quarta-feira, 29 de julho de 2015

A apologética sob a ação profética do Espírito Santo

Ágabo, o profeta
Por Gutierres Fernandes Siqueira

O texto de 1 Timóteo 4 fala de apostaria e heresia, porém começa com uma observação curiosa: “mas o Espírito expressamente diz”. O que é possível aprender dessa expressão? Ora, o ministério do Espírito Santo envolve o exercício da correção e da apologia através, inclusive, do dom de profecia, do ministério profético e do dom de discernimento de espírito. O Espírito Santo quase nunca é associado ao labor apologético e aí está um erro comum entre cristãos diante dos males deste mundo: a falta de dependência da igreja contemporânea da ação de divina. Enfrentar o mal apenas com ferramentas humanas não é só limitador, mas igualmente arrogante em desprezo a ideia central no cristianismo da graça divina.

A apologética não pode ser vista apenas como um exercício de polemistas. É fato que a apologética é um trabalho intelectual, mas tal fato não apaga o caráter espiritual do combate à apostasia e à heresia. Nesse texto, o apóstolo depende do ministério do Espírito para o discernimento sobre o tempo presente. “Essa é a única referência na carta a Timóteo ao ministério e a presença do Espírito na igreja. A função do Espírito aqui é transmitir (como fonte e capacitador divino) uma palavra profética”, como observa Philip H. Towner [1]. Isso mesmo: o Espírito Santo capacita o homem numa palavra profética para discernir o erro.

O ministério profético, diferente do que afirma equivocadamente o cessacionismo, não acabou na era apostólica. O profeta neotestamentário não tinha uma função de formulador doutrinário, logo porque quem exercia esse papel era o colegiado apostólico. A igreja estava baseada na “doutrina dos apóstolos” e não na “doutrina dos profetas”. O profeta neotestamentário, que sempre deve ser diferenciado do veterotestamentário, exercia outros papéis, entre eles o resguardo da doutrina dos apóstolos através do discernimento de espíritos, pois há uma estreita ligação entre os dons. 

sábado, 25 de julho de 2015

Um pastor que não ensina a Bíblia é não é digno dessa função!

Por Gutierres Fernandes Siqueira

O silêncio realmente é o amigo e o ajudador do pensamento e da invenção; mas se alguém almejar a facilidade da fala e a beleza do discurso, não as atingirá por outra disciplina senão o estudo das palavras e sua prática constante. [Gregório Taumaturgo 1]

Em o Novo Testamento os termos “presbíteros”, “anciões”, “bispos” e “pastores” eram intercambiáveis (e.g. At 20. 17,18; Tt 1. 5-7). O texto de I Timóteo 3. 1- 7 mostra objetivamente as qualidades morais necessárias ao ministro do Evangelho. Veja que a lista paulina não indica as funções práticas dos presbíteros e nem o que eles deveriam fazer em termos de administração e finanças, por exemplo. O texto fala apenas das qualidades de caráter.  Todavia há uma exceção e essa diz respeito ao ensino.


Ser “apto para ensinar” (v. 2) é o diferencial “técnico” do episcopado. Ainda que o ensino na Escritura seja um dom do Espírito (cf. Rm 12.7), é imprescindível o esforço do ministro: “haja dedicação ao ensino” (ARC), diz o apóstolo. Portanto, é inadmissível que alguém seja ordenado ao ministério pastoral sem a plena capacidade professoral nas Escrituras. O cristão pode ser moderado, bom pai de família e uma pessoa irrepreensível, mas se não tiver capacidade para ensinar não será um pastor digno da função. E, é bom lembrar, o pastorado também é um dom comungado com o ensino (cf. Ef 4.11). 

sábado, 18 de julho de 2015

Fundamentos da Teologia Pentecostal (bate-papo via SKYPE)

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Caros,

Participei de um bate-papo via SKYPE com um pequeno grupo de jovens da Assembleia de Deus de Chapadão do Céu (Goiás). Veja abaixo. O assunto é sobre o pentecostalismo e o estudo bíblico. 

sábado, 11 de julho de 2015

O escolhido e o sofrimento: o pentecostalismo não aceita a doce ilusão de uma vida mágica e sem agruras!

Por Gutierres Fernandes Siqueira

No ótimo e recomendável livro Os Dez Mandamentos Mais Um: Aforismos teológicos de um homem sem fé, o filósofo Luiz Felipe Pondé comete uma pequena injustiça com o pentecostalismo clássico. Pondé, escrevendo sobre “eleição” e sofrimento, afirma:


Quem é o eleito, para a sabedoria hebraica? É aquela ou aquele escolhido para mostrar ao mundo o que pode Deus e o que Ele quer da Sua criação. É uma interpretação muito diferente da que vigora entre os pentecostais, para os quais eleito é aquele que vai ficar rico. Não. Um homem é eleito para sofrer [...]. (grifo meu).


Pondé estaria certo se referisse ao neopentecostalismo. Infelizmente, o neopentecostalismo domina o discurso inclusive em inúmeras igrejas antes pentecostais e afirma tais bobagens. Mas como dizia Dom Robinson Cavalcanti falar em neopentecostalismo é uma injustiça, pois a mensagem desse grupo não é mera renovação dos antigos carismáticos, mas uma total distorção do pentecostalismo original. O melhor seria falar em pseudopentecostalismo, como dizia Cavalcanti [2].

O pentecostalismo original e histórico, da mesma forma da sabedoria hebraica, enxerga sobre o eleito (ou escolhido de Deus) o fardo do sofrimento. Basta uma rápida leitura da Harpa Cristã, o hinário oficial das Assembleias de Deus, para contemplar um realismo sobre o sofrimento na vida do homem. O discurso que sempre vigorou no pentecostalismo clássico é que o escolhido de Deus não está livre das agruras da vida, muito pelo contrário.

Frida e Gunnar Vingren
Um belo exemplo. A sueca Frida Vingren (1891-1940), que dispensa apresentações, está certamente entre os principais pioneiros do trabalho evangélico-pentecostal no Brasil. Ela traduziu e adaptou 24 hinos da Harpa Cristã [3]. Nas canções pode-se perceber qual era a visão da musicista, poeta e missionária: o sofrimento é parte inerente da vida cristã, mas ao mesmo tempo a esperança é cultivada em Cristo. A escolha da missionária Vingren espelhava a própria teologia pentecostal daqueles dias onde o sofrimento era visto como uma “escola sublime”, expressão essa para lembrar um artigo do missionário Nils Kastberg (1896- 1978) no jornal Som Alegre de janeiro de 1930, periódico este que foi o precursor do jornal Mensageiro da Paz, órgão oficial de comunicação das Assembleias de Deus. O sofrimento sempre foi encarado por esses pentecostais como natural no exercício pleno do cristianismo bíblico.

Talvez a canção que melhor transpareça essa visão pentecostal, que ao mesmo tempo coincide com a sabedoria hebraica, é o hino Bem-Aventurança do Crente. A canção também foi traduzida e adaptada para o Psaltério Pentecostal, e depois para a Harpa Cristã, pela própria Frida Vingren. A composição original é do sueco Emil Gustafson (1862-1900), um evangelista do Movimento da Santidade cujo lema de vida era: "aquele que tem muito a dizer sobre si mesmo ainda não tem visto a Deus." A terceira estrofe da canção diz:


Quem quiser de Deus ter a coroa,/Passará por mais tribulação;/ Às alturas santas ninguém voa, /Sem as asas da humilhação;/ O Senhor tem dado aos Seus queridos,/ Parte do Seu glorioso ser;/ Quem no coração for mais ferido, /Mais daquela glória há de ter.


O pentecostal clássico canta esse hino e não se afoga na doce ilusão que é possível obter prosperidade pelo andar em comunhão com o divino, como se a vida fosse gerida por elementos de magia. Como o eleito do Antigo Testamento, e do Novo também, ele sabe muito bem que nada de bom o espera (conforto, dinheiro, saúde etc.), mas sim e apenas as aflições de Cristo.

Certa vez um neopentecostal comentou comigo que ficou chocado com a biografia de Gunnar Vingren (1879-1933), pois o fundador da Assembleia de Deus no Brasil parecia “encarar o sofrimento como natural”. Sim, esse jovem interpretou o Diário do Pioneiro [4] muito bem. A teologia pentecostal não aceita a doce ilusão de uma vida mágica onde Deus é visto como um trampolim para o sucesso material, pelo contrário. Seguir a Cristo muitas vezes resulta em sérios prejuízos. Portanto, é da essência do pentecostalismo não abraçar a falsa ideia que o eleito de Deus é um mimado do céu, mas assim como Cristo foi descrito pelo profeta Isaías como o “ferido de Deus”, o cristão sabe que pode, também, ser ferido pelo próprio Deus.  

Referências Bibliográficas:

[1] PONDÉ, Luiz Felipe. Os Dez Mandamentos Mais Um: Aforismos teológicos de um homem sem fé. 1 ed. São Paulo: Editora Três Estrelas, 2015. p 18.

[2] CAVALCANTI, Robinson. Pseudopentecostais: nem evangélicos, nem protestantes. Revista Ultimato. Ed. 314. Setembro-Outubro 2008. Veja em: http://www.ultimato.com.br/revista/artigos/314/pseudo-pentecostais-nem-evangelicos-nem-protestantes

[3] Vingren é autógrafa, segundo o Dicionário do Movimento Pentecostal, de oito hinos, entre esses temos a linda música Em Meu Lugar, cuja letra tem como centro a figura de Cristo como redentor. Para a lista completa veja: ARAÚJO, Isael de. Frida Vingren: uma biografia da mulher de Deus, esposa de Gunnar Vingren, pioneiro das Assembleias de Deus no Brasil. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2014. pp 140-142.

[4] É a principal biografia de Gunnar Vingren escrita pelo próprio filho. Veja: VINGREN, Ivar. Diário do Pioneiro. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1973.

domingo, 5 de julho de 2015

Teologia Romântica [parte 1]: O pecado original e o meio social


Por Gutierres Fernandes Siqueira
Quia peccavi nimis cogitatione verbo, et opere: mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa. Porque pequei muitas vezes, por pensamentos, palavras e obras, por minha culpa, minha culpa, minha máxima culpa. [Tradicional oração católica de contrição]
O determinismo social da esquerda contemporânea é biblicamente sustentável? É possível postular uma cosmovisão bíblica e ao mesmo tempo defender que determinados tipos de desvios morais são frutos do meio social em que se vive e não das escolhas de cada indivíduo? É possível aceitar o postulado do romantismo político onde o mal moral é apenas um desconforto passageiro gerado pelo mundo burguês? O mal pode ser denunciado e ao mesmo tempo superado porque o mesmo possui um caráter passageiro e efêmero? A utopia romântica é cristã ou é uma junção estranha de determinismo com pelagianismo misturado em um caldo político confuso?


O romantismo de Rousseau e Marx não é compatível com a doutrina do pecado original. O pecado original encontra o homem num mal-estar permanente e insuperável, onde apenas a graça divina na sua manifestação comum ou regeneradora pode salvá-lo de si mesmo. No romantismo de Rousseau e Marx o mal é superável na utopia, na força humana, nas mudanças das estruturas sociais. O Manifesto Comunista não é apenas um tratado anticapitalista, mas uma obra teológica onde o pessimismo antropológico do cristianismo é superado pela revolução social.

Os atuais românticos, inclusive os teológicos, acreditam que a revolução social é redentiva, ou seja, é só mudar o meio para que o homem seja transformado. A culpa salta do indivíduo para o abstrato “sistema”. Vocês lembram-se do capitão (ou coronel) Nascimento no filme Tropa de Elite 2 onde tudo era culpa do sistema? Ao que parece o policial do Bope leu Rousseau entre o primeiro e o segundo longa. Porém, biblicamente falando é possível acreditar que o meio faz o homem? Evidente que não. As tradições judaica (exemplo: Salmo 51) e cristã (exemplo: Romanos 1-5) não permitem dúvidas: o homem é responsável por si. Examine-se, pois, o homem a si mesmo, diz o apóstolo Paulo, de maneira que cada um de nós dará conta de si mesmo a Deus (cf. 1 Coríntios 11.28; Romanos 14.12).

História de responsabilidade individual. Dos 23 alunos que estudaram em 1975 numa das salas da Escola Municipal Joaquim da Silva Peçanha, na periferia de Duque de Caxias (RJ), um virou bandido: Fernandinho Beira-Mar. O mais famoso dos traficantes brasileiros seguiu um caminho diferente dos demais colegas. Entre os alunos há um frentista, dois professores universitários, um cabeleireiro, um suboficial da aeronáutica, dois mecânicos, etc. Nenhum dos colegas do ex-aluno Beira-Mar, todos igualmente de origem humilde, enveredaram pela criminalidade. "Não é porque você nasce e mora numa comunidade carente que você vai virar bandido. [...] Você é o que deseja ser", declarou ao jornal O Globo Ivan Guimarães Chiara, hoje com 49 anos, mecânico de manutenção de aviões da TAM.

Talvez a minha vontade não seja suficiente para alcançar determinado sonho, mas o mal é uma escolha totalmente resistível- mesmo porque estamos sob a égide da graça comum- onde não é necessário que o sistema ou a sociedade mude primeiro. Em primeiro lugar, o cristão reconhece suas limitações e, ao mesmo tempo, assume a culpa que lhe é própria. Isaías antes de lamentar o pecado do povo lamenta o próprio pecado (6.1-6). O profeta messiânico não vivia como um Adão a justificar com o outro o seu próprio erro.