quarta-feira, 4 de junho de 2014

As origens batistas da Assembleia de Deus (AD) no Brasil e as diferenças com a coirmã Assemblies of God (AG)

Por Victor Leonardo Barbosa


A Assembleia de Deus no Brasil possui mais de cem anos de existência, o que vem chamando a atenção de historiadores e sociólogos brasileiros e dentre as obras publicadas merece destaque o livro do sociólogo Gedeon de Alencar Assembleias de Deus: Origem, Implantação e Militância, publicada pela Arte Editorial em 2010. A obra de Alencar possui excelente material histórico acerca das origens da maior denominação pentecostal do Brasil. Um dos pontos altos da obra é quando o autor discute as diferenças entre a Assembleia de Deus norte-americana e a brasileira, assim demonstrando o pouco que estas denominações têm em comum. Todavia, como qualquer obra dessa natureza, o livro possui certas limitações em suas análises sociológicas (algo que nunca fui de apreciar). Dentre as quais noto a quase ausência acerca da mentalidade teológica que cercou a origem das Assembleias de Deus, e que a meu ver vale a pena atentar [1].
Infelizmente, a visão eclesiástica do
 missionário Nils Kastberg prevaleceu
Venho estudando há quase quatro anos em uma instituição teológica batista em Belém do Pará, assim também com tenho pregado em algumas igrejas. É notável observar várias semelhanças entre o “estilo batista de ser” com as Assembleias de Deus, em especial em Belém. Há um compartilhamento das ideias, das virtudes e vicissitudes ainda que já tenham se passado um século e obviamente as diferenças tendem a ficar mais evidentes.

Ainda dentro desse contexto, se entende mais a grande diferença entre a Assembleia de Deus  (AD) brasileira e a americana (Assemblies of God- AG).  Algo flagrante, mas aparantemente pouco notado ou enfatizado: são duas denominações diferentes, ainda que semelhantes  (essa semelhança será explicada mais a frente). A história da formação da AD americana, como relatada na Teologia Sistemática editada por Stanley Horton [2]  é uma junção de várias denominações com forte influência metodista e do Movimento de Santidade (além dos batistas). A  igreja brasileira, por usa vez,  é quase que puramente de origem batista. Em outras palavras, a linha de continuidade da AD Brasileira em sua origem se encontra na história batista, em especial da Igreja Batista Sueca (no que tange a cultura e influência teológica geral). Na época o próprio pastor da 1° Igreja Batista em Belém, Erik Nilsson (conhecido como Eurico Nelson), era um batista sueco [3].

O próprio Vingren relata em seu diário, ao chegar em Belém,  ainda se apresentava como um batista e não necessariamente como um “pentecostal” [4].  As igrejas em que Vingren e Berg interagiam nos Estados Unidos eram de origem escandinávia, ou seja, eram batistas que haviam abraçado o movimento pentecostal que irrompera a partir de do avivamento em  Azuza, que também deu origem a AD americana. Ou seja, a única coisa que liga as duas AD são o movimento pneumatológico - compartilhadas por ambas em sua origem- e só. Enquanto que o pentecostalismo norte-americano sofria a controvérsia do racismo, Berg e Vingren, pobres e simples, batizavam os mais variados indivíduos, muitos sendo pardos e da classe média baixa. Na mentalidade pentecostal americana não há problemas no ministério pastoral ser exercido por mulheres, algo que fora veementemente rejeitado por Samuel Nyström, o sucessor de  Vingren.   Em sua formação, a AD brasileira inicia-se com uma membresia  essencialmente batista que houvera abraçado o pentecostalismo.

Como notado por meu amigo Gutierres Siqueira em artigo anterior [5], as diferenças entre assembleianos americanos e brasileiros, além da visão sobre o ministério feminino, há também outra questão: a interação com o catolicismo romano, muito mais forte na América do Norte do que aqui. A erudição da Assembleia de Deus americana , tanto na sistematização e no biblicismo da teologia pentecostal,  muito rapidamente foi estabelecida, enquanto que no Brasil, apesar de alguns grandes eruditos como Nyström, o destaque maior era a pregação popular e evangelismo pessoal, o que deixou as gerações subsequentes com uma parca herança literária. Esse processo pouco afeito ao estudo sistemático só começou a ser revertido na interação entre as duas AD's em meados dos anos 1950-1960, especialmente a partir da fundação de colégios como o IBAD (Instituto Bíblico da Assembleia de Deus). Essa interação entre as duas igrejas foi um processo bem positivo para a congregação nativa. 

Porém, diante do quadro em que as Assembleias de Deus se encontram atualmente, levando em consideração sua origem batista, como explicar o sistema eclesiástico atual, intimamente com as controvérsias doutrinárias que cercam a AD? Creio que todas essas questões devem ser analisadas e ponderadas tendo a história batista como auxílio, e partindo dela igualmente na busca de uma solução. É importante notar no aspecto eclesiológico e da Teologia Sistemática.

1. A diferente eclesiologia assembleiana: 

As igrejas batistas em Belém possuem, em geral, o mesmo principio que norteia os batistas desde a sua origem: a liberdade das igrejas locais e o modelo congregacional, sendo um pastor que direciona a igreja e cada congregação é guiada pela membresia. Como então surgiu esse sistema eclesiástico onde as “igrejas-sedes” ou “mães” dominam as congregações ou  “igrejas filhas”, e estas, por suas vez, estão totalmente sujeitas administravelmente  à vontade do templo-sede? De onde surgiu a hierarquia- com semelhanças do modelo episcopal- todavia secularizado e, até mesmo, opressor em certos momentos? De onde surge a ideia de um “pastor-presidente”, o ser superior aos demais e rodeados pelos asseclas? 

Ainda que certos problemas e politicagem possam ser vistos nas congregações batistas, é impressionante como isto está acentuado na figura do pastor assembleiano! Um ponto que originou tal realidade é a forte influência militar oriunda dos grades líderes da denominação no decorrer dos anos, como mostrado aqui neste blog em um artigo anterior [6].  Hoje, as Assembleias de Deus sofrem com um forte modelo hierárquico, sendo que nesse caso, quanto maior a hierarquia, maior é a politicagem e a busca pelo poder. Nesse esquema, o diaconato muitas vezes não é visto como um ministério distinto e honroso, mas apenas um degrau na busca pelo pastorado. Cria-se, também, as castas familiares, gerando clãs distintos e até rivais. Porém, a questão é que isso não urge exatamente do nada e é provável que o modelo existente inicialmente tenha surgido com boas intenções, porém o grande desastre na eclesiologia assembleiana se dá na Convenção Geral de 1937. Ali, fora levantada a questão acerca das funções ancião/ presbítero. Esses poderiam serem considerados pastores? As decisões foram tratadas como se segue:

A Criação Geral de 1937 compreendeu, citando textos como 1 Pe 5.1, Atos 20.28 e 1 Tm 5.17, que em alguns casos parece haver diferença entre anciãos e anciãos com chamada ao ministério, estabelecendo assim,a  hierarquia eclesiástica que até hoje existe na Assembleia de Deus: diáconos, presbíteros e ministros do Evangelho (pastores e evangelistas)”. [7]

Aqui, devido a uma interpretação equivocada dos textos bíblicos citados, faz uma divisão inexistente entre os presbíteros que são chamados de pastores e os presbíteros que não são, sendo que os presbíteros como “chamados” estariam, assim, hierarquicamente acima dos demais. Tal interpretação, que ao que tudo indica tem origem no missionário Nils Kastberg, quando publicou um artigo no Mensageiro da Paz que influenciou as deliberações da convenção de 1937 [8]. Ora, por mais que tenha gerado resultados positivos para a igreja no início, mas ainda assim  há um grande problema: não encontra um respaldo bíblico consistente. Esse modelo gerou um estilo eclesiástico que é praticamente paralelo ao sistema episcopal básico: há o pastor-presidente (arcebispo), que por sua vez, comanda uma diocese, ou seja, igrejas que são dirigidas por bispos (pastores que governam determinados bairros). Que por sua vez comandam os reitores, que são os sacerdotes da igrejas (os pastores locais, que possuem por vezes o título de evangelista). Tal sistema claramente entra em choque com uma visão batista de um governo congregacional, pelo menos no que tange a centralidade de poderes.  Tal estilo de modelo não encontra respaldo suficiente no Novo Testamento, tende a ser regido pelo secularismo, prejudica a vida da igreja e favorece a centralização de poder. Esse modelo deve ser extirpado!

Há uma necessidade de voltarmos a uma estrutura congregacional que ainda reside de maneira enfraquecidas em muitas igreja locais. As igrejas locais devem ser guiadas por um grupo de presbíteros, que cuidem do trabalho pastoral de pregação e ensino (talvez orientada por alguns dentre eles como pastores regulares). A igreja local precisa respirar certa independência. Em meu entendimento, o modelo presbiteriano é o mais bíblico e recomendável. Caso essa mudança seja ainda para um futuro mais distante, uma congregação local,  com multiplicidade de presbíteros é um bálsamo bem-vindo [9]. 

1.1 A questão do ministério feminino

A história das Assembleias de Deus no Brasil é marcada por mulheres valorosas, de oração e do Evangelho. Tal atuação não pode ser menosprezada. Cada vez mais vêm se destacando a esquecida obra de Frida Vingren nos primeiros anos da Assembleia de Deus, sendo que é louvável  destacar a importância dessa mulher na obra de Cristo. 

Todavia, junto com a homenagem, vem o pacote ideológico: havendo a Assembleia de Deus cercada por tão grandes mulheres, logo não deveria legitimar o pastorado feminino? Minha resposta é simplesmente um franco não. E a razão é bem simples: Nesses momentos, costuma-se usar em prol de um ministério feminino as mais variadas formas de argumentos, menos a Bíblia. Posso certamente discordar do tratamento dado a Frida em certas ocasiões, mas isso não me dá a justificativa para apoiar os seus equívocos. Como escrevi a alguns atrás [10], não encontrando o mínimo respaldo bíblico para mulheres no pastorado. Os que encontram simplesmente solapam a Bíblia nesta questão. Creio ter sido acertada a firmeza doutrinária de Nyström a quase um século atrás nesta questão [11]. A meu ver,  não estamos somente sendo fiéis as nossas raízes, mas a Palavra de Deus.

2. A teologia dogmática assembleiana

O distintivo teológico assembleiano sem dúvida se dá no âmbito da pneumatologia, por isso, é mais do que urgente que nossas Assembleias de Deus tenham uma doutrina sólida e sadia à respeito dos dons do Espírito. Nisso, os teólogos assembleianos da América do Norte já produziram material vastíssimo e extremamente útil nos tempos em que vemos as doutrinas pseudopentecostais invadido nossa denominação e solapando o pentecostalismo clássico. A interação que houve entre as duas AD's e a influência positiva no âmbito de uma pneumatologia pentecostal e o aprofundamento em uma teologia saudável, fiel às Escrituras, deve permanecer. A CPAD (Casa Publicadora das Assembleias de Deus) vem publicando excelentes obras, porém, muito ainda pode ser feito. Das obras de Donald Gee, célebre líder pentecostal, o único livro que continua a ser publicado pela editora é “Pentecoste”, que recebeu um novo título: “Como receber o Batismo com o Espírito Santo”. Creio que uma nova edição, com a volta do título original, seria de grande valia, assim também com outros livros de Gee, que foram publicados por outras editoras como,  por exemplo, os livretos Acerca dos Dons espirituais e os Dons do Ministério de Cristo, hoje encontrados apenas em sebos, assim também como o comentário ao livro de Atos feito por Stanley Horton. 

Porém, o fator continuidade não  pode ser menosprezado. Haja vista o fato de que a Assembleia de Deus no Brasil possui uma íntima ligação batista, é de extrema importância que mais e mais haja interação com a tradição batista. É essencial que o obreiro assembleiano conheça nomes como Charles Spurgeon, Benjamim Keach, John Gill, John Smyth e vários nomes da tradição teológica de onde viemos. Negar tal herança é presunção e adquirir uma visão ex-nihilo do surgimento da denominação.

Há outro importante que vem se destacando no cenário assembleiano: a crescente influência da Teologia Reformada, também conhecida como Teologia Calvinista.


2.1 Assembleianos calvinistas

Ao contrário do que se pensa, a questões envolvendo o calvinismo e o Movimento Pentecostal no Brasil estão mais próximos do que o comumente pensado. Isso vale em especial para a Assembleia de Deus. Logo no início, destaca-se as figuras de Adriano Nobre e Manuel Higino como um exemplo disso. Adriano, o presbiteriano que simpatizou com Berg e Vingren, e que mais tarde se tornou assembleiano, obviamente trouxe à igreja um toque de sua bagagem teológica. A primeira igreja da Assembleia de Deus no Ceará foi uma Igreja Presbiteriana independente que aceitou a doutrina pentecostal (e logo foi orientada espiritualmente por Nobre). Porém, o caso mais latente foi o ocorrido pelos irmão Manoel e João Higino, que resultou em sua excomunhão da Assembleia de Deus e a formação da igreja Assembleia de Cristo (mais tarde Igreja de Cristo).


A saída dos irmãos Higino e companheiros é pouco explorada ou citada nos livros de história assembleianos. Em sua História da Convenção, Silas Daniel nem mesmo cita o motivo da exclusão. Alencar afirma que Manoel Higino era um “calvinista ortodoxo”. As informações não são de fácil acesso. A mais confiável é encontrada no site da Igreja de Cristo em Parque Genibaú, na seção História [12]. Dentre os separatistas junto a Higino estava João Vicente de Queirós. Segundo ele, as controvérsias envolvendo Gunnar Vingren e Samuel Nystrom, com a formação dos dois periódicos e hinários distintos (respectivamente,  o Som Alegre e Boa Semente, e o Saltério e a Harpa Cristã) não havia chegado ao conhecimento de Queiroz e outros, que fundariam a Igreja de Cristo.


Quando o Mensageiro da Paz foi oficializado (na Convenção de 1930) [13], o missionário Nils Kastberg foi um dos mais conhecidos articulistas. Em uma das edições do Mensageiro da Paz surge um problema doutrinário: em uma mesma edição saíram dois artigos bem diferentes na essência. Em uma, José Bezerra de Menezes falava acerca da justificação pela fé e (segundo Queiroz) a salvação eterna do crente justificado. Em contrapartida, na mesma edição, havia um escrito de Kastberg acerca do dízimo, onde este afirma: “Que os irmãos trouxessem os dízimos ao tesouro da Igreja, porque é um dever de cada crente, e tomassem cuidado, porque muitos crentes já estavam no inferno, por não pagarem os dízimos do Senhor”. A salvação condicionada pelo dízimo de Kastberg transtornou os calvinistas assembleianos, defensores da salvação eterna. Outro problema surgido esteve na  4° edição da Harpa Cristã de 1932, onde o hino 138 de José Felinto aludia à segurança da salvação eterna na 1° estrofe, ao passo que o hino 418 de Jahn Sorheim, na última estrofe, se admitia-se a possibilidade de perder a salvação [14]. Então, a partir daí, os calvinistas assembleianos elegem Manoel Higino como o representante para levar uma carta endereçada a Nils Kastberg para  reunir uma Convenção a fim de debater a questão. A resposta de Kastberg fora incisiva. Ele afirmou “estar de acordo com os ensinos da salvação condicional, e quem estivesse aborrecido que saíssem para onde quisessem...”. A partir daí,  os calvinistas entregaram suas credenciais de obreiros e foram oficialmente excomungados da denominação na convenção de 1933. Uma tentativa de aproximação foi feita em 1933, porém ,com a firmeza de Higino nesta questão, a separação foi total. A partir daí, formou-se a Assembleia de Cristo (futura Igreja de Cristo), com uma soteriologia da certeza da salvação e um governo congregacional. Logo, uma fórmula popular de arminianismo (que depois se solidificou) espalhou-se no meio assembleiano, até tempos recentes, onde se vê cada vez mais um ressurgimento do calvinismo na denominação.

2.2 Assembleianos Calvinistas hoje

Cada vez mais evidencia-se grupos que aderem ao calvinismo ou são simpatizantes deste nas fileiras assembleianas. A própria CPAD vem publicando obras teor reformado nos últimos anos, com a publicação de obras escritas por autores como Jonathan Edwards, Matthew Henry,  D. A. Carson, John Piper, R. C. Sproul, todos de orientação reformada [15]. Tal concepção teológica é boa e salutar, tendo em muito para contribuir para a AD americana, apesar de várias objeções já feitas, tanto por outros reformados quanto pelos assembleianos de uma linha mais arminiana. As doutrinas pentecostais não entram em choque com relação às doutrinas reformadas [16]. Hoje, inclusive , nomes como Wayne Grudem, John Piper e até mesmo Lloyd-Jones possuem uma pneumatologia que se assemelha a uma vertente pentecostal, sendo que todos eram (ou são) firmemente reformados. Diante disso, deve ser assegurado aos obreiros calvinistas que estão nas fileiras ministeriais da Assembleia de Deus a liberdade teológica no exercício de seu ministério. Um ponto importante porém, é ressaltar o conhecimento destes com relação ao diferencial da pneumatologia pentecostal, o que nos distingue como movimento e denominação.

Conclusão

Ao analisar a historia assembleiana brasileira vemos que as Assembleia de Deus no Brasil segue uma linha bastante distinta da americana (AG). A sua origem e influência está atrelada a Igreja Batista no Brasil, assim como a influência sueca. A primeira congregação assembleiana no Brasil era uma igreja batista que adotara uma pneumatologia pentecostal. Tanto Berg, Erik Nelson e Vingren tinham uma origem nas igreja batistas da Suécia. É essencial que o pentecostal assembleiano saiba as suas origens e a explore positivamente, recebendo a herança batista disponível também a ele, o que o fortalecerá em sua teologia. Os assembleianos devem retomar um modelo que garanta a auto-suficiência da igreja local  em todos os aspectos possíveis. Deve aprender (ou reaprender) também com a tradição batista a liberdade aos que seguem a doutrina reformada. Atitudes como as tomadas na convenção de 1937 não caberiam no contexto atual. A liberdade a obreiros de linha reformada deve ser mantida, sempre também mantendo os princípios assembleianos como uma elevada visão da Sagrada Escritura e a manifestação dos dons espirituais e um revestimento de poder pós-conversão. Certamente que,  com resoluções mais bíblicas, toda a família assembleiana será abençoada.

Soli Deo Gloria


Notas:


[1] Outra falha vista na obra de Alencar (para um assembleiano paraense é quase um pecado imperdoável) é a visão apresentada por ele acerca de Daniel Berg. Em sua perspetiva, Berg não contribuiu para a formação da denominção, sendo que enquanto este dirigiu-se para a “periferia”, tornar-se inexistente  Vingren é que fomentou o desenvolvimento da igreja. É óbvio que Vingren fez bastante,  porém o trabalho de Berg foi pioneiro e excepcional.  Primeiramente, fora ele quem arrumou um trabalho secular para bancar as aulas de português de Vingren, sendo inicialmente criticado por este, que não queria vê-lo envolvido com um trabalho secular (Enviado de Deus, p. 50-51). Foi ele quem praticamente fundou as primeiras congregações de crentes na Ilha de Marajó, Bragança e outros interiores, sendo uma espécia de desbravador evangélico do Pará mais habitável.  A grande questão é que, em termo missiológicos, o trabalho de Berg foi mais amplo e em certo sentido, ainda mais empreendedor do que o de Vingren. A memória e influência de Berg ainda é sentida até hoje nessas igrejas paraenses. Por isso, a afirmação de Alencar que nos primeiros 20 anos quem lidera a igreja é Gunnar e Frida Vingren (ou quem sabe, apenas Frida) é simplesmente uma interpretação ideológica insustentável diante da evidência histórica.


[2] Horton, Stanley (ed). Teologia Sistemática: uma perspectiva pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD,1996. p. 11-41.


[3] Erik Nilsson, conhecido como Eric Nelson pelos americanos e Eurico Nelson pelos brasileiros,  e, também,  conhecido no meio batista como o “apóstolo da Amazônia”, foi um missionário pioneiro na região do Pará. Sua história, incrivelmente, tem certos paralelos com a de Vingren e Berg, em especial deste último.  Quando chegou ao Brasil, Erik não era um pastor ordenado, nem tampouco fora enviado por alguma  junta missionária (duas coisas que aconteceriam posteriormente). Assim como Berg, foi um colportor e vendia bíblias, o que lhe dava oportunidade de evangelismo e meio de sustento. Depois de amargar grandes dificuldades iniciais, conseguiu através da pregação formar um bom número de membros em Belém do Pará, associando-se com o célebre Salomão Ginsburg, missionário judeu da Junta de Richmmond. Sua vida é marcada por lutas e sofrimentos, além  de várias perseguições. Segundo John Landers, em sua tese de doutorado em filosofia pela Texas Christian University, afirma que apesar de certa apreensão com Vingren e Berg, Nelson (nas palavras de Landers) “apreciava seu entusiasmo”(LANDERS, The First Baptist Missionary on the Amazon,1891-1939,p.88). Quando Berg e Vingren foram excomungados da igreja, Nelson não estava presente.


[4] Quando chegaram em Belém,  Vingren e Berg se encontraram com Justus Nelson, pastor metodista, identificaram-se ainda como batistas, motivo pelo qual Nelson os encaminhou para a Primeira Igreja Batista (VINGREN, Diário do Pioneiro, p.36). Após a saída dos dois missionários pentecostais, Eurico Nelson escreveu uma carta justificando que aceitara os dois missionários escandinavos por eles terem se identificado como batistas. Acerca disso, Laners firma: “Devido ao Movimento Pentecostal estava ainda em processo de desenvolver-se em uma denominação separada, é possível que Vingren e Berg tivessem esperança de permanecer dentro da denominação batista no  Brasil e levar todo o grupo para os ensinamentos pentecostais” (LANDERS, Op. Cit. p.90).




[6] ___________________. Assembleia de Deus e nossa Herança militar. Disponível em: http://www.teologiapentecostal.com/2013/04/assembleia-de-deus-e-nossa-heranca.html


[7] DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004. p 135.


[8] Como atestado pelo pastor Altair Germano em artigo publicado em seu blog


[9] No caso, esse  seria um modelo batista, porém com vários presbíteros, e não somente um pastor  que cuida de uma congregação local. A estrutura de uma congregação local autossuficiente é  mantida.


[10] Em meu artigo Por que não elas? Uma abordagem bíblica sobre o ministério feminino, trato dos principais argumentos em defesa do ministério feminino em na liderança pastoral e do ensino bíblico. Disponível em: http://gqlgeracaoquelamba.blogspot.com.br/2008/04/por-qu-no-elas-uma-abordagem-bblica.html


[11] Cabe ressaltar que Nystrom não agiu simplesmente sozinho, mas angariou ao que tudo indica, o apoio de Simon Ludgren e do próprio Daniel Berg ( DANIEL., p. 35)


[12] O interessante é que temos a perspetiva dos calvinistas assembleianos. Disponível em: http://www.genibau.com.br/principal/nossa_historia_nacional.htm


[13] Vide DANIEL, ibid, p.39.


[14] Segue aqui as ditas estrofes dos hinos, extraídas do site da Igreja de Cristo em Genibau:
                                 
“Do céu à terra veio Jesus, Não é condenado quem nele crer
Em meu lugar morrer na cruz; A morte eterna não irá sofrer;
Tudo sofreu para me salvar; Já livre pode cantar o louvor;
Junto a Ele quero estar. A Jesus, seu Salvador...”  (autoria de José Felinto).


       “Oh Aleluia! Já está perto;
       O dia da restauração.
       Alerta, Alerta, irmãos queridos,
       P’ra não perderdes a salvação
       Jesus nas nuvens voltará
       E para Si nos levará”. (autoria de Jahn Sorheim)


[15] As obras de cada autor são, respectivamente: Pecadores nas Mãos de um Deus Irado e Outros Sermões, Comentário do Antigo e Novo Testamento, A Difícil Doutrina do Amor de Deus, A Supremacia de Cristo em um Mundo Pós-Moderno e Defenda a sua Fé.


[16] Clóvis Gonçalves, autor do blog Cinco Solas, escreveu um excelente artigo a este respeito, intitulado Pentecostalismo e Calvinismo: Alguma relação Possível? Disponível em: http://www.teologiapentecostal.com/2013/06/pentecostalismo-e-calvinismo-alguma.html


Bibliografia:


ALENCAR, Gedeon. Assembleia de Deus: Origem, Implantação e Militância. São Paulo: Arte Editorial, 2010.


BERG, Daniel. Enviado de Deus: Memorias de Daniel Berg. Edição Comemorativa. 6° Ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2011.


DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. 1 ed. Rio de Janeiro, CPAD. 2004.


LANDERS, John Monroe. The First Baptist Missionary on Amazon: 1831-1939. Tese de doutorado. Texas Christian University, 1982.


MCGEE, Gary B. Panorama  Histórico. In: HORTON, Stanley (Ed). Teologia Sistemática: uma perspectiva pentecostal. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1996.


20 comentários:

Marcos Fialho disse...

O texto é bom, porém, quando se fala sobre o ministério feminino entra em desgosto com o que penso. Pois, se no texto você destaca que as AG caminham melhor do que nós na do escrita de uma Teologia Pentecostal sadia, não seria ela um exemplo para o Ministério Pastoral Feminino para as AD brasileira? O coronelismo da nossa AD e a essência batista retira esse ponto teológico, não digo bíblico, pois há controvérsia e um diálogo sobre o pensamento para os que estão abertos.

Victor Leonardo Barbosa disse...

Olá Marcos!

Sua escrita é muito perspicaz e interessante. Na visão da AD americana, o ministério de pastor é um dom espiritual, e portanto, pode ser exercido por ambos os sexos. Todavia, o Novo Testamento indica que o bispado é mais do que um dom,é também um ofício, a ser exercido somente pelos homens Cf. as qualificações de um bispo em 1 Timóteo). Creio que a posição assembleiana brasileira é mais correta e bíblica) nessa questão, mesmo nossa co-irmã americana ser mais profícua no desenvolvimento teológico. Vale lembrar que grande homens de Deus que adotam uma perspectiva carismática (e.g. Wayne Grudem) são contra o pastorado feminino, o que não significa que se torne contra a toda atividade da mulher na igreja. Par mim essa distinção entre as Ad's de e ser mantida.

Um forte abraço!

Célio de Castro disse...

Parabéns pelo excelente texto Victor Leonardo Barbosa.A princípio iria tecer uma crítica ao ponto em que você tocou na questão do pastorado feminino, porém ao ler sua resposta ao comentário do Marcos Fialho, compreendi melhor a base do seu argumento e considerei muito válido. Você tocou em questões muito importantes, destaco aqui os assembleianos calvinistas, um grupo que vem crescendo principalmente entre jovens. Acredito que isso irá causar muitos choques, já que grande parte da liderança tem uma visão "preconceituosa" do calvinismo.
Enfim, apreciei a riqueza histórica do teu texto. Parabéns!

Anônimo disse...

Paz do Senhor Victor!

Quero parabenizá-lo pelo excelente artigo. Além de informativo,o mesmo nos leva a refletir sobre questões importantes referentes a atual organização eclesiástica da denominação.

Que venha outros textos.

Abraço.

Diego Araujo

Ricardo Rocha disse...

No geral o texto é bom. Mas só me questiono: como poderia um calvinista ter plana liberdade para ensinar, inclusive a sua teologia calvinista, quando a verdade é que essa questão parece ter sido resolvida logo nos primórdios, inclusive gerando um cisma?

Fico realmente impressionado como tentam, dia após dia, calvinizar a Assembléia de Deus. E fico mais impressionado quando percebo que isso vem de dentro, da própria CPAD.

Marlon Marques disse...

Olá a todos do blog Teologia Pentecostal!

Realmente vê-se a adesão ao calvinismo pelo articulista Victor Leonardo Barbosa. Primeiro que ele, um assembleiano, vê o modelo presbiteriano como essencial,sendo que vê com bons olhos a origem batista das Assembleias de Deus. Logo a Batista que é congregacional! Pareceu-me confuso isso!

Depois ele recomenda a leitura de John Gill! Este teólogo, Gill, era um hipercalvinista que até Spurgeon, outro calvinista batista recomendado pelo articulista, não via com tanta confiança!

Quem dera que as Assembleias de Deus no Brasil tivessem origem wesleyana como as Assembleies of God nos EUA! Escrevo isso principalmente por ser wesleyano!

Graça e Paz!

Victor Leonardo Barbosa disse...

Olá Ricardo!

Respondendo a sua pergunta, eu creio que os motivos para excomunhão dos calvinistas da AD não foram das melhores, e como falei anteriormente, tal atitude não cabe nos dias de Hoje. Com relação a publicação de obras calvinistas na cpad, eu recomendo os artigos de meu amigo Gutierres, ele mesmo não sendo de origem calvinista.


Victor Leonardo Barbosa disse...

Olá Marlon,

Eu creio que o formato presbiteriano seja mais coerente biblicamente, ainda que eu veja muitos pontos positivos no modelo congregacional. Este tende ao isolacionismo da igreja local muitas vezes, sendo que a meu ver, os presbíteros apresentam exercer uma liderança representativa. Porém como eu disse no artigo, um modelo congregacional com multiplicidade de presbíteros será uma benção para a AD. E é algo que pode ser feito.
Você diz ser wesleyano. Você adota o modelo semi-episcopal de Wesley?


Eu citei John Gill, que a despeito de seus defeitos, foi um excelente comentarista bíblico (algo reconhecido por Charles Spurgeon igualmente).Porém, eu citei igualmente John Smyth, alguém que estava um tanto quanto longe do calvinismo,sendo ele considerado o pai dos batistas gerais (arminianos). Meu ponto é destacar a necessidade de um assembleiano conhecer esses grande homens da tradição de onde nos originamos.

Forte abraço!

Victor Leonardo Barbosa disse...

Obrigado irmãos Célio e Diego por suas palavras encorajadoras!Realmente, ainda há um grande preconceito no que tange o calvinismo na AD Célio. Um forte abraço!

Saulo Correia disse...

Eu acho é lamentável a calvinização da AD no Brasil, como assembleiano, não creio que teólogos cavinistas tem muito a acrescentar em nossa doutrina, temos grandes teólogos, e da mesma maneira lamento a calvinização da CPAD, enchendo nossas igrejas com doutrina que vão contra a nosso credo, da para se ver que o amado, escritor, apesar de assembleia esta se declarando um calvinista de carteirinha

Victor Leonardo Barbosa disse...

Querido Saulo,

Qual é a nossa doutrina ou diferencial? Não seria acerca do batismo com o Espírito Santo e os dons espirituais? Por certo não penso que a teologia reformada acrescenta em nossa pneumatologia.

Agora, a meu ver, a teologia reformada tem muito a oferecer em termos de uma teologia muito mais sólida e em apego às Escrituras, e isso se dá pelo fato da tradição teológica ser muito mais antiga do que a pentecostal. Não que também não possamos produzir uma boa teologia, mas tenhamos cuidado com a presunção espiritual. A meu ver, Wayne Grudem pontua sabiamente que Pentecostais e tradicionais devem aprender uns com os outros.

O fato de eu ser calvinista não significa que eu seja anti-wesleyano. O que penso é que os obreiros calvinistas devem ter liberdade de exercer seus ministérios em sua igreja locais.

Abraços!

Marlon Marques disse...

Olá, Victor!

Congrego-me na igreja Metodista Livre em Fortaleza. Sim, a igreja Metodista Livre (IMeL)adota o modelo episcopal-congregacional, ou seja, semiepiscopal como você escreveu.

Graça e Paz!

Cleber disse...

Ótimo artigo. Mas é uma pena essa tentativa de 'calvinização' da CPAD.

Maxwell Fajardo disse...

Parabéns pela preocupação em resgatar esta pouco estudada cisão da AD na década de 1930.
Com relação ao texto do Gedeon que foi citado, trata-se de sua dissertação de mestrado defendida no ano 2001 e que virou livro em 2010. No entanto, no começo deste ano ele lançou em livro sua tese de doutorado sobre as ADs, defendida em 2012 ("Matriz Pentecostal Brasileira: as Assembleias de Deus", Editora Novos Diálogos), em que faz uma análise ainda mais aprofundada sobre a organização das ADs no país. Vale a pena conhecer.
Abraço e sucesso!!

Juber Donizete Gonçalves disse...

Caro Victor,

A ênfase que está havendo atualmente em resgatar a história da AD, principalmente nos seus primórdios é louvável, a qual você está também dando sua contribuição através do blog.

Sobre o pioneiro Daniel Berg, até o momento fico com o posicionamento assumido pelo Gedeon Alencar.

Berg sem dúvida importante na implantação da AD em Belém, mas o que Alencar salienta é que ele nunca foi lembrado para cargos na instituição, seja para liderança de igrejas ou na própria convenção geral, embora tenha vivido até 1963. Comparando com os outros suecos como Virgren e Nystron, ele ficou em desvantagem.

Concordo com você, que ele fez um importante trabalho missionário seja no Pará, ou São Paulo onde residiu por último no Brasil, tendo também tido uma passagem em Portugual nos anos 30. Mas o seu trabalho era mais no sentido de evangelização e implantação de igrejas, assim como muitos outros o fizeram pelo Brasil a fora, alguns até anônimos pela historiografia oficial da igreja.

Mas a verdade é que ele foi "esquecido" pela liderança da igreja, vivendo como colportor de Bíblias. Na disputa de Virgren e Nystron sobre o ministério feminino em 1930, ele até dispunha de uma influência "consultiva", pois foi consultado, mas não poder diretivo. Aí na época do jubileu tanto em Belém como no Rio de Janeiro em 1961, "lembraram" dele, dando-lhe uma placa de ouro.

Sei que diante de Deus o seu trabalho foi grande, mas o que Alencar salientou foi o esquecimento institucional. Já perto da morte e depois de falecido, virou um mito fundante para instituição.

Marcio Araujo Barboza disse...

Bom, eu concordo com o amado, entendo que a igreja deve voltar ao congregacionalismo, porém misturado ao presbiterianismo no que se refere ao pastoreio da igreja, mas um problema seria manter vários pastores em uma mesma igreja, uma solução seria que a maioria não fosse pago, mas um (quando muito dois) se dediquem ao ministério em tempo integral e por tanto mantidos pela igreja, acho que uma solução é a persistência no ensino desse ponto como dourina bíblica (porém sem radicalismo) e a abertura de novas igrejas segundo o modelo bíblico, o que pode levar outras igrejas a seguir o exemplo (assim espero).

No que se refere ao pastorado feminino fui um grande defensor (me converti em uma igreja G12 pastoreada por mulher) mas hoje entendo que é antibíblico, (mas a AD que eu faço parte ordena mulheres).

Quanto aos calvinistas assembleianos, eu sou um jovem arminiano, mas tenho muita simpatia pelo calvinismo, creio na expiação limitada e ainda não me decidi sobre a perseverança dos santos, mas vejo que o assunto é tratado com muito preconceito, principalmente na turma dos adultos da EBD que confundem perseverança dos santos com liberdade pra pecar, o que praticamente proíbe o debate do assunto com os irmãos mais velhos, como solucionar o problema?

Marcio Araujo Barboza disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
BOCA DOS ANJOS disse...

Parabéns! excelente texto.
Fique na Paz
Maribel

Marcos Fialho disse...

Olá Victor!
O ponto de vista de Wayne Grudem é um massacre em cima das mulheres. Mas, não sei se você já leu: Mulheres na igreja - Teologia bíblica para mulheres no ministério de Stanley J. Grenz e Denise Muir Kjesbo. É um ótimo livro que abre a mente sobre as posições. E existe outros, pois creio ainda que a posição trouxe malefícios para a nossa AD.

Marcos Fialho disse...

Olá Victor!
O ponto de vista de Wayne Grudem é um massacre em cima das mulheres. Mas, não sei se você já leu: Mulheres na igreja - Teologia bíblica para mulheres no ministério de Stanley J. Grenz e Denise Muir Kjesbo. É um ótimo livro que abre a mente sobre as posições. E existe outros, pois creio ainda que a posição trouxe malefícios para a nossa AD.