quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Minha Maioridade e o Protestantismo

Catolicidade: a essência da reforma que renova

Por André Gomes Quirino

Quando criança, eu tentei criar "uma heresia só minha", para evocar as palavras do católico Chesterton. Não sei que idade eu tinha – talvez uns seis anos –, mas aquela invencionice por algum motivo me marcou. Pela mesma época em que procurava meios de dominar o clima (ordenar a chuva, o sol, o vento), eu houvera escutado que, sempre que chove, o céu está chorando pela morte de alguém. Acreditei. E as chuvas, para mim, passaram a ser mais melancólicas do que o normal. Numa bela manhã (porque aprecio mais as manhãs chuvosas do que as manhãs ensolaradas), num terreno abandonado que ficava em frente à minha casa, a chuva apagava uma fogueira que estivera acesa, fazendo-a evaporar. Incrementei a heresia: não só a chuva representava que alguém havia morrido, como a fumaça que subia para o céu representava a pessoa morta em caminho à eternidade. Por alguns minutos, levei aquilo muito a sério. Improvisei uma reza de oferecimento e, não contente com a função de mentor intelectual, quis ser o sacerdote daquele ritual: fui até a chuva participar de sua melancolia, fingir que as gotas que escorriam em minha face eram lágrimas. Depois, a fim de aprimorar o drama, peguei um pedaço de tijolo que estava no chão e, com ele, pus-me a escrever nomes aleatórios num muro ao meu lado, como desse baixa nas almas que se despediam da Terra. Lembro-me de ter escrito nomes que ouvira na igreja, como Abraão ou Moisés (é bem provável que não com a grafia correta). Alguém me chamou, repreendendo-me por estar na chuva. Resisti com um silêncio de mártir e encerrei a liturgia. Se não me falha a memória, foi assim que aconteceu.

O pecado original da minha seita foi a arbitrariedade. Não havia um paradigma para aquele ritual, nem um testemunho que me garantisse a validade da crença. Acreditei numa invenção despropositada. Como Eva acreditou no ludibrio da serpente e persuadiu Adão do mesmo, meu amigo que primeiramente ouvira sobre o suposto significado mórbido das chuvas foi ludibriado por ele e me persuadiu do erro. Eu quis ser um profeta, mas fui – e sou – só mais um Adão. Isto é pecado original. O pecado original da minha seita foi ignorá-lo. Deus estabelecera Adão como dominador sobre todo o resto da criação; deu-lhe até a função de inventar nomes para as outras criaturas. Adão quis conhecer os mistérios da criação, quis passar de inventor a criador. Ele poderia comer de todo fruto do jardim, inclusive do que dava – e dá – a vida eterna. Mas preferiu comer do fruto proibido. Assim como Lúcifer, Adão quis ser como Deus. Assim como Adão, eu desprezei a real beleza da chuva, do fogo, do sol e do vento – criações de Deus – e quis usá-los a meu bel-prazer. A árvore da vida está agora afastada de nós por espadas flamejantes e querubins. Fomos expulsos do Éden.

Mais tarde vim a entender que a semente de Eva finalmente feriu o calcanhar da semente da serpente quando Deus se fez homem, nascendo de uma virgem. O pecado original nos impossibilita de chegar até Deus, mas Ele veio até nós – e fundou uma Igreja.

Estamos a 31 de outubro de 2013. Hoje completam-se 496 anos desde o início da Reforma Protestante. Em quatro anos, o movimento protestante alcançará meio milênio de existência. Terá alcançado a maioridade? Acredito que sim. Os princípios de Sola Scriptura, Solus Christus, Sola Fide, Sola Gratia e Soli Deo Gloria reformaram minha vida e reformaram o mundo. Têm tudo para continuar a reformar. Mas o que merece maior atenção é que, se a Reforma Protestante aconteceu há quinhentos anos, a Igreja Protestante foi fundada há dois mil. Não fosse assim, eu e todos os outros Adões ainda seríamos escravos da arbitrariedade, tentando criar realidades a partir de palavras aleatórias, quando o Verbo divino que cria o que chama já descera à criação e já nos dera uma Palavra que testifica o Seu propósito. Para chegarmos aos quinhentos anos de Reforma como "maiores de idade", o que nos falta é, a meu ver, a consciência de que "somos católicos". Isso é o que enfatiza o artigo "Remember you are Catholic", de James K. A. Smith – que cita, também, a proposta de George Weigel, em "Letters to a Young Catholic", de que "o pensamento cristão adote um 'ecumenismo do tempo', empregando conhecimento e discernimento de qualquer época histórica". Não se trata de um projeto ingênuo e precipitado de união de correntes divergentes, sem maior reflexão. Trata-se de valorizar o que há em comum entre essas correntes e reconhecer o que elas têm a ensinar e aprender mutuamente.

O que nós, protestantes, por exemplo, temos a aprender com o catolicismo? Para responder a essa pergunta, contextualizo: todos concordamos, para citar o caso mais gritante, que neopentecostalismo e teologia da prosperidade são invencionices que nada têm de cristãs, protestantes (sobra algum dos solas nelas?) ou bíblicas – quase como a minha seita da infância –, ao mesmo tempo em que se proliferam assustadoramente nas igrejas evangélicas. Neste sentido, precisamos urgentemente de uma grande nova reforma. Isso invalida o movimento do século XVI? Com certeza, não. Naquela época já se dizia: "Ecclesia reformata et semper reformanda est" – o que implica numa postura, típica da Reforma, de constante autocrítica. Mas, além dessa implicação, há também a de uma incessante busca por unidade (a verdadeira, em que se une combatendo os erros; não a ingênua), por universalidade, por tradição. Enfim: o que é isso, senão catolicidade?

Não quero falar sobre o que está além da minha alçada. Mal acabo de chegar à maioridade. Repito o que escreveu Guilherme de Carvalho no último aniversário da Reforma: "Concordo que precisamos desesperadamente de ‘reforma’. Mas o que significaria reforma hoje, considerando a situação real da igreja evangélica? Creio que a única reforma possível para nós hoje é a redescoberta da catolicidade da Igreja. A igreja evangélica não sofre por falta de protestantismo, mas de catolicismo. É por isso que ela se fragmenta em um punhado de seitas pseudoevangélicas. E, antes que alguém se assuste, essa catolicidade não está no romanismo. Está no evangelho, sem dúvida. Mas, enquanto a igreja romana perde o evangelho por falta de reforma, a igreja evangélica perde o evangelho por falta de catolicidade e de seus veículos: credo, comunhão, tradição, unidade natureza-graça, história, heróis, e a visão de um Deus Trino que seja maior do que os nossos sentimentos e projetos religiosos".

Não usei uma experiência pessoal como ponto de partida deste texto por achar que o mundo deva se adequar ao meu umbigo (esse é precisamente o significado de "idiotia") – mas, pelo contrário, porque sou só mais um humano, que revive os dramas por que passaram bilhões de antepassados meus. Como é convencionado pela sociedade de que faço parte, a partir de hoje posso dizer que sou "maior de idade". Mas isso é uma mera formalidade, não garante maturidade, muito menos vida abundante. Fomos expulsos do Éden, vocês se lembram? E, para voltar a ter acesso à árvore da vida, é preciso ter fé na graça de Deus, revelada em Cristo e explanada nas Escrituras, que nos conclama a viver para Sua glória. O protestantismo não é "só meu", ao contrário da seita que criei na infância. Os mesmos cristãos que proclamam "Sola Scriptura! Solus Christus! Sola Fide! Sola Gratia! Soli Deo Gloria!" devem confessar: "cremos na Santa Igreja Universal". Assim vamos sendo reformados. Feliz 31 de outubro!

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André Gomes Quirino, 18 anos, membro da Igreja Evangélica Assembleia de Deus- Ministério Ipiranga e é estudante.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Por que precisamos de obras mais densas?

Por Gutierres Fernandes Siqueira


Recentemente escrevi [leia aqui] sobre a necessidade dos pentecostais brasileiros produzirem obras mais densas de teologia. Algo que alguns carismáticos americanos e canadenses já fazem. Sim, uma teologia acadêmica propriamente dita. Fui, como é natural, mal interpretado. Alguns entenderam como se eu tivesse defendendo um bacharelismo na linguagem ou uma precisão da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas)  para tudo e para todos. Não, não é isso que eu quis dizer. E nem eu estava defendendo uma escrita hermética acessível somente para alguns poucos iluminados etc. e tal.

Bacharelismo hermético
Livro apostilado
Obras de referência
Usa uma linguagem incompreensível de maneira proposital.
Usa linguagem simples ou simplória.
Usa uma linguagem mais acessível e procura definir termos não usuais.
Escreve qualquer obra como se fosse uma tese de doutoramento.
Escreve o básico do básico e de maneira rápida. Não procura aprofundamento. Normalmente são livros curtos.
Escreve com o propósito de ser compreendido, mas sem superficialidade e sem a necessidade de repetir o “arroz com feijão” que todo mundo já falou.
Escreve para poucos.
Escreve para muitos.
Escreve para muitos, mas nunca será como um best-seller de autoajuda.
Escreve muito para falar pouco.
Escreve pouco e fala pouco.
Escreve muito para falar muito.
Não contextualiza o público do assunto tratado e julga todos como especialistas na matéria citada.
Contextualiza, mas a didática é quase paternalista.


Procura contextualizar, mas também sem tratar o leitor como um bebê meio bobo e sem qualquer referência.

Sim, os pentecostais precisam de obras mais densas. Um livro introdutório não é suficiente. Na minha pequena biblioteca há inúmeros livros de introdução à pneumatologia pentecostal. Ora, será que não precisamos sair da introdução? Isso acontece porque as editoras evangélicas, no geral, se preocupam bastante como “introduções disso e daquilo” e esquecem de aprofundar o debate. E temos inúmeros homens capazes de produzir obras referencias excelentes. Por que não sair do básico?

Não é um mal somente entre os teólogos pentecostais. É até um problema generalizado em outros assuntos como apologética, teologia do Antigo Testamento, teologia do Novo Testamento etc. Veja, por exemplo, quantos livros de introdução à apologética temos no mercado editorial evangélico? Só recentemente algumas editoras evangélicas, como as Edições Vida Nova, começaram de maneira muito acertada a publicar uma apologética que foge de mera introdução com autores como Alvin Plantinga e William Lane Craig. É até curioso que o clássico apologético Cristianismo Puro e Simples de C. S. Lewis tenha sido publicado no Brasil pelo católica Editora Loyola e depois pela secular Editora Martins Fontes. Outra coisa: a pequena oferta de livros de referência sobre o Antigo Testamento é uma vergonha para todos nós. 

Mas voltando ao ponto: por que precisamos de obras mais densas? Ora, há vários assuntos que não podem ser trabalhados em livros apostilados, em fast-food literário ou em rápidas palestras. Quando escrevo isso lembro da forma como o tema “tolerância” foi abordado por dois autores evangélicos distintos. O John MacArthur certa vez disse em uma palestra que “a heresia vem montada nos lombos da tolerância”. A frase solta simplesmente demoniza a “tolerância” e inibe qualquer simpatia pelo termo. Assim, a análise caiu num superficialismo bem típico do fundamentalismo macarthuriano. Enquanto isso, o teólogo conservador D. A. Carson escreveu dois livros onde trata de modo extensivo sobre o assunto. Na obra The Intolerance of Tolerance [2 ed. Grand Rapids: Eerdmans Publishing Company, 2012] Carson argumenta sobre duas formas distintas de “tolerância” e analisa esse aspecto pela história, a filosofia e a própria teologia. Ora, esse é apenas um exemplo de como uma obra densa (não necessariamente grande) pode ajudar a compreender um tema de maneira mais ampla. Outro livraço sobre o mesmo assunto escrito por Carson é O Deus Amordaçado [1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 2013]. Portanto, essa é a diferença entre um autor ou palestrante profundo de outro superficial.

Bom, espero ter sido claro.

sábado, 26 de outubro de 2013

Damares, por favor, pare de cantar heresias!

Os fariseus iriam "curtir" bastante essa canção Alto Preço!
Por Gutierres Fernandes Siqueira


Dificilmente a cantora Damares lerá este texto, mas ainda assim eu faço um apelo: - Damares, por favor, pare de cantar heresias! 

Para quem não a conhece, essa cantora paranaense faz um tremendo sucesso nas igrejas pentecostais e é famosa pela vingativa, antibíblica e mal escrita canção “Sabor de Mel”. Ou seria de fel? Damares faz parte de uma classificação que reúne o pior da música evangélica brasileira- a chamada “música gospel pentecostal”. Esse gênero é sinônimo de letras mal escritas, triunfalismo, cantoria de vingança, corinhos de “fogo” e ausência completa de referências à cruz de Cristo. Nasceu em meados da década de 1970 e abraçou com entusiasmo uma versão light da Teologia da Prosperidade. E é em si cheia de ressentimentos e autoconfiança.  

Mas por que este apelo? Recentemente essa cantora gravou uma música com o título “Alto Preço”[1]. E essa canção é uma das maiores aberrações doutrinárias já produzida nas últimas décadas. A teologia desse “hino” ensina uma salvação baseada em obras e na meritocracia humana. A composição não é dela, mas a interpretação e divulgação é. 

Veja a trágica letra:

Eu tô pagando, eu tô pagando
O preço pra morar no céu eu to pagando
Eu vou lutando, eu vou chorando
Cada detalhe o Senhor está somando
Eu tô pagando, eu tô pagando
O preço pra morar no céu eu tô pagando
Eu vou lutando, eu vou chorando
A santidade tem um preço, eu tô pagando
Tô pagando, tô pagando
Um alto preço
Um alto preço

Sim, nesse “hino” Deus soma os nossos méritos e nós “pagamos o preço para morar no céu”. Acho que o apóstolo Paulo teria um infarto caso ouvisse uma música como essa cantada em uma igreja cristã. A música despreza uma das verdades cristãs mais óbvias para um leitor atento da Bíblia: é Jesus quem paga o alto preço. Somente Ele! Se confiarmos em nós mesmos como pagantes desse preço o nosso destino é apenas da danação eterna. Essa música é a expressão de uma das maiores heresias que um cristão pode expressar. É o desprezo da cruz de Cristo. “Vocês foram comprados por alto preço; não se tornem escravos de homens”. [1 Coríntios 7.23].


Nota:

[1] Mas, por favor, não confunda com a ótima canção do Asaph Borba que possui o mesmo título.

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PS: Alguns reclamaram que a análise ficou a cabo somente do refrão, mas a música completa em nada muda essa abordagem crítica. Pelo contrário, somente reforça. No primeiro refrão é dito que o sangue de Jesus justifica e que Ele pagou o preço. Porém, logo em seguida, vem a ideia de "complementar a obra de Cristo". Assim, Jesus pagou o preço, mas eu também preciso pagá-lo. Ou seja, a obra do Senhor é insuficiente. A composição de Anderson Freire é puro pelagianismo.

sábado, 19 de outubro de 2013

O fogo estranho de John MacArthur

A macarthurlândia é estranha: nesse mundo próprio
o cristianismo é apenas como a Grace Community Church
A conferência Strange Fire (“Fogo Estranho”, em tradução livre) aconteceu nessa última semana e foi promovida pelo pastor batista John Fullerton MacArthur Jr. em sua igreja Grace Community Church na Califórnia, EUA. Foi um evento de cessacionistas para cessacionistas, ou seja, uma verdadeira militância contra o continuísmo como doutrina. A Strange Fire defendeu apaixonadamente que Deus edificava a sua Igreja com dons apenas no primeiro século da Era Cristã. O evento em si é tão bizarro que me uni ao meu amigo Victor Leonardo Barbosa, editor do Blog Geração que Lamba, para uma análise do evento. Veja o texto abaixo. 

Por que John MacArthur é tão intolerante com a doutrina pentecostal/carismática e menos combativo em outras questões secundárias?

Por Victor Leonardo Barbosa

A conferência Strange Fire é uma amostra do cessacionismo clássico apimentado de militância. É notável o talento de MacArthur para exposição bíblica; e em muitas áreas têm edificado a igreja. Todavia, em sua crítica à teologia pentecostal/carismática, MacArthur é tudo, menos um expositor. É evidente que sua exegese em textos bíblicos é submissa a um sistema teológico repleto de inferências descabidas e extrabíblicas.

Ao que tudo indica, MacArthur demonstra séria ignorância sobre a Teologia Pentecostal. Ele aparenta desconhecer as obras de Stanley Horton, Myer Perlman, Rick Nañez, Roger Stronstad  e tantos outros[1]. A bem da verdade, pode-se dizer que tal conferência é uma afronta a genuínos irmãos na fé, não somente da ala pentecostal, mas da própria ala continuacionista da teologia reformada como John Piper e Wayne Grudem. 

Pode-se perguntar novamente, o que eles quis dizer acerca de ser um "pentecostal fiel"? Talvez uma frase dita por ele em tal convite revele sua intenção: " Vocês precisam decidir em que lado estão". Tal frase não é ambígua. Para MacArthur, a única solução para os pentecostais é serem cessacionistas, revelando assim uma típica atitude demonstrada em muitos círculos teológicos: os pentecostais nada mais são do que mendigos espirituais e que precisam ser nutridos com uma boa teologia ortodoxa (e é claro, cessacionista), afinal, nunca terão nada a ensinar,  ou mesmo a contribuir. É a típica prepotência espiritual. 

Ele quer acabar com as línguas. Por que não acabar com o batismo infantil igualmente? Ou combate o amilenismo mais diretamente (sendo ele mesmo um dispensacionalista). Por que tal atitude beligerante para com o pentecostalismo enquanto que outras doutrinas são colocadas por ele como "secundárias" para a boa comunhão cristã? John MacArthur em termos de pentecostalismo não sabe discernir a mão direita da esquerda e acaba caindo na crítica comum e superficial de equiparar o pentecostalismo midiático com o clássico. Tal atitude é no mínimo desonesta e destituída de uma ética cristã.

No contexto brasileiro, pode-se afirmar com certeza que conferências tradicionais como Fiel e outras, só são possíveis porque o pentecostalismo abriu caminho para elas há muito atrás. Mesmo os muitos inconformados com o excesso do neopentecostalismo  adentrando nas congregações pentecostais clássicas- e se converteram em um contexto pentecostal. Afinal, com me disse um pastor pentecostal com teologia reformada: "Quando evangelizo, não encontro presbiterianos ou batistas, mas sim Testemunhas de Jeová, Adventistas e Mórmons concorrendo", posso acrescentar: nesse combate, os pentecostais têm pouquíssimo apoio de outros, lutam sozinhos, mas ainda assim, vencem pela graça de Deus.

O perigoso isolacionismo teológico. Porque MacArthur precisa aprender a enxergar a realidade e sair do seu próprio mundo.

Por Gutierres Fernandes Siqueira

O isolacionismo teológico é um perigo. E essa é a essência da conferência Strange Fire. Não há nenhum problema em defender posições doutrinárias próprias, mas ao fechar o debate em si mesmo e ao falar somente aos pares, os conferencistas antipentecostais perdem o senso de realidade. É um mundo próprio, a macarthurlândia. Assim, a caracterização e adjetivação do adversário é natural. Não é à toa que o pentecostalismo seja jogado na mesma lata que o neopentecostalismo. Falam na frente do espelho[2].

John MacArthur Jr., para quem o falar em línguas é um delírio psiquiátrico (na melhor hipótese), um linguajar aprendido ou uma manifestação demoníaca- em uma hipótese não descartável- chegou a convidar os "pentecostais fiéis" para a conferência.  Em um raro gesto de “tolerância” MacArthur ainda respirava arrogância. No convite deixava claro que os pentecostais "fiéis" são uma minoria calada e não muito preocupada em criticar os desvios internos.  Era um elogio crítico ou uma crítica elogiosa? Bom, eu mesmo nada entendi. Pena que alguns pentecostais caíram nesse conto. 

A conferência em si é o velho e recalcado cessacionismo, como dito pelo Victor Leonardo acima. O grande problema do cessacionismo é a desonestidade intelectual. Não conheci até hoje um cessacionista que conheça a teologia pentecostal no básico. Assim, o cessacionista diz que o pentecostalismo defende posição X e depois rebate com a posição Y. Só que a suposta posição X não é nem de longe um consenso ou uniformidade. Ou ainda toma opiniões de leigos como representação do pentecostalismo. 

Se você quer pesquisar sobre o calvinismo recorrerá às Institutas da Religião Cristã ou tomará como representação a opinião do primeiro sujeito bizarro que se autoproclama calvinista? Se você quer saber mais sobre a teologia católica logo busca o Catecismo da Igreja Católica Apostólica Romana ou pega uma entrevista desses padres cantores? Por que ouvir o Benny Hinn como representante do pentecostalismo quando poderia ler Stanley Horton [3]? Na obra O Caos Carismático aconteceu algo incrível e inacreditável. Assim como nessa conferência estranha. Não há uma única menção ao livro The Charismatic Theology of St. Luke. Por que escrevo isso? Ora, a obra de Roger Stronstad é a principal defesa hermenêutica da doutrina pentecostal produzida nos últimos 30 anos. O livro foi amplamente debatido nos círculos acadêmicos evangélicos. Como não dialogar com essa obra para fazer uma crítica séria e respaldada à doutrina pentecostal? Ora, você respeitaria alguma obra que se propusesse a criticar o Teísmo Aberto sem rebater argumentos do livro The Openness of God: A Biblical Challenge to the Traditional Understanding of God editado pelos maiores expoentes dessa corrente como Clark H. Pinnock e John Sanders? Ou ainda, como aceitar com bom um livro contra o calvinismo que esqueça de citar alguma passagem das Institutas?

MacArthur Jr. é uma espécie de Richard Dawkins gospel, ou seja, um crítico combativo, fervoroso, famoso, polêmico, militante, mas totalmente ignorante sobre a doutrina do adversário intelectual. Sim, é um fundamentalista no sentido mais pejorativo possível. Não só como o pentecostalismo, vale dizer. MacArthur poderia aprender com Driscoll, que entrevistado pelo revista Christian Post na porta da conferência disse: “Quando você está falando sobre o Movimento Pentecostal e Carismático- eu não sei as estatísticas-  mas você está falando sobre a maior parte do cristianismo do mundo. Então , eu acho que não há generalizações fáceis, porque você está lidando com pelo menos dezenas de milhões de pessoas e, por isso, se torna muito difícil falar em termos generalizantes sobre um movimento que é tão grande”.

Notas e Referências:

[1]  Cita superficialmente Donald Gee em sua obra O Caos Carismático.

[2] O próprio fato de Mark Driscoll ser impedido de distribuir alguns livros gratuitamente na conferência mostra como esse isolamento é um tanto doentio. Driscoll, com sua ironia típica, disse que queria ser útil no debate sobre o papel do Espírto Santo, mas foi impedido por seguranças da Grace Community Church. Depois de escrever esse parágrafo li uma declaração de Driscoll que bateu bem com essa tese. Driscoll disse à revista Christian Post: “Há um capítulo (no novo livro) sobre o tribalismo dentro do evangelicalismo e em como os cristãos tendem a formar tribos para depois ter argumentos ou debates com outras tribos - muitas vezes falando sobre eles, mas não com eles” [leia a reportagem completa aqui].

[3] Em seu livro MacArthur chega a afirmar que os pentecostais falam em batismo em Cristo para todos os crentes e batismo no Espírito para alguns [MacARTHUR Jr., John F. Os Carismáticos. 5 ed. São José dos Campos: Editora Fiel, 2002. p. 81]. Ora, isso é totalmente falso. Uma mentira grosseira. O pentecostalismo como corpo doutrinário defende que todos os cristãos são batizados pelo Espírito Santo. Antonio Gilberto escreveu: “Este batismo ‘do’ ou ‘pelo’ Espírito é algo tão real, apesar de ser espiritual, que a Bíblia o denomina como ‘batismo’. Em todo batismo, como já afirmamos, há três pontos inerentes: um batizador; um batizando; eum meio em que o candidato é imerso. [...] No batismo pelo Espírito Santo, o batizador é o Espírito de Deus (1 Co 12.13); o batizando é o novo convertido; e o elemento em que o recém-convertido é imerso, a Igreja, como corpo místico de Cristo (1 Co 12.27; Ef 1.22,23). Portanto, o Espírito Santo realizada esse batismo espiritual no momento da nossa conversão, inserindo o crente na Igreja (Mt 16.18). Logo, todos os salvos são batizados ‘pelo’ Espírito Santo para pertencerem ao corpo de Cristo- a Igreja, mas nem todos são batizados ‘com’ ou ‘no’ Espírito” [GILBERTO, Antonio. Verdades Pentecostais.  1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p 116-117]. Logo porque, o batismo “no” Espírito Santo é revestimento de poder para a obra evangelizadora.

domingo, 13 de outubro de 2013

Por que tanta resistência ao ensino teológico?

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Continuado o assunto do último post. [Leia aqui].

O anti-intelectualismo ainda persiste no pentecostalismo brasileiro. Diminuiu bastante, mas a frente contra o estudo aprofundado é resistente. Vejamos alguns exemplos:

1. Ausência de obras acadêmicas escritas por pentecostais. Infelizmente, é possível contar nos dedos as obras de referência escritas por brasileiros carismáticos. Falta capacidade? Não, alguns pastores assembleianos são eruditos de primeira linha. Agora- não sei bem o porquê- muitos desses eruditos só escrevem obras de “vida cristã” ou alguns livros apostilados.  

Em 2008, a Casa Publicadora das Assembleias de Deus (CPAD) publicou o livro Teologia Sistemática Pentecostal escrita por autores brasileiros, mas logo se percebe que a obra não tem uma unidade (em tamanho dos textos, no padrão das citações e nas notas bibliográficas etc.). É uma copilação de artigos. Não estou dizendo que a obra seja ruim (pelo contrário, eu recomendo), mas poderia ser bem melhor. Não entenda essa observação como uma crítica aos autores (alguns são meus colegas), mas essas falham mostram uma falta de tradição nessa área.

Exemplo de erudição pentecostal.
A CPAD tem ótimas obras acadêmicas, mas em sua maioria são traduções. Os pentecostais norte-americanos e canadenses não têm esse problema com obras de referência. Eu sempre dou como exemplo o livraço Comentário Bíblico Pentecostal (1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2003) editado pelos teólogos French L. Arrington e Roger Stronstad. Outro exemplo interessante de erudição pentecostal é o livro Teologia do Espírito de Deus no Antigo Testamento (1 ed. São Paulo: Loyola, 2008) escrita pelo doutor Wilf Hildebrandt. Stronstad ainda escreveu na década de 1980 aquela que continua a ser a obra de referência da hermenêutica lucana para uma leitura pentecostal. É o livro Charismatic Theology of St. Luke, The: Trajectories from the Old Testament to Luke-Acts [1]. Essa obra foi amplamente debatida no contexto hermenêutico anglo-saxão, especialmente em debates com Gordon D. Fee, erudito em Novo Testamento e pastor das Assembleias de Deus [2].

2. O serviço intelectual é desprezado. Em uma igreja pentecostal você só trabalha para o Reino de Deus se for um missionário transcultural ou um evangelista de praças. O serviço do ensino é simplesmente desprezado. Você pode se esforçar ao máximo, mas a igreja- no geral- não levará isso em conta. Ora, como é possível ignorar que a Grande Comissão envolve a missão evangelizadora, mas também (e igualmente) o discipulado? Outro detalhe importante: os pentecostais esquecem que o ensino bíblico é um dom “espiritual”. “Temos diferentes dons, de acordo com a graça que nos foi dada. Se alguém tem o dom de profetizar, use-o na proporção da sua fé. Se o seu dom é servir, sirva; se é ensinar, ensine”, diz Paulo em Romanos 12.6-7. Veja que o dom de ensinar é colocado ao lado do dom de profetizar. 

3. Intelectual como sinônimo de soberbo. Hoje eu falava na igreja sobre a vaidade e dei como exemplo aqueles crentes que se exaltam na ignorância, ou seja, aqueles que se acham “mais espirituais” porque não estudaram. Falei até em tom de brincadeira, pois toda vez que vejo a ilustração de um sermão sobre a figura do soberbo, o pregador costuma usar o exemplo do “intelectual vaidoso”. Ou seja, sempre quem é dedicado ao estudo é estereotipado como orgulhoso. Ora, a vaidade é parte da natureza humana. Há quem se orgulhe do seu conhecimento? Sim, há. Mas há também que se orgulhe de sua “humildade”! Vide o ex-presidente Lula que sempre exaltava a si mesmo e a sua falta de estudo. Ao mesmo tempo ele falava sobre sua suposta competência. Era a vaidade da ignorância. 

Portanto, é necessária trabalhar contra essa mentalidade anti-intelectual que permeia a igreja evangélica (e pentecostal, especialmente), assim como a cultura brasileira. Cultura essa que nunca deu muito valor para a educação. 

Nota:

[1] É uma pena que uma obra tão importante para o pentecostalismo não tenha tradução em português. 

[2] Ainda que Fee esteja distante da pneumatologia pentecostal, especialmente na relação do Batismo no (ou com) o Espírito Santo como uma segunda experiência para o serviço cristão.

domingo, 6 de outubro de 2013

Reteté pós-graduado ou Schleiermacher carismático?

Por Gutierres Fernandes Siqueira


Há algum tempo tenho observado dois tipos de seminaristas assembleianos. E cada um traz para mim uma grande preocupação. O elo entre eles é, normalmente, o analfabetismo bíblico e até, em muitos casos, o analfabetismo funcional. Alguns saem como o reteté pós-graduado e outros como o novo Paul Tillich carismático.
Quem diria? O pai da Teologia Liberal é
querido de alguns seminaristas pentecostais!
No primeiro grupo há aqueles que buscam na academia apenas um título para enfeitar o currículo como pregador itinerante- essa estranheza institucional da igreja carismática contemporânea. É teólogo no papel, mas continua um menino no púlpito. No
sermão há alguma exegese, mas para puro exibicionismo. O hebraico e o grego são até citados, mas o português continua maltratado. A interpretação bíblica séria é simplesmente inexistente. E o que sobra é a velha gritaria de sempre com mensagens de autoajuda, exortações legalistas, fundamentalismo como parâmetro teológico e triunfalismos desconectados com a realidade. Assim, são teólogos com muitas aspas.

No segundo grupo a erudição é sinônimo de liberalismo teológico. Ludibriados pela suposta inteligência dos professores, alguns pentecostais abraçam com afinco a hermenêutica desconstrutivista, a ética relativista, a engenharia social e o secularismo do iluminismo francês como parâmetro de relação entre a Igreja e o Estado. Ao término do seminário esses bipolares pentecostais liberais ou mudam para igrejas “progressistas” ou mergulham na pior espécie de ressentimento para com o cristianismo. Sim, esses viram fundamentalistas da causa moderna.

Insisto que esse é o preço que o pentecostalismo brasileiro paga pelo longo e persistente anti-intelectualismo. Enquanto isso, os seminaristas comprometidos com a boa teologia continuam esquecidos do púlpito assembleiano. Isso significa apenas que o buraco ainda é mais embaixo. Como dizia Kafka: “Esperança? Esperanças há muitas, mas não para nós”!

sábado, 5 de outubro de 2013

O Valor dos Bons Conselhos

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Algumas questões para a lição desse domingo nas Escolas Dominicais que utilizam as Lições Bíblicas da CPAD.

Teologia da Provérbios

"A teologia de Provérbios consiste em cinco aspectos: (1) Deus imutavelmente tem estruturado tanto o cosmo como a sociedade; (2) Deus nos revelou a estrutura social através deste livro; (3) a estrutura social consiste em uma união (ou nexo) entre obras e o destino; (4) adesão à estrutura ordenada do Senhor é uma questão do coração e (5) as palavras são poderosamente eficazes na formação de jovens corações." [Baker's Evangelical Dictionary of Biblical Theology]

Pecado 

O pecado em Provérbios não é tratado apenas como um problema moral, ou seja, a ideia que você peca porque é mau. O pecado é tratado como “falta de sabedoria”, ou seja, você peca porque é tolo, estúpido e ignorante. “O temor do Senhor é o princípio da ciência”, diz o sábio Salomão. Seja sábio para não pecar. Seja santo para ser sábio. 

Sabedoria ou Inteligência?

Qual a diferença entre sabedoria e inteligência? Ora, sabedoria é o “saber viver”. Inteligência é apenas acúmulo de informações e dados. Assim, podemos falar em “máquina inteligente”, mas jamais falaremos em “máquina sábia”. Ou seja, é possível ser muito inteligente, mas igualmente tolo.