sábado, 31 de outubro de 2015

A influência da Reforma Protestante na cultura ocidental: dois exemplos!

Por Gutierres Fernandes Siqueira

A Reforma Protestante não representa apenas uma renovação da cristandade a partir de uma ou outra ênfase teológica, litúrgica e eclesiástica. O grande trabalho e a coragem do monge agostiniano Martinho Lutero representou avanços importantes na cultura ocidental. Da liberdade de expressão ao acesso à educação pública, o “princípio protestante” moldou inúmeros valores então estabelecidos.

Vejamos dois exemplos desse legado.

Indivíduo. É a partir da crença no "sacerdócio universal de todos os crentes" que a ideia de indivíduo ganha ainda mais força.  Ou seja, se todo homem regenerado é um sacerdote com livre acesso a Deus, logo, por que ele mesmo dependeria de decisões coletivas e distantes de si? A mediação do abstrato coletivo já não tem a mesma força. O protestantismo favorece a ideia de indivíduo, do homem que responde por si, do sujeito que tem responsabilidades próprias, que não depende do perdão de um sacerdote para encontrar a paz de espírito. Agora, o fortalecimento do indivíduo não é o mesmo que individualismo ou sociopatia, logo porque ninguém é uma ilha e a importância da congregação dos santos continua ativa no seio evangélico. No entanto, a congregação não é mais um meio salvífico e nem funciona como garantia do paraíso. Não é à toa que a ideia de autonomia seja tão forte em nações de formação protestante.

Educação. Outro ganho da Reforma é a educação. O lema “somente as Escrituras” fortalece a figura do leitor e, ainda mais, do Livro dos livros. Há agora o livre exame da Sagrada Letra!  Assim como o judeu, o protestante é conhecido como o “povo do livro”.  As grandes empresas evangélicas são editoras, e não emissoras de rádio e TV. A Conde de Sarzedas, uma via comercial no centro de São Paulo (SP), por exemplo, é conhecida como a “rua dos crentes” e a maior parte das lojas são livrarias. Ou seja, mesmo no Brasil da baixa leitura o evangélico ainda lê mais do que a média da população. E a Bíblia não é apenas a Sagrada Escritura, mas um conjunto rico de 66 livros que incluem gêneros como poesia, prosa, história, literatura de sabedoria, literatura apocalíptica etc. Não há como absorver tamanha diversidade sem impacto social. Por muitos anos, é bom lembrar, em comunidades carentes do interior do país o único livro que muitos tinham era a “Bíblia dos crentes” e o evangélico, mesmo analfabeto, fazia o esforço de leitura para alcançar a oportunidade de pregar e estudar a Palavra. É, também, com o protestantismo em sua insistência educacional que se iniciou o impulso à escola pública começando pela Escola Bíblica Dominical.

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Bom, fiquemos nesses dois exemplos, pois a lista é grande e aberta. O pulsar do dia 31 de outubro de 1517 ainda constrói caminhos que não conhecemos em sua inteireza. A Reforma é um ganho acima de tudo para o cristão, que passou a recuperar a fé em Cristo e não em suas obras, mas também transformou o Ocidente para melhor. Nenhum grupo dentro do protestantismo é dono da Reforma e muito menos de suas consequências. O "princípio protestante" é justamente o protesto constante a qualquer reivindicação absoluta de realidades relativas. Portanto, o essencial para a Reforma está tão somente e suficientemente em cinco fundamentos: Somente a Fé, Somente a Escritura, Somente Cristo, Somente a Graça e Somente a Deus a Glória. Vamos continuar a levantar essas bandeiras para o avanço da igreja e da sociedade.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Gunnar Vingren incentivou “cultos” extravagantes?

Gunnar Vingren e a esposa Frida.
Por Gutierres Fernandes Siqueira

O chamado “reteté” é a adaptação brasileira da “Bênção de Toronto”. O movimento foi popularizado no final da década de 1990 e início dos anos 2000, especialmente pelo Congresso de Missões dos Gideões Missionários da Última Hora (GMUH) da Assembleia de Deus de Camburiú (SC). Consiste basicamente em movimentos estranhos com pessoas girando em torno de si, pulos descontrolados, glossolalia sem nenhuma tentativa de interpretação, barulhos semelhantes a animais e até sons e danças que lembram as celebrações do candomblé e os movimentos de êxtase do islamismo. O culto (?) basicamente é um conjunto de shows particulares. Não há exposição bíblica, a oração se torna um espetáculo e o pregador se comporta como a atração da noite.

Agora, há um ponto comum entre os adeptos do reteté e os cessacionistas- aqueles protestantes que descartam a operação carismática para os nossos dias.  Ambos usam episódios isolados da historiografia pentecostal para mostrar que nomes como William Seymour e Gunnar Vingren, por exemplo, eram adeptos de uma maneira bizarra de espiritualidade, ou seja, que ambos seriam precursores desses “movimentos de mover” contemporâneos. Todavia, isso é uma verdade? Será que Vingren se sentiria bem em um evento como o Congresso dos GMUH?

Não, não e não! E você sabe o motivo? Em nenhum momento essas ações divinas extraordinárias eram vistas como ordinárias. É verdade que Gunnar Vingren, por exemplo, relata uma experiência semelhante ao “riso no espírito”, mas Vingren não faz dessa experiência um padrão a ser imitado e nem incentivado. É bom lembrar que Sarah Pierpont, esposa do famoso teólogo Jonathan Edwards, foi vista pelo próprio esposo flutuando sobre a cama no quarto de oração. E, como todos já ouviram falar, durante as próprias reuniões de Edwards algumas pessoas caiam no chão relatando uma experiência profunda de arrependimento.

O que há em comum em todas essas experiências de avivamento? Edwards, Seymour, Vingren, todos eles, experimentaram nos cultos eventos até estranhos, mas em momento algum passaram a ensinar esses fenômenos como um padrão a ser seguido pela Igreja do Nosso Senhor. A historiografia assembleiana relata que Vingren se deparou em Criciúma (SC) com um grupo que incentivava experiências “espirituais” em forma de danças. Vingren escreveu:

Primeiro cantaram um hino. Depois todos tiraram os sapatos e se deitaram no chão num círculo. Depois que todos haviam orado, começaram a pular e a dançar durante mais ou menos meia hora. Depois se puseram de joelhos outra vez e oraram. Eu os exortei a que deixassem essa coisa de dançar, pois isso não está escrito no Novo Testamento, e era uma bobagem que eles deviam abandonar. [Mensageiro da Paz, Ano 79, Número 1.494 - Novembro de 2009].

Relato pessoal

Certa vez, em um culto esvaziado de uma quinta-feira, eu senti uma vontade intensa de chorar. Eu estava ajoelhado e com os olhos fechados enquanto o culto era encerrado com uma prece. De repente, sem mais nem menos, eu comecei a cantar em uma língua muita bonita, suave e numa sequência lógica de entonação e letra, pois parece até mesmo ter um coro. Eu sou um péssimo cantor, mas naquele momento havia afinação. A experiência, nem preciso dizer, foi incrível, um verdadeiro marco na minha vida e me levou a há maior temor a Deus e uma vontade intensa de buscá-lo.

Algumas semanas depois eu cai na tentação de tentar repeti-la (logo porque o que é bom sempre é desejado em doses maiores) e o fiz isso por duas ou três vezes. E nessas experiências eu tentava envolver toda a congregação. No dia seguinte à última espiritualização espetacularizada, uma irmã, muita sabiamente, foi me advertir que eu não deveria forçar aquela experiência e me mostrou como eu estava agindo por mera vaidade e que ainda eu estava constrangendo a congregação. Ou seja, o que começou bem já estava produzindo frutos ruins. A advertência dela foi um verdadeiro “tapa na cara” e fiquei triste e pensativo durante dias, mas aquele puxão de orelhas me serviu como uma preciosa lição: eu não deveria querer repetir experiências extraordinárias e ainda impô-las à congregação. A irmã que fez essa advertência não era teóloga nem professora de Escola Dominical, mas era uma assembleiana experiente. 


Assim como os grandes nomes do pentecostalismo do passado, eu aprendi com uma querida irmã a não espetacularizar e promover coletivamente uma experiência pessoal. Deus, de fato, opera de formas diversas em eventos milagrosos que servem para a edificação pessoal, mas o padrão litúrgico da Igreja Cristã já está escrito há quase dois mil anos no Novo Testamento.

sábado, 24 de outubro de 2015

A idolatria do sermão

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Se o pregador estimar mais a mensagem que prega do que a Pessoa de Cristo, tal pregador é idólatra. Se a pregação for feita com o propósito de mostrar a capacidade do orador, ninguém negará que no coração há idolatria ligada ao sermão. [...] Pregar para ser admirado é fundir bezerros de ouro que os ouvintes, mais cedo ou mais tarde, adorarão. Pregar a Palavra é sacrifício que leva até ao holocausto, mas que impede chegar-se à idolatria. [Emílio Conde]
Frequentemente, leio sermões modernos com espanto. Como é que os pregadores esperam produzir qualquer coisa na vida das pessoas com tais discursos? [...] Eles produzem ensaios, o que significa que estão principalmente preocupados com a elucidação de um tema. Se eles estivessem produzindo mesmo sermões, estariam essencialmente preocupados com a transformação de pessoas. [Harry Emerson Fosdick]


Emílio Conde (1901-1971) foi um importante pensador no início das Assembleias de Deus no Brasil. Ao mesmo tempo, e paradoxalmente, era um ávido anti-intelectual, ou melhor, um antiacadêmico. Ele era um crítico ferrenho de qualquer institucionalização do ensino teológico pelos pentecostais brasileiros. Não era contra o ensino em si, mas tinha um pavor da formalização. Todavia, nutria esse sentimento enquanto exercia o ofício de jornalista e de escritor, além de tradutor, compositor e membro da Sociedade Bíblica do Brasil. Portanto, eis aí o paradoxo: enquanto intelectual ele militava contra a academia.

Embora o anti-intelectualismo do Conde seja rejeitável, é particularmente interessante uma expressão que ele costumava usar: a “idolatria do sermão”. A sentença é fruto de um ótimo artigo escrito por ele e publicado no livro Igrejas Sem Brilho. O radicalismo deve ser cobalido, é claro, mas há uma verdade nessa expressão. Qual verdade? Ora, até o sermão pode ser um potencial ídolo, uma vaca sagrada.

Por que escrevo isso? É comum no evangelicalismo brasileiro, especialmente na ala calvinista, uma preocupação que julgo excessiva sobre e com o sermão. Alguns dizem que são necessários longos dias e até semanas para preparar uma mensagem. Será mesmo? Ou você acha que todo sermão depende de um longo trabalho de crítica literária? Absolutamente que não. O sermão, por acaso, é uma nova monografia a cada semana? Ou seja, a fim de combater o relaxo do neopentecostalismo com a pregação se toma um caminho do exagero no lado oposto.

Alguns, infelizmente afetados pelo analfabetismo funcional, lerão o parágrafo acima e dirão que estou em defesa do sermão relapso. Não, nada disso. Eu quando prego, a título de exemplo, costumo me alongar em muitos comentários bíblicos, bíblias de estudo, dicionários, léxicos, textos originais etc. Acho o preparo indispensável para qualquer pregador. E isso leva naturalmente um tempo, horas e horas. O meu alerta é outro, ou seja, é fazer do preparo um fim em si.

Segue algumas lições que aprendi nessa curta caminhada como expositor das Escrituras:

1.       O preparo, embora indispensável, é apenas o lado humano do sermão. Nunca, em hipótese alguma, deixe o seu coração ressecado sem oração e propenso ao orgulho intelectual. Sem a dependência do Espírito Santo o nosso sermão é um vale de ossos secos.
2.      Há sermões que mais parecem trabalhos de revisão da versão Almeida. É mesmo necessário todo esse tecnicismo? O preparo deve ser feito, mas não precisa ser exposto. O que quero dizer? Você não precisa despejar sobre o púlpito todos os detalhes técnicos do seu aprendizado com o texto e a exegese do mesmo.
3.     Sermão não é aula, palestra ou workshop. Sermão precisa transmitir vida, crença e paixão; não o sono da alma, a incredulidade e o cinismo. O sermão, como expressão da voz de Deus, deve nos levar ao temor e tremor. É uma experiência cúltica. 
4. O bom pregador é um bom ouvinte. E, também, é participante do culto. Ou seja, ele canta enquanto a igreja canta, ele ora enquanto a igreja ora, ele prega ou de debruça sobre o texto apenas no momento da Palavra. Há tempo para todo propósito debaixo do sol, não é mesmo? 
5. Explique os termos difíceis. Cite os originais só quando for realmente necessário. 
6.  Respeite a sua personalidade. Não queira imitar pregadores e seus estilos. Só existe um Paul Washer, assim como existe apenas um John Piper. Antigamente a mania imitadora era apenas um problema de neopentecostais, mas agora afeta até jovens calvinistas. 
7. E a autoridade do sermão não está no grito, na histeria e nem no barulho do auditório. “Keep Calm” e se concentre na glorificação do Nosso Senhor Jesus Cristo.

domingo, 18 de outubro de 2015

Renuncie ao seu direito!

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Todos sabem que “digno é o obreiro do seu salário” (cf. 1 Timóteo 5.18; Lucas 10.7; Mateus 10.10; 1 Coríntios 9.4 etc.). Essa é uma verdade bíblica afirmada pelo próprio Cristo e que vem da tradição judaica onde a tribo de Levi, responsável direta pelo culto, recebia sustento das demais tribos através dos dízimos e ofertas. Não há nenhuma dúvida nesse princípio, apenas certezas.

Agora, é interessante que nem todo direito existe para ser usado. O apóstolo Paulo escreveu: “Se outros têm direito de ser sustentados por vocês, não o temos nós ainda mais? Mas nós nunca usamos desse direito. Pelo contrário, suportamos tudo para não colocar obstáculo algum ao evangelho de Cristo.” [1 Coríntios 9.12, grifo meu]. Entendeu? O direito existe, mas também existe a possibilidade de renunciá-lo.

A oferta da viúva
Por que é bom o obreiro renunciar ao sustento da congregação e viver de renda de um trabalho não-eclesiástico?

1.       O próprio Paulo fala em não colocar “obstáculo algum” ao Evangelho. Ora, algumas igrejas vivem em impasses sérios na questão salarial de pastores. É sempre um murmurinho onde alguns acham que o líder ganha muito e outros que acham que o pastor precisa ganhar mais. Se o murmurinho é passível de ser evitado é melhor que seja.

2.      Alguns dizem que é bom ter um pastor em tempo integral porque ele pode fazer visitas e estudar mais a fundo as Sagradas Escrituras. Bom, muito tempo disponível não necessariamente torna essas atividades melhores. Deveria, mas nem sempre funciona assim.

3.      É bom sair do mundo eclesiástico, ou seja, conviver com pessoas que não sabem e nem entendem o contexto evangélico. É bom trabalhar com ateus, não- religiosos, budistas, cristãos nominais etc. Assim é possível pensar e conviver com pessoas fora da fé cristã. É viver horas e horas do seu dia com pessoas com todo tipo de cosmovisão. O que nunca é bom é a vivência numa bolha.

4.      Se você tem um emprego formal é possível comprar um carro bacana ou um apartamento bem localizado sem ninguém acusá-lo de viver no luxo à custa das ofertas da viúva.

5.      Paulo também diz: “Porque, se prego de livre vontade, tenho recompensa; contudo, como prego por obrigação, estou simplesmente cumprindo uma incumbência a mim confiada.” [1 Coríntios 9.17]. Ou dizendo no português popular: nada melhor do que não ter “rabo preso” com ninguém. É desejável uma consciência livre, leve e solta. Quantos pastores estão caladinhos diante de escândalos da sua convenção ou concílio pelo medo do desemprego? E outros que pregam o que não acreditam para não contrariar os superiores? E ainda aqueles que vivem reféns de uma família poderosa porque o dízimo do grupo pesa no orçamento da congregação e no salário do líder?


Portanto, jovem obreiro, o versículo que diz: “há maior felicidade em dar do que em receber” [Atos 20.35] também serve para você. Nunca trabalhe com o objetivo de bons salários eclesiásticos, mas sim para a glória do Senhor e com espírito servidor à Igreja. Sempre que possível, para o bem de todos, renuncie aos seus direitos.

sábado, 10 de outubro de 2015

Gênesis e a Doutrina da Criação

Por Gutierres Fernandes Siqueira

O “livro do princípio”, como comumente é chamado pelos judeus, tem a marca do fascínio. Embora a Alta Crítica negue a autoria de Moisés, vale lembrar que o seu autor está em sintonia com a fé exclusiva em Yahweh- lembre sempre que a crítica literária não é uma ciência exata, ainda que alguns dos seus postulantes assim a julguem. Nele o Deus de Israel não é apresentado como um ídolo tribal, bairrista; mas como o Soberano, o Integral e o Universal. Ele conversa e passeia no jardim, ou ainda, Yahweh não está distante e indiferente como os deuses da crença deísta e nem distraído com traições familiares como os deuses do politeísmo. Ele é o Deus que intervém; que está presente o tempo todo. Ele é o próprio Criador, mas não criado e nem se confunde com a criatura, ou melhor, em nada o Todo Poderoso lembra os deuses do panteísmo. A natureza não escapa à Soberania Divina.

Ele simplesmente existe e em nenhum momento tenta explicar a Sua própria existência. Existe antes mesmo do tempo e além do espaço. O Senhor é aquele que faz tudo bom e não está preso a um maniqueísmo que separa alguma esfera da criação para além de Sua presença. Ou, parafraseando Abraham Kuyper, “não há um único centímetro quadrado em todos os domínios da existência humana sobre o qual Yahweh, que é soberano sobre tudo, não clame: é meu!”. Não há uma única palavra explícita contra o politeísmo no “livro das origens”, mas a crença na exclusividade de Yahweh torna a fé em muitos deuses um sinônimo de confusão, desordem e estagnação. Ele também é um Deus em unidade, simplesmente completo e independente, e, ao contrário dos deuses pagãos, Yahweh não possui uma esposa, pois é o ser em Trindade que não necessita de um complemento ou contraponto.

A criação
O texto de Gênesis começa com uma sentença curta e objetiva: “No princípio Deus criou os céus e a terra” [1.1]. O autor do Pentateuco não está preocupado com detalhes cirúrgicos do processo criativo, mas tão somente em reconhecer no Deus de Israel o dono de todo o cosmo. O primeiro capítulo do livro dos começos enfatiza a singularidade de Deus, pois Ele é aquele “que viu; que disse; que fez”; um Deus diferente dos deuses pagãos que desconheciam qualquer modo extraordinário de pensar e agir. Ou seja, como você já percebeu, os capítulos 1-3 de Gênesis é uma apresentação do verdadeiro Deus diante da idolatria pagã dos deuses estrangeiros.  É, em algum aspecto, uma obra apologética.

Ao mesmo tempo isso não quer dizer que a linguagem dos primeiros capítulos indique uma observação literalista da criação do cosmo. Gênesis contém história, mas não se resume a esse gênero [1]. No detalhe, na lupa, no laboratório, é possível enxergar ou não um processo gradual e lento de seleção e evolução, todavia, é necessário repetir, o Gênesis não é um livro de biologia ou de cosmologia em si, mas é uma obra de história redentiva, portanto, é uma produção teológica. Ou seja, são níveis de explicação complemente diferentes.

Nos livros de história redentiva não é importante saber o detalhamento microscópico, mas tão somente entender a relação do Criador com a criatura [2]. A hierarquia da explicação é superior; é macro. E é a assim que a narração da criação se dá. Se alguém pergunta por que o seu coração dispara diante de determinada pessoa a sua resposta será um “estou apaixonado”, mas o cientista explicará todo o processo biológico que faz o seu coração bombear mais sangue. Nenhuma das respostas estará errada, pois, como já dito, são níveis de explicações diferentes.

Gênesis 1, por exemplo, é um relato marcado pela literalidade de uma observação científica ou jornalística ou ainda de um historiador moderno? A progressão, a simetria e a repetição dos verbos não parecem indicar tal postura. Gênesis 1 está mais próximo do gênero de louvor do Salmo 104 e dos capítulos finais de Jó, do que de Gênesis 3, por exemplo. Sim, no hebraico Gênesis 1 lembra muito pouco uma poesia, mas ainda que seja prosa a mesma é uma exaltação do Criador. Esse prólogo 1.1-2.3, como escreve Gordon J. Wenham, “é mais do que uma declaração teológica; é um hino de louvor ao Criador, por meio de quem e para quem todas as coisas existem” [3]. O teólogo Timothy Keller, por exemplo, também defende esse capítulo como uma expressão de louvor e conclui:

Gênesis 1 não ensina que Deus criou o mundo em seis dias de vinte e quatro horas. Claro, o texto não ensina evolução também, porque ele não aborda os processos reais pelo qual Deus criou a vida humana. No entanto, isso não exclui a possibilidade da terra ser extremamente velha. Chegamos a esta conclusão não porque queremos dar espaço para qualquer visão científica particular, mas porque estamos tentando ser fiéis ao texto, ouvindo cuidadosamente quanto possível para o significado do autor inspirado. [4]

Ou, “em vez de permitir Gênesis 1 e 2 conte sua própria história e execute sua própria operação pretendida, muitos intérpretes (liberais e conservadoras) tem vindo a narrativa com perguntas modernas que são estranhas ao texto”, como escreveu Michael Horton [5]. Que o texto seja lido naquilo que Moisés pretendeu explicar: o Deus criador.

É certo como as águas dos rios correm para o mar que o Gênesis não é um conjunto de mitos, ainda que contenha alguma estrutura mítica- mas como recurso apologético, especialmente nos primeiros capítulos. E se assim fosse seria muito pobre como literatura mítica, pois não há tantos elementos fantásticos como outros relatos de criação [6]. Basta comparar a história da criação hebreia com os mitos mesopotâmicos. Há mais singularidade no livro hebreu do que semelhanças com os mitos de sua época. No Enûma Eliš, o relato da criação babilônico, há uma disputa sangrenta de poder entre deuses familiares e coligados. Nessa história de elementos fantásticos o homem é visto apenas como um carregador dos fardos dos deuses. A terra e o céu, por exemplo, são formados a partir da divisão do corpo da deusa Tiamat- que é cortada em duas partes pelo poderoso deus Marduque em uma das inúmeras batalhas cósmicas. A trama e o drama de invejas e disputas de poder entre os deuses lembram mais a mitologia grega do que a narrativa de Gênesis. O relato hebreu é teológico e de louvor, mas é temerário afirmar que é estritamente histórico, no sentido moderno do termo, como alguns poucos fundamentalistas insistem em afirmar. É mais histórico-teológico com elementos poéticos, mas ao mesmo tempo chama atenção a ausência de uma narrativa fantástica do cosmo.
A identificação do gênero de Gênesis 1—11 é difícil por causa de sua singularidade. Nenhum desses relatos pertence ao gênero “mito”. Mas nenhum deles é “história” no sentido moderno de testemunho ocular, relato objetivo. Antes, transmitem verdades teológicas acerca de eventos retratados principalmente em estilo literário simbólico e pictórico. Isso não significa que Gênesis 1—11 contenha inverdades históricas. Tal conclusão só seria procedente se o material alegasse conter descrições objetivas. Conclui-se da discussão acima que tal não era seu intento. Por um outro lado é errada a ideia de que as verdades ensinadas nesses capítulos não têm base objetiva. Verdades fundamentais são declaradas: criação de tudo por obra de Deus, intervenção divina especial na origem do primeiro homem e da primeira mulher, a unidade da raça humana, a bondade prístina do mundo criado, inclusive da humanidade, a entrada do pecado pela desobediência do primeiro casal, a disseminação generalizada do pecado após esse ato inicial de desobediência. Essas verdades são todas baseadas em fatos [7, grifo meu]
A observação acima é clara: lidar com Gênesis é lidar com uma história factual, mas não relata o ato de Deus necessariamente, especialmente nos primeiros versículos e capítulos, com a precisão de uma filmagem jornalística. A categoria de história-teológica suporta alguns elementos de simbologia sem matar a essência do fato.

A Doutrina da Criação não permite uma crença cega na contingência, ou seja, não coloca a eventualidade como categoria de pensamento e análise para qualquer elo perdido das ciências ou da teologia. No texto Respostas dadas por Lewis a questões formuladas por empregados da Electric and Musical Industries Ltd., Heyes, Middlesex, Inglaterra, em 18 de abril de 1944 um leitor pergunta ao escritor irlandês: “Os materialistas e alguns astrônomos sugerem que o sistema solar e a vida como a conhecemos foram criados por uma colisão estelar acidental. Qual é a visão cristã dessa teoria?” E Lewis responde:

Se o sistema solar foi criado por uma colisão estelar acidental, então o aparecimento da vida orgânica neste planeta foi também um acidente, e toda a evolução do Homem foi um acidente também. Se é assim, então todos nossos pensamentos atuais são meros acidentes – o subproduto acidental de um movimento de átomos. E isso é verdade para os pensamentos dos materialistas e astrônomos, como para todos nós. Mas se os pensamentos deles – isto é, do Materialismo e da Astronomia – são meros subprodutos acidentais, por que devemos considerá-los verdadeiros? Não vejo razão para acreditarmos que um acidente deva ser capaz de me proporcionar o entendimento sobre todos os outros acidentes. É como esperar que a forma acidental tomada pelo leite esparramado pelo chão, quando você deixa cair a jarra, pudesse explicar como a jarra foi feita e porque ela caiu.

C. S. Lewis não estava negando o Big Bang, pois ele era um evolucionista convicto, mas apenas a ideia filosófica que tal fenômeno seja fruto da mera contingência. Por que precisamos negar o papel de Deus, ainda que aparente descrição, nesses fenômenos primevos e gradativos? Por acaso a teologia bíblica ensina que Deus só age pelo extraordinário e incomum? Seria o cotidiano um espaço onde Deus simplesmente se ausenta? Quem assim pensa parece que jamais leu um livro como Ester, a rainha que salvou o povo judeu, que nunca cita o nome do Senhor, mas cuja ação e presença estão no enredo o tempo todo. O engraçado é que esse tipo de pensamento mágico sobre a ação de Deus une Ken Ham e Richard Dawkins.

Se essas questões servem para a cosmologia, o mesmo serve para a biologia. É incrível observar, mas a microevolução e macroevolução sempre convergem para a solução correta. Como a contingência pode agir aleatoriamente para pontos convergentes? Como escreveu Alister McGrath: “A história biológica mostra uma tendência acentuada de se repetir, como a vida demonstrando reiteradamente, uma habilidade quase misteriosa de encontrar seu caminho para a solução correta” [8].

O homem
A antropologia do Gênesis é negativa e mais uma vez serve de contraponto à crença mesopotâmica. Assim como os atuais modernistas, os babilônicos eram crentes do progresso. Eles exaltavam a própria civilização como o marco do avanço enquanto Gênesis os retrata como mais decadentes (6. 1-4). Não há nesse livro nenhuma tentativa de romantização da raça humana, mas há um realismo duro, difícil de digerir: “E viu o Senhor que a maldade do homem se multiplicara sobre a terra e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era só má continuamente” [Gênesis 6.5].

Ou seja, o homem é um ser criado, irrefletido, cuja índole de herói cai por terra quando Abraão expulsa a amante de casa com um filho bastardo ou quando os irmãos de José o vendem enquanto estavam possuídos e munidos pela inveja. No Gênesis, vale lembrar, a primeira família é marcada pela vitimização, ressentimento e até homicídio. Nenhum "Estatuto da Família" tomaria as famílias dos patriarcas como exemplos a serem seguidos. Portanto, o Livro de Gênesis mostra que, como diz Victor Hamilton, “se a salvação de Israel está na humanidade há desespero; se está em Deus, há esperança” [9].

Referências Bibliográficas e Notas:

[1] D. A. Carson, um grande nome da exegese conservadora, concorda que Gênesis é um conjunto de gêneros e não apenas história: “O relato de Gênesis é uma mistura de gêneros que nos dá realmente alguns detalhes históricos. Ao mesmo tempo, está cheio de simbolismo demonstrável. Selecionar o simbólico e o não simbólico é bastante difícil” [CARSON, Donald A. O Deus Presente. 1 ed. São José dos Campos: Editora Fiel, 2012. P 20.].

[2] Para uma breve exegese de Gênesis 1 veja: JONES, Landon. O Deus de Israel. 1 ed. São Paulo: Editora Hagnos, 2015. pp 93-96.

[3] CARSON, D. A. (Ed). Comentário Bíblico Vida Nova. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 2009. p 100.

[4] KELLER, Timothy. Creation, Evolution, and Christian Laypeople. The BioLogos Foundation. Grand Rapids. p 5. Disponível em: < https://biologos.org/uploads/projects/Keller_white_paper.pdf> Acesso em: 04/10/2015.

[5] HORTON, Michael. The Christian Faith: A Systematic Theology for Pilgrims on the Way. 1 ed. Grand Rapids: Zondervan, 2011. p 381.

[6] É complicado relatar Gênesis ou partes de Gênesis como mito já que não há nem consenso sobre o que vem a ser um mito. Leia qualquer definição desse termo e na maior parte das vezes você terá uma explicação diferente e até contraditória. De maneira geral, o mito é a história de um povo, normalmente com elementos religiosos e de magia, e que servem à tradição oral. Não só é a história do povo como é construída em conjunto por este mesmo povo e não apenas por um indivíduo. O mito responde ou tenta responder as grandes questões da vida e ao mesmo tempo serve como base para explicar o desconhecido e misterioso. Não é uma obra de ficção, pelo menos para quem a expressa. O mito sempre envolve o poder superior. Para uma definição simples de mito veja: SEARS, Kathleen. Tudo o Que Você Precisa Saber Sobre Mitologia. 1 ed. São Paulo: Editora Gente, 2015. O escritor C. S. Lewis observou que nem sempre a mesma história é encarada como mito por duas pessoas [veja: LEWIS, C. S. Um Experimento na Crítica Literária. 1 ed. São Paulo: EDUSP, 2009. pp 39- 46]. Ou seja, a experiência do leitor é importante nesse processo de comunicação através do mito. E aí vem uma pergunta básica: a leitura do judaísmo antigo sobre esses textos é antes de tudo narrativo ou é fantasioso? Lewis também observou que no mito não há empatia, ou seja, o leitor até se emociona com a história, mas concluiu que nunca faria parte dela. Ao ler o relato de Queda é possível fazê-lo sem empatia?

[7] LASOR, William S.; HUBBARD, David A. e BUSH, Frederic W. Introdução ao Antigo Testamento. 2 ed. São Paulo: Vida Nova, 2002. p 22

[8] McGRATH, Alister. Surpreendido pelo Sentido. 1 ed. São Paulo: Editora Hagnos, 2015. p 126.

[9] HAMILTON, Victor P. Manual do Pentateuco. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p 23.


sábado, 3 de outubro de 2015

A companhia telefônica das Assembleias de Deus e o Banco do Vaticano: quando a igreja esquece sua missão!

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Qual é a missão da igreja? Eis um tema difícil. Será a adoração, o serviço, a assistência, a proclamação, a evangelização etc.? Talvez o melhor fosse evitar o artigo definido para que as várias missões bíblicas sejam abarcadas. Agora, certo como o rio corre para o mar é que o empreendedorismo nunca foi missão da Igreja de Nosso Jesus Cristo, seja essa como corpo místico de Cristo ou como uma instituição humana que afirma ser o depósito do Evangelho. Infelizmente, a CGADB (Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil) ainda não entendeu esse elemento básico da doutrina cristã.

Cartão da AD lançado
na década de 1990.
Na década de 1990 a CGADB lançou cartões de crédito com o logo da convenção. O empreendimento não deu muito certo, mesmo com a desculpa que parte dos lucros seriam revertidos para obras missionárias. Em 2000 a Confader (Convenção Nacional das Assembleias de Deus do Brasil e do Exterior), uma convenção à parte da CGADB, cogitou comprar a falida VASP, uma companhia área que encerrou as atividades em 2008.  Agora, em 2015, a CGADB fez uma parceira com uma empresa de telefonia para criar uma operadora de celular “do povo evangélico”. Se você não acreditou, por favor, leia a notícia aqui. É uma empresa em nome da igreja Assembleia de Deus e para vergonha do povo assembleiano.

Ainda que tenha muita gente abitolada que abraçará esse empreendimento com afinco, é duvidoso saber se essa operadora fará sucesso entre os assembleianos. É visível nas redes sociais a revolta contra essa ideia esdrúxula da Convenção Geral. O povo evangélico, diferente do que muitos líderes pensam, não agem bovinamente e o senso do ridículo dificultará o crescimento desse tipo de empresa.

Bom, tenho saudades do tempo onde os crentes criticavam a Igreja Católica por esta ter um banco, o Banco do Vaticano, mas agora a igreja dos crentes tem uma companhia telefônica. Naquela época os crentes perguntavam: por que uma igreja precisa se envolver com os negócios desta terra? Por que uma igreja precisa ser envolver no mundo como uma empresária? A missão da igreja é mercantilista? Agora, alguns lunáticos comemoram o “avanço” da igreja na sociedade pelos meios da lucratividade.

A igreja pode e deve influenciar a sociedade, mas o melhor meio para isso é a assistência social e a educação. A Assembleia de Deus é uma igreja centenária no Brasil, mas não possui nenhuma universidade- apenas algumas faculdades.  A denominação tem apenas um hospital e algumas poucas escolas de ensino fundamental e médio, mas nesses dois casos não há uma rede nacional estruturada.

A influência nunca acontecerá com essa segmentação ridícula de produtos específicos para evangélicos. Essa visão maniqueísta de “produtos para evangélicos” não tem base escriturística e nem lógica. Por que o evangélico precisa de uma empresa de telefonia? Qual a diferença entre as demais telefônicas? Por acaso haverá uma linha direta para o céu?

Outro fato preocupante é que essa associação com empresários segue a mesma lógica da associação com políticos. Alguns pastores acham que podem garantir votos ou vendas direitas dos membros da denominação. É vergonhoso saber que alguns pastores podem se achar donos do voto e do bolso dos evangélicos.