sábado, 6 de junho de 2015

A mulher e o cristianismo: o resgate da dignidade feminina na fé cristã

Por Gutierres Fernandes Siqueira

O cristianismo bíblico é o maior responsável pelo resgate da dignidade feminina [1]. É fato que a trajetória cristã é marcada, como os demais grupos sociais de longa história, pelo machismo e a violência contra a mulher, todavia nenhum grupo foi mais marcante na construção da feminilidade como igualmente digno à masculinidade como a religião cristã. O cristianismo e, especialmente a pessoa de Jesus Cristo, foram marcantes na emancipação feminina.

Não é isso que você aprende nas universidades. É inegável a misoginia na história cristã, mas o tom exagerado do proselitismo feminista parece entender que o próprio cristianismo é o responsável por todos os males contra a mulher. A história é sempre mais complexa do que esse maniqueísmo “opressor versus oprimido”. A análise de muitos acadêmicos padece de um historicismo neurônico onde tudo é resumido à “causa e efeito”. É uma história sem nuances onde só há escalas de preto e branco.   

  1. A mulher na teologia hebraica

É preciso começar este texto pela parte mais difícil: o papel da mulher na cultura e teologia hebraica. É sempre necessário lembrar que a cultura hebraica é fruto do seu tempo. Ainda que a revelação divina seja atemporal, absoluta e factual, a mesma precisa lidar com um mundo fluído, relativo e cheio de nuances. E, também, a revelação nas Escrituras tem um caráter progressivo, logo porque uma civilização de 3500 anos atrás não teria capacidade e o acúmulo de informações para lidar com uma série de verdades que foram desnudadas no decorrer de séculos e mais séculos.

A palavra hebraica para mulher ('ishshah) significa “ser macia, delicada” e é um contraste com a palavra homem ('ish) que significa, pela variante da raiz, “ser forte”. Longe de indicar um rebaixamento, esse contraste mostra como a “psicologia” hebraica já entendia a natureza mais sensível da mulher. De fato, a teologia hebraica ensina que o homem é a cabeça da mulher, mas isso se dá pela sequência da criação e não indica, como uma leitura apressada pode concluir, que a mulher seja inferior ao homem. Como ilustração temos a doutrina da Trindade, pois o Filho não é menor ou “menos igual e digno” que o Pai, porém, o Filho apresenta uma imagem de submissão ao Pai (cf. I Timóteo 2. 12,13). A mulher nasceu com a missão de ser uma “adjutora” do homem (cf. Gênesis 2. 18,20) e não sua escrava. Como ajudadora o termo hebraico significa literalmente “correspondente a ele”, ou seja, o ensinamento é que homem e mulher são “mutuamente interdependentes”.  A relação homem e mulher precisa ser lida numa perspectiva trinitária.

A mulher, como o homem, é “imagem e semelhança de Deus” conforme Gênesis 1. 26,27.  Vale destacar: esse status de dignidade da humanidade não era uma exclusividade do homem. Todavia, na prática a mulher desfrutava de uma igualdade entre os hebreus? Não, absolutamente não.  E na própria Bíblia Hebraica “a inferioridade da mulher [...] é apresentada como uma degradação do estado primitivo e original da humanidade” [2], ou seja, como fruto da maldição do pecado original. O “rebaixamento” da mulher na cultura familiar não é visto como algo natural, mas como consequência da Queda.

“A sociedade israelita do Antigo Testamento era estritamente patriarcal. [...] Alguns rabinos chegavam ao extremo de considerar que a mulher não possuía alma e que era preferível queimar a Lei do que ensiná-la a uma mulher”, como lembra Esdras Costa Bentho [3]. A mulher hebreia chamava o esposo de “senhor” ou “amo” (Gênesis 18.12; Juízes 19.26; Amós 4.1), ou seja, elas davam ao marido um título que vassalos davam aos reis e escravos ao seus donos. A mulher, também, era contada como propriedade do marido assim como um escravo, ou um boi ou ainda um asno. Essa visão da mulher como propriedade está expressa até mesmo no decálogo (Êxodo 20.17; Deuteronômio 5.21). Em compensação, a Bíblia Hebraica registra inúmeras heroínas. Elas são destacadas pela inteligência, devoção e coragem: Raabe (Js 2), Mical (1 Sm 19.11 ss), Abigail (1 Sm 25.14 ss), Rizpa (2 Sm 21. 7 ss) etc.. Ainda há as mulheres fortes dos patriarcas- Sara, Agar, Rebeca, Raquel, Lia- e outras igualmente impactantes, mas perversas: Jezabel, Dalila e Atalia. E como esquecer a liderança e carisma de Débora, Rute e Ester?

2. Jesus e as mulheres

Jesus tinha “discípulas” da alta sociedade que o sustentavam com seus bens (Lucas 8. 1-3). Naquela época alguns rabinos recebiam ajuda de mulheres abastadas, mas essas jamais eram colocadas na categoria de “discípulos”. Os rabinos não confiavam no discernimento das mulheres e, além disso, viajar com mulheres não condizia com a imagem de santidade que eles queriam preservar. De alguma forma podemos falar que essas mulheres agiam como os primeiros diáconos- diaconia (diēkonoun/διηκόνουν). Maria Madalena foi a primeira testemunha da ressurreição numa sociedade onde o testemunho de uma mulher não valia absolutamente nada (João 20.1; 11-18).  Jesus, ao mesmo tempo que tinha essas mulheres respeitadas, entre elas a esposa do procurador de Herodes, também deixou ser tocado por uma prostituta (Lucas 7. 36-50), logo em uma cultura religiosa onde tal ato era condenado com ultrajante. Outro fato incomum era conversar com mulheres não parentais na rua e, ainda mais, sendo essa uma senhora samaritana (João 4. 1-27). Ao mesmo tempo a mulher samaritana foi a primeira pessoa a fazer missões em terras estrangeiras com as Boas Novas de Cristo (João 4. 28-29).  Alguns, de maneira exagerada, afirmam que as mulheres da época de Jesus nunca adotaram posição contrária a Ele. Certamente que essa afirmação é apenas especulativa, mas uma leitura do Novo Testamento mostra como as mulheres foram bem mais compassivas com o Mestre do que os homens. Todos os discípulos fugiram quando Jesus foi preso e, excetuando João, nenhum deles acompanhou a morte de Cristo ao lado da cruz. Mas os Evangelhos registram que as discípulas com Maria, sua mãe, não saíram perto de Jesus no seu momento mais difícil.

Outras três mulheres são destacadas antes mesmo do nascimento de Jesus: Ana, a orante do templo; Isabel, sua tia e Maria, sua mãe. Maria tem um papel importantíssimo como genitora do Messias. Genitora essa que já é destaca na promessa de Gênesis 3.15, o texto conhecido como protoevangelium. É verdade que após as narrações da infância de Jesus o papel de Maria é um tanto tímido, mas isso condiz com a missão do messias: ele veio para salvar e não para depender de outros auxiliadores. Não existem corredentores. Na história das controvérsias cristãs Maria foi afirmada como Theotokos (portadora de Deus) e não como Christokos (portadora de Cristo), como queria o monge Nestório (386 d.C- 451 d. C.), pois esse tinha interesse no segundo título como uma negativa da divindade de Cristo. Cirilo de Alexandria (378 d.C- 444 d.C.) liderou o movimento que reafirmou Maria não apenas como geradora do Messias, mas sim genitora do Deus-Homem, logo porque a encarnação é inseparável à concepção do Senhor. Portanto, o título Theotokos teve no seu princípio uma justificativa cristocêntrica e não, como é comum na teologia católica popular atual, uma tomada idólatra da figura de Maria na tradução não-literal de “mãe de Deus”. [5]

3. O apóstolo Paulo e as mulheres

As mulheres profetizavam nos cultos (1 Coríntios 11.5) e quatro filhas do diácono Felipe manifestavam esse carisma ativamente (Atos 21.9), ou seja, mulheres falavam na assembleia (algo incomum num ambiente com homens) e, pior para o contexto cúltico judaico, ainda “impulsionadas” pelo próprio Deus na pessoa do Espirito Santo. Priscila, esposa de Áquila, é mencionada antes do esposo no Novo Testamento, outro fato incomum até nos documentos de nossos dias (Atos, 18.18; Romanos 16.3), e, também, era tida como “colaboradora” do apóstolo Paulo igualmente ao seu esposo. O apóstolo dos gentios direciona uma carta pastoral à Afia (Filemon 2), mostrando a importância e posição de destaque dessa mulher na eclésia primitiva. Além disso, é claro, outras mulheres são mencionadas nas cartas pastorais como forma de agradecimento pelo trabalho desenvolvido (exemplos: Romanos 16.6, 12, 15) enquanto a outras duas o apóstolo faz um apelo à concórdia (Filipenses 4.2). Em Cristo todos somos iguais, não existe “homem ou mulher”, afirmou o “conservador” Paulo de Tarso (Gálatas 3.28).

No capítulo 7 de 1 Coríntios, o apóstolo deixa bem claro que o prazer sexual deve ser mútuo entre o casal, não sendo nada forçado e, ao mesmo tempo, um cedendo ao prazer do outro. Portanto, o marido não pode obrigar sua esposa a fazer uma relação que ela não quer e vice-versa e ao mesmo tempo a esposa e o marido devem buscar a satisfação sexual do companheiro/a. Veja que a igualdade impera até mesmo na cama no texto paulino. O incrível é que 1 Coríntios tem quase dois séculos de existência.


4. O papel da mulher nos primórdios do cristianismo

Nesse tópico cabe uma longa citação do teólogo Timothy Keller:

Esta declaração pode surpreender muitos leitores que ouviram dizer que religiões mais antigas e o paganismo tinham uma visão mais positiva quanto às mulheres do que o Cristianismo. Era extremamente comum no mundo greco-romano livrar-se de bebês do sexo feminino deixando-os morrer por exposição às intempéries, devido ao status inferior das mulheres na sociedade. A Igreja proibiu seus membros de praticar tal ação. A sociedade greco-romana não valorizava as mulheres sem marido, e era ilegal uma viúva levar mais de dois anos para casar-se novamente. O Cristianismo, porém, foi a primeira religião a não obrigar as viúvas a se casarem. Elas eram sustentadas e respeitadas dentro da comunidade para que não sofressem uma pressão exagerada para arranjar outro marido. As viúvas pagãs perdiam todo o controle sobre o patrimônio dos maridos falecidos quando voltavam a se casar, mas a Igreja permitia que as viúvas mantivessem o patrimônio do marido falecido. Finalmente, os cristãos não acreditavam em coabitação. Se os homens quisessem viver com uma mulher, eram obrigados a casar-se com ela, o que provia muito mais segurança a estas. Igualmente, o duplo padrão pagão de permitir aos homens casados praticarem sexo extraconjugal e ter amantes era proibido pela Igreja. Como todas essas diferenças, as mulheres cristãs gozavam de segurança e igualdade muito maiores do que aquelas pertencentes à cultura ao redor [5].

Conclusão

Sem dúvida a mulher sofreu e ainda sofre com a misoginia. É absurdo os abusos que milhares (ou milhões) de mulheres ainda sofrem em inúmeros países onde o machismo é uma instituição. O cristianismo não é o vilão das mulheres, mas é a cabeça de ideias para a libertação feminina. “Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus”, como disse o apóstolo Paulo aos gálatas há quase dois mil anos.

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Referências Bibliográficas:

[1] As feministas diriam que essa afirmação é absurda porque o autor do texto é homem e, logo, não poderia fazer tais afirmações sobre a emancipação feminina. Cabe lembrar a advertência do respeitado historiador David Hackett Fischer: “Pode haver confusão entre o modo que se obtém o conhecimento e a validade desse conhecimento. Um historiador americano pode afirmar de forma chauvinista que os Estados Unidos declararam sua independência da Inglaterra em 1776. Essa afirmação é verdadeira, independentemente das motivações de quem a fez.” [cit. em: McDOWELL, Josh. Novas Evidencias que Demandam um Veredito. 1 ed. São Paulo: Editora Hagnos 2013. p 1174]. Ora, como lembra Fischer: os fatos são importantes e não o sujeito da afirmação. Ainda sobre o assunto podemos lembrar essa observação pertinente de Theodore Dalrymple: “É comum que se pense que ter uma opinião sobre um assunto, algo que é ativo, é mais importante do que ter qualquer informação sobre aquele assunto, que é passivo; e que a veemência (sentimento) com que se sustenta uma opinião é mais importante do que os fatos (conhecimento que ela se baseia. [...] Uma mente vazia de todos os fatos não está exatamente capacitada para enxergar qualquer questão em perspectiva.” [DALRYMPLE, Theodore. Podres de Mimados: As Consequências do Sentimentalismo Tóxico. 1 ed. São Paulo: É Realizações, 2015. p 32.].

[2] McKENZIE, John L. Dicionário Bíblico. 1 ed. São Paulo: Editora Paulus, 1984. p 580.

[3] BENTHO, Esdras Costa. A Família no Antigo Testamento: História e Sociologia. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p 213.

[4] Maria, curiosamente, é a única mulher citada nominalmente no Corão. Esse fato mostra como a trajetória do islamismo é totalmente oposta à tradição judaico-cristã. O islã é uma religião que não produziu a sua própria modernidade.

[5] KELLER, Timothy. A Fé na Era do Ceticismo: Como a Razão Explica as Crenças Divinas. 1 ed. Rio de Janeiro: Campus-Elsevier, 2008. p. 210.

3 comentários:

João Santos disse...

É um refresco ler textos assim. Uma pergunta, Gutierres: qual é sua posição a respeito da ordenação feminina? Não digo apenas o hábito meio infeliz de chamar qualquer esposa de pastor de pastora, mas de consagrarmos mulheres ao ministério em pé de igualdade com homens?

Gutierres Siqueira disse...

Ainda não tenho uma posição sobre o assunto, caro João.

Wallace disse...

Gutierres, apenas uma observação: mulheres abastadas, sem o R.

No mais, parabéns pelo texto e abordagem.

Abs,