sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Resenha: “Sob os Céus da Escócia”

Por Gutierres Fernandes Siqueira

“Não podemos limitar Deus onde ele mesmo não se limitou” [Jonathan Edwards] [1].

Seria o fenômeno dos dons espirituais algo restrito à igreja do primeiro século? E o novo despertar dos dons é mera invencionice do cristianismo pentecostal do século XX? É bem verdade que não, mas talvez você fique surpreso ao saber que os carismas, especialmente a profecia, eram parte da normalidade eclesiástica entre os puritanos escoceses do século XVII. Sim, os mesmos responsáveis pelo calvinismo de Westminster, tão predominante em nosso país e igualmente militante do cessacionismo na sua forma radicalizada: o neopuritanismo.

O teólogo Renato da Cunha Sobrinho, graduado pelo Seminário Teológico Presbiteriano José Manoel da Conceição, uma das escolas mais tradicionalistas do presbiterianismo brasileiro, e pastor da Igreja Episcopal do Redentor em Natal (RN), fez um amplo trabalho de pesquisa sobre a posição dos puritanos sobre os dons espirituais. E, surpresa, a linhagem sobre fenômeno como profecia e curas em nada lembra o ceticismo do neopuritanismo, que, em casos extremos, acha a própria oração por cura um sacrilégio (!).

Boa dose do livro é dedicada aos puritanos e a parte final revive os conceitos sobre continuísmo e cessacionismo. Na primeira metade há uma introdução, um tanto prolixa a meu ver, ao puritanismo de Westminster, e logo após Cunha faz uma descrição dos carismas na vida de homens como George Wishart, John Knox, Alexander Peden, etc. Relatos, por exemplo, como de Jonathan Edwards, que testemunhou eventos extraordinários na vida da própria esposa. Edwards, que também, é talvez o principal nome da consciência do carismatismo pós-apostólico e cuja reflexão serve como base para um entendimento mais amplo do papel carismático da Igreja [2].

Os cessacionistas talvez acusem o livro que o mesmo não apresenta muitas evidências autobibliográficas, excetuando poucos casos, mas apenas trechos e comentários dos puritanos de textos bíblicos que mencionam profecias ou outros dons, como a cura divina. Ou ainda comentários gerais sobre como Deus lhos revelou determinada situação. É verdade, mas esses comentários deixam claro que a mentalidade continuísta era mais natural na história teológica do que a mentalidade cessacionista. Embora não se espere declarações elaboradas, é difícil enxergar uma oposição teológica ao milagre dos dons antes do advento do iluminismo. Assim como era difícil imaginar teólogos usando os mesmos argumentos deístas do filósofo escocês David Hume (1711- 1776).

O livro mostra muito bem como a opinião cessacionista de B. B Warfield (1851- 1921) é um ponto fora da curva que assumiu proporções incríveis no século XX. Argumento esse que nasceu como oposição ao sectarismo, mas que foi voltada contra o próprio movimento evangélico. O cessacionismo de Warfield depende nada da Bíblia, que jura solenemente honrar, mas apenas e tão somente de uma leitura histórica. O livro mostra que mesmo esse argumento histórico encontra vácuo.  

Recomendo o livro, especialmente como fonte para pesquisas, pois o trabalho feito pelo Renato Cunha é uma introdução que dá margem para outros esboços de teologia continuísta. Só na bibliografia, por exemplo, eu mesmo já vi preciosidades que serão importantes para reflexões futuras sobre o assunto. O livro é bom especialmente pelo ineditismo do tema em português e, também, por provocar um debate mais acadêmico sobre os dons espirituais, sem a emoção e irracionalidade das mentes “racionais” das redes antissociais.

Título: Sob os Céus da Escócia
Autor: Renato Cunha
Editora: Reflexão
Lançamento: 2015
Site do livro: http://igrejadoredentor.com.br/





[1] EDWARDS, Jonathan. A Verdadeira Obra do Espírito. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 1995. p 14.
[2] Jonathan Edwards seria carismático? Michael J. McClymond e Gerald R. McDermott, dois especialistas em Edwards, discordam que esse tivesse a mesma perspectiva teológica do Movimento Pentecostal, mas que certamente encontraria muitas ideias a afirmar e, também, a criticar desse grupo. Edwards, segundo eles, apresentava uma visão bem analítica sobre o fruto dos fenômenos e, sendo assim, poderia ter reagido positivamente ao crescimento do Movimento Pentecostal. Veja: McCLYMOND, Michael J. e McDERMOTT, Gerald R. The Theology of Jonathan Edwards. 1 ed. New York: Oxford University Press,  2012. p 725.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

“A Teologia da Libertação é uma moda típica de um mundo de ressentidos”, declara Luiz Felipe Pondé

Por Gutierres Fernandes Siqueira

O Blog Teologia Pentecostal teve um breve bate-papo com o filósofo Luiz Felipe Pondé sobre o tema “Teologia da Libertação”. Pondé é um dos mais famosos e polêmicos professores de filosofia do país. Ele fez a graduação na Universidade de São Paulo e o doutorado pela mesma instituição em parceria com a Universidade de Paris. Realizou pós-doutorado da Universidade de Tel Aviv. Além da filosofia, é um amplo conhecedor da teologia cristã e judaica e escreveu obras importantes sobre o filósofo-teólogo francês Blaise Pascal. 

Escreve semanalmente no jornal Folha de S.Paulo desde 2008 e é autor de diversas obras, entre elas, O homem insuficiente: Comentários de Psicologia Pascaliana (2001) e Conhecimento na desgraça: Ensaio da Epistemologia Pascaliana (2004), Crítica e profecia: filosofia da religião em Dostoiévski (2003), Do pensamento no deserto: Ensaio de Filosofia, Teologia e Literatura (2009) e Contra um mundo melhor: Ensaios do Afeto (2010), O Catolicismo Hoje (2011) e Guia Politicamente Incorreto da Filosofia (2012). Entre os mais recentes títulos ele pulicou Os Dez Mandamentos (+ Um) (2015).

Vejamos a breve entrevista sobre a “Teologia da Libertação”. Pondé responde em aforismos, que é a nova marca do seu trabalho de escrita. 

1.      Quando podemos definir uma teologia como a “louca da casa”?

É aquela que fala fala mas ninguém leva a sério porque parte de um repertório confessional, inclusive os teólogos sabem que ela é a louca da casa, por isso só falam de política e ética, e de Deus só se for socialista.

2.      Por que a Teologia da Libertação é popular apenas entre uma pequena elite universitária? Como podemos entender que uma “teologia para os pobres” não tem apelo entre os pobres?

Porque comunistas não entendem nada de pobre assim como feministas não entendem nada de mulher. Pobres querem brilhar, não ficar pobre, ressentido e raivoso.

3.     A Teologia da Libertação é sempre vendida como uma ideia inovadora de teólogos da América Latina. É, em tom romantizado, exaltada como a “teologia feita na perifeira do mundo”. Levando em conta outras teologias europeias de viés iluminista e a própria Teologia do Evangelho Social, de matriz norte-americana, podemos falar em “coisa nova”? Ou seria apenas uma sequência natural dessas outras teologias?

A Teologia da Libertação é uma versão morena das outras, como Cuba e Venezuela são uma versão morena do socialismo. Dizer que é feita na periferia do mundo não me parece apenas romântico, mas marketing.

4.     O Partido dos Trabalhadores (PT) nasceu de uma base sindical e entre intelectuais uspianos e teólogos da Libertação. Alguns temas como coronelismo, messianismo e voto de cabresto eram caros a esses grupos. Especialmente depois da eleição do ex-presidente Lula tal temática saiu dos radares do “profetismo” de esquerda. É apenas conveniência política ou realmente não faz sentido falarmos no Brasil do século XXI em tais temas?

O PT é coronelismo com metafísica. Não há profetismo na esquerda, há populismo. Em 200 anos, Marx estará esquecido.

5.     Entre todos os aspectos, qual seria para você o principal problema da Teologia da Libertação? E qual a virtude dessa corrente?

Sua virtude é o carisma hebraico da crítica social, logo, não precisamos do marxismo pra que ela tivesse essa virtude. A Teologia da Libertação é uma moda típica de um mundo de ressentidos que até os pobres recusam porque são mais sábios, é uma brincadeira de teólogos de universidade e padres de passeata.

sábado, 7 de novembro de 2015

O ebook "Protestantismo Pentecostal" está disponível. Baixe gratuitamente.


Por Gutierres Fernandes Siqueira

Caros amigos do Blog Teologia Pentecostal,

Para comemorar a Semana da Reforma Protestante baixa gratuitamente o e-book Protestantismo Pentecostal: o caráter carismático da Eclésia Reformada.

No formato PDF para ler no seu computador ou celular veja neste link

Você também pode baixar pelo GOOGLE DRIVE neste link.


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sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Os pilares do protestantismo




Por Gutierres Fernandes Siqueira

Quais são os princípios fundamentais do protestantismo? A resposta parece simples, mas a definição é crucial para entendermos a identidade desse ramo da cristandade. É chover no molhado falar que a maior parte dos atuais protestantes não conhecem a base de sua fé e muito menos sua história. No último domingo, por exemplo, antes do sermão do culto noturno eu perguntei para a congregação: “O que comemoramos ontem?” e a resposta de alguns foi: “o Halloween”. Certamente que tal desconhecimento não afeta apenas os meus pares, mas é um mal geral na Igreja Evangélica Brasileira.
Vejamos os cinco fundamentos do protestantismo, pois o dia 31 de outubro não é marcado pelo Halloween ou pelas bruxas, mas pela fé na justiça de Deus.
Somente a Fé. Ao contrário do pensamento moderno, as Escrituras ensinam que o homem é essencialmente mal, e isso qualquer um ancorado na própria realidade pode perceber. Então, como alguém nessa situação de miséria moral e espiritual é declarado inocente diante do Justo Juiz? O protestantismo diz: somente pela fé, ou seja, a justificação vem pela confiança no Cristo Crucificado, naquele que assume toda a nossa culpa e responsabilidade. “O justo viverá pela fé”, disse o profeta hebreu Habacuque ressoado pelo apóstolo Paulo.

Somente a Escritura. A autoridade em matéria de fé do protestante não é a palavra do clérigo, a tradição dos seus avós, a visão do profeta, as resoluções de um concílio, os delírios do vidente, a revelação do carismático, as utopias do revolucionário ou as teorias do cientista social. É tão somente as Sagradas Escrituras, a Palavra do Santo Deus. A Palavra é a autoridade, e não determinada escola de interpretação. O livre exame das Escrituras não significa a livre interpretação ou uma criatividade exegética. Como texto, a Escritura possui uma só mensagem que nos desafia a cada dia.

Somente Cristo. Não há nenhum outro mediador entre Deus e o homem, senão Cristo.  O que liga o homem a Deus não é o sacerdócio do líder religioso, nem a confissão auricular, nem a magia do animista... Todos os homens podem ter o livre acesso a Deus por meio de Jesus Cristo. Todo homem nascido de novo é um sacerdote. O véu do templo já está rasgado!

Somente a Graça. A salvação, entendida como a comunhão eterna com Deus, não é fruto do mérito, do esforço ou das obras humanas. É mérito, esforço e obra apenas e tão somente de Cristo Jesus. A graça é a palavra certa para definir esse novo relacionamento com Deus. É o favor imerecido vindo do Todo Poderoso, o Senhor Soberano que se derrama em misericórdia.

Somente a Deus a Glória. A glória pertence apenas a Ele. Não há líder religioso, político ou militar que mereça as honras que a Deus é devida. Nem os homens virtuosos do passado, nem os virtuosos do presente merecem a exaltação que é dada ao Nome que está acima de todos os nomes.

Sejamos protestantes com fundamento.