quinta-feira, 3 de abril de 2014

E lá fui eu assistir “Noé”...

Por Gutierres Fernandes Siqueira


Cheguei a pouco do cinema. Fui com minha mãe assistir o polêmico e controvertido filme Noé (EUA, 2014, 139 min). Ela voltou decepcionada, mas não eu. Quais as razões? A minha mãe, como muitos evangélicos, foi assistir a esse filme esperando um relato condizente com as Sagradas Escrituras. Eu não fui com essa expectativa, pois já tinha lido matérias onde o diretor e a produtora indicavam que o longa era apenas inspirado no relato da vida de Noé, mas não um retrato fiel à história. Ainda que o ator Russell Crowe falasse o contrário. Eu, de propósito, não contei a ela sobre minhas leituras, pois queria ver a reação final. Se você, como ela, realmente espera um filme bíblico, então, nem saia de casa para pagar um ingresso no cinema mais próximo.



Noé é uma razoável peça de ficção. É uma fantasia de inspiração bíblica. Repito: não é nem minimamente parecido com o Noé das Escrituras. Brinquei com minha mãe que a única referência bíblica no filme era a água. Há algumas reflexões interessantes, especialmente ao observar que o juízo de Noé, como um zeloso cumpridor das ordens divinas, era ainda mais severo do que o juízo de Deus. No zelo Noé abraça a injustiça. É, no meu entender, uma reflexão interessante. Mas, é claro, esse é o Noé da fantasia do diretor Darren Aronofsky e do roteirista Ari Handel. Além disso, esse Noé é meio chato, pois é um ambientalista com grande antropofobia (algo normal nos ambientalistas modernos!). 

Bom, dito isso, acho uma tremenda bobagem toda a polêmica que o filme gerou. Eis as razões:

1. Todo filme deve ser julgado pelo propósito exposto pelo diretor. Essa é uma regra básica na análise de um filme. O filme é ecofantástico e não bíblico, como bem definiu um crítico da agência Reuters. É bom lembrar que o diretor não é cristão, mas de origem judaica. Ele, inclusive, se inspirou em relatos da tradição rabínica para construir esse fantasioso Noé. E, como não é um teólogo cristão-evangélico, o método de interpretação do Aronofsky certamente não foi o histórico-gramatical, não é pessoal? A própria Paramount Pictures deixou claro, no meio das polêmicas, que o filme é apenas “inspirado”. Assim, na hermenêutica particular do diretor o Noé foi o “primeiro ambientalista”. Isso, realmente, é trágico, mas não podemos exigir muito de alguém sem vivência religiosa. Bem que o ambientalismo é uma religião moderna...

2. Hollywood não tem obrigações exegéticas. Você espera aprender exegese com Hollywood? Bom, aí você quer muita coisa da indústria do entretenimento. Alguns cristãos também acham que os donos dos shoppings devem resgatar o sentido do Natal e da Páscoa... Bom, pessoal, vamos acordar! Se a igreja que é a igreja não faz exegese, agora imagine as produtoras que pensam em como ganhar dinheiro com uma história qualquer.

3. É possível que uma história seja cristã, mas sem literalidade bíblica. Sim, isso mesmo, é possível. Não é o caso do filme Noé, mas podemos pensar em filmes que usem alguns aspectos bíblicos, mas ao mesmo tempo permitam grandes licenças poéticas de forte cunho teológico-cristão. 

Dito isto, recomendo o filme para quem gosta de fantasia. Se você quer saber mais sobre Noé abra a sua Bíblia em Gênesis 6 a 10.

3 comentários:

José Eduardo da Silva disse...

Ainda não vi o filme, mas me identifiquei com o texto quanto a expectativa do enredo. O trailer (para quem realmente já leu Gn 6-10) já mostra claramente que o roteirista se valeu de algumas subjetividades, então ele usou toda a licença poética para criar a ficção. A sua resenha sobre o filme é boa porque temos entre nós alguns que estão distraídos, achando que ao ver um filme com alguma temática Bíblica, sairá da sala do cinema com as coisas esclarecidas. Apesar de podermos extrair boas reflexões de alguma obra de ficção que aborde temas Bíblicos, todo cuidado é pouco para não perdermos de vista que as Escrituras é que são inspiradas e proveitosas para corrigir e instruir.

Gilmar Valverde disse...

Muito boa sua análise. Coerente e equilibrada.

Acredito que "Noé" vai causar ojeriza em muitos cristãos que vão assisti-lo sem esse pensamento prévio sobre o filme.

De qualquer forma, quero muito ver essa produção, e, principalmente, Capitão América 2 na semana que vem (risos).

Um abraço a todos e bom filme, lembrando sempre que ao cristão o entretenimento não lhe é vedado.

Atenciosamente,

Gilmar

Erica Serpa disse...

Melhor artigo que li até hoje sobre alguém que viu o filme. Pessoas próximas a mim, que já viram a película, afirmaram que lidar com a sagrada escritura desta forma foi errado. Eu não discuto. Principalmente se sei que a pessoa não vai nem sequer cogitar a ideia de pensar diferente.

O mundo não está à disposição de quem possui fé em Deus (nem estou especificando os cristãos, veja bem).

=)