sábado, 11 de julho de 2015

O escolhido e o sofrimento: o pentecostalismo não aceita a doce ilusão de uma vida mágica e sem agruras!

Por Gutierres Fernandes Siqueira

No ótimo e recomendável livro Os Dez Mandamentos Mais Um: Aforismos teológicos de um homem sem fé, o filósofo Luiz Felipe Pondé comete uma pequena injustiça com o pentecostalismo clássico. Pondé, escrevendo sobre “eleição” e sofrimento, afirma:


Quem é o eleito, para a sabedoria hebraica? É aquela ou aquele escolhido para mostrar ao mundo o que pode Deus e o que Ele quer da Sua criação. É uma interpretação muito diferente da que vigora entre os pentecostais, para os quais eleito é aquele que vai ficar rico. Não. Um homem é eleito para sofrer [...]. (grifo meu).


Pondé estaria certo se referisse ao neopentecostalismo. Infelizmente, o neopentecostalismo domina o discurso inclusive em inúmeras igrejas antes pentecostais e afirma tais bobagens. Mas como dizia Dom Robinson Cavalcanti falar em neopentecostalismo é uma injustiça, pois a mensagem desse grupo não é mera renovação dos antigos carismáticos, mas uma total distorção do pentecostalismo original. O melhor seria falar em pseudopentecostalismo, como dizia Cavalcanti [2].

O pentecostalismo original e histórico, da mesma forma da sabedoria hebraica, enxerga sobre o eleito (ou escolhido de Deus) o fardo do sofrimento. Basta uma rápida leitura da Harpa Cristã, o hinário oficial das Assembleias de Deus, para contemplar um realismo sobre o sofrimento na vida do homem. O discurso que sempre vigorou no pentecostalismo clássico é que o escolhido de Deus não está livre das agruras da vida, muito pelo contrário.

Frida e Gunnar Vingren
Um belo exemplo. A sueca Frida Vingren (1891-1940), que dispensa apresentações, está certamente entre os principais pioneiros do trabalho evangélico-pentecostal no Brasil. Ela traduziu e adaptou 24 hinos da Harpa Cristã [3]. Nas canções pode-se perceber qual era a visão da musicista, poeta e missionária: o sofrimento é parte inerente da vida cristã, mas ao mesmo tempo a esperança é cultivada em Cristo. A escolha da missionária Vingren espelhava a própria teologia pentecostal daqueles dias onde o sofrimento era visto como uma “escola sublime”, expressão essa para lembrar um artigo do missionário Nils Kastberg (1896- 1978) no jornal Som Alegre de janeiro de 1930, periódico este que foi o precursor do jornal Mensageiro da Paz, órgão oficial de comunicação das Assembleias de Deus. O sofrimento sempre foi encarado por esses pentecostais como natural no exercício pleno do cristianismo bíblico.

Talvez a canção que melhor transpareça essa visão pentecostal, que ao mesmo tempo coincide com a sabedoria hebraica, é o hino Bem-Aventurança do Crente. A canção também foi traduzida e adaptada para o Psaltério Pentecostal, e depois para a Harpa Cristã, pela própria Frida Vingren. A composição original é do sueco Emil Gustafson (1862-1900), um evangelista do Movimento da Santidade cujo lema de vida era: "aquele que tem muito a dizer sobre si mesmo ainda não tem visto a Deus." A terceira estrofe da canção diz:


Quem quiser de Deus ter a coroa,/Passará por mais tribulação;/ Às alturas santas ninguém voa, /Sem as asas da humilhação;/ O Senhor tem dado aos Seus queridos,/ Parte do Seu glorioso ser;/ Quem no coração for mais ferido, /Mais daquela glória há de ter.


O pentecostal clássico canta esse hino e não se afoga na doce ilusão que é possível obter prosperidade pelo andar em comunhão com o divino, como se a vida fosse gerida por elementos de magia. Como o eleito do Antigo Testamento, e do Novo também, ele sabe muito bem que nada de bom o espera (conforto, dinheiro, saúde etc.), mas sim e apenas as aflições de Cristo.

Certa vez um neopentecostal comentou comigo que ficou chocado com a biografia de Gunnar Vingren (1879-1933), pois o fundador da Assembleia de Deus no Brasil parecia “encarar o sofrimento como natural”. Sim, esse jovem interpretou o Diário do Pioneiro [4] muito bem. A teologia pentecostal não aceita a doce ilusão de uma vida mágica onde Deus é visto como um trampolim para o sucesso material, pelo contrário. Seguir a Cristo muitas vezes resulta em sérios prejuízos. Portanto, é da essência do pentecostalismo não abraçar a falsa ideia que o eleito de Deus é um mimado do céu, mas assim como Cristo foi descrito pelo profeta Isaías como o “ferido de Deus”, o cristão sabe que pode, também, ser ferido pelo próprio Deus.  

Referências Bibliográficas:

[1] PONDÉ, Luiz Felipe. Os Dez Mandamentos Mais Um: Aforismos teológicos de um homem sem fé. 1 ed. São Paulo: Editora Três Estrelas, 2015. p 18.

[2] CAVALCANTI, Robinson. Pseudopentecostais: nem evangélicos, nem protestantes. Revista Ultimato. Ed. 314. Setembro-Outubro 2008. Veja em: http://www.ultimato.com.br/revista/artigos/314/pseudo-pentecostais-nem-evangelicos-nem-protestantes

[3] Vingren é autógrafa, segundo o Dicionário do Movimento Pentecostal, de oito hinos, entre esses temos a linda música Em Meu Lugar, cuja letra tem como centro a figura de Cristo como redentor. Para a lista completa veja: ARAÚJO, Isael de. Frida Vingren: uma biografia da mulher de Deus, esposa de Gunnar Vingren, pioneiro das Assembleias de Deus no Brasil. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2014. pp 140-142.

[4] É a principal biografia de Gunnar Vingren escrita pelo próprio filho. Veja: VINGREN, Ivar. Diário do Pioneiro. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1973.

7 comentários:

Edinei Siqueira disse...

Caro Gutierrez,

Este pentecostalismo clássico ainda existe?

Sei não hein! mas com o livre trânsito da "teologia" da prosperidade no meio pentecostal, acho um pouco precipitado dizer que os pentecostais não aceitam a doce ilusão.....

Izabel disse...

Excelente texto.
Duas observações.
Primeira, a maioria das pessoas é incapaz de distinguir pentecostalismo de neopentecostalismo, o que é muito triste do ponto de vista evangelístico, porque eu percebo um esforço por parte dos pentecostais para conseguir provar que não compactuam com as posturas neopentecostais quando falam do evangelho com as pessoas em geral.
Segunda, a meu ver essa é a visão mais correta, ou seja, o escolhido de Deus não é aquele com mais riqueza ou a promessa de riqueza; por outro lado, eu me lembro que no passado, havia (mesmo que nas entrelinhas) a ideia de que era por meio do sofrimento do cristão que ele “conquistava” a salvação. Não seria isto tão errado quanto barganhar riquezas materiais?

Gérson disse...

Belo Artigo!
De fato um Pentecostal de Verdade não aceita a doce ilusão de uma vida sem "Sofrimento".
E tomando a liberdade de responder ao Edinei, posso dizer que SIM, esse Pentecostalismo Clássico ainda existe, até porque o Pentecostalismo não está restrito ás grandes Capitais, ás Igrejas Televisivas e generalizar a visão sobre o movimento Pentecostal por não vermos a sua totalidade e sua abrangência; não é uma forma sábia de enxergar o Movimento. Essa é simplesmente uma visão Turva do Pentecostalismo Brasileiro.

Não é porque lideranças usufruem das Comidades, que famosos cantores intitulados “Pentecostais” exibem fortuna, ou porque Pregadores Televisivos(Ditos Pentecostais) gritem “”Prosperidade”, que não existe um Pentecostalismo Vivo,Autêntico e Clássico.
Existe sim! E digo mais; temos muitos Pregadores, Cantores,Pastores, Missionários, Evangelistas,Obreiros,Membros que não são conhecidos e que não serão, que não escreveram livros, que não escrevem em Blogs, que passarão invisíveis aos olhos da Grande Mídia,que passarão dessa vida para a outra em algum leito de enfermidade,em alguma casa de dois cômodos, em alguma cidade remota,desconhecidos, solitários e Pentecostais e é no funeral desses homens que Cristãos (Pentecostais) em lágrimas entoarão o já citado “Bem Aventurança do Crente” ou “Lugar de Delicias” (Nº 202 da H.C),

Junto ao trono de Deus preparado
Há, cristão, um lugar para ti;
Há perfumes, há gozo exaltado...

Os encantos da terra não podem
Dar idéia do gozo dali;
Se na terra os prazeres acodem,
São prazeres que acabam-se aqui ...

Ou quem sabe o lindo hino composto por Sarah Flower Adams e entoado em diversas Igrejas Pentecostais (Falo daquelas que "não abandonaram a Harpa Cristã"), de Nº 187, da Harpa.

Mais perto quero estar meu Deus de Ti,
Inda que seja a dor que me una a Ti!
Sempre hei de suplicar:
Mais perto quero estar,
Mais perto quero estar, meu Deus de Ti!

Eu particularmente, sou Cristão Pentecostal,Assembleiano (de Berço), Arminiano (Sem sombra de dúvidas) e não almejo riqueza, ou uma vida livre de agruras. Na verdade, quanto mais sofrimento, mais débil, frágil e dependente de Deus serei, afinal, seguir a Cristo requer indubitável Renúncia; da Vontade,dos Desejos, dos Sonhos e porque não dizer: Da Própria Vida!

Ademais, o saudoso Pastor da TIMES SQUARE (David Wilkerson) já dizia:
Nem todo Sofrimento é uma Prova: Pode ser também um Treinamento!!!

Gérson disse...

Belo Artigo!
De fato um Pentecostal de Verdade não aceita a doce ilusão de uma vida sem "Sofrimento".
E tomando a liberdade de responder ao Edinei, posso dizer que SIM, esse Pentecostalismo Clássico ainda existe, até porque o Pentecostalismo não está restrito ás grandes Capitais, ás Igrejas Televisivas e generalizar a visão sobre o movimento Pentecostal por não vermos a sua totalidade e sua abrangência; não é uma forma sábia de enxergar o Movimento. Essa é simplesmente uma visão Turva do Pentecostalismo Brasileiro.

Não é porque lideranças usufruem das Comidades, que famosos cantores intitulados “Pentecostais” exibem fortuna, ou porque Pregadores Televisivos(Ditos Pentecostais) gritem “”Prosperidade”, que não existe um Pentecostalismo Vivo,Autêntico e Clássico.
Existe sim! E digo mais; temos muitos Pregadores, Cantores,Pastores, Missionários, Evangelistas,Obreiros,Membros que não são conhecidos e que não serão, que não escreveram livros, que não escrevem em Blogs, que passarão invisíveis aos olhos da Grande Mídia,que passarão dessa vida para a outra em algum leito de enfermidade,em alguma casa de dois cômodos, em alguma cidade remota,desconhecidos, solitários e Pentecostais e é no funeral desses homens que Cristãos (Pentecostais) em lágrimas entoarão o já citado “Bem Aventurança do Crente” ou “Lugar de Delicias” (Nº 202 da H.C),

Junto ao trono de Deus preparado
Há, cristão, um lugar para ti;
Há perfumes, há gozo exaltado...

Os encantos da terra não podem
Dar idéia do gozo dali;
Se na terra os prazeres acodem,
São prazeres que acabam-se aqui ...

Ou quem sabe o lindo hino composto por Sarah Flower Adams e entoado em diversas Igrejas Pentecostais (Falo daquelas que "não abandonaram a Harpa Cristã"), de Nº 187, da Harpa.

Mais perto quero estar meu Deus de Ti,
Inda que seja a dor que me una a Ti!
Sempre hei de suplicar:
Mais perto quero estar,
Mais perto quero estar, meu Deus de Ti!

Eu particularmente, sou Cristão Pentecostal,Assembleiano (de Berço), Arminiano (Sem sombra de dúvidas) e não almejo riqueza, ou uma vida livre de agruras. Na verdade, quanto mais sofrimento, mais débil, frágil e dependente de Deus serei, afinal, seguir a Cristo requer indubitável Renúncia; da Vontade,dos Desejos, dos Sonhos e porque não dizer: Da Própria Vida!

Ademais, o saudoso Pastor da TIMES SQUARE (David Wilkerson) já dizia:
Nem todo Sofrimento é uma Prova: Pode ser também um Treinamento!!!

Compositor Washington Gama disse...

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alencar raimundo disse...

Parabéns Gerson....

Eliseu Antonio Gomes disse...

Caro Gutierres

Não temos dúvida, a condição financeira de uma pessoa cristã não é o selo de aprovação divina (se rico ou milionário e feliz) e nem é de reprovação/castigo (se for pobre, ou estar empobrecendo e ser infeliz).

Considero estranho encontrar cristãos assembleianos cultivando a ideia de que o selo de boa espiritualidade de alguém é passar por agruras-mil neste mundo. Será que pensam que o Pai celestial é sádico e a vontade dEle é que sejamos filhos masoquistas?

Na semana retrasada, tive um dia muito bom na companhia da esposa, filhas, neta, e uma família evangélica da nossa igreja, no Parque Vila Lobos (SP). Ao anoitecer, fui ao culto e lá aceitei o convite do dirigente para testemunhar. Meu depoimento foi em agradecimento ao Senhor por aquele dia tão perfeito. Resumindo, disse: “tudo deu certo hoje e este dia se transformará em boas memórias em meu futuro”. Na sequência, uma pessoa recebeu a oportunidade para pregar, em sua mensagem apresentou a tese, muito comum no meio pentecostal da Assembleia de Deus, acho que naquela ocasião especialmente dirigida para mim, que os crentes perseguidos e com má-sorte são os que alegram a Deus. E pediu que os crentes em luta glorificassem a Deus!

Será que essa pessoal pensa que o Pai celestial é sádico e a vontade dEle é que sejamos filhos masoquistas?

Convenhamos, o cristão tem o sobreaviso da Palavra de Deus: poderá sofrer por amor a Cristo, é provável que aconteça a perseguição religiosa. Mas nem todo sofrimento ocorre pelo fato de ser um cristão fiel.

A tal ideia de sofrer apenas por ser cristão não é bíblica, é humana, é terrena. Sabemos, segundo textos bíblicos, que muitos sofrem porque plantaram motivos para sofrer. E do mesmo modo, muitos são prósperos e experimentam felicidade porque esta qualidade de ceifa é o resultado de suas semeaduras em conformidade com orientações do Senhor. É o que os apóstolos Pedro e Paulo ensinaram com muita clareza.

Para quem quiser consultar as referências em que me baseio: Romanos 13.1-4; 1 Pedro 2.19-21; 3.10-11; Gálatas 6.7-8.

Abraço.

http://belverede.blogspot.com.br