceberá que as práticas de um cristão podem muito bem ser reflexo da posição escatológica a qual defende. Aliás, toda teologia termina em alguma prática, mas nem todo ensino é ortodoxo e termina em ortopraxia.


E foi exatamente isso que comecei a perceber no que conhecemos por dispensacionalismo. Esse sistema teológico foi idealizado por um cristão piedoso chamado John Nelson Daby (1800-1882), um dos líderes dos Irmãos de Plymouth na Inglaterra. [1] Entre seus ensinos, destacam-se:


1 - A interpretação estritamente literal das Escrituras.
2 - A divisão da história da humanidade em sete dispensações (inocência, consciência, governo humano, patriarcal, lei, graça e reino).
3 - Uma forte distinção entre Israel e a Igreja, de maneia que esta, segundo eles, seria um parêntesis ou “plano B” de Deus, uma vez que os judeus rejeitaram o Messias. Todavia, Deus reataria seu relacionamento com Israel no fim dos tempos, segundo uma interpretação literal das profecias não cumpridas do Antigo Testamento.
4 - A crença não só em um reinado de mil anos de Cristo com os seus santos após a Sua segunda vinda, como também o restabelecimento dos sacrifícios veterotestamentários pela nação de Israel redimida. [2]
Muitas outras particularidades desse sistema poderiam ser mencionadas, mas as que apresentei acima nos dão uma boa ideia de por onde o dispensacionalismo caminha. Assim, gostaria de chamar a atenção do leitor para os dois últimos itens e em como eles podem influenciar ou sancionar, em alguma medida, as práticas de quem adere ao dispensacionalismo.


Como exemplo dessa relação entre teologia e prática cristã, penso que uma dessas práticas que pode ser muito afetada pela crença em uma escatologia equivocada é a liturgia.
Senão vejamos: Nos últimos anos foi possível presenciar através de mídias apologéticas o aumento de denominações pentecostais sérias que passaram a incorporar em seus cultos públicos práticas judaizantes. 


Dentre elas pode-se mencionar o uso de objetos como o shofar, réplicas da arca da aliança, a bandeira de Israel, o menorah, etc. Em casos mais extremos pode-se destacar ainda a observância das festas judaicas.
Sem entrar no mérito dos vários textos bíblicos que declaram a obra de Cristo como definitivamente superior a esses rudimentos da antiga aliança, é possível notar uma estreita relação entre elas e a crença dispensacionalista. Assim, o dispensacionalismo dá fortes evidências de que estimula um sionismo exacerbado, e conforme podemos ver pelo conjunto de suas afirmações, é difícil imaginar que esse sistema esteja isento de influenciar negativamente a igreja de Cristo.


Mas há ainda um outro ponto a ser considerado. Curiosamente, aqueles que trazem tais práticas para dentro de suas congregações, no mínimo estão adiantando o calendário escatológico do seu sistema e dando sinais de uma crise de identidade. Ora, a restauração das práticas judaicas, segundo o ítem quatro, não deveria acontecer apenas no milênio e ser administrada apenas pelos judeus? Parece-me haver uma grande contradição aqui. De qualquer forma, o dispensacionalismo, se não é o causador de sérios problemas, ao menos pode reforçar um sincretismo desnecessário e antibíblico do cristianismo com uma liturgia judaizante ultrapassada.


É fato que desde o seu surgimento a teologia pentecostal tem se provado séria, fiel e comprometida com as Escrituras. Tanto é o seu reconhecimento que outras bandeiras igualmente sérias do cristianismo brasileiro têm-se aberto para o diálogo e, ao que me parece, bons frutos têm surgido dessas aproximações. Se o leitor permitir o trocadilho, penso que esse diálogo bem poderia se estender até as “últimas coisas”.


Aos que possam resistir a ideia de uma revisão no conjunto das crenças pentecostais concernentes a escatologia, não se trata de descaracterizar a teologia pentecostal, mas de fazer com que ela esteja o mais próximo das Escrituras, coisa que o dispensacionalismo, infelizmente, está aquém do ideal. Além do mais, penso que nenhum pentecostal em sã consciência, sabendo da capacidade que o pentecostalismo tem para absorver doutrinas, gostaria de ter sua expressão de fé minada por influências duvidosas.


Quem sabe, Deus querendo e com o passar do tempo, outros amilenistas como eu possam engrossar as fileiras do pentecostalismo e oferecer não uma escatologia hollywoodiana e sensacionalista, mas uma alternativa sólida e comprometida com a sã doutrina. Sendo assim, penso que o amilenismo [3] preenche tais requisitos e, a quem se interessar, pode procurar por autores como William Hendriksen e Anthony Hoekema para uma excelente explanação desse sistema.


Referências:


[1] CAIRNS, Earle E. O Cristianismo Através dos Séculos: Uma História da Igreja Cristã. 2 ed. São Paulo: Vida Nova, 2008. p 436.


[2] CLOUSE, Robert G. Milênio: Significado e Interpretações. 1 ed. Campinas: Luz Para o Caminho, 1985. p 57-83.


[3] http://www.amilenismo.com/2012/05/amilenismo.html



segunda-feira, 24 de junho de 2013

O Gigante Acordou?

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Este blog é de teologia, mas quero comentar rapidamente sobre a onda de protestos no Brasil. Ora, o cristianismo é uma lente para enxergarmos o mundo à nossa volta. É uma cosmovisão [1] como C. S. Lewis escreveu: “Acredito no Cristianismo como acredito que o Sol nasceu, não apenas porque eu o vejo, mas porque por meio dele eu vejo todo o resto” [2] . Portanto, um blog de teologia também tem o dever de comentar a política profunda de seu país.

Nesta primeira parte levanto os pontos negativos, ou melhor dizendo, os pontos de alerta. É legal ver um “despertar político” da população, mas não sejamos ingênuos. Na segunda parte, publicada ainda nesta semana, levantarei os aspectos positivos.

Os pontos negativos

1. Há um forte discurso contra a “democracia representativa”. Todos aprendemos nas aulas de história que a democracia nasceu na Grécia antiga. É o governo (cracia) do povo
(demo). Mas a democracia pura e simples não existe. O povo como governante é apenas uma abstração. Por que? Ora, porque se todos governam literalmente, logo ninguém direciona e o lugar vira uma bagunça. Bom, para resolver esse “paradoxo da democracia” nasceu a representatividade partidária e parlamentar. Assim, de tempos em tempos elegemos os “nossos representantes”.

Portanto, para representar a sociedade essa classe política se divide em partidos. Sejam de direita (individualismo, liberdade econômica, valores morais conservadores, liberdade de imprensa) ou de esquerda (igualitarismo, coletivismo, economia de Estado, valores morais liberais) ou de centro. Há ainda a extrema direita e a extrema esquerda (igualmente autoritárias, estatizantes, mas que divergem no modus operandi...). Essa divisão existe nas principais democracia do mundo.

Talvez você argumente que essa representatividade não exista nos partidos brasileiros! É verdade, mas ela existe em indivíduos como candidatos. Por exemplo, em um mesmo partido é possível encontrar um deputado libertário e outro comunista. O problema é que os brasileiros, de maneira geral, não possuem o costume de pesquisar sobre os pensamentos políticos do seu candidato ou votam em alguém que quer apenas o poder pelo salário ali bem representado.

A representativa através do voto é um filtro importante para que uma maioria seja ouvida, mas também a minoria seja igualmente protegida. Democracia não é simplesmente imposição de uma vontade da maioria, mas é o espaço da negociação. A maioria, é claro, votará e apresentará as pautas, mas em democracias terá que negociar com diversos atores da sociedade. Há, assim, inúmeras instituições para ouvir: a Constituição, o Poder Judiciário, o Poder Legislativo, o Poder Executivo, a imprensa, os empresários, os sindicatos, as igrejas, o mercado financeiro etc. e tal. Na nossa visão cristã ninguém é soberano, pois ninguém é deus, logo todos precisam de um poder moderador e de limitações.

É evidente que tal modelo não seja perfeito e que suporte muitas falhas, mas não há nada melhor para colocar no lugar. É necessário lembrar que a democracia é um sistema complexo. “A complexidade alcança a forma, a ideologia subjacente e o nível de maturidade”, escreve o erudito evangélico D. A. Carson [3]. Portanto, ela não pode ser resumida numa votação ou na simples vontade da maioria. Assim, lembramos a velha e batida frase de Winston Churchill: A democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais formas que têm sido experimentadas de tempos em tempos”. Há uma crise de representatividade? Sim, há. Mas o caminho não é acabar com essa representatividade.

02. Há forte romantização sobre “a voz das ruas”. O teólogo  D. A. Carson escreveu um ótimo livro- sem tradução em português - sobre o politicamente correto com o título The Intolerance of Tolerance. Nessa obra Carson observa: “Certamente, os representantes do povo devem ser sensíveis à opinião pública [...]. No entanto, a opinião pública pode ser inconstante, facilmente influenciada por acontecimentos dramáticos ou pela língua de ouro dos demagogos” [4]. Isso é tão óbvio que é simplesmente espantoso como muitos são empolgadíssimos com a “voz das ruas” sem nenhuma reflexão mais profunda. Um deputado evangélico ligado à esquerda chegou a lembrar entusiasmado a idiota frase latina Vox populi, vox Dei.

O filósofo irlandês Edmund Burke escreveu o famoso livro Reflexões sobre a Revolução na França onde, como espectador privilegiado da revolução na vizinha França, fala sobre o espírito preventivo e cético ao lidar com fenômenos políticos: “Sempre que a casa do nosso vizinho estiver pegando fogo, é conveniente acionar um pouco as bombas d`água na nossa própria casa. Melhor ser desprezado por apreensões excessivas do que arruinado por uma segurança confiante demais” [5].

O maior exemplo histórico de uma “voz nas ruas” histérica e movida pela demagogia de alguns líderes religiosos foi a própria crucificação de Cristo:

Por ocasião da festa era costume do governador soltar um prisioneiro escolhido pela multidão. Eles tinham, naquela ocasião, um prisioneiro muito conhecido, chamado Barrabás. Pilatos perguntou à multidão que ali se havia reunido: "Qual destes vocês querem que lhes solte: Barrabás ou Jesus, chamado Cristo? "Porque sabia que o haviam entregado por inveja. Estando Pilatos sentado no tribunal, sua mulher lhe enviou esta mensagem: "Não se envolva com este inocente, porque hoje, em sonho, sofri muito por causa dele". Mas os chefes dos sacerdotes e os líderes religiosos convenceram a multidão a que pedisse Barrabás e mandasse executar a Jesus. Então perguntou o governador: "Qual dos dois vocês querem que eu lhes solte? " Responderam eles: "Barrabás! " Perguntou Pilatos: "Que farei então com Jesus, chamado Cristo? " Todos responderam: "Crucifica-o! " "Por quê? Que crime ele cometeu? ", perguntou Pilatos. Mas eles gritavam ainda mais: "Crucifica-o! " Quando Pilatos percebeu que não estava obtendo nenhum resultado, mas, pelo contrário, estava se iniciando um tumulto, mandou trazer água, lavou as mãos diante da multidão e disse: "Estou inocente do sangue deste homem; a responsabilidade é de vocês". Todo o povo respondeu: "Que o sangue dele caia sobre nós e sobre nossos filhos! " Então Pilatos soltou-lhes Barrabás, mandou açoitar Jesus e o entregou para ser crucificado. [6].

O interessante na história é a pergunta de Pilatos sobre o crime de Jesus. Alguma resposta? Não! Algum argumento? Não. Algum julgamento de fato? Não. Simplesmente palavras de ordem como “crucifica-o”!

Foto: Revista Época
03. Demandas irrealistas e soluções populistas. Muitos manifestantes pedem hospitais e escolas no “padrão Fifa”. É uma irrealidade, pois o Estado brasileiro nunca foi um bom gerenciador em qualquer circunstância. Essas pessoas estão, infelizmente, pedindo ainda mais Estado. Como o Estado não pode garantir um bom hospital ou uma boa escola, então que se cobre menos impostos. A demanda mais realista é pedir a diminuição radical da carga tributária. Assim, sobraria mais dinheiro para comprarmos os serviços privados de saúde, educação e transporte. A redução da carga tributária seria o maior ato de “justiça social” nesse país. Isso faz lembrar Provérbios 29.4: “O rei mantém a terra pelo direito, mas o ávido de impostos a transtorna. [BJ]”

Ratzinger comentando o marxismo como proposta de liberdade mostra como a fé cega de alguns intelectuais faz com que os mesmos joguem fora qualquer sistema pautável com a realidade. Nesse sentido, criam suas próprias doutrinas e ideias e as impõe de maneira autoritária para as desenham como salvadoras e messiânicas. É a famosa “teorias de gabinete”, uma expressão usada por Edmund Burke para mostrar o irrealismo de alguns intelectuais. O assunto aqui não é propriamente o marxismo ou qualquer outra ideologia de esquerda, mas o comentário do teólogo católico cabe bem a esse contexto de revindicações sem lastro:

O marxismo, no entanto, perde o fôlego na questão de como essa estrutura haveria de ser, e quais seriam os meios para estabelecê-la [7]. Até um cego pode ver que nenhuma das estruturas construídas, pelas quais se exigiu a renúncia da liberdade, possibilitou de fato a liberdade. Mas os intelectuais são cegos quando se trata de suas construções mentais. Por isso, podiam renunciar a qualquer realismo e continuar a lutar por um sistema cujas promessas era irrealizáveis. Procurou-se uma saída na mitologia: as novas estruturas deveriam produzir um homem novo- pois na verdade apenas com novos homens, com homens totalmente diferentes, as promessas poderiam funcionar. Se o caráter moral do marxismo se acha na exigência de solidariedade e na ideia de indivisibilidade da liberdade, então o anúncio do novo homem é claramente uma mentira que paralisa qualquer enfoque moral. Verdades parciais orientam-se para uma mentira, e então o todo fracassa: a mentira da liberdade elimina também os elementos verdadeiros. Liberdade sem verdade não é liberdade. [8]

É necessário cuidado perante o surgimento de populistas demagogos em ambientes de revoltas. Na Argentina de 2001 muitos gritavam nas ruas contras todos os políticos, mas logo em seguida elegeram Néstor Kirchner, a própria encarnação do populismo. Hoje a Argentina vive uma presente e consistente crise econômica e política. Alguns já gritam para uma reforma política. Sim, precisamos de reformas, mas todo cuidado é pouco.

Além disso, nada mais anticristão do que eleger políticos como “messias” e “salvadores da pátria”. Sempre desconfie do messianismo político. A ficção 1984 de George Orwell tem uma passagem interessante. O personagem Winston Smith descreve uma cena onde uma mulher louvava o Grande Irmão (The Big Brother) como um messias. A cena mostra muito bem como ditaduras passam a imagem salvacionista. E uma democracia não cria expectativa de “salvadores”:

A mulher esguia e ruiva se jogara para a frente, apoiando-se no encosto da cadeira diante dela. Com um murmúrio trêmulo que parecia dizer “Meu Salvador!”, estendeu os braços para a tela. Em seguida afundou o rosto nas mãos. Era visível que fazia uma oração. [9]



Referências Bibliográficas:

[1] “Uma cosmovisão é um comprometimento, uma orientação fundamental do coração, que pode ser expressa como uma história ou um conjunto de pressuposições (hipóteses que podem ser total ou parcialmente verdadeiras ou totalmente falsas), que detemos (consciente ou subconscientemente, consistente ou inconsistentemente) sobre a constituição básica da realidade e que fornece o alicerce sobre o qual vivemos, movemos e possuímos nosso ser”. SIRE, James W. O Universo ao Lado: Uma catálogo básico sobre cosmovisão. 1 ed. São Paulo: Editora Hagnos, 2009. p 16.

[2] LEWIS, C. S. O Peso de Glória. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2008. p 134.

[3] CARSON, D. A. Cristo e Cultura: Uma Releitura. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 2012. p 111. Leia especialmente o capítulo Secularismo, Democracia, Liberdade e Poder entre as páginas 105 a 129.

[4] CARSON, D. A. Intolerance of Tolerance. 2 ed. Grand Rapids: Eerdmans Publishing, 2012. p 151.

[5] BURKE, Edmund. Reflexões Sobre a Revolução na França. 1 ed. Rio de Janeiro: TopBooks, 2012. p 154.

[6] Evangelho Segundo Mateus 27. 15-26 [Nova Versão Internacional].

[7] Isso lembra claramente as revindicações do grupo radical Movimento Passe Livre.

[8] RATZINGER, Joseph. Fé, Verdade, Tolerância: O Cristianismo e as Grandes Religiões do Mundo. 1 ed. São Paulo: Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência Raimundo Lúlio, 2007.  p 218.

[9] ORWELL, George. 1984. 1 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. p 27.

domingo, 23 de junho de 2013

Pentecostalismo e Calvinismo: alguma relação possível?



Pentecostalismo e Calvinismo: alguma relação possível?

Por Clóvis Gonçalves, membro da Igreja O Brasil para Cristo. Bacharel em Teologia pelo Instituto Bíblico da denominação e com MBA em Gestão de Pessoas. Editor do Blog Cinco Solas.


Introdução

Historicamente, a relação entre calvinistas e pentecostais não tem sido sempre amistosas. Em muitas obras publicadas o tom belicoso não foi evitado. Contudo, em tempos mais recentes e de forma crescente, pentecostais em busca de uma teologia mais robusta tem se aproximado do calvinismo, enquanto estes tem demonstrado maior abertura à liturgia pentecostal. Mesmo assim, essa crescente minoria tem sido vista com cautela, tanto por pentecostais como por calvinistas. E embora se admita que seja “muito possível que um crente individual, ou uma igreja, creiam firmemente nos cincos pontos do calvinismo e ao mesmo tempo creiam no batismo com o Espírito Santo como segunda experiência e na continuidade do dom de línguas” (MACLEOD, 2005), tais crentes e igrejas são vistas como inconsistentes. A questão, pois, é se os dois sistemas são necessariamente auto excludentes ou existe compatibilidade entre as doutrinas distintivas de pentecostais e calvinistas.

O presente artigo não pretende ser uma defesa da doutrina pentecostal ou da teologia calvinista. Ao invés de investigar se os dois sistemas resistem a uma análise bíblico-teológica, parte-se da premissa de que ambos, ou pelo menos um deles, são verdadeiros, confrontando-os para descobrir se as duas teologias são fundamentalmente incompatíveis entre si. Dessa forma, o interesse recai sobre os eventuais conflitos entre os sistemas e sobre objeções recíprocas que apresentam, deixando de lado as objeções gerais com que os adeptos de uma ou outra corrente se deparam continuamente.

Não é raro, nas controvérsias teológicas, haver más representações das posições em debate. No que diz respeito ao pentecostalismo e calvinismo não é diferente, mesmo em obras tidas como de referência, que deveriam ser imparciais ao máximo. Neste trabalho serão seguidas as definições que concordem ao máximo com as oferecidas pelos próprios movimentos.

O que é calvinismo

O calvinismo é a tradição doutrinanária associada ao reformador João Calvino (1509-1564), que forma a base teológica de igrejas reformadas e presbiterianas e define o conteúdo das confissões de fé clássicas como a Confissão Belga (1561), o Catecismo de Heidelberg (1563), os 39 Artigos da Igreja Anglicana (1562, 1571), os Sínodos de Dort (1619) e a Confissão de Fé de Westminster (1647), entre várias outras. As Institutas da Religião Cristã, escrita por Calvino em 1536 e ampliada em sucessivas edições, expõe as características centrais da teologia reformada. Além da obra de Calvino, os escritos de Theodore Beza (1519–1605), seu sucessor em Genebra e de Heinrich Bullinger (1504–1575), de Zurique, autor da Segunda Confissão Helvética, contribuíram para a formação da tradição reformada, que se espalhou rapidamente no continente europeu e inspirou o surgimento do puritanismo na Inglaterra (REID, 1990).

O calvinismo é também definido como uma visão de mundo fundamentada num único ponto, o qual determina sua perspectiva da história, política, artes e de cada detalhe da vida (REID, 1990): a total soberania de Deus sobre a Criação, a História e a Redenção. Apesar do seu aspecto abrangente, o calvinismo é muitas vezes definido em termos de cinco pontos: Total Depravation (Depravação Total); Unconditional Election (Eleição Incondicional); Limited Atonement (Expiação Limitada); Irresistible Grace (Graça Irresistível); e Perseverance of the saints (Perseverança dos Santos) (ANDRADE, 2002). A origem dessa representação em cinco pontos remonta ao Sínodo de Dort, reunido entre 1618 e 1619 nesta cidade da Holanda, com o propósito de apresentar uma resposta aos chamados Cinco Pontos da Remonstrância, documento elaborado por dissidentes que pediam revisão da doutrina da salvação reformada (BUSWELL JR, 1983).

Depravação Total refere-se à condição do homem depois da Queda e significa que o pecado em seu poder, influência e inclinação afeta o homem por inteiro. Nosso corpo está caído, nosso coração está caído e nossa mente está caída. Não há nenhuma parte de nós que escape da devastação de nossa natureza humana pecadora (SPROUL, 2005). Isto não significa que o homem é tão mau como poderia ser, mas que ele nunca é bom o tanto que deveria ser. Neste estado não pode fazer nada que agrade completamente a Deus e sem a ação decisiva da graça divina não pode lograr ser salvo. Um termo correlato é inabilidade, que é a incapacidade de sairmos do estado de depravação. O homem não pode mudar o seu caráter ou agir de forma diversa dele. Não é capaz de conhecer as coisas espirituais, obedecer a lei de Deus e em seu estado carnal não pode agradar a Deus em nada. C. S. LEWIS (2005) captou bem a inabilidade do homem ao dizer que “quanto pior você é, mais precisa do arrependimento e menos é capaz de arrepender-se”. A única forma de sair dessa condição desesperadora é através de uma operação divina, chamada regeneração (WOOD, 1996).

O segundo ponto é chamado Eleição Incondicional e “consiste em que, antes da Criação, Deus selecionou da raça humana, antevista comod ecaída, aqueles a quem Ele redimiria, traria à fé, justificaria e glorificaria em Jesus Cristo e por meio dele” (PACKER, 1998). A eleição é dita incondicional por ser uma expressão da graça livre e soberana, não constrangida nem condicionada por qualquer coisa naqueles que são os seus objetos. Para o teólogo pentecostal DUFFIELD (1983), a “eleição é um ato soberano de Deus porque, sendo Deus, não tem que consultar-se com, nem perguntar a opinião de ninguém mais. E na medida em que a eleição teve lugar ‘antes da fundação do mundo’ (Ef 1:4), não havia ninguém com quem Deus pudesse consultar. E todo homem tendo pecado e sendo culpado diante de Deus, Ele não estava sob obrigação de prover salvação a ninguém. A eleição é um ato da graça de Deus por esta mesma razão”.

Expiação Limitada é a visão de que a obra de Cristo na cruz foi intencionada em favor dos eleitos apenas, embora pelo seu valor fosse suficiente para todos (KARLEEN, 1987). Este talvez seja o ponto mais controverso do sistema calvinista, em parte por má expressão ou compreensão. O que o calvinista limita não é o valor da morte de Cristo. De acordo com calvinista SPROUL (2005), “a expiação de Jesus Cristo é suficiente para todos os homens. O valor do sacrifício que Cristo ofereceu ao Pai é de valor infinito. Há mérito na obra de Cristo para cobrir os pecados de cada ser humano que já viveu. Assim, não há limite de valor no sacrifício que foi feito. Neste sentido, o que Cristo fez na cruz é suficiente, objetivamente considerado, para cobrir os pecados de cada indivíduo no mundo”. A questão tem a ver com o propósito que Deus tinha ao enviar seu Filho com a missão de morrer na cruz: era tornar possível a salvação de todos ou certa a salvação dos eleitos? Os calvinistas respondem afirmativamente a esta última parte.

Graça Irresistível é o conceito teológico que denota que a obra de Deus na salvação de um indivíduo procede primeiramente de Deus e que não falha em trazer a pessoa para baixo dos benefícios da cruz, uma vez que não pode ser frustrada por seres humanos (KARLEEN, 1987). Assim, Deus sozinho é o autor da salvação, do início ao fim. Porém, o termo Graça Irresistível não é isento de confusão. Pode transmitir que a graça de Deus não sofre resistência, enquanto a Bíblia se refere aos que sempre resistem a graça divina. Por isso, alguns preferem o termo Graça Invencível, o que indica que a graça, embora possa ser resistida é finalmente eficaz nos eleitos. A Graça Irresistível tem a ver com a regeneração, que na visão calvinista é monergística, vale dizer, é um ato simples e exclusivo de Deus, no qual a alma do homem permanece passiva (HODGE, 2001).

A Perseverança dos Santos é a crença de que uma pessoa regenerada e verdadeiramente justificada pela fé em Cristo tem a salvação eterna e não pode perdê-la (REID, 1990). É uma decorrência lógica dos pontos anteriores. Se Deus elegeu incondicionalmente um povo para salvar e se proveu uma expiação que assegura essa salvação, é inevitável que os eleitos para a vida eterna vão chegar a essa vida eterna. Em outras palavras, negar a perseverança dos santos é negar a graça soberana de Deus na eleição incondicional (BUSWELL JR, 1983). Novamente, argumenta-se que o termo Perseverança dos Santos não é o mais adequado, preferindo-se Perseverança do Salvador ou Preservação dos Santos. De qualquer modo, a perseverança é o aspecto visível da eleição e da expiação. O que não significa que um crente regenerado não possa cair parcial ou temporariamente da fé. Nem que “uma vez salvo, salvo para sempre”, não importando a vida de santidade ou no pecado. Mas que se ele foi de fato salvo, então será reconduzido à fé e ao arrependimento, para alcançar a santidade necessária para ver o Senhor.

O que é pentecostalismo

Visto de forma isolada, o Movimento Pentecostal é o fenômeno religioso de maior destaque do século XX (REID, 199; MENZIES, 2002). Em 1900, o movimento não existia. Cem anos depois, em conjunto com os renovados, o grupo é maior que todos os outros evangélicos somados, ficando atrás apenas da Igreja Católica Romana em números absolutos (BARRET, 1982). Ao invés de se deixar ser tomado pelo triunfalismo, muitos pentecostais reconhecem que a sua influência não tem correspondido ao crescimento numérico, o que tem trazido perigos e desafios.

Como movimento, o pentecostalismo encontra sua origem no trabalho do evangelista da santidade e pregador de cura divina, Charles F. Parham. Enquanto dirigia uma pequena escola bíblica em Topeka, Kansas, Parham instruiu seus alunos a lerem o livro de Atos em busca de uma evidência bíblica do batismo com o Espírito Santo. A pesquisa chegou a um espetacular resultado quando, no primeiro dia do ano de 1901, uma estudante, Agnes Ozman, falou em línguas (REID, 1990). Embora haja relatos de pessoas falando em línguas antes de 1901 e a terminologia batismo com o Espírito Santo tenha sido usada por evangélicos tradicionais antes disso, o ocorrido em Topeka é significativo por estabelecer a ligação entre batismo com o Espírito Santo como revestimento de poder e a evidência associada ao falar em línguas (MENZIES, 2002).

Pouco anos depois um pregador negro do movimento de santidade, William J. Seymour foi convencido da experiência pentecostal e passou a pregá-lo em Los Angeles, onde finalmente estabeleceu uma missão pentecostal na Rua Azusa, na qual negros e brancos cultuavam juntos. Devido a localização estratégica de Los Angeles para viagens internacionais e a divulgação pela imprensa local do que acontecia nos cultos da igreja, muitos tiveram conhecimento e contato com a experiência pentecostal, que se espalhou pelo globo, embora manifestações pentecostais tenham surgido em várias regiões do mundo sem uma influência direta de Azusa (MENZIES, 2002).

O movimento pentecostal se distingue de outros ramos do protestantismo por dois pontos doutrinários: a crença no Batismo com o Espírito Santo como experiência distinta da conversão e na atualidade dos dons espirituais, especialmente o falar em línguas. Em geral, os pentecostais adotam uma soteriologia arminiana, são credobatistas, aceitam a cura divina e advogam uma escatologia premilenar. Contudo, tais convicções vieram do contexto onde o pentecostalismo surgiu e não são essenciais à pneumatologia pentecostal.

O Batismo com o Espírito Santo é definido como a experiência definitiva, subsequente à salvação, na qual a terceira pessoa da Divindade vem sobre o crente para ungir e conceder poder para o serviço (DUFFIEND, 1983). A experiência é relatada no Novo Testamento como o Espírito “caindo sobre”, “vindo sobre” ou sendo “derramado sobre” o crente, de forma repentina e sobrenatural. Os cristãos tradicionais enfatizam o aspecto soteriológico da obra do Espírito Santo (com o que os pentecostais concordam), e consideram o batismo com o Espírito Santo como experiência inseparável da regeneração, definindo-o como o ato do Espírito de Deus que coloca os crentes no Corpo de Cristo, a Igreja (KARLEEN, 1987). Os pentecostais enfatizam a separalidade e, não raro, a subsequência do batismo com o Espírito Santo em relação à experiência da conversão, recorrendo aos relatos de Atos para demonstrar que os que receberam o batismo com o Espírito Santo eram crentes, tinham se arrependido e entrado numa nova vida com Cristo antes disso (HORTON, 1996).

Apesar do Batismo com o Espírito Santo e o falar em línguas estarem relacionado entre si, expressando a singularidade da origem do movimento pentecostal (MENZIES, 2002), são questões separadas. Há quatro posições possíveis relacionadas ao Batismo com o Espírito Santo e com o falar em línguas como sinal (HORTON, 1996). Já nos referimos aos tradicionais que consideram o Batismo com o Espírito Santo indistinto da conversão, para estes não há evidência inicial, como o falar em línguas. Para os Unicistas, que também consideram o Batismo com o Espírito Santo como parte da conversão, o falar em línguas é evidência inicial obrigatória (JACKSON, 1984). Há os grupos que consideram o Batismo com o Espírito Santo usualmente como posterior à conversão, mas que nem sempre são acompanhadas do falar em línguas, como a Igreja O Brasil Para Cristo (CONVENSUL, sd). Finalmente, há os que defendem o Batismo com o Espírito Santo geralmente após a regeneração e sempre acompanhado do falar em línguas, posição das igrejas Assembléias de Deus (CPAD, sd). Mesmo estes últimos admitem outras evidências do Batismo com o Espírito Santo, como o fruto do Espírito, várias manifestações carismáticas e o poder dinâmico do Espírito Santo na vida do crente (HORTON, 1996). De qualquer modo, os pentecostais em geral creem na atualidade do dom de falar em línguas, seja como sinal inicial, seja como evidência contínua.

O dom de línguas é o dom do Espírito Santo que consiste em habilitar uma pessoa para falar num idioma que não é seu (LOCKWARD, 2003). A exata natureza do dom de línguas é matéria controversa. Para os primeiros pentecostais, tratava-se de hetero-glossolália, a capacidade de falar idiomas desconhecidos por quem fala, mas compreensíveis para os ouvintes. Agnes Ozman falou o idioma chinês e outros alunos falaram em cerca de outros 20 idiomas diferentes. Para a maioria dos pentecostais, contudo, o dom de línguas é glossolália, a capacidade de falar num idioma desconhecido, tanto para quem fala quanto para quem ouve, daí a necessidade do dom de interpretar (DEIROS, 1997). O dom de línguas é utilizado para expressar adoração a Deus ou para pronunciar mensagens proféticas, neste último caso, por poucas pessoas e sucessivamente, sempre se fazendo acompanhar do dom de interpretação.

A conciliação é possível

Uma constatação imediata da análise dos pontos distintivos dos dois sistemas teológicos é que pertencem à áreas distintas do conhecimento teológico. O cinco pontos do calvinismo são afirmações soteriológicas, enquanto que os dois pontos distintivos do pentecostalismo dizem respeito à pneumatologia. Óbvio que não são áreas estanques ou que um cristão possa manter suas convicções departamentalizadas. O calvinismo atribui um papel fundamental ao Espírito Santo na adoração, enquanto que o pentecostal mantém que a função principal do Espírito Santo é glorificar a Cristo, por quem somos salvos e por meio de quem recebemos o próprio Espírito Santo. Assim, sendo disciplinas distintas dentro de uma teologia sistematizada, não há conflito direto, mas estando interrelacionadas, um exame sobre eventual incompatibilidade se faz necessário.

O maior potencial para conflito está no entendimento do que seja o Batismo com o Espírito Santo. Já houve quem pensasse que o mesmo se referia ao batismo realizado na igreja local sob direção do Espírito Santo ou que no batismo Deus infunde o Espírito Santo no batizando (RYRIE, 2003). Porém, o mais comum entre os não pentecostais é que o Batismo com o Espírito Santo seja entendido como parte da experiência de conversão-iniciação no Corpo de Cristo, quando não a mesma coisa. Os pentecostais por sua vez mantém a subsequência do Batismo com o Espírito Santo em relação à conversão. Mas será que esta diferença é tal que incompatibiliza uma convicção calvinista-pentecostal coerente?

Que o Batismo com o Espírito Santo é distinto do ato de regeneração e da experiência de conversão parece ser ponto comum, com exceção de poucos que dizem ser a mesmíssima coisa. O ponto em debate é a separalidade ou a subsequência. Mas mesmo neste caso, há suficiente testemunho de que os reformados nem sempre discordam dos pentecostais. R. A. Torrey ensinou que uma pessoa pode ou não ser batizada no momento da regeneração e refere-se ao batismo com o Espírito Santo de D. L. Moody como tendo ocorrido depois de sua conversão (RYRIE, 2003). Martyn Lloyd-Jones também se referiu ao Batismo com o Espírito Santo como uma experiência distinguível da regeneração e da conversão. Para ele, sempre que o Novo Testamento falava de crentes sendo cheios do Espírito Santo tratava-se de Batismo com o Espírito Santo, exceto Ef 5:18 (LARSEN, 2003).

Os pentecostais, por sua vez, com sua ênfase na separalidade, de forma alguma desvalorizam a obra do Espírito Santo no novo nascimento. Para eles, tanto o pregar o evangelho, como o responder a ele, é uma obra do Espírito Santo. Nas palavras de FEE (1997), “fica claro disto tudo que a conversão do crente individual começa com um ato soberano de Deus, executado pelo Espírito Santo... a ação de Deus é claramente a anterior”. Para ele, “o Espírito parece tanto o que inicia a nossa fé como o que é recebido por essa mesma fé”. Quanto ao Batismo no Espírito Santo como iniciação-inclusão no corpo de Cristo, este é o entendimento de muitos pentecostais com relação a 1Co 12:13, entre eles R. M. Riggs, E. S. Williams, Donald Gee, P. C. Nelson e Myer Pearlman (HORTON, 1993). Portanto, as diferenças entre calvinistas e pentecostais quanto ao Batismo com o Espírito Santo em si não são tão evidentes, nem irreconciliáveis, especialmente à luz da herança comum das duas tradições.

Além disso, tanto calvinistas como pentecostais tem em comum o que Alister McGrath lista como características das igrejas evangélicas: suprema autoridade das Escrituras, majestade de Jesus Cristo, senhorio do Espírito Santo, necessidade de conversão pessoal, prioridade da evangelização e importância da comunidade cristã (BANISTER, 2001). Além disso, reinvidicam para si o fato de terem os mesmos antepassados. Os pietistas, que se reuniam nos domingos à tarde para estudar a Bíblia relatam que em seus dias foram batizados com o Espírito Santo. Os puritanos, calvinistas que eram estudantes metódicos da Palavra de Deus, incentivavam uns aos outros a buscarem uma outra experiência com o Espírito Santo, distinta da conversão, à qual chamavam de selo do Espírito. Os mestres de Keswick, entre os quais listam-se Hudson Taylor, Andrew Murray, F. B. Mayer, G. Campbell Morgan e D. L. Moody também se referiram a uma experiência mais abundante com o Espírito Santo, posterior à conversão. Todos eles podem, e geralmente são, considerados como antepassados tanto de tradicionais como de pentecostais (BANISTER, 2001).

Experiências recentes têm demonstrado que uma pessoa ou igreja pode, de forma coerente, manter convicções calvinistas e pentecostais. Existem seminários tradicionais dirigidos por teólogos pentecostais, ou por tradicionais e pentecostais em harmonia. Escolas pentecostais têm em seus quadros de professores calvinistas convictos. É cada vez maior o número de alunos pentecostais em seminários tidos como tradicionais (BANISTER, 2001). Um dos pontos do movimento chamado novo calvinismo é exatamente o ministério cheio do Espírito Santo, ou seja, a crença na atualidade dos dons espirituais (NIEL, 2011).

A associação é proveitosa

Porém, a associação entre calvinismo e pentecostalismo não é apenas possível, mas grandemente útil. Até mesmo obras críticas ao pentecostalismo reconhecem que há benefícios a serem desfrutados. Como exemplo, CHANTRY (1990) cita o interesse revivido no Espírito Santo, uma vez que a igreja tradicional tem menosprezado o ensinamento sobre o Espírto Santo. Depois de reconhecer que nem todas as igrejas pentecostais tem sido débeis na doutrina, MACLEOD (2005), diz ser possível aprender muito com os pentecostais em termos de zelo, mobilização de todo o corpo de crentes e anelo pelo ministério do Espírito Santo. De outro lado, os pentecostais estão procurando chegar a um acordo com sua herança evangélica tradicional (MENZIES, 2002). Muitos reconhecem que falando de modo geral, deram mais ênfase à experiência que à teologia, o que os manteve afastados da ética e dos postulados doutrinários da Reforma Protestante (NAÑEZ, 2007). Uma relação com calvinistas resultará proveitosa em desenvolver uma maior robustez teológica.

BANISTER (2001) insiste que não precisamos escolher entre o legado tradicional e o renovado quando podemos aproveitar o que há de melhor nos dois mundos. Os pentecostais só tem a ganhar com pregações expositivas, maior ênfase na autoridade e suficiência das Escrituras, de uma visão mais bíblica do sofrimento e que o Reino de Deus ainda não está completo aqui. Os tradicionais ganhariam com uma maior ênfase no poder do Espírito, na crença que Deus fala ainda hoje, no culto participativo e de que o Espírito Santo deve ser experimentado. Uma mente calvinista e pentecostal não é uma mente dividida, mas uma mente que de forma consistente reconhece a soberania de Deus na salvação e na capacitação para o serviço.

Referências bibliográficas

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BANISTER, Doung. A igreja da Palavra e do Poder. São Paulo: Vida, 2001.
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sábado, 22 de junho de 2013

Oralidade e escrita na Teologia Pentecostal: Acertos, Riscos e Possibilidades


ORALIDADE E ESCRITA NA TEOLOGIA PENTECOSTAL: ACERTOS, RISCOS E POSSIBILIDADES

Claiton Ivan Pommerening é doutorando em Teologia pela Escola Superior de Teologia (EST), bolsista da Evangelisches Missionswerk da Alemanha. Possui mestrado em Teologia pela EST (2008), graduação em Teologia pelo Centro Universitário Metodista Izabela Hendrix/Faculdade Evangélica de Teologia - FATE (2009), graduação em Ciências Contábeis pela Fundação Universidade Regional de Blumenau (1990). Membro do RELEP – Rede Latino-americana de Estudos Pentecostais e do NEPP – Núcleo de Estudos e Pesquisa do Protestantismo. Presidente do CEEDUC – Associação Centro Evangélico de Educação Cultura e Assistência Social em Joinville (SC); diretor da Faculdade Refidim; editor da Azusa Revista de Estudos Pentecostais (ISSN 2178-7441) e pastor auxiliar na Assembleia de Deus em Joinville (SC).


RESUMO
A Igreja Evangélica Assembléia de Deus doutrina seus fiéis especialmente através da oralidade. Tenta-se mostrar as principais características das culturas orais, o poder e a dinâmica da linguagem e do som, como estas culturas se apropriam da oralidade para disseminar sua sabedoria e como se dá a interface entre cultura oral e cultura escrita é o tema abordado no primeiro capítulo. Explicitam-se também as características principais da oralidade na Assembléia de Deus e suas formas de expressão através da poimênica, testemunhos, pregação, glossolalia, Harpa Cristã e a mistura entre cultura oral e escrita na utilização da Bíblia e das lições da Escola Bíblica Dominical. Como estas características atuam juntas e separadamente em comunidades pobres e elitizadas. Finaliza-se propondo como deveria ser uma teologia pentecostal que preserve a oralidade e ao mesmo tempo permita uma reflexão teológica formal.


Palavras chave: oralidade, escrita, teologia pentecostal, pentecostalismo.


Introdução


O tema e eixo semântico deste artigo serão a cultura oral e a cultura escrita com seus desdobramentos dentro do pentecostalismo. A primeira, ainda que não seja compreendida como o único fator de importância, mas um dos principais, será analisada de modo mais específico na Igreja Evangélica Assembléia de Deus. Antes porém será visto como a cultura oral e a cultura escrita atuaram e atuam antropológica e sociologicamente.
Oralidade é um termo empregado em relação a sociedades inteiras que se utilizam da comunicação oral como base das relações entre pessoas e/ou grupos, sem o uso da escrita ou com uso restrito dela; bem como para identificar certo tipo de consciência criada pela oralidade em sociedades letradas, porém regidas por ela. O discurso oral sustenta toda comunicação verbal, assumindo a escrita um papel de complemento dele, e que nunca pode prescindir da oralidade, pois observa-se que, na maioria das vezes, a oralidade existiu sem a escrita, mas nunca a escrita sem a oralidade.


1. Interfaces e comparações entre cultura oral e cultura escrita
Originalmente a escrita era restrita às elites clericais e comerciais, enquanto que a justiça, o governo e a vida cotidiana eram regidos pela oralidade. Ivan Illich propõe uma diferenciação entre “cultura escrita leiga” e cultura escrita clerical, esta última com a capacidade de ler e escrever. Os processo cognitivos da cultura escrita, deixam de ser concretos e situacionais, provocam mudança na percepção, na representação, no raciocínio, na imaginação e na autoconsciência. A linguagem oral é sempre rítmica e narrativa, descreve uma ação ou uma paixão, nunca princípios ou conceitos. A cultura escrita, porém desenvolveu a ciência, a filosofia, a lei escrita e a literatura.

Nas sociedades orais, o narrador adequava sua fala ao contexto da enunciação e à platéia que o ouvia. Da mesma forma, o mensageiro ajustava o que o remetente lhe mandou dizer de acordo com o estado de humor e a receptividade do destinatário. Ao contrário dessa maleabilidade da transmissão oral, a transmissão escrita é rígida, unilateral e descontextualizada. Na mensagem escrita a intenção do autor torna-se muitas vezes ambígua e incerta, exigindo a interpretação do leitor.
A tradição oral apela para a memória, a abstração, a adaptação às necessidades do ouvinte, assumindo a forma de arte com a “história oral” enquanto a escrita estimula outras partes do cérebro, reestrutura a consciência, estimula o visual e “encerra” o texto. Na cultura escrita a memória torna-se independente do indivíduo e da coletividade, pois existem mecanismos externos de inscrição, sendo assim, todo saber pode ser consultado e disponibilizado posteriormente.

A palavra proferida é investida de um poder de realização, isto porque essa palavra vem imbuída de hálito, de vida, da carga emocional, da história pessoal e do poder daquele que a profere, ao contrário do texto escrito, que guarda a palavra oferecida circunstancial e solitariamente a seu leitor, que com ela estabelece ou não vínculo de prazer, de saber e de reescritura. Já a palavra oral existe no momento de sua expressão, quando articula a sintaxe contígua através da qual se realiza.
Quando uma lenda ou história é escrita, cristaliza-se a história na escrita. A oralidade não se cristaliza, logo, se adapta e se contextualiza facilmente ao meio, não se encerra como na forma escrita. Walter Ong argumenta que a escrita faz a transição do som para o visual e causa o encerramento do texto.


2 A impressão da palavra falada: possibilidades na relação entre escrita e oralidade na Assembléia de Deus
Como já foi mencionado anteriormente, atualmente está se resgatando entre os estudiosos o valor da oralidade, pois se percebeu que, apesar de a cada dia a taxa de analfabetismo estar baixando diante de esforços de alfabetização, comunidades inteiras vivem num mundo semi-oral, pois não têm acesso à leitura por questões econômicas, sociais ou geográficas. Nestas comunidades o pensamento é organizado de forma oral, valorizando-se o discurso, a memória, a narração de histórias, a dramaturgia leiga e a emotividade.
Pelo fato de ter surgido entre classes pobres e oprimidas, e como uma reação à marginalidade social e à institucionalização protestante e católica, a oralidade no pentecostalismo necessita de formas menos elaboradas e racionalizadas de religiosidade, abrindo mão até da necessidade do estudo acadêmico da teologia em alguns casos, pois a maioria dos fiéis não tem acesso a educação formal, aderindo assim ao caminho menos exigente da emoção.
Segundo Hollenweger, o movimento pentecostal é revolucionário porque oferece alternativas à teologia escrita e permite que o pensamento cristalizado na forma escrita se torne fluido no culto através da oralidade, oferecendo possibilidades para pessoas que somente podem falar, que não conseguem se expressar de forma escrita. O acesso à palavra permite a democratização do saber, pois suprime a abstração sistemática e racional dos conceitos. O autor também salienta que a teologia oral tem igualdade de direitos sobre a escrita. Argumenta que Deus não criou faculdades mentais inferiores umas às outras, se compararmos a razão com a emoção, a devoção contemplativa com a dança, etc.
Alguns pesquisadores tentam retratar os pentecostais como povo inculto, porém Havelock afirma que constitui engano descartar qualquer herança oral de uma comunidade, pois sua organização mental é diferente da cultura escrita, necessitando de uma estrutura bem organizada, embora subjetiva. Afirmar o contrário é uma “[...] subestimación ignorante de la riqueza de la cultura popular y una sobreestimación etnocéntrica”.
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