quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Erudição e Carisma: uma entrevista com Amos Yong

Amos Yong, teólogo pentecostal
Por Gutierres Fernandes Siqueira


O Blog Teologia Pentecostal entrevista Amos Yong, um dos principais teólogos pentecostais no contexto anglo-saxão. Yong é pastor ordenado pelas Assembleias de Deus norte-americana (AG) e nasceu na Malásia, mas cresceu nos EUA onde segue com uma carreira acadêmica virtuosa. Hoje ele leciona teologia e missiologia no famoso Fuller Theological Seminary. Até o ano passado ocupava a cadeira de J. Rodman Williams como professor de teologia na Regent University. Yong presidiu a Society for Pentecostal Studies (Sociedade de Estudos Pentecostais) entre 2008 e 2009 e editou o jornal Pneuma, o principal periódico acadêmico produzido por pentecostais. É um escritor ativo e entre as principais obras estão: Spirit, Word, Community: Theological Hermeneutics in Trinitarian Perspective (2006), The Bible, Disability, and the Church: A New Vision of the People of God (2011), Pentecostalism and Prosperity: The Socio-Economics of the Global Charismatic Movement (2012) e Science and the Spirit: A Pentecostal Engagement with the Sciences (2010) e muitos outros. Esse último em coautoria com James A. Smith, famoso filósofo de tradição pentecostal. E, também, será a base para a entrevista de hoje.

Infelizmente, Yong é ainda pouco conhecido no Brasil e não possui nenhum livro traduzido em português. Nessa entrevista ele fala sobre a relação da ciência com o pentecostalismo e faz uma defesa enfática da preparação intelectual dos pentecostais. Veja abaixo a entrevista.


Muitos estudos indicam que a glossolalia não é um idioma. Como um pentecostal pode responder a isso com equilíbrio e sem deixar de lado a ciência?

Embora a maior parte das glossolalias não sejam línguas [como indicam os estudos], isso não significa que, pela fé, se possa negar que tal linguagem seja entendida no sentido paulino como “línguas dos anjos” (1 Co 13. 2).


O engajamento dos pentecostais na ciência deve ser motivado para fins apologéticos? Ou isso é um erro?

Certamente que pode haver uma dimensão apologética no compromisso pentecostal com a ciência. Embora a apologética deva ser considerada de maneira generalista, ela não deve necessariamente vir como uma defesa contra qualquer noção científica específica (exemplo: a evolução), mas sim em um pensar (ou dialogar) mais profundo sobre como manter a fé pentecostal, e ao mesmo tempo, levar em conta o avanço da ciência no decorrer da história. Além da apologética, também é importante instar o engajamento com a ciência numa postura de fé- em busca- de entendimento a fim de envolver-se com a realidade contemporânea.

No Brasil ainda há muito anti-intelectualismo entre os pentecostais. Como incentivar a ciência em um ambiente anti-intelectual?


O anti-intelectualismo não é propriedade apenas dos pentecostais; sempre existe aquele pietista cristão para quem o Evangelho é uma questão do coração mais do que da mente. Além disso, os cristãos nas igrejas também fazem parte das classes sociais que, como elas, se desenvolvem ao longo do tempo e nisso buscam mais e mais educação. O pentecostalismo, que começou como um movimento de avivamento vai, a cada nova geração, buscando entender a sua fé, mesmo quando os seus filhos vão buscar o ensino universitário. Os pastores pentecostais, finalmente, precisam ser encorajados a crescer na fé, compreensão e competências; e isso, também, indica a necessidade de mais educação. Os líderes das igrejas pentecostais, portanto, necessitam em trabalhar com outros pastores para oferecer oportunidades educacionais com educadores cheios do Espírito Santo. Assim, também, é necessário emergir aqueles que podem modelar o que isso significa prosseguir com uma vida da mente de uma forma que não negligencie a vida do Espírito.

Como você encara o fato de ser pentecostal e professor de uma grande universidade?

Com naturalidade. Nós veremos mais e mais estudiosos pentecostais como professores em contextos universitários; e eles serão exemplos para as gerações mais jovens sobre como ser pentecostal e acadêmico ao mesmo tempo.


Por que você abraçou a fé pentecostal? O que o atrai no pentecostalismo?

Eu nasci em uma família de pastores das Assembleias de Deus e fui criado na igreja pentecostal. Fui educado em uma escola religiosa carismática e tive professores maravilhosos e exemplares que me ensinaram como é possível a junção do pentecostalismo com a erudição. Continuo pentecostal porque acredito no trabalho contínuo do Espírito Santo no mundo e que esse trabalho precisa e pode ser melhor compreendido e apreciado. E essa é a vocação do professor ou acadêmico pentecostal. Que possamos chegar juntamente com os interlocutores quanto com os críticos de nosso Movimento e das nossas igrejas para que o próximo século do Movimento Pentecostal se desenvolva.

9 comentários:

Jefferson Sales disse...

Excelente entrevista... Continue assim...

Que o Haja Luz na mente e fogo no coração.

ROBSON SILVA disse...

Parabéns, meu jovem. Daqui uns dias não poderei mais convida-lo para estar conosco em nosso Café EBD, dada a concorrência... kkk

If you can send me the original text in english I'll appreciate it.

Regards!

Fábio Stefani da Silva disse...

Creio que a igreja do Senhor (a qual está acima dos dogmas e das placas) sofreu muito com a troca de repulsas entre os históricos e pentecostais.

De um lado você viu os históricos fazendo questão de não orarem intensamente e de nem orarem tanto (lembro de um ditado que fala da "oração batista": "curta e eficaz"). Lembro também que diziam que tradicional que ora demais fica parecendo pentecostal.

Já de outro lado, os pentecostais se gloriavam de receber tudo do Espírito Santo, e na hora. Já vi até pregadores se jactarem de não estarem usando algum esboço (inclusive ridicularizando quem assim o faz) e de terem recebido a mensagem minutos antes de pregarem. Quem não lembra da famosa interpretação pentecostal para "A letra mata"?

Então um lado deixou de experimentar maior intimidade com Deus através da oração (e da possibilidade de conviverem com os dons em nossos dias)

Se a simples separação (já superada) entre brancos e negros na América já pôde gerar tanta diferença no mesmo movimento [pentecostal] (é só ver a diferença entra a COGIC e a AG), imagine essa mesma separação entre históricos e pentecostais?

Então nessas duas derivações vemos algumas deficiências, as quais poderiam ser superadas através do diálogo e compreensão, olhando o diferente na perspectiva de ver o que ele tem que é melhor do que você tem.

Eu diria que históricos e pentecostais têm muito o que aprenderem um com o outro. Pessoas que passaram pelos dois movimentos sem trauma em nenhum deles pode afirmar isso.

Mas enquanto isso não acontece, ainda encontraremos casos de pessoas que são ótimas no estudo secular, alguns até Mestres e Doutores e extremamente rasas no que diz respeito à fé, seja na pouca oração ou no pouco conhecimento da Palavra...

Sobre a entrevista, eu ainda acho que a glossolalia desde sempre teve uma proporção maior do que ela realmente tem, seja entre os pentecostais ou entre os tradicionais.

Creio que se, talvez, ela não fosse objeto de tanta admiração por uns, e repulsa por outros e discussão por ambos, os demais dons poderiam ter se propagado mais e melhor em toda a igreja do Senhor.

Mas ainda dá tempo de ver e viver aqui o que será certeza no Céu, a saber, a plena unidade do Corpo de Cristo.

Que Deus abençoe a seu povo em tudo, cada vez mais e sempre!

Pastor Geremias Couto disse...

Caro Gutierres

Você sabe que eu sempre lhe admirei, como admiro alguns outros desta nova safra fértil de pensadores cristãos e pentecostais. Creio também que você saiba lidar com essa admiração.

Quero lhe dar parabéns por algo que considero primordial em qualquer investigação acadêmica: você está indo às fontes primárias e à frente, em certo sentido, do escopo engessado da denominação, engajando-se num diálogo rico, sem agressões, mas com objetividade, para o entendimento da fé pentecostal.

Adiante! Não podemos perder o seu potencial. Alguns amadurecem bem cedo. É o seu caso. Mantendo a humildade, você tem um longo caminho pela frente.

Abraços

Daniel Meurer disse...

Muito bom, não conhecia Amos Yong antes de ver suas citações nos ultimos posts e vi que tem alguns livros dele para kindle em inglês, tem alguns titulo que tu me recomendaria para começar a ler?

Deus te abençoe!

Escola Bíblica Dominical - Seminário Teologico Permanente disse...

Paz e Graça, irmão.

Excelente entrevista!
Brilhante o posicionamento do Amos Yong. Exemplo a ser seguido por todos nós pentecostais.

Simone Tavares.

Anônimo disse...

Muito boa esta entrevista. Pena que não tenhamos livros publicados no Brasil por este erudito. Agradecemos a Deus pelo movimento pentecostal, seu impacto na evangelização do século XX/XXI e pela consolidação doutrinária. O movimento pentecostal é um mover genuíno de Deus. É uma pena que alguns representantes 'famosos' não tenham abraçado o espírito pentecostal e assim contribuído para que este movimento fosse muito mal compreendido por outros segmentos. Grande abraço, Matias H. (Assembleia de Deus-Min Redenção)

Thiago Mendes disse...

Parabéns pela entrevista!
Olha o que diz John Piper, conceituado líder reformado:

http://noticias.gospelmais.com.br/pastor-john-piper-diz-que-o-dom-de-linguas-tem-sido-usado-de-forma-contraria-ao-que-biblia-ensina-assista.html

Gutierres Siqueira disse...

Obrigadão pastor Geremias pelas palavras de incentivo.

Robson, podemos continuar a tomar café sem problemas, rs.

Daniel, acho que os três livros indicados na apresentação são boas entradas.