domingo, 21 de dezembro de 2014

O desenvolvimento da teologia pentecostal

Por Gutierres Fernandes Siqueira

[Observação: este texto faz parte de um artigo acadêmico maior com o título “O pentecostalismo contribuiu teologicamente com o cristianismo?” que será publicado na próxima edição da “Azusa Revista de Estudos Pentecostais” da Faculdade Refidim de Joinville – SC.]

A teologia pentecostal não é propriamente uma teologia, ou seja, não pretende construir uma nova cosmovisão sobre e da cristandade. Ela é, na sua modesta contribuição, apenas e tão somente pneumatologia. E isso não é pouco, especialmente levando em conta a ignorância sobre a pessoa e obra do Espírito Santo no ser humano como indivíduo e como comunidade constituída a partir da Igreja. A teologia pentecostal é, portanto, uma leitura de como, por exemplo, a pneumatologia influencia a forma como a eclesiologia pode ser formada. Não é uma nova eclesiologia, uma nova missiologia ou uma nova hermenêutica, mas apenas como entender as implicações de ter o Espírito Santo presente no mundo como o verdadeiro e único vicário (substituto) de Cristo. O fato de Cristo viver entre os discípulos como homem trouxe sérias implicações para eles e para a Igreja primitiva e o mesmo acontece na Era Cristã com a presença constante (e discreta) do Santo Espírito. A teologia pentecostal, portanto, pretende responder a isso: como a presença constante, iluminadora e renovadora do Espírito Santo como substituto de Cristo na terra influencia diretamente a maneira cristã de viver, pensar e agir.

A fonte primeira, decisiva e essencial de qualquer teologia é a Revelação Escrita. “Fazer teologia é ver finalmente tudo à ‘luz da Palavra’”, como escreve Clodovis Boff [1]. E como não poderia ser diferente para uma teologia baseada nas Escrituras, a pneumatologia da teologia pentecostal depende fortemente de uma complexa estrutura hermenêutica onde o papel de Lucas, o médico historiador, é essencial como teólogo do Espírito Santo. A teologia lucana no duplo livro do Evangelho de Lucas e nos Atos dos Apóstolos aponta, segunda a interpretação da pneumatologia pentecostal, para um desenvolvimento teológico sobre o papel do Espírito Santo na comunidade cristã primitiva que não serve apenas como narrativa, mas sim e também como normativa para a Igreja Cristã no decorrer dos séculos. Como  será visto mais adiante, essa é a estrutura e o método usado pelos pentecostais para introduzir a sua contribuição no universo de estudos do Novo Testamento, da eclesiologia, da missiologia e da própria pneumatologia.

Dito isto, onde ficou a produção pneumatológica dos pentecostais? Essa não é pequena e nem trivial, mas é o coração da própria produção carismática. E, como movimento, começou relativamente cedo. Os próprios pentecostais, e até alguns não pentecostais, consideram que a primeira obra relacionada ao pentecostalismo é Religious Affections de Jonathan Edwards escrita em 1746. Outras obras antes do Avivamento de Topeka em 1901 podem ser mencionadas como Tongue of Fire do wesleyano William Arthur (1856); Spiritual Gifts and Graces do evangelista metodista William Baxter Godbey e Pentecostal Papers: Or, The Gift of the Holy Ghost do episcopal Samuel Keen (1895). O que caracteriza essas obras é o destaque para a experiência espiritual, a “segunda bênção” e para com os dons, ou seja, como a obra do Espírito e não necessariamente com sua Pessoa.

Dr. Anthony D. Palma, pastor assembleiano
e responsável pela "perspectiva lucana" como
justificação da pneumatologia pentecostal. Roger
Stronstad, todavia, foi responsável pelo popularização
da tese e a complementou. 
Depois de Topeka e Azuza vários livros foram escritos, inclusive pelos pioneiros do pentecostalismo moderno como o controverso Charles Fox Parham (1873-1929), que produziu uma obra de escatologia onde destacava o papel central de Israel no fim dos tempos e das línguas como processo avivalístico de testemunho e evangelização mundial; William J. Seymour (1870-1922), que escreveu uma obra sobre doutrinas da Azusa Street Apostolic Faith Mission pela qual é possível ver forte influência do wesleyanismo; F. F. Bosworth (1877-1958), que já naquela época (1918) levantava questionamentos sobre o papel das línguas no Batismo no Espírito Santo como evidência física inicial, sendo talvez a primeira controvérsia teológica dentro do próprio Movimento Pentecostal [2].

No Brasil, o primeiro livro escrito por um pentecostal nativo foi Pentecostes para Todos (1931) pelo jornalista Emílio Conde. Nele Conde já inicia o livro defendendo a personalidade do Espírito Santo e depois parte para temas mais caros aos pentecostais como o Batismo no Espírito Santo. Um pouco antes, mas na mesma época, o teólogo Donald Gee, das Assembleias de Deus da Inglaterra, publicava sua principal obra Concerning Spiritual Gifts (1928) [traduzido como Acerca dos Dons Espirituais pela Editora Vida em 1987] sobre os dons espirituais e que marca o pentecostalismo até os nossos dias. Outra obra importante de Gee é Pentecost (1932) [traduzido em 2000 pela CPAD com o título infeliz de Como Receber o Batismo no Espírito Santo] onde ele trabalha especialmente a questão litúrgica da ordem do culto no contexto carismático.

Contribuições pneumatológicas

Mas, e sobre especificamente o Espírito Santo? E a pneumatologia de maneira geral? Nesse quesito os pentecostais escreveram igualmente. Os livros What Meaneth This? (1947) de Carl Brumback [tradução: Que Quer Isso Dizer? pela Editora Vida em 1960] e The Spirit Himself  (1949) de Ralph M. Riggs são exemplos entre tantos. Riggs, de maneira bem enfática, destaca logo no prefácio que o pentecostalismo está dentro de uma tradição ortodoxa da Igreja Cristã e como tal defende com vontade a divindade e personalidade do Espírito Santo. E esse destaque do Riggs é interessante porque a questão trinitária foi cara aos primeiros pentecostais. A partir da controvérsia com os unicistas houve a primeira divisão física entre os grupos dos pentecostais. Os apologistas de tradição pentecostal sempre se destacaram como defensores ferrenhos da doutrina trinitária e, no contexto brasileiro, assumiram a proeminência da apologia contra unicistas e modalistas [3].

Nas últimas décadas algumas obras eruditas de pneumatologia se destacam na produção pentecostal como o trabalho acadêmico, infelizmente não publicado [4], do pastor assembleiano e doutor em teologia pela Nova York University Anthony D. Palma na sua tese de doutorado escrita no final da década de 1960 e começo da década de 1970. Palma, através de estudos hermenêuticos, defendeu a distinção complementar entre as pneumatologias lucana e paulina. Em Paulo teríamos, segundo Palma, uma ênfase no Espírito como “transformador do íntimo” e em Lucas como Aquele que “reveste de poder”. Mas quem popularizou essa tese não foi Palma, mas o seu discípulo canadense Roger J. Stronstad, autor do livro The Charismatic Theology of St. Luke em 1984. O livro fez barulho na academia protestante norte-americana onde recebeu análises e críticas de teólogos como D. A. Carson e Anthony Hoekema.

William Menzies, que foi outro importante teólogo pentecostal, escreveu sobre a obra de seu colega Stronstad:

A tese de Stronstad representa um desafio direto aos pontos de vista evangélicos tradicionais sobre o Espírito. Se Stronstad está certo, o aspecto carismático do Espírito, do qual Lucas dá testemunho, deve ser posto ao lado do aspecto soteriológico, tão preeminente nos escritos de Paulo. Pois uma teologia do Espírito verdadeiramente bíblica deve fazer justiça à pneumatologia de cada autor bíblico. [5]

Em Strontad aprendemos que a pneumatologia lucana é diferente da pneumatologia paulina. Mas atenção: é diferente, mas não contraditória. É diferente, mas ao mesmo tempo complementar.  Enquanto Lucas fala do Espírito e sua capacitação serviçal, o apóstolo Paulo destaca o papel do Espírito como agente salvador. A teologia do Espírito Santo em Lucas é carismática, enquanto em Paulo é soteriológica. Como já afirmado.

Qual a base de Stronstad? Podemos dizer que o pentecostal canadense traz uma “nova perspetiva sobre Lucas”. Na hermenêutica de Stronstad vemos o destaque para a importância de uma teologia narrativa. A ideia hermenêutica central é que Lucas escrevia como historiador e teólogo, ou seja, temos a formação de um teologia a partir da narrativa lucana. Stronstad faz um resumo de sua abordagem: “A fim de interpretar corretamente o registro lucano do Espírito Santo devemos resolver três problemas metodológicos fundamentais: 1) a homogeneidade literária e teológica de Lucas. 2) O caráter teológico da historiografia de Lucas, e 3) a independência teológica de Lucas” [6].

Portanto, longe de ser uma mera provocação litúrgica, o pentecostalismo e sua formação teológica é uma provocação hermenêutica. A contribuição para os estudos do Novo Testamento não é pequena e, assim, podemos analisar as propostas dos teólogos pentecostais da América do Norte com uma quebra de paradigma na leitura pneumatológica lucana e paulina. É certo que essa leitura acadêmica dos pentecostais está em um contexto de debates sobre a leitura do Novo Testamento. Não é um desenvolvimento isolado e, muito menos, está restrito ao ambiente pentecostal.

Outros livros acadêmicos podem ser citados como produção pentecostal: What the Bible Says about the Holy Spirit (1976) de Stanley Horton [publicada no Brasil pela CPAD como A Doutrina do Espírito Santo no Antigo e Novo Testamento]; Abundant Living (1984), interessante obra do teólogo brasileiro Antonio Gilberto sobre o papel do Espírito Santo na formação do caráter cristão [publicado em português apenas no ano 2004 pela CPAD com o título O Fruto do Espírito]; The First Epistle to the Corinthians (1987) de Gordon Fee, uma obra de referência inclusive para teólogos não-pentecostais como comentário da epístola paulina; Renewal Theology (1988) de J. Roman Williams [traduzido como Teologia Sistemática: Uma Pespectiva Pentecostal pela Editora Vida em 2011], uma abordagem simples, mas ampla sobre a pessoa e obra do Espírito; Paul, the Spirit and the People o f God (1994) novamente de Gordon Fee [traduzido pela United Press em 1997 como Paulo, o Espírito e o Povo de Deus] onde ele trabalha a pneumatologia na teologia paulina, assunto até então sem tratamento conhecido ou publicado em língua inglesa, mesmo tendo sido este o tema de doutorado do famoso teólogo Clark Pinnock em The Concept of Spirit in the Epistles of Paul 1963); An Old Testament Theology of the Spirit of God (1995) de Wilf Hildebrandt [traduzido pela editora Academia Cristã e Edições Loyola em 2008 como Teologia do Espírito de Deus no Antigo Testamento]; Spirity and Power (2000) escrito pelos teólogos William e Robert Menzies [traduzido em 2002 como No Poder do Espírito e publicado pela Editora Vida], onde nessa obra tratam em metade dela sobre questões controversas hermenêuticas da tese da distinção pneumatológica entre a teologia de Paulo e de Lucas; Gift and Giver: The Holy Spirit for Today (2001) de Craig S. Keener; Miracles: The Credibility of the New Testament Accounts (2011) de Craig S. Keener que é uma resposta à filosofia cética de David Hume, esta mesma adotada consciente ou não por diversos evangélicos conservadores cessacionistas ou pelos liberais de cunho iluminista e/ou pós-moderno. Todas essas obras mostram como é progressivo e cada vez mais estruturado o estudo do Espírito Santo entre os pentecostais. Esses continuam a avivar essa teologia do Pneuma.

Notas e Referências Bibliográficas:

[1] BOFF, Clodovis. Teoria do Método Teológico. 1 ed. Petrópolis: Editora Vozes, p 28.

[2] Para uma breve explicação sobre as três controvérsias iniciais na teologia pentecostal veja: McGEE, Gary B. Panorama Histórico em: HORTON, Stanley M. (ed). Teologia Sistemática: uma Pespectiva Pentecostal. 10 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. pp 19-21.

[3] Como exemplo os pentecostais Paulo Romeiro, Esequias Soares e Natanael Rinaldi, todos pentecostais, por muitos anos foram os principais apologistas como movimentos não-trinitários. Eles usaram especialmente a estrutura do Instituto Cristão de Pesquisas (ICT) para esse fim.

[4] Embora uma versão resumida possa ser lida em: PALMA, Anthony D. O Batismo no Espírito Santo e com Fogo. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2002. Em inglês o título é apenas Baptism in the Holy Spirit (1999).

[5] MENZIES, William W. e MENZIES, Robert P. No Poder do Espírito: Fundamentos da Experiência Pentecostal, Uma Chamado ao Diálogo. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2002. p 60.

[6] STRONSTAD, Roger. The Charismatic Theology of St. Luke. 1 ed. Grand Rapids: Baker Academic, 1984. p 3.

2 comentários:

Valderi Felizado da Silva disse...

A diferença entre Paulo e Lucas acerca da ação do Espírito Santo é simples. Enquanto Lucas apenas dá um relato histórico da ação da propagação do evangelho, contando mais da trabalho evangelístico que da conversão íntima, Paulo toca mais no íntimo humano, de sua regeneração e da luta entre a carne e o Espírito. Por isso que é, às vezes, complicado fazer de Atos um livro de doutrina, o qual foi feito exclusivamente para ser um relato, não uma norma.

André Nogueira disse...

Até pouco tempo o movimento era conhecido por alguns criticos como um movimento formado por pessoas incultas ignorantes. Mas graças a Deus este quadro tem sido transformado. www.prosseguindoconhecer.blogspot.com.br