segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Leituras para 2014

Caros amigos e leitores do Blog Teologia Pentecostal, a paz!

O ano está acabando e quero agradecer a parceira de vocês como leitores deste blog e do perfil no Facebook. Sem leitores um blog não subsiste e devo isso a todos. Felizmente, conheci pessoalmente mais alguns leitores no decorrer do ano, seja em um evento ou mesmo em um encontro marcado. Desejo a vocês um abençoado 2014.

Assim como no ano passado faço uma lista para recomendar livros que comprei (e gostei) neste ano como leituras para o ano que chega.

Observação 01: Isso é óbvio, mas não custa repetir: quando recomendo um livro tal fato não indica que eu concorde inteiramente com a obra ou o autor. Logo porque isso é impossível. Mas certamente concordo o bastante para recomendá-lo.

Observação 02: A linha teológica do autor não é necessariamente a minha linha teológica e, entre as recomendações, há diversas linhas diferentes e até “rivais”.

Recomendações teológicas:

Bíblia de Estudo Arquelógica (Editora Vida). Nessa Bíblia há inúmeros artigos não só arqueológicos e geográficos, mas também de crítica textual, exegese e notas sobre usos e costumes da antiguidade. É um trabalho feito pelos ótimos professores do famoso seminário Gordon-Conwell Theological Seminary.

Bíblia de Estudo Defesa da Fé (CPAD). Imagine em um único livro encontrar artigos de William Lane Craig, Eugene H. Merrill, Lee Strobel, Ravi Zacharias, Paul Copan etc. É uma Bíblia com estudos dos principais expoentes da apologética tradicional e evangelical. Certamente não traz grandes novidades em temática, mas é um material muito rico.

Bíblia com Anotações A. W. Tozer (CPAD). Grande teólogo da espiritualidade, quando o termo não estava na moda, o pastor A. W. Tozer (1897- 1963) ganhou uma homenagem em forma de Bíblia com anotações. É um lançamento recente da CPAD. Entre as frases marcantes de Tozer destaco essa: “A igreja deixará o seu tédio quando descobrir que a salvação não é apenas uma lâmpada, que não é apenas uma apólice de seguro contra o inferno, mas que é uma porta de entrada para Deus e que Deus é tudo o que podemos ter e desejar".

Introdução ao Espírito da Liturgia (Edições Loyola). Esse livro de Joseph Ratzinger é fantástico. É uma Teologia da Adoração. Ratzinger tem a graça de escrever sobre assuntos exaustivos sem cair na mesmice. O ponto central é: o culto ao Criador não pode ser dissociado do culto ao Redentor.

Creio (Edições Vida Nova). Até hoje participei de um único culto evangélico onde o Credo era recitado. O evangélico confunde esse costume (que é ótimo por sinal) como propriedade exclusiva do catolicismo romano. Bom, nesse contexto de desconhecimento do Credo o estudo do erudito Alister McGrath é bem vindo. Assim como fez Karl Barth, o teólogo irlandês explica cada ponto do Credo Apostólico. “Alguns componentes do Credo talvez pareçam um pouco estranhos ou desconhecidos para os novatos na fé. Não se assuste, isso é apenas para lembrá-lo de que há mais no cristianismo do que você imagina nesse estágio”, escreve McGrath na página 17.

A Vida de C. S. Lewis: Do Ateísmo às Terras de Nárnia (Editora Mundo Cristão). Essa biografia foi escrita pelo Alister McGrath. E traz algumas novidades, inclusive sobre o enfado que Lewis sentia no final de sua vida com o papel de apologista. Ele, em si, não via como grande coisa o trabalho desenvolvido no pós-guerra. Além disso, McGrath rebate aqueles que leram apressadamente o livro Anatomia de uma Dor para concluir que Lewis havia saído da fé cristã para um agnosticismo light. Realmente, só quem leu aquele livro mal (ou esqueceu o último capítulo) para concluir tamanha bobagem.

O Deus Amordaçado (Edições Vida Nova). Certamente o melhor lançamento do ano na temática apologética. O erudito evangélico D. A. Carson escreve esse livraço sobre diversas questões contemporâneas, especialmente sobre a discussão do secularismo, Estado laico, pluralismo, tolerância, Estado versus Igreja, etc. Como bom pensador que é, o Carson não cai nem para a teonomia (os teocráticos do século 21) nem para o abraço de escorpião dos cristãos secularistas.

A Intolerância da Tolerância (Editora Cultura Cristã). Os leitores sabem que já recomendei esse livro diversas vezes, mas neste ano finalmente a obra saiu em português. Na verdade, pode-se dizer, que esse livro do D. A. Carson é uma versão resumida do O Deus Amordaçado.

A Manifestação do Espírito (Edições Vida Nova). É uma obra continuísta escrita por ninguém menos que D. A. Carson. É um comentário exegético-devocional de 1 Coríntios 12 a 14. E ninguém que estude a sério esse texto, sem preconceitos denominacionais, vai abraçar o cessacionismo ou movimentos ultracarismáticos (exemplo: reteté, bênção de Toronto e outras tragédias).

Vincent: Estudo no Vocabulário Grego do Novo Testamento. Volume 2 (CPAD). Indispensável para qualquer pregador ou professor de Bíblia. Ótima ferramenta para auxílio exegético. Marvin R. Vincent (1834-1922) escreveu inúmeras obras de exegese que, graças a Deus, começam a aparecer por aqui pela editora assembleiana.

Comentário Lucas. À Luz do Novo Testamento Grego (CPAD). O clássico de A. T. Robertson, um dos maiores especialistas em língua grega no começo do século passado. A obra, apesar de antiga, foi atualizada conforme os novos estudos de língua grega.

O Teste da Fé (Ultimato). Nesse livro editado pela cientista de confissão cristã (e carismática) Ruth Bancewicz há artigos de cientistas e teólogos como Francis Collins e Alister McGrath. A questão é: a ciência e a religião não são incompatíveis.

A Ressurreição do Filho de Deus (Academia Cristã e Editora Paulus). A obra do teólogo anglicano N. T. Wright é um livro novo que já ganhou o adjetivo de “clássico”. É certamente a obra teológica conservadora e erudita mais importante lançada em 2013.

História do Movimento Missionário (Editora Hagnos). Justo González é um historiador de mão cheia. E essa é mais uma obra para aprender novidades sobre a história das missões cristãs.

Investigação Sobre a Mente Humana Segundo os Princípios do Senso Comum (Edições Vida Nova). O clássico do iluminismo escocês de Thomas Reid é uma leitura difícil, mas é um alento chegar por uma editora evangélica obra desse aspecto em um país cuja academia é dominada pelo iluminismo francês.

Contra o Calvinismo (Editora Reflexão). O título traz a polêmica em si, mas o tom do livro é moderado. A prova da moderação está no prefácio de Michael Horton, um dos principais nomes calvinistas dos Estados Unidos. Roger Olson critica o chamado “novo calvinismo” e a forte ênfase desse grupo na TULIP. É uma peça de defesa do armianismo clássico.

Teologia Arminiana (Editora Reflexão). Roger Olson trabalha com as caricaturas que muitos calvinistas fazem do arminianismo e as rebate. Obra importante para calvinistas e arminianos mal informados.

Cartas de um Outro Diabo a Seu Aprendiz (Editora Ecclesiae). O estilo inventado por C. S. Lewis é repetido pelo teólogo Peter Kreeft. E, no final das contas, saiu uma excelente obra apologética.

Continuidade e Descontinuidade (Editora Hagnos). Um livraço para ajudar a entender melhor o Antigo Testamento e sua relação com o Novo Testamento. É editado por John S. Feinberg.

Brecha em nossa Santidade (Editora Fiel). O novo livro de Kevin DeYoung é bom pelo talento do autor. DeYoung sabe expor verdades bíblicas segundo as perguntas contemporâneos. Ele sabe que está falando de santidade para uma platéia do século XXI, para o bem e para o mal.

O Antigo Testamento (Editora Hagnos). Organizado por Josef Schreiner essa obra é rica na interpretação das mensagens centrais dos livros veterotestamentários. O ponto fraco, para um conservador como eu, é a dependência da Alta Crítica. Mas é uma obra necessária.

Léxico Grego-Português do Novo Testamento (SBB). Certamente um dos melhores léxicos do mercado.

Guia Cristão de Leitura da Bíblia (CPAD). É básico, mas é bom. Boa introdução para Pequenos Grupos, Escola Dominical e outros estudos coletivos.

Outras recomendações de conhecimento geral:

Beleza (É Realizações). Até mesmo os defensores de uma verdade absoluta costumam afirmar que a beleza é relativa. Não existe um padrão geral para o belo. Mas será? O filósofo Roger Scruton discorda. Scruton defende que a beleza é também um valor real e universal.

A Política da Prudência (É Realizações). Um clássico de Russell Kirk expõe o melhor da tradição conservadora anglo-saxã.

Bom ano e boas leituras.

domingo, 29 de dezembro de 2013

O vento que sopra e a vontade de Deus

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Sermão pregado na Igreja Evangélica Assembleia de Deus no Jardim das Pedras, São Paulo (SP).

“O vento assopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito”. [João 3.8]

Introdução
A vida é previsível? Existe destino? Posso “construir” a minha própria história, ou seja, sou eu “dono” do meu futuro? Ou será que o propósito do homem não é jogar o próprio futuro sob a guardar do vento de Deus?

1. Deus é Soberano. “O vento assopra onde quer”
O “vento” (gr. pneuma) é uma analogia do Espírito Santo. No hebraico e grego a mesma palavra era usada para designar essas expressões. O que não acontece no português. A palavra vento é a mais adequada para a presente tradução levando em conta o contexto (“assopra”) e a linguagem de metáfora [1]. Essa verdade quer dizer muitas coisas:
a) O vento é incontrolável, mas ao mesmo tempo é capaz de transtornar e transformar. Não é possível controlá-lo. Quem pode segurá-lo com a mão? Sendo Deus soberano, logo não o sou. Não é possível a soberania de dois seres. Somente um é superior por sua autoridade. Mas tenho eu agido como súdito ou soberano da “minha própria vida”? Como posso falar em controle próprio diante do vento?
b) O vento não é previsível [2]. Deus usa quem nós jamais usaríamos, seja porque nos consideramos mais sábios ou mais santos que o sujeito usado. O homem sempre tem uma imagem mais elevada de si do que realmente corresponde aos fatos. O vento não é previsível. Não é tradicionalista. É arrebatador, muitas vezes violento. O vento é - por que não dizer?- terrível. “Pois Iahweh Altíssimo é terrível, é o grande rei sobre a terra inteira” (Sl 47. 2 [3] Bíblia de Jerusalém). “Assim como você não conhece o caminho do vento, nem como o corpo é formado no ventre de uma mulher, também não pode compreender as obras de Deus, o Criador de todas as coisas” [Eclesiastes 11.5]. E o profeta nos diz: "Pois os meus pensamentos não são os pensamentos de vocês, nem os seus caminhos são os meus caminhos", declara o Senhor”. [Isaías 55.8].
c) O vento não pode ser entendido, mas os seus efeitos podem ser conhecidos. Um deus que pode ser totalmente explicado e compreendido não é do Deus da revelação bíblica. Deus está além da razão humana. O racionalismo quando coloca a razão como uma deusa acabada dissecando Deus como um sapo de laboratório. Deus se revelou o suficiente para a nossa salvação, mas não em Sua totalidade pelas limitações dos seres humanos. Apesar desse mistério, não é possível negar os efeitos da presença de Deus. O teólogo puritano J. C. Ryle escreveu:
Muitas coisas a respeito do vento são misteriosas e inexplicáveis. “Não sabes donde vem, nem para onde vai”, disse o Senhor. Não podemos vê-lo ou segurá-lo em nossas mãos. Quando o vento sopra não somos capazes de apontar o lugar exato onde seu primeiro fôlego foi percebido bem prever a que distância se estenderá. Mas, apesar de tudo isso, não negamos sua presença. O mesmo acontece quanto à obra realizada pelo Espírito no homem, na ocasião do novo nascimento. É uma operação misteriosa, soberana e incompreensível a nós, em muitos aspectos. Mas é tolice tropeçarmos neste assunto por haver nele muitas coisas que não podemos entender. [3]

2. Deus é o Nosso Guia. “e ouves a sua voz”. O cristão guiado pelo Espírito Santo ouve a voz dEle. E isso se dá por intermédio das Sagradas Escrituras e, em uma escala bem inferior, pelas experiências carismáticas dos dons revelacionais, das visões e dos sonhos. Sempre, é claro, qualquer experiência é inferior e submissa em autoridade à Escritura Sagrada, pois enquanto esta é infalível, o dom carismático está sujeito às impurezas e imperfeições dos homens. Ou seja, é possível ser movido genuinamente para uma profecia e misturá-la com pensamentos próprios. Por esse motivo, a Sagrada Escritura não está sujeita ao juízo, enquanto os dons carismáticos estão. E, também, o carisma não é parâmetro doutrinário ou escritural, logo porque o cânon está encerrado.

Conclusão. Deus, em sua soberania, age de uma forma misteriosa, mas reconfortante na vida do cristão nascido de novo. A doutrina do novo nascimento é intimamente relacionada a convicção de uma vida pautada pela vontade de Deus.  Não é possível conhecer essa vontade sem passar pelo milagre da regeneração.

Referências Bibliográficas:

[1] VINCENT, Marvin. Vincent: Estudo no Vocabulário Grego do Novo Testamento. Volume 2. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2013. p 76. E também, como certo consenso nessa preferência de “vento” por “espírito”, veja: CARSON, D. A. O Comentário de João. 1 ed. São Paulo: Shedd Publicações, 2007. p 198. BRUCE, F. F. João: Introdução e Comentário. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 1987. p 83. 
[2] Vamos lembrar o óbvio: a Bíblia foi escrita bem antes da moderna meteorologia. Por isso, naquele contexto, o vento era imprevisível ou não poderia ser entendido. Mas mesmo hoje, em pleno Século XXI, não é possível, por exemplo, precisar um tornado (horário, direção e potência).
[3] RYLE, J. C. Meditações no Evangelho de João. 1 ed. São José dos Campos: Editora Fiel, 2000. p 33,34.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Breve reflexão pós-Natal

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Nós, os cristãos, deveríamos parar com esse "mimimi" que o "sentido do Natal se perdeu pelo consumismo". Ora, queremos que os donos dos shoppings centers, a Coca Cola ou qualquer outra empresa fale de Cristo e o seu propósito redentor? O comerciante é assim: ele quer vender e não construir uma cultura ou celebrar um Rei. Quem resgata o sentido do Natal não é o capital, mas sim a Igreja. Não podemos exigir isso do comerciante, mas sim do cristão. Ora, se a própria Igreja esquece do sentido último do Natal, logo, o que podemos esperar dos demais? Hoje temos igrejas que parecem centros de compra (teologias da prosperidade e suas variantes) e outras que parecem ONGs (teologias da libertação e suas variantes). Ambas esquecem o sentido último do Natal: Cristo, este crucificado para nos salvar. Salvação graciosa e misericordiosa, que não é fruto de moralismo, assistencialismo, conhecimento oculto ou qualquer mérito humano. 

Quantas igrejas ainda fazem culto de Natal? Algumas comunidades, graças a Deus, mantêm essa ótima tradição. Mas conheço congregações que esqueceram desse culto há vários anos. É engraçado ver a exigência do resgate do sentido natalino para com os não-cristãos enquanto os próprios cristãos preferem ficar em casa na noite do dia 25. Vamos acordar? Ou ainda vamos reclamar da secularização sentados no sofá assistindo o Especial do Roberto Carlos? É hora de resgatar o Natal e o seu lindo sentido, mas isso é tarefa exclusiva de uma Igreja que anda omissa. Quem obscurece o Natal não é o Papai Noel, o consumismo, as comidas, o peru, as luminárias, os enfeites da Avenida Paulista, mas sim uma igreja preguiçosa.

Ainda há tempo porque um menino nos nasceu...



quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

A Cruz

Caros,

"A Cruz" é a última mensagem gravada pelo reverendo Billy Graham para a TV mediante o projeto Minha Esperança Estados Unidos. Os testemunhos são emocionantes e a mensagem é simples, mas central- a Cruz de Cristo. Billy Graham está com 95 anos e com uma saúde extremamente frágil, mas ainda deixou para nós esse presente. Feliz Natal a todos.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

O ponto matemático: Jesus Cristo, o messias, em Belém da Judeia!

Por André Gomes Quirino

A sabedoria humana, expressa nas mitologias, e a promessa divina, expressa na Torá dos judeus, convergiram, e convergiram não para uma ideia abstrata, mas, como disse o reformador da Igreja Martinho Lutero, para o "ponto matemático" de Jesus Cristo. Sobre todo bebê projeta-se esperanças mil, mas em nenhum encontra-se tanta quanto naquEle que nasceu em Belém.



André Gomes Quirino é estudante, 18, membro da Igreja Evangélica Assembleia de Deus Ipiranga e colunista do Blog Teologia Pentecostal

domingo, 15 de dezembro de 2013

Jogando bola para a glória de Deus!

Por Gutierres Fernandes Siqueira
Deus é soberano sobre todos os aspectos da nossa vida. Não há uma área em nossa vida que seja apenas secular, ou seja, onde Deus não tenha jurisdição. Seja o ato de comer um hambúrguer, assistir o último lançamento no cinema ou jogar bola no parque do bairro, tudo precisa ser feito para a glória de Deus. Ora, mas como é isso na prática?  É orar ao entrar na sala de cinema?  É levantar as mãos para o céu quando fizer um gol? É cantar ao Senhor no meio no Burger King pelo hambúrguer de churrasco? Tudo isso pode ser feito, mas glorificar a Deus é mais do que um gesto religioso, é viver a plenitude da vida sem ceder espaço para a rebelião do pecado. É comer sem gula, é jogar sem estupidez, é se entreter com limite e sabedoria etc.
Como diz as Escrituras: “Assim, quer vocês comam, bebam ou façam qualquer outra coisa, façam tudo para a glória de Deus”. [1 Coríntios 10.31, grio meu]. É bom observar que Paulo estava escrevendo no contexto pagão de carnes sacrificadas aos ídolos. E ainda “tudo o que fizerem, seja em palavra ou em ação, façam-no em nome do Senhor Jesus, dando por meio dele graças a Deus Pai” [Colossenses 3.17]. Ou como Pedro escreveu: “Se alguém fala, faça-o como quem transmite a palavra de Deus. Se alguém serve, faça-o com a força que Deus provê, de forma que em todas as coisas Deus seja glorificado mediante Jesus Cristo, a quem sejam a glória e o poder para todo o sempre”. [1 Pedro 4.11]. Portanto, qualquer atividade trivial sem a devida glória a Deus é uma atividade pecaminosa. A comida é boa em si, mas para o homem glutão é pecaminosa. O deus dele é “o estômago e têm orgulho do que é vergonhoso; eles só pensam nas coisas terrenas” [Filipenses 3.19]. O sexo é divino, mas dentro dos parâmetros do amor no casamento, pois somente assim se glorifica a Deus. O futebol ou qualquer outro esporte é, também, como atividade do dia a dia um terreno fértil para a discórdia ou um momento agradável de companheirismo, diversão,  atividade física e saudável competição. Sim, é possível glorificar a Deus enquanto se grita “goooool”!
Portanto, não há segredo. A atividade do dia a dia precisa ser cúltica. E é agindo conforme os padrões estabelecidos pelo próprio Deus que teremos uma vida de glorificação a Ele. Veja que biblicamente há uma conexão entre a nossa prática e a atividade adoradora. Dizer, por exemplo, que “ama a Deus” é um ato de adoração, mas tal palavra só tem efeito com a prática do amor ao próximo [eg. I João 4.20]. Portanto, quando se ama o outro já se adora e glorifica. Não há uma necessidade permanente de proclamação de palavras. Não é necessário falar em Deus o tempo todo e nem transformar atividades em falatório religioso. A ação primeiro. A palavra depois.
Portanto, o pecado é um ato anticúltico. Sim, um ato de desprezo à adoração. Muitas vezes pensamos que mundanismo é aproveitar as coisas boas do mundo. Não, isso não é mundanismo. Mundanismo é abraçar qualquer atividade sem o propósito de glorificar a Deus, portanto, mesmo um louvor “cristão” pode ser mundano. Assim, podemos desfrutar qualquer atividade dentro dos parâmetros da vontade de Deus manifestada em sua glorificação permanente. Logo porque não é possível pecar para a glória dEle.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Guarda o teu pé, quando entrares na casa de Deus!

Por Gutierres Fernandes Siqueira

SAGRADO. Que inspira ou deve inspirar respeito religioso ou profunda veneração. Do latim sacrātus,a,um, part.pas. de sacrāre 'consagrar, sagrar, dar caráter sagrado a; votar, dedicar'. [Dicionário Houaiss]

Hoje estudamos sobre liturgia na Escola Dominical. E, nesse aspecto, um grande problema no nosso meio pentecostal é a perda do senso do sagrado. Recentemente assistia a pregação de um dos mais respeitados mestres da Palavra em um enorme templo das Assembleias de Deus. O ambiente lembrava uma rodoviária. Era gente caminhando em todas as direções enquanto o pastor ministrava a Palavra.

Esse é um dos sintomas dessa falta de respeito pelo sagrado. “Guarda o teu pé, quando entrares na casa de Deus; porque chegar-se para ouvir é melhor do que oferecer sacrifícios de tolos, pois não sabem que fazem mal” [Eclesiastes 5.1].

Vejamos apenas quatro exemplos de irreverência no contexto assembleiano, do qual faço parte:

- Os pregadores que chegam apenas na hora da pregação. É como se a exposição da Palavra de Deus fosse alguma palestra. O pregador não pode ser ausente do culto, pois a pregação deve estar inserida num contexto cúltico. Alguns pregadores de “renome”, como se diz no meio assembleiano, chegam atrasados sempre. Não é mero acidente de percurso, já é um hábito. Estariam eles enfadados de cultuar? Viraram meros profissionais do púlpito?

- Mães que brigam com crianças “birrentas” no meio do culto. O meio do culto não é o melhor lugar para beliscar uma criança que chora por birra. É em casa que essa criança deve receber a correção dos pais. Eu já presenciei a cena de uma mãe que deu um tapa na mão de uma criança de dois anos- por algum motivo- e essa disparou a chorar atrapalhando o bom andamento do culto.

- O paparazzi da igreja. Toda festividade é um festival de filmagens, fotos e poses. Você não sabe se está está na entrada do Oscar ou realmente em um culto cristão? O grupo começa a cantar e um monte de gente se levanta para tirar fotos. Não seria melhor esperar o culto acabar? Ou apenas UMA pessoa registrar as imagens do culto?

- Conversas no púlpito. E se o exemplo não vem de cima? Bom, há obreiros que gostam de colocar o “papo em dia” enquanto estão sentados na plataforma. Aliás, qual a necessidade daquele povo sentado lá em cima?

Então, vamos mudar?

domingo, 1 de dezembro de 2013

Existe vida na teologia contemporânea

Por Gutierres Fernandes Siqueira

"Deus, dá-nos a graça de aceitar com serenidade as coisas que não podem ser mudadas, a coragem para mudar as que devem ser mudadas, e sabedoria para distinguir uma da outra". [Reinhold Niebuhr]
Rahner é cada
vez mais influente
Nem sempre uma expressão indica exatamente o significado dela. A “teologia contemporânea” é um desses conceitos cujo significado deve ser explicado. O contemporâneo não quer dizer meramente sobre uma teologia ensinada neste momento da histórica, mas sim uma teologia produzida no último século. E, em geral, essa nova teologia veio fartamente influenciada pela filosofia de seu tempo, seja pela modernidade tardia ou pela hipermodernidade. Mas há um contingente de teólogos contemporâneos que são críticos dessa paixão irrefletida pela modernidade. Ou seja, há vida na teologia contemporânea. E é sobre esse grupo que o artigo tem como objeto de apreciação. 

Erro comum entre alguns teólogos conservadores é confundir “teologia contemporânea” com teologia moderna ou liberal. Outro equívoco é atribuir à teologia contemporânea uma forma sutil de Teologia Liberal. Alguns chegam a dizer que Karl Barth é mais perigoso que Rudolf Buttmann, pois enquanto o segundo é “transparente”, o primeiro seria sorrateiro. Claramente um exagero. Na teologia, como na vida, nem tudo é oito ou oitenta, preto ou branco. Há sempre uma zona cinzenta. Sem negar os fundamentos das Sagradas Escrituras, bem expressos nos Credos, é possível debater e respeitar opiniões divergentes. 

Sempre cito que a melhor crítica que li- até este momento- sobre a Teologia Liberal veio do livro Cristo e Cultura de  H. Richard Niebuhr, um autor neo-ortodoxo [1]. Os irmãos Niebuhrs - o outro é Reinhold Niebuhr- foram os maiores expoentes da neo-ortodoxia nos Estados Unidos. Eles não era propriamente evangelicais, conservadores e, muito menos, fundamentalistas, mas a crítica à Teologia Liberal é simplesmente bem focada. É até famosa a frase de H. Richard que fala sobre a teologia liberal como “um Deus sem ira, que conduziu homens sem pecado para um reino sem julgamento, pela ministração de um Cristo sem cruz” [2]. O autores Ed. L. Millher e Stanley J. Grenz lembram que “entre os teólogos contemporâneos, [Reinhold] Niebuhr foi um dos mais ardentes defensores da doutrina do pecado original” [3]. E cita uma famosa frase de Reinhold claramente influenciada por Chesterton: “A doutrina do pecado original é a única doutrina da fé cristã de comprovação empírica”. 

Portanto, desprezar uma riqueza teológica porque essa não segue ponto a ponto determinada confissão de fé donde se congrega é simplesmente perder. É possível citar muitos nomes não-evangelicais, mas que todo evangelical pode ler tais teólogos para o próprio enriquecimento e maior profundidade bíblica. Alguns desses teólogos são de tradição protestante como os irmãos Niebuhrs, Karl Barth, Dietrich Bonhoeffer, Wolfhart Pannenberg. Outros de tradição católica como Joseph Ratzinger, Hans Urs von Balthasar, G. K. Chesterton, Peter Kreeft etc. Discernindo tudo e retendo o que é bom.

O outro lado

Infelizmente, não é a teologia contemporânea dos Niebuhrs que faz sucesso no Brasil. Nem mesmo os textos devocionais de Bonhoeffer. Outros teólogos formam a cabeça de jovens e velhos para um liberalismo rasteiro. Exemplo disso é a crescente influência de Karl Rahner, um dos mais controvertidos teólogos católicos do século XX. Certamente você conhece algum discípulo anônimo de Rahner por aí, seja nas redes sociais, no YouTube, na sua igreja ou no seminário. 

Karl Rahner foi um dos maiores críticos do “pessimismo salvífico agostiniano”, ou seja, a sua antropologia era otimista, pois a salvação é um caminho construído pelo homem mediante uma consciência iluminada pela bondade e na prática do bem comum. Rahner escreveu que “cada caminho trilhado pelo ser humano em real fidelidade à sua consciência é um caminho que conduz ao Deus infinito” [4]. Soa familiar? Bom, na teologia “a oferta da graça, na ordem atual, alcança todos os homens, e que estes têm certa consciência, não necessariamente reflexa, de sua ação e de sua luz” [5]. O “cristãos anônimos” de Rahner são até mesmo os ateus ou adeptos de qualquer culto que encontram um relacionamento com Deus potencializando sua humanidade. 

Moralismo

Se o homem é salvo pela consciência de humanidade essa redenção é antropocêntrica, ou seja, é centrada no próprio homem. Não há necessidade de Cristo, da cruz e nem mesmo da Igreja como meio de graça. Ora, para ser uma “uma pessoa de bem” não “é preciso ser cristão [...] Basta ser kantiano, estóico ou...fariseu” [6], como bem criticou o conceito de Rahner por Clodovis Boff, um dos fundadores da Teologia da Libertação e hoje um dos melhores críticos. Clodovis ainda lembra que o cristianismo não pode se resumir a um código gnóstico (escondido) de valores morais salvíficos. 

Isso mesmo, o cristianismo não se resume a uma moralidade. O teólogo suíço Hans Urs von Balthasar era amigo de Karl Rahner, mas acusou o teólogo alemão de “não propor uma teologia da cruz e uma soteriologia dignas desses nomes” [7]. A teologia de Rahner é puro moralismo. É isso que a teologia rahneriana oferece: moralidade para salvação. Isso é tudo, menos graça divina. É uma maldição e um peso para o ser humano pensar a salvação como construção própria. Só a verdade do Evangelho tira do homem tamanho enfado. O Evangelho é Deus em resgate do homem e não o homem na consciência de si e com sua bondade inata ao encontro de Deus. 

Portanto, é lamentável que alguns jovens teólogos sigam o velho caminho da religiosidade e sigam pregando um moralismo salvífico sob linguagem moderna. Enquanto isso poderiam ler outros teólogos contemporâneos melhores. Engraçado e irônico, mas estão na mesma religião dos fariseus. 

Referências Bibliográficas:


[1] NIEBUHR, H. Richard. Cristo e Cultura. 1 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1967. p 289.  E, na minha opinião, a segunda melhor crítica é de um conservador: MACHEN, J. Gresham. Cristianismo e Liberalismo. 1 ed. São Paulo: Shedd Publicações, 2012. p 151. 

[2] NIEBUHR, H. Richard. The Kingdom of God in America. 1 ed. Chicago: Harper & Row Publishers Inc., 1937. p 193. 

[3] MILLER, Ed. L. e GRENZ, Stanley J. Teologias Contemporâneas. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 2011. p 41. A frase de Niebuhr é influenciada pelo pensamento de Chesterton: “Certos novos teólogos questionam o pecado original, que constitui a única parte da teologia cristã que pode realmente ser provada. Alguns seguidores do rev. R. J. Campbell, em sua espiritualidade quase exigente demais, admitem a ausência de pecado em Deus, que não podem ver nem em sonhos. Mas eles essencialmente negam o pecado humano, que eles podem ver na rua.” [CHESTERTON, G. K. Ortodoxia. 1 ed. São Paulo: Editora Mundo Cristão, 2008. p 27.]. 

[4] RAHNER, Karl. La chiesa, le chiese e le religioni. p 451. Cit. em: OLIVEIRA, Pedro Rubens F. de e PAUL, Claudio. Karl Rahner em Perspectiva.  1 ed. São Paulo: Edições Loyola, 2004. p 252. 

[5] Comissão Teológica Internacional. O Cristianismo e as Religiões. Vaticano. Disponível em: <http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/cti_documents/rc_cti_1997_cristianesimo-religioni_po.html> Acesso em: 01/12/2013. 

[6] GONÇALVES, Alexandre. A Libertação da Teologia: Entrevista com Clodovis Boff. Dicta e ContraDicta. vol. 10. São Paulo: Instituto de Formação e Pesquisa, 2013. p 52. Clodovis tem seguido caminho do irmão Leonardo Boff, que além de um distanciamento do cristianismo está cada vez mais próximo de um panteísmo ambientalista e, também, não se distancia de uma ideologia marxista.

[7] SESBOUE, Bernard. Karl Rahner: Itinerário Teológico. 1 ed. São Paulo: Edições Loyola, 2004. p 28. Balthasar também disse o óbvio: a teologia rahneriana é “uma antropologização do cristianismo”. Veja mais: GIBELLINI, Rosino. Teologia do Século XX. 2 ed. São Paulo: Edições Loyola, 2002. p 237.