terça-feira, 1 de dezembro de 2015

A autorreferência e a pobreza da teologia evangélica brasileira

Por Gutierres Fernandes Siqueira

A Igreja Evangélica Brasileira é o segundo ou terceiro maior ajuntamento de protestantes do mundo, mas não reflete essa grandeza na produção teológica. Evidente que vários fatores influenciam esse quadro, mas há um ponto que, na minha visão, é determinante no empobrecimento da teologia brasileira: o espírito de gueto.

Talvez esse mal não seja apenas brasileiro, mas só posso falar daquilo que conheço. Há, infelizmente, uma forte tendência à autorreferência e, também, ao fechamento sectário em pequenos grupos. O cristianismo é muito amplo e multiforme para que a teologia viva o tempo todo em compartimentos.

Vejamos alguns pontos: 

1.       Este texto não é contra a ideia de referência. É obvio que todos nós nos identificamos com uma ou outra teologia e procuramos valorizá-la. Este blog tem um nome que já mostra a preferência do editor. O que condeno aqui é o apego excessivo ao objeto de admiração e estudo.

2.      Já li textos e livros que pretendiam trabalhar uma doutrina cristã genericamente e até exaustivamente (como a eclesiologia ou pneumatologia, por exemplo), porém só citavam autores da sua própria escola teológica.

3.      Digamos que eu queria escrever ou pregar profundamente na Epístola aos Romanos. Será que posso ignorar comentários de Karl Barth ou Martyn Lloyd-Jones só porque não sou nem neo-ortodoxo e nem calvinista puritano? Será que posso ignorar dois grandes comentaristas da epístola só porque eles não são parte do meu mundo teológico?

4.      Sempre procuro ler João Calvino quando quero expor um texto bíblico. Faço isso porque vejo nos comentários de Calvino uma ótima qualidade exegética e uma impecabilidade homilética, mas não porque eu seja adepto de toda a teologia do reformador francês. Pelo contrário, prefiro a soteriologia de Armínio. Todavia, por que desprezarei o melhor de Calvino só porque não sou calvinista? E, infelizmente, talvez não haja grupo mais sectário do que os calvinistas brasileiros. Talvez, ludibriados pela qualidade de muitos teólogos calvinistas (e do próprio reformador) esquecem que há vida além desse espaço.  

5.      E o que dizer dos nossos congressos? Sempre os mesmos nomes, os mesmos temas, os mesmos debates e até as mesmas respostas para perguntas que ninguém nem está fazendo.

Ou mudamos esse quadro ou continuaremos na mediocridade. O calvinista pode aprender com o pentecostal que pode aprender com o wesleyano. O anglicano pode aprender com o puritano que pode aprender com o metodista. Sim, todos nós podemos desfrutar o melhor da teologia evangélica, basta um pouco de humildade.

15 comentários:

Robson Santos disse...

Concordo. Ficamos limitados no conhecimento por causa de diferenças teológicas.

LUCAS SANTOS SILVA disse...

O Negócio é essa humildade, muitos de nós somos preconceituosos...

LUCAS SANTOS SILVA disse...

O Negócio é essa humildade, muitos de nós somos preconceituosos...

LUCAS SANTOS SILVA disse...

O bicho pega é na humildade, porque nós somos muito preconceituosos.

LUCAS SANTOS SILVA disse...

O bicho pega é na humildade, porque nós somos muito preconceituosos.

LUCAS SANTOS SILVA disse...

O bicho pega é na humildade, porque nós somos muito preconceituosos.

Edinei Siqueira disse...

Podemos aprender até com teólogos católicos como Raymond Brown, joseph Fistsmayer, Edward Schillebeeckx, Hans Kung, Karl Ranner, e outros.

Marco Antonio Correia disse...

Gutierres, concordo ipsis litteris com sua argumentação de que nossa produção teológica é sectária e segregante e não contribui para o crescimento qualitativo do corpo de Cristo.

Não obstante ser saudável adotar um posicionamento teológico, por outro lado, este mesmo posicionamento pode tornar-se nocivo, quando revestido de dogmatismo, resultando, por conseguinte, em intolerância e arbitrariedade. Destarte, como bem observado por você, alguns segmentos do calvinismo (senão a maioria) são os exemplos desta espécie. E aqui, misturado no mesmo balaio, destaco a existência dos “neo-arminianos” (permita-me tal neologismo que aplico aos arminiano das redes sociais ou teólogos de internet) que também se esgueiram pelas vias acrimoniosas da insensatez teológica.

Repiso, no final das contas, quem sai perdendo é a Igreja Cristã como um todo.

É bem verdade que as controvérsias teológicas sempre existirão, pois a teologia é uma construção humana e como tal passível de interpretações erráticas, mesmo embasadas nas melhores técnicas e regras de hermenêuticas disponíveis. O problema é aceitarmos humildemente esta premissa. Assim, o “teólogo ludibriado” diz: a minha interpretação, sustentada, por este ou aquele teólogo é a correta e, portanto, autorizativa para que eu subjugue e despreze quaisquer outras interpretações. Triste pensamento.

Entendo que é possível uma produção teológica fundada na diversidade de escolas e pensamentos. E, dentro desta proposta, é possível cotejar um padrão comum que caracteriza a teologia cristã, pinçando as doutrinas fundamentais da fé. É necessário buscar o que fortalece a unidade do corpo de Cristo e não àquilo que o separa. Todavia, nesta linha de raciocínio, existe o grande perigo do relativismo de se interpretar, não de acordo coma o que a Bíblia diz e, sim como eu desejo que seja. Não de acordo com a verdade que sobressai à luz da Palavra, mas de acordo com aquilo que eu entendo que seja a verdade. Para este risco a remediação é a iluminação do Espirito Santo, o Deus esquecido.
Abraços,
Marco

César Lopes disse...

Concordo. Assim como o irmão procura ler Calvino a procura de clareza exegética, ultimamente tenho consultado Luiz Sayão em busca de auxílio para para as lições de EBD. Também não significa que eu concorde inteiramente com o seu pensamento. �� Devemos conhecer bem a nossa "escola teológica" em primeiro lugar, depois, podemos (e devemos) ter contato com outras tradições. São nossos irmãos em Cristo!

GIOVANI VICENTE DE AGUIAR disse...

A paz do Senhor!

Está mais do que na hora de nós pentecostais aprendermos com outras tradições cristãs. E, especialmente, com nosso próprio passado. Parece que muitos irmãos da AD só conhecem as doutrinas e tradições históricas a partir da rua Azuza. Temos que nos lembrar que não somos "apenas" pentecostais, somos também:

PROTESTANTES: Daí a necessidade de aprendermos com outros grupos dessa tradição, como a teologia dos reformadores(Lutero, Calvino, Zuinglio,etc.) e os diversos desdobramentos de suas denominações e tradições: o puritanismo, os grandes avivamentos do séc. XIX nos EUA, o avivamento metodista do séc. XVIII, o pietismo, a ortodoxia reformada, a ortodoxia luterana, etc. Aqui poderiamos encontrar as cinco solas, os sermões, livros e comentários de teólogos dos últimos cinco séculos, tais quais C.S. Lewis, Karl Barth, etc., os mais diversos assuntos, da teologia sacramental à apologética.

CRISTÃOS: Toda a tradição da igreja indivisa,como a teologia patrística(Agostinho, Inácio, Basilio, Orígenes), na qual estão fundadas as grandes doutrinas do cristianismo( Trindade, divindade de Cristo, a Igreja como comunhão dos santos, etc.), as boas filosofias que entraram em contato com nossa fé; a tradição dos grandes textos litúrgicos-doutrinários( credo niceno, apostólico, atanasiano,etc.), as decisões dos sete grandes concílios ecumenicos(séc IV-IX),etc.

Taí, tem muita riqueza na tradição bimilenial de nossa fé.

Arnon Fabrício disse...

Como historiador e a propria historia se apresenta como ciência interdiciplinar podemos usar esta experiência no campo teológico nunca desprezando a corrente teológica seja calvinista ou arminiana seja tradicional ou pentencostal,precisamos entender que o mundo do conhecimento não é estatico mas pode ser aprendindo,discutido e debatido sempre colhendo e extraindo o melhor de cada escola porém jamais desprezando um em detrimento de outrem.

Arnon Fabrício disse...

O importante e fazer parte dessa reforma atual e conteporânea seja qual for a corrente o que faz a diferença e conhece - la e ver a sua aplicabilidade na vida não apenas em riqueza teórica teologica academica,mas sobretudo com riqueza de fruto do Espírito Santo que é Ele que nos conduz ao verdadeiro conhecimento e sabedoria.

Maujor disse...

Uma ótima perspectiva da atualidade. Por pontos que não excencias a salvação divergimos, e prejudicamos o avanço da Teologia Nacional.

Anônimo disse...

Paz Irmão Gutierres...

Olha... como um membro da AD, desde a gema... vejo o problema da produção teológica sob alguns ângulos:

a) Do âmbito reformado: o sectarismo, muitas das vezes, se restringe à interpretação dos credos. No momento em que é efetuado uma interpretação dos cânones de Dort, por exemplo, é antagônico unir 'aderir' à visão remonstrante;

b) Do âmbito reformado, ainda: a problemática maior, não penso que seja na área soteriológica. Mas na pneumatologia, como o irmão citou. Nesse aspecto, muitas das vezes, bons teólogos são deixados de lado e interpretações restritivas à visão de Calvino são assinadas;

c) Do âmbito pentecostal/AD: Aqui, penso que o sectarismo esteja um pouco vinculado ao medo. Explico. Muitas obras publicadas pela CPAD, revistas da EBD e afins, evitam trazer até mesmo comentários ou citar teólogos ou visões reformadas. Chegou ao ponto da revista da EBD p/ jovens (História da Igreja) omitir um capítulo sobre calvino e criar um capítulo sobre Wesley. Falar de História da Igreja e deixar o reformador suiço de fora é incongruente, para não dizer leviano.

d) Do âmbito pentecostal, ainda: Outro aspecto que nos pega é a superficialidade. Em razão do histórico do anti-intelectual aplicado até meados dos anos 90 (pelo menos na minha região), a produção teológica na AD é simplória. Não temos bons exegetas, gente que domina o grego "ao natural" e afins, o que acaba gerando obras rasas.

e) Uma convergência: penso que a convergência necessária se faz em duas vias: a espiritualidade pentecostal, o fervor, a vida; com a busca pela Glória de Deus acima de todas as coisas, do âmbito reformado.
Unindo estas duas coisas, que acabam por refletir o "tendão de aquiles" da outra parte, caminharemos para uma boa teologia, sem os perigos do liberalismo.

Na paz de Cristo
Soares.

FRANK BRAGA DI ASSIS disse...

Como sempre mais ótimo texto que nos levacavreflexão muito sensatos também os comentários, vejo que nem tudo está perdido