terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

O que não é santidade? [Parte 2]

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Muitas vezes é mais didático começar um conceito pelo uso negativo dele. Por isso, nessa pequena série estamos estudando sobre o que não é santidade.



1. Santidade não é apego excessivo pelo passado. Nenhum grupo religioso digno de respeito despreza a tradição e a história. Agora, honrar os pais do passado não deve ser confundido com o modo de vida vivido por eles. O passado idílico não existe e é uma utopia às avessas dos conservadores. É clichê, mas não custa lembrar a famosa frase do teólogo luterano Jaroslav Pelikan: “Tradição é a fé viva daqueles que já morreram. Tradicionalismo é a fé morta dos que ainda vive”. Jesus teve sérios problemas com aqueles que abraçam entusiasmadamente a tradição em detrimento de outras virtudes (cf. Mateus 15. 1-20). Há uma mania no ser humano em depreciar as gerações mais novas com a famosa frase “no meu tempo não era assim”. Ora, muitas vezes não era mesmo, mas talvez pior.

2. Santidade não é enxergar pecado em tudo. Isso se chama malícia e é igualmente pecado. “Para os puros, todas as coisas são puras; mas para os impuros e descrentes, nada é puro. De fato, tanto a mente como a consciência deles estão corrompidas”, disse Paulo a Tito (1.15). Desconfie de qualquer pessoa muito melindrosa. Sim, aquele que acha pecado e impureza em tudo, logo o problema está nele. Gente que é capaz de ver sensualidade até em desenho animado. O libertino acha que nada é pecado. O malicioso é incapaz de ver pureza. Ambos são derivações do mesmo mal.

3. Santidade não é tipo de personalidade. Normalmente pessoas extrovertidas, festivas e alegres não são ditas como santas. Já pessoas sérias, introvertidas e quietas são tidas como exemplo. Bom, a santidade não é uma personalidade. É necessário cuidado com isso, pois a personalidade não é caráter.

[Continua...]

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Você já ouviu falar no pastor Diótrefes? Será que ele pastoreia a sua igreja?

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Uma leitura descuidada da Bíblia não permite observar e estudar um pastor chamado Diótrefes. Será que ele não anda pastoreando sua congregação? Diz 3 João nos versículos 9 e 10:  

Escrevi à igreja, mas Diótrefes, que gosta muito de ser o mais importante entre eles, não nos recebe. Portanto, se eu for, chamarei a atenção dele para o que está fazendo com suas palavras maldosas contra nós. Não satisfeito com isso, ele se recusa a receber os irmãos, impede os que desejam recebê-los e os expulsa da igreja.

Isso mesmo. O apóstolo João denuncia um pastor chamado Diótrefes. Um sujeito orgulhoso, com mania de grandeza e autoritário. Ele apreciava “ser o primeiro”, o "primaz".  Além disso, tinha mania de levantar calúnias contra outros pastores. No original grego indica que Diótrefes falava com fluência, mas o conteúdo era vazio. Não hospedava nenhum evangelista e, também, agia por conta própria- sem um supervisor a quem poderia prestar contas. Era egoísta e mesquinho. E o pior: proibia a comunhão de sua congregação com outros irmãos e evangelistas. Diótrefes simplesmente exercia a excomunhão para quem desobedecesse. Pelo nome que significa “filho de Zeus” se especula que ele fosse de uma família aristocrática. Assim, será que Diótrefes queria levar os costumes familiares para a Igreja do Senhor?

Quais são as lições desse episódio?

1. A sede de poder é um mal humano e presente em todas as eras. Como John Stott lembra, o problema de Diótrefes não era doutrinário, mas sim uma ambição pessoal. Não é de hoje que alguns homens veem a obra de Deus como um passatempo pessoal e trampolim para o poder. Esse mal já afetava a igreja dita primitiva. Muitas vezes o poder é mais sedutor do que o dinheiro. O inescrupuloso deputado Frank Underwood, personagem fictício da série House of Cards, já dizia: "Dinheiro é mansão no bairro errado, que começa a desmoronar após dez anos. Poder é o velho edifício de pedra, que se mantém de pé por séculos. Não respeito quem não sabe distinguir os dois."

2. A liderança doente sempre está em busca do primado. É conhecida a assertiva de Jesus: “Quem quiser ser o primeiro deverá ser escravo de todos” [Marcos 10.44]. É conhecida, mas pouquíssima praticada. Diótrefes corria para ser o primeiro, o mais importante, o maior entre todos eles. Quantas vezes você já ouviu “essa igreja nasceu no meu ministério” ou “Deus me levantou para uma grande obra e, por isso, aí daqueles que contestarem”?

3. Um mal líder é autocentrado. Sempre procura desqualificar outros líderes. Vive para si. Não tem supervisão. Não se submete a ninguém. Ele sempre decide, não divide. Sempre tem a primeira e a última palavra. É um pequeno deus.

4. O líder desqualificado é autoritário.  A Bíblia não dá espaço para excomungar alguém por discordar da liderança naquilo que lhe é própria. Diótrefes, como autoritário e autocentrado, excomungava quem cometia o grave pecado de comunicar e comungar com outros evangelistas.

Conclusão: um líder assim não pode ser protegido. Logo, como João fez, gente assim precisa ser repreendida publicamente.


quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

O que não é santidade?

Por Gutierres Fernandes Siqueira

A santidade é um tema simples, mas ao tempo tempo é incrivelmente distorcido na mentalidade evangélica. Infelizmente, a santidade  ainda é vista como parte do esforço humano e não como uma graça advinda do Senhor. A santidade é vista como um muro a ser construído e não como um presente imerecido a ser agradecido. Portanto, popularmente ser santo é exercer boas coisas- evitando um montão de mundanismos- e é transformar o interior a partir do exterior. Além de construir um caráter a partir do próprio eu, ou seja, uma atividade impossível, tresloucada e irrealista. "Vocês, fariseus, limpam o exterior do copo e do prato, mas interiormente estão cheios de ganância e da maldade”(Lucas 11.39), advertiu severamente Cristo em um debate com os fariseus.

Agora, neste texto quero discutir em pontos o que não é santidade. Vejamos:


1. Santidade não é sinceridade irrestrita. Falar sem medir consequências é tolice, não santidade. É estupidez, não virtude. O contrato social muitas vezes demanda silêncio, tolerância e, também, certa ignorância.
2. Santidade não é o uso de um determinado modelo de roupa. Até quando alguns evangélicos vão insistir nesse erro básico? A questão é o pudor, a modéstia, a moderação. Não é o modelo X ou Y. Não é a moda contemporânea ou a moda do século XIX.
3. Santidade não é o exercício do evangeliquês. Não é porque você fala na linguagem da Almeida Corrigida que isso o torno mais puro ou santo. Não é porque você chama alguém de “varão”, “vaso”, “irmão”, “bênção” que isso o torna mais iluminado. Lembre-se, o evangeliquês é apenas linguagem de gueto. É gíria. Sim, apenas isso.
4. Santidade não é cara de “limão azedo”. Não é a gravidade de uma expressão ou a sisudez que nos aproxima do Senhor. Ser sempre grave, sisudo ou sério não é santidade, mas chatice. Ou, como dizem, pode ser falta de um(a) namorado(a).
5. Santidade não é o modo Hillsong de louvor. Eu, particularmente curto a banda australiana Hillsong, mesmo discordado da teologia água com açúcar pregada na igreja de mesmo nome. Agora, alguns acham que cantar de olhos fechados e com as mãos levantadas em uma simulação de transe é santidade. Não, meu amigo, isso é apenas um estilo. Isso mesmo, um estilo.
6. Santidade não é privação da cultura e das atividades sociais. Se você exerce um “puritanismo” anticultural certamente seria daquele grupo que criticou Jesus: “Aí está um comilão e beberrão, amigo de publicanos e pecadores" (Lucas 7.34). Jesus exerce o seu primeiro milagre numa festa. Isso em si já é uma grande mensagem.


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A Série "O que não é santidade?" continua em mais dois artigos.


domingo, 16 de fevereiro de 2014

“Escândalo” é uma palavra pequena



Por Gutierres Fernandes Siqueira

Conversando com alguns obreiros fico profundamente triste. E como pentecostal profundamente envergonhado. Isso porque cada história que ouço seria capaz de desviar um crente em crise de fé. Enquanto alguns líderes se preocupam com palmas na liturgia, o cenário de opressão, nepotismo, falsas profecias e corrupção se alastra por muitos templos. Ou seja, estão engolindo camelo enquanto coam mosquitos. Vejamos alguns casos:

1.  Um jovem pastor-presidente de um grande ministério costuma ameaçar quem faça crítica a ele na internet com a exclusão da membresia. E, sem nenhuma reunião prévia, troca pastores que faltam a uma reunião ou porque não levam algum membro para o batismo. Sim, isso acontece sem nenhuma reunião prévia. É um déspota. Esse mesmo pastor ameaçou os seus críticos com uma frase bem sugestiva: “Você vem com um carro, eu vou com um caminhão”. Bem cristão!

2. Um pastor-deputado negou conhecer o heresiarca sul-coreano Reverendo Moon em rede de televisão. Eu mesmo assisti o programa nesse dia. Ele simplesmente mentiu. Um vídeo no YouTube provava que o “nobre” deputado conhecia e mantinha lanços profundos com esse novo cristo. Segundo o portal Gospel Mais, o pastor que postou os vídeos foi ameaçado de morte. E, além disso, caiu no ostracismo completo.

3. E as profecias encomendadas? Em um desses casos o pastor-presidente de uma mega-igreja recebeu uma “profecia” indicando que o filho seria o futuro presidente e líder naquela poderosa e rica congregação. Risível. Profecia bajuladora. É falso profeta sem nenhuma dúvida. E o estatuto que é mudado simplesmente para perpetuar um líder no poder?

Bom, chega de nojeira por hoje, pois “escândalo” é uma palavra ainda pequena para definir esses líderes. E o que podemos fazer? 01) Orar; 02) denunciar e abrir os olhos das pessoas ao redor, mas com sabedoria; 3) parar de contribuir para o bolso direto dessa gente e contribuir com a obra verdadeira de outras formas. E, para não ser subtraído pela nojenteira desse gente, buscar a mais íntima comunhão com Deus.

PS: Neste artigo não citei nomes por alguns motivos: 1) preservar os obreiros que compartilharam essas informações comigo; 2) pela facilidade em identificar tais líderes; 3) e, também, pela facilidade como essas lideranças acessam advogados que são capazes de tirar conteúdo do ar em uma censura velada sob alegação de “crime de honra”.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Jesus, um mestre moral?


Por Gutierres Fernandes Siqueira

O secularismo normalmente não é ofensivo e nem desdenha de Cristo, mas obviamente nega sua deidade. No secularismo- assim como nas teologias modernas e pós-modernas- Jesus Cristo é um mestre moralista. Agora, uma análise atenta do Evangelho dificulta qualquer leitura de um Cristo meramente como “exemplo” de “gente boa”. Na verdade, era se considera Deus. Logo, diante de Cristo só há duas reações possíveis e lógicas: o abraço da fé como o Messias e o próprio Deus encarnado ou o desprezo por um sujeito orgulhoso com tendências megalomaníacas. Portanto, tê-lo apenas como “mestre da moral” é uma leitura pobre do Evangelho, seja pelo crente ou pelo incrédulo. O apologista C. S. Lewis já nos alertava sobre essa questão lógica.

Esse e outros pequenos textos na página do Blog Teologia Pentecostal.

www.facebook.com/teologiapentecostal

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

O mundo fantasioso do tradicionalismo wellingtoniano

Por Gutierres Fernandes Siqueira


“Nós estamos, paulatinamente, imitando e aceitando os costumes dos samaritanos”. 
 “Os samaritanos trouxeram alguns corinhos e muita ‘bateção’ de palma, alguns conjuntos que começam o culto para animar… irmãos, culto não é programa de auditório” .

"Estamos caminhando para uma igualdade, já existe muitas coisas do costume dos samaritanos que nós já estamos aceitando. Há muita coisa entre nós que não é da Assembleia de Deus”.

É lamentável ouvir essas frases do principal líder da Assembleia de Deus mergulhado em tamanha miopia. Veja o vídeo e o comentário a seguir.




Para o pastor José Wellington Bezerra da Costa a Igreja Evangélica Assembleia de Deus passa por um mal estar. A denominação “não é mais a mesma”. E ele está certíssimo. O clima de indiferença e apatia nos cultos assembleianos é assustador. Os grupos de jovens minguam e o “fervor pentecostal” é mais história do que realidade. Por onde você anda, seja onde for, a apatia é a palavra de ordem. Mas, como muitos outros tradicionalistas, Wellington aponta que a causa dessa frieza e falta de avivamento é a modernização dos costumes. Esse discurso não é novo e nem exclusivo dele, mas é uma pena que um homem de tamanho destaque repita essa bobagem. 

Ele diz que nós não devemos ser “animadores” porque o “culto não é programa de auditório”. Certo, sim, certíssimo. Mas como exemplo ele fala em palmas e coreografias. Ora, senhor Wellington, o que dizer dos inúmeros pregadores megalomaníacos que pregam constantemente no púlpito do Belenzinho? Faça esse exercício e veja, pois a maioria dos pregadores que acessam aquele púlpito são “animadores de auditório”. Falo isso, porque já visitei aquele igreja o suficiente para observar esse dado estatístico. O exemplo poderia começar de cima.

Wellington é evasivo, mas insinua que a abertura dos costumes é um mal na Assembleia de Deus. Dá vontade de rir. Em primeiro lugar, ele prega na televisão. Em segundo lugar, a própria igreja no Belém, onde ele pastoreia, de longe não lembra mais aquele estereótipo assembleiano, ou seja, homens de social e mulheres de saia. O padrão não são essas “reuniões de obreiros” postada no vídeo, mas sim o dia a dia daquela congregação "bem mais liberal" do que o discurso wellingtoniano suporta. 

Eu, pessoalmente, já ouvi esse mesmo discurso do referido pastor em outras reuniões. É cansativo, pois em tamanho palavreado evasivo a Assembleia de Deus continua com problemas mais sérios do que palmas na liturgia. E problemas esses que o próprio Wellington está envolvido (disputa por poder, caciquismo, nepotismo etc.). 

Vamos crescer!

PS: Se você leu esse texto e pensou que eu já deveria estar fora da Assembleia de Deus por discordar de seu principal líder, logo pensou bobagem. A Assembleia de Deus é maior do que pastor X ou Y. A Assembleia de Deus não é um bloco com dono. É uma denominação que, apesar de seu episcopado coronelista atual, nasceu congregacional e sempre terá um espírito congregacional. 

PS 2: Se você acha que o pastor José é incriticável, eu peço, por favor, que você leia a Bíblia. Faça um plano de leitura anual, pois fará bem para a sua alma.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Emocionados com os orixás

Um Moisés pós-moderno escrevia sobre a emoção de ver a expressão autêntica de fé no Bezerro de Ouro
Por Gutierres Fernandes Siqueira


Nesses últimos dias li dois textos que expressam bem a decadência de uma teologia protestante com complexo sociológico.  Em ambos, por coincidência, os autores comentavam a emoção que sentiram ao ver a expressão religiosa em cultos afrobrasileiros. Para os autores, a tolerância nasce quando você chora diante do culto alheio.

E eu choro com tamanha bobagem e hipocrisia.

A tolerância pós-moderna não é apenas o respeito pelo direito de culto para todos, a liberdade cúltica. Não e não, mas vai além! Agora precisamos apreciar qualquer manifestação do sagrado. Bom, o sujeito que não suporta nem a tia e nem a colega de trabalho, agora é simplesmente capaz de se emocionar com o primeiro deus animista da moda. Pura hipocrisia, mas "pega bem" em uma roda de conversas na Vila Madalena.

Se Moisés fosse pós-moderno ele escrevia um texto emocionado sobre a "experiência autêntica" de se adorar o Bezerro de Ouro? Risos e mais risos. E Jesus, quem sabe, poderia ter sido menos bruto com os fariseus e não chamá-los de "filhos do diabo". Será que Jesus não enxergava que todas as "expressões de fé" são validas e equiparáveis se feitas com sinceridade? Ora, e quem disse que os fariseus não eram sinceros?

E os profetas que combatiam Moloque? Será que eles pensavam em manifestações religiosas “sem autenticidade” ou todas as crenças eram válidas? E por que Paulo era tão preocupado com movimentos judaizantes? Não poderia ter sido mais tolerante com esse diálogo interreligioso entre judaísmo e cristianismo? Ou Paulo percebia o óbvio: quando duas visões diferentes e opostas começam um namoro, logo uma das visões precisará ceder ao ponto de perder a própria identidade. Ora, todo casamento não é a formação de uma “só carne”?




domingo, 2 de fevereiro de 2014

Deus não é indiferente a nossa covardia e reage a ela!

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Deus exige demais do ser humano? Essa pergunta é estranha, mas ao mesmo tempo é inconscientemente feita por muitas pessoas. Deus normalmente é apresentado por um certo calvinismo vulgar como o Inflexível, o Soberano cuja ação jamais reage ao ser humano, mesmo que em sua grandeza sejamos esmagados. Sendo, inclusive, um ser desprovido de qualquer emoção. Ele é tão Santo, mais tão Santo, que nenhuma concessão é feita para com a fraqueza do homem. Assim, a determinação do Poderoso Deus é quase de um Demiurgo, pois não importa a realidade do mal provocada por seus desígnios. Ele exige tanto que o homem vive sufocado no desespero.

A Soberania de Deus é uma doutrina bíblica e, logicamente, importante, mas o medo do pelagianismo, do Teísmo Aberto e da Teologia do Processo não pode colocar o evangélico em um beijo escandaloso com o hipercalvinismo. Deus é Soberano, mas não é o Inflexível, o Imovível. A Bíblia não se expressa dessa maneira. Deus reage ao ser humano e às suas circunstâncias, tanto para o bem como para o mal. E isso é um fato. Mas como se Ele é o Rei do Universo? Bom, Deus é certamente mais compreensivo do que muitos pensam e algumas pregações suportam.

O texto de Êxodo 13.17 diz: “E aconteceu que, quando Faraó deixou ir o povo, Deus não os levou [nāḥāh] pelo caminho da terra dos filisteus, que estava mais perto; porque Deus disse: Para que porventura o povo [nāḥam] não se arrependa, vendo a guerra, e volte ao Egito”. Observou? Deus reage à covardia do povo. Ele diz: “Ei, mudem de rota, pois se pegarem este caminho logo desistirão diante da primeira batalha”. Deus mandou o povo sair do Egito. Agora, Ele estava a guiar o caminho mais longo porque simplesmente reagiu ao despreparo do povo. Observe, essa reação não é com uma advertência para a coragem ou uma promessa de livramento. Deus decide soberanamente que os hebreus deveriam mudar o caminho.

O verbo hebraico nāḥāh (levar, conduzir, guiar) apresenta, particularmente nesse texto, uma ligação com o verbo hebraico nāḥam (arrepender-se). É como se o autor bíblico fizesse um jogo de palavras. Só que a ação de conduzir é de Deus, enquanto a ação de arrepender-se é do homem. Victor Hamilton [1] chama a atenção para as consoantes n-h-m no verbo levar [os levou - nā·ḥām]. Veja como o verbo  nāḥam (arrepender-se)  tem a mesma raiz das consoantes de levar (nāḥām). Essa ligação tão estreia mostra como o ato de conduzir estava condicionada ao pesar do coração hebreu. Vulgarmente, dessa questão exegética se conclui que Deus age como um pai que compra um doce para um filho que chora diante de uma queda.

Deus se arrepende?

Agora, mais importante que essa ligação é observar que o arrependimento dos israelitas, como fato esperado em uma eventual batalha com os filisteus, é o mesmo verbo para designar a mudança de atitude de Deus após a oração de Moisés (cf. Êxodo 32.11-14). Deus como Soberano não deixa de conduzir (nāḥāh) o Seu povo, mas ao mesmo tempo a situação humana afetou as decisões divinas (nāḥam). Deus não se arrepende, como um homem acusado pela consciência moral, mas Deus reage ao arrependimento do ser humano (cf. 1 Sm 15.11,35 e 29).

Deus não só reage ao sentimento positivo do arrependimento, mas também ao medo, ao pavor, à covardia e, também, à piedade. Evidentemente que Ele não é pego de surpresa ou que o Senhor mude de ideia por mero capricho ou despreparado. Muito menos Deus desconhece o futuro. O conhecimento prévio é um atributo divino e o texto de Êxodo 13.17 é prova disso. Como J. I. Packer escreveu:

Não já insinuação de que essa reação não tenha sido prevista, nem que Deus tenha sida tomado de surpresa, e que ela não estivesse estabelecida em seu plano eterno. Não há mudança alguma em seu propósito eterno quando Ele começa a agir em relação a uma pessoa de maneira diferente. [2]
Portanto, é interessante observar que Deus algumas vezes “muda de ideia” justamente conhecendo a nossa fraqueza. O apóstolo Paulo diz: “Não vos tem sobrevindo tentação que não seja comum aos homens; mas Deus é fiel, o qual não permitirá que sejais tentados além das vossas forças, mas também com a tentação proverá o meio de saída para poderdes suportá-la” [1 Coríntios 10.13 NVI]. O texto paulino sinaliza alguma flexibilidade e individualização da relação de Deus com o homem, assim como o Deus compreensivo dos hebreus diante da ameaça egípcia.

Referências Bibliográficas:

[1] HAMILTON, Victor P. Exodus: An Exegetical Commentary. 1 ed. Grand Rapids: Baker Academic, 2011. pos. 6138.
[2] PACKER, James I. O Conhecimento de Deus. 2 ed. São Paulo: Editora Mundo Cristão, 2005. p 95.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

A Pessoa do Espírito Santo é uma “produção” do pensamento neotestamentário? Uma crítica a Roger Stronstad

"E o Espírito de Deus se movia 
sobre a face das águas". Gênesis 1.2
Por Victor Leonardo Barbosa [a]


Recentemente recebi The Charismatic Theology of Saint Luke, a importantíssima obra do teólogo pentecostal Roger Stronstad, publicada pela Hendrickson Publishers em 1985 e, agora, reeditada em 2012 pela Baker Publishing House. Tal livro marcou época, por ser uma firme defesa erudita da hermenêutica pentecostal nos textos lucanos (Evangelho de Lucas-Atos). Originalmente concebida como uma tese de doutorado, o livro de Stronstad apresenta uma língua simples e firme, com a citação de importantes obras de teólogos como James Dunn e Frederick Dale Bruner (que argumentam contra a interpretação pentecostal tradicional). Infelizmente tal obra ainda não se encontra disponível em português.

Há pequenos detalhes, porém, que chamam a atenção e geraram em mim uma firme discordância. Depois do instigante primeiro capítulo: “O Espírito Santo em Lucas-Atos: uma mudança metodológica”, Stronstad passa a analisar o Espírito Santo no Antigo Testamento (capítulo 2), e aí surgem minhas divergências. Na página 16 do livro, ele faz uma desconcertante declaração: “Na discussão da atividade carismática do Espírito de Deus, o interprete cristão deve resistir a sutil tentação de interpreta-la na luz de seu conhecimento cristão... na Bíblia hebraica o Espírito de Deus não é nem plenamente pessoal nem o terceiro membro da Trindade. Estas são verdades cristãs, não hebraicas”1.

Qualquer teólogo judeu e liberal vibraria ao ler tais declarações preocupantes, e sem dúvida, isso geraria fortes reações de teólogos conservadores, incluindo pentecostais [a]. Ao dizer que a pessoa do Espírito Santo só é revelada como pessoa no Novo Testamento, Stronstad põe em cheque a continuidade entre o Antigo e Novo Testamento, possibilitando a formação da típica dicotomia entre o Deus do Antigo e o Deus do Novo. Outro problema em questão (que gera farta discussão na área da teologia bíblica veterotestamentária) é como ver as firmes declarações do Senhor Jesus acerca do Antigo Testamento como um testemunho de sua Pessoa? É verdade que em o NT, encontramos mais profundamente iluminados em diversos assuntos não totalmente detalhados no Antigo, mas por certo aqui também há luz. No dizer de David Murray, as sombras do Antigo testamento são “iluminadoras”2, pois já tratavam acerca da Pessoa de Jesus, igualmente por sua atividade redentora., a bem da verdade, o próprio Senhor Jesus afirmou que tudo no Antigo Testamento apontava para Ele [cf. Lc 24.27]. Se crermos na autoridade de Cristo, precisamos analisar o que Ele apresenta acerca da pessoa do Espírito Santo, porém, antes uma nota lexical é necessária.

A argumentação de Stronstad, sem dúvida, está ligada com a palavra “Espírito” no original hebraico (ruah), que pode ser traduzida por “sopro” ou “vento”. Por isso, o Espírito de Deus é visto, na maioria das interpretações liberais e em geral por judeus, como uma força de Deus, em vez de possuir personalidade. Um dos que discordam frontalmente com tal perspectiva é o teólogo pentecostal Stanley Horton. Em seu Livro A Doutrina do Espírito Santo no Antigo e Novo Testamento, comentando acerca de Gênesis 1.2 , Horton afirma:


Um exame mais próximo da realidade do primeiro capítulo de Gênesis demonstra que Deus é o sujeito da maioria das frases, lemos que Ele criou, viu, chamou, fez, abençoou. O quadro inteiro e de Deus em ação, não qualquer um, mas o único Deus verdadeiro. Assim vemos que o hebraico considera a palavra Deus como substantivo definido. Uma regra da gramática faz da Palavra Espírito um substantivo também. Assim sendo, a única tradução que se relaciona com o contexto é o Espírito de Deus 3.


Há outro detalhe importante, a declaração teológica de Stronstad não se reconcilia com a Teologia do Espírito como exposta principalmente por Isaías. É dito em Isaías 6:10:
“Mas eles foram rebeldes, e contristaram o seu Espírito Santo; por isso se lhes tornou em inimigo, e ele mesmo pelejou contra eles”.

Ao comentar essa passagem, Meno Kalisher afirma que a passagem “demonstra que Ele é muito mais do que uma força ou ‘energia’ proveniente de Deus. A capacidade de ser contristado é uma característica de personalidade. O Espírito Santo tem todo o direito de ser tratado com uma pessoa”4.

No que tange a questão gramatical da palavra “ruah”, a explicação perfeita provém dos lábios do próprio Senhor Jesus, encontrado singularmente em dois momentos do Evangelho de João. No debate com Nicodemus, Jesus faz uma importante comparação e analogia entre os dois significados de “ruah” (no grego, pelo seu equivalente “pneuma”) no versículo oito: “O vento (pneuma) assopra onde quer, e ouves a sua voz (Phone - som, ruído, voz), mas não sabes de onde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito (gr. Pneumatós)” .

No dizer de D. A. Carson, Jesus "está traçando uma analogia entre o vento e o Espírito, ou mais precisamente, os efeitos do vento e os efeitos do Espírito, e a coesão interna da analogia é mais firme no texto grego que no português, porque em grego utiliza-se a mesma palavra”5. Fica claro que na verdade as palavras “ruah/pneuma” são análogas, sendo por isso que em determinadas passagens, o vento pode simplesmente identificar um vento comum, porém em outras partes, alguém pessoal, agindo.

A outra declaração clara da pessoa do Espírito feito por Jesus está em íntima conexão com Isaías. Em João 14.26: “Mas aquele Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas, e vos fará lembrar de tudo o quanto vos tenho dito”, e também 15.26: “Mas, quando vier o Consolador, que eu da parte do Pai vos hei de enviar, aquele Espírito da verdade, que procede do pai, ele testificará de mim”. A palavra de Jesus encontra firme paralelo com a palavra do servo do Senhor em Isaías 48.16: “... Agora, o SENHOR DEUS me enviou a mim, e o seu Espírito”. Esses e outros textos do Antigo testamento claramente testemunham da Pessoa do Espírito Santo no Antigo Testamento.

É claro que é no Novo Testamento que a doutrina da trindade é exposta como um grande sol ao meio dia, porém, não há dúvida que já há feixes de luz na antiga dispensação, a doutrina trinitariana não é uma invenção cristã, mas é a clara manifestação da revelação testemunhada nas Sagradas Escrituras Hebraicas.

Apesar disso, a obra de Stronstad possui grandes méritos, os quais poderão ser expressos em uma resenha propriamente dita. O fato de eu apreciar grandemente seu trabalho não o escusa de receber críticas em um assunto tão importante para a Teologia Sistemática e Bíblica. Assim, como também, para a saúde do corpo de Cristo.

Soli Deo Gloria

Referências Bibliográficas:

[a] NOTA DO EDITOR:  Victor Leonardo Barbosa é formado em Comunicação Social/Jornalismo, editor do Blog Geração Que Lamba,  formando em teologia pela Faculdade Batista Equatorial e membro da Igreja Evangélica Assembleia de Deus em Belém (PA).

[b] NOTA DO EDITOR: O teólogo pentecostal Wilf Hildebrandt, colega da mesma universidade de Stronstad, discorda dessa posição: "A concepção neotestamentária do Espírito Santo como uma pessoa está baseada sobre e é desenvolvida das Escrituras do Antigo Testamento". Veja: HILDEBRANDT, Wilf. Teologia do Espírito de Deus no Antigo Testamento. 1 ed. São Paulo: Editora Academia Cristã e Edições Loyola, 2008. p 108. 

1 STRONSTAD, Roger. The Charismatic Theology of St. Luke. 2 ed. Grand Rapids: Baker Academic, 2012. p 16.

2 Esse é o título do artigo escrito por Murray, disponível em português no portal da Editora Fiel: http://www.ministeriofiel.com.br/artigos/detalhes/116/Sombras_Iluminadas_Pregando_a_Cristo_com_Base_no_Antigo_Testamento. Esse assunto é tratado com mais detalhes em seu livro Jesus on Every Page, publicado pela Thomas Nelson.
3 HORTON, Stanley. A Doutrina do Espírito Santo no Antigo e Novo Testamento. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1993. p 18.

4 KALISHER, Meno. Jesus no Antigo Testamento.  1ed. São Paulo: Actual Edições, 2010. p. 23-24. 

5 CARSON, D. A.  O Evangelho de João. 1 ed. São Paulo: Shedd Publicações, 2007. p. 198.