segunda-feira, 21 de abril de 2014

Vozes do Pentecoste

Por Gutierres Fernandes Siqueira

SYNAN, Vinson. Vozes do Pentecoste: Relatos de vidas tocadas pelo Espírito Santo. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2012.

Vinson Synan é hoje o principal historiador do pentecostalismo mundial. Professor emérito de história da Igreja no Regent University, a mais avançada faculdade carismática do mundo, Synan é destaque quando o assunto envolve historiografia do Movimento Pentecostal mundial. Ele, juntamente com William Menzies, o historiador das Assembleias de Deus norte-americana, fundaram a Society for Pentecostal Studies (Sociedade de Estudos Pentecostais) e sempre esteve envolvido em atividades acadêmicas e na reitoria de universidades. É autor de dezesseis obras, sendo quinze sobre a pentecostalidade. Há poucos anos a Editora Vida publicou Vozes do Pentecoste: Relatos de vidas tocadas pelo Espírito Santo [2012, p. 192]. O livro foi escrito a convite de Bert Ghezzi, um editor e escritor católico-carismático norte-americano, e foi publicado em inglês ainda em 2003.

Vozes do Pentecoste é interessante para a leitura dos pentecostais por motivos diversos.

Em primeiro lugar, mostra uma tendência ecumênica no historiador pentecostal. Synan sempre esteve presente entre os católicos carismáticos como escritor e palestrante. No Brasil, o pentecostalismo cresceu sob forte oposição ao catolicismo e a historiografia nacional sempre destacou a perseguição feita por padres nas primeiras décadas do século XX. Logo, essa aproximação é sempre vista com estranheza. Mas no mundo anglo-saxão a realidade é diferente. Por exemplo, o inglês Donald Gee, talvez o principal teólogo pentecostal do século XX e fundador da Assembleia de Deus nas terras anglicanas, foi um entusiasta do diálogo com o catolicismo. E o famoso pregador David Wilkerson participou dos primeiros congressos da Renovação Católica Carismática dos Estados Unidos na década de 1970. Outro exemplo é a própria Society for Pentecostal Studies que nasceu entre pentecostais clássicos e hoje envolve católicos carismáticos e, inclusive, já sediou reuniões do diálogo católico-pentecostal do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos.  Consciente das diferenças doutrinárias entre pentecostais clássicos, metodistas, presbiterianos, católicos etc. Synan observa ainda “uma unidade surpreendente nos testemunhos das manifestações de dons do Espírito”[p. 10]. No livro, algumas páginas são dedicadas a proeminentes romanistas como Francisco de Assis, Papa Paulo VI e João Paulo II.

Em segundo lugar, Synan simplesmente ignora o Brasil. Na longa lista de grandes personalidades carismáticas não há nenhum brasileiro. Até a católica italiana Elena Guerra é citada, mas nada deste país. E por que isso é importante? Ora, a Igreja Pentecostal Brasileira é a maior do mundo e assim será por muitos anos. No mínimo é uma lacuna na obra de Synan. No seu grande e principal livro traduzido como O Século do Espírito Santo: 100 Anos de Avivamento Pentecostal e Carismático [1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2009], também, os pentecostais brasileiros são ignorados. O pentecostalismo hispânico ganha destaque, mas as terras tupiniquis não passam de frases breves. Não é possível especular o motivo de tal esquecimento, mas é um tanto decepcionante para o leitor nacional. O missionário sueco Lewi Petrus, por exemplo, é umas vozes do pentecoste citado no livro, mas a sua longa estadia no Brasil não é sequer mencionada.

Em terceiro lugar, Vozes do Pentecoste não é situado apenas nos últimos cem anos. Cita de Santo Agostinho a Billy Graham. Logo, vários nomes não são necessariamente membros de denominações e organizações carismáticas. Isso mostra que o pentecostalismo não é meramente um ramo denominacional, mas um “movimento” no sentido filosófico do termo, ou seja, é um processo de mudança nas relações doutrinárias e de espiritualidade no cristianismo. É o resgate, inclusive, de uma pneumatologia esquecida na história da cristandade ocidental. Quem pode, por exemplo, ignorar o avivamento entre os metodistas com John Wesley?

Em quarto lugar, o livro apresenta uma estrutura devocional. Não é acadêmico, mas serve para qualquer pesquisa mais aprofundada, especialmente pelas fontes citadas no final da obra. Synan apresenta um breve relato sobre a pessoa estudada e depois coloca um trecho da experiência com cura, batismo no Espírito Santo ou dons espirituais da própria testemunha. O livro, obviamente, não tem caráter de apologética interna, logo porque cita autores controversos sem entrar no mérito das polêmicas. É o caso, por exemplo, de Kenneth Hagin, o maior divulgador da Confissão Positiva e Pat Robertson, uma espécie de Silas Malafaia misturado com Marco Feliciano.

Portanto, é uma obra recomendável porque cada página será uma surpresa. A fé cristã-protestante não é baseada em tradições e experiências, mas isso não é o mesmo que dizer que tais aspectos da vida sejam desprezíveis no enriquecimento e crescimento do cristão.

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PS: Esta resenha foi escrita originalmente para a publicação imprensa de 2014 da  Azusa Revista de Estudos Pentecostais. O periódico é publicado pela CEEDUC (Associação Centro Evangélico de Educação, Cultura e Assistência Social) e a entidade pertence à Igreja Evangélica Assembleia de Deus em Joinville (SC).

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