sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Assembleiano e calvinista convicto: uma entrevista com Geremias do Couto

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Ontem publicamos uma entrevista com o teólogo Silas Daniel, como um arminiano convicto, sobre a ascensão do Calvinismo nas Assembleias de Deus e outros assuntos correlatos [leia aqui] e hoje leremos outro ponto de vista sobre a mesma questão. 

O objetivo dessas entrevistas é fomentar um debate sério, com nível elevado e sem o calor irracional característico em muitas redes pela internet. É certamente um momento novo nas Assembleias de Deus, um tempo de discussão entre posições antagônicas, mas sempre com uma postura de cortesia. O Blog Teologia Pentecostal espera que o mesmo tom de civilidade dos entrevistados se mantenha entre os leitores dessas matérias, independente da posição assumida. O meu desejo, como membro desta denominação, é que os debates dentro dela não sejam sobre mesquinhez e disputas de poder, mas sim sobre assuntos importantes da teologia, tradição e ética. Há inúmeros debates que necessitam entrar em nossa pauta, inclusive a “mecânica da soteriologia”. Não é uma conversa trivial, desnecessária, como muitos numa pseudoespiritualidade tentam passar, mas é essencial para o amadurecimento teológico da denominação. 

Hoje o teólogo Geremias do Couto nos concede uma entrevista sobre o impacto do crescente calvinismo nas Assembleias de Deus e entre pentecostais de maneira geral, normalmente identificados com o Arminianismo. Ele conta a própria experiência como um pentecostal, pastor assembleiano e calvinista convicto. Como será essa relação?

Geremias do Couto em palestra.
 Um dos poucos pastores assembleianos de expressão nacional assumidamente calvinista.
Geremias do Couto é pastor na Assembleia de Deus em Teresópolis (RJ), mestre em teologia pelo conceituado Gordon–Conwell Theological Seminary (GCTS) onde foi aluno do conhecido exegeta assembleiano Gordon Donald Fee, autor do livro “A Transparência da Vida Cristã” e coautor do obra “Teologia Sistemática Pentecostal”, ambos publicados pela CPAD (Casa Publicadora das Assembleias de Deus). Foi um dos editores da famosa Bíblia de Estudo Pentecostal (BEP) do norte-americano Donald Stamps. Couto também presidiu o Projeto Minha Esperança Brasil da Associação Evangelística Billy Graham.

Blog Teologia Pentecostal: Como pastor das Assembleias de Deus, conhecido escritor entre os assembleianos e de uma família de tradição pentecostal, como foi aderir ao Calvinismo? Qual a causa e a circunstância dessa guinada teológica?

Geremias do Couto: Creio que a expressão “aderir” é muito simplificadora, sobretudo para quem constrói a sua história de vida à luz da coerência. Isso foi mais resultado de um processo iniciado ainda na minha adolescência do que uma mudança propriamente dita. Sempre fui questionador e ledor voraz desde quando ainda era criança. Fui da época em que se marcavam os versículos a lápis de cor durante a leitura. Mantenho ainda o mesmo hábito.

Embora se diga que a AD seja tradicionalmente arminiana, pelos muitos de seus escritos em nossos órgãos oficiais, na prática, na rotina dos nossos púlpitos, regra geral, a verdade é que sobrepujava uma tendência para o semipelagianismo, sem que os pastores soubessem até o que isso significa. É só nos lembrarmos dos antigos “cultos de doutrina”, onde o que menos tínhamos era doutrina, mas a insistência na pregação dos usos e costumes, de forma opressora, com o risco de “perder” a salvação, se incorrêssemos na quebra de uma daquelas regras, mesmo que fosse jogar bola de gude ou soltar pipa. Cresci nesse ambiente em que durante o dia me via “perdendo” a salvação várias vezes, com drama de consciência, pois não conseguia cumprir à risca o que era necessário para manter-me salvo. A noite, tentando dormir, sofria com medo de ir para o inferno, se morresse, por causa das falhas cometidas.

A primeira vez em que se ensinou sobre a diferença entre doutrina e costumes em nossa igreja foi através do pastor Antonio Gilberto. Eu tinha por volta de 13 anos. Nos dias seguintes foi só confusão. O ministério foi até reunido, de forma protocolar, para discutir a questão. Para mim, no entanto, tratou-se de um divisor de águas até porque, em conversa particular com o conhecido mestre, enquanto almoçava com ele no restaurante, pude lhe expor um problema que então me atormentava: a masturbação. Ali, com a sua sabedoria, começou a descortinar-se para mim, como numa penumbra, o sentido da verdadeira salvação. Mas se contasse o problema para um dos presbíteros da igreja, seria sumariamente excluído da igreja. Pelo menos era o que eu pensava pela forma como éramos ensinados a viver a vida cristã. Ora, isso nunca foi arminianismo, mas com bastante complacência identifico como semipelagianismo: a salvação obtida pelo esforço humano.

Com o tempo passei a ter contato com as doutrinas da graça, a ler os mesmos livros citados pelo pastor Silas Daniel em sua entrevista, além de alguns outros, a fazer perguntas e mais perguntas, em diálogos imaginários com os autores das respectivas obras, com lógica e método na exposição do raciocínio, sem nunca abandonar a Bíblia, até que abraçar a fé reformada tornou-se algo natural, sem que houvesse necessidade da qualquer ruptura “explosiva”.

TP: Na sua opinião, quais são os motivos que levam inúmeros jovens assembleianos a abraçarem o Calvinismo e a cosmovisão presbiteriana aqui no Brasil?

GC: Algumas razões já apresentei de forma implícita na resposta anterior, como a predominância do semipelagianismo em nossos púlpitos. Esse era o “arminianismo”que nos ensinavam. Mas convém sinalizar que a liderança assembleiana, com as honrosas exceções de praxe, sempre teve uma atitude refratária à educação teológica formal. Temos de ser realistas e encarar o fato sem maquiagem. Não éramos estimulados ao estudo acadêmico. João Kolenda Lemos e Ruth Dorris Lemos pagaram elevado preço para implantar o IBAD – Instituto Bíblico das Assembleias de Deus, a primeira instituição do gênero nas Assembleias de Deus, localizado em Pindamonhangaba, SP. É só folhear as páginas do Mensageiro da Paz do período, que serão encontrados artigos contrários e favoráveis ao ensino formal. Aliás, essa era uma qualidade que precisa ser exaltada. O Órgão Oficial assembleiano abrigava esse debate. Hoje, infelizmente, isso não mais acontece.

Outra questão a ser considerada é que a literatura pentecostal assembleiana, no Brasil, também era parca. Tínhamos poucos livros, a maioria de natureza devocional, mas praticamente nenhum de caráter acadêmico. Na verdade, uma de nossas maiores igrejas não adotava sequer a revista da Escola Dominical. A primeira obra sistemática de que me lembro, traduzida do inglês, foi “As Grandes Doutrinas da Bíblia”, de Myer Pearlman, que se tornou o livro de cabeceira dos pastores assembleianos. Já aqueles que conheciam o idioma de Shakespeare eram privilegiados e se tornavam a nossa fonte de conhecimento, visto que não tínhamos acesso a essas fontes primárias. Mas como os tempos mudam, houve também mudanças positivas, com a chegada dos seminários, faculdades teológicas, a publicação abundante de livros, as redes virtuais etc. Até mesmo a CPAD tornou-se a maior editora da América Latina, publicando também diversas obras de autores reformados, sem que eu tivesse qualquer influência nisso durante a minha gestão como Diretor de Publicações. Elas começaram a ser publicadas em fase posterior.

No vácuo que acabei de mencionar, de um lado, e a explosão das fronteiras da educação teológica formal, de outro, além da inexistência de obras em português tratando do arminianismo de forma consistente, nossos jovens começaram a ter contato com a literatura e a teologia reformadas, até mesmo através de professores de origem reformada em cátedras de nossos seminários e faculdades, criando assim todas as condições para o surgimento desse interesse. Não acredito que tenha sido algo orquestrado e desconheço que haja pessoas fazendo proselitismo, querendo “calvinizar” as Assembleias de Deus. Isso é forçar a barra. Mas aonde chego, encontro jovens e pessoas já maduras na idade, com boa formação, que acreditam na doutrina reformada, sem qualquer vestígio de proselitismo, e não criam nenhum problema nas igrejas onde professam a fé. Não acho que isso tenha sido um mal. Ao contrário, isso trouxe o nosso meio de forma mais efetiva o “espírito bereano” de cotejar a Escritura em busca de seu respaldo (ou não) para o que está sendo ensinado. Vejo também de modo muito positivo a aproximação entre a fé reformada e a fé pentecostal, partilhando a mesma trincheira em defesa das verdades do Evangelho.

TP: É visível uma reação arminiana entre os pentecostais. Ainda pequena, é bem verdade, mas com um potencial fantástico. Todavia, seria uma reação tardia?

GC: A rigor, a reação arminiana entre os pentecostais é tímida, na defensiva, a não em discussões de grupos no Facebook, onde mais predomina a carnalidade do que um debate sério e consistente entre as duas correntes. O próprio pastor Silas Daniel, na entrevista concedida ao blog, afirmou que sua manifestação era particular, embora contasse com a aprovação da direção superior da CPAD por tratar-se de uma revista institucional destinada aos obreiros da igreja. Mas é bom que essa reação aconteça e posso analisá-la sob duas perspectivas:

  1. Se o arminianismo for ensinado tal como Armínio o formulou ou com as características wesleyanas, isso permitirá que muitos pentecostais percebam o quão diferente é do semipelagianismo que ainda predomina em muitos púlpitos assembleianos. Quem fez essa excelente observação foi o irmão Clóvis Gonçalves, a quem considero o melhor expoente da fé reformada no meio pentecostal. Ao descobrir isso, verão também que o calvinismo não é o tal “monstro” que alguns tentam criar em suas cabeças.
  2. A outra perspectiva é que se o intuito for cercear a liberdade cristã ou promover uma “caça às bruxas”, a reação já nasce com espírito carnal e de forma tardia, pois as Assembleias de Deus, atualmente, enfrentam sérios problemas institucionais, de gravíssima monta, diga-se de passagem, além de estarem extremamente fragmentadas, que lançar um debate com esse propósito acabará por dilacerar o pouco de unidade que resta. Goste-se ou não, o número de reformados, hoje, é muito grande no meio assembleiano. Isto sem qualquer proselitismo.

TP: Alguns pastores assembleianos reagem ao Calvinismo tratando-o como "vento de doutrina", "novidade perniciosa", "heresia" e  outros adjetivos não amigáveis. Como você responde aos seus colegas de ministério?

GC: Radicais há de ambos os lados. Sob o guarda-chuva do calvinismo abrigam-se diferentes tendências. O mesmo pode-se dizer do arminianismo. Até o Teísmo Aberto encontra guarida sob o sistema, como deixa explícito Roger Olson em seu livro: Teologia Arminiana – Mitos e Realidades, e teve como um de seus principais expoentes Clark Pinnock, um dos autores da obra: “Predestinação e Livre-Arbítrio”, ao lado de Norman Geisler. Mas neste ponto, prefiro ficar com a posição que o pastor Silas Daniel expressou em sua entrevista, ao afirmar que o calvinismo honra a Deus tanto quanto o arminanismo – ele enumera as razões – e que em suas leituras de obras reformadas sempre apreciou a “paixão por Deus, pela pureza, pela santidade de Deus, pelo viver para a glória de Deus” de seus autores.

Só me soa contraditório, depois dessa afirmação extremamente conciliadora, propor que os calvinistas pentecostais deixem a Assembleia de Deus e busquem outra denominação, onde a fé reformada seja o cerne da doutrina. Aí acabou por jogar fora a água da bacia com o bebê e tudo. De minha parte, sempre cri que reformados e arminianos podem dar-se as mãos como cristãos, sem contradição alguma, sem ataques e agressões mútuas, que nada engrandecem a Deus e edificam o Reino. A título de ilustração, ontem mesmo vi no Facebook um arminiano chamando a fé reformada de demoníaca, enquanto um calvinista usava o mesmo epíteto para o Arminianismo. Há necessidade disso? É cristão agir dessa forma? Se ambas honram a Deus – repito – por que se digladiar tanto ao invés de lutarmos em defesa do evangelho. Fico com um pé atrás se essa reação “particular” não estaria sendo movida por segundas intenções, uma espécie de cortina de fumaça para encobrir graves problemas que a instituição assembleiana enfrenta.

TP: Como calvinista convicto você sempre mantém uma postura conciliatória.  Sendo assim, qual ponto positivo você poderia apontar no Arminianismo?

GC: Se estamos falando de arminianismo clássico ou wesleyano, encontro os mesmos pontos positivos que o pastor Silas Daniel encontrou na fé reformada. Mas em se tratando da “mecânica da salvação, prefiro ficar com a essência do aforismo peculiar ao veterano pastor José Isaías Neto, vinculado ao Ministério do Belenzinho, em Sorocaba, SP, que do alto dos seus 80 anos, grande parte deles vivido ao lado de Cícero Canuto de Lima, assim afirma: “Não sou calvinista , nem preciso de Calvino para ir ao céu, mas em questão da salvação Calvino estava 100 % certo”.

TP: E a Assembleia de Deus é tradicionalmente arminiana, embora lhe falte a formalização de uma confessionalidade. É possível ser calvinista e assembleiano? Não seria uma distorção de identidade?

GC: Já expressei o meu ponto de vista sobre a questão logo na primeira pergunta. Embora tradicionalmente arminiana, o que sempre predominou nos púlpitos da AD, regra geral, foi o semipelagianismo. Dito isto, vamos a algumas indagações: todos os arminianos são pentecostais? São todos cessacionistas? Ora, assim como há arminianos cessacionistas e arminianos pentecostais, não vejo dificuldade alguma em que haja calvinistas pentecostais, assim como há calvinistas cessacionistas. Em relação à identidade assembleiana, cabe refletir: qual? A do reteté, com suas expressões cultuais estranhas ao genuíno pentecostalismo, como descrito em 1 Coríntios 12, 13 e 14? A do neopentecostalismo, que grassa em nosso meio a olhos vistos, com a introdução de ritos judaicos na liturgia? A do liberalismo, que já encontra eco em diversas cátedras de alguns dos nossos seminários? A do engessamento institucional e político-religioso, que tem devastado a unidade da igreja em nosso país? Ora, se o calvinismo honra a Deus, como bem expressou o pastor Silas Daniel, não vejo porque a presença de reformados na Assembleia de Deus, que não vivem por aí a fazer proselitismo, possa ferir a identidade da denominação.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Arminiano de coração e intelecto: uma entrevista com Silas Daniel

Por Gutierres Fernandes Siqueira
Última edição da revista Obreiro.
Periódico de teologia das ADs.


O teólogo Silas Daniel escreveu recente artigo intitulado “Em Defesa do Arminianismo” na revista Obreiro (ano 36, n° 68). Esse longo texto na principal revista teológica da denominação pentecostal tem causado algum barulho nas redes sociais e está sendo interpretado como uma reação à calvinização crescente de pentecostais, em especial de jovens obreiros da Igreja Evangélica Assembleia de Deus. Inclusive, está prevista para os próximos meses a publicação da série The Works of James Arminius pela CPAD (Casa Publicadora das Assembleias de Deus). Sendo, assim, uma iniciativa inédita no mercado editorial evangélico.

No texto, Silas Daniel costura um panorama histórico da doutrina arminiana, rebate alguns mitos sobre a historiografia de Jacob Armínio e da doutrina que leva seu nome. O artigo traz novas informações sobre os primeiros embates entre calvinistas e arminianos no seio da iniciante Assembleia de Deus. Além disso, diferencia as vertentes mais radicais e moderadas do Calvinismo e encerra com a convicção arminiana, mas em tom conciliatório com a tradição reformada.

Nesta entrevista dada ao Blog Teologia Pentecostal ele compartilha conosco mais algumas impressões sobre a relação Arminianismo-Calvinismo e Pentecostalismo.

Silas Daniel é autor de vários livros como "Reflexões sobre a alma e o tempo", "História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil", "Habacuque - a vitória da fé em meio ao caos", "A Sedução das Novas Teologias" e "A História dos Hinos que Amamos", e "Os Doze Profetas Menores" (coautor), todos títulos da CPAD. Editor-chefe do Departamento de Jornalismo da CPAD. Serve como pastor-auxiliar na Igreja Evangélica Assembleia de Deus em Artur Rios, no bairro de Campo Grande, na cidade do Rio de Janeiro (RJ).
Pr. Silas Daniel, teólogo e jornalista.
Foto de 2013
.

Veja agora essa enriquecedora entrevista.

Blog Teologia Pentecostal- O artigo ““Em defesa do Arminianismo””, de sua autoria, publicado na principal revista teológica da Assembleia de Deus, surge em um momento onde se discute a crescente influência do Calvinismo nas fileiras assembleianas. Levando em conta esse contexto, podemos falar em uma “reação”? Se sim, esse crescimento calvinista entre pentecostais gera alguma preocupação para a identidade assembleiana?
Silas Daniel- Não há uma “reação” oficial da denominação, mas há, sim, a preocupação de alguns irmãos e obreiros assembleianos pelo país com esse aumento da influência do calvinismo no meio assembleiano. O meu artigo surge exatamente como reflexo disso, como fruto dessa preocupação. Ele é uma iniciativa pessoal minha, cuja publicação foi aprovada pela editora oficial da denominação justamente por (1) se reconhecer que há um aumento da influência calvinista no meio assembleiano, que (2) isso precisa ser abordado e que (3) o campo ideal para fazê-lo são as páginas da principal revista de reflexão teológica da denominação. Historicamente, a denominação sempre teve uma posição arminiana. Ela foi fundada por missionários que eram todos eles arminianos e que escreviam textos combatendo o calvinismo. O credo assembleiano, que tem apenas 46 anos, por ser imensamente enxuto, conciso, não entra nos detalhes sobre qual a posição oficial da denominação sobre a mecânica da salvação, mas é fato que, historicamente, sua liderança sempre defendeu a posição arminiana e, como lembrei no meu artigo, chegou até a excluir, em seus primeiros anos de vida, quem aderisse ao calvinismo. Sem falar nos centenas de artigos escritos em suas publicações oficiais nos últimos 100 anos combatendo o calvinismo e defendendo o arminianismo. Enfim, o arminianismo faz parte de nossa identidade.


É verdade que há o caso de alguns poucos teólogos e pensadores assembleianos de respeito no Brasil, os quais respeito muito, que, mais recentemente, defenderam particularmente uma posição que considero estranha, dizendo-se 0% calvinistas, mas não 100% arminianos. Olhando bem o posicionamento deles, vejo mais é um preciosismo em relação ao que acham que Arminius teria dito em relação a isso ou àquilo; na prática, são todos 100% arminianos. E independente da posição meio confusa de um ou outro particularmente, a posição oficial da denominação sempre foi arminiana.


Quanto à preocupação com a nossa identidade, ela é natural. O principal motivo da preocupação com a influência calvinista é a discordância doutrinária mesmo, mas claro que há também a preocupação com a nossa própria identidade. A identidade consiste em tudo aquilo que nos faz ser o que somos. A Assembleia de Deus é do jeito que é não apenas por ser pentecostal, mas por ser também arminiana. Se a Assembleia de Deus deixa de ser arminiana, ela se torna outra coisa, e não mais o que é. É equivocado pensar que uma denominação que deixa de ser arminiana para se tornar calvinista, e vice-versa, não vai sofrer alguma mudança em sua forma de ser. Claro que sofrerá! Há características históricas profundas na AD, e que são caras a ela, seja em sua forma de pregação ou mesmo na liturgia, que são reflexo justamente de seu arminianismo, assim como o calvinismo se reflete na liturgia e no formato da mensagem presbiterianos e congregacionais.


Por que há estudos acadêmicos sérios que mostram pontos de contato inequívocos entre o avivamento wesleyano do século 18 na Inglaterra e o pentecostalismo assembleiano no Brasil, como o célebre estudo desenvolvido pelo professor Luís Wesley de Souza? Não seria pelo fato de haver pontos de contato entre as cosmovisões teológicas wesleyana, de um lado, e pentecostal assembleiana brasileira, de outro? Enquanto isso, você não vai encontrar estudos que mostram profundos pontos de contato entre o calvinismo e o pentecostalismo assembleiano brasileiro. Ora, são todos irmãos em Cristo (metodistas, calvinistas, assembleianos), mas não há dúvida de que determinadas formas de ver ou enfatizar certos aspectos da doutrina bíblica acabam influenciando na forma de ser das igrejas, aproximando umas mais do que outras.


Da mesma forma que uma igreja que começa a se abrir ao pentecostalismo começa a ter sua liturgia afetada, uma igreja pentecostal que começa a se tornar calvinista começa também, aos poucos, a refletir essa mudança em sua liturgia, estilo de mensagens etc. Igrejas com mentalidade calvinista tendem, por exemplo, a serem mais formais em sua liturgia e mais avessas às manifestações pentecostais do que igrejas arminianas. Essa é uma das muitas preocupações, e ela não é baseada em teoria. É um dado empírico. Eu conheço uma denominação pentecostal, não vou dizer seu nome, cujos membros têm reclamado que, desde que ela passou oficialmente a ser calvinista, está passando por um processo de despentecostalização visível. Seus cultos perderam a espontaneidade, estão cada vez mais formais; as profecias passaram a ser desprezadas, os batismos no Espírito Santo começaram a se tornar raros. Sem falar dos perigos de alguns crentes descambarem para o fatalismo via adesão ao calvinismo.


Estou dizendo com isso que a Assembleia de Deus é “perfeita”? Que não temos nada para mudar para melhor? Que não precisamos refletir sobre nada referente à nossa forma de ser? Não, não é isso. Acho que devemos sempre estar refletindo com humildade sobre nossas virtudes e imperfeições; e nossa denominação, nas últimas décadas, tem melhorado positivamente em alguns aspectos justamente como fruto dessa reflexão. Em outras, ainda não. Essas mudanças são paulatinas, e é melhor que sejam assim mesmo, porque mudanças abruptas nunca fazem bem. Porém, é preciso sublinhar que essas mudanças nunca podem significar a perda de nossas raízes, da nossa espinha dorsal, da nossa essência, daquilo que realmente somos, e o arminianismo faz parte da essência assembleiana.


Além do mais, até entendo que um crente assembleiano possa ter particularmente convicções calvinistas, mas empenhar-se em um projeto de “calvinização” da denominação é demais. Não que eu conheça alguém particularmente empenhado nisso. Falo em hipótese. Se você já não se sente bem na Assembleia de Deus, se não se sente mais um assembleiano, se sente-se mais um calvinista do que assembleiano, é melhor sair da Assembleia de Deus e ir para uma igreja tradicional ou renovada calvinista. Pelo menos em favor da própria coerência.
TP)  Você afirma que um dos erros dos arminianos nas Assembleias de Deus foi enfatizar mais o combate ao calvinismo, muitas vezes de maneira um tanto amadora, do que afirmar ou reafirmar o arminianismo. Podemos falar apenas em uma “estratégia apologética mal focada” ou num desconhecimento dos teólogos assembleianos do seu próprio arminianismo, mesmo entre aqueles mais informados?
SD- Creio que pode ter havido isso também, como vemos no caso de alguns poucos que dizem que não são calvinistas, mas também não são 100% arminianos por real desconhecimento do que é o arminianismo; mas, no geral, foi mais a aplicação inconsciente de uma estratégia apologética equivocada. E esse erro só pode ser percebido agora porque foi apenas mais à frente que surgiu um contexto que favoreceu uma maior aproximação dos assembleianos em relação à teologia reformada, contexto este que descrevo no início do meu artigo na revista Obreiro. Foi somente quando esse novo contexto surgiu que se descobriu que essa estratégia era falha, porque ele provou que muitos assembleianos ou ainda não compreendiam direito o arminianismo ou não sabiam defender bem a sua posição. Além disso, como já disse, muitos batiam muito no velho calvinismo fatalista pensando que estavam batendo no calvinismo de forma geral, que é majoritariamente compatibilista.
TP) Sabemos que tradicionalmente a Assembleia de Deus no Brasil é arminiana, não há dúvidas sobre isso, mas essa teologia não está expressa em sua confessionalidade oficial. A confissão de fé das Assembleias de Deus no Brasil é muito concisa. Quando lemos os 14 pontos do “Cremos”, não é possível identificar qual seria a “mecânica” de salvação adotada pelo documento.  Embora você não coloque esse ponto no artigo como causa do aumento no número de calvinistas entre assembleianos, é possível afirmar que essa concisão acentuada da confessionalidade assembleiana ajuda nesse processo de “muitas vozes” teológicas no seio da denominação? Ou seja, um documento muito curto ajuda na multiplicidade de opiniões, na falta de unidade? Ou ainda, seria o caso da Assembleia de Deus no Brasil adotar um documento confessional e, portanto, oficial, mais amplo e detalhado?
SD- Sim, creio que essa concisão dá margens a essas “muitas vozes”. Aproveitando: a razão de nosso “Cremos” ser tão conciso assim se deve a fatores históricos. Durante um bom tempo, os líderes assembleianos brasileiros nunca sentiram internamente – no seio da denominação – uma real necessidade de um documento mais amplo. Não havia grandes divergências internas doutrinárias dentro da denominação. Também não havia muito contato com a teologia de fora. Era muito difícil, por exemplo, ver um assembleiano brasileiro estudando em seminários de outras denominações. Até o fim dos anos 70, a denominação colocava o seu ensino teológico informal acima do ensino formal de teologia dos seminários, mesmo os da própria denominação. Ora, historicamente, os credos só vão ficando mais encorpados quando a igreja que professa aquele credo percebe a necessidade de se enfatizar determinada doutrina que está sendo atacada. Se não há grandes ataques, o credo geralmente fica como está. E foi o que aconteceu.


Como até poucas décadas atrás as divergências teológicas e as heresias que surgiam na AD eram muito pontuais, sem afetar a denominação como um todo, ninguém pensou em ampliar o “Cremos”. Só mais recentemente é que tivemos fenômenos maiores, geralmente advindos da influência neopentecostal em nosso meio e que exigiram da liderança da AD a produção de longos documentos oficiais explicitando nosso posicionamento doutrinário sobre determinadas questões. A Comissão de Apologética da denominação é um reflexo desse novo momento. Ela foi formada a partir de 2001, isto é, só há 14 anos. E só de 2012 para cá surgiu a discussão do detalhamento do “Cremos”, que deve ser levada adiante nos próximos anos.


Outro detalhe é que alguns articulistas assembleianos antigos, já falecidos, interpretavam essa concisão do nosso “Cremos” de forma positiva, como uma suposta demonstração da virtuosa “não-formalidade pentecostal”. Só que eles se esqueciam que uma coisa não tem nada a ver com a outra. Ter uma confissão de fé mais elaborada não significa que seremos agora uma denominação liturgicamente mais formal. Sempre defendi que ter uma confissão de fé mais detalhada, que seja plenamente fiel às nossas raízes bíblicas e teológicas, não significa ter uma igreja mais formal. Significa resguardar mais a denominação de “ventos de doutrina”. Não basta ter o detalhamento de nossa doutrina distribuído espalhadamente em livros, revistas e jornais oficiais da denominação. É preciso ter esse detalhamento todo reunido e organizado em um só documento oficial. É mais prático. É uma questão de praticidade e, nesses dias de tanta confusão doutrinária, de necessidade também.
TP) Um ponto muito interessante do artigo é o conceito da contingência na presciência de Deus. Embora muitos pentecostais estejam bem distantes do Calvinismo, é comum na teologia popular certo fatalismo quando se trata de “causas e consequências”, especialmente diante de grandes tragédias. A frase “”Deus assim quis”” é muito comum sem levar em conta a lógica da afirmação em alguns contextos.  Por que o fatalismo e até certo determinismo é comum na teologia popular?
SD- É a velha confusão popular que é feita entre “vontade permissiva” e “vontade diretiva” de Deus. Muitos crentes acabam tratando tudo como “vontade diretiva”, embarcando, na prática, em um fatalismo, esquecendo os aspectos contigenciais dos acontecimentos e também o peso da responsabilidade humana em muitos casos. Isso acontece quase que invariavelmente em casos de tragédias, justamente porque tendemos a buscar explicações simplistas para acontecimentos chocantes, quando muitas vezes as explicações não são tão simples. Ou às vezes são e nós complicamos, mistificamos.
TP) Você dedica os quatro últimos parágrafos do texto a falar em um tom conciliatório, citando especialmente Charles Spurgeon, pregador calvinista e batista inglês. Chega até a afirmar que o Calvinismo honra a Deus, assim como o Arminianismo. Em tempos de debates acalorados na internet o que você, como arminiano convicto, tem aprendido dos calvinistas?
SD- Quando disse que o calvinismo honra a Deus tanto quanto o arminianismo, claramente estou me referindo ao calvinismo majoritário, compatibilista. É óbvio que o calvinismo compatibilista honra a Deus como o arminianismo, porque ambos reconhecem tanto a soberania de Deus quanto a responsabilidade humana, que são ensinadas nas Escrituras; ambos pregam fielmente a mensagem e o método da Salvação; ambos enfatizam a necessidade de se viver uma vida de santidade, de se pregar o Evangelho, de se fazer missões, de se viver a vontade de Deus etc. Não posso dizer o mesmo do calvinismo fatalista. Quanto ao que aprendi com os calvinistas, posso dizer que, em termos de teologia, não aprendi com eles mais do que aprendi com bons teólogos arminianos, mas isso não significa que não tenha visto muita coisa boa. É óbvio que vi. Há muita coisa boa e enriquecedora na teologia reformada, mas o que me chama mais a atenção mesmo nos autores calvinistas clássicos não é tanto seus “insights” teológicos. Dos grandes cristãos do passado que eram calvinistas, chama-me mais a atenção suas vidas: sua paixão por Deus, pela pureza, pela santidade de Deus, pelo viver para glória de Deus.


Lembro quando nos anos 80 li pela primeira vez “Heróis da Fé” (CPAD) do missionário assembleiano Orland Spencer Boyer. Fui tocado pelo testemunho de vida dos homens de Deus ali apresentados, e a maioria deles era de calvinistas. Isso me fez buscar mais sobre esses homens, e foi assim que li as obras de Lutero, as obras de John Bunyan, Richard Baxter, os sermões e livros de Spurgeon, os sermões copilados de Whitefield, sermões e principais obras de Jonathan Edwards. Depois li John Owen, Matthew Henry, e os nossos contemporâneos Martin Lloyd-Jones e J. I. Packer. Mergulhei de cabeça nos puritanos, em sua história, em suas obras, de maneira que, no início dos anos 90, já havia lido tudo deles e sobre eles que pude encontrar no Brasil e até um pouco do muito que se tem deles lá fora. Nessa época, era leitor assíduo da revista “Os Puritanos”, que não sei nem se ainda existe. Isso faz 20 anos ou mais. Contudo, nada disso me tornou um calvinista. Ainda hoje adquiro obras desses grandes homens e toca-me sua devoção e alguns “insights” teológicos. Assim como tocam-me a vida e os escritos de arminianos como os irmãos Wesley, Moody, Tozer e Ravenhill, dentre outros. Aliás, sempre achei, sob muitos aspectos (não em todos), esse embate entre calvinistas e arminianos uma perda de tempo, preferindo mais aproveitar a riqueza que há na produção de ambos os lados do que ficar me detendo nas diferenças. Essa minha atitude levou até alguns colegas meus arminianos a pensarem equivocadamente, alguns anos atrás, que eu era um “calvinista enrustido”. Bobagem! Quem me conhece sabe que sempre fui um arminiano convicto. Apenas sempre me senti incomodado com essa história de dizer que um excelente livro que é de autoria de um calvinista não presta porque é escrito por um calvinista. Há obras magníficas escritas por grandes cristãos calvinistas como por grandes cristãos arminianos. Usufruamos dessa riqueza de ambos os lados!
TP) O Arminianismo muitas vezes é dividido entre o “do “intelecto”” e “do “coração””, sendo o primeiro preocupado em se adequar ao espírito moderno e às demandas do Iluminismo em particular. Muitos arminianos no século XVII seguiram essa tendência liberal. Hoje, o liberalismo teológico é pequeno, mas crescente no Brasil, mesmo entre os pentecostais. Como o arminianismo “”do coração”” pode responder de maneira eficaz ao liberalismo usando o próprio arminianismo?
Entendo o sentido dado a esses termos pelos autores que estabelecem essa divisão, mas não a acho correta. O chamado “arminianismo do intelecto”, na verdade, é uma referência à ala de seguidores de Arminius que acabaram se afastando do pensamento original de seu mentor, inspirados pela onda racionalista que nascia em seus dias e que culminaria na febre iluminista que viria logo em seguida. Aqueles que permaneceram fieis ao pensamento original de Arminius, que era totalmente ancorado nas Escrituras, não são arminianos apenas “de coração”, mas “de intelecto” também, e obviamente não no sentido empregado pelos autores que preconizam essa divisão dentro do arminianismo. É esse arminianismo original, “do coração e do intelecto”, que pode responder de maneira eficaz ao liberalismo teológico de ontem e de hoje.

domingo, 25 de janeiro de 2015

O evangelismo nas ruas: uma reflexão!

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Desde o início da minha fé evangélica e como pentecostal participei/participo de cultos evangelísticos nas ruas ou praças. É bem verdade que hoje estão mais raros. Há uma década cheguei a frequentar três cultos desse tipo em uma semana e hoje, infelizmente, esse intervalo é mensal.

Crucificação de são Pedro (1600) de Caravaggio
Pedro, um evangelista por excelência
É bem verdade que hoje tenho minhas dúvidas sobre a eficácia desse tipo de abordagem, mas também não a descarto, pois é melhor um culto na praça ou na rua vazia com pouco alcance do que uma congregação trancada em suas casas. E, também, como descartar um método secular sem propor algo melhor em troca? O pouco é melhor do que o nada. No entanto, o pouco também precisa ser melhorado constantemente. 

E aqui dou algumas dicas que julgo melhorar a comunicação do culto evangelístico:


  1. O tempo deve ser objetivo. Já participei de cultos na rua com 2h30 de duração. É muito tempo. O ouvinte não acostumado com o ambiente religioso ficará cansado e a comunicação será afetada. O ideal seria uma hora de culto. É tempo suficiente para uma boa mensagem e alguns louvores.
  2. Culto evangelístico não é show de calouros. Algumas igrejas usam esse tipo de culto para colocar todos os membros a falar ou a cantar. É quase um “treino” para a congregação falar em público. Isso é um erro grave. Não é incomum pessoas sem experiência de púlpito prejudicar a essência do culto com uma palavra fora de ordem. O culto evangelístico, também, não pode ser uma reprodução literal do culto dominical.
  3. O louvor precisa ser ensaiado. O louvor no contexto evangelístico não deixa de ser um meio de adoração a Deus, mas também serve como complementação da mensagem. O louvor precisa ser previamente escolhido e bem ensaiado. É necessário atenção com a letra cantada. É necessário entender que o ouvinte precisa absorver a mensagem cantada. Não há recursos para tal? Bem, escolha um bom CD para ajudar.
  4. O uso de corais. O coral de uma igreja também tem um papel importante no evangelismo de rua. É o tipo de apresentação que chama a atenção de qualquer transeunte. O uso da arte musical mais clássica ajuda e muito na comunicação evangélica. Outras artes (teatros, peças musicais, danças etc.) também ajudam, mas nunca podem- em hipótese alguma- substituir a pregação, pois a “fé vem pelo ouvir”.
  5. A pregação precisa ser clara. O texto escolhido não pode ser de difícil interpretação. A pregação não pode ser uma aula de exegese e nem abraçar uma superficialidade das mensagens de autoajuda. Os pontos centrais do Evangelho e o círculo “criação, queda e redenção” não pode ser esquecido. A pregação deve ser obviamente evangelística e não doutrinária ou, como já vi alguns fazendo, o ensino de tradições e tabus comunais como usos e costumes de uma denominação. A pregação evangelística, como toda pregação, deve começar em Cristo e acabar com Cristo.
  6. Não deve ser espaço para ataques diretos a outras religiões. O exercício da apologética deve ser visto como um meio do discipulado e não primeiramente como um método evangelístico. A conversão do homem vem pela simplicidade do evangelho e não pela complexidade da apologética. Mas não se pode evangelizar com apologética? Sim, pode. Mas esse processo deve ser bem trabalhado e dificilmente alguém terá sucesso em tal empreitada numa simples praça. O melhor ambiente para o exercício apologético é a universidade, que atualmente exerce o mesmo papel da ágora grega. E nunca nos esqueçamos: a apologética é defesa e não ataque.

Poderia citar outros conselhos, mas na minha opinião esses já ajudam na dispersão de ruídos na comunicação. E uma boa comunicação é essencial para a pregação do Evangelho.

sábado, 17 de janeiro de 2015

Não existe meia liberdade, caro Francisco!

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Leonardo Boff, teólogo adjetivado como "progressista", defendeu em recente artigo a censura para expressões que firam "a sensibilidade religiosa". Sim, ele abertamente fala em censura. Ora, não há nada mais retrógrado, é necessário logo apontar. O papa Francisco, outro senhor que nos faz refletir sobre a decadência da teologia latino-americana, também expressou que não deve existir "insulto contra a religião alheia". E,  curiosamente ou não, essa é a mesma opinião dos líderes do Talibã no Afeganistão, dos assassinos do Boko Haram na Nigéria e dos terroristas do Estado Islâmico no norte da Síria. Ainda que a preocupação desses últimos seja apenas com o profeta Maomé.  

É muito perigoso para o Cristianismo uma onda da censura sobre discursos que "atinjam sensibilidades". A sensibilidade no indivíduo é o ponto máximo do relativo, e um mundo que absolutiza na coletividade os valores relativos ao indivíduo cria uma tirania ao avesso. Você quer viver em um mundo onde cada ser humano sensível proíba uma expressão? Esse mundo seria terrível. Ou talvez o mundo caminha para a distopia do livro “O Doador” de Lois Lowry onde não existe a liberdade e, no fim, nem mesmo os sentimentos. Um mundo dominado pelo medo de ferir sensibilidades acabará por matar os próprios sentimentos.

Eu quero a minha liberdade para afirmar e reafirmar o que eu creio, mesmo que isso deixe alguém ou um grupo chateado. Assim como devo aceitar uma sociedade onde eu também seja objeto de um discurso ofensivo a minha própria sensibilidade. A liberdade é uma via de mão dupla. Quando ouço um ateísta de linha marxista dizendo que a fé é alienação das classes subdesenvolvidas, logo fico extremamente chateado. Acho esse discurso fortemente preconceituoso e simplista. Todavia, espero em Deus nunca defender a censura de quem pensa assim na grande arena do discurso público. Espero, apenas, convencê-lo pela apologia.

Então serei uma ameba diante das ofensas? De certa forma sim, pois a constituição de uma civilização é o conjunto de renúncias dos indivíduos no exercício da força e da violência. A barbárie é onde cada um impõe o seu próprio princípio.

Os cristãos que diante das charges satíricas dizem "a liberdade de expressão tem limites" estão cometendo suicídio intelectual. Eu sei, algumas charges são ofensivas contra aquilo que cremos? Podemos reclamar, boicotar (medida quase sempre ineficaz) e até processar, mas nunca e em hipótese alguma deveríamos levantar a bandeira da limitação da liberdade de expressão. Paulo, o apóstolo, escreveu aos coríntios que "nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus e loucura para os gregos" [1.23]. Vamos lembrar que a nossa pregação evangelical é ofensiva para muitos e loucura para outros... Se defendemos a limitação da liberdade para "mensagens ofensivas" isso um dia se voltará contra nós. Aliás, isso já começou em alguma medida. O cristão sábio é o primeiro a levantar a bandeira da liberdade de expressão sem restrições de qualquer natureza.

Portanto, caro Francisco, ao comparar a ofensa às religiões com um xingamento à mãe você acabou por ajudar a lógica jihadista. Não se compara as relações e a cortesia pessoal com a liberdade de expressão, da liberdade das ideologias e da própria liberdade religiosa. É, como dito acima, tomar valores relativos com valores absolutos. Não existe meia verdade, caro Francisco, quando falamos da liberdade para expressar ideias.

domingo, 4 de janeiro de 2015

A panpneuma dos liberais: uma pneumatologia do ego!

Por Gutierres Fernandes Siqueira


O cristianismo não é uma doutrina filosófica, não é um programa de vida para sobreviver, para ser educados, para fazer a paz. Estas são consequências. O cristianismo é uma pessoa, uma pessoa erguida, na Cruz, uma pessoa que se aniquilou a sí própria para nos salvar; fez-se pecado. E assim como no deserto foi erguido o pecado, aqui foi erguido Deus, feito homem e feito pecado por nós. E todos os nossos pecados estavam ali. Não se percebe o cristianismo sem se perceber esta humilhação profunda do Filho de Deus, que humilhou-se a si próprio fazendo-se servo até à morte de Cruz, para servir. [Jorge Mario Bergoglio]

O liberalismo teológico é uma cosmovisão muito, digamos, estranha. Sob o signo do livre pensamento cria-se as mais absurdas, criativas e vazias doutrinas.  E nem a pessoa do Espírito Santo escapa. Numa linha mais de neo-ortodoxa radical à liberal o Espírito Santo é exaustivamente tratado nas teologias sistemáticas, ao contrário das sistemáticas conservadoras, mas ao mesmo tempo perde pessoalidade e personalidade.  O Espírito Santo, quando muito é tratado com “e” minúsculo [1], é visto como a essência da comunidade e da vida cristã. Teólogos liberais, por exemplo, defendem uma “pneumatologia cósmica”, onde todo o universo está no Espírito Santo. É uma espécie de panteísmo do Espírito ou panpneuma (tudo é o Espírito e o Espírito é tudo). A pneumatologia cósmica é uma consequência lógica da doutrina do Cristo Cósmico [2]. O teólogo católico Luz Carlos Susin, por exemplo, expressa de forma resumida a abrangência da cosmologia do Espírito, assim segundo sua própria crença: 

Hoje, a consciência religiosa cristã reclama naturalmente, ao lado de uma cristologia cósmica das sementes do Verbo, também uma pneumatologia cósmica [...] A Ecologia, a nova física, a revalorização da corporeidade, o novo encantamento do universo habitado pelo mistério, reclamam uma teologia do Espírito Santo como Espírito de Deus em todo o universo. Ou, também, todo o universo no Espírito Santo. [3]
Portanto, essa postura moderna e ou pós-moderna de identificar o Espírito Santo como a essência do ser, a comunidade na individualidade, em nada resgata a figura bíblica da pessoa divina, mas, ao contrário, distorce segundo critérios esotéricos e de autoajuda numa linguagem avançada e erudita, mas recheada do antropocentrismo típico da “busca interior”. É apenas uma nova roupagem para o velho discurso New Age

Peço desculpas aos liberais, pois eles possuem um conceito elevado sobre si, mas não consigo diferenciar esse discurso “cósmico” da autoajuda pós-moderna na busca do “ser interior”. Aliás, nada mais sem graça do que o liberalismo, pois ele pode ser encontrado em qualquer prateleira esotérica da livraria mais próxima com outras roupagens. No fundo é o peso de fazer da teologia uma ciência da religião, uma sociologia mal feita, onde há um limite para o criar e a vacuidade toma conta do pensamento humanista. 

Que venha o Espírito Santo sobre nós! Assim não sejamos tragados pelo vácuo do espírito cósmico que é nada mais do que o nosso ego espiritualizado sob uma linguagem coletivista e potencialmente totalizante. “Ora, o Senhor é o Espírito e, onde está o Espírito do Senhor, ali há liberdade” [2 Coríntios 3.17]. No espírito cósmico há a prisão do coletivismo e a palavra final é do próprio eu- um horror! 

Notas e Referências Bibliográficas:

[1] TILLICH, Paul. Teologia Sistemática. 1 ed. São Leopoldo: Sinodal, 2005. p 567. A publicação original desta obra é de 1951. 

[2] Como lembra Carson o apelo dessa crença é vago porque esse Jesus transmite o conteúdo que o próprio indivíduo quer. O mesmo vale para o panteísmo da pneumatologia cósmica. Veja: CARSON, D. A. O Deus Amordaçado. 1 ed. São Paulo: Shedd Publicações, 2013. p 44. Leia também: O Cristianismo e a Nova Era. 1 ed. Campinas: Ecclesiae, 2013. p 66-72. 

[3] SUSIN, Luiz Carlos. Espírito Santo: Seio maternal de Deus. HACKMANN, Geraldo L. B. (org.) Sub umbris fideliter. 1 ed. 1 ed. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1999. p 228. Para livros que trabalham a partir de uma pespectiva da pneumatologia cósmica veja, por exemplo: ROCHA, Alessandro. Espírito Santo: Aspectos de uma Pneumatologia Solidária à Condição Humana. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2008; BOFF, Leonardo. O Espírito Santo: Fogo interior, doador de vida e Pai dos pobres. 1 ed. Petrópolis, Vozes, 2013. No fundo Boff usa elementos da piedade cristã com a crença num Estado total. Não seria exagero afirmar que a consequência lógica dessa mistura nefasta é o fascismo. Veja: DOOYEWWERD, Herman. Estado e Soberania. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, p 41.