terça-feira, 21 de janeiro de 2014

“A Arte da Presença”. Ou como lidar com a tragédia alheia?

Por Gutierres Fernandes Siqueira

É difícil lidar com a tragédia alheia. É complicado encontrar palavras diante de uma pessoa enlutada. Quem nunca pensou em evitar algum velório? Ou quem nunca usou expressões como “Deus tem um propósito nesse sofrimento”. Bom, na maioria das vezes essa verdade não serve de consolo.

Na riqueza das Sagradas Escrituras encontramos o gênero do lamento. Mas hoje na igreja há pouco espaço para lamentações. Há muito “consolo” meio piegas e despropositado para o momento do luto.

David Brooks, colunista do jornal norte-americano The New York Times e um dos melhores escritores da imprensa americana, escreveu um interessante artigo intitulado The Art of Presence (A Arte da Presença). Nesse texto, o colunista Brooks indica um outro blog escrito por Catherine Woodiwiss, vítima de uma grande tragédia.  A história Woodiwiss é triste. Ela perdeu a irmã mais velha morta no Afeganistão em 2008 e, agora no último ano, a Catherine  foi atropelada em Washington enquanto andava de bicicleta. O fruto do atropelamento foi um rosto tão desfigurado que só era possível se alimentar por sonda.

Catherine ensina “dez lições do trauma”. Vejamos:

O trauma, ou tragédia, nos transforma permanentemente. Não existe essa de “traz de volta o que é meu” ou “você voltará a ser o que era antes”. A tragédia é uma marca tão profunda que não se apaga. É interessante observa que Cristo, mesmo triunfante, carrega em si as marcas da crucificação.  “Não existe um ‘de volta para o velho eu’. Você está diferente agora, ponto final”, escreve Woodiwiss .

A presença sempre é melhor do que a distância. Estar perto é essencial. A vítima da tragédia “não precisa de mais espaço”, mas sim de espaço ocupado. É melhor errar pela presença do que pela ausência.

A cura é sazonal. Não é linear. A cura do trauma não é um passo a passo progressivo. O luto pode passar rapidamente e, depois de algum tempo, voltar com força.

Há amigos que são bombeiros e outros são construtores. Difícil é ser ambos. O bombeiro arrisca a vida nas primeiras horas da tragédia. O construtor é menos enérgico, mas permanece mais tempo na gestação de uma nova e mais confortável realidade. “A dura lição do trauma é aprender a perdoar e amar o seu parceiro, o melhor amigo, ou familiar, mesmo quando eles falham em um desses papéis. Por outro lado, uma das maiores alegrias é encontrar os dois tipos de companheiros ao seu lado na viagem”, escreve Woodiwiss.

A angústia é social, assim como a cura. Nesse sentido, como é preciosa a oração coletiva de uma igreja ou mesmo a família reunida em torno do enlutado.

Não ofereça comparações. “Eu sei como você sente a perda do seu filho. Perdemos o nosso querido cãozinho recentemente”. Não, nunca faça comparações.

Permita que o sofredor do trauma conte a sua própria história. Deixe essa pessoa se abrir, falar profundamente, mesmo que tal conversa soe como murmuração.

A manifestação do amor que surpreende ajuda a curar. O cartão de um velho amigo da faculdade, por exemplo, ajuda nesses momentos. Ora, como é alentador receber o carinho de alguém cujo contato se perdeu há anos.

A tragédia pode deixar alguns lugares coloridos com tons de cinza, ou seja, muito do que trazia alegria pode ser motivo para tristeza. É importante entender isso.

A tragédia pode tornar o sofredor mais resiliente, forte e transformar momentos de alegria em profundidade de espírito.

Ora, são lições preciosas. Que o Senhor nos ajude em sabedoria diante da dor.

Leia em inglês aqui e aqui.

2 comentários:

Gilmar Valverde disse...

Muito bom ler esse tipo de artigo.

Que Deus continue abençoando a sua vida.

Gilmar

Érica disse...

Muito bom texto, gosto desses que nos ensinam a lidar ou viver com a dor, seja nossa ou dos outros, esse tema parece esquecido em uma sociedade que só busca o prazer e a felicidade e esquece que o sofrimento está atrelado a todo ser humano.