domingo, 30 de março de 2014

Por que não existe Ministério de Louvor?

Por Gutierres Fernandes Siqueira


O leitor Gilmar Valverde pergunta: “Se ‘ministério de louvor’ não existe, como afirmado no post sobre pastores itinerantes [leia aqui], como fica, então, os muitos cantores que se dedicam exclusivamente ao louvor? Por acaso, seria um trabalho sem muito sentido no Reino de Deus?” [1].


A resposta: Primeiro, é necessário definir o conceito neotestamentário de “ministério”. Todo trabalho na igreja local pode ser definido como ministério? A resposta é um sonoro não. Quando alguém diz ser um “ministro de louvor” esse está apenas reproduzindo uma tradição carismática sem sustentação bíblica. Ministério é o que a Bíblia chama de ministério. Simples assim? Nem tanto. O teólogo C. G. Kruse assim define “ministério” no pensamento paulino:


Para o apóstolo Paulo, o ministério incluía tudo que o Cristo exaltado fez e faz por intermédio de seu povo para edificar sua Igreja. Isso incluía o exercício apropriado dos dons para o ministério, que Cristo concedeu a todo o seu povo, e também o ministério dos que, como Paulo, foram divinamente designados para estabelecer e educar as Igrejas. Também incluía os designados por ação humana para exercer papéis de liderança nas Igrejas. [2]

A base para definir exatamente quais são os ministérios do Novo Testamento é a Sagrada Escritura, especialmente em Romanos 12, 1 Coríntios 12 e Efésios 4. O apóstolo diz: “E há diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo” [1 Coríntios 12.5 AA]. A palavra traduzida como “ministério” é διακονιῶν [diakoniōn]. Segundo Strong's Exhaustive Concordance of the Bible, o termo indica aqueles dotados por Deus para o serviço zeloso e laborioso na promoção da causa de Cristo entre os homens. O contexto sempre envolve o serviço no exercício do apostolado, do evangelismo, da proclamação profética, do ensino e e do pastorado (cf. 1 Co 12.5; Ef 4.12; 2 Tm 4.5).  Em nenhum desses textos há uma indicação que o responsável pelo louvor seja “ministro” no sentido neotestamentário do termo. Quem louva não ministra ofícios, mas simplesmente (e grandemente) adora.

Alguém pode dizer que essa discussão é apenas semântica. Não, não é. O conceito de ministro é importante para entender o papel daquele a quem Deus chama para edificação da Igreja. Em nenhum momento o Novo Testamento coloca o louvor como parte da edificação (ou seja, da construção e alicerce doutrinário da congregação). O louvor é colocado em poema e sobre um poema sempre é necessário cautela na construção de sistemas doutrinários. Aja vista certas dificuldades hermenêuticas na interpretação dos Salmos. Embora o louvor na primitiva igreja (exemplo: Romanos 11.33-36) seja recheado de doutrina bíblica, aquele que canta não é necessariamente um doutrinador.

Ah, mas e os cantores e bandas evangélicas? Bom, hoje são apenas artistas. Mas a igreja local não precisa de cantores? É claro que sim, mas somente como alguém que impulsiona o louvor congregacional. Não é para apresentação. Infelizmente, nas igrejas pentecostais clássicas a maior parte dos ditos cantores produzem apresentações (ou shows) e não louvor para e com a congregação. É bom lembrar que essa lavra de cantores do mundo “gospel” é uma invenção recente do século XX. Até o século XIX as composições eram feitas por pastores, teólogos e pessoas vocacionadas para a música, mas que normalmente tinham envolvimento com algum ministério (missionários, evangelistas, pastores, professores de Bíblia etc.). O reformador Martinho Lutero (1483-1546), por exemplo, escreveu o hino Castelo Forte. Naquela época não havia alguém que- fora do ambiente eclesiástico- se dedicasse apenas a cantar de igreja em igreja com suas composições. Charles Wesley (1707-1788), por exemplo, é conhecido como grande compositor, mas era principalmente um ministro ordenado pela Igreja Anglicana. A grande musicista inglesa Sarah Kalley (1825-1907) era professora de Bíblia e foi missionária no Brasil. A assembleiana Frida Vingren (1891-1940) também produziu belos hinos, mas o seu ministério era a missão evangelizadora e o ensinamento bíblico. 

Observe que Martinho Lutero, Charles Wesley, Sarah Kalley e Frida Vingren não se colocaram como “cantores de igreja”. Eles eram, antes de tudo, ministros do Evangelho. O talento musical era complemento e não uma função ministerial. Logo porque o louvor é responsabilidade de toda a congregação e não só de um indivíduo. A igreja local precisa de apenas um pastor ou um mestre, mas todos os membros devem louvar ao Senhor com cânticos (cf. Efésios 5.19; Colossenses 3.16). 

Referências Bibliográficas:

[1] A pergunta foi adaptada para melhor entendimento do questionamento.

[2] KRUSE, C. G. Ministério. Em: HARWTHORNE, Gerald F.; MARTIN P. Ralph e REID, Daniel G. Dicionário de Paulo e suas Cartas. 2 ed. São Paulo: Paulus, Edições Loyola e Edições Vida Nova, 2008. p 818.

sábado, 29 de março de 2014

Igreja: a grata surpresa da racionalidade

Por André Gomes Quirino

A tradição mostra que a racionalidade
é uma herança bendita da cristandade.
Por envolver necessariamente momentos de solidão, a vida intelectual pode nos levar a gostar do afastamento, a preferi-lo em comparação à comunidade, e por extensão, a gostar da polêmica barata, supostamente válida per si, sem intenção de ser construtiva, meramente movida pelo desejo de parecer subversivo (seja a um público externo, seja a si mesmo). Isso é comum na maioria das ciências. Deveria ser comum na teologia? Bem, considerando que os teólogos (de todas as religiões) são quase unânimes em dizer que Deus é aquele que pode em si fazer comungar os indivíduos porque é o Uno de quem deriva toda a diversidade da criação, a resposta a essa pergunta é "não". Mas, se a pergunta fosse "isso é comum na teologia?", a resposta seria "sim" - e pior: principalmente na teologia cristã.

Não é raro ver um teólogo ou um jovem estudante de teologia cristão asseverando lemas do tipo "Eu não sou da igreja, eu sou a igreja" e apregoando as vantagens de ser um desigrejado. Acostumado às horas de leitura solitária em seu quarto e às discordâncias que recebe de sua tia anti-intelectual quando está fora do quarto, o jovem estudante resolve resumir a vida cristã à sua biblioteca (ou, quando não tem uma, aos grupos de que participa no Facebook), e mais tarde se torna um teólogo em pé de guerra com a igreja (toda e qualquer igreja), ou um discípulo dos teólogos que se consideram pós-eclesiásticos. Percebo nessa postura pelo menos dois problemas graves e o desconhecimento de uma boa notícia:

O primeiro problema: a fundação de uma sub-igreja contrária à igreja. Tais estudantes, ao constatarem as muitas falhas de suas igrejas e serem desprezados em suas tentativas de correção, chegam à conclusão de que suas igrejas não têm solução e não são dignas de sua grande inteligência, e que o seu papel, ora vejam, é se unir a pessoas movidas pela mesma indignação a fim de fundarem... uma sub-igreja. Esse processo não é inteiramente consciente, é verdade, mas nem por isso deixa de ser frequente. A comunidade de jovens revoltados age como uma verdadeira sub-igreja, com reuniões (conversas) periódicas para renovarem sua revolta, apoio interno mútuo contra as críticas dos de fora e rituais sagrados como a execração da igreja de que são originários. Devem partir do pressuposto de que o problema não está exatamente na instituição que é a igreja, mas em não serem eles os líderes naquele templo...

O segundo problema: o flerte com pseudo-igrejas contrárias à Igreja. Concomitantemente ou não à sub-igreja, ainda mais frequentemente vê-se surgir o fenômeno da pseudo-igreja: não um grupo interno a uma igreja revoltado contra a mesma instituição, mas um grupo externo à religião revoltado contra toda e qualquer organização religiosa, que recebe o apoio de cristãos cansados de suas igrejas para militarem em agendas estranhas à teologia. São grupos de militância política ou ideológica, ansiosos por receber jovens carentes de ativismo, de causas, de alvo, de esperança. E estes? Também não devem achar que o problema está nas igrejas em si, mas na suposta "alienação" que as igrejas causam, encantadas que estão com os assuntos Deus e céu, e que uma igreja com pautas reivindicatórias de cunho social seria o próprio Reino dos céus na Terra. Ops...

A boa notícia desconhecida: a Igreja. Tanto a sub-igreja quanto a pseudo-igreja revelam a verdade de que formar igrejas, viver em comunidade, obedecer (em alguma medida, e é claro que não irrefletidamente) a líderes (declarados ou não), seguir a liturgias e rituais é uma tendência natural ao ser humano. Costuma-se iniciar a vida intelectual para se negar essa tendência, para se dizer um "livre pensador" - e não digo que não haja ninguém digno do título, mas digo que não é preciso declarar guerra às igrejas para tal, e que não me lembro de até hoje ter conhecido alguém que, em algum ponto da vida, não tenha se tornado membro (ativo ou inativo, proselitista ou discreto) de uma igreja (real ou imaginária, declarada ou inconsciente, gigante ou nanica, milenar ou recém-fundada).

A nós, cristãos, é oferecida uma boa notícia: não precisamos fingir distanciamento de toda e qualquer igreja para sermos inteligentes, racionalmente rigorosos e intelectualmente honestos; podemos e devemos, para isso e como efeito da nossa salvação, nos declarar parte da Igreja, e amá-la. Isso não implica evitar a crítica. Pelo contrário, implica não cessar de fazer críticas e, por isso mesmo, não se esquecer da mais elementar e indispensável delas: como somos miseráveis e carentes de fraternidade! Não nos falta ativismo, nem causas, nem alvo, nem esperança: somos juntos a Igreja que Cristo fundou, da qual se declarou Noivo, à qual confiou a responsabilidade de disseminar Sua mensagem e a qual prometeu um dia resgatar.

A cada vez que um cristão se aplica à leitura, ele está dando continuidade ao que se faz desde Paulo de Tarso, homem que, há dois mil anos, foi acusado de louco por tanto ler e que, estando preso e perto de morrer, pediu a Timóteo, seu amigo, que enviasse seus livros à prisão onde estava. A cada vez que um cristão percebe erros em sua igreja e os denuncia, ele está dando continuidade ao que se faz desde Tiago, irmão de Jesus, que denunciou o preconceito das igrejas de sua época para com os pobres e definiu o que seria "a religião pura e imaculada para com Deus, o Pai" - e é esta: guardar-se da corrupção do mundo e lembrar-se dos órfãos e das viúvas. A cada vez que um cristão se propõe a fazer contribuições à ciência política, ele está dando continuidade ao que se faz desde Agostinho de Hipona, que há cerca de 1600 anos escreveu De Civitate Dei, obra monumental e de enorme influência em todas as esferas da sociedade de então e de hoje.

O cristianismo é o maior responsável pela preservação da intelectualidade no Ocidente e, quando um jovem cristão descobre o mundo da racionalidade, ele não deve se sentir solitário, mas herdeiro de uma tradição que data de, pelo menos, dois mil anos. Não deve, também, se sentir o inventor da roda, mas um discípulo de milhares e milhares de gênios que viveram antes dele - e acima de tudo um discípulo de Jesus de Nazaré, o mestre de todos estes mestres. Ao se permitir fazer questionamentos complexos, ele repete o exercício que a Igreja já fez e continua a fazer em concílios, assembleias e variados debates, e muito dificilmente cogitará algo que ainda não tenha sido cogitado no seio do Corpo de Cristo. Se os cristãos fossem, desde a era primitiva, ingênuos e simplistas como somos nós, iniciantes, talvez a Igreja não houvesse sobrevivido, e não a estaríamos debatendo agora, nem poderíamos hoje dizer que "somos a Igreja". Definitivamente, jamais acumularemos sozinhos um conhecimento maior do que o dela, o qual, embora imperfeito, é milenar e universal.

Se as igrejas locais tivessem esta consciência e a transmitissem aos seus jovens, muitos problemas seriam evitados - e aqui já faço a crítica às igrejas que disse ser necessária. Não conhecer eclesiologia é um suicídio para as nossas denominações. Mas, ainda que elas não nos ensinem porque não sabem, em nossa solitária trajetória racional teremos a grata surpresa de descobrir que, durante todo esse tempo de autocrítica e de pensamento árduo, e mesmo antes dele, muitíssimo antes e depois dele, o que estávamos procurando, o que estávamos conhecendo, o que estava se nos apresentando era a Igreja de Cristo. Um mistério inesgotável habita em sua igreja - por mais defeituosa que ela seja. Liberte-se de tão grande fardo que é fundar uma nova igreja. Cristo já fundou uma, que ainda prevalece. Atribuamo-nos, antes, como cristãos racionais que nos pretendemos, esta missão: fazer as nossas igrejas saberem que também elas são parte da Igreja universal, e que esta é depositária do que há de mais caro à alma e à razão humanas.

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André Gomes Quirino é colunista deste blog. Graduando em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP) e membro da Igreja Evangélica Assembleia de Deus- Ipiranga.

quinta-feira, 27 de março de 2014

Aulas sobre o pentecostalismo em vídeo

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Caros leitores e amigos do Blog Teologia Pentecostal. Quero indicar a vocês o Programa Enfoque Pentecostal do pastor José Gonçalves. Nesses primeiros vídeos o referido pastor fala sobre a história dos carismas na cristandade. O pastor José Gonçalves é líder da Igreja Evangélica Assembleia de Deus em Água Branca (PI), formado em teologia pela Faculdade Teológica Batista de Teresina (PI) e graduado em filosofia pela Universidade Federal do Piauí (UFPI).

Abaixo o primeiro vídeo da série:




domingo, 16 de março de 2014

A minha oração é cristocêntrica?

Por Gutierres Fernandes Siqueira

"Cada um deles tinha uma harpa e taças de ouro cheias de incenso, que são as orações dos santos" [Apocalipse 5.8]

Oração do Apóstolo Tiago de Rembrandt
A oração é como um incenso. No culto hebraico o incenso significava o "doce aroma" e a aceitabilidade do sacrifício por Deus. Que Deus seja autossuficiente e soberano, disso todos sabemos, mas ainda assim em Sua infinita misericórdia encontramos na oração uma forma de oferecer a Ele um doce perfume. Quem é o homem para oferecer a Deus alguma coisa? O Senhor do universo sente falta de algo? Evidente que não, mas é necessário lembrar que a oração é mais do que uma ação humana, é um dom de Deus. Só é possível oferecer a Deus o pó do incenso que Ele mesmo proporciona a todos nós.

No cerimonial veterotestamentário o incenso era parte importante e deveria ser manejado com extremo cuidado, mas não havia apenas um tipo de incenso. O sumo sacerdote tinha a incumbência no Dia da Expiação de entrar no Santo dos Santos com um "incenso aromático em pó" [Levítico 16.12], ou seja, um incenso "extra fino" como no sentido do original hebraico [1]. Cristo é o nosso sumo sacerdote e somente a intercessão dEle é da qualidade "finíssima". Assim, somos orantes, mas carentes em todo o tempo da mediação de Nosso Senhor. “Quando oramos não podemos senão retomar esta oração que tem sido pronunciada [e que sempre se repete] na pessoa de Jesus Cristo”, escreveu Karl Barth [2]. É o Senhor quem intercede junto ao Pai.

O doce perfume do incenso queimado tomava todo o espaço do Lugar Santíssimo. O incenso não era para o próprio prazer, mas deveria ser manipulado pelo sacerdote no sacrifício (Êxodo 30.37, 38). Assim, hoje nossa oração não deve servir como uma forma de contemplação interna do próprio ego onde as palavras e os pensamentos são dirigidos para si. A oração, assim como o incenso, tem uma direção específica, que é o próprio Deus através de Seu Filho. É em Jesus Cristo que encontramos o ouvido de Deus direcionado para nós. “Ele (Deus) tem querido ser Aquele que ouve as nossas orações, porque todas as nossas orações são recapituladas em Jesus Cristo. Deus não pode deixar de ouvi-las, porque é Jesus Cristo quem as profere” [3].

Feche os seus olhos e queime esse incenso da oração para que o aroma do doce perfume suba a Ele! Lembre sempre que não existe oração forte. A nossa garantia do ouvir de Deus é a pessoa de Jesus Cristo, nosso mediador, e não a nossa “cara de santidade” e o vocabulário todo pomposo. A nossa oração é sempre fraca e só encontra eco em Cristo. Graças ao Senhor que o incenso é aceso pelo Filho de Deus.

Referências Bibliográficas:

[1] HAMILTON, Victor P. Exodus: An Exegetical Commentary. 1 ed. Grand Rapids: Baker Academic, 2011. pos. 14493.

[2] BARTH, Karl. O Pai Nosso. 1 ed. São Paulo: Fonte Editorial, 2006. p 24.

[3] BARTH, Karl. Op. Cit. p 24.

domingo, 9 de março de 2014

Os Dons Espirituais e a Vivência Cristocêntrica

Por Gutierres Fernandes Siqueira

A doutrina dos dons espirituais é um divisor de águas na liturgia cristã e uma contribuição marcante do pentecostalismo na teologia da cristandade. Os dons espirituais seriam, por assim dizer, a manifestação visível do Espírito Santo, a terceiro pessoa da Santíssima Trindade, no ordenamento e na construção do culto por meio do indivíduo portador do carisma. É a participação ativa de Deus no culto a Ele próprio, mas esse manifestar se dá pelo homem como “instrumento” consciente e dotado de arbítrio livre. Os dons, portanto, são mais uma manifestação da graça divina e a lembrança que a liturgia, assim como a própria salvação, não é fruto do mérito humano.

A doutrina do dons é esboçada e explicada pelo apóstolo Paulo especialmente nas epístolas aos cristãos corintios e romanos. É interessante, logo no início, perceber que essas igrejas estavam em um contexto pagão e cosmopolita. As cidades de Corinto e Roma eram parecidas com o mundo ocidental de hoje, ou seja, uma sociedade pluralista, nominalmente relativista, supersticiosa, consumista e que, de certa forma, valorizava a alta cultura. Eram a essência da cultura greco-romana e estavam distantes do hebraísmo dos judeus. Nesse caldo cultural, o culto pagão era fortemente místico. E, neste contexto místico, há a doutrina cristã dos dons.

Os dons, portanto, como constituições de graça divina para edificação da Igreja visam, também, uma maior eficácia na comunicação do Reino. O contexto cosmopolita é cheio de ruídos de comunicação, mas a mensagem cristã sempre deve ser transparente, clara e objetiva. Não é à toa que Paulo prefere falar poucas palavras inteligíveis do que em muitas línguas sem interpretação (cf. 1 Co 14. 19). Enquanto isso, os oráculos gregos não tinham nenhuma preocupação com as próprias mensagens sem nexo. Eram conhecidos por “religiões de mistérios”. O êxtase e o culto baseado em drogas alucinógenas eram práticas comuns no Império Romano, mas o cristianismo vinha com uma doutrina mística, porém ordeira, inteligível e, também, relevante pela mensagem do Evangelho.

O apóstolo Paulo destaca que os ídolos são mudos (1 Co 12.2). Ora, por que o êxtase poderia ser concluído a partir da mudez dos ídolos? Na verdade, é na falta de inteligibilidade que está a verdadeira questão. Tomás de Aquino, comentando o texto em questão, escreveu que a “falta de expressão [do ídolo] é particularmente salientada [por Paulo] porque a fala [o discurso] é o efeito necessário do conhecimento” [1]. O apóstolo não desejava uma igreja ignorante sobre os dons, assim como viviam na ignorância do paganismo.

O apóstolo contrasta a vivência idólatra passada dos coríntios com a nova experiência cristã carismática (cf. 1 Co 12.1-4, especialmente v. 2) [2] [3]. É um contraste, não uma comparação em busca de semelhanças. Na experiência cristã a base da espiritualidade carismática não é o nível do êxtase, a extravagância do culto, o espetáculo do oráculo, mas sim a confissão cristocêntrica nos enunciados, nas elocuções e nas revelações. É o Senhorio de Cristo que delimita o factível no exercício dos dons espirituais. É na confissão de fé cristã e não, como já dito acima, no movimento corporal ou na expressão de oratória - recheada de clichês religiosos e místicos - que se define a espiritualidade cristã.

Assim como no passado, a doutrina dos dons faz todo o sentido para o contexto vivido na contemporaneidade. Não só porque a sociedade busca experiências autênticas e místicas, mas também porque vive completamente sem direção e sentido. Os dons, no contexto eclesiástico, não são somente a consolidação da comunhão e edificação mútua, mas obviamente um espaço para vivência mais presente da comunicação divina. Agora, a doutrina não é somente verdadeira porque faz sentido, mas sim porque é biblicamente sustentável, mas toda doutrina bíblica precisa, também, fazer sentido para o ouvinte. E o sentido está na supremacia de Cristo. A fé carismática precisa ser necessariamente cristocêntrica ou não é realmente carismática.

Portanto, a espiritualidade ligado aos dons nada mais é do que cristocêntrica, comunicacional (evangelizadora) e relevante para o contexto contemporâneo.

[Este artigo faz parte de um futuro e-book sobre o assunto a ser publicado em conjunto com o amigo Victor Leonardo Barbosa]

Referências Bibliográficas:

[1] AQUINO, Tomás de. Commentary on the First Epistle to the Corinthians. 1 ed. São Paulo: Kindle Amazon, 2012. pos 2812.

[2] FEE, Gordon D. The First Epistle to the Corinthians. 1 ed. Grand Rapids: Eedmans Publishing, 1987. p 574.

[3] Esse é o trecho mais controverso exegeticamente de I Coríntios. Por isso, as interpretações variam. O teólogo D. A. Carson, por exemplo, discorda que Paulo faça paralelos de contraste entre o êxtase pagão e o dom carismático. Para Carson o versículo dois é a extensão do primeiro, ou seja, Paulo fala sobre a ignorância (alienação) pagã e não, necessariamente, da experiência mística-religiosa pagã. cf: CARSON, D. A. A Manifestação do Espírito. A contemporaneidade dos dons à luz de I Corintios 12-14. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 2013. p 27. Uma posição contrária pode ser lida em: KISTEMAKER, Simon. 1 Coríntios. 1 ed. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2004. p 572-574. Veja também: PALMA, Anthony D. 1 Coríntios. Em: ARRINGTON, French L. e STRONSTAD, Roger. Comentário Bíblico Pentecostal: Novo Testamento. 4 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p 1008-1010. MORRIS, Leon. 1 Coríntios: Introdução e Comentário. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 1981. p 132-133. PRIOR, David. A Mensagem de 1 Coríntios: A Vida na Igreja Local. 2 ed. São Paulo: ABU Editora, 2001. p 205-208. HORTON, Stanley M. 1 e 2 Coríntios: Os Problemas da Igreja e Suas Soluções. 4 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2007. p 111.

domingo, 2 de março de 2014

Pastor itinerante? Isso não existe!


Por Gutierres Fernandes Siqueira

Segue abaixo o Breve Dicionário das Coisas Inexistes e Populares no Meio Evangélico. Portanto, vejamos essas coisas inexistes:

Levita. A tribo de Levi era responsável pelo louvor e administração do templo- incluindo a limpeza (1 Cr 6.1631; 15.16-24; 16.1,4,37-42). Embora, é importante observar, tais funções mudaram no decorrer do tempo, pois Israel passou do tabernáculo para templo e depois para o exílio sem o grande templo. E, também, houve um período com o templo e as sinagogas. Agora, sempre a atividade levítica era ligada ao trabalho duro e penoso da administração e do culto levítico, incluindo o louvor e o sacerdócio. Portanto, o levita está intimamente ligado à tribo de Levi e nada tem com esses cantores do mundo gospel.

Ministério de Louvor. Onde está esse conceito nas Sagradas Escrituras? “E ele designou alguns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres” [Efésios 4.11]. E os cantores? Onde estão? Bom, isso não quer dizer que a igreja não precise de cantores e músicos, mas não existe um “ministério” específico para tal. Ora, por que o Novo Testamento não trabalha com a ideia de um “cantor do templo”? Isso porque o louvor é coletivo, portanto de toda a congregação. Enquanto a congregação necessita de um ou dois pastores/mestres ou um evangelista, mas todos devem exercer o espaço do louvor.







Pastor Itinerante. Ora, um missionário é de ministério itinerante. Um pastor, também, pode ter alguns momentos de itinerância. E o apóstolo Paulo é exemplo disso, logo porque ele passava alguns meses numa cidade e depois mudava para um novo campo. Agora, não existe um pastor exclusivamente itinerante. Um pastor precisa de ovelhas e quem está todo final de semana numa igreja diferente não tem ovelhas, logo porque não tem comunhão e nem espaço para aconselhamentos e vivência.

Pregador Avivalista. Ora, quem pode ser chamado de avivalista? Por acaso o avivamento é produção humana? Algum pregador é capaz de criar avivamentos? Bom, o avivamento é despertamento, logo é uma “produção” exclusivamente de Deus. O que muitos pregadores criam é aviltamento.

Pregador Ungido. Ora, o que é unção? Biblicamente é a habitação do Espírito no cristão nascido de novo (cf. 1 Jo 2.20). Logo, o pregador é ungido por ser cristão nascido de novo e não por determinado estilo de oratória, mensagem e timbre de voz.