domingo, 8 de fevereiro de 2015

A glossolalia não é fenomenologia: uma tréplica a Yago Martins

Por Gutierres Fernandes Siqueira

O meu último texto “A glossolalia, a teologia e a ciência: uma resposta a Yago Martins” já provocou algumas reações, especialmente daqueles que concordam com o Yago. E o próprio Yago já fez uma breve resposta. Segue abaixo os meus comentários. E só esclarecendo: isso é apenas um debate. Na cultura anglo-saxã essa atitude é comum. Nos EUA e na Inglaterra é muito comum um teólogo que escreve um livro e outro já produz algo para rebater de forma respeitosa e amigável. Aqui no Brasil ainda levamos tudo para o lado pessoal. E essa atitude, graças a Deus, não é o caso do Yago Martins, a quem muito respeito.

1. Alguns acusam que eu entro em contradição ao usar a ciência para “provar a validade” da glossolalia. Atenção (!), isso é totalmente falso. Está claro no texto que eu uso a ciência apenas para mostrar que não há consenso entre os linguistas sobre o assunto. O argumento científico é totalmente periférico na minha crença sobre a contemporaneidade dos dons de línguas. 

2. Outros reclamam que faltou base bíblica para a argumentação. Ora, o texto estava rebatendo uma premissa científica e não exegética. Por isso, mostrei argumentos científicos contrários à tese principal e usei alguns princípios de filosofia da ciência para demonstrar como é perigoso submeter uma análise bíblica ao laboratório. E ainda escreverei uma análise exegética.

3. O próprio Yago Martins reclamou que eu fui injusto ao atribuir à tese dele uma dependência cientificista. Martins escreveu (em itálico):


Meu ponto teológico é um só: as línguas do dom neotestamentário são línguas humanas. Isso, defendo teologicamente.


Ok. O meu texto anterior não entra nessa polêmica. Isso ficará para outro artigo.


Meu segundo ponto é que as línguas do movimento pentecostal não são idiomas, e isso, somente isso, analiso linguisticamente.


Eis o ponto. Por que para Yago Martins os pentecostais não exercem a glossolalia presente nas Escrituras? É por que ele concluiu isso a partir de alguma análise bíblica? Não, apenas pelo estudo de linguistas céticos. Porém, ele justifica a escolha:


O motivo é simples: estou lidando com uma experiência fenomenológica, e não se analisa fenomenologia através de exegese, mas de observação, já que a tentativa de vivência de um conceito bíblico e o conceito em si são coisas completamente distintas -- uma definida pela análise textual, outra pela observação informal ou formalizada em estudos científicos.


A fenomenologia é qualquer formulação teórica que ressalta descritivamente a experiência vivida da subjetividade, em detrimento de princípios, teorias ou valores preestabelecidos. Por qual motivo a glossolalia contemporânea pode ser definida apenas como uma experiência fenomenológica? Vejam: Yago propõe que a glossolalia contemporânea seria apenas uma aparência pura e simples da realidade. O fato real seria a experiência neotestamentária. Porém, vejamos: por qual motivo a experiência contemporânea do falar em línguas é apenas uma aparência da realidade, ou seja, por que o falar em línguas é apenas uma imitação da prática neotestamentária? O argumento do Martins é circular. Ele diz: eu só uso a ciência porque a glossolalia moderna é um fenômeno, ou seja, uma aparência do factual, uma ilusão cognitiva. Ok, mas como ele chegou a essa conclusão? Repito: por que as línguas não são a reprodução do fato real, ou seja, por que a glossolalia não é a reprodução experimental do carisma neotestamentário? Eu só posso dizer que a glossolalia é fenomenológica se eu concluo isso pela ciência. Não é possível concluir que a glossolalia é experiência apenas fenomenológica a partir da hermenêutica.

1º argumento: “A glossolalia moderna não é idiomática”.
Uma conclusão científica
2º argumento: “Eu uso a ciência porque a glossolalia moderna é apenas uma fenomenologia (uma aparência do fato)”.
Outra conclusão científica
Conclusão:: “Eu não sou cientificista”.
Não se pode concluir isso a partir das outras conclusões.

É como se você me acusasse de ser um cientificista por descrer que o Valdomiro realiza curas reais porque os exames médios evidenciam que todos continuam doentes. Não é usar a ciência para defender um ponto teológico, mas é usar ciência para observar um fato que se diz resultado de um ponto teológico. É transformar meu argumento num terrível e doloroso espantalho me acusar de fazer teologia a partir da ciência secular, e uma demonstração ou de insensibilidade argumentativa ou de algum pequeno deslise na percepção do meu pensamento. 

Esse exemplo é descabido. Qualquer crente na cura divina pode descrer das experiências do Valdomiro baseado em premissas bíblicas. E nem é necessário a ciência para tal feito. A ciência pode até ser um reforço para descrer um falso profeta, mas a própria Escritura ensina que o discernimento é a chave para analisar manifestações espirituais. A cura do Valdomiro é fenomenológica, ou seja, apenas aparência do fato -  que seria a cura bíblica. E, repito, não preciso da ciência para tal conclusão, basta ver os frutos daquele ministério (Cf. Mateus 7.20).

1º argumento: “O Valdomiro diz que cura”.
Experiência valdomiriana. Mas será apenas uma aparência do fato (experiência neotestamentária)?
2º argumento: “O Valdomiro usa técnicas de curanderismo”
Biblicamente não é possível tomar um homem no papel de curandeiro. Essa é uma premissa que se conclui a partir da hermenêutica
Conclusão: O Valdomiro não reproduz a experiência neotestamentária da cura divina.
Essa conclusão não depende da ciência. Apenas é necessário usar premissas hermenêuticas.


E Yago continua: 

Uma coisa é dizer: "o dom de línguas não pode existir porque as línguas pentecostais não são línguas segundo a linguística" ou "o dom de línguas bíblico era de línguas humanas porque a linguística assim o estabelece". Outra é dizer: "os pentecostais não falam línguas humanas porque, segundo a linguística, as línguas que eles falam não são línguas em qualquer nível". Há um abismo entre as três proposições, e a minha é apenas a última, não as duas primeiras.

Não há abismo porque o meu texto não condena as duas primeiras premissas inexistentes. Só condena a terceira. E a terceira já basta para a condenação. 

E para concluir biblicamente: a Bíblia ensina a analisar fenômenos religiosos não pela ciência, seja humana ou biológica, ou mesmo pela filosofia, mas sim pela confessionalidade (Cf. I João 4. 1-3) e pelos frutos (Cf. Mateus 7.20).

8 comentários:

Pastor Geremias Couto disse...

Bravo Ii!

Felipe Cruz de Melo disse...

Eu não ia me meter nisso, mas depois de ler essa tréplica me pareceu que você não entendeu o que o Yago afirmou como fenomenologia e ainda lhe atribui a qualificação de "ilusão cognitiva" o que de modo algum poderia ser o significado de fenomenologia aqui uma vez que em nenhum momento a resposta do Yago parecia referenciar o termo tal como concebido em Husserl, mas tão somente enquanto um estudo dos fenômenos e atividades do mundo real -- e não somente o ideal.

Na continuação você claramente distorce a argumentação do Yago quanto às premissas e as conclusões, invertendo-as. (1) O fato da glossolalia moderna não ser idiomática não é uma conclusão cientificista pelo simples fato de que o próprio movimento pentecostal assim o admite, os estudos linguísticos apenas confirmam que não há nenhuma estrutura idiomática presente nessa manifestação religiosa a partir de todos os materiais analisados; (2) Não está se usando "a ciência porque a glossolalia moderna é apenas uma fenomenologia", essa é uma clara demonstração que você não entendeu o significado de fenomenologia e nem o argumento anterior do Yago. O uso do estudo científico é simplesmente uma conclusão que flui da exegese textual: ora, se o texto nos mostra que os idiomas tratados no texto bíblico são línguas humanas, então é de esperar que as línguas faladas possuam estruturas idiomáticas constantes a qualquer idioma e não somente à livre vocalização.

Por fim, você afirma que a análise de fenômenos religiosos ocorre pela confessionalidade e pelos frutos SOMENTE. Isso por si mesmo não guarda qualquer proporcionalidade com a própria ideia de ciência. Você está sendo cientificista no mais alto grau possível quando coloca as áreas de conhecimento humano em oposição aparente aos fenômenos religiosos. Toda a verdade é a verdade de Deus e a ciência, portanto, em primeiro lugar, possui como função última glorificar a Deus e proclamar as Suas maravilhas. Por que então você destituiria das ciências humanas ou biológicas essa prerrogativa? Acaso só louvamos a Deus com base nas nossas atividades estritamente religiosas? Isso seria uma visão demasiadamente limitada daquilo para o qual Deus capacitou o intelecto humano.

Ciência no conceito de todo o pensamento cristão, nada mais é do que mais uma forma de glorificar a Deus. Dispor "ciência versus religião" da forma como você fez apenas define o quanto todas estas afirmações estão erradas desde a fonte: um cientificismo velado que reside na base de toda argumentação futura.

Se posso fazer-lhe uma recomendação, peço que leia "Redeeming Science" de Vern Poythress e "Where the conflict really lies" de Alvin Plantinga.

Creio que somente após um ajuste fino nesses conceitos seja possível uma compreensão nesse diálogo de vocês.

Grande abraço, que o Senhor seja conosco.

Gutierres Siqueira disse...

Caro Felipe,

Sobre a ciência... Evidente que a ciência é importantíssima para o cristão, não há dúvida quanto a isso. O meu ponto não é esse. O meu ponto é se a ciência pode ser “autoritativa” na qualificação de uma experiência que remete a uma doutrina bíblica. E essa foi a minha principal crítica ao Yago no primeiro texto. Crítica essa compartilhada até mesmo por cessacionistas que não querem depender da ciência para rejeitar a contemporaneidade da glossolalia. Sinceramente, uma teologia dependente da ciência (biológica, humana ou social) é mais uma “louca da casa”, uma ciência da religião. Eu sei que vocês não propõe isso, evidentemente, mas há implicações em valorizar excessivamente um estudo linguístico. Você sabia que já há tradutores que preferem traduzir a expressão grega “glossais lalein” por “elocuções estáticas”? É uma clara influência dos estudos antropológicos na tradução bíblica e consequentemente na sua teologia. É só uma questão de grau.

Abraço!

Gutierres Siqueira disse...

E apenas complementando: não oponho fé e ciência, pelo contrário, já acho que devemos tomar cuidado em colocar a ciência no seu espaço devido. Inclusive, como mostrei no texto anterior, eu fiquei entusiasmado quando vi que o teólogo pentecostal Amos Yong junto com James Kirk estão promovendo esse diálogo dentro da tradição carismática.

WESLEI ROCHA disse...

Caro Felipe!

Cerca de setenta por cento dos físicos, digo professores doutores e pesquisadores, ridicularizam a fé cristã. É temeroso dizer que a ciência, em sua totalidade, glorifica a Deus. A verdadeira ciência está com a minoria? Acredito que sim. Todavia, só podemos assim crer através da fé e não da razão.

David Sander disse...

Fantástico!

MARCO ANTONIO CORREIA disse...

A altercação aqui é riquíssima e muito proveitosa. Os argumentos aqui expostos, cada um com o seu embasamento, sua convicção, sua fé (Ops, os dois lados não possuem a mesma fé?), contribuem para o nosso crescimento intelectual. É bom acompanhar a verbere epistemológica que se delineia ao longo do debate. Agora, questiono: quando teremos um equilíbrio entre a fé e a razão?
Quando a razão sobrepuja a fé, esta tende a se tornar anêmica e dá lugar ao materialismo, por outro lado, ao sobrelevar a fé acima dos ditames racionais, corre-se o perigo de descambar para o fanatismo religioso. O equilíbrio está na experiência. Não digo no sentido empírico (pois estaria incorrendo no mesmo erro de um dos autores) e sim, no sentido transcendental, metafísico, ou seja, espiritual.
No meu entender a glossolalia está longe de ser objeto de análise de estudos científicos a ponto de ser dissecada e apreendida simplesmente através da razão (observação científica) - da mesma forma, que não podemos, em muitas vezes, compreender o poder do milagre. Tudo isso somente fará sentido quando o ser experimentar, ou seja, quando eu permito que o sobrenatural me toque. É intimo e pessoal. É neste momento que a máxima “a fé começa quando termina a razão”, revela todo o seu significado. A fé e seus resultados não podem ser medidos pelos padrões da razão humana.
A palavra de Deus não se preocupou em explicar, em detalhes, como se deu a ressureição, a ascensão, as curas. Simplesmente aconteceram. Isto tudo são manifestações fenomenológicas (sobrenaturais) não percebidas pela apreensão racional. É sabido que a ciência, por exemplo, já teceu teorias à respeito da ressureição de Cristo, da passagem pelo mar vermelho, do diluvio, etc. (será que o Martins também acredita nestas falácias científicas?) E como se analisa à luz da Bíblia estas experiências? Não se tem muitas escolhas: ou você crê ou não crê. É fé.
Em minha opinião quando o desiderato é provar as coisas espirituais pela ciência, está pertinho, pertinho do liberalismo teológico.
A dialética acadêmica e teológica, invariavelmente, perde seu sentido e alcance quando submetida à realidade dos fatos (mundo fenomênico). A subsunção entre o pensamento teológico e os anseios humanos muitas vezes não guardam a devida relação e se distanciam na mesma proporcionalidade antagônica de seus intentos. Arminianismo, calvinismo, cessacionismo, pelagionismo, milenismo, etc.etc.etc., são “ismos” que não possuem, em nenhuma hipótese, o escopo de acalentar o coração sofrido, contristado e abatido. A realidade das ruas, das prisões, dos hospitais, das casas de recuperações passa ao largo desse embate. É muito interessante esta visão; ao sentar ao lado de um viciado, de uma mãe enlutada, de um pai desempregado, todo o conhecimento teológico desaba como um castelo de cartas e o que resta é um sentimento de frustração e resignação. Diante das contingências da vida, as teorias fraquejam, e é neste memento que se torna necessário equilibrar-se na corda para não cair.

Edson Alves disse...

Muito proveitoso e de alto nível as argumentações, me saltou aos olhos esta afirmação do Irmão Gutierres:" Você sabia que já há tradutores que preferem traduzir a expressão grega “glossais lalein” por “elocuções estáticas”?"
Nos ultimos tempos venho pensando porque falamos sempre as mesmas línguas estranhas? Seria gravação cerebral? Ou o dom de línguas pode ser estático?
Deus continue iluminando os irmãos.
Forte Abraço.