sexta-feira, 24 de outubro de 2014

“Fenômeno Religioso”, Experiências e Teologia Bíblica

É possível tolerar pelo pluralismo um fenômeno como este?
Por Victor Leonardo Barbosa

O conceito de “Fenômeno Religioso” está intimamente ligado ao estudo das Ciências da Religião e das Religiões Comparadas e, também, em alguns setores do estudo da psicologia. Assim, se trata de um termo técnico dado a qualquer manifestação de caráter supranatural nas expressões religiosas, ou seja, o “fenômeno” ocorre quando determinados indivíduos de uma crença fideísta passam por uma experiência com o transcendente ou “numinoso”, expressão utilizada pelo teólogo Rudolph Otto, ou o “real”, segundo o teórico das Religiões John Hick, ou seja, aquilo que vai além da natureza física ou atos naturais.

Cientistas da religião e psicólogos tentam utilizar o conceito para avaliar ou descrever as experiências religiosas. Em geral, esses acadêmicos utilizam conceitos da sociologia e outras disciplinas. A visão adotada é o ceticismo disfarçado de neutralidade ou, então, um agnosticismo espiritual: não se pode haver uma definição sobre o que trata o fenômeno em si, pois na visão de Hick, o “Real” é inexprimível e não pode ser conhecido, pois o que importa é o significado experimentado pelo ser humano no fenômeno [1] . A solução adotada por ele e outros é afirmar que todas as religiões e manifestações espirituais são válidas e, assim, promover o “diálogo”, o ecumenismo e pluralismo das religiões [2].

Ao fazemos uma análise do fenômeno religioso acontecido na igreja em Toronto (conhecido popularmente como “cai-cai”) que depois se espalhou para muitas igrejas, vemos que tal prospectiva entra em choque direto com a teologia e doutrina bíblica do cristianismo. É válido, por exemplo, justificar a “bênção de Toronto” como fenômeno do pluralismo pela “experiência real e subjetiva” do sujeito envolvido nessa histeria coletiva?

O cristianismo ortodoxo não prima simplesmente pela questão ética, mas pelo relacionamento com um Deus que se revela e se faz conhecido aos homens (1 Tm 3.16; Hb 1.1-2). A experiência cristã não é algo simplesmente subjetivo e indescritível. Por mais que o elemento emocional e subjetivo esteja intensamente presente, o cristão experimenta uma realidade revelada que abarca um entendimento da experiência espiritual (Lc 10.27, 1 Co 14.45). A experiência cristã tem como fundamento uma revelação sobrenatural, todavia registrada de maneira inteligível (2 Tm 3.16). Jesus Cristo é chamado de “Verbo” (do grego Logos, que pode significar discurso, palavra, lógica, etc.) e descreve um intelecto iluminado pelo Espírito Santo (1 Co 2.10-16). Na fé cristã a revelação julga e analisa a manifestação espiritual (1 Jo 4.1), sendo que há sempre um alerta bíblico para que o cristão não abandone sua capacidade de raciocínio diante da experiência.

Na reportagem veiculada pelo Domingo Espetacular acerca do “cai-cai” é possível ver pessoas agindo como animais, ou seja, seres que não possuem entendimento (Sl 32.9). A reportagem mostra inclusive uma mulher “uivando” enquanto imaginava que isso fosse algum dom dado por Deus. Tais manifestações espirituais são anti-bíblicas e perigosas, pois trazem uma espiritualidade alienada do Evangelho. Essas são manifestações que não encontram nenhum respaldo nos dons espirituais como mostrados no Novo Testamento. Pode haver consequências psicológicas sérias como traumas, culpa e desilusão. Dentre os indivíduos que saíram desse meio há o testemunho expressivo de uma cabeleireira que demonstra tristeza por ter participado do movimento e a preocupação dela pelos amigos ainda envolvidos da “bênção de Toronto”. Percebe-se na reportagem que há uma maturidade oriunda da Bíblia naqueles que abandonaram esse movimento.

Portanto, se conclui que uma análise através de uma “fenomenologia da Religião” do fenômeno do cai-cai é danosa para a teologia bíblica, pois não apresenta os pressupostos e padrões para avaliar e, muito menos, orientar sabiamente no parecer destas questões, pois mesmo Deus estando acima da razão e sendo Ele maior do que a limitação do homem, o que conhecemos é real e verdadeiro, e a adoração cristã envolve todo o ser humano, inclusive o intelecto, como afirma John Stott: “Nossa razão é parte da imagem divina na qual Deus nos criou. Ele é o Deus racional que nos fez seres racionais e nos deu uma revelação racional. Negar nossa racionalidade é, portanto, negar nossa humanidade” [3]. Por isso, só uma análise cristã pode entregar um correto veredito em tais manifestações.

Referências:
[1] Cf. ROCHA, Alessandro. Uma Introdução a Filosofia da Religião. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2010. p.16
[2] Uma excelente e concisa crítica a Hick se encontra no livreto escrito por Douglas Groothuis, “Todas as Religiões são iguais?”, in: GROOTHUIS, Douglas.  Todas as Religiões são Iguais?. Tr. Elias Santos Silva. Rio de Janeiro: CPAD, 2002.

[3] STOTT, John. Cristianismo Equilibrado. 3 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1995. p. 22

2 comentários:

Gilson Barbosa disse...

Confesso que fico pasmado diante da ignorância bíblica de certos pentecostais, que preferem os aspectos subjetivos da fé cristã.

Anônimo disse...

Irmão, eu acredito que o seja possível o ser humano cair diante de uma libertação, por exemplo, como aconteceu com a pessoa que Jesus expulsou o mal e o cidadão cai