domingo, 26 de janeiro de 2014

Série #Músicas de Qualidade: We Believe



We Believe [Newsboys]
Cremos


In this time of desperation
Neste tempo de desespero
When all we know is doubt and fear
Quando tudo o que sabemos é dúvida e medo
There is only one foundation
Há apenas uma fundação
We believe, we believe
Nós acreditamos, acreditamos
In this broken generation
Nesta geração quebrado
When all is dark You help us see
Quando tudo está escuro o Senhor nos ajudar a ver
There is only one salvation
Existe apenas uma salvação
We believe, we believe
Nós acreditamos, acreditamos


We believe in God the Father
Cremos em Deus, o Pai
We believe in Jesus Christ
Nós acreditamos em Jesus Cristo
We believe in the Holy Spirit
Cremos no Espírito Santo
And He’s given us new life
E Ele nos deu uma nova vida
We believe in the Crucifixion
Acreditamos na Crucificação
We believe that He conquered death
Acreditamos que Ele venceu a morte
We believe in the resurrection
Nós acreditamos na ressurreição
And He’s coming back again
E Ele está voltando de novo
We believe
Acreditamos


So, let our faith be more than anthems
Então, vamos a nossa fé ser mais do que hinos
Greater than the songs we sing
Maior do que as músicas que cantamos
And in our weakness and temptations
E, em nossa fraqueza e tentações
We believe, we believe
Nós acreditamos, acreditamos

Let the lost be found
Deixe o perdido ser encontrado
And the dead be raised
E os mortos se levantaram
In the here and now
No aqui e agora
Let love invade
Deixe que o amor invada
Let the church live loud
Deixe a igreja viver alto
Our God we’ll say
Nosso Deus vamos dizer
We believe, we believe
Nós acreditamos, acreditamos
And the gates of Hell
E as portas do inferno
Will not prevail
Não prevalecerão
For the power of God
Para o poder de Deus
Has torn the veil
Rasgou o véu
Now we know Your love
Agora sabemos que o Teu amor
Will never fail
Nunca falhará
We believe, we believe
Nós acreditamos, acreditamos

sábado, 25 de janeiro de 2014

Pentecostalismo e a Suficiência das Escrituras

Por Gutierres Fernandes Siqueira


Os pentecostais não creem na suficiência da Escritura. Eles querem adicionar algo, em contradição às palavras da própria Escritura em Apocalipse 22:18. Eles querem profecias, revelação adicional através daqueles que falam em línguas, palavras especiais da parte de Deus por meio de revelações especiais. Não me surpreenderia se algum dia o Pentecostalismo produzisse uma Bíblia adicional.  [Herman C. Hanko, teólogo fundamentalista reformado]
Existem graves problemas sendo levantados pelo hábito de dar e receber "mensagens" pessoais de orientação por meio dos dons do Espírito [...] A Bíblia dá lugar para tal direção vinda do Espírito Santo [...] Tudo isso, porém, deve ser mantido na devida proporção. O exame das Escrituras mostrará que, de fato, os primeiros cristãos não recebiam continuamente tais vozes do céu. Na maioria dos casos, eles tomavam suas decisões pelo uso do que normalmente chamamos "senso comum santificado" e viviam normalmente. Muitos de nossos erros na área dos dons espirituais surgem quando queremos que o extraordinário e o excepcional sejam transformados no frequente e no habitual. Que todos os que desenvolvem desejo excessivo pelas "mensagens" possam aprender com os enormes desastres de gerações passadas e com nossos contemporâneos [...] As Sagradas Escrituras é que são a lâmpada nossos passos e a luz que clareia o nosso caminho. [Donald Gee, pioneiro teólogo pentecostal] [1]

Muitos protestantes tradicionais acusam os pentecostais de não crerem na suficiência das Escrituras porque professam a contemporaneidade dos dons, especialmente os revelacionais. Ora, esse argumento é infantil e ignorante. O aplicado pentecostal sabe que a profecia é possível, mas essa revelação deve ser exclusivamente julgada pela própria Escritura. Ou seja, nenhuma profecia contemporânea pode ser colocada em pé de igualdade com a Profecia Escrita. Nenhuma profecia complementa, substitui ou atualizada as Escrituras. A profecia é uma reafirmação sobrenatural em forma de aplicação da Palavra Escritura. A profecia, também, não é meramente um sermão, mas um sermão pode estar envolto de profecias. 

Por que os pentecostais não negam a suficiência das Escrituras? E por que tal afirmação é mera calúnia sem base teórica, mas apenas com bases empíricas que não são a “voz oficial do pentecostalismo”[2] propriamente dito? Ora, logo no início é necessário definir suficiência. O teólogo Wayne Grudem assim o faz: 

Dizer que as Escrituras são suficientes significa dizer que a Bíblia contém todas as palavras divinas que Deus quis dar ao seu povo em cada estágio da história da redenção e que hoje contém todas as palavras de Deus que precisamos para a salvação, para que, de maneira perfeita, nele possamos confiar e a ele obedecer. [3]


O conceito de Grudem é bom porque liga a suficiência das Escrituras à revelação para salvação. A Bíblia é suficiente em relação a quê? A suficiência indica que a Bíblia nos fala sobre tudo o que é necessário para a nossa salvação e relação com a pessoa de Deus. Portanto, é necessário ter em mente que a suficiência não significa exaustão de todos os assuntos. Deus não falou “tudo” na Bíblia. A suficiência não quer dizer que Deus não fale além das Escrituras, mesmo que a Sua fala pós-Escritura nada mais é do que uma reafirmação dessa Revelação Especial. 

A suficiência radical de alguns cessacionistas, especialmente da escola fundamentalista, induz para a Bíblia perguntas para a quais a Escritura não tem nenhuma resposta. Não é incomum que cessacionistas radiciais vejam na Bíblia, por exemplo, uma ciência da criação. A Bíblia não ensina qual é a melhor dieta ou o melhor sistema político- econômico, nem indica em detalhes científicos como o mundo foi criado. Há quem enxergue até a defesa da pena de morte nas Escrituras, especialmente em Romanos 12. É simplesmente risível, pois não é uma questão trabalhada pela Escritura. É apenas uma observação paulina sobre o sistema da época. Não é incomum que os crentes na suficiência radical da Bíblia a desonrem tratando a Sagrada Escritura como manual político, científico e até estético. 

Agora, é necessário cuidado. Nenhuma revelação pós-Escritura pode assumir caráter doutrinário. A revelação é nada mais do que uma aplicação sobrenaturalizada. E, como experiência individual, não é resposta coletiva para a Igreja Cristã. A revelação, muito menos, pode ser blindada na forma de tradição, liturgia, usos e costumes ou tabus comunais. E outro fator importante: com a Palavra Escrita a revelação por meio de profecias, sonhos, visões e interpretações de línguas estranhas se tornaram menos necessária, mas não totalmente descartável. Não é descartável porque o dom espiritual (veja I Co 14.) visa a edificação pessoal. Isso evidencia que em igrejas pentecostais onde há muita manifestação revelacional existe uma imaturidade doutrinária e pessoal, pois o interesse do indivíduo se sobressai sobre o interesse da coletividade na comunidade conhecida como Igreja. 

Por exemplo, a própria Escritura nos mostra que Deus se revela pela natureza - a Revelação Geral (cf. Rm 1.19, ou, “pelas coisas que estão criadas”). O apóstolo Paulo usa duas palavras gregas phaneron e ephanerōsen que trazem a tônica revelacional na natureza. É claro que a Revelação Geral é limitada, incapaz de ensinar os rudimentos da fé cristã, mas mostra claramente a grandeza de Deus. Assim, a revelação pós-Escritura se assemelha à Revelação Geral (cf. I Co 14.22). 

Referências Bibliográficas:

[1] GEE, Donald. Spiritual Gifts in The Work of Ministry Today. 1 ed. Springfield: Gospel Publishing House, 1963. p 51.

[2] O pentecostalismo clássico não é papista e nem possuiu um grande documento de catecismo, mas há vozes oficializadoras como a Conferência Mundial Pentecostal que ocorre desde o início desse movimento e, teologicamente, expressa bem o pensamento pentecostal, para o bem e para o mal. Alguns delegados dessas conferências desenvolveram os rascunhos de uma teologia mais sólida como Donald Gee, enquanto outros expressaram certa decadência com David (Paul) Yonggi Cho. O Brasil foi sede da oitava conferência em 1967 com o tema “O Espírito Santo glorificando a Cristo” e será novamente em 2016. Veja: CONDE, Emilio. O Espírito Santo glorificando a Cristo. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1967. 

[3] GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática: Atual e Exaustiva. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 1999. p 86.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

"O marido é meu. Jeová vai te pegar!"

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Caros leitores,

Vejam o vídeo abaixo. É mais uma amostra como parte considerável da Igreja Evangélica- e Pentecostal- perdeu o senso do ridículo. Sim, é urgente o resgate das Escrituras não só para a qualidade doutrinária, mas também para a recuperação do, repito, senso do ridículo.

a) Observe a histeria das "irmãs". "O marido é meu", canta uma. Enquanto outra fica empolgada com essa afirmação de posse.

b) Veja como o culto cristão virou uma espécie de Programa do Ratinho.

c) Observe a falta do senso do sagrado, a bagunça, as movimentações, a falta de ordem... Sim, é um programa de auditório bizarro.

d) O culto é para adorar a Deus, mas a música é uma reafirmação da "mulher macha".

e) E o velho espírito de vingança está, como sempre, no ar. Junto, é claro, com a "teologia do cangaço": "Jeová vai te pegar"!

E há quem acredite que a música pentecostal não está em crise. Caros, esse tipo de manifestação não é exceção, ou uma minoria. Infelizmente, hoje é a regra.



terça-feira, 21 de janeiro de 2014

“A Arte da Presença”. Ou como lidar com a tragédia alheia?

Por Gutierres Fernandes Siqueira

É difícil lidar com a tragédia alheia. É complicado encontrar palavras diante de uma pessoa enlutada. Quem nunca pensou em evitar algum velório? Ou quem nunca usou expressões como “Deus tem um propósito nesse sofrimento”. Bom, na maioria das vezes essa verdade não serve de consolo.

Na riqueza das Sagradas Escrituras encontramos o gênero do lamento. Mas hoje na igreja há pouco espaço para lamentações. Há muito “consolo” meio piegas e despropositado para o momento do luto.

David Brooks, colunista do jornal norte-americano The New York Times e um dos melhores escritores da imprensa americana, escreveu um interessante artigo intitulado The Art of Presence (A Arte da Presença). Nesse texto, o colunista Brooks indica um outro blog escrito por Catherine Woodiwiss, vítima de uma grande tragédia.  A história Woodiwiss é triste. Ela perdeu a irmã mais velha morta no Afeganistão em 2008 e, agora no último ano, a Catherine  foi atropelada em Washington enquanto andava de bicicleta. O fruto do atropelamento foi um rosto tão desfigurado que só era possível se alimentar por sonda.

Catherine ensina “dez lições do trauma”. Vejamos:

O trauma, ou tragédia, nos transforma permanentemente. Não existe essa de “traz de volta o que é meu” ou “você voltará a ser o que era antes”. A tragédia é uma marca tão profunda que não se apaga. É interessante observa que Cristo, mesmo triunfante, carrega em si as marcas da crucificação.  “Não existe um ‘de volta para o velho eu’. Você está diferente agora, ponto final”, escreve Woodiwiss .

A presença sempre é melhor do que a distância. Estar perto é essencial. A vítima da tragédia “não precisa de mais espaço”, mas sim de espaço ocupado. É melhor errar pela presença do que pela ausência.

A cura é sazonal. Não é linear. A cura do trauma não é um passo a passo progressivo. O luto pode passar rapidamente e, depois de algum tempo, voltar com força.

Há amigos que são bombeiros e outros são construtores. Difícil é ser ambos. O bombeiro arrisca a vida nas primeiras horas da tragédia. O construtor é menos enérgico, mas permanece mais tempo na gestação de uma nova e mais confortável realidade. “A dura lição do trauma é aprender a perdoar e amar o seu parceiro, o melhor amigo, ou familiar, mesmo quando eles falham em um desses papéis. Por outro lado, uma das maiores alegrias é encontrar os dois tipos de companheiros ao seu lado na viagem”, escreve Woodiwiss.

A angústia é social, assim como a cura. Nesse sentido, como é preciosa a oração coletiva de uma igreja ou mesmo a família reunida em torno do enlutado.

Não ofereça comparações. “Eu sei como você sente a perda do seu filho. Perdemos o nosso querido cãozinho recentemente”. Não, nunca faça comparações.

Permita que o sofredor do trauma conte a sua própria história. Deixe essa pessoa se abrir, falar profundamente, mesmo que tal conversa soe como murmuração.

A manifestação do amor que surpreende ajuda a curar. O cartão de um velho amigo da faculdade, por exemplo, ajuda nesses momentos. Ora, como é alentador receber o carinho de alguém cujo contato se perdeu há anos.

A tragédia pode deixar alguns lugares coloridos com tons de cinza, ou seja, muito do que trazia alegria pode ser motivo para tristeza. É importante entender isso.

A tragédia pode tornar o sofredor mais resiliente, forte e transformar momentos de alegria em profundidade de espírito.

Ora, são lições preciosas. Que o Senhor nos ajude em sabedoria diante da dor.

Leia em inglês aqui e aqui.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

A difícil vida de um blogueiro pentecostal

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Este blog é de linha pentecostal. Isso é meio óbvio, mas é necessário reafirmar. O Blog Teologia Pentecostal, na pessoa de seu autor, concorda com a pneumatologia pentecostal clássica expressa por grandes pensadores carismáticos como Stanley Horton, Donald Gee, Antonio Gilberto, J. Rodman Williams, Myer Pearlman, Anthony D. Palma, William Menzies, Roger Stronstad etc [1]. O blog abraça a Confissão de Fé assembleiana na questão do Batismo no Espírito Santo e dos dons espirituais, portanto, é pentecostal em essência.

Agora, o autor deste blog não tem nenhum compromisso em manter e alimentar a teologia popular dos púlpitos. Essa mesma teologia que, algumas vezes, é sacralizada e tida como oficial. O compromisso é, em primeiro lugar, com as Sagradas Escrituras, e em segundo lugar, com a fé pentecostal clássica. Portanto, este blog sempre será crítico de um pentecostalismo deturpado pelo tempo e pelos pregadores populares. Essa crítica ao pentecostalismo não é, de forma alguma, aderência à fé protestante dita tradicional e divergente dos pentecostais. O pentecostalismo precisa adquirir a maturidade suficiente de abraçar e incentivar críticas internas para o crescimento e amadurecimento do próprio Movimento Pentecostal. Não é sábio e nem desejável um comportamento corporativista.


Não é raro perguntarem se eu sou realmente um assembleiano. Sim, sou e reafirmo a minha crença nas bases carismáticas advindas da Rua Azuza. Falo isso, pois muitos assembleianos desconhecendo sua própria teologia se escandalizam com a reafirmação dela. É uma situação meio bizarra. Eu recebo broncas de assembleianos por afirmar a própria teologia da denominação. É uma volta às origens que é tida como uma grave inovação.

Muitos fiscais do pentecostalismo são desconhecedores da própria doutrina pentecostal, pois continuam presos em clichês e modinhas advindas de pregadores populares. Dificilmente tiveram contato com a moderação de um Donald Gee, por exemplo, que ainda no começo do século XX condenava um pentecostalismo místico, barulhento e sem substância. Querem medir o grau de pentecostalidade de alguém na base de crendices já rechaçadas pelos pioneiros da teologia pentecostal.

O pentecostalismo, diferente do calvinismo ou mesmo do luteranismo, não é um sistema doutrinário enlaçado que abrange todos os aspectos de uma Teologia Sistemática. É, e continua sendo, uma doutrina pneumatológica - e apenas isso. Portanto, ser pentecostal independe da soteriologia, eclesiologia, antropologia ou mesmo da escatologia de algúem [2]. O compromisso formal do pentecostal é com a pneumatologia. É na Doutrina do Espírito Santo que alguém mostra alguma diferença para receber tal classificação.

Portanto, cabe aos “fiscais da pureza pentecostal” estudar um pouco mais a história e a doutrina do pentecostalismo.

Nota:

[1] Apesar de discordar, algumas vezes, em outras matérias teológicas com esses mesmos autores, especialmente em escatologia.

[2] Ainda que os pentecostais, especialmente agrupados em grandes denominações como Assembleias de Deus (Brasil e EUA), Igreja O Brasil para Cristo, Igreja do Evangelho Quadrangular (EUA e Brasil) e Igreja Deus em Cristo (EUA) mantêm alguma uniformidade nessas doutrinas. Por exemplo, a maioria dos pentecostais são pré-tribulacionistas dispensacionalistas. Mas a fé pentecostal não depende desse sistema escatológico.

domingo, 19 de janeiro de 2014

Lições no Livro do Êxodo [Parte 1]

Por Gutierres Fernandes Siqueira
Ao estudar este maravilho livro para as aulas da Escola Dominical é possível encontrar inúmeras lições para os nossos dias. Por isso, pretendo escrever algumas postagens sobre a riqueza desse aprendizado. 

Deus age. Eis um dos temas presente no Êxodo. Ele é um Deus milagroso. Agora, isso não significa que Deus se faça um interventor na maior parte do tempo. Na verdade, na maior parte do tempo Ele está, digamos, como um observador e oculto transformador. O deísmo prega que Deus não age, pois o mesmo já não está “nem aí” para com suas criaturas. Os místicos deterministas dizem que tudo é uma ação direta de Deus. Ambos estão errados. Deus, por exemplo, mandou Moisés desafiar faraó a libertar o povo de Israel, mas logo de cara isso acarretou ainda mais opressão para o povo israelita (cf. 4). Em um primeiro momento parece que Deus estava distante, mas o Todo-Poderoso nunca abandona o seu povo, mesmo que a aparência seja de desconsolo. 

Ninguém é tão especial que não possa ser objeto da ira de Deus. Portanto, estejamos vigilantes. O capítulo três do Êxodo é sobre a chamada de Moisés, mas já no capítulo quatro lemos: “Numa hospedaria ao longo do caminho, o Senhor foi ao encontro de Moisés e procurou matá-lo” (v. 24). Por que isso? Porque Moisés não havia circuncidado o filho. Moisés, em um lapso de descuido, não tomou para si a representação da aliança. Esse rito era uma tarefa do pai para estender a aliança divina aos seus descendentes, mas quem “salvou a pele” de Moisés fora Zípora, sua esposa, que cortou o prepúcio do garoto. Zípora, na sua obediência baseada em “apuros”, garantiu o ministério do esposo. Logo, tem uma terceira lição: a esposa do líder chamado por Deus é essencial na sobrevivência desse ministério. 

O culto a Deus não pode acontecer sob a égide cúltica de outros deuses. Por que a fé bíblica é exclusiva? Na cultura pós-moderna, ou melhor dizendo, hipermoderna, a tolerância ganhou uma nova conotação: eu preciso não somente respeitar o pensamento alheio, mas também abraçá-lo como meu. É a nova tolerância. Na antiga tolerância eu não precisava abraçar a ideia do outro, pois bastava respeitar o direito de expressão. Só que a nova tolerância quer ir além. Portanto, ninguém deve ser exclusivo, mas todos devem exercer uma atitude “inclusiva”. 

Bom, isso não é somente hipocrisia na prática como impossível- inclusive - na teoria. A ausência de qualquer “choque de visões” demandaria uma completa renúncia de pressupostos. E, como todos sabem, isso é impraticável. Portanto, ao exigir tolerância do outro, logo o exigente pede que o “intolerante” renuncie suas ideias e abrace a própria tese do demandante. Portanto, a nova tolerância é uma forma de exclusividade do ideal e a homogeneidade do discurso disfarçada em “atitude democrática e respeitável”.  A civilidade do homem contemporâneo não depende de uma tolerância irreal, mas sim de um respeito pela liberdade do outro. 

Essa afirmação já virou até clichê, mas é verdade quando se fala “na intolerância dos tolerantes”. Basta ver que, em ambientes “tolerantes” é visível o exercício da intolerância. Faraó disse “Ide, sacrificai ao vosso Deus nesta terra” (8.25). Bom, qual o mal nisso? Ora, o Egito era o ambiente dos inúmeros deuses. O rio, as rãs, o próprio faraó... todos eram deuses. Assim, Yahweh seria mais um deus entre os deuses. E Yahweh perderia Sua identidade enquanto os deuses dos egípcios manteriam a sua forma e essência. A “tolerância” de faraó expressava a verdadeira renúncia do culto de Israel.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

O tempo de chorar chegou! Ou, por que sempre queremos um culto “animado”?

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Certa vez eu estava quieto e sentado no banco da igreja enquanto o pregador- sem nenhum conteúdo substancial- gritava sob “o poder de Deus”. Uma pessoa ao meu lado ficou visivelmente incomodada com a minha “frieza”. Então, não demorou muito para que ele me puxasse pelos braços e começasse a orar por mim invocando o “poder de Deus” em minha vida. Como alguém poderia ficar quieto mediante a suposta manifestação divina? [1]
Bom, na Igreja Pentecostal é quase um pecado não se envolver na empolgação. A importância não está na mensagem, ou seja, na substância, mas sim em um tipo de forma. O culto só é bom se for “animado”. E essa animação se resume às gritarias, línguas sem interpretação e pulos. “Assim, se toda a igreja se reunir e todos falarem em línguas, e entrarem alguns não instruídos ou descrentes não dirão que vocês estão loucos?” [1 Coríntios 14.23]. O questionamento paulino é simplesmente ignorado. 

A Igreja: Exército ou Orquestra?
A liturgia do culto precisa refletir o seu objeto, ou seja,  o ordenamento do culto necessita transparecer a Pessoa e Glória de Deus. Como Deus é Aquele que espanta e fascina, traz alívio e terror, da mesma forma a liturgia nem sempre será única, mas sim uma mistura de sentimentos e ações. A ordem cúltica, longe de uma postura monolítica ou monotemática, reflete o pluralismo das manifestações de Deus. “Há diversidade”[2], é a exclamação de Paulo aos coríntios (cf. 1 Coríntios 12.6). É o Deus que distribui o Seus dons e talentos para pessoas distintas. Ele que é em si plural, o Deus trino. Esse Deus que fascina e causa temor é apenas um exemplo da multiforme manifestação de Deus.

Na diversidade do culto que reflete a diversidade de manifestações de Deus há cultos para refletir e celebrar. Há cultos para chorar e outros para dançar etc. Sendo que o objeto não muda, mas a manifestação dEle certamente é mutável.  A liturgia assembleiana, apesar de gloriar-se de uma pentecostalidade, lembra mais uma pequena banda do exército. Aliás, os assembleianos gostam de se comparar aos militares. Bom, mas a diversidade que Paulo traz a tona lembra uma orquestra. O ordenamento é visto de longe, a unidade também, mas cada instrumento é diferente, contraditório e ao mesmo tempo complementar. A sinfonia é a linha que liga toda a orquestra plural.

Portanto, nesse contexto de diversidade é importante entender que o culto não precisa ser sempre “animado”. E no outro extremo, é necessário lembrar que nem toda mensagem precisa ser “chocante”. Alguns, querendo reagir ao estado festivo da Igreja Evangélica contemporânea fazem de seu ministério uma constante do “choque” e das “mensagens de impacto”. É outra forma monolítica.

Repito, o culto que reflete a natureza de Deus revelada nas Escrituras nunca será monolítico.


Nota:

[1] Este texto é parte de um artigo maior a ser publicado em data futura sobre a liturgia pentecostal.

[2] Há quem defenda a tradução de διαιρέσεις (diaireseis) por “diferentes distribuições”. Assim, a “diversidade dos dons está fundamentada em sua distribuição de dons” [CARSON, D. A. A Manifestação do Espírito: A Contemporaneidade dos Dons à Luz de 1 Coríntios 12-14. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 2013. p 34].