domingo, 25 de agosto de 2013

A teologia dos carismas: uma contribuição intelectual dos pentecostais

Por Gutierres Fernandes Siqueira


Nós nem ainda ouvimos que haja Espírito Santo. [Atos dos Apóstolos 19.2]
 A teologia deixa de ser espiritual onde se deixa afastar do ar fresco e movimentado do Espírito do Senhor, que é o único ambiente em que poderá vingar, e se deixar atrair e impelir para dentro de recintos em cujo ar viciado está automática e radicalmente impedida de ser e de realizar o que poderia e deveria.  [Karl Barth] [1]
Os pentecostais são constantemente vítimas de um fenômeno que apelido como o "elogio esnobe".  Já ouvi e li diversos não-pentecostais exaltando o pentecostalismo pela espontaneidade, o fervor evangelístico, a liturgia empolgante e pelo trabalho social entre os mais pobres. Mas, no meio de tantas observações positivas, nunca vi -até o presente momento- um observador fora dos arraiais pentecostais falando sobre a contribuição teológica desse movimento. Para alguns só se fez teologia clássica em Genebra, Londres, Nova Inglaterra, Wittenberg, mas nada em  Los Angeles, especialmente em Azuza Street. O máximo que Azuza nos teria dado seria a alegria empolgante, mas nada em termos doutrinários. Será? [2]

O pentecostalismo contribui e muito para a teologia cristã. Não só na doutrina dos carismas, mas também pelo resgate da pessoa e obra do Espírito Santo. A terceira pessoa da Trindade, mesmo com o papel na economia divina de revelar o Filho, foi renegado a um esquecimento estrondoso. Era o "Deus esquecido" [3]  como escreveu recentemente Francis Chan e antes já nos alertava os neo-ortodoxos como Karl Barth e Emil Brunner. 

A doutrina do Espírito Santo fora tão renegada que há ainda em nossos dias crentes com dúvida se podem se dirigir diretamente ao Espírito Santo em oração. Já ouvi de alguns um estranhamento ao cantar a famosa canção Espírito Santo da cantora neopentecostal Fernanda Brum, pois a música é uma oração ao Espírito Santo. Muitos cristãos “ignoram que ele (o Espírito Santo) exista, que desempenha determinado papel e que possa até mesmo ser experimentado”[4].

Os pentecostais também contribuíram para diminuir ou praticamente acabar com a divisão entre leigos e clérigos.  No pentecostalismo a doutrina reformada do sacerdócio universal de todos os crentes teve um forte impulso. Agora todos tem a "oportunidade" de ser um ministro do Evangelho ao exercer determinado talento. 

Os dons espirituais

Não é no Batismo no Espírito Santo como uma "segunda bênção" pós-conversão e nem na evidência "física inicial" do falar em novas línguas, mas a maior contribuição dos pentecostais na teologia cristã está no termo grego charismata. É na doutrina dos dons espirituais que a teologia pentecostal mais contribuiu. 

Talvez a obra mais importante seja um livro curto, mas profundo do teólogo Donald Gee, pioneiro das Assembleias de Deus na Inglaterra. Na obra Concerning Spiritual Gifts ele expõe os pontos que depois são destacados e popularizados por autores evangelicais. Quem foi edificado com livros de John Stott sobre o Fruto do Espírito poderia ter lido, muito antes, a mesma tônica com Gee. 

Em um próximo texto quero aprofundar a teologia do dons, mas que fique bem claro: Não haveria doutrina dos carismas sem o pentecostalismo. Não só porque os pentecostais provocaram a reflexão, mas construíram a própria reflexão.

Referências Bibliográficas:

[1] BARTH, Karl. Introdução à Teologia Evangélica. 9 ed. São Leopoldo: Sinodal, 2007. p 39

[2] Mesmo autores simpáticos ao pentecostalismo tendem a ver o grupo como movimento e não como doutrina ou teologia.  Exemplo é o livro de James K. A. Smith que tenta dialogar o pentecostalismo com a filosofia. Veja: SMITH, James. Thinking in Tongues: Pentecostal Contributions to Christian Philosophy. 1 ed. Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans Publishing, 2010. p 17.

[3] CHAN, Francis e YANKOSKI, Danae. O Deus Esquecido: Revertendo Nossa Trágica Negligência. 1 ed. São Paulo: Editora Mundo Cristão, 2010. p 144. 

[4] WILLIAMS, J. Rodman. Teologia Sistemática: Uma Perspetiva Pentecostal. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2011. p 472. 

[5] GEE, Donald. Concerning Spiritual Gifts. s/d. Springfield: Gospel Publishing House, 1980. p 143.

domingo, 18 de agosto de 2013

Alguns pensamentos...

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Caros,

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Abaixo reproduzo alguns textos publicados na página. 

01. Legalismo: um mal menor?

Alguns cristãos acham o legalismo "um mal menor", pois mantém o crente longe do pecado (!). Nada mais falso. Bom, quem assim pensa precisa correr para o texto bíblico. O legalismo é o próprio pecado. É a vaidade do coração humano. É o homem construindo a sua "salvação". 

Quando Paulo fala dos judaizantes legalistas para a Igreja de Filipos (Fp 3.2), ele usa o termo grego "blepó" traduzido por "guardar-se" em nossas Bíblias. Ou seja, a coisa era muito séria.

"Guardai-vos" é uma metáfora ampla do verbo “ver, enxergar, contemplar”. Significa “estar pronto a aprender sobre ameaças e necessidades futuras, com a implicação de que se está preparado a reagir de forma apropriada”[1]. É um “imperativo em forma de alerta” [2] ou seja, “dar atenção, precaver-se, estar prevenido” etc.

Paulo não brincava com os legalistas. Legalismo era um pecado sério não só na teologia paulina, mas também no ministério de Jesus Cristo (veja especialmente Mateus 23).


02. Sensacionalismo‬ Gospel

Muitas comunidades virtuais evangélicas são ricas em sensacionalismo e inverdades. Notícias falsas, teorias de conspiração, acusações sem provas, fotos montadas etc. Tudo isso em textos que maltratam a nossa língua pátria. O nosso compromisso evangélico é com a verdade e não com o sensacionalismo. Algumas comunidades parecem uma versão desmiolada desses programas televisivos vespertinos.


03. Barulho e pentecostalismo

O pentecostal que confunde barulho com espiritualidade precisa voltar em silêncio às Sagradas Escrituras.

04. O púlpito

O pregador que se torna um profissional da fé prega na inércia desprovida de graça divina. Terrível para o pregador é o se "acostumar" com o púlpito.

Referências:

[1] LOUW, Johannes e NIDA, Eugene. Léxico Grego-Português do Novo Testamento. 1 ed. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2013. p 299. 
[2] ROBINSON, Edward. Léxico Grego do Novo Testamento. 1 ed. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus, 2012. p 160.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

A reação arminiana

Por Gutierres Fernandes Siqueira

A última década foi marcada pelo avanço do calvinismo no Brasil. Tal fato se deu, principalmente, pelos blogs e editoras temáticas. O pioneiro blog O Temporas O Mores, por exemplo, ajudou a popularizar a cosmovisão calvinista. De tão popular, os posts foram publicados duas vezes em formato de livro pela editora Mundo Cristão. Editoras como Cultura Cristã e Fiel cresceram em influência e a própria CPAD, órgão confessional das Assembleias de Deus, passou a publicar nomes como Piper, Carson, MacArthur, Driscoll, Keller, Packer, Pearcey etc.

Enquanto isso, nos Estados Unidos, ganhava força o chamado neocalvinismo. Era o  velho calvinismo com linguagem acessível, sem cessacionismo, sem fundamentalismo, envolvido criticamente na cultura pós-moderna e sempre atento às plataformas tecnológicas. O neocalvinismo vem sendo uma rica experiência entre a rígida tradição e a flexível linguagem pós-moderna. Apesar da popularidade dos autores neocalvinistas no Brasil, ainda é raro achar uma congregação nesses moldes por aqui. Neste país ainda impera o velho calvinismo.

E os arminianos? Ora, arminianos dificilmente são militantes. Isso é um ponto positivo, pois raramente você achará um arminiano que resuma a sua vida por essa corrente doutrinária. Em compensação haverá uma maior ignorância sobre essa mesma doutrina. Enquanto um teólogo calvinista fala da Soberania de Deus a cada cinco minutos, os seguidores de Armínio ficam quietos e crescem na inércia de uma doutrina mais fácil de ser compreendida. Mas o cenário parece ensaiar uma pequena mudança.

Há alguns anos o site Arminianismo.com vem empenhado em trazer mais conhecimento sobre essa corrente doutrinária. É visível nas redes sociais o crescimento de pentecostais, metodistas e até alguns batistas pelo aprofundamento nessa matéria. Recentemente a Editora Reflexão publicou o livro Teologia Arminiana: Mitos e Realidades do teólogo norte-americano Roger E. Olson. Parece que os arminianos começaram a reagir sobre o avanço calvinista.

Tudo isso é muito bom. A tensão entre calvinismo e arminianismo tende a trazer uma teologia mais equilibrada em nossa terra. Sem o determinismo arrogante e fatalista do  hipercalvinismo e nem o deus sem divindade do hiperarminianismo. Se você acha estranho ouvir que Deus não conhece o futuro na boca de um teísta aberto (eu também fico espantado), igualmente repulsivo é ouvir a blasfema ideia que Deus seja o autor do pecado. Portanto, vamos deixar os extremos para os fanáticos militantes. Certamente que o caminho mais saudável passa pelo equilíbrio, pois Deus não é nem limitado e nem um déspota fatalista.

Eu saúdo a reação arminiana assim como o avanço do neocalvinismo. Que Deus seja louvado.

domingo, 11 de agosto de 2013

Justiça e Justificação

Palestra proferida pelo teólogo Timothy Keller sobre justiça e justificação pela fé. Uma palestra necessária principalmente quando se pensa no papel social da igreja na sociedade contemporânea. E, também, recomendo com entusiasmo o livro do mesmo autor chamado "Justiça Generosa" (Edições Vida Nova).

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Qual a melhor tradução da Bíblia?

Por Gutierres Fernandes Siqueira

As traduções bíblicas são baseadas em dois tipos de manuscritos: O "Texto Recebido” ou Textus Receptus [1] e o "Texto Crítico". Bom, isso faz com que tenhamos esse maravilhoso universo de traduções (ARC, ARF, ARA, NVI, AFC, BJ, TB, etc.) e paráfrases das Sagradas Escrituras (NTLH, BV, A Mensagem etc.). O cristão do século XXI é um grande privilegiado no acesso ao estudo fácil, acessível e barato. 

Agora, é impressionante como alguns -não são todos- que preferem o "Texto Recebido", especialmente defensores da ARF (Almeida Revista Fiel), desenham as demais traduções como tragédias para o cristianismo ortodoxo. Como sempre, a postura fundamentalista é excessivamente preocupada com questões secundárias. Alguns chegam a dizer que a expiação vicária ou a doutrina da Trindade são ameaçadas por traduções como ARA (Almeida Revista e Atualizada) e NVI (Nova Versão Internacional). Pode isso, Arnaldo? 

Nunca esqueço de ter lido o absurdo- em uma antiga revista evangélica- que a NVI era um instrumento da Nova Era. Lembram dessa fase frenética de especulações e doideiras sobre símbolos e desenhos da Disney? Bom, sobrou até para uma ótima tradução. [2] 

O Texto Crítico é um complemento importante ao Texto Recebido. Não é uma questão de rivalidade entre a tradição e a modernidade ou entre o “texto puro” e o “texto sob a crítica de eruditos não necessariamente cristãos”. Detesto a postura daqueles- especialmente os fundamentalistas clássicos- de celebrar uma tradução como “pura”. Assim também como é detestável aqueles que desprezam com “cara de nojo” qualquer tradução mais literalista. 

Precisamos deixar de meninices e podemos aproveitar essa riqueza de traduções (sejam antigas ou novas) para um melhor entendimento das Escrituras. Isso sim é essencial. Então, qual a melhor tradução da Bíblia? A resposta é: esqueça isso. Não existe “a” melhor tradução. Simplesmente compare diversas traduções e seja bíblico. 

Notas:

[1] Os manuscritos do Texto Majoritário são semelhantes, mas não iguais, aos Textus Receptus
[2] Existem traduções falsificas? É claro que sim. Exemplo é a Tradução do Novo Mundo. Graça ao bom Deus essas traduções são raras e restritas nas seitas correspondentes.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

“O crescimento evangélico tem como causa a teologia da prosperidade!”

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Eis o maior de todos os clichês para explicar o crescimento evangélico. Quem nunca ouvi essa frase? Eu já ouvi e li esse clichê em palestras de teólogos evangélicos, em seminários entre estudiosos católicos, artigos de jornais, reportagem de revistas, papers acadêmicos, blogs cristãos etc.

1. É claro pelos números que o crescimento evangélico ganhou mais corpo a partir de 1991. Naquele ano éramos apenas 9% da população. Em 2010 já éramos 22,2%. Mas é perceptível que o crescimento vem constante e persistente. Não há grandes saltos, mas sim um pequeno incremento na velocidade desse crescimento.

Gráfico publicado no jornal O Estado de S. Paulo
2. A Teologia da Prosperidade chegou ao Brasil na década de 1970, mas a popularidade dessa doutrina se deu na década de 1990 e 2000. Isso coincide com um crescimento evangélico maior, mas não necessariamente explica essa maior velocidade. É bom observar que igrejas ícones dessa teologia- como a Igreja Universal do Reino de Deus e Igreja Apostólica Renascer em Cristo- perderam membros e encolheram na década de 2000.  

3. Portanto, fica a pergunta: o que impulsionava o crescimento vigoroso entre as décadas de 1940 e 1970? Certamente que não era a prosperidade. A mensagem protestante/evangélica era em si pietista (antimundana, pobreza como expressão de humildade, legalismo, moralismo e experiências de conversão). Ora, nada disso tem ligação com a mensagem de autoajuda e prosperidade dos grandes tele-evangelistas. Falar que a Teologia da Prosperidade explica o crescimento evangélico é desprezar 70% do avanço dado no século XX.

4. A sociologia da Religião sempre explica o fenômeno religioso como consequência do meio e nunca como causa. É quase um vício acadêmico. O crescimento evangélico foi explosivo e os estudiosos se voltaram para os pais da sociologia. Leram o processo com óculos redundantes. O professor Jorge Pinheiro explica:

A academia em suas análises sobre o fenômeno evangélico brasileiro na alta-modernidade urbana criou três lugares comuns: mercado, trânsito religioso e fundamentalismo. Na verdade, a leitura reducionista da realidade traduz um defeito que nasceu de suas bases teóricas de análise, fundamentadas sobre les trois petits cochons da sociologia: Marx, Durkheim e Weber. É a partir dessa trindade que nos debruçamos sobre o fenômeno religioso. Esses três pensadores das ciências sociais, por mais importantes, tinham em comum a ideia de a religião é sempre consequência, resultante de fenômenos ou situações sociais e nunca fenômeno fundante, embora relacional com contexto cultural da época, situação e geografia. [1]

5. Aos evangélicos fascinados com conclusões sociológicos parece existir um ceticismo desprezador de qualquer intervenção divina. É duro ver jovens confundindo Ciências da Religião com teologia. Ora, enquanto a primeira é mais uma das ciências humanas, a segunda é um exercício de fé e dogma. A soberania de Deus não pode ser, também, descartada nesse processo, mesmo sem esquecer a mundanidade dos homens.

Referência:

[1] PINHEIRO, Jorge. Evangelicalismo e cidade: mitos da religiosidade evangélica brasileira. Em: REGA, Lourenço Stelio (org.) Quando a Teologia Faz Diferença: Ferramentas para o Ministério nos Dias de Hoje. 1 ed. São Paulo: Editora Hagnos, 2012. p 201-202.