quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Nem só de mazelas vive a Igreja Evangélica!

Por Gutierres Fernandes Siqueira

“A Igreja é como a arca de Noé; se não fosse a tempestade lá fora, não seria possível suportar o cheiro dentro dela” [ditado medieval].

Nós, pentecostais que procuramos uma fé mais reflexiva, sofremos bastante com o descaso doutrinário, a liturgia tresloucada, o legalismo farisaico, os modismos dos estrelismos, o mercantilismo da fé etc. que, infelizmente, estão em abundância nas igrejas evangélicas do Brasil. Agora, a reação adequada a tudo isso não é a desesperança e muito mesmo o cinismo, pois estamos falando da Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo, a única instituição do mundo que possui a garantia do próprio Senhor de não ser subjulgada pelas forças do inferno. E sejamos realistas: nem só de trevas vive o evangelicalismo.

Quem já teve oportunidade de visitar igrejas em várias cidades e estados deste país sempre pôde contemplar um grupo interessado e comprometido com a essência do Evangelho. Sim, normalmente são constituídos por uma minoria, mas quem disse que a verdade já foi objeto de popularidade constante algum dia? A crise é realmente séria e preocupante, mas é no meio da tormenta que algumas transformações importantes podem surgir: sim, diante das trevas densas da igreja mercantilista e mundana da Idade Média surgiu um monge agostiniano angustiado com a impureza do clero. No final do século XIX alguns entusiastas diziam que a religião não teria espaço diante do progresso da modernidade, mas aí vieram as grandes guerras do século XX e o cristianismo continuou firme, constante e crescente e, ainda, produziu alguns dos seus melhores apologistas diante do ceticismo sombrio dos “iluminados” e das ideologias totalizantes.

Há dias eu passo em frente a uma rua que reúne viciados em crack. Homens, mulheres e adolescentes que vagam como zumbis consumidos pelas drogas mais intensas. Não há nenhuma assistência do Estado naquele lugar, mas quase todos os fins de semana há evangélicos que ali se alocam para alimentá-los e evangelizá-los. Na mesma região outros evangélicos recolhem mendigos nas ruas para acolhimento em uma casa de repouso. Esses fatos não estão na mídia (e é até bom que não esteja), mas existem inúmeros protestantes socialmente ativos. E é bom lembrar que normalmente eles nem fazem parte de algum tipo de conferência de “missão integral”.

Escrevo isto contra o cinismo que tem tomado o espírito de muitos amargurados com a igreja evangélica. É sempre necessário lembrar que todo exagero é prejudicial, mesmo sobre o zelo doutrinário, a apologética e o desejo de reforma. Aqueles que não têm encontrado equilíbrio estão tão preocupados com a decadência moral, ética e teológica da igreja que resolvem jogá-la aos leões da impudência, da desfaçatez e do descaramento. Outros, no afã de apontar os erros dos evangélicos, esquecem que são participantes da mesma natureza pecaminosa. Ou, para resumir, que o Senhor nos livre de usarmos a defesa da fé como um refúgio da canalhice.


sábado, 26 de setembro de 2015

Convite aos cariocas

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Caros amigos leitores,

Amanhã (27/09) ministrarei uma aula com o tema "A Igreja no Século 21" na Igreja Evangélica Assembleia de Deus de Cordovil (antiga sede). Será por ocasião do encerramento do Congresso de Adolescentes dessa igreja.

O endereço é: Rua Porto Carneiro, 153. Cordovil. Rio de Janeiro (RJ). A partir das 9h.

Fica o convite!

domingo, 20 de setembro de 2015

Os pregadores-mirins e a banalização do púlpito

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Há poucas semanas o jornal The New York Times, o mais influente periódico do mundo, dedicou uma longa matéria intitulada The Child Preachers of Brazil sobre um fenômeno crescente neste país: os pregadores-mirins. Confesso que ao ler a matéria tive aquele sentimento estranho e constrangedor de vergonha alheia.  E, sendo pentecostal, a minha vontade era puxar a orelha dos pastores que aceitam tal modismo.

É triste ver pastores, pais e igrejas que permitem e incentivam crianças a exercerem o ministério da Palavra. Normalmente essas crianças repetem chavões de pregadores-estrelas, especialmente daqueles que usam o púlpito como show de auditório. Tais pessoas desprezam todos os ensinamentos das Epístolas Pastorais sobre a seriedade do ministério público de pregação. Estão brincando com algo sério e ainda prejudicando a infância de inúmeras crianças.

Em primeiro lugar, o ministério da Palavra não é espaço para experimentalismos exóticos. Ou seja, o púlpito deve ser levado a sério porque é o espaço da Palavra de Deus. O púlpito não é o Programa do Raul Gil ou uma espécie de The Voice. Não é espaço para pregadores de piadas, contadores de histórias ou quem mais não entenda a principal função do pregador: que é expor a Palavra de Deus com compromisso, dedicação, disciplina e boa exegese. Infelizmente, o púlpito hoje é acessado por qualquer pessoa, mesmo aqueles que nada têm a dizer. O espaço da pregação virou uma espécie de Casa-da-Mãe-Joana. Você sairia de sua casa para assistir a aula de um professor universitário de sete anos? Você colocaria uma babá de oito anos para cuidar dos seus filhos recém-nascidos? Você convocaria crianças de seis anos para a guerra? Então, por que com as coisas de Deus a bagunça pode imperar? Como um pregador de seis ou dez anos fará uma boa exegese do texto bíblico? Esse tipo de atividade deve ser preocupação de uma criança?
Alani Santos, 11 anos, orando junto ao Monte das Oliveiras, em São Gonçalo, Rio de Janeiro. Crédito: Sebastián Liste / Noor imagens, por The New York Times.
É impossível ler as Cartas Pastorais e ignorar que o Ministério da Palavra não é para qualquer voluntário, mesmo que seja o mais piedoso do mundo, ainda mais para uma criança, pois é necessário qualificações e vocação. Como um infante pode ser guardião da doutrina? Ou ainda alguém que seja capaz de ensinar, exortar e aconselhar? Como uma criança poderá ter discernimento suficiente para combater falsos ensinos e falsos profetas? Como uma pessoa de tenra idade pode discernir os tempos? Sim, é possível ser maduro jovem, mas não é possível alcançar maturidade nas fases da infância. Como uma criança pode ter ciência da advertência de Tiago: “Meus irmãos, não sejam muitos de vocês mestres, pois vocês sabem que nós, os que ensinamos, seremos julgados com maior rigor” [3.1]. Os garotos prodígios na história existem e são raríssimos, mas não na história de Igreja.

E o curandeirismo infantil? A matéria mostra que a algumas pregadoras infantis é atribuído um dom especial para cura divina. Onde está escrito na Palavra que o dom de curar deve ser exercido como um ministério próprio? Essa pergunta serve tanto para crianças quanto para adultos. Não há espaço na Palavra de Deus para que um ministro do Evangelho seja integralmente dedicado à cura divina. O comportamento dessas igrejas é semelhante à crendice em algumas cidades pequenas onde crianças mortas em tragédias são normalmente beatificadas com altares como se fossem santas intercessoras não oficializadas. O nível de superstição é semelhante entre esses grupos religiosos onde apenas a morte separa a insanidade entre o catolicismo popular e o evangelicalismo de massa.  

Ou para resumir: não se trata de censurar a doçura da infância e nem mesmo de desacreditar que Deus pode eventualmente usar uma criança para falar ao coração do crente, mas é necessário cuidado: o púlpito não é show de calouros. O púlpito é um espaço tão sério que qualquer aspirante deveria pensar muitas vezes antes de acessá-lo. É desumano exigir tamanha responsabilidade de uma criança. 

domingo, 13 de setembro de 2015

Uma verdadeira pregação pentecostal

Eis uma verdadeira pregação pentecostal: pautada nas Escrituras, com boa exegese e sem retórica histérica. Ouça o irmão Claudionor Corrêa de Andrade, pastor da Assembleia de Deus em Recreio dos Bandeirantes, Rio de Janeiro (RJ).  Esqueçam a retórica tresloucada dos zumbis de Camboriú, pois a retórica do sermão abaixo não visa o espetáculo, mas a glória de Cristo.

A mensagem abaixo foi gravada no ano passado na Assembleia de Deus de Sumaré, interior de São Paulo.

sábado, 12 de setembro de 2015

O legado de Enéas Tognini (1914-2015)

Enéas Tognini (1914- 2015)
Por Gutierres Fernandes Siqueira

Na última quarta-feira faleceu o reverendo Enéas Tognini aos 101 anos. Nascido em 20 de abril de 1914 em Botucatu, interior de São Paulo, Tognini foi o fundador da Igreja Batista do Povo, localizada no bairro da Vila Mariana na capital paulista, e um dos fundadores da Convenção Batista Nacional (CBN). A denominação é o braço carismático dos batistas no Brasil. O reverendo também era presidente de honra da Sociedade Bíblica do Brasil (SBB). Na área educacional ele fundou a Faculdade Batista de Teologia da São Paulo (FTBSP) na década de 1950 e o Seminário Batista Nacional do Estado de São Paulo (SBN) em 1982. Era formado em teologia pelo Seminário Teológico Batista do Sul no Rio de Janeiro (RJ).

História. Enéas Tognini era pastor na Igreja Batista de Perdizes, um bairro da zona oeste de São Paulo (SP), quando recebeu o Batismo no Espírito Santo com o falar em “novas línguas” no ano de 1958. Na época, evidentemente, tal fato escandalizou a comunidade batista e o pastor Tognini deixou o pastorado daquela igreja, além da direção do Colégio Batista Brasileiro. Apenas em 2000, a Convenção Batista Brasileira (CBB) promoveu formalmente a reconciliação com o seu antigo pastor. Ele foi grandemente influenciado pela missionária Rosalee Mills Appleby (1895–1991) e pelo pastor José Rego do Nascimento (1922-), fundador da Igreja Batista da Lagoinha em Belo Horizonte (MG), que defendiam a renovação carismática entre os batistas tradicionais.

Legado. Qual é o grande legado desse servo de Deus? Tognini é certamente o nome mais importante quando é analisado o processo de “pentecostalização” das igrejas históricas. Diferente de muitos tradicionais, que deixaram completamente suas congregações para aderir à membresia de igrejas pentecostal, Tognini manteve suas raízes adaptando-as para a nova realidade pentecostal. Ele mesmo dizia que nunca havia deixado de ser batista e que mantinha sua fidelidade à doutrina da denominação. Ao contrário de muitos no meio carismático que correm atrás de fama e dinheiro, Tognini manteve um estilo simples e sempre dizia que o processo do Batismo no Espírito Santo o levou “a abandonar diversos ídolos”, entre eles a direção do Colégio Batista, a fama de intelectual e o pastorado da grande igreja de Perdizes. Se hoje há uma ampla aceitação dos dons espirituais entre os tradicionais, especialmente os batistas, isso se deve ao grande trabalho de homens como Enéas Tognini.

Outra lição preciosa de Tognini é que não há limitação de idade para a obra de Deus. Ele testemunhava que foi chamado por Deus a levantar a Igreja Batista do Povo aos 66 anos. Isso mesmo, nunca é tarde demais para começar a obra enquanto estamos com vida.

Tognini, mesmo carismático, nunca deixou de valorizar o estudo das Escrituras. Uma das primeiras atitudes como um novo pentecostal foi escrever um livro sobre a experiência. A obra Batismo no Espírito Santo escrita em 1960 é uma ótima amostragem de um homem preocupado com a exegese e a consolidação doutrinária da experiência vivida. Ele escreveu diversos livros no decorrer da vida: Geografia da Bíblia (2 volumes), Janelas para o Novo Testamento, Eclesiologia, O Período Interbíblico (considerada uma das melhores obras em português sobre o assunto), A Babilônia e o Velho Testamento e História dos Batistas Nacionais, além das notas da Bíblia de Estudo de Avivamento e Renovação Espiritual e Bíblia de Estudo Shedd.

Eis aí um ótimo legado de educação, carisma e evangelização do Brasil. Que Deus abençoe os batistas do Brasil e que nos encontremos com o irmão Enéas na glória do Nosso Senhor Jesus Cristo.

A CONAMAD e o divórcio

Por Gutierres Fernandes Siqueira

E ouvi outra voz do céu, que dizia: Sai dela, povo meu, para que não sejas participante dos seus pecados e para que não incorras nas suas pragas. (Apocalipse 18.4)
Venerado seja entre todos o matrimônio e o leito sem mácula; porém aos que se dão à prostituição e aos adúlteros Deus os julgará. (Hebreus 13.4)

Como vocês sabem, a CONAMAD (Convenção Nacional das Assembleias de Deus Ministério Madureira) aprovou uma resolução em que o divórcio e o segundo casamento são simplesmente banalizados. Só esclarecendo que eu não sou contra o divórcio em casos de violência doméstica e psicológica, como salienta parte do documento. Só mesmo um tonto seria a favor de um “casamento” baseado em ameaças e abusos. O problema do documento da CONAMAD não é esse, mas sim porque promove a banalização completa da segurança do matrimônio. Pelo documento eu posso me separar por qualquer motivo banal e ainda contrair um novo casamento sem nenhuma consequência disciplinar. Veja que o documento não estabelece nenhum limite. É um escândalo doutrinário e também ético, logo porque a resolução é em causa própria, já que muitos pastores famosos estão trocando suas mulheres mais velhas por outras mais jovens.

Infelizmente, essa convenção tem sido conduzida à apostasia constante. Manoel Ferreira, por exemplo, mentiu em rede de televisão ao negar que conhecia o sectário Reverendo Moon. A mentira foi desmascarada com um vídeo no YouTube e o pastor que postou essa gravação chegou a receber ameaças, segundo notícias da época. Outra acusação séria veio da Procuradoria Geral da República: a igreja em Campinas, gerida pela família Ferreira, serviu como ponte para lavagem de dinheiro do Petrolão. E isso sem falar na ostentação de riquezas, na acusação de abuso de poder e de outros elementos nada santos. Ou seja, diante de tanta sujeira o divórcio é só mais uma pedrinha na condenação eterna. (Outras convenções também não são nada santas, mas o caso CONAMAD salta aos olhos).

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Crendo no “profeta” eu prospero?

Por Gutierres Fernandes Siqueira

E, pela manhã cedo, se levantaram e saíram ao deserto de Tecoa; e, saindo eles, pôs-se em pé Josafá e disse: Ouvi-me, ó Judá e vós, moradores de Jerusalém: Crede no Senhor, vosso Deus, e estareis seguros; crede nos seus profetas e prosperareis[2 Crônicas 2.20, grifo meu]

É muito comum nas igrejas neopentecostais- e, também, nas igrejas pentecostais que perderam sua identidade e consistência- a citação de 2 Crônicas 2.20 em um contexto distorcido e, ao mesmo tempo, como justificador da Confissão Positiva, uma heresia que ensina ser possível criar uma nova realidade a partir de palavras corretas. 

O contexto conta a história da vitória do rei Josafá sobre os amonitas, os edonitas e os moabitas, que eram povos hostis à nação de Israel. O rei recebe, em um estado de completo pavor, a notícia que os inimigos estão próximos (vv. 1-4). Josafá reúne o povo e faz uma oração de clamor ao Senhor (vv. 5-12); então o Senhor levanta o profeta Jaaziel para aliviar tanto o rei como o povo do medo (vv. 13-17). Diante dessa confirmação houve um grande louvor entre o povo junto aos levitas e coraítas (vv. 18-19) e, em seguida, Josafá retoma o discurso para encorajar a toda tribo de Judá a confiar na promessa do Senhor. E é justamente nesse momento que ele exorta o povo: “Crede no Senhor, vosso Deus, e estareis seguros; crede nos seus profetas e prosperareis” (ARC, ARA). Ou, em outras palavras, “crede nos seus profetas” e “terão vitória” (NVI); “tudo o que vocês fizerem dará certo” (NTLH); “sereis bem sucedidos” (BJ, TB, A21); “tudo dará certo” (BP) etc. Ou, como lembra Martin J. Selman:

Os dois verbos estão de fato baseados na mesma palavra hebraica, sendo conectados por uma relação de causa e efeito. “Acreditar/crer” na realidade significa “exercer confiança firme”, de forma que a pessoa que acredita/crê fica firme ou segura. [1]

Em outras palavras: Judá precisava confiar na palavra de Deus e, assim, na batalha tudo correria bem conforme a soberana vontade do Senhor. E isso ocorreu com Judá. Eles creram e venceram os inimigos cantando louvores (vv. 21-24) e o medo inicial de Josafá se converteu em desposo, júbilo e pavor, que antes enchia o coração do rei, mas que agora estava como sentimento de tormento entre os próprios inimigos (vv. 25-30).

Contextualizando

Bem, esse texto ensina que basta eu confiar na palavra profética de um pregador ou pastor e ficarei próspero, como ensinam os mestres da Confissão Positiva? Vejamos:

a) O Ministério Profético do Antigo Testamento durou até João Batista (cf. Mateus 11.13). Não é possível ensinar que o ofício de profeta-pregador contemporâneo tem a mesma autoridade do profeta veterotestamentário. O ministério profético que Jaaziel fez parte já não existe mais. O equivalente em autoridade no Novo Testamento com o profeta veterotestamentário não é o pastor/presbítero/bispo e nem aquele que possui o dom de profecia, mas sim e tão somente o Colégio Apostólico, ou seja, os Doze Apóstolos. O cristianismo construiu uma casa doutrinária sobre dois fundamentos: os profetas do Antigo Testamento e os apóstolos do Novo Testamento (cf. Efésios 2.20), sendo o próprio Cristo a garantia de ambos os alicerces.  O alicerce doutrinário da igreja primitiva não estava sob quem exercia o dom de profecia em Corinto, por exemplo, e nem sobre as filhas de Filipe, mas sim nos profetas do Antigo Pacto e nos apóstolos da Nova Aliança.
b) Nenhum homem hoje, mesmo quem exercer o dom de profecia, pode reivindicar autoridade infalível de palavra como se esta fosse do próprio Deus. A Bíblia ensina a julgar qualquer profecia (cf. 1 Coríntios 14.29). Logo, se eu posso julgar uma profecia isso a coloca em um patamar de análise e risco. Quem profetiza hoje está sub judice da profecia maior: que é a Palavra de Deus revelada e escrita, ou, como se diz, as Sagradas Escrituras. Na história de Josafá, a palavra de Jaaziel era a própria Palavra de Deus, mas o dom de profecia contemporâneo não admite tamanha pretensão. Embora o dom de profecia seja impulsionado pelo Espírito Santo, a escolha de palavras e a forma de colocação serão, em todo caso, uma deliberação do portador do dom e, em hipótese alguma, servirá como autoridade doutrinária, moral ou ética e nem deve parametrizar tradições e costumes. Em outras palavras, a profecia contemporânea é uma forma sobrenatural de reafirmar verdades já escritas e aplicá-las para contextos próprios, visando à edificação e consolação da comunidade cristã. É outra forma do Espírito Santo lembrar as palavras de Cristo à Igreja.
c)  O Antigo Testamento só conhecia um tipo de profeta e este era autoritativo. E esses profetas acabaram em João Batista. Já o Novo Testamento conheça duas classes de “profetas”: o dom e o ofício (ou governo da igreja). O dom de profecia visa à edificação da igreja e pode ser concedido a qualquer membro do Corpo de Cristo. Em Atos 21.9 é dito que as filhas de Filipe profetizavam. Elas não eram parte dos oficiais da Igreja, mas ainda assim exerciam o dom de profecia. Isso mostra como o dom de profecia em o Novo Testamento não tinha pretensão nenhuma de autoridade escriturística. Outra coisa é o ofício de profeta, ou seja, alguém usado na exposição das Escrituras sob impulso do Espírito para aperfeiçoamento dos santos (Efésios 4. 1-16). O profeta neotestamentário se destaca entre outros oficiais da igreja, juntamente com apóstolos-missionários, os evangelistas e os pastores-mestres (4.11).
Portanto, fica claro que hoje ninguém pode reivindicar a mesma autoridade de Jaaziel. A base do cristão não está na palavra de qualquer um que revindica autoridade profética, mas apenas na Palavra de Deus relevada. É a obediência aos princípios das Sagradas Escrituras que fará o caminho do cristão plano, próspero e bem sucedido. E isso nada tem a ver com finanças, mas sim com a paz de espírito. “Assim o reinado de Josafá continuou tranquilo, pois Deus lhe deu paz com todas as nações vizinhas” [20.30 NTLH]. Creia na Palavra e não no homem que diz ser profeta!

Referência Bibliográfica:


[1] SELMAN, Martin J. 1 e 2 Crônicas: Introdução e Comentário. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 2006. p 343.